Neusa maria kuhn



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NEUSA MARIA KUHN

TRAJETÓRIA ARTÍSTICA DE JOÃO BACHILLI:

do Colégio Pedro Osório ao Grupo Tholl

Trabalho acadêmico apresentado ao Curso de Teatro da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título de Licenciada em Teatro.

Orientador: Prof. Dr. Adriano Moraes de Oliveira

Pelotas, 2012

Folha de Aprovação


Autor: Neusa Maria Kuhn

Título: Trajetória artística de João Bachilli: do Colégio Pedro Osório ao Grupo Tholl


Conceito:______________


Banca Examinadora


Prof. Dr Adriano Moraes

Assinatura:______________________________


Profª. Ms. Rose Adriana Miranda (memória)
Assinatura:______________________________
Profª.Drnda. Andrisa Kemmel Zanella
Assinatura_______________________________

Data da aprovação:________________________



AGRADECIMENTOS

A Deus, em primeiro lugar.

Aos que, como eu, se afligiram pelo trabalho.

Ao João Bachilli, meu sujeito de estudo, pela disponibilidade e paciência, a quem peço desculpas se o trabalho não foi tão brilhante quanto sua trajetória.

Aos que me concederam as entrevistas, tão significativas para o meu trabalho.

Ao prof. Adriano, que me convenceu a voltar e concluir meu trabalho quando já havia desistido.

Aos professores que foram mestres e aos que me mostraram exemplos que não devem ser seguidos.

Aos amigos que compreenderam o “não” quando a vontade era “sim”.

A minha mãe, que ficava na solidão esperando eu voltar.

À família, por entender a ausência e torcer para tudo dar certo.

Aos colegas que concluíram o curso um semestre antes, em especial a Joice Lima e a Valeria Fabres, solidarias com o meu constrangimento e dor, optaram por formatura de gabinete.

A Ana Alice Muller que, junto comigo, teve levado o sonho da formatura com a turma e enfrentou o desgosto e a humilhação de uma acusação de plágio.

A todos que de uma forma ou de outra se empenharam em me ajudar.

Em especial aos que entraram de ”gaiatos” e vararam as noites comigo.

A meus cachorros que cooperaram não latindo nessa fase tão atarefada, dos quais não posso esquecer.

Aos que, no sufoco deste trabalho, esqueci de citar.



Nada do que fazemos representa um esforço de alegria e para justificarmos os nossos atos não invocamos o prazer que tivemos, mas sim o suor que nos custou.
Bertholt Brecht


RESUMO
KUHN, Neusa Maria. Trajetória artística de João Bachilli: do Colégio Pedro Osório ao Grupo Tholl. Curso de Teatro – Licenciatura. Pelotas: UFPel, 2012. (Trabalho de Conclusão de Curso)
O presente estudo investigou a história de vida de João Bachilli, mentor e atual diretor do Grupo Tholl. Motivada por comentários de colegas da faculdade de Teatro Licenciatura da UFPel, que haviam dividido o palco com ele ou assistido montagens em que Bachilli havia participado, desde os anos 1980, a pesquisa foi realizada de forma qualitativa, objetivando narrar a trajetória artística de Bachilli, por meio da análise do acervo pessoal, materiais disponíveis na internet, entrevistas com o sujeito de pesquisa e com pessoas que integraram suas montagens ou, ainda, que trabalharam com ele. O foco da presente pesquisa foi sempre a narrativa da trajetória do atual diretor do Grupo Tholl, trajetória essa que confere a esse sujeito um importante lugar na história da produção artística da cidade de Pelotas. O objetivo principal foi buscar evidências de que o caminho percorrido por Bachilli, desde suas primeiras experiências com danças tradicionalistas, ainda no Ensino Fundamental, logo os rigorosos treinamentos durante os anos em que praticou ginástica olímpica e, mais adiante, os trabalhos que realizou como figurinista e maquiador tiveram fundamental influência na concretização do que viria a se tornar o THOLL.

Palavras-chave: João Bachilli; Grupo Tholl; Novo circo.

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...............................................................................................07

TRAJETÓRIA ARTÍSTICA

O estímulo familiar.....................................................................................09

A invernada artística no Colégio Pedro Osório..........................................10

A trajetória no Colégio Municipal Pelotense..............................................11

Ginástica Olímpica e Teatro no Pelotense................................................12

Companhia Tragicômica............................................................................13

Influências: Joca D’Ávila e Sobreiro..........................................................13

A efervescência dos festivais....................................................................15

Teatro Escola de Pelotas (TEP)................................................................16

Carnavalesco/figurinista............................................................................19

OPTC – Oficina Permanente de Técnicas Circenses...............................20

Grupo THOLL...........................................................................................21

CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................26

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS...............................................................28

ANEXOS......................................................................................................29-33

ANEXOS ll

INTRODUÇÃO

O presente trabalho de conclusão de curso pretende relatar, através da pesquisa de história de vida de João Bachilli, a trajetória de um artista de importância reconhecida no cenário artístico e cultural de Pelotas – RS, um dos nomes mais conhecidos, na cidade, no início do século XXI, por ser o mentor de um grupo que, pela qualidade de seu trabalho, se popularizou em boa parte do País, o Grupo THOLL. O estudo deve evidenciar que o percurso traçado por Bachilli, desde suas primeiras experiências com arte, os rigorosos treinamentos com ginástica olímpica e até mesmo seu brilhante talento como figurinista e maquiador foram preponderantes para tornar o THOLL o que é, ainda hoje.

Confesso que, até dar início a este trabalho, eu pouco sabia sobre Bachilli. Tive despertado meu interesse sobre ele a partir de relatos feitos por colegas do curso de Teatro, na UFPel, como Ana Alice Müller, Flávio Dornelles e Joice Lima, que haviam dividido o palco com ele, ainda na década de 1980, ou o assistiram em diversas peças. Quando comecei a fazer minhas primeiras pesquisas sobre sua vida e trajetória artística, me surpreendi com a quantidade de trabalhos reconhecidos e premiados em que atuou. Logo percebi o quanto Bachilli era merecedor deste trabalho. Até então, eu, assim como grande parte da plateia dos espetáculos do grupo, só o conhecia como fundador do THOLL. A ideia de vir a conhecer com mais profundidade as dificuldades enfrentadas por alguém “tão famoso”, antes de que tivesse alcançado esta posição despertou meu interesse em fazer esta pesquisa. Ou seja, quem foi João antes de ser “Bachilli, o diretor do THOLL”?

