No céu do oriente



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NO CÉU DO ORIENTE

"To touch the moon"

Rosalind Carson



O confronto entre um homem e uma mulher no belo e misterioso Japão.

Deliciosamente entorpecida pelas carícias de Clay, Sabrina deixou que ele a ensaboasse, fazendo com que seu corpo se cobrisse com uma espessa nuvem de espuma, antes que ambos mergulhassem na água quente, rindo e brincando, cumprindo aquele ritual japonês.

Um novo mundo de emoções se descortinava para ela durante aqueles inesquecíveis dias em Tóquio. A beleza de uma cidade de ruas estreitas e casas de madeira e papel a sensualidade oriental, a redescoberta do amor... Mas a admiração e o encantamento não eliminavam as diferenças. Sabrina era uma estranha naquele mundo, uma estranha para Clay. As barreiras entre eles foram surgindo, como flocos de neve a sufocar o fogo da paixão...
Disponibilização: Andréa

Digitalização: Ana Cris

Revisão: Jaque



Título original: "To touch the moon"
Copyright: © by Margaret Chittendpn Publicado originalmente em 1985 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá

Tradução: Susana Vidal Semedo


Copyright para a língua portuguesa:

1986 Editora Nova Cultural Ltda. — São Paulo — Caixa Postal 2372


Esta obra foi composta na Artestico Compositora Gráfica Ltda. e impressa na Companhia Lilhographica Ypiranga

CAPÍTULO I


O calor úmido de agosto invadia as dependências da Embaixada americana em Tóquio, aumentando ainda mais o mau humor de Clay Spencer. Vestido com muita elegância, num impecável terno escuro, ele procurava disfarçar a irritação que o dominava desde o começo da manhã, quando ouvira rumores sobre a nova tarefa que lhe seria atribuída. Por isso, seu rosto de feições aristocráticas estava contido. Os olhos, muito azuis, contrastavam com o bronzeado da pele e com os cabelos loiros e mantinham-se distantes. Sem dúvida, Clay era um homem bonito e, nesse momento, preocupado.

Atravessou a sala de espera com passos decididos, seguido pelos olhares de admiração das diversas mulheres que ali aguardavam a vez de serem atendidas, e entrou na sala de Richard Detweiler.

— Mandou me chamar? — perguntou, antes mesmo de notar que Richard falava ao telefone.

Este acenou, indicando para que Clay se sentasse até ele terminar a ligação. Richard era atarracado, entrava na meia-idade e seus cabelos castanhos raleavam no topo da cabeça.

— Salve, Clayton Spencer! — exclamou, ao desligar o telefone. — Sabe que está com uma ótima aparência? Andou velejando de novo, durante o fim de semana?

— Sim, ao redor de Kamakura.

— Ah, meus filhos também adoram aquele lugar. Gostam de subir no monumento a Buda. Pregam cada susto na mãe...

Clay acomodou-se na cadeira e foi direto ao assunto que o incomodava.

— Escute, que história é essa de eu ter que pajear um grupo de americanos? Ouvi dizer que terei que bancar o cicerone e, francamente, isso não é. . .

Richard sorriu. O ar maroto e o rosto sardento denunciavam sua origem de garoto criado no interior, coisa que não conseguia disfarçar nem mesmo com as roupas caras que usava.

— Não me diga que a tarefa o desagrada.

— Desagrada, sim. Além do mais, estou muito ocupado atendendo aos estudantes japoneses que participam do projeto cultural. Há um deles, um tal de Kakuei Uda, que considero genial. Precisava ver as fantásticas adaptações que propôs para alguns dos prédios antigos. Acho que será um grande arquiteto no futuro.

— Outra pessoa poderá se encarregar do projeto — retrucou Richard. — Se você fizer muita questão, poderá verificar o andamento dele de tempos em tempos.

— É claro que eu faço questão! Mas, afinal, de que diabos se trata essa outra tarefa que você quer me atribuir?

Richard apanhou um envelope grande e colocou-o na mesa, diante de Clay.

— Aí dentro estão as informações. Vamos receber um grupo de oito pessoas que vêm de São Francisco. É gente ligada a teatro, que virá montar uma comédia musical. Precisamos de alguém que cuide das acomodações, que acompanhe o grupo nos preparativos e o leve para conhecer a cidade, coisas assim.

