No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios



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O adeus
No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: "Meu Deus, seus olhos estão esverdeando":

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.

Rubem Braga – WWW.releituras.com
01. O título do texto de Rubem Braga é o prenúncio de uma idéia de separação que percorre a narrativa.

Essa idéia é percebida pelos personagens por meio do seguinte elemento:


(A) falta de paixão

(B) desgaste da relação

(C) invasão de espaço

(D) proximidade em excesso


02. Os tempos pretéritos utilizados no texto desempenham diferentes funções na construção do discurso narrativo.

A função do tempo pretérito sublinhado nos fragmentos abaixo encontra-se corretamente definida em:


(A) “Alguém vinha e apertava a campainha;” (l.10) – expressar indeterminação do agente

(B) “que horas seriam?” (l.32) – mostrar simultaneidade de fatos

(C) “O homem fez um grande embrulho de jornal;” (l.40-41) – indicar ação finalizada

(D) “alguém viera e batera à porta,” (l.45) – caracterizar ausência de dúvida


03. Figuras de linguagem – por meio dos mais diferentes mecanismos – ampliam o significado de palavras e expressões, conferindo novos sentidos ao texto em que são usadas.

A alternativa que apresenta uma figura de linguagem construída a partir da equivalência entre um todo e uma de suas partes é:


(A) “que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?” (l.4-5)

(B) “Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar.” (l.6-7)

(C) “batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro.” (l. 45-46)

(D) “senti que ela me disso isso num instante, num olhar entretanto lento.” (l.49-50)


05. O espaço exterior ao apartamento é tratado como um elemento de oposição aos amantes.

Essa idéia não é percebida na seguinte passagem do texto:


(A) “Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios;” (l.1-3)

(B) “O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar, e assim três, quatro vezes sucessivas.” (l.7-9)

(C) “Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam;” (l.35-37)

(D) “E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara;” (l.43-45)



Soberana Besteira
Só agora, depois da proibição e da propaganda que isso trouxe para o livro, é que me dispus a ler a biografia não autorizada de Roberto Carlos – eu e a torcida do Flamengo – pela internet. Bom católico, o rei tinha obrigação de conhecer o mito da maçã na paraíso e desconfiar que não só a fruta, mas também os livros ficam mais apetitosos quando interditados.

Li e fiquei decepcionado, não com a qualidade da obra, mas com as revelações. Onde está a invasão de privacidade? Não há nada ali que já não tivesse sido publicado por jornais ou revistas. O autor, Paulo César de Araújo, chegou a me dizer, brincando: “Se tivesse que ser processado, deveria ser por plágio.” Nem os episódios que mais irritaram o rei são inéditos, o caso com a cantora Maysa, a doença e morte de Maria Rita.

Aliás, foram tão divulgados que já caíram numa espécie de domínio público, o que enfraquece a alegação de “danos materiais” que a ação invoca, sob pretexto de que o livro tiraria o “ineditismo e a originalidade da biografia que o Autor pretende lançar no futuro.” É sintomático que não haja no processo um desmentido sequer, nenhuma acusação de calúnia ou de ofensa, até porque o biógrafo é grande fã do biografado, o que levou alguém a dizer que essa história deveria ter como epígrafe o verso: “Sua estupidez não te deixa ver que te amo.” Incrível que não tivessem dito a Roberto Carlos que sua história de vida, exemplar, não merecia ser manchada aos 66 anos. E inutilmente, pois o que foi censurado está sendo escancarado. Faltou um súdito mais próximo lhe dizer com franqueza: “Majestade, isso é uma soberana besteira.”

(Zuenir Ventura. “O Globo”, 07/05/2007, fragmento)


01. As aspas cumprem, na organização textual, as mais variadas funções. No fragmento que constitui o texto, elas são empregadas por diversas vezes.

A explicação para o uso das aspas, no texto, está incorretamente formulada em:


(A) ”Se tivesse que ser processado, deveria ser por plágio.” (Transcreve fala alheia, conferindo-lhe veracidade pela utilização do discurso direto).

(B) “...o ineditismo e a originalidade da biografia que o Autor pretende lançar no futuro.” (Destaca alegações alheias, que o cronista não considerava pertinentes).