Este trabalho tem por base material pesquisado em jornais, livros e no site do Grupo THOLL mas, sobretudo, duas entrevistas orais, que realizei com Bachilli em setembro e novembro de 2011, duas incríveis oportunidades em que pude ouvir, dele próprio, relatos de passagens de sua vida e comentários sobre pessoas que ele considera terem exercido forte influência em seu trabalho, como Joca D’Ávila e Valter Sobreiro Junior. Bachilli me recebeu ali mesmo, na sede do grupo THOLL, durante os treinamentos acirrados dos atletas-artistas. Se com eles era exigente, rigoroso, metódico, comigo, por outro lado, mostrou-se disponível, generoso, paciencioso. Eu o agradeço sinceramente por isso.

Proponho-me a apresentar, neste estudo, algumas reflexões sobre o artista e o seu fazer teatral em Pelotas, os principais momentos de sua trajetória e as dificuldades encontradas por ele – várias delas compartilhadas por outros artistas locais.

A fim de facilitar a compreensão ao leitor que desconheça a trajetória do meu sujeito de pesquisa e, por conseguinte, realizar com êxito esse empreendimento, optei por organizar as informações obtidas em etapas, até certo ponto cronológicas – aquelas que me pareceram que foram de grande influência e preponderantes, no decorrer de sua vida, até culminar no Grupo THOLL. Assim, começo com “O estímulo familiar”, abordo sua participação em “A invernada artística no Colégio Pedro Osório” e logo “A trajetória no Colégio Municipal Pelotense”, com detalhes sobre “Ginástica Olímpica e Teatro no Pelotense”; a seguir comento seus trabalhos enquanto integrante da “Companhia Tragicômica” e do “Teatro Escola de Pelotas (TEP)”. Abordo também duas facetas de Bachilli que, certamente, acabaram por contribuir no sucesso futuro dele: “Carnavalesco/figurinista”, até chegar ao seu trabalho mais recente, com a “OPTC – Oficina Permanente de Técnicas Circenses” que, anos depois, adotou o nome de “Grupo THOLL” – devido ao espetáculo que ficou conhecido em todo o Brasil, “THOLL, Imagem e Sonho” -, ápice de sua carreira, que se estende até hoje.

Para investigar a trajetória artística de uma pessoa é necessário posicionar-se historicamente. Esse olhar histórico sobre a trajetória de Bachilli pode contribuir, ainda que de forma singela, para o registro da história do teatro pelotense, ainda bastante desfalcada. Desta forma, a investigação sobre Bachilli pode ser relevante para dar a conhecer, de forma panorâmica, um pouco sobre sua trajetória artística.

O ESTÍMULO FAMILIAR

João Luís Rocha Bachilli nasceu no dia cinco de outubro de 1963, na cidade de Pelotas. Filho de Cesar Gonçalves Bachilli e Eloiza Rocha Bachilli, tendo como irmãs Maria Christina e Tânia. Essa informação é importante porque João Bachilli foi amparado e apoiado, em sua trajetória artística, por sua família. Nas entrevistas, Bachilli enfatizou, em mais de uma ocasião, que seu pai sempre o incentivou a fazer aquilo que realmente gostava. Bachilli recorda que “seu” Cesar costumava dizer: “Faz o que tu gosta, porque tu tens um pai e uma mãe que, bem ou mal, fazem tudo o que vocês querem”. Não tivesse recebido este apoio, incondicional, talvez – aqui me permito especular - tivesse enveredado por outros caminhos, “mais seguros”, e o THOLL nunca tivesse existido.

Quando Bachilli nasceu, a cidade de Pelotas vivia uma intensa programação artística: um dia antes do seu nascimento foi encenada no Theatro Sete de Abril a peça teatral “O infeliz Jovem Rei”, de Valter Sobreiro Junior. No dia mesmo de seu nascimento, o grupo Teatral do SESC de Porto Alegre apresentou a peça “A Pequena Lua de Prata”, de Baar Stevens, e “O médico e a morte”, de Helton e Jeno. E, no dia seguinte, o mesmo grupo se apresentou com a peça “A camisola do anjo”, de Pedro Bloch1. Essas indicações servem para mostrar que, em 1963, a cidade era muito voltada à área cultural. Para se ter uma idéia, se hoje (2012) a cidade de Pelotas conta com apenas um cinema com três salas, naquela época possuía nove cinemas: Pelotense, América, Tabajara, Capitólio, Fragata, Guarany, Esmeralda, São Rafael e Apólo. Além de cinemas, já funcionava também, e em plena atividade, o Conservatório de Música.

No que se refere, especificamente, à produção teatral da cidade, de acordo com SILVA (2006), estavam em atividades os seguintes teatros e grupos teatrais:



TUP
Teatro Universitário de Pelotas
Teatro da UPES
União Pelotense de Estudantes Secundaristas
Experimental de Teatro
Teatro-Estúdio
Odontoarte
José Luiz da Nova Cruz (UFPel)
Teatro dos Gatos Pelados
Colégio Pelotense
Teatro da Medicina Leiga
José Luiz da Nova Cruz
Teatro da Agronomia
Companhia Hipocryta - CAVG
José Luiz da Nova Cruz

(SILVA, 2006, p. 147)


Em sua primeira entrevista concedida a mim2, Bachilli diz que em suas brincadeiras preferidas, em suas memórias de infância, sempre “tinha que existir personagens”. Também nesse encontro, afirmou que a arte circense foi, desde cedo, uma de suas paixões, ainda que a princípio apenas como espectador. Algum tempo depois é que teve despertada sua imaginação para as brincadeiras de circo - sem m suspeitar, porém, que um dia suas brincadeiras acabariam por se transformar em seu futuro profissional.

O conjunto de brincadeiras que realizava com amigos e amigas, segundo Bachilli3,

(...) era muito saudável. Os vizinhos colocavam as cadeiras nas calçadas para tomar chimarrão, conversar e observar seus filhos brincando. A vida era mais tranquila, não existia tanta violência. Hoje raramente encontramos pessoas sentadas na rua, à noite, pois o medo toma conta das cidades e nenhum pai se sente seguro deixando seus filhos brincando até tarde nas ruas (informação verbal concedida em entrevista).

Desse modo - brincando -, Bachilli seguiu até atingir a maturidade, com as artes fazendo sempre parte de sua vida.


A INVERNADA ARTÍSTICA NO COLÉGIO PEDRO OSÓRIO
Quando Bachilli atingiu a idade escolar, por volta de 1970, foi estudar no Colégio Pedro Osório que, na época, era particular. Nesta escola, a única modalidade permitida pela diretora era a invernada artística, com danças tradicionais gaúchas - coisa que ele detestava, mas, como era a única maneira de dar vazão a sua necessidade de expressão artística, acabou por ingressar no grupo. Ali, Bachilli aprendia as coreografias, ensaiava e se apresentava ao público. Já nesta época, ele confidenciou em entrevista, Bachilli alimentava o sonho de, um dia, estudar no Colégio Municipal Pelotense – então, só era possível a partir da sexta série. Parece que, apesar da pouca idade, ele intuía que naquele educandário encontraria espaço para desenvolver suas potencialidades e extravasar seus talentos artísticos. Como, de fato, aconteceu. Ele só precisou esperar alguns anos...

