No encalço do monstro



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Nas tramas do relato

Navegações portuguesas e o maravilhoso como substrato cultural


Quando o sentido das palavras ‘salta’ para outro sentido, através das metáforas que deixam de ser indicativas como tais, a língua afirma sua soberania, sua autonomia em relação ao universo percebido.

Gilbert Lascault, Le monstre dans l’art occidental.


Em 1454, por «força do tempo contrário», aportou em terras portuguesas um navegador veneziano conhecedor e experiente no comércio marítimo. Desde então, Alvise da Mosto, ou Luís da Casa Da Mosto, que ficou mais conhecido como Cadamosto, passou a realizar, sob a bandeira da Coroa lusitana, expedições pelo Atlântico até à região da Guiné, atraído que estava pelas boas perspectivas de lucro que desde então o ligaram a Portugal por cerca de nove anos.

De volta à Itália, o navegador pôs-se a escrever suas memórias da aventura luso-italiana, apoiado talvez em apontamentos trazidos de Portugal. No texto, conhecido como Navegações, ao relatar seu encontro com os secretários do Infante D Henrique, Cadamosto conta como se deixara convencer a trocar o Mediterrâneo pelo Atlântico: em meio às amostras de açúcar e de sangue de drago, pairava, na surdina das palavras, a proposta de um Infante orgulhoso de ter “feito navegar mares que nunca por outros foram navegados; e descoberto terras de gerações estranhas, entre as quais se achavam cousas maravilhosas”. (GARCIA, 1983,p.80).

O apelo exercido pelas “gerações estranhas” e pelas “cousas maravilhosas” constitui um ingrediente que quase sempre se faz presente quando se tratava de enumerar os atrativos das terras de além-mar. Sem dúvida, o tempero mais importante era dado pela promessa de riqueza. Mas esse substrato econômico que permeia o imaginário das grandes navegações representa uma dentre outras faces com que o maravilhoso se inseriu em relatos de viagens deixados pelos que viveram essa epopéia. Em tais relatos, não encontramos apenas a preocupação em descrever rotas, riquezas naturais e possibilidades de exploração; muitas vezes as riquezas estão plenamente integradas a um universo fabuloso, guardado por animais fantásticos que conferem ao relato um tom de maravilha. O mesmo se dá com a sucessão de milagres e sinais que costumam povoar alguns desses relatos.

No relato de Cadamosto, as informações que saltam aos olhos do leitor são as relativas ao ganho de um lucrativo comércio, onde “de um soldo faziam sete e dez” e o ponto alto de sua narrativa é o olhar minucioso do mercador que descreve particularidades de plantas, animais, populações e ilhas sem nunca perder de vista seu aspecto comercial. Apesar desse utilitarismo marcante, entre uma observação e outra, é possível “pinçar” no texto momentos menos pragmáticos, como quando o navegador fala das cobras existentes no “País do Budomel” (região de Sayor, entre o rio Senegal e o Cabo Verde). Ao descrevê-las, o navegador confessa seu desapontamento lamentando não ter visto “serpentes dessas que têm asas e patas, mas sim cobras grandes de duas braças e mais compridas, as quais são muito grossas a ponto de acharem cobras que haviam engolido uma cabra inteira sem a despedaçar. (GARCIA, 1983,p.108).

A leitura do texto de Cadamosto sugere que ele esperava encontrar nas terras inexploradas, além das riquezas, também seres prodigiosos, alertado talvez por histórias contadas em sua terra natal ou em paragens do Mediterrâneo. Estariam as cobras aladas entre as «cousas maravilhosas» de que ouvira falar nosso navegador? Impossível afirmar. Tudo quanto sabemos é que Cadamosto permaneceu em terras portuguesas de Novembro de 1554 a Março do ano seguinte - data em que parte para as ilhas atlânticas - e como não menciona antes do referido trecho o fato de ter “ouvido dizer” dos nativos sobre a tal serpente alada, é possível que tenha recolhido essa informação ainda em terras europeias, onde abundavam comentários apoiados nas obras de Plínio e outros escritores que davam crédito a tais seres fabulosos. Poderíamos imaginar nosso navegador obtendo essa informação de seus pares, com quem buscou se informar a respeito das terras para onde em breve partiria, os quais, por sua vez, descreviam os animais estranhos avistados em terras africanas à luz da memória mítica que traziam. Mas estamos próximos demais do terreno movediço das divagações...

Voltemos ao relato. Logo após a constatação de que não havia serpentes aladas nas terras visitadas, Cadamosto menciona a existência de cobras gigantescas, numa espécie de compensação, onde um monstro substitui outro no imaginário. Desprovidas de asas ou patas, tais cobras, que assombrosamente formavam uma comunidade, tinham sua monstruosidade confirmada ao serem associadas a outros seres, tão ou mais insólitos: as formigas brancas que lhes faziam casas. Esta última informação vem precedida por um alerta: “Dizem...”, o que no entanto, não diminui de todo o impacto da informação.

O que queremos assinalar é que, no conjunto, as informações escritas pelo navegador italiano formam um quadro maravilhoso, com tintas mais ou menos carregadas de monstruosidade. Semelhante quadro pode também ser observado em outras passagens narradas por Diogo Gomes, Álvaro Velho e outros navegadores que deixaram relatos sobre a epopéia portuguesa, isto sem falar nos cronistas que recolheram e divulgaram informações sobre o Novo Mundo e o Oriente.