(C) “Sua estupidez não te deixa ver que te amo.” (Coloca em realce verso do compositor de que trata o texto, para reverenciá-lo).

(D) “Majestade, isso é uma soberana besteira.” (Cita hipotética frase alheia que, na realidade, traduz seu próprio pensamento).


02. No primeiro parágrafo o autor usa a expressão “torcida do Flamengo” a serviço de uma das argumentações que emprega para comentar criticamente a atitude do compositor.

A passagem do texto cujo sentido também alicerça tal linha argumentativa é:


(A) “Onde está a invasão de privacidade?”

(B) “Se tivesse que ser processado, deveria ser por plágio.”

(C) “É sintomático que não haja no processo um desmentido sequer...”

(D) “..., pois o que foi censurado está sendo escancarado.”


03. No fragmento aqui transcrito, pretende o autor, basicamente:
(A) criticar os assessores de Roberto Carlos por não o terem prevenido das conseqüências de seu ato.

(B) destacar os paradoxais efeitos das proibições, que tornam mais atraentes as coisas proibidas.

(C) colocar em questão, com argumentos contrários, a atitude de censura do compositor e cantor Roberto Carlos.

(D) destacar a vida tida como exemplar do cantor, e minimizar, por isso, o seu posicionamento no episódio em questão.


04. Nos dois primeiros parágrafos do texto, emprega-se o vocábulo conector “mas”, que traz, nas passagens onde está, os valores de:
(A) adição e oposição, pela ordem.

(B) oposição e adição, pela ordem.

(C) oposição, nos dois casos.

(D) adição, nos dois casos.




Coração numeroso
Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver


(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas


autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.


A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.

Carlos Drummond De Andrade – Moriconi, Ítalo (org). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
01. O título Coração numeroso expressa o vínculo final do eu lírico tanto como o Rio de Janeiro quanto com Minas Gerais.

Em relação a esses lugares, o título revela a seguinte atitude do eu lírico:


(A) temer os dois

(B) valorizar a ambos

(C) preferir um ao outro

(D) abandonar um pelo outro


02. O poema de Drummond pode ser dividido em duas partes em que se manifestam sentimentos de exclusão e de identificação em relação ao Rio de Janeiro.

O verso que demarca a mudança de sentimento do eu lírico é:


(A) “Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas”. (v.15)

(B) “O mar batia em meu peito, já não batia no cais”. (v.20)

(C) “A rua acabou, quede as árvores? A cidade sou eu”. (v.21)

(D) “meu amor.” (v.24)


03. Minas Gerais é um espaço privilegiado de lembrança no poema.

A relação de pertencimento que o eu lírico estabelece com tal espaço está sintetizada em:


(A) “ e bondes tilintavam,” (v.5)

(B) “faziam de mim homem-realejo impertubavelmente” (v.11)

(C) ”voluptuosidade errante do calor” (v.17)

(D) “mil presentes da vida aos homens indiferentes,” (v.18)


04. O discurso poético se caracteriza pelo uso de recursos que abrem ao leitor a possibilidade de múltiplas interpretações.

A dupla possibilidade de leitura de uma mesma palavra é o recurso que provoca essa multiplicidade em:


(A) “Eu passava na Avenida quase meia-noite.” (v.2)

(B) “Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.” (v.3)

(C) “Meus paralíticos sonhos desgosto de viver”. (v.9)

(D) “na Galeria Cruzeiro quente quente”. (v.12)



Ausência de sujeito
A objetividade aspirada pelo jornalismo procura sempre criar um efeito de isenção, de ausência de sujeito enunciador. Pretende-se dar a impressão de que os fatos se narram por si mesmos. Por isso, muitos manuais de redação de grandes veículos desaconselham o uso dos pronomes e verbos na primeira pessoa. Quando eventualmente a reportagem é mencionada, cita-se o órgão de comunicação: “A revista entrevistou...”, ou ainda o coletivo, “a equipe de reportagem procurou...”, conferindo um ar de impessoalidade ao texto.

A exploração desses recursos produz um efeito de veracidade, camuflado a existência de um determinado ponto de vista. Ocorre que o uso da linguagem é sempre subjetivo. Basta pensarmos em algo óbvio: duas pessoas não narram o mesmo fato do mesmo modo. Cada uma faz suas escolhas na hora de construir um texto, de transmitir uma mensagem.