A TRAJETÓRIA NO COLEGIO MUNICIPAL PELOTENSE
O sonho foi realizado em 1977:



Figura 1 – Ficha estudantil da 6ª série

Fonte: Secretaria do Colégio Pelotense

A experiência no Colégio Municipal Pelotense foi muito além do currículo escolar. Se dependesse dele, “ficaria vinte e quatro horas dentro do Colégio, pois tudo o que gostava tinha lá dentro”. Assim, com vontade de fazer coisas e tendo um espírito nato para a liderança, Bachilli passou a se envolver em todas as instâncias e foi presidente de quatro entidades: Sociedade de Astronomia; Interact Club; Associação de Correspondências; e Grêmio Estudantil. Em 1987, Bachilli foi o aluno destaque com suas notas, tendo sido homenageado com um livro de bronze, colocado num dos pilares do saguão de entrada - existente até hoje.



Figura 2 – Ficha estudantil

Fonte: Secretaria do Colégio Pelotense



GINÁSTICA OLÍMPICA E TEATRO NO PELOTENSE
Foi no Colégio Municipal Pelotense, que Bachilli teve o primeiro contato com a ginástica olímpica. Metódico e com tendências perfeccionistas, aprendeu as técnicas dos saltos mortais e treinava incansavelmente, até conseguir executar os movimentos com precisão e bem acabados – tanto a técnica aprendida quanto este rigor e alto grau de exigência seriam preponderantes também, para seu trabalho futuro com o Grupo Tholl.

Também foi no Pelotense que, além de se formar no ensino básico, ele teve o primeiro contato com as artes cênicas e com a dramaturgia: escreveu seu primeiro texto teatral, que contava a história de Mili, uma menina que estava conhecendo os animais. Infelizmente, segundo o próprio Bachilli, não existe qualquer registro deste trabalho. Nesta escola, nos finais de ano, era montada uma peça de teatro para apresentação em alguma creche - aproveitava-se a ocasião para obter brinquedos, que eram doados a crianças carentes. Ali, Bachilli ingressou no Grupo de Teatro dos Gatos Pelados, participando como ator em:



  • “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos (1984).

Esta primeira experiência, bem sucedida, foi um estímulo para que ele continuasse a investir em teatro e, mais tarde, integrasse vários outros grupos teatrais.

COMPANHIA TRAGICÔMICA
De 1985 a 1988, Bachilli participou de sete montagens pela Companhia Tragicômica, trabalhando como ator em:

  • “Os Saltimbancos”, de Chico Buarque de Holanda (1985);

  • “O Quebra-Nozes”, ballet de Cristiane Vieira (1985);

  • “Cara, a morte bate à porta”, de Woody Allen (1986);

  • “Bukowsky”, com base em textos de Charles Bukowsky (1987);

  • “Erreadeió”, colagem de textos (1987);

  • “Raios, Relâmpagos e Trovões”, colagem de textos (1987);

  • “No ar, um besteirol”, colagem de textos (1988).

Sobre o tempo em que integrou a Companhia Tragicômica, Bachilli comenta que “tinha uma gente muito maluca... As pessoas sempre estavam ‘atacadas’ com alguma coisa, mas todo mundo se adorava e se dava bem”. Ele recorda este como sendo um período muito bom, de muitas festas. “Pode parecer um passado distante, mas não tinha a violência dos dias de hoje e, se for analisar, não faz tanto tempo assim. Se precisasse sair meia-noite para ensaiar, todos saíam para se encontrar”, recorda.

INFLUÊNCIAS: JOCA D’ÁVILA E SOBREIRO
Ao longo do tempo, muitas foram às pessoas que passaram pela vida de Bachilli. Algumas, efetivamente, só passaram. Outras, contudo, foram tão marcantes que se perpetuaram nas lembranças. Outras, ainda, tiveram o privilégio de ficar não só na lembrança, mas também no coração e na gratidão de Bachilli, como é o caso de Valter Sobreiro Junior, que o dirigiu em onze montagens teatrais, de Joca D’Ávila, que também o dirigiu em muitos trabalhos, e ainda Gê Fonseca, Ana Alice Müller, João Carlos Schmidt, entre outros, os quais já não tem um contato tão frequente, mas sempre que se encontram renovam os laços de carinho e amizade. Profissionalmente falando, Bachilli destaca as influências que recebeu de Joca D’Ávila e de Sobreiro.

Para Bachilli, Jorge Renato de Ávila (Joca D’Ávila) foi um dos melhores presentes que recebeu na vida. Valter Sobreiro Junior, com quem trabalharia em outros onze espetáculos, “foi tudo o que aconteceu sem ser pensado, foi a pessoa que me preparou para caminhar com as próprias pernas”, diz Bachilli, salientando que sempre houve muita naturalidade entre eles, “a gente se odiava e logo já se abraçava” (palavras de Bachilli, na entrevista).

Bachilli conheceu Joca D’Ávila nos anos 1980, nos áureos anos de Festival de Teatro de Pelotas. Uniram-se para preparar uma peça para o primeiro festival de teatro, que se chamava: “Cara, a morte bate à porta”, texto de Woody Allen, que foi por eles foi adaptado. Bachilli orientou na composição do papel interpretado pelo Joca, “Clarissa peituda”, pelo qual ele acabaria por receber um prêmio de melhor ator. Na mesma época, fizeram Teatro do Absurdo com um texto de Jean Tardieu, “Um gesto por outro”. O detalhe nisto tudo é que as duas primeiras peças que fizeram juntos eram do tipo “comédia rasgada”, e Bachilli, um comediante nato, colocava nos espetáculos uma coreografia bem elaborada e sempre assinava os figurinos. Depois criaram o grupo Theatro Avenida - o nome foi uma imposição da dona do Theatro Avenida, a portuguesa Maria Eduarda, que queria atores para montar o espetáculo infantil “Os Saltimbancos”, de Chico Buarque de Holanda, mas para realizar o projeto o grupo “tinha que ter o nome do seu teatro”. Nesta peça Bachilli, trabalhou como ator e também assinou os figurinos, criativos e excêntricos.


Figura 3 – Ensaio da peça “os Saltimbancos”

Fonte: Memorial Theatro Sete de Abril


A montagem de “Os Saltimbancos” contou no elenco com Joca D’Ávila, Maria Eduarda, Ana Alice Müller, Liliane Duarte, João Alberto Oliveira, João Bachilli, Ricardo, Carmem Vera e Gê Fonseca. A peça foi um fracasso, “graças aos delírios da proprietária do teatro e produtora da peça”, comentou Bachilli. Depois disso, o grupo voltou a se chamar Cia. Tragicômica.