Construindo o monstro
Considerando o monstro como uma criação da imaginação humana, e entendendo os textos como suportes materiais onde o trabalho imaginativo é deixado a cargo do leitor, o que tentaremos indicar aqui são processos de fabricação do monstro.

Partindo do monstro como diferença, iremos examinar este processo onde, no limite, “construir um monstro consiste em perverter aquilo que se poderia chamar quebra-cabeça de Deus” (KAPPLER, 1993 p.162). Para o processo de criação do monstro convergem o acúmulo de detalhes na descrição, as freqüentes associações de idéias e referências a outros animais e/ou vegetais, e o próprio jogo de palavras, utilizado com maestria pelos autores. Trata-se de um processo que tem início já no momento de elaboração do texto e que se completa no ato da leitura, com os acréscimos da imaginação do leitor/ouvinte.

Como num jogo de “esconde-esconde” entre caçador e monstros, tentamos rastrear as pistas por eles deixadas nos textos. E se, nem sempre o monstro ou o maravilhoso se apresentam de forma acabada ou estão referidos como tal, isso no entanto, não nos impediu de traçar paralelos e apontar semelhanças entre a forma como foram tecidos os comentários feitos pelos viajantes sobre coisas e seres desconhecidos, com aquilo que se julgava ser de fato aparições de monstros e fenômenos maravilhosos em textos onde estes prodígios aparecem como objeto de especulação. Daí o cuidado em nos referirmos às nossas descrições como “pistas”, e através delas nos perguntarmos se aqueles que viram ou ouviram as «cousas admiráveis» não acreditavam se achar diante de mirabilia e da intervenção do sobrenatural.

Operamos aqui com uma noção bastante ampla dos conceitos de monstruosidade e de maravilhoso, generosa o bastante para acatar como indícios de monstruosidade formas, atitudes e hábitos profundamente diferentes daquilo que os homens do Renascimento tinham por naturais. A base de toda essa nossa análise nos foi fornecida por Kappler (1993), que concluiu que, ao final da Idade Média, “para o homem normal, os monstros são antes de mais nada formas diferentes dele”. Formas -é importante frisar- que se estendem à “cor, aos movimentos, voz, e, mesmo funções, partes ou qualidades de sua natureza”. Pois o monstro é sempre definido a partir do conceito de normalidade, é a alteridade que foge à norma. O referencial é o homem ocidental, civilizado e cristianizado; é a partir dele e de seu horizonte cultural que vão sendo desenhadas as variações admitidas como maravilhas e monstruosidades.

Uma última observação a ser feita diz respeito aos textos aqui utilizados. Descrições de terras, crônicas, diários de bordo; diversa é a natureza (como também as “etiquetas”) desses documentos. Sem nos determos no problema da classificação tipológica desses textos, por ora importa salientar que foram produzidos em momentos históricos diversos e sob condições (e funções) igualmente diversas1, compreendidos entre os séculos XV e XVI; ou seja, trata-se de um conjunto compósito de textos reunidos aqui sob a etiqueta de testemunhos da epopeia portuguesa por mares até então “nunca dantes navegados”.

Quanto aos autores dos textos, não nos limitamos aos portugueses (e nem aos que escreveram em língua portuguesa). Cadamosto e Usodimare, dada a experiência no comércio marítimo, navegaram sob a permissão do rei de Portugal e são exemplares da integração italiana nas expedições portuguesas. Os italianos em geral destacaram-se também por divulgarem à Europa os “grandes feitos” da expansão. Ao transmitirem as notícias dos empreendimentos portugueses, seus textos, mais numerosos que os dos próprios portugueses, produziam também o conhecimento a respeito das terras novamente descobertas.


Seguindo as pegadas
Quando queremos descrever algo totalmente desconhecido, com frequência recorremos à associação entre esse objeto e coisas/imagens familiares. Trata-se de um recurso pelo qual buscamos familiarizar nosso interlocutor com o objeto descrito por meio de analogias e aproximações. No intuito de dar a conhecer reduzimos o desconhecido a um quebra-cabeça onde cada parte reflete uma imagem tirada de animais e plantas diversos. O resultado é sempre uma imagem multiforme e subjetiva, pois ao buscarmos uma familiarização com o desconhecido, acabamos por criar um híbrido.

Inúmeros híbridos foram criados por meio desse processo e várias das descrições que os viajantes teceram de plantas e animais reais guardam a capacidade de dar asas à imaginação. Por meio de comparações e analogias, essas descrições acabam por construir uma nova planta, ou um novo animal, cuja forma é quase sempre extraordinária, beirando o insólito e o monstruoso.