Clay fez uma careta e sorriu com desdém.

Gente de teatro de revistas, é?

— Ora, pare de ser esnobe, Spencer! Sei muito bem que prefere o teatro clássico, mas fique sabendo que há também excelentes musicais. De qualquer forma, Takeshi Yamada, o diretor do instituto Kokusai, encantou-se pela peça que o grupo apresenta e quer que ela seja montada aqui. Haverá uma temporada em Tóquio e outra em Kyoto.

— E nós é que vamos patrocinar?

— Claro que não! Não temos dinheiro para isso. O Sr. Yamada quer apenas que o adido cultural da Embaixada dê seu apoio à iniciativa.

— Ah, já entendi. Isso quer dizer que apenas o nome do departamento aparecerá nos programas e que algum de nós precisará fazer um pouco de relações públicas, certo?

— Mais ou menos. Só que há um fator importante: o Instituto Kokusai é responsável por uma porção de projetos de intercâmbio cultural de grande monta e para nós é fundamental manter um bom relacionamento com ele.

Richard bateu de leve no envelope e prosseguiu.

— Bem, mas agora ao trabalho. Duas pessoas do grupo vão chegar amanhã, às três da tarde, ao aeroporto de Narita. São duas moças: Sabrina Prescott, a diretora artística, e Tomie 0'Rourke, a coreógrafa.

— Entendo — resmungou Clay, sem o mínimo entusiasmo.

— Vamos, Spencer, anime-se! Vai ser um trabalho interessante — Richard afirmou com decisão, abrindo o envelope e retirando dele uma pasta cheia de fotografias, recortes de jornal e folhas datilografadas. — Olhe aqui. Esta é Sabrina Prescott. Bem bonitinha, não acha?

Clay segurou a fotografia mais perto, para vê-la melhor. A jovem que aparecia nela não era nenhuma beldade tão extraordinária assim, mas havia algo de muito marcante em suas feições bem delineadas, emolduradas por cabelos longos, escuros e levemente encaracolados. Tinha um olhar inteligente. Devia mesmo ser uma mulher inteligente para ser capaz de dirigir peças de teatro, ponderou.

— Tem jeito de ser uma garota bem decidida.

— Como a maioria das americanas — concluiu Richard. — Foi por isso que eu me casei com Keiko. Prefiro mulheres mais submissas. Na minha opinião, você também devia arrumar uma esposa japonesa, Clay.

— Vou pensar no caso, embora nos dias de hoje essa sua opinião seja discutível. Mas vamos ao trabalho.

— Pelo que diz a sua ficha, Sabrina Prescott é viúva e tem trinta anos — disse Richard, estendendo a Clay uma folha datilografada, contendo um resumo biográfico da moça de quem falavam.

— Hmm... então ela é do tipo que confessa a idade. Além de decidida deve ser também bastante sincera.

Clay passou os olhos pelo papel. Os dados ali registrados eram bem objetivos. Sabrina havia nascido em São Francisco e seu sobrenome de solteira era Howard. Tinha uma ótima formação escolar, gostava de jogar tênis, de nadar e fazer ginástica. Será que tinha um corpo musculoso? Perguntou-se Clay, com desagrado. Depois de terminar a faculdade, Sabrina tinha sido atriz por algum tempo, passando gradativamente a interessar-se mais por direção. Aos vinte e três anos, casara-se com Josh Prescott, um ator de televisão dois anos mais velho do que ela. Este havia morrido, há algum tempo, num acidente de aviação. Durante três anos ela trabalhara como assistente do diretor Bennet Tiernan e agora estava encarregada de dirigir as apresentações da companhia no Japão.

A fotografia que vinha a seguir era da coreógrafa Tomie 0'Rourke. Clay observou-a atentamente.

— Esta moça tem jeito de mestiça.

— E é mesmo. A mãe, que já morreu, era japonesa e o pai, americano. Parece uma bonequinha, não é mesmo? Infelizmente, a biografia dela não diz muita coisa além dos dados básicos sobre seus estudos de dança e a experiência profissional. Pediram-me que você ficasse de olho nessa tal de Tomie.

— Verdade? Quem foi que pediu?