Bachilli diz que os espetáculos em que trabalhou com o Joca eram sempre “uma loucura”. “O Joca fazia as pessoas de instrumentos e todo mundo gostava de ser instrumento para ele, pois todos eram tão loucos quanto o próprio Joca”, conta. Ensaiavam na casa de integrantes do grupo e, às vezes, nos teatros que emprestavam o palco para os ensaios. Participaram de festivais estaduais de teatro e ganharam diversos prêmios. Já quase nos anos 1990, Joca criou um espetáculo na linha da comédia do absurdo, que se chamava: “Raios, relâmpagos, trovões”, o qual teria sido o ápice, em termos de parceira entre ambos. Esta peça venceu nove dos principais prêmios de festivais gaúchos, da época. A partir daí, passaram a trabalhar separados.



A EFERVESCÊNCIA DOS FESTIVAIS
A década de oitenta do século passado teria sido, segundo Bachilli, o auge dos grupos teatrais pelotenses. Recorda a existência de aproximadamente vinte e dois grupos atuantes e produtivos – embora não consiga lembrar o nome de todos. Os anos 1980 foram marcados pelos Festivais de Teatro de Pelotas, com edições anuais que traziam grupos de diversos estados brasileiros e eram excelente oportunidade de divulgação dos trabalhos locais – muitos ganhavam visibilidade e recebiam convites para participar de outros festivais nacionais e até internacionais. Entre os grupos pelotenses mais expressivos e politizados deste período de “efervescência teatral”, em que Bachilli começou a se desenvolver como artista de teatro, estavam: o Desilab, de Valter Sobreiro Junior (da então ETFPel, hoje IFSul); o Nós na Garganta; o Cuidado, a Casa Tá Caindo, o Cabe na Sacola e o grupo “20 prás 8 lá no Maúa”. Com exceção do primeiro grupo, o Desilab, os demais eram considerados “meio à margem, meio odiados”, recorda, justamente por escolherem textos polêmicos e com um cunho social. “Já que estávamos em um fim de ditadura, era a maneira dos grupos se manifestarem enquanto cidadãos”, pondera. Bachilli ainda integrou o grupo Teatro Frio, juntamente com o Joca D’Ávila, Giorgio Ronna, Carmem Biasoli, Gê Fonseca, Carmem Vera, Ana Alice Müller, Elisa Mara, dentre outros.

Também nesta década surgiu a ASA Teatro, a Associação dos Artistas Amadores de Pelotas, criada pelo movimento artístico pelotense com a finalidade de representar os interesses dos artistas e técnicos de espetáculos da cidade e defender seus direitos, para que recebessem o mesmo tratamento e pudessem dispor da mesma estrutura que os grupos que vinham de outras cidades e estados dispunham. Apesar de ter tido força e ter deixado seu rastro na história do teatro pelotense, sua vida foi curta: durou o período de efervescência destes festivais e dissolveu-se tão logo os festivais cessaram.



TEATRO ESCOLA DE PELOTAS (TEP)
No TEP (1988/1998), trabalhou como ator em:

  • “Maragato” (Valter Sobreiro Jr.) (1988);

  • “O Circo de Bonecos” (1991 e 1996);

  • “O Castelo das Sete Torres” (1996);

  • “A Viagem de um Barquinho de Papel” (1997)

  • “Pluft, o Fantasminha” (1998);

  • “Talismã” (1998);

  • “Casinha de Chocolate” (Valter Sobreiro Jr.) (1993);

  • “Diálogos das Carmelitas” (1994);

  • “Vampiração” (colagem de textos) (1995);

  • “A longa ceia de Natal” (Criação coletiva inspirada na peça “Long Christmas Dinner” de Thornton Wilder) (1996);

  • “Don Leandro ou Os Sendeiros do Sangue” (Valter Sobreiro Jr.) (1999).

Um de seus grandes sucesso foi, sob a direção de Valter Sobreiro Jr., Maragato, que abriu a Semana de Pelotas, em 1989, no Theatro Sete de Abril. O espetáculo tinha como pano de fundo de ação a Revolução Federalista de 1893, com proposta de tratamento melodramático, sem cunho histórico. Segundo edição do Diário Popular, de 8 de julho de 1989, as manchetes destacavam o grupo Desilab, em apresentação em Santana do Livramento, com o sucesso de Maragato – em que Bachilli atuava.

Em 09 de julho de 1989, O Diário Popular tinha a seguinte reportagem, sem citar o comentarista, intitulada “Maragato: Sentimento e visualidade”:


É um espetáculo que reúne com bom equilíbrio conto e diálogo falado, buscando uma atmosfera de guerra. Não é necessariamente a história dos Maragatos, é uma história que fala de dor, saudade, despedida, vingança, ódio, amor, romance, frustrações, lutas, derrotas, aniquilamento moral e espiritual, prejuízos de guerra. È um espetáculo que criativamente trata de sentimentos humanos, do drama de homens e mulheres que, querendo ou não, se envolvem na guerra, sofrem e se aniquilam, com música e palavra, palco desnudo, muito movimento e expressão corporal, e iluminação adequada, a peça se transformou num lírico e poética, texto de homenagem ao Rio Grande.
Bachilli diz ter começado a sentir a responsabilidade da profissão de ator quando foi atuar em Don Leandro, montagem em que ele entrou bem no início - em Maragato, havia entrado como substituto e, portanto, pegado o processo em andamento. Don Leandro exigiu união para levar o espetáculo adiante, o grupo vinha de uma sequência de Maragato, que tinha sido um grande sucesso, então havia a responsabilidade da superação. Nos dois trabalhos Bachilli desenhou e confeccionou todo o figurino, que levou sua assinatura, e ainda comprou todos os tecidos e acessórios. Don Leandro, no qual ele teve o papel protagonista, foi um trabalho que lhe deu muito prazer.

Apesar do trabalho artístico de qualidade reconhecida, os integrantes do elenco tomaram rumos diversos e o grupo acabou por se desmantelar na década de 1990.




Figura 4 – Cena da peça Maragato

Fonte: Memorial Theatro Sete de Abril





Figura 5 – Cena da peça Maragato

Fonte: Memorial Theatro Sete de Abril




Figura 6 – Cartaz da peça Maragato

Fonte: Desilab/ETFPel




CARNAVALESCO/FIGURINISTA
Bachilli confessa que, no início, não gostava de dirigir. “Gostava mesmo de atuar. Como diretor diziam que era birrento, me ofendia por tudo”, recorda, bem-humorado. Independentemente de participar da direção ou limitar-se a atuação, entretanto, inevitavelmente acabava por se envolver com o aspecto visual do espetáculo: os figurinos e os cenários eram, em geral, confeccionados por ele ou ao menos contavam com sua participação. Com relação aos primeiros anos de teatro, ele relata que “geralmente não se tinha dinheiro para estas coisas, era sempre feito através de improvisos, cada um trazia algo de casa”. Assim, para “ludibriar” a falta de recursos, aprendeu a usar a criatividade e a imaginação. O resultado disso é que seu currículo, além de contar com uma longa lista de peças teatrais, espetáculos de dança e carnaval, apresenta seus trabalhos na concepção e execução de figurinos e cenografia.