Vejamos algumas descrições:
Neste rio de Gambra, e assim em muitos rios deste país, além das cobras espremedoras e outras diversas coisas que aí se encontram, encontra-se um animal, peixe, chamado peixe-cavalo; este animal é quase da natureza do lobo-marinho, que ora está na água, ora em terra, e de ambos estes elementos se serve. É desta natureza, isto é, desta forma: tem o corpo grande como o de uma vaca, e as pernas curtas; as patas fendidas, e a cabeça como [a de] um cavalo; e tem dois grandes dentes, como o porco montês: são estes dentes muito grandes, pois os vi com mais de dois palmos de comprimento. Por vezes, sai este animal da água e anda pelas margens como alimária quadrúpede. Alimária que não se encontra noutras partes por onde navegam nossos cristãos, a não ser nessas terras de negros. (GARCIA, 1983, p.130)
... são tão grandes como ursos muito grandes, e são muito temerosos e têm muitos dentes; e vêm-se aos homens e nenhuma lança, por [mais] força que leve, os não pode ferir. E [há] outros mais pequenos e outros muito pequeninos; e os grandes dão urros como leões e os pequeninos como cabritos. E aqui fomos um dia a folgar e vimos, entre grandes e pequenos, obra de três mil; e atirávamos-lhes do mar com as bombardas. (GARCIA, 1983, p.165).
Reconheceríamos nós, nas descrições de Cadamosto e Álvaro Velho, respectivamente, o hipopótamo e o leão-marinho? A despeito do veneziano escrever repetidamente a palavra animal (e não monstro) e de Álvaro Velho fazer anteceder à sua descrição a denominação correta de leão-marinho, ambos os seres descritos guardam relações remotas com o que era tido por sobrenatural: o primeiro, além de raro, oscila entre dois elementos opostos, terra e água; o segundo é dotado de resistência descomunal, parecendo quase imortal.

Outro animal bastante descrito por viajantes desde a Idade Média foi o elefante, que acumulou características de vários animais: cabeça grande, olhos menores que os de um cavalo, orelhas semelhantes às asas do morcego e pés de camelo ou boi, segundo Jourdain de Séverac; sua força descomunal é sempre muito evidenciada e Mandeville colocou em seu livro uma gravura que mostra um elefante levando em seu dorso uma casa de vários pavimentos. Também muito se escreveu sobre a inteligência desses enormes animais; Sebastian Brant chegou a afirmar que os elefantes singularizavam-se entre os animais por aprenderem, memorizarem e reverenciarem; e muitos atribuíram ao elefante o caráter benéfico (e fabuloso) de combater dragões.

As navegações não fizeram senão aumentar a curiosidade por esses enormes mamíferos. Cadamosto compara os elefantes africanos a porcos monteses, sua dimensão gigantesca é retrata a partir do tamanho de seus dentes, que apresentam entre “10 e 12 palmos de comprido” e dos pêlos de seu corpo medindo “um palmo e meio de comprido”; o navegador compara também a pata do elefante à de um cavalo, e descreve sua tromba como sendo um focinho redondo tal qual um prato. É certo que Cadamosto contribuiu para desmitificar um pouco a imagem do elefante ao desmentir que este dormia em pé por não poder se ajoelhar (neste período algumas pessoas admitiam uma classe de monstros que não possuía articulações no joelho), mas na tentativa de fornecer aos seus leitores um retrato falado do elefante e ao tentar dar conta de seu extraordinário tamanho e força, a sua descrição também beirava as franjas do fabuloso:
...não corre tanto nenhum homem que o elefante, só com seu passo, o não apanhe, pois, em razão do seu tamanho, que é extremo, o seu passo é muito largo.

...[sua tromba] é como um lábio grosso e duro, que ele torce, alonga e encurta, encolhendo, como quer (...) de modo que, apanhando o homem com esta tromba, atira-o tão alto, para o ar, que antes que chegue a terra, o homem está morto. Isto ouvi contar a muitos negros. (GARCIA, 1983, p.129)


Nas descrições acima é possível encontrar uma espécie de núcleo comum de atributos monstruosos: o gigantismo, a força ou resistência descomunal, e no caso do hipopótamo e do elefante, os dentes gigantescos (que na mitologia oriental divulgada por Marco Polo estão relacionados aos deuses). E, no entanto, nenhuma dessas características pode ser tomada como falsa no que se refere aos animais descritos, uma vez que todos eles são reconhecidamente grandes e dotados de grande força muscular. Então, como descrevê-los sem lançar mão dessas palavras? Por outro lado, o hibridismo, recurso linguístico tão comum nas descrições, por conta de um horizonte cultural mítico familiar aos homens dos séculos XV e XVI, era uma idéia impregnada de monstruosidade. O problema, portanto, reside no fato de que idéias como a de hibridismo, raridade, gigantismo ou força descomunal estavam por demais associadas a monstros e prodígios desde a Idade Média, e o Renascimento herdou essa bagagem cultural.

No limite, podemos dizer que qualquer animal desconhecido é passível de ser transformado em monstro a partir do trabalho imaginativo deixado a cargo do leitor, pois a imagem que ele fizer já estará, de antemão, comprometida com todo um conjunto de associações.

Costurando animais tão diferentes entre si e fazendo coexistir características jamais vistas juntas em um mesmo animal, a descrição de um animal desconhecido produz um ser imperfeito, que não pode ser visualizado a não ser por partes e é também desta imperfeição que nascem os monstros.

