Negros, mulatos e a poesia do Brasil aos olhos e ouvidos de um escritor espanhol



Baixar 38.38 Kb.
Encontro01.07.2018
Tamanho38.38 Kb.

Negros, mulatos e a poesia do Brasil aos olhos e ouvidos de um escritor espanhol


(Ou o que um erro gráfico pode fazer por um historiador)
Ivana Stolze Lima1
Palavras chaves: Escravidão, Língua nacional, Brasil Império
Abstract:
The paper explores representations of “black”, “slaves” and “mulatto writers” in Juan Valera’s essay “De la poesia del Brasil”. Two editions of the essay will be compared, and also private letters written in the time the author lived in Rio de Janeiro.
Keywords: Slavery, National Language, Empire of Brazil
Partindo de uma pesquisa sobre a relação de africanos e descendentes com a história social da língua nacional, explorarei os registros sobre “negros”, “escravos” e “escritores mulatos” no ensaio De la poesia del Brasil, do literato espanhol Juan Valera (1824-1905). Publicado na Revista Española de Ambos os Mundos, em 1855, já no ano seguinte o texto foi parcialmente traduzido pela Guanabara, Revista Mensal Artística, Científica e Literária. Examinaremos também a correspondência particular escrita por Valera no período em que viveu no Rio de Janeiro. Como num palimpsesto, diferentes marcas se sobrepõem nesses registros, e é para essas superposições e deslocamentos que a análise empreendida pretende chamar atenção, em dois níveis metodológicos. 1) O conteúdo do texto, que ao evidenciar tensões e complexidades culturais, revelam a importância da experiência perceptiva de Juan Valera no Rio de Janeiro para a sua elaboração sobre a poesia brasileira. 2) As marcas de edição, como notas de rodapé, erros gráficos e os desníveis da tradução, que são pistas que a história pode explorar, sobretudo quando se dedica às formas de comunicação, conflito e interação social entre os diferentes grupos que marcaram o Império do Brasil.

Às vezes o que parece irrevelante, secundário ou simples descuido em um documento pode se tornar um caminho metodológico para o historiador. Em manuscritos ou impressos, falhas, palavras grafadas fora do usual, repetições, insistências, notas de rodapé, anotações marginais podem ser tão significativas para a análise quanto o conteúdo manifesto de um discurso. A pesquisa para essa apresentação foi feita com o intuito de explorar um “erro” gráfico em um artigo publicado na revista Guanabara, e uma nota de rodapé acrescentada pelos editores brasileiros “corrigindo” uma afirmação do autor. Como se tratava de uma tradução, julguei que seria interessante consultar o original em espanhol, tanto para “verificar” a grafia da referida palavra como para explorar algumas interessantes afirmações sobre senhores e escravos, escritores mulatos e nacionalidade brasileira feitas pelo escritor espanhol.

O horizonte geral da minha investigação é a história social da língua nacional no Brasil, ou da língua portuguesa no Brasil, chamando atenção para o aspecto histórico e social das formas de comunicação e hierarquia entre os grupos.

A palavra a que me refiro seria “bunda”, na expressão “língua bunda” (forma outrora comum de se referir ao quimbundo), grafada na tradução brasileira como “língua buda”. E a nota de rodapé focalizada, foi acrescentada pelos editores brasileiros com o intuito de negar ou atenuar a afirmação de Juan Valera de que palavras dos “dialetos africanos” estariam sendo incorporadas no falar corrente dos brasileiros. Antes de entrar nessa discussão, passemos inicialmente a uma visão mais geral sobre o autor e seu ensaio, partindo do original em espanhol.