Analisemos um exemplo trivial: a notícia sobre acidentes em rodovias em um determinado feriado. Consideremos o seguinte título hipotético: “Morreram 20 pessoas nas rodovias neste feriado”. Imaginemos que o jornalista incluísse a palavra “só” neste título, ou seja: “Morreram só 20 pessoas nas rodovias neste feriado”. Fica pressuposto um juízo de valor, indica-se que foram poucos mortos; pode ficar subentendido que houve um bom trabalho do Governo, da polícia rodoviária ou das concessionárias das rodovias na prevenção de acidentes.

Agora imaginemos que a mesma palavra fosse colocada em outra posição: “Morreram 20 pessoas nas rodovias só neste feriado”. Há uma inversão total do sentido. Pressupõe-se que muitas pessoas morreram nas estradas, o que revela irresponsabilidade. Desse modo, duas letrinhas aparentemente inofensivas alteram a percepção do fato. Eis o poder da linguagem.

Esse mesmo acontecimento poderia ainda ser relatado de outras maneiras, como “Rodovias mataram 20 pessoas neste feriado”, tornando “rodovias” o sujeito ativo do fato, ou ainda, “Diminui o número de mortos nas estradas”, em que a escolha do verbo leva o leitor a perceber o fato como uma boa notícia.

Ao redigir, o jornalista seleciona e hierarquiza informações. Não se trata necessariamente de manipulação consciente; não é isso que está em discussão. Mas isso confirma que, sim, há um sujeito da enunciação, indicado por meio da produção do texto.

(Tânia Sandroni, fragmento do artigo “Nem tudo o que reluz é ouro”, revista “Língua Portugeusa”, ano I, n.6, pág. 42/43)
01. A leitura atenta do texto permite concluir que sua autora pretende:
(A) ratificar a tese da objetividade, costumeiramente proclamada como marca da veracidade que deve caracterizar o noticiários jornalístico.

(B) contestar a veracidade das notícias veiculadas na mídia jornalística, porque, nelas, o toque subjetivo configura manipulação da informação.

(C) mostrar que há um posicionamento subjetivo no exercício da função de jornalista, quando, por exemplo, selecionam-se informações e escolhe-se a forma de apresentá-las.

(D) retificar a idéia, comumente presente nas considerações sobre o jornalismo, de que este sempre estará a serviço de interesses não revelados.


02. “Quando eventualmente a reportagem é mencionada, cita-se o órgão de comunicação: ´A revista entrevistou...´, ou ainda o coletivo, ´a equipe de reportagem procurou...´”



As citações mencionadas na passagem anterior exemplificam uma figura de linguagem denominada:
(A) personificação.

(B) metáfora.

(C) eufemismo.

(D) metonímia.


03. Para convencer o leitor de sua tese, usa a autora de recursos argumentativos predominantes. Trata-se de:
(A) ironias e silogismos.

(B) exemplificações e comparações.

(C) citações e paródias.

(D) paráfrases e apropriações.


04. No texto se exemplifica, por duas vezes, a ocorrência de pressupostos na frase, com a utilização da palavra “só”. Nas alternativas a seguir, também é possível identificarem-se pressupostos, a partir do emprego do mesmo vocábulo.

Marque a opção em que não é adequada a explicação formulada entre parênteses:


(A) “Daquela turma, só dez alunos compareceram à prova.” ( o número de alunos que compõem a turma é bem superior a dez).

(B) “Só no colégio o jovem encontrava a paz.” (o jovem não tinha paz em outros ambientes que não o do colégio).

(C) “Ele só se preocupa muito com as coisas da política.” (o sujeito em questão limita suas preocupações aos fatos políticos).

(D) “Naquele tempo todo de prova, ela só fez duas questões.” (o tempo disponível certamente permitiria a feitura de mais de duas questões).


05. Segundo a teoria gramatical, a voz passiva é aquela em que o sujeito sofre a ação e pode expressar em nossa língua de duas formas – a analítica e a sintética -, como o exemplifica a passagem a seguir, extraída do texto:
Quando eventualmente a reportagem é mencionada, cita-se o órgão de comunicação...”

Não se podem confundir tais manifestações lingüísticas com outras nas quais não existe, formalmente, a voz passiva, embora esteja presente a idéia de passividade.