— Ora, Spencer, você sabe perfeitamente que nosso esquema de trabalho exige muito sigilo.

— Com isso você quer dizer que eu não devo saber quem pediu para que Tomie fosse vigiada, certo?

— Exatamente.

— Meu Deus, será que estão me metendo em alguma operação secreta e perigosa?

Nada disso, Spencer. Isto é apenas uma agência de informações, não a filial da CIA. Você só terá que observar Tomie, descobrir como ela é e nos contar tudo.

— Descobrir como ela é? O que quer dizer com isso?

— Bem, é só conhecer melhor a personalidade dela, saber do que gosta, como se dá com sua família, que tipo de relacionamento tinha com a mãe, coisas assim.

— Só isso?

— É. Aliás, eu nem pretendia lhe pedir que vigiasse Tomie. Deixaria que a amizade surgisse naturalmente entre vocês dois para depois fazer-lhe algumas perguntas sobre a moça. Mas, sabendo do jeito que você é, achei melhor avisá-lo.

— E de que jeito sou?

— Sei lá. . . você parece que sempre mantém uma certa distância das mulheres. Todas as garotas aqui andam louquinhas atrás de você e parece que nem dá bola.

— É que eu não gosto de misturar diversão com trabalho — respondeu Clay, cortando o assunto.

Não queria entrar no mérito da questão. Richard não precisava saber que os poucos casos amorosos que ele tivera, nos últimos três anos e meio, haviam sido todos de curta duração e bem pouco satisfatórios, tanto para ele quanto para as mulheres com as quais se envolvera.

— E então? Você aceita a missão? — perguntou Richard.

— Por acaso tenho alguma outra escolha?

— Não.


— Protesto. Isso não é direito, eu...

— Acalme-se, Spencer. Vai ser tudo muito fácil. Não se trata de uma questão de espionagem, nem nada parecido. É apenas um pedido pessoal de um dos nossos superiores.

— Ah, está bem. E essa Sabrina Prescott? Preciso obter informações sobre ela também?

— Richard balançou a cabeça.

— Não. A pessoa que temos em mira é a Tomie, mas seria interessante que fizesse amizade com as duas, para não levantar suspeitas. Além do mais, Tomie parece que está noiva de alguém que ficou lá nos Estados Unidos, por isso será mais difícil conseguir uma aproximação mais íntima com ela. Já no caso da outra, que é viúva, você na certa encontrará menos dificuldade . . . entende?

— Claro que entendo, Só acho que não tenho talento algum para bancar o James Bond.

— Por favor, Clay. Nós só estamos pedindo um pouco da sua colaboração.

— Compreendo — ele respondeu secamente, levantando-se, apanhando a pasta e despedindo-se de Richard com um breve aperto de mão.

Clay desceu pelo elevador, atravessou o saguão da Embaixada, acenando para os dois oficiais da marinha que davam plantão na cabine de vidro que servia de guarita, passou pelos guardas japoneses logo adiante e, saindo da área de segurança, foi até o pátio interno e descoberto do edifício. Estava espantado e confuso. Nos seis anos em que cuidara dos assuntos culturais da Embaixada, nunca lhe haviam pedido que espionasse alguém. E, por mais que Richard tentasse colocar as coisas de forma suave, era exatamente isso que acabara de lhe ordenar.

Respirou fundo o ar quente e úmido daquele dia e com passos firmes atravessou o portão, ganhando as ruas movimentadas de Tóquio. Sua figura chamava a atenção pela estatura elevada e os cabelos loiros, bem diferentes dos da maioria das pessoas que àquela hora transitavam pelas calçadas repletas. Sendo Tóquio uma cidade tão moderna e cosmopolita, a presença de estrangeiros, chamados de "gaijin" pelos habitantes locais, era bastante freqüente. Ainda assim, Clay atraía olhares curiosos, quando andava na rua.

Ao entrar no seu automóvel — um belíssimo Mitsubishi prateado — ele tirou o paletó e afrouxou a gravata, procurando relaxar. A pasta com as informações sobre a sua nova missão estava ali a seu lado, no banco do acompanhante. Olhou-a com desânimo. Não estava nem um pouco entusiasmado com a perspectiva de encontrar-se com Sabrina Prescott e Tomie 0'Rourke. Aliás, não estava nem um pouco entusiasmado com nada do que dizia respeito a essa estranha tarefa que lhe haviam atribuído, contra a sua vontade.