Juan Valera nasceu na Andaluzia em 1824 e ao iniciar sua carreira diplomática já se dedicava às letras. Viveu no Rio de Janeiro entre 1851 e 1853, em um momento em que suas atividades como escritor estavam começando a tomar forma, tendo ele demonstrado grande interesse pelas atividades literárias então em curso. De volta à Europa, em 1855 publicou o artigo De la Poesia del Brasil, na Revista Española de Ambos Mundos, onde revela intimidade com as linhas mestras da construção da nacionalidade literária brasileira (a ênfase na paisagem, a temática indianista), evidenciada tanto pelas observações que faz acerca da poesia quanto pelas referências explícitas a autores como Ferdinand Denis, Gonçalves de Magalhães, Joaquim Norberto, Pereira da Silva e a antologias como o Florilégio da Poesia Brasileira, compilado por Varnhagen. No entanto, se por um lado vemos claros ecos das questões levantadas em 1836 por Gonçalves de Magalhães — “Pode o Brasil inspirar a imaginação dos Poetas? E os seus indígenas cultivaram a Poesia?”, (Ensaio sobre a história da literatura no Brasil, Niterói, Revista Brasiliense, Paris, 1836), por outro lado observamos que Valera tinha um olhar diferenciado para o fenômeno da poesia, incorporando um grande leque de experiências que teve no Rio de Janeiro nessa percepção, notadamente a escravidão.

Valera abre o texto sugerindo a posição do leitor como a de um viajante que, como ele, a bordo de um navio a vapor, chegaria pela primeira vez à América, avistando “las costas hermosisimas del Brasil”, mas desapontado ao desembarcar e não se deparar ao menos com um “selvagem” (Valera, 1855: 176).

Valera desembarcava na Corte com o cargo de secretário da legação espanhola. Nos dois anos de sua estada, lamentou não ter conhecido mais que os arredores da cidade, e não “as magnificencias que atesora el Brasil en su centro” (181). O Rio é descrito por ele como “agradabilíssima morada”, sede de um “imperio naciente, que se levanta y florece, bajo el cetro de un sábio emperador, y á la sombra de um gobierno libre y bien ordenado” (181). O país porém estaria fora da onda emigratória, com dificuldade de atrair colonos, com sua população escrava diminuindo com o fim do tráfico, e a população de índios, “tribus de indios selvages [que] vagan aun por las soledades”, diminuindo também (181). A imagem traçada elogia o governo representativo, mais “solidamente plantado que em cualquier otro pais, se se exceptua la Inglaterra” e também a “boa administração, o comércio e a riqueza pública” (182), embora seu povo estivesse mais inclinado para a poesia que para o comércio. Vejamos:
El pueblo brasileño maravillosamente dispuesto á admirar todo lo bello y lo sublime; alegre, festivo y apaisonado; amigo de los placeres del espíritu; sensible á la hermosura de aquella rica naturaleza que le rodea, y recibiendo de ella inspiraciones, es un pueblo artista y muy singularmente enamorado de la música y de la poesia, artes en que vence y sobrepuja á todos los otros pueblos americanos. (182)
A essa altura, com uma visão tão elogiosa do país, fica clara a motivação dos editores brasileiros em publicarem o artigo na Guanabara, já no ano seguinte.

Os viajantes tinham uma percepção especial sobre o Brasil, em parte livre dos preconceitos e tabus senhoriais (KARASCH, 2000), mas também porque imbuídos de seu imaginário particular, construído pela própria literatura de viagem (SUSSEKIND, 1990). A percepção de Valera destoa das imagens nacionais contemporâneas, apontando para “todas as raças” que compõem o povo brasileiro, e vendo provas dessa predisposição para a poesia e a música em grupos tão distanciados como os letrados da boa sociedade e os escravos, “Los negros siguem hoy la propia costumbre de cantar constantemente durante el trabajo; y ellos mesmos componen los versos rudos y la música monótona que cantan”. E continua: “Por las calles de Rio-Janeiro no se oyen de contino sino músicas”. Tantos as modinhas y londuns, como as damas que estariam sempre cantando, como ainda os compositores, que teriam tudo para alcançar glória internacional.