Assinale, entre as alternativas a seguir, aquela que registra esse caso específico:
(A) Assistia-se ao jogo, naquele domingo de chuva insistente.

(B) Ela recebeu um beijo afetuoso da amiga de todas as horas.

(C) Não se podem pescar camarões naquelas águas.

(D) Ele é, realmente, admirado por todos que o conhecem bem.



As esperanças
Uma esperança entrou em meu quarto. Trouxeram-me o pequeno corpo vegetal, quase imobilizado pelo medo, como se fosse um sinal de próxima vitória minha. Pedi que devolvessem a “esperança” ao seu meio, que a salvassem imediatamente. Depois, fechei os olhos e revi o mundo de esperanças que me veio acompanhando da infância até aqui: os relvados de outrora, e o reino de grilos, das “esperanças”, dos louva-a-deus. Sobre o meu peito se estendeu uma espécie de campo verde, longo, contínuo. Tive a sensação de que fora sempre uma árvore e que me percorriam pequenos corpos vegetais.

(...)


Começo a brincar com a palavra esperança. “Já não é mais a hora de esperança”, digo-me eu. “Esperança em quê?” Ouço então uma voz que me diz: “Encontrarás, do outro lado da Terra, uma grande e amena extensão relvada, onde poderás dormir com a tranqüilidade que nunca encontraste aqui. As ‘esperanças’ velarão pelo teu sono e pelo ritmo de todas as coisas. Quando se acaba o mundo de desesperanças, se inicia o tempo das esperanças. Não demores em dormir o teu sono final. Não insistas em ficar pensando insone. Do outro lado há um sono, como um pálio1 aberto. Dorme-se quando se espera, quando há esperança; ou quando a vida se tornou idêntica à própria morte, e as ‘esperanças’ bóiam nas águas estagnadas e são corpos defuntos conduzidos ao léu, ao capricho dos ventos espessos”. Mas a “esperança” que entrou no meu quarto falou-me também com insistência, em presença terrestre, em vitória neste mundo, em recuperação floral, em sol, em leite, em campo, em olhos, em mel, em estradas, em encontros julgados já impossíveis e que inesperadamente se realizam, quando tudo convidava a desesperar.

Meu Deus - a “esperança” me chamou a atenção para o mundo terrestre, mas não para o reino em que vivi até agora e onde acabei apenas existindo, vergado pelo tédio, pelo “já visto”, pelo desgosto de mim mesmo e dos outros. A “esperança” trouxe-me a imagem de dias verdes e leves, das coisas tocadas pela poesia. O olhar de sono depois das vindimas2; as mãos álacres3 e febris; o riso das malícias inocentes. Oh! Este mundo é o mundo em que habito, mas não é mais o meu mundo.

Uma pálpebra longa e dolorosa começa a cerrar-se por sobre todas as coisas belas, primaveris. Através das janelas fechadas entra um fio de sol de fim de tarde. Quem bate no peito e reza no coro de vozes longas? É o vento, é a noite, é a montanha habitada pelos espíritos. A pequena “esperança” é o contrário de tudo isso. É o espírito inocente. É a pequena vida. É o sorriso. É tudo ou nada.

De quando em quando, antigamente, achávamos uma “esperança” parecida com o pedaço de uma folha de árvore. Leve, disfarçada, quieta, dissimulada. “Esse bicho é um louva-a-deus. E de parreira...”

Agora veio a sombra. Mas a esperança está cantando. Deus meu, que voz triste essa que me convida a viver!

Augusto Frederico Schmidt

(Mey, Letícia et al. (org.).Saudade de mim mesmo: uma antologia da prosa de Augusto Frederico Schmidt. São Paulo: Globo, 2006.)