Há casos em que a descrição é contaminada pela teratologia no espaço mesmo do discurso. No relato conhecido como Do descobrimento da África marítima e ocidental, isto é, da Guiné, pelo infante D. Henrique de Portugal, Jerônimo Münzer, com sua retórica atenta ao gosto do público pelo insólito das novidades da Etiópia, escreveu:


Causa assombro a variedade de peixes e de animais que eles dizem ter visto por lá. Conrado de Ratisbona e muitos outros contaram-me, entre outras coisas, que viram lá um monstro marinho que pastava perto da água e que se parecia com um cavalo em tudo, excepto na cor, que era como a dos jumentos; tinha também dentes proeminentes como o javali. Como lhe perseguissem o filho, a mãe, furiosa, precipitou-se de boca aberta contra o barco em que eles estavam, furou-lhe a borda com o dente e em seguida escondeu-se no mar. Nessas regiões tropicais por toda a parte se podem ver esses cavalos marinhos. (GARCIA, 1983, p.70)
Aqui, não só a imaginação do leitor é convidada a visualizar um híbrido, como já se afirma, de antemão, o caráter monstruoso da criatura descrita. Note-se que a descrição do cavalo marinho aparece em um tópico separado, intitulado «maravilhas do mar etiópico» e não sob o tópico «dos frutos e animais da Etiópia», confirmando assim o seu estatuto sobrenatural.

Por fim, se o monstro pode ser caracterizado pela simples subversão das formas, independentemente de apresentar ou não caráter sobrenatural, as descrições de viajantes e cronistas oferecem um saboroso convite à imaginação ao fornecerem retratos pitorescos das espécies nativas da África e do Oriente


Fenômenos prodigiosos
Prodígios são sinais que precedem grandes acontecimentos; são avisos divinos, e portanto, material de interpretação. Como sinais premonitórios, sua adivinhação segue por uma linha dupla: lança luz sobre o que ainda está por vir e traz, na bagagem, um conselho moral. Esta apresentação do prodígio que acabamos de fazer é tributária da Idade Média e continuou a vigorar na Modernidade. Mas não devemos nos esquecer que o que define, por excelência, um prodígio ou um fenômeno maravilhoso é a sua raridade, pois é ela quem lhe empresta a qualidade de distúrbio em relação ao curso normal da natureza. Contra a natureza, ou além da natureza, essas noções não importam muito aqui, pois para nós importa reter que a natureza em questão é sempre a natureza conhecida e cotidiana na Europa; visto por esse viés, um fenômeno natural curioso ocorrido em terras estranhas, é também uma manifestação prodigiosa; porque é raro e porque é à primeira vista incompreensível, esse tipo de evento é, quase sempre, descrito com tintas carregadas de maravilha e espanto.

Muitos viajantes descreveram ou mencionaram em seus relatos fenômenos curiosos que resvalam para o campo do maravilhoso com facilidade. Quem conta por “ouvir dizer” é sempre candidato a veicular informações já deturpadas, e a sabedoria popular não se cansa de advertir: «Quem conta um conto aumenta um ponto». Esse nos parece ser o caso das informações sobre o fogo que por nove anos teria ardido sobre a Ilha de Madeira e que é mencionado em vários relatos. Outras vezes, um fenômeno natural desconhecido, mesmo quando visto pelos viajantes in loco pode suscitar um certo halo de prodígio pela falta de familiaridade com que é descrito. As últimas linhas do relato de Martin Behaim, conhecido como Do primeiro descobrimento da Guiné, nos reservam uma descrição belíssima das terras vulcânicas da Ilha de São Miguel, uma construção literária que parece trazer na surdina - talvez pela rara beleza - o eco das descrições fabulosas:


Aí há um grande monte cheio de fogo, que no Verão aparece como carvão em brasa, e no Inverno mostra grande fumaceira. Aí também, numa grande planície, há terra que parece cinza, sempre em fervura, e tudo o que lançam a esta terra se consome imediatamente. (GARCIA, 1983, p.54)
As chuvas e o clima do hemisfério Sul também se assemelham a prodígios neste trecho que Münzer acrescentou ao relato de Behaim:
Há também nessas regiões, quando o sol está nos signos setentrionais, muitas e formidáveis trovoadas. O trovão chega a durar às vezes meia hora, e, quando chove nessa ocasião, a chuva é quente e fétida, chega quase a queimá-los e estraga todas as roupas de linho ou de lã, a não ser que as lavem com água do mar. Quando troveja, desce uma espécie de vapor malsão como o do enxofre, o qual para muita gente é nocivo. Os homens do norte, como, por exemplo, os alemães, não suportam bem o clima dessas regiões: morrem quase todos e por isso são poucos os alemães que o rei manda à Etiópia. (GARCIA, 1983, p.65)

Natureza e cultura: o olhar do estrangeiro
A descrição dos hábitos, da cultura e da natureza da África desconhecida também oscilou, como no caso do Brasil, entre a edenização e a detração. A multiplicidade das formas e a fertilidade da terra mereceram apreciações positivas e carregadas de admiração. Münzer fala de cidras enormes e de laranjas do tamanho da cabeça de um homem e diz ter recolhido essas informações do próprio rei D João II, que teria lhe falado também de um jardim que nessa ilha “se desenvolveria tanto em oito meses como em Évora em quatro anos” e de uma planta cuja raiz possuía “a grossura de um homem”.