La aficion á la poesia no es menos grande entre los brasileños. No hay muchacho que á los quince anos no escriba ya sonetos y letrillas; y no hay nacimiento, ni casamiento, ni defuncion, que no se celebre com media docena de epitalamios, horóscopos, epitalios y nenias, en diferente clase de metros, y por los mas variados estilos. Estas composiciones de circunstancias se publican en los periódicos, como entre nosotros los anuncios, pagando cierta cantidad por publicarlas; y periódicos hay que ganan mucho com tal industria, y que dan á luz cada semana las suficientes coplas para formar um grueso volumen. (183)
Além do interessante desejo de ter os poemas em suporte impresso, Juan Valera comenta a prática de moças possuirem álbuns, onde simpatizantes deitariam versos de admiração. De qualidade duvidosa, é certo, mas ingênuos e cândidos, além de em alguns deles se notar “el castizo y puro del lenguaje que los brasilenos pretendem conservar mejor que los portugueses”. Aliás, Valera dedicara-se ao estudo da língua portuguesa, e serviu em Portugal antes e depois do período no Rio. Quando pensamos na rica polêmica que envolveu escritores brasileiros e portugueses sobre a língua literária, em que os primeiros irão reivindicar seu direito à autonomia da expressão, tendo sido ridicularizados por alguns escritores portugueses, embora outros os tenham apoiado, vemos que Valera traz um matiz novo, de que brasileiros, esses sim seriam herdeiros do vernáculo, por estarem mais dispostos a evitar galicismos nos seus periódicos, livros e discursos parlamentares. Mais tarde o mesmo argumento foi defendido por José de Alencar (ver Lima, 2003). Mais interessante ainda é certa lucidez na formulação que o espanhol deu ao problema:
Mas no por eso los brasilenos han dejado de enriquecer la lengua que llaman nacional, por no llamarla portuguesa, y de ya era riquissima, con infinito número de palabras nuevas, tomadas de los dialectos americanos, y aunque no me atrevo á afirmar que hayan añadido tambien palabras de las lenguas de la costa de Africa, acaso de la lengua buuda y de la lengua del Congo, que son las mas perfectas que hablan los negros, todavia se puede sospechar que algunas palabras habran tomado de ellas (184).
Voltarei já ao comentário sobre as línguas africanas – a “língua buuda” e a língua do Congo e às demais afirmações acima, pois foi exatamente nesse ponto que os editores brasileiros fizeram a intervenção no texto de Valera por meio da nota de rodapé. Por hora, é importante acompanhar a continuidade do texto em espanhol, para perceber as junções que costura com sua narrativa.

Quando consideramos o “antiafricanismo” reinante naquele contexto, a inclusão de Valera dos negros escravos ao tratar do engenho poético e riqueza de linguagem que vê nos brasileiros é notável. Além disso, ele cria uma continuidade entre os escravos e os escritores negros e mulatos. Essa visão por um lado mostra também certo olhar exterior generalizante e preconceituoso, que nos faz lembrar afirmações como a de Seidler, que no Rio, no início do período regencial, desprezava os acontecimentos políticos como mera manifestação de “mulatos”, adjetivo que caberia, para o mercenário de origem germânica, a todos os brasileiros. No caso de Valera há um desdobramento interessante, pois ele levanta o problema da possibilidade de inclusão futura dos escravos à nacionalidade, e comenta sobre a diferença de raças. O parágrafo é grande, mas o efeito virá melhor da visão de conjunto:


Pero donde verdaderamente se admiran, no solo el primor y riqueza del lenguage, sino la fecundidad y agudeza del ingenio de los brasileños, es en la poesia. Ya he dicho que los negros, aunque rudos é ignorantes, componen coplas y las componen en mal portugués, porque olvidan pronto los seudos dialectos que suelen hablar en la costa de Africa. Y como los negros son esclavos la mayor parte, no aprenden á leer ni escribir, y solo oralmente puedem conservar los frutos de su imaginacion; por donde es dificil que haya en el Brasil una gran literatura negra, como ya la hay en Haiti, segun las curiosas noticias que nos ha dado la Revista francesa de ambos mundos; y como la habrá, Dios mediante, si ya no la hay, en la naciente república de Liberia. Pero no hay duda en que, si no los negros, los mulatos son muy notables poetas en en Brasil, y en que los mejores poetas del Brasil son mulatos. Lo que prueba á mi ver que la raza negra es tan buena como la nuestra, salvo la diferencia de color y de civilizacion.
Valera distingue assim “negros” e “mulatos”. Os negros, iletrados, dariam asas a sua imaginação poética por meio de coplas. Os mulatos seriam os poetas. Não exatamente o fato de que escravos não aprenderiam a ler e escrever, mas outros motivos históricos sociais pesaram na inexistência, nessa época, de uma “literatura negra” no Brasil, formulada como tal. A distância que Valera registra em termos de “negros” e “mulatos”, sabemos por inúmeros outros indícios e análises sobre o período que não era uma distinção de cor da pele, mas muito mais a distinção social básica entre livres e escravos e as diferentes gradações que havia no interior do mundo dos livres. Justamente pelo fato de que os escritores negros não se viam necessariamente nessa condição, ou a entendiam de forma diferenciada. – ainda que alguns deles descendentes próximos de escravos ou ex-escravos, às vezes nascidos na África, embora também descendentes sangüíneos ou afins de indivíduos da classe senhorial, ou das classes medianamente abastadas. E nessa percepção o meu argumento é que justamente o compartilhar de um conjunto de códigos, inclusive o linguístico e literário, deu vez a essa relativa possibilidade de ascensão social. Não por acaso, os “mulatos” Paula Brito e Araújo Porto-Alegre atuavam na revista. Não sabemos ao certo qual deles traduziu o artigo, inseriu a nota de rodapé ou cometeu um ato falho na grafia da palavra “buda”. Talvez tenha sido só um deslize tipográfico. Talvez o oficial da tipografia tenha se sentido conscientemente ou inconscientemente compelido a evitar a palavra de baixo calão em tão nobre periódico.