Vocabulário:

1.pálio – manto

2.vindimas – colheitas das uvas

3.álacres – entusiasmadas, alegres


01. Para o enunciador, a falta de esperança relaciona-se à descrença no mundo: “Já não é mais a hora de esperança”, digo-me eu.” (l. 13-14)

O fim dessa descrença está associado, no texto, à idéia de:


(A) fuga

(B) rebeldia

(C) otimismo

(D) contemplação


02. No segundo parágrafo do texto, a narrativa traz o ponto de vista de uma outra voz, diferente da do narrador. O objetivo da utilização desse recurso é:
(A) inspirar medo ao leitor

(B) estabelecer desequilíbrio na narrativa

(C) oferecer uma alternativa ao narrador

(D) contrariar um argumento de autoridade


03. Ao longo da narrativa, cria-se um jogo entre os diferentes significados da palavra esperança. Com esse jogo, produz-se um efeito de duplo sentido no seguinte fragmento:
(A) “Uma esperança entrou em meu quarto.” (l. 1)
(B) “Começo a brincar com a palavra esperança.” (l. 13)
(C) “‘Esperança em quê?’” (l. 14-15)
(D) “De quando em quando, antigamente, achávamos uma ‘esperança’ parecida com o pedaço de uma folha de árvore.” (l. 54-56)
04. Não insistas em ficar pensando insone. Do outro lado há um sono, como um pálio aberto. (l. 22-23)

No fragmento acima, as duas sentenças, embora separadas apenas por ponto, mantêm entre si um vínculo lógico.

Esse vínculo pode ser caracterizado como:
(A) final

(B) causal

(C) concessivo

(D) comparativo




No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!


Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos *pauis da terra.

Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!

(Casimiro de Abreu)
* Pauis: brejo
01. Sobre a construção sintática e/ou semântica da segunda e terceira estrofes, é correto afirmar:
(A) No verso 6 não ocorreria mudança significativa na frase, se subtraíssemos o artigo.

(B) Nesse mesmo verso, porque a palavra “que” é pronome relativo, recupera, sintaticamente, o termo “vampiro”.

(C) O termo “anjo”, no verso 8, associado ao “tu”, funciona como predicativo deste outro.

(D) No verso 10, omitiram-se verbos denominados de ligação, já que associam predicativos a um termo sujeito.


02. Observando no verso 9 a relação semântica que os verbos fugir e adorar mantêm entre si, assinalaríamos a letra:
(A) Conseqüência.

(B) Causa/Conseqüência.

(C) Condição/Oposição.

(D) Afirmação/Oposição.


03. É comum, no ensino das orações subordinadas adjetivas, a vinculação necessária desse tipo de oração – quando desenvolvida – à presença do pronome relativo. Presente, contudo, a idéia de natureza desse tipo de oração, ela pode se apresentar com outra estrutura. Um exemplo do que aqui se afirma é encontrado na seguinte alternativa:
(A) O carro que voava pela estrada foi detido pelos policiais.

(B) O carro de quem dirige mal está sempre amassado.

(C) O dono do carro, de quem se desconfiava, não apareceu para depor.

(D) Ela ignorava o lugar onde ele se escondia.


04. O MENINO MALUQUINHO

O humor, aqui, é obtido em função de um emprego vocabular que poderíamos chamar de:


(A) polissêmico.

(B) morfológico.

(C) fonético.

(D) pleonástico.


05. Apresentam-se a seguir, algumas construções redacionais com “falhas de raciocínio” na sua formação, as quais são apontadas entre parênteses. Numa delas, porém, o problema não é o que se menciona. Assinale-a:
(A) Os meninos abandonados na rua causam sérios problemas sociais. (Confusão entre causa e efeito)

(B) Ele, certamente, vai chegar à seleção brasileira, porque seu pai esteve lá, com sucesso. (Falsa analogia)

(C) Aquele deputado é o mais votado nas eleições porque recebeu o maior número de votos no pleito. (Círculo vicioso)

(D) Se Deus fez as mulheres mais fracas, já tinha como objetivo a sua submissão aos homens. (Simplificação exagerada)





A atual onda de grampos telefônicos cuja divulgação tanto anima as vendas de jornais e revistas nos fins de semana, na sua esmagadora maioria, tem sido gerada nos laboratórios dos interesses contrariados. Sobretudo no segmento da telefonia e telecomunicações onde circulam somas e apetites imensuráveis. Convém lembrar que os maiores grupos jornalísticos brasileiros, de uma forma ou de outra, estiveram ou estão intensamente envolvidos na privatização da telefonia e nos ramos correlatos das telecomunicações. Suas cruzadas moralizantes são tão legítimas quanto a presença de Gilberto Mestrinho à frente da Comissão de Ética do Senado.