Embora mais comedidos, Cadamosto e Caminha também dedicaram vários parágrafos de suas narrativas à exuberância das árvores e dos frutos produzidos nas terras férteis da África e do Novo Mundo. O veneziano põe a trabalhar o seu olhar de mercador, sempre atento às possibilidades mercantis oferecidas pelas espécies africanas, mas não hesita em comentar algo que poderia bem ser um “milagre da natureza”:


Nesta ilha há mosteiros de frades de S. Francisco e da Observância, e são homens de muito santa vida. E é de saber que eu ouvi dizer a homens dignos de fé terem visto nessa ilha, por ser a região perfeita, agraço e uva madura na Semana Santa, o que é coisa estranha como nunca vi. (GARCIA, 1983, p.84)
Indícios ou comparações sutis com o paraíso terreal – a região perfeita - não são raros nas narrativas dos viajantes. Habituados com a paisagem monótona da Europa e convivendo constantemente com a carestia de gêneros alimentares, aos olhos desses homens, as terras férteis da África e do Novo Mundo não poderiam se apresentar com menor admiração; a comparação com o paraíso é a marca de uma Europa castigada pela fome, que sonha com a abundância, cuja utopia tinha raízes medievais na lenda de Cocanha.2

O sonho de riqueza também é o reverso da pobreza européia e, embora os espanhóis sejam os que melhor personificam o mito do El Dourado3 na América, os portugueses também registraram as marcas dessa procura. Diogo Gomes fala de um homem riquíssimo, conhecido como rei Bormeli, que


...era senhor de todas as minas e que tinha ante a porta do pátio de sua casa uma pedra de ouro tal qual nasce na terra, isto é, que ainda não foi ao lume, de tamanho tal que 20 homens a custo a poderiam fazer mexer, e que a essa pedra o rei prendia sempre o seu cavalo, e que tinha essa pedra de ouro não pelo seu valor, mas pela nobreza e grandeza de tal achado, e que os nobres de sua corte trazem os narizes e olhos cheios de ouro. (GARCIA, 1983, p.40)
A descrição dos costumes dos habitantes das terras desconhecidas vai do simples espanto à demonização. O ritual em torno da morte de um rei praticado na Ilha de Tenerife assume formas grotescas no relato de Behaim, assim como as práticas utilizadas para o controle de natalidade na Ilha de Palma chamam a atenção pela crueldade e pela naturalidade com que é vista pelos habitantes da Ilha. Colocados lado a lado, os dois trechos fornecem um testemunho do caráter selvagem dos costumes observados em terras africanas.

No quesito demonização, Münzer e Cadamosto não hesitaram em classificar os negros como um povo feiticeiro. Cadamosto menciona encantadores de cobras (sapos, gatos e serpentes, lembremos, sempre aparecem associados ao demônio no imaginário cristão) e descreve, por “ouvir dizer” um temeroso ritual de encantamento praticado por Budomel:


...quando ele queria fazer peçonha para envenenar as suas armas, fazia um grande círculo, e, com encanto, fazia vir para aquele círculo todas as cobras da região que estavam em volta; e depois, aquela que lhe parecia mais venenosa, essa matava com as suas mãos, e às outras deixava-as ir e tomava o sangue dessa víbora, e tratava-o com uma certa semente de uma árvore (a qual [semente] eu vi e adquiri) e fazia uma mistura; e com isso envenenava as suas armas. (GARCIA, 1983, p.109)
O que queremos ressaltar é que os animais, fenômenos e costumes, tal como foram descritos pelos viajantes, mantêm um diálogo - que não pode ser desprezado - com os mitos e crenças cultivados pelo imaginário europeu. Independentemente do uso - mais ou menos carregado - que se faz da retórica nestes textos, essas descrições atestam os limites do conhecimento empírico na produção de um saber que se queria cético e demolidor dos mitos livrescos.

Outro italiano, Usodimare4 escreve uma carta aos irmãos onde menciona, por “ouvir dizer”, elefantes e gatos de algália nos mesmos termos de unicórnios e homens com cauda que comem os filhos, sendo mais um testemunho da sobrevivência de idéias fantásticas relacionadas à África. Sobrevivência que vai se fazer presente também no Novo Mundo, pois se textos vistos até aqui pertencem basicamente ao século XV, e alguns se referem aos períodos iniciais da expansão, o século seguinte não deixará de dar a sua contribuição com as observações saídas das penas dos cronistas.


Crônicas do Novo Mundo e do Oriente
Antônio Galvão é o cronista português do século XVI que mais recolheu informações acerca de monstros e seres fabulosos. O Tratado dos descobrimentos, concluído provavelmente em 1550 e publicado em Lisboa em 1563, é uma obra que carrega a marca das crônicas dos séculos XV e XVI e o tom fabuloso, apropriado a uma sensibilidade curiosa acerca das terras de além-mar.

Galvão fala em sereias, amazonas e homens dotados de rabo - os dara-que-dara, menciona a existência da Ilha das Sete Cidades e perde-se em datas e informações confusas; alude a “homens com esporões nos artelhos como galos” existentes da Ilha de Maluco e fala também dos gigantes patagões encontrados pela expedição de Magalhães. Tudo isso é sabido, de forma que o que iremos privilegiar aqui as descrições de animais, plantas e costumes que, como no caso dos navegadores que estivemos vendo, remetem ao maravilhoso. Vejamos algumas dessas descrições:


Há nestas ilhas muitos e diversos pescados, e um que não se entende se é alimária, se peixe; tem pés e mãos como lagarto, focinho e rabo como galgo, cria-se na água, e na terra, pelas árvores, põe ovos como de galinhas, de que se gera ...