Bachilli era visto por seus amigos como um profissional da visualidade e também como carnavalesco encantava. Com crescimento do THOLL, porém, não conseguiu conciliar as duas coisas. Há quem diga que para o Carnaval foi uma grande perda, pois como carnavalesco teve títulos de reconhecimento:

*Carnavalesco Tetracampeão na categoria de Escolas de Samba Mirins nas edições de 1999, 2000, 2001 e 2002 (Escola de Samba Mirim Explosão do Futuro);

*Figurinista do Ano nas edições 1999, 2000, 2001. (carnaval);

*Estandarte de ouro como o Melhor Figurinista no Carnaval de 2001;

*Estandarte de ouro como melhor figurinista no Carnaval de 2004.



OPTC – OFICINA PERMANENTE DE TÉCNICAS CIRCENSES
A Oficina Permanente de Técnicas Circenses (OPTC) foi fundada em 1987 – a princípio os ensaios ocorriam no Colégio Pelotense - quando Bachilli, liderando um grupo de amigos, todos atletas de ginástica olímpica, competitivos e apaixonados pela arte circense, resolveu aliar todo o aprendizado acrobático ao teatro e à dança. Surgiu então a ideia de realizar uma “oficina”, objetivando selecionar mais integrantes e criar um grupo circense, um “circo sem lona e picadeiro”, visando atuações em teatros e na rua. A OPTC surgiu, assim, com o intuito de resgatar a arte circense sem a utilização de animais.

Bachilli recorda que, logo no início, depois de haver montado pequenos números, se sentou com seus atletas-artistas em quatro colchões azuis, os únicos que tinha, e disse: “Pessoal, a gente vai ter que montar alguma coisa”. Três meses e meio depois “nascia” o espetáculo de circo-teatro “THOLL, Imagem e Sonho”, (2002) que viria a conquistar a crítica e arrebatar plateias por todo o Brasil.


Trabalhos como diretor, no OPTC:

* “Performances” (1999);

* “Vision” (2001);

* “THOLL, Imagem e Sonho” (2002).


Bachilli diz que foi “deixando as coisas acontecerem em sua vida... Nunca imaginou que teria sucesso através do Grupo THOLL. Nunca planejou nada”(conforme entrevista). Ele conta que sempre deixou que sua intuição falasse mais alto e lembra que a avó costumava dizer que ele tinha “o olho da raposa”. Antes do Grupo THOLL, que a partir da primeira década da virada do século XXI passou a fazer sucesso em várias partes do Brasil, Bachilli já tinha recebido doze prêmios como ator. Apesar disso, diz que “não se acha nem melhor nem pior do que ninguém, faz sempre o que lhe dá vontade e não gosta de seguir tendências”.

Com o sucesso estrondoso de THOLL, Imagem e Sonho, ele decidiu, em 2006, mudar o nome do grupo – já que eles tinham ficado conhecidos nacionalmente como THOLL. O espetáculo ficou cinco anos em cartaz, até estrear o segundo trabalho.



GRUPO THOLL


Figura 7 – Grupo Tholl

Fonte: Site Vibesul4

Bachilli não se queixa de dificuldades. Já na estreia do Tholl, em Pelotas – que em sua opinião ainda estava longe do “ideal” - havia produtores assistindo, que logo perceberam que o grupo teria futuro, desde que o espetáculo fosse o melhor trabalhado e que houvesse um investimento financeiro. O grupo já tinha “estourado” no segundo ano de apresentação do espetáculo, no projeto Porto Verão Alegre. A partir disso, produtores passaram a procurar por Bachilli, diferente do que normalmente acontece com outros grupos teatrais da cidade. Isso foi fundamental para a tranquilidade financeira do grupo, já que, como diz Bachilli, “hoje para o Tholl é muito mais fácil, pois um espetáculo vende o outro”.

O material de divulgação do Grupo Tholl cita seus principais objetivos:

[...] estimular o crescimento cultural de crianças e adolescentes com sua inserção no mundo das técnicas circenses, desenvolvendo atividades físicas e lúdicas; promover as técnicas circenses, conjuntamente com teatro e dança, em montagens de espetáculos com elevado padrão de excelência, difundir e desenvolver o pleno exercício da educação, proporcionando qualidade de vida à comunidade em que está inserida; exercer parcerias, diálogo local e solidariedade entre diferentes segmentos sociais, que visem interesses comuns com a arte.
Na atualidade participam das oficinas de técnicas circenses 68 alunos de 12 a 34 anos - a oficina é aberta para a comunidade, em geral. Bachilli ressalta que o trabalho não é desenvolvido apenas para crianças de baixa renda, pois acredita que a inclusão real só acontece quando existe a mistura, ou seja, na oficina todas as pessoas são tratadas do mesmo modo, independentemente de sua classe social, muitas vezes aquele que tem maior poder aquisitivo pode não ser tão bom atleta quanto o que mora em algum bairro da periferia, mas isso não é uma condição. E reforça:

Na arte as diferenças de classe acabam e as pessoas aprendem a conviver e a se respeitar. Se o trabalho fosse apenas destinado para crianças carentes, já estaria sendo feita uma forma de exclusão, já que todas as pessoas são donas de um potencial que precisa ser desenvolvido. (informação verbal concedida em sua primeira entrevista, a Neusa Kuhn, em 07/09/2011).


Bachilli diz que sempre foi um profissional comprometido e, com certeza, isso o motiva a exigir de seus atletas-artistas, do Grupo Tholl, a mesma disciplina. Nesse cenário, como professor assume um papel de grande relevância. É responsável não apenas por transmitir conhecimento acerca das técnicas que ensina, mas também por firmar opiniões e valores, influenciando no comportamento e no caráter dos seus pupilos. Ciente desta responsabilidade, Bachilli contribui para o desenvolvimento do indivíduo no âmbito familiar e social, assim como pelo progresso de sua comunidade.

Comprometimento, dedicação, disciplina tática, espírito de equipe, união de esforços. Estes são apenas alguns dos quesitos que o grupo de atletas-artistas do THOLL tem demonstrado em suas apresentações pelo País afora. Ainda que os pelotenses sejam considerados “bairristas”, é inegável o orgulho que sentem cada vez que ouvem sua cidade ser citada, em diversos veículos da mídia nacional, através do grupo THOLL e seus consagrados shows, em eventos culturais e artísticos.