Ao sair das dependências do Aeroporto Internacional de Narita, Sabrina Prescott sentiu-se como se estivesse entrando numa sauna. Segurou firme o carrinho onde levava a sua bagagem e apertou os olhos, tentando localizar a pessoa que, segundo lhe haviam dito, estaria à sua espera. Foi então que viu aquele homem alto, loiro e muito bonito que se destacava em meio à multidão de japoneses que esperavam outros passageiros. Só podia ser ele, concluiu, notando que era o único "gaijin" presente. Era mesmo um belo tipo — forte, queimado de sol e dono de uma boca firme, mas muito sensual. O paletó azul assentava-se perfeitamente sobre os ombros largos e a calça cinza tinha uma queda impecável, dando destaque às pernas longas e musculosas. Nas mãos segurava dois pequenos buquês de rosas vermelhas, embrulhados em papel celofane. Instintivamente, Sabrina arrependeu-se de não ter retocado a maquiagem com mais cuidado, antes de sair do avião. Bem que Tomie podia tê-la acordado com maior antecedência, antes do pouso. Assim teria tido tempo de se arrumar melhor e talvez até de dar um jeito na sua blusa, agora tão amassada depois das horas de vôo.

— É a Sra. Prescott? — o homem perguntou, aproximando-se dela.

Ainda meio ofuscada pelo sol forte daquela tarde, Sabrina fitou aquele par de olhos de um azul cristalino. Sem dúvida alguma, estava diante de um homem excepcionalmente atraente. Mais parecia um atleta olímpico, vestido a rigor para a festa de abertura.

— Você deve ser a pessoa que a Embaixada mandou, não é? Clay Spencer, não é esse o nome? Pode me chamar de Sabrina, por favor. Quando me tratam de Sra. Prescott, sempre me lembro da minha sogra — disse com uma risada nervosa.

Clay limitou-se a fazer uma reverência formal. Por um instante Sabrina teve até a impressão de que ele ia bater os calcanhares.

— Seja bem-vinda ao Japão. Espero que tenha feito boa viagem. A Srta. 0'Rourke não está consigo?

— Está, sim. Ela ficou um pouco para trás, na hora do desembarque. Ah, deixe ver. . . Pronto, ali está ela!

Naquele instante, Tomie saía meio atordoada pela porta de vidro que dava acesso à parte externa do aeroporto. Ao contrário de Sabrina, ela mal havia conseguido dormir, durante a viagem, e agora demonstrava ar de cansaço. Para decepção de Sabrina, Tomie recebeu uma acolhida mais calorosa por parte de Clay. Agora um pouco mais à vontade, ele sorriu para ela e entregou-lhe um dos buquês de rosas, enquanto fazia sinal para que um carregador apanhasse a bagagem das duas. Tomie conseguia comover os homens com muita facilidade, ponderou Sabrina. Sua figura miúda, delicada e frágil, aliada ao rosto de feições perfeitas, conseguia operar milagres. Ela, por sua vez, sentia-se como uma jamanta, quando andava ao lado de Tomie. Não que fosse tão grandalhona assim, mas era uma mulher alta e de traços fortes, herdados de algum antepassado espanhol perdido na árvore genealógica da família de sua mãe.

Tomie aceitou com muita graça as flores que lhe eram oferecidas enquanto Sabrina, segurando as suas, virava-se para abrir caminho em meio à multidão. Foi então que se viu interceptada pela lente de uma câmera de televisão.

— Bem-vinda ao Japão — disse a jovem repórter em inglês perfeito e sorrindo cortesmente. — Sou Fumíko Watanabe, da rede NHK de televisão. Como foi sua viagem?

— Ahn... ah, sim... tudo bem. Sabrina gaguejou na resposta. Ninguém lhe havia avisado que

a imprensa estaria à sua espera no aeroporto.

— A senhorita não tem medo de andar de avião?

— Medo? Tenho pavor — Sabrina respondeu, rindo para a moça. — Foi por isso que dormi a viagem inteira. Para não ver o que estava acontecendo.

A alguns passos dali, Clay observava a cena com ar carrancudo. Será que ela estava sendo informal demais nas declarações? Será que devia demonstrar tanta descontração?