Nessa altura do ensaio o próprio Valera é quem insere uma nota de rodapé, após falar das coplas em mal português. Ele faz uma bem crua descrição da capoeira, sinal da barbárie dos negros do Brasil, que dariam violentos golpes com a cabeça no peito ou nas costas do inimigo, fatais às vezes. “Lo qual no solo es naturalisimo entre ellos, por lo dura y pedernalina que tienen la cabeza, sino que está asimismo reducido á reglas de arte, como entre nosotros la esgrima, y hay academias y maestros de topar, como entre nosotros de esgrimir la espada” (184).

Antes de passar ao comentário da tradução brasileira, vejamos a correspondência de Valera dirigida a Estabanez Calderón. Curiosíssimas (e deveras picantes) impressões do Rio são contadas ao amigo espanhol nessas cartas. Aliás a correspondência de Valera já mereceu diferentes compilações, e parece que algumas cartas eram tão curiosas e burlescas que teriam sido publicadas à revelia do autor (Bocinos, 130). Ao cotejar os textos, vemos como o registro privado – manuscrito – e o público – impresso – carregam valores e sentimentos muito diferentes. Mas também encontramos tantas coincidências na abordagem de certos temas que podemos supor que Valera tinha cópias dessas cartas ao elaborar o ensaio, ou notas que usou para ambos os escritos. Acredito que trabalhar nessas diferenças e coincidências é mais produtivo que apenas “revelar” o que ele escreveu no domínio íntimo como mais verdadeiro. Infelizmente não há espaço aqui para explorar comentários sobre os escravos no Rio. Iremos apenas destacar algumas passagens.

Desde o início, e por várias vezes, Valera claramente manifesta não gostar da sua experiência na cidade. Apesar da natureza exuberante, reclama do clima, das doenças que o assediam, da falta de trato e civilidade, da solidão, além da falta de dinheiro que não permite que ele viaje por outras partes do Brasil e da América, como gostaria. Valera residiu com o embaixador espanhol, José Delavat, e iria viver e recontar situações envolvendo escravos que nos levam a pensar no que ele escreveria mais tarde no seu ensaio sobre a poesia. O seu chefe passaria os dias a brigar com os negros, ameaçando-os com a casa de correção, ao que eles responderiam quase sempre rindo pois sabiam que a ameaça não ia ser cumprida, sendo todos “sucíssimos, borrachos, perezosos, y torpes” O único que se salvaria seria o “Cupido”, assim apelidado por que “aunque abominablemente feo, es enamoradíssimo”.

Sem sorte com as damas no Rio, faz disso mais um tema de reclamações. “Me consuelo, pues, con lo que hallo para el consumo público, que no es cosa buena, ni segura; negras y mulatas sobre todo”. Diferente da Bahia, onde “la raza de esclavos es hermosíssima e inteligente: aquí, por el contrario, estúpida y deforme.” A visão sobre os negros é bastante negativa na correspondência, onde ele também narra revoltas ocorridas no Maranhão e Pernambuco.
Presenciando as repreensões diárias que D. José fazia a seus escravos, Valera diz que estes “le oyen como quien oye llover, y cada quisque hace lo que le da gana”. O único que não seria repreendido seria o “hijo de Rei”, temido por D. José, “porque es tal el orgullo del ilustre negro que (según Dn José mismo refiere) se le alborota la sangre y los humores cuando le riñen y si bien no responde palabra, echa de sim um hedor espantoso para manifestar, sin duda, su indignación” (173-174).