Bachilli, em entrevista concedida a mim em setembro de 2011, salientou que “somente se consegue êxito, se todos os atletas/artistas estiverem verdadeiramente comprometidos com o grupo, com a comissão técnica, com a qualidade do trabalho e com a busca dos objetivos propostos”. Ele acredita que, se o THOLL chegou à posição em que se encontra hoje, uma posição de visibilidade e respeito, com reconhecimento até internacional, “isso se deve à sua trajetória, que pode contar com todos estes fatores e com o comportamento profissional de seus atletas-artistas, conscientes das necessidades de quem pratica uma arte coletiva”.



Figura 8 – Fundador do Grupo Tholl (João Bachilli)

Fonte: Site do Grupo Tholl5

Algumas das premiações recebidas pelo Grupo Tholl


  • Troféu Construir - edição 2003, oferecido pela RBS TV aos destaques de cada região, sendo este escolhido por unanimidade;

  • Prêmio Treze Horas 2003 - Personagem do ano nas artes circenses;

  • Destaque Cultural 2005 - Outorgado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria de Estado da Cultura;

  • Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul - outorga ao Grupo Tholl, em 11 de julho de 2007, através de proposição da deputada Leila Fetter;

  • Prêmio Líderes e Vencedores 2008 / Categoria Expressão Cultural - Outorga da Assembleia Legislativa dos Estados do Rio Grande do Sul e Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul - Federasul;

  • Troféu Multiesporte 2008 / Homenagem Especial - Outorga do jornalista Sérgio Cabral.

O reconhecimento pode ser identificado na reportagem do Diário Popular de 15/02/2007, com o título: “Tholl mostra mundo mágico no Caldeirão do Huck”, assinado pela repórter Joice Lima:

Tholl mostra mundo mágico no Caldeirão do Huck

15/02/2007/Diário Popular

Joice Lima

Luciano Huck estava de passagem por Porto Alegre quando assistiu, por casualidade, o programa especial exibido pela RBS TV com o Grupo Tholl em uma noite de domingo. Não deu outra. Ficou tão impressionado pela qualidade dos artistas circenses pelotenses que os chamou para participar de quatro edições de "seu" Caldeirão, que vai ao ar nas tardes de sábado, pela Rede Globo. As esquetes do espetáculo Tholl - Imagem e sonho foram gravadas na segunda e terça-feira desta semana, no Projac - o mega estúdio da emissora no Rio de Janeiro.


A reportagem do Diário Popular conversou por celular com o diretor - e mentor - do grupo, João Bachilli, enquanto ele se dirigia ao Hotel na Barra da Tijuca, onde estão hospedados os 21 integrantes do espetáculo, com todas as despesas pagas pela Globo. Confira os melhores trechos:

DP - O que a gurizada está achando da experiência?


Bachilli - Ficaram enlouquecidos lá dentro. O Projac é uma loucura, é enorme e a cenografia, técnicos, edição, tudo é muito moderno, eficiente e rápido. Foram aplaudidos por Sandy e Júnior, o que não é pouca coisa. O tratamento dispensado aos artistas pelo pessoal da Globo é fantástico, estão todos nas nuvens com o reconhecimento e valorização. Também o Luciano Huck fez elogios rasgados ao espetáculo nas gravações.

DP - O sucesso do Tholl não pára…


Bachilli - E nem vai parar tão cedo. O pessoal do Caldeirão gostou tanto que chamou produtores de vários outros programas da Globo, que devem começar a nos chamar para outras participações. O Luciano (Huck) também já disse que assim que tivermos um novo trabalho, podemos voltar.

DP - Talento, trabalho duro, dedicação, sorte? Qual é a maior lição que fica?


Bachilli - O que faz funcionar é a imensa paixão que eles têm pelo que fazem e com seriedade, sem deixar de se divertir. O Tholl quer, mais que tudo, divulgar a cultura de Pelotas. Amamos a nossa cidade, queremos vê-la crescer, evoluir e não vamos sair daí.

DP - As gravações foram segunda e terça. O que vocês fizeram hoje (quarta)?


Bachilli - Eu aproveitei para visitar a parte mais antiga do Rio, que acho muito bonita. À noite vamos ao ensaio da Portela. Mas não sei se todo mundo vai ir porque hoje nossos "branquelas" foram para a praia e tomaram tanto sol que parecem uns camarões. Amanhã voltamos para casa.
Assisti parte de uma oficina do Grupo THOLL durante minha segunda entrevista com Bachilli, realizada no dia 18 de novembro de 2011, e senti a responsabilidade de cada atleta, ensaiando como se fosse uma apresentação, com seriedade e comprometimento. Também me chamou a atenção, ao término do ensaio, o afeto dos jovens ao se despedirem de Bachilli, num clima de carinho e respeito, com muita espontaneidade.

Por trás dos incríveis espetáculos do Grupo THOLL, que ao entrar no décimo ano de existência já conta com um milhão de espectadores e admiradores por todo Brasil, existe uma estrada de trabalho árdua e muita persistência. Se o THOLL é, hoje, reconhecido em todo o País, isso se deve, especialmente, à pessoa de Bachilli que acreditou que o sonho seria realizável com trabalho, esforço e humildade.


Montagens do THOLL (após THOLL, Imagem e Sonho):

*Kaiumá, a fronteira - um espetáculo ecológico;

* Exotique – circo teatro;

*O Circo de Bonecos – teatro infantil.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Após conhecer com mais profundidade a história de vida de João Bachilli, desde a infância, concluo que suas primeiras experiências artísticas e esportivas - com a invernada artística do CTG, com a prática de ginástica olímpica e mesmo como espectador de suas irmãs, em ginástica rítmica – tiveram fundamental influência em sua carreira profissional, sendo preponderantes para a formação do Grupo THOLL, através do qual ele se tornou conhecido em nível nacional.

Em uma cidade como Pelotas - que passou por um período de apogeu cultural, tendo sido considerada, desde o fim do século XIX e início do século XX, berço das mais diversas manifestações artísticas, mas que no atual contexto, não tem tido a mesma valorização cultural, a ponto de permitir que sua principal casa de espetáculos, o Theatro Sete de Abril, fosse fechada por falta de manutenção - o êxito alcançado por João Bachilli poderia ser considerado casual ou mera “sorte”. No entanto, o estudo evidenciou diversos aspectos que foram essenciais para que o grupo chegasse a ser tão bem sucedido. Entre eles, cito: a oportunidade - o grupo conseguiu um local para os ensaios (primeiro, espaços provisórios, logo um local cedido, ainda que não seja próprio); os patrocinadores, que passaram a procurá-los, a partir do sucesso inicial; a trajetória e formação de Bachilli – sem a experiência como ginasta na infância/pré-adolescência e o conhecimento das técnicas circenses, o THOLL jamais teria se formado; o talento de Bachilli como figurinista, desenvolvido desde seus primeiros anos de envolvimento com teatro, que logo possibilitou a criação e confecção dos (magníficos) característicos figurinos dos personagens do THOLL; e, por fim, a própria personalidade de Bachilli, que, apesar do bom-humor e da afetuosidade, é exigente com os integrantes do grupo e não descansa enquanto não alcança a qualidade do trabalho almejada – obtida a partir de muito suor, dedicação e comprometimento.