— Estou muito feliz em conhecer o Japão — prosseguiu, mais contida. — Sempre tive muita admiração pela cultura oriental, pelo teatro e a arte deste povo.

— Nós também estamos muito felizes com sua visita e aguardamos com ansiedade a estréia do espetáculo — respondeu a repórter.

Como eram maçantes essas entrevistas onde as perguntas, as respostas e as declarações eram sempre iguais, pensou Sabrina. Segurou a mão de Tomie e puxou-a para mais perto.

— Esta é Tomie 0'Rourke, a coreógrafa da companhia.

A repórter imediatamente começou a falar em japonês. Era um erro compreensível, diante dos traços orientais de Tomie. Só parou quando esta, indicando-lhe que não entendia nada, explicou que havia nascido nos Estados Unidos e que as poucas palavras de japonês que sabia lhe haviam sido ensinadas pela mãe, quando criança. Todos riram, menos Clay. Este permanecia sério, olhando para elas com desaprovação.

A entrevista ainda durou uns quinze minutos. Cansada da viagem, do calor sufocante e constrangida com a atitude de Clay, Sabrina respirou aliviada quando finalmente pôde acomodar-se no banco de trás da limusine da Embaixada que estava à espera deles. Clay segurou-lhe a mão, para ajudá-la a entrar e, por um rápido instante, ela estremeceu com o toque. O contato daquele homem a deixava perturbada.

O veículo seguiu seu caminho. Clay Spencer ia sentado à frente dela, no lado esquerdo do assento dianteiro. Mas, para sua surpresa, não era ele que dirigia. O motorista ia do outro lado. Só então ela se lembrou de que as mãos de direção eram ao contrário no Japão e que, portanto, os carros japoneses traziam o volante do lado direito do painel e não do esquerdo, como nos Estados Unidos. A sensação de andar no lado oposto da rua era esquisita e divertida ao mesmo tempo e Sabrina seguiu em silêncio, observando o trânsito.

O chofer estava imponente no seu terno escuro muito bem passado. Usava um boné de viseira do mesmo tecido e luvas brancas para dirigir. O encosto dos bancos estava coberto por fronhas brancas e engomadas, parecendo ter acabado de chegar da lavanderia e um único botão de rosa, dentro de um pequeno suporte, enfeitava o painel. Tudo muito fino e elegante.

— Quanta classe, não? — Sabrina cochichou para Tomie, com uma risadinha.

Tomie não respondeu. Sequer esboçou um sorriso. Tudo indicava que a terrível depressão que a dominara, há já algumas semanas, dificilmente seria vencida. Sabrina tinha esperanças de que a viagem servisse para melhorar o ânimo de Tomie, que andava muito abatida depois da morte da mãe. O desaparecimento de Sachiko, mesmo esperado depois de um ano de terrível doença, deixara a filha em estado de choque. Era uma pena que ela continuasse assim triste, mesmo diante da perspectiva de visitar, pela primeira vez na vida, a terra de seus ancestrais. Talvez também estivesse sentindo falta do noivo. Era igualmente a primeira vez que ambos se separavam.

Tentando afastar a preocupação, Sabrina dirigiu-se a Clay, que continuava mudo à frente dela:

— Você faz isto com muita freqüência? Vir receber os visitantes americanos, quero dizer.

— Nunca. Meu trabalho é coordenar o programa de intercâmbio internacional. A Embaixada e os diversos consulados americanos no Japão indicam nomes de jovens japoneses que, de alguma forma, estejam se destacando no seu campo de atuação. Então eles são enviados aos Estados Unidos, para fazer cursos e visitas e ampliar seus conhecimentos.

— E gosta do que faz?

— Muito. Para mim é comer se estivesse ajudando a construir uma ponte de ligação entre a cultura oriental e a ocidental. Ê assim que o encaro.

— Que bom. Mas então como foi que deixou que o tirassem de uma atividade tão importante para vir tomar conta da gente? Segundo as instruções que me deram, você é quem vai cuidar de nós enquanto estivermos no Japão. Será que somos assim tão famosas?