Um dos trechos que remetem claramente à sua concepção de poesia brasileira, aparece quando relata sobre um escravo apelidado de “bardo”:


El cochero es un mulato muy truhan, paseante y, enamorado, y toca con tal primor la gitarra, y canta com tanta alma las modinhas y londuns (canciones populares brasileñas) que S. E. dice y afirma seriamente que es un bardo, y que con su cítara trae embobados a cuantos tienen la dicha de oirle. Todas las mozas del barrio, negras y pardas, andan locas por él”... (193)
Esse mesmo bardo, tendo numa ocasião desaparecido por três dias, foi protagonista de uma cena muito bem descrita por Valera, de companheiros escravos implorando para serem acoitados pelo embaixador. Mais tarde “El bardo, que es peor que los negros, pues es mulato” aprontou de novo, dessa vez com obscenidades junto às negras na cozinha, só que testemunhadas pela sinhazinha; D. José mandou castigar o escravo (o que aliás foi feito na própria residência); dizendo “quisiera yo ver aquí a Mr. Stowe y preguntarle que haría en tales circunstancias!”. Era uma irônica referência ao popular romance norte-americano Cabana do Pai Tomás, de 1851, (Piñeiro, 1995:95). D. José diria ainda que o que o fazia assim tolerante eram os seus cantares.

Nas andanças pelo Rio, Valera se dedicava também a atender a um pedido do seu correspondente espanhol, de adquirir livros raros. Gramáticas, dicionários e estudos filológicos estariam entre seus alvos: “Libros antiguos no se hallan en parte alguna, y el otro día recorrí con Bryan las librerias todas, y no hallamos gramáticas ni diccionarios salvages, sino muchos salvages que hablan sin diccionario y sin gramática” (174 ). Varnhagen, então em Madri, é citado como um possível intermediário nesse intercâmbio de livros e cartas.

Além disso, demonstra proximidade com a vida intelectual. Ele visita a Biblioteca Nacional, “es rica, la mas rica acaso de toda América, pero está tan mal arreglada que no es possible ver lo que hay en ella” (179) e também dá notícias sobre a revista do Instituto Histórico, que teria alguns estudos filológicos, mas segundo ele ainda pobres “pues la ciencia filologica es muy moderna, y su verdadeiro fundador Hervás, nuestro célebre compatriota”; menções à revista Guanabara também aparecem, e bem como ao jornal o Filantropo, órgão da Sociedade Contra o Tráfico e Promotora da Colonização, e Civilização dos Indígenas, (177) compartilhando aliás claramente as concepções sobre população, colonização e mão de obra desenvolvidas pela organização (ver Lima, 2003, cap.2)

Em setembro de 1853, já com a ansiada volta à Europa acertada, escreve a Calderón contando dos livros que dessa vez serão levados pessoalmente. Essa era a última carta, onde finalmente encontrei uma possível referência para sua menção à “língua bunda”: “Ya tengo comprados una Gramática brasílica, otra bunda, un diccionario latino-bundo-lusitano, muy copioso, las memorias historicas de Rio-Janeiro, y otras obras (...) (225).

Tratava-se certamente das obras de Cannecatim, Dicionário da língua bunda, ou angolense, explicada na portuguesa e latina, (Lisboa, 1804), e Observações gramaticais sobre a língua bunda (Lisboa, 1805).

No Brasil, a palavra “bunda” já tinha o sentido atual corrente, e fora lexicografada pela obra de Rubim, o Vocabulário Brasileiro para servir de complemento aos dicionários da língua portuguesa, aliás também publicado pela tipografia de Paula Brito, em 1853: “Bunda: nádegas, traseiro” (Rubim, 1853:12). Eu não me arriscarei a uma etimologia desse uso. No caso da “língua bunda”, a expressão vinha do aportuguesamento da palavra mbundo, como eram chamados os povos da região de Luanda. Nos termos de Cannecatin, seria a “língua do reino dos Abundos” (Cannecatim: 5).