A pesquisa mostra ainda que, apesar de João Bachilli ter tido uma longa trajetória artística -que inclui, entre outras atividades, a participação como ator em cerca de vinte espetáculos teatrais e como carnavalesco, durante anos, no Carnaval de Rua de Pelotas -, seu reconhecimento profissional, mesmo em Pelotas, deu-se a partir da veiculação do Grupo THOLL na mídia nacional. Bachilli fez o THOLL e foi por meio deste que ficou conhecido. Assim, é praticamente impossível fazer uma abordagem de sua relação com a comunidade pelotense desvinculada do grupo de técnicas circenses e teatro. Por onde anda, Bachilli é reconhecido por populares como “o dono do THOLL” e admite que já se habituou a desempenhar este papel. Mas as entrevistas comprovam que seu envolvimento com a comunidade extrapola as fronteiras municipais... Ele mostrou-se assumidamente “bairrista”, não escondeu seu amor por Pelotas e disse que procura divulgá-la por todas as cidades em que o grupo se apresenta.

Como futura licenciada em Teatro, levo comigo parte importante da sabedoria de João Bachilli, adquirida por ele ao longo de muitos anos e trabalho árduo. Aprendi que respeito, obediência, ética e limites são fundamentais no aprendizado. Foi assim que eu o vi, durante seus treinamentos. Um profissional enérgico, que exigia compromisso, sem deixar de ser carinhoso com seus pupilos.

Encerro este trabalho, lançando um questionamento: será que a plateia pelotense teria a mesma receptividade para os espetáculos do Grupo THOLL se ele não tivesse sido nacionalmente aclamado pela mídia? O estudo evidenciou que Bachilli é um “apaixonado” por Pelotas e faz o que está ao seu alcance para enaltecê-la. Será que Pelotas, por outro lado, faria o mesmo por Bachilli se ele não fosse o “dono do THOLL”?



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


GRUPO THOLL. Depoimentos. Disponível em: <http://www.grupotholl.com/content/index.php?secao=depoimentos>. Acesso em: 28 out. 2011.

PELOTAS, Prefeitura de. Primeira Referência Histórica de Pelotas. Disponível em: <http://www.pelotas.com.br/cidade_historia/pelotas_historia.htm>. Acesso em 10 nov. 2011.

SILVA, Francisca Alves da. Teatro de Pelotas: um patrimônio adormecido. Pelotas, PPGArtes-IAD-UFPel, 2006 (monografia de especialização)

ANEXOS


Depoimentos a respeito do trabalho do Artista João Bachilli

  • Disponível no site do Grupo Tholl

THOLL é sonho! É imaginação o tempo todo. É lúdico! Quando o meu olho abriu e viu o THOLL pela primeira vez fui me abobando a cada minuto. Minha cara ficou como uma lua cheia. Eu estava totalmente encantada e surpresa quando percebi que estava no teatro São Pedro em Porto Alegre, que o THOLL era nosso, do Rio Grande do Sul, de pelotas. E ao mesmo tempo universal. O João Bachilli é uma fada padrinho, que tem as mãos entranhadas de pirpinpinpin.

(Alice Urbim gerente de produção da RBSTV)
O espetáculo é de extremo bom gosto e competência; bastante diversificado e não perde em nada para o famoso “Cirquedu Solei”, misturando o clássico com o contemporâneo. Na plateia sente-se a preocupação com a qualidade da apresentação, figurino, cenário, etc...As musicas vão se alternando entre o clássico e o contemporâneo, o cenário brinca com o real e o imaginário no próprio palco, fazendo assim constantes idas e voltas aum mundo totalmente fantástico, da infância, Da magia e da brincadeira. È como se o adulto voltasse a ser criança por alguns momentos”.

(Daniela Simões Lopes - professora, arquiteta e artista visual formada pela Universidade Federal de Pelotas).


Assisti as três apresentações de “THOLL,Imagem e Sonho” que o Grupo Permanente de Técnicas Circenses deu no Teatro São Pedro em janeiro de 2005. Teria assistido quantas vezes mais se permanecessem entre nós por mais dias. Mas não importa : já ganhei o ano. Pois duvido que algo melhor venha até nós neste 2005. A emoção. A alegria, o riso, o choro, a magia, enfim, se alternam nesse espetáculo do qual saímos com a alma rejuvenescida, agradecidos e felizes. Deixo aqui registrado meu aplauso e minha admiração.

(Eva Sopher- Presidente da Fundação Teatro São Pedro – Porto alegre)


Uma criança que flutua sobre um pequeno planeta mágico já seria o suficiente para conquistar o mundo, mas a performance da OPCT é uma dádiva para as artes cênicas. Enche o coração de emoção e orgulho ver estes jovens artistas do sul do Brasil desfilarem seu impressionante talento raramente encontrado até mesmo no exterior. O diretor João Bachilli encontrou a química exata para o espetáculo, equilibrando a história narrada, os personagens criados, a iluminação. Cenários e coreografias, tudo isso carregado de muito lirismo, tendo o humor como contraponto. Não quero ser vidente, mas aguardem: a OPTC vai viajar muito e conquistar o planeta”

(Kleiton Ramil – Músico)


O segredo, o diretor desse grupo sempre soube qual é: integração, João Bachilli foi mestre em transformar indivíduos num grupo, ginastica em arte, pessoas em seres humanos, Tholl em sonho. Mas nisto ele falhou. O Tholl é realidade.

(Joice Bruhn - diretora do Patrola/RBSTV, roteirista e diretora do especial da RBS que rodou dia 10 de dezembro de 2010).