Há lá um peixe que se chama monatim; é grande e de coiro, tem a cabeça e o rosto de vaca, e também na carne parece[-se] muito a ela. Tem uns braços junto dos ombros, com que nada (...) tem umas pedras na cabeça que são proveitosas para a dor de pedra, e a fêmea tem tetas nos peitos com que cria os filhos que nascem vivos. (GALVÃO, 1989,pp41-42)


Em descrições como essas, como formar uma imagem capaz de dar conta de tamanha diversidade? Onde um termina animal e onde começa o outro? Por outro lado, se répteis, anfíbios e mamíferos que vivem na água sempre se apresentaram muito problemáticos do ponto de vista da classificação, o que dizer, por exemplo, deste espécime da fauna indiana:
Há nestas terras um bicho pequeno que se lhe[s] pega [aos elefantes] na tromba e os ensanguenta até que os mata. Tem a concha tão dura que um arcabuz não o passa, e cria nos fígados uma figura de homens ou mulheres, a que chamam toqueta, que é como mandrágora. E quem as traz consigo, dizem que não pode morrer a ferro(GALVÃO, 1989, p.52)
É interessante nos determos um pouco na menção que Galvão faz à mandrágora, planta medicinal que sempre aparece associada às práticas mágicas. A planta, por causa do aspecto antropomórfico de sua raiz (que lembra vagamente o tronco humano) foi por vezes considerada uma espécie de embrião incompleto, capaz de se desenvolver a partir da intervenção do sagrado; por influencia de Plínio, foi também considerada por muitos uma variante da erva da vida eterna.

Nas Ilhas Maldivas Galvão afirma existirem palmeiras “rasas como a água” e conta que, segundo os portugueses que lá estiveram, nestas ilhas “se criam cocos debaixo de água, que são muito proveitosos contra toda peçonha”. É difícil dizer a que vegetal o autor se refere; e, como no caso do pequeno bicho indiano capaz de matar um elefante, nos perguntamos onde termina o engano e onde começa a fábula. Esta opacidade com que as descrições se apresentam em momentos como esses é que faz com que elas se tornem tão intrigantes, como se, entre o objeto descrito e nós, interpusesse-se uma malha de conceitos, idéias e associações aparentemente impossível de ser atravessada.

Para terminar este breve comentário sobre Tratado, gostaria destacar uma passagem que é exemplar da forma como as informações aparecem no texto de Galvão, onde se misturam milagre, diversidade e maravilha:
E como se vissem [os castelhanos] na hora da morte, pediram a Deus e sua Mãe socorro [e] foram ouvidos de maneira que, quando às suas mãos vinham, todos saravam, assim aleijados como os de doenças muito incuráveis; até ressuscitaram um morto. E não era muito, se tinham a fé tão inteira como o tempo queria (...) Foram ter aos Lagazes, que andam em cabildas com seus gados, como alarves, e são tão pobres que comem cobras, lagartos, aranhas, formigas, e todos os bichos; com isto vivem tão contentes que sempre dançam, bailam e desenfadam. Compram as mulheres aos inimigos [e] matam as filhas para elas não casarem com eles. Passaram em terras [em] que os filhos mamavam dez [e] doze anos, [e] em outras que casavam os homens uns com os outros. E há aí tais povos que não choram nem riem, e diz[em] que, se o fazem, morrem por isso. (GALVÃO, 1989, p.70)
O Novo Mundo também forneceria aos seus observadores uma quantidade considerável de produtos nativos que se transformam em curiosidades. A fauna e a flora brasileira, bem como os costumes do gentio foram retratadas no século XVI por Pero de Magalhães Gandavo, Gabriel Soares de Souza, e Fernão Cardim.

Gandavo dedicou à colônia portuguesa dois textos, o Tratado da Terra do Brasil, escrito por volta de 1570-1573 (e que nada mais é do que uma versão posterior do seu texto intitulado Tratado da Província do Brasil acrescido de um capítulo) e a História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, publicada em Lisboa em 1576 e que refunde e amplia as duas versões do Tratado. Notícia do Brasil, de Gabriel Soares de Souza, surge em 1587 e compõe-se de duas partes, «Roteiro geral com largas informações de toda a costa do Brasil» e «Memorial e declaração das grandezas da baía de Todos-os-Santos, de sua fertilidade e das notáveis partes que tem», trata-se de uma obra grandiosa e é considerada “o mais completo estudo global sobre o Brasil realizado no século XVI”. Também ao longo da década de 1580 foi composta a obra do padre jesuíta Fernão Cardim que se divide em narrativas epistolares e dois tratados - «Do clima e terra do Brasil» e «Do princípio e origem dos índios do Brasil». Tal como aconteceu às vezes com a obra de Soares de Souza, os textos de Cardim foram publicados parcialmente, sendo que o conjunto dos seus escritos só veio a ser publicado na íntegra em 1925, sob o título de Tratados da Terra e Gente do Brasil.

As descrições feitas pelos três cronistas são recorrentes, pois estão inseridas num mesmo sistema de valores, obedecem a um mesmo projeto, que é o de dar a conhecer as qualidades colônia. De Gandavo aos dois cronistas dos anos 1580 há um sensível refinamento das descrições, o que em parte, deve-se ao progressivo conhecimento que os portugueses foram travando com os produtos nativos e com o gentio.

Os animais estranhos aqui também são descritos por analogias ou aproximações. As descrições do tatu acumulam comparações com o coelho, o leitão, a lagosta e o cágado, sendo que a única que é comum aos três observadores é a comparação com o “cavalo armado”. O fato desse animal apresentar carne comestível e saborosa faz sumir qualquer associação possível com o monstro, mas a imagem formada a partir das analogias com animais tão distintos entre si confere-lhe a mesma estranheza e raridade de um prodígio. O tamanduá, e sobretudo o bicho-preguiça (que, segundo Gandavo, levava dois dias para subir em uma árvore e mais dois para descer) também foram objeto de descrições curiosas, sendo que a mais divertida, e talvez por isso a mais conhecida, vem novamente de Cardim, que comparou-o a cães felpudos “cujo rosto parece de mulher mal toucada”

As cobras mereceram algumas das descrições mais surpreendentes; a jibóia, segundo o jesuíta, embora não seja venenosa, tem uma forma bastante peculiar de matar suas presas: após se enrodilhar de forma a quebrar os ossos de sua vítima, ela a lambe “e seu lamber tem tal virtude que a moe toda”. Entre as cobras fantásticas, estão as serpentes aladas mencionadas por Gandavo, que afirma por ouvir dizer que “[possuem] asas muito grandes e espantosas, mas acham-se raramente” Cardim fala de uma estranha cobra a quem os índios chamam de “Bom”, “porque quando anda vai dizendo bom, bom.” A sucuri, chamada de sucuriú por Soares de Souza e de giboioçu por Gandavo, na descrição dos três cronistas e na de Anchieta aproxima-se de um ser mágico, capaz de renascer após ter-lhe apodrecido e arrebentado a barriga. Mágica também parece ser a ebijara, cobra branca que tem “duas bocas uma na cabeça outra no rabo [e que] morde com ambas”

Ainda mais próxima do monstruoso é a descrição que Cardim faz da sanguessuga, classificada como um “peixe peçonhento”:


He uma cobra que anda no mar; o seu modo de viver he deixar-se estar muito queda e qualquer cousa viva que lhe toca nella tão fortemente apegada, que de nenhuma maneira se póde polir, e desta maneira come, e se sustenta; algumas vezes sae fóra do mar, e torna-se muito pequena, e tanto que a tocão, pega, e se vao com a outra mão para desapegarem ficam também pegados por ella, e depois faz-se tão grossa como um bom tirante, e assi leva a pessoa para o mar e a come. (CARDIM, 1980, p.50)
Prodigiosa também é a árvore que verte água (que segundo os comentadores de Cardim poderia ser uma leguminosa típica da região nordestina ou uma espécie de cacto):
Esta árvore se dá em campos e sertao da Bahia em lugares aonde não ha agua, he muito grande e larga, nos ramos tem huns buracos de comprimento de hum braço que estão cheios de agua que não tresborda nem no inverno, nem no verão, nem se sabe donde vem esta agua, e quer della bebão muitos, quer poucos, sempre está em o mesmo ser, e assi se serve não somente de fonte mas ainda de hum grande Rio caudal, e acontece chegarem 100 almas ao pé della, e todos ficão agasalhados, bebem, e levão tudo o que querem, e nunca falta agua; he muito gostosa, e clara, e grande remédio para os que vão ao sertão quando não achão outra. (CARDIM, 1980, p.40)
Em nosso entender as descrições destacadas acima remetem de alguma forma ao maravilhoso. Seja pela associação aos mitos como o da fênix ou o da fonte da vida, seja pelo inusitado de suas formas e comportamentos, ou ainda, por sua raridade ou sua nocividade, as criaturas retratadas pelos cronistas parecem ser o fruto da manifestação de uma natureza que segue desígnios completamente estranhos ao europeu.

Por fim, como é de se esperar ao fim de uma caçada às criaturas insólitas, não poderíamos deixar de registrar aqui os três famosíssimos monstros descritos por nossos cronistas, upupiara segundo Soares de Souza; igpupiára, conforme Cardim e hipupiara no entender de Gandavo:


...não há dúvida senão que se encontram na Bahía e nos recôncavos dela muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela sua língua upupiara, os quais andam pelo rio de água doce pelo tempo do verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangadas, onde os tomam, e aos que andam pela borda de água, metidos nela. A uns e outros apanham, e metem-nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à terra com a maré vazia, afogados e mordidos na boca, narizes e em sua natura (...) os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus” (Souza, s.d., p.190)
Estes homens marinhos se chamão na língua Igpupiára; têm-lhes os naturaes tão grande medo que só de cuidarem nelle morrem muitos, e nenhum que o vê escapa; alguns morrerão já, e perguntando-lhes a causa, dizião que tinhão visto este monstro; parecem-se com homens de boa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As femeas parecem mulheres, têm cabellos compridos, e são formosas; achão-se estes monstros nas barras dos rios doces (...) O modo que têm de matar he: abração-se com a pessoa tão fortemente beijando-a, e apertando-a consigo que a deixão feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta dão alguns gemidos como de sentimento, e largando-a fogem; e se levão alguns comem-lhes somente os olhos, narizes e pontas dos dedos dos pés e mão, e as genitalias, e assi os achão de ordinario pelas praias com estes cousas menos. (CARDIM, 1980, p.50)
A descrição de Gandavo é a mais longa das três e conta, com detalhes, a forma como se matou o monstro na capitania de São Vicente no ano de 1564. A criatura “de horrendo aspecto” e que movia-se “com passos e meneios desusados” produzia hurros horríveis, “era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas muito grandes como bigodes”, alimária realmente singular, era “coisa não vista e fora do parecer de todos os outros animais”. Talvez por isso, Gandavo achou que, melhor do que acumular comparações vãs, bom mesmo seria oferecer ao leitor um desenho, um retrato do monstro, “tirado pelo natural”. E, ao fim de seu capítulo, o cronista dedicou um parágrafo - precioso para nós - a meditar sobre a monstruosidade:
E assim também deve de haver outros muitos monstros de diversos pareceres, que no abismo desse largo e espantoso mar se escondem, de não menos estranheza e admiração; e tudo se pode crer, por difícil que pareça: porque os segredos da natureza não foram revelados todos ao homem, para que com razão possa negar, e ter por impossível as coisas que não viu nem de que nunca teve notícia. (SILVA, 1995, p.97)
As palavras e as formas
O monstro de Gandavo era tão singular que não poderia, senão de forma imperfeita, ser descrito por palavras. Afinal, como poderiam as palavras reproduzir fielmente formas tão inéditas? Porém, se a palavra é um instrumento imperfeito para comunicar o monstro, ela parece-nos ser talvez o mais perfeito para cria-lo, ao aliar-se à imaginação. Foi por meio de palavras justapostas umas às outras que os autores dos relatos alteraram, deformaram, recriaram a realidade.