Na edição espanhola do texto de Valera, a palavra está grafada buuda, com um segundo u no lugar da letra n. Curiosamente, em muitos outros trechos há uma confusão entre u e n, talvez devido a uma característica da escrita de Valera que os tipógrafos não conseguiram traduzir, por se tratar de nomes desconhecidos ou palavras em Português. Assim, Varhuagen aparece e não Vanhagen, bem como Castelnan, e não Castelnau.

No caso da tradução brasileira, pode ter acontecido um simples deslize, ou uma vontade talvez inconsciente de atenuar uma palavra de baixo calão. Como acontecia às vezes aliás em antologias poéticas que traziam poemas populares, muitas vezes reticências substituíam certos termos obscenos, ou palavras eram suprimidas (Valença, 1983).

Na edição brasileira, a frase truncou um sentido importante em Valera. Ele se referia a duas línguas – a língua “bunda”, ou quimbundo, e a língua da costa do Congo, quicongo. No texto brasileiro elas viraram uma só: “a língua buda da costa do Congo, que é uma das mais perfeitas que falam os negros” (197).

A nota de rodapé é também significativa da distância que os letrados brasileiros quiseram construir em relação ao ilustre autor, afirmando: “Parece-nos sumamente injusto o que diz o ilustre viajante; porque se algumas palavras dos dialetos africanos se acham introduzidas entre nós, não são elas jamais empregadas por pessoas instruídas e bem educadas.” (Valera, 1855 e 1856: 198)

A expressão “escritores mulatos”, foi traduzida como “escritores pardos” no texto brasileiro. Mais uma vez, certo desejo de austeridade pode ter pesado, podem os editores terem julgado que a palavra mulato seria pejorativa, e que preferissem o termo mais neutro, oficial, de pardo. Não podemos deixar de lembrar que tanto um dos editores, Araújo Porto-Alegre, um dos poetas altamente elogiados por Valera, como ainda Paula Brito, um dos mais importantes tipógrafos do Brasil Imperial, tendo tido atuação fundamental na vida literária carioca, eram todos “mulatos”...

Como uma breve conclusão, considero metodologicamente importante nos demorarmos nesses pequenos deslocamentos, deslizes, tensões, pois eles nos revelam um importante ganho teórico no entendimento da dinâmica das relações sociais e culturais no Brasil escravista.

Referências Bibliográficas
BENVENUTI, Carlos S. T. Juan Valera – Serafín Estébanez Calderón. 1850-1858. Crónica histórica y vital de Lisboa, Brasil, París y Dresde. Madrid, Editorial Moneda Y Credito, 1971.

BOCINOS, Elena C. Juan Valera: Diplomático. [Tese de doutorado]. Facultad de Geografía Historia. Universidad Complutense de Madrid, 2009

CARVALHO, Maria Alice Rezende de. Intelectuales negros en el Brasil del siglo XIX." In Altamirano, Carlos (org) Historia de los Intelectuales en America Latina. Buenos Aires/Madrid: Katz Editores, 2008.

CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1994.

KARASCH, Mary. Vida dos escravos no Rio de Janeiro. 1808-1850. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas - sentidos de mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

——— Língua nacional, histórias de um velho surrão. In História Social da Língua Nacional, In LIMA, Ivana Stolze e CARMO, Laura do (org). Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2008.

VALERA, Juan. De la poesia del Brasil. Revista Española de Ambos Mundos. Madrid, Estabelecimento Tipografico de Mellado, Tomo III, 1855.

VALERA, Juan. A poesia brasileira. Guanabara. Revista Mensal Artística, Científica e Literária. Rio de Janeiro, Tip. Dois de Dezembro de Paula Brito, Tomo III, 1855 e 1856.

SUSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

SUSSEKIND, F. e VALENÇA, Raquel. O sapateiro Silva. Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 1983.

TREECE, David. Victims, Allies, Rebels: Towards a New History of Nineteenth-Century Indianism in Brazil. Portuguese Studies 1 (1985-6).



1 Fundação Casa de Rui Barbosa e PUC-Rio. Doutora em História. Bolsista de Produtividade CNPq. O trabalho contou com recursos da Faperj (Edital Humanidades 2008)



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal