Nietzsche



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Encontro20.05.2018
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Nos Labirintos da Alma*

Celso Candido


Nietzsche é responsável por uma das obras filosóficas mais inquietan-tes, contraditórias e inusitadas da cultura em sua época moderna. A começar pela - e apesar de - sua atitude filosófica essencialmente anti-moderna. Em certo sentido, Nietzsche representa do ponto de vista da crítica da cultura o que Marx significa em relação à crítica da economia-política.

Nietzsche construiu uma das mais potentes figuras do pensamento, quer pelo conteúdo, quer pela forma de sua filosofia. E tal como todo pensador excepcional, sua sedução é fatal. E tanto maior a fatalidade e grandeza da sedução mais fácil se cair em erro. Na filosofia é como no resto das coisas da vida. É por isto que, muitas vezes, nossa tendência é cair no dogmatismo toda a vez que somos seduzimos por um grande pensador.

Assim é que, diante de um filósofo como Nietzsche, a atitude e o desa-fio do pesquisador que pretende realmente compreender a complexidade e a grandeza de seu pensamento, consiste em realizar o trabalho que, por exemplo, o doutor Oswaldo Giacóia realizou no seu livro, Labirintos da Alma - Nietzsche e a auto-supressão da moral, recentemente publicado. Hermenêu-tico e não hermético; transversal e não linear; pensamento vivo, apaixonado, mas sempre no contexto de uma "probidade intelectual" incontestável.

Este livro, uma reunião de diferentes ensaios, busca esclarecer coordenadas fundamentais do pensamento nietzscheano, em especial, o de sua derradeira filosofia, a partir de uma análise privilegiada da obra O Anticristo de Nietzsche. Aqui focalizaremos apenas alguns, entre os muitos, aspectos importantes presentes em Labirintos da Alma.

Fundamentalmente, os ensaios estão às voltas com a crítica, com a duríssima crítica nietzscheana à modernidade. Nietzsche interpreta esta como uma civilização da decadência: uma civilização vazia de desejo e de "vontade de poder"; a civilização da "vontade do nada", niilista por excelência.

Para Nietzsche, esta cultura moderna teria sido definida e determinada pelo conjunto dos valores cristãos. Daí que um dos principais objetivos da transvaloração dos valores nietzscheana consiste em fazer uma crítica genea-lógica da decadência moderno-cristã a qual é entendida como um longo pro-cesso de crise de valores.

Esta crítica genealógica revelará/denunciará os valores cristãos como princípios ascéticos da renúncia e da negação. Renúnica e negação de si, da vontade, da finitude, da vida. Aí o cristianismo será visto como a cultura do ressentimento, onde imperam os valores do tipo psicológico escravo na moral e falam apenas os instintos de conservação. Este trabalho genealógico permitirá ainda se chegar a uma imagem (intuitiva) da figura de Jesus de Nazaré como essencialmente contraditório ao cristianismo (ainda que não seja nenhum Dionísio). O "reino de Deus", na realidade histórica, foi o reino do sacerdote; do padre ascético que no pão e no vinho frugal (sic) amansa e formata toda uma subjetividade cultural, todo um modo de ser, sentir e avaliar a si e ao mundo; o modo de ser ascético, da culpa, do medo, do sacrifício, da humildade, do pecado, do ressentimento - toda uma alienação ardilosa (do desejo e da razão) para exercer seu domínio sobre o rebanho (estes sacerdotes ascetas foram muito espertos nas suas artimanhas de luta pelo poder!)

Desta forma, é contra os valores ascéticos de negação do mundo terreno - "o único mundo que importa" - em favor de um "mundo-além"; contra os da alie-nação, rejeição e medo do corpo em favor de uma "alma-eterna" (mito socrático-platônico); contra este modo de negação da efetividade do mundo, da experiência (moral) vivida que a filosofia de Nietzsche combate. De onde surge duas figuras centrais do pensamento nietzscheano, Zaratustra e Dionísio.

Mas, precisamente, esta moral cristã da não-efetividade do mundo, de negação da vida, se pretende como moral em si. Assim, torna-se necessário colocar em questão a moral - o que até Nietzsche ninguém teria feito. E uma vez colocada em questão, a tarefa da "auto-supressão da moral" será, em verdade, a da "auto-supressão da moral moderna-cristã".

Por fim, o autor de Labirintos da Alma estabelece uma análise compara-tiva entre as filosofias de Sade e de Nietzsche, revelando, de um lado, uma similitude original entre as duas e, de outro, um antagonismo fundamental. A similitude consistiria em uma compreensão do mundo humano como radical-mente determinado pelos instintos, pela vontade de poder (Wille zur Macht), como aliás, toda a ordem da vida da natureza. Natureza humana que não deveria ser negada, mas ao contrário, afirmada. Entretanto, é precisamente na forma segundo a qual esta afirmação é feita que, por outro lado, os torna antagônicos. Enquanto em Sade a forma de afirmação desta "brutal natureza humana desejante" seria levada "às vias de fato", em Nietzsche, a afirmação da vontade de poder deveria dar-se na forma de uma "sublimação".

Entretanto, sublimação em nome de quê? Em nome da obra (Werke). De forma que, a própria felicidade deveria estar subordinada, como valor, à obra. Daí a máxima nietzscheana "viver e morrer por um alto e nobre para quê?"

De tal modo que o sofrimento mesmo não deveria ser encarado como uma forma de negação da vida, mas ao contrário como forma de afirmação. Porque, para Nietzsche, sofrer enobrece, sofrer faz querer, faz crescer. O sofrer não é necessariamente um mal. Ao contrário, ele é mesmo um bem. E esta renúncia do sofrimento - uma forma a mais de negar a vida, uma vez que o sofrimento é parte vital da vida e de tudo o que é grande - fundamenta toda moral moderna-cristã da compaixão, da piedade - mas também as ideologias liberais e socialistas. (Para Nietzsche, "sentir pena" é já uma forma de fraqueza e decadência, além de ser um modo de "ferir o orgulho" do outro.)

É assim que, no horizonte de tais questões - destas inversões das perspectivas dadas e transvaloração dos valores dominantes, onde muitas vezes o bem vira mal e o mau vira bom -, o livro Labirintos da Alma do professor Oswaldo Giacóia surge como verdadeiro instrumento e referência de grande valor para aqueles que se aventuram a elucidar o admirável desconcerto intelectual provocado pelo filósofo das "duras verdades".

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* Artigo publicado originalmente no Segundo Caderno do jornal Zero Hora, por ocasião do lançamento do livro Labirintos da Alma de Oswaldo Giacóia (1997).



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