Não porque eram fabuladores. Na maioria das vezes, esses autores acabaram criando monstros sem o perceber. Tentando dar conta da multiplicidade de formas criadas pela Natureza, esses autores acabaram por dar forma ao monstro, pois, se de um lado, os objetos da descrição frequentemente eram estranhos à maioria dos europeus, de outro - como disse Febvre, “A quem, no século XVI, faltava familiaridade com os anjos e os demônios? Quem não trazia em si um estranho universo fantasmagórico e cheio de espécies singulares?” (FEBVRE, 1970, p.491)

Para G.Lascault, o monstro é o produto final da pobreza do vocabulário, da incapacidade das palavras em se sustentarem em um discurso coerente: “certos monstros, como certos mitos, demonstram que a palavra nem sempre se adapta a seus fins, que nem sempre diz o que quer, que nem sempre dá a descrição pura do mundo percebido, que não constitui uma ferramenta perfeita”.(KAPPLER, 1993, p.276)

Na descrição de seres e situações inusitadas, a insuficiência das palavras abre frestas por onde se insinua a teratologia, e o discurso, a partir de então, se deixa levar por ela. Pelas próprias condições da linguagem, pelo processo inerente à descrição, pela capacidade criadora das palavras e, sobretudo, pela bagagem cultural permeada pelo conceito de maravilhoso que ainda pulsava no século XVI, até mesmo o mais comedido, ou o mais cético relato poderia fabricar monstros - à revelia mesmo de seus próprios autores.



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1 O caráter extremamente compósito dos textos arrolados sob a etiqueta «literatura de viagens» já foi apontado por vários estudiosos e muitas foram as fórmulas de definição propostas para esses textos, cuja variedade de gênero vem frustrando, uma a uma, qualquer tentativa de classificação rígida. A historiadora Carmen Radulet realizou um breve, porém precioso, levantamento sobre o assunto e problematizou as grelhas classificatórias conhecidas evidenciando os limites de suas balizas. Reiterando a necessidade de se redefinir os tópicos classificatórios, e propondo uma fórmula mais ampla capaz de dar conta da pluralidade (textual e lingüística) desses registros, Radulet chamou a atenção para a necessidade de se fazer com que a classificação tipológica deixe de ser um fim em si mesmo e passe a atuar como instrumento de análise no estudo dos documentos relativos à expansão marítima. Ver RADULET (1991).

2 A principal característica do país lendário de Cocanha é a abundância de gêneros alimentícios que podiam ser desfrutados por todos os homens de forma igualitária e por isso acabou por se tornar o sinônimo da utopia alimentar da Idade Média. A primeira referência documentada sobre a Cocanha data de 1142, mas a maior difusão da lenda ocorrerá justamente nos séculos XVI e XVII.

3 Cultivado pelos incas, o mito do El Dourado inicialmente se refere a um Homem Dourado, assim chamado por recobrir seu corpo em ouro. Rapidamente os espanhóis transformaram o Homem Dourado em um país, o Eldorado, em cuja busca se empenharam vários conquistadores. No século XVIII, Voltaire, em Candide, retoma o mito original e o refunde, mesclando-o ao mito espanhol: Eldorado é o país buscado pelos conquistadores, e seus habitantes vestem roupas feitas de puro ouro.

4 Usodimare foi um navegador genovês bastante ligado ao comércio e esteve e Portugal pelo menos em três ocasiões: antes de 1453, em 55 e em 56. Aventurou-se com os navegadores portugueses pela região da Guiné e viajou também ao lado de Cadamosto. Sua carta é datada de 1455 e dirigida a seus irmãos e credores em Gênova. Trata-se de um texto breve e confuso, escrito em latim e que tem levantado, segundo alguns especialistas, problemas quanto à sua autenticidade. A carta menciona ainda, de forma confusa, o Preste João e um possível remanescente (quando talvez o autor quisesse dizer descendente) da expedição dos irmãos Vivaldi.



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