Sabrina provocava Clay deliberadamente para ver se, dessa maneira, conseguia pelo menos que ele se mostrasse um pouco mais cordial. Tudo em vão. Com o olhar impassível, ele respondeu no mesmo tom seco de sempre:

— Acontece que o Sr. Yamada, o diretor do Instituto que está promovendo o espetáculo, r uma pessoa muito influente. A Embaixada faz questão de manter um bom relacionamento com ele e atender suas visitas da melhor forma possível.

Que jeito elegante de colocar-me no meu devido lugar, pensou Sabrina. Não era à toa que Clay tinha um olhar tão solitário. Se tratasse a todos daquela forma, dificilmente teria algum amigo.

— Pena que não tenham me avisado sobre a presença da televisão no saguão do aeroporto — ela continuou, sem deixar-se dobrar. — Se tivesse sabido disso, procuraria me arrumar um pouco melhor para a entrevista.

Clay virou a cabeça e olhou para ela com o canto dos olhos, como se estivesse avaliando sua vestimenta, a blusa colorida, agora um tanto amassada e a calça justa de tecido fino que delineavam suas longas pernas.

— Já que tocou no assunto, acho que seria conveniente informá-la de que as mulheres de Tóquio costumam vestir-se de maneira bastante tradicional. Usam roupas ocidentais mas, como regra geral, só as meninas e as adolescentes é que usam calças compridas.

— Interessante. . . Mas o que é que isso tem a ver comigo? — ela retrucou.

— Pensei que talvez achasse mais conveniente usar vestido ou saia, enquanto estiver no Japão.

— Infelizmente eu só trouxe um vestido.

— O Sr. Yamada fez uma grande divulgação a seu respeito e com certeza haverá muitas outras entrevistas para jornais e estações de TV. Por isso, se desejar comprar roupas mais adequadas, terei prazer em lhe indicar algumas boas lojas.

— Creio que não entendeu direito. O que eu quis dizer não é que simplesmente não trouxe vestidos mas sim que não uso vestidos nunca.

Clay crispou os lábios e dirigiu o olhar a Tomie, tão impecavelmente vestida para os padrões orientais, com seu imaculado conjunto de linho branco.

— Mas quando é que vou poder conhecer o Sr. Yamada? — continuou Sabrina, fingindo não ter percebido.

Como resposta Clay entregou-lhe um envelope branco, subscrita com seu nome. Nele havia uma carta de Takeshi Yamada, dando-lhe as boas-vindas e pedindo desculpas por não ter podido ir recebê-la pessoalmente em vista de uma inesperada viagem de negócios que o afastara da cidade. Marcava um encontro para segunda-feira de manhã, no Instituto Kokusai e dava o roteiro das diversas entrevistas que teria que dar, naquele dia. Informava também que o Sr. Clay Spencer se encarregaria de tudo que precisassem e que as levaria para uma visita turística a Tóquio, no domingo.

Enquanto ela ia lendo, Clay conversava com Tomie, contando-lhe coisas sobre a pequena cidade de Narita, onde se situava o aeroporto e da qual estavam agora saindo. A voz dele se tornava mais doce e a atitude bem mais cordial, quando se dirigia a Tomie. Terminada a leitura, Sabrina dobrou a carta e colocou-a dentro da bolsa. Enquanto isso, observava Clay com atenção. Tinha a incontrolável mania de analisar as pessoas e de tentar enquadrá-las em algum perfil psicológico, como fazia com suas personagens de teatro. O encarregado de assuntos culturais da Embaixada, que tinha à sua frente, enquadrava-se no rol dos homens maravilhosos fisicamente e convencidos demais para seu gosto. Numa peça representaria bem o papel de um banqueiro, de corretor da bolsa de valores, de jovem executivo — em resumo, de algum desses tipos que comandam os negócios de dia e freqüentam as festas da alta sociedade à noite.

Nesse meio tempo, Clay continuava dedicando toda a sua atenção a Tomie, tentando fazê-la falar. Perguntava-lhe sobre a mãe, sobre Tim Rourke, o velho pai americano que acabara de se aposentar da Força Aérea, sobre sua vida artística. Mas Tomie respondia por monossílabos. Era muito introvertida e agora se mostrava ainda mais retraída que o habitual. Mas Clay não desistiu. Virado inteiramente para trás, continuou com suas perguntas enquanto olhava Tomie bem nos olhos, significativamente.



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