Sobre a carreira de ator de João Bachilli, muito não tenho a dizer, pois viemos a participar de um mesmo espetáculo em 1992, quando eu acabara de ingressar no teatro - o infantil "Casinha de Chocolate", que contava a história de João e Maria. Eu, iniciante, fazia o papel de Mariazinha, enquanto Bachilli, sempre muito versátil, revezava-se nos papéis do Pai e do Coelho.  Em 1995, passei a integrar o elenco de "Don Leandro ou Os Sendeiros do Sangue", com direção de Valter Sobreiro Junior, espetáculo que João já ensaiava a alguns anos, encarnando o papel título. Além disso, pude apenas observá-lo em pequenas participações que fazíamos nos espetáculos representados pelos alunos da escola de teatro mantida pelo TEP, e da qual éramos professores. Sempre ouvi falar nos "áureos tempos" de João Bachilli no teatro, na década de 80, onde, juntamente com Joca D'Ávila, exercitava sua afinada veia cômica nos espetáculos "No ar um Besteirol" e "Raios, Relâmpagos e Trovões". Também na década de 80, participou do premiado espetáculo "Maragato", de Valter Sobreiro Junior, onde cantava e representava vários pequenos papéis. Tive a oportunidade de assistir Maragato apenas gravado em VHS, o que não me impediu de perceber que Bachilli se destacava, não só por suas qualidades dramáticas, mas também vocais em um elenco formado quase que exclusivamente por atores iniciantes.

(Bartira Franco - Diretora do Teatro Escola de Pelotas - TEP)

Joca D’ Ávila comenta que o que mais ligava ele ao João era a sua veia cômica, bizarra e sua rapidez em criar coreografias. Além é claro da criatividade de seus figurinos, cenários, adereços, músicas iluminação e composição dos personagens. Após o sucesso da peça “Raios Relâmpagos Trovões”, Começamos a trabalhar separados, criei o “Teatro Frio” numa parceria com o Vitor Ramil, e o João se bandeou para o Teatro Escola, mas sempre mantínhamos contatos de trabalho. Tivemos um tempo ensaiando no Grande Hotel, uma comédia pantomímica de Vitor Ramil, mas os outros compromissos nos impediram de realizarmos o projeto, pena, pois os textos do Vitor (que é meu compadre e parceiro de vários trabalhos) eram simplesmente deslumbrantes, e o João estava no hilário, ai a nossa parceria acabou. (...) Adentrei de cabeça no teatro frio, viajei em temporada por todo o país e o João fazia o mesmo com o Teatro Escola. Morei doze anos no Rio. Quando voltei João já estava em volta com o seu “Tholl”. Fixei-me em Santa Vitória como Secretário da Cultura, e fizemos vários contatos. Em 2008 chegamos a fazer um espetáculo chamado “Uma Bela Noitada”, com o texto de Drummond. Hoje com o Tholl João já me convidou para dirigir alguns espetáculos para ele, já tentamos, mas ainda não encontrei tempo.

(Jorge Renato de Avila. Secretário da Cultura).


Parece que a criatividade do João Bachilli e grupo não têm realmente limites, tudo pode ir muito além do sonho. O espetáculo “Tholl, imagem e sonho”, líder de bilheteria na cidade, foi motivo de elogios por todos que o assistiram, inclusive alguns críticos ferrenhos. Sucesso, sucesso e mais sucesso.

(Diário da Manhã. Pelotas/RS, 04.01.2004).


João recebeu a Homenagem do Projeto Multiesporte-Alfa -FM (Veículo de comunicação social da Católica) em 2009. Nosso projeto existe há 17 anos para incentivar todos os destaques do esporte e da dança, dirigentes esportivos, professores e atletas da cidade, estado e país, quando possível. Projetos vencedores. A Festa ocorre uma vez por ano, no final da temporada. O Grupo Tholl recebeu pela competência em incentivar a arte e por proporcionar a população geral da cidade, a possibilidade de renovar artistas e novos talentos para o Circo e para o mundo moderno da arte.

(Sérgio Cabral. Repórter do Diário Popular).


Uma coisa que acho importantíssimo falar do João é que ele conseguiu quebrar esse ciclo pelotense, que eu acho que às vezes irrita muito, que as pessoas chegam e conhecem todas as histórias das charqueadas, tem um cinturão de sangue. O pelotense vive do passado e então a gente vive aquele grande apogeu do séc. XIX e não dá valor para os artistas da cidade, foi uma época, o período morreu. João está ai para provar que é possível viver da arte.

(Gerson Siqueira Fonseca- Gê Fonseca. Bacharel em Artes Visuais, cenógrafo e figurinista, Cenógrafo na Furg)

Trabalhos realizados no teatro como ator


    • Navalha na Carne (Plínio Marcos), Teatro dos Gatos Pelados. (1984);

  • Os Saltimbancos (Chico Buarque), Cia. Tragicômica. (1985);

  • Cara, a Morte bate à porta (Woody Allen), Cia. Tragicômica. (1986);

  • Bukowsky, Cia, Tragicômica. (1987);

  • Erreadeió, (colagem de textos), Cia Tragicômica. (1987);

  • Raios, Relâmpagos e Trovões (colagem de textos), Cia. Tragicômica. (1987);

  • No ar, um besteirol (colagem de textos), Cia. Tragicômica. (1988);

  • Maragato (Valter Sobreiro Jr.), Teatro Escola de Pelotas. (1988);

  • O Circo de Bonecos (Oscar Von Pfull), Teatro Escola de Pelotas. (1991);

  • Casinha de Chocolate (Valter Sobreiro Jr.), Teatro Escola de Pelotas. (1993);

  • Diálogos das Carmelitas, Teatro Escola de Pelotas. (1994);

  • Vampiração (colagem de textos), Teatro Escola de Pelotas. (1995);

  • A longa ceia de Natal (Criação coletiva inspirada na peça Long Christmas Dinner de Thornton Wilder), Teatro Escola de Pelotas. (1996);

  • Don Leandro ou Os Sendeiros do Sangue (Valter Sobreiro Jr.), Teatro Escola de Pelotas. (1999).


Algumas das premiações recebidas pelo Grupo Tholl
-Troféu Construir - edição 2003, oferecido pela RBS TV aos destaques de cada região, sendo este escolhido por unanimidade;

- Prêmio Treze Horas 2003 - Personagem do ano nas artes circenses;


- Destaque Cultural 2005 - Outorgado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria de Estado da Cultura;


- Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul - outorga ao Grupo Tholl, em 11 de julho de 2007, através de proposição da deputada Leila Fetter;


- Prêmio Líderes e Vencedores 2008 / Categoria Expressão Cultural - Outorga da Assembleia Legislativa dos Estados do Rio Grande do Sul e Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul - Federasul;


- Troféu Multiesporte 2008 / Homenagem Especial - Outorga do jornalista Sérgio Cabral.



ANEXO II



1 Referências retiradas do Jornal Diário Popular, ano 1963, acervo da Bibliotheca Pública de Pelotas.

2 A entrevista realizada em 07/09/2011 encontra-se em arquivo anexado.

3 Entrevista anexada em arquivo na parte Anexos do presente trabalho.

4 Disponível em: . Acesso em: 26 nov. 2011.

5 Disponível em: . Acesso em: 26 nov. 2011



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