O grampo do último fim de semana, magistral manobra do ventilador mediático executada por ex-jornalistas agora convertidos em respeitáveis lobistas, acabou vitimando o colunista Ricardo Boechat, sumariamente demitido do Globo, sem o direito público de defesa. Flagrado ao fazer algo imperdoável: favorecer um concorrente.

Neste quadro não se pode ignorar a contribuição do Jornal do Brasil ao reabilitar a velha praga da matéria "a pedidos" – o insulto impresso e pago, injúria legitimada no guichê do caixa. A série de ofensas nos anúncios de página inteira financiados por esta aberração acadêmica e ortográfica chamada UniverCidade culminou na edição de domingo, 24/6, com velhaco texto contra este articulista. O gangster que escreveu a peça escondeu-se no anonimato mas é conhecido aquele que o peitou: Ronald Levinsohn, dono da fábrica de diplomas, o homem que quebrou a Delfin e, junto, arruinou o BNH (a íntegra da resposta está em www.observatoriodaimprensa.com.br) [veja remissão abaixo].

Ao despudor soma-se a arrogância, ao descaso acrescenta-se o farisaísmo. Estas afrontas financiadas são, antes de tudo, um insulto à inteligência do leitor. Nesta última semana, na nobilíssima página de opinião de dois importantes jornais, dois observadores tão diferentes como Dora Kramer e Otavio Frias Filho chamam a atenção para o perigo. Na véspera da sucessão presidencial, o partido da mídia entra na pista rebolando com muletas. Enfeitado por grampos dourados.

(Alberto Dines, fragmento do artigo “Insultos Impre$$os, publicado no Jornal do Brasili de, 30/6/01)

01. Sendo a ironia de figura de linguagem que consiste na afirmação do que se nega, assinale a única opção na qual não se perceba a intenção de utilização, pelo autor, desse recurso retórico:


(A) “Suas cruzadas moralizantes são tão legítimas quanto a sua presença de Gilberto Mestrino à frente da Comissão de Ética do Senado”.

(B) “... ex-jornalistas agora convertidos em respeitáveis lobistas...”.

(C) “... não se pode ignorar a contribuição deste Jornal do Brasil ao reabilitar a velha praga da matéria “a pedidos”...”.

(D) “... na nobilíssima página de opinião de dois importantes jornais, dois observadores...”

02. Palavras anafóricas, entre elas os pronomes, contribuem para coesão de um texto, “arquitetando-o” pela retomada de outros vocábulos.

Marque, a propósito, a alternativa em que não se registra a presença de palavra desse tipo:


(A) “A atual onda de grampos telefônicos cuja divulgação tanto anima as vendas de jornais...”

(B) “Sobretudo no segmento da telefonia e telecomunicações onde circulam somas e apetites imensuráveis.”

(C) “Suas cruzadas moralizantes são tão legítimas quanto a presença de Gilberto Mestrinho...”

(D) “Flagrado ao fazer algo imperdoável: favorecer um concorrente.”


03. O fragmento aqui destacado revela um posicionamento crítico do articulista com relação a pessoas ou instituições.

Aponte, dentre as a seguir, a observação que não encontra pertinências nas palavras do autor.


(A) Há ou houve interesses da mídia nos processos de privatização de empresas do ramo de telefonia ou telecomunicações.

(B) O jornalista Ricardo Boechat deveria ter desfrutado do direito de defender-se, por ocasião de sua demissão.

(C) Os jornais não deveriam dar acolhida a matérias pagas que buscam denegrir imagens ou ofender pessoas.

(D) Os leitores acabam contaminados por matérias publicadas “a pedidos”, pois a eles falta discernimento para distinguir injúrias de verdades.


04. Marque a opção na qual se explica indevidamente o emprego, no texto, de um sinal gráfico:
(A) “... os maiores grupos jornalísticos brasileiros, de uma forma ou de outra, estiveram ou estão intensamente envolvidos...” (As vírgulas marcam a intercalação de uma expressão entre o sujeito da oração e seu verbo)

(B) “... ao reabilitar a velha praga da matéria “a pedidos”...” (As aspas na expressão grifada têm a função de destacar um tipo conhecido de matéria jornalística, no caso com uma certa carga de ironia)

(C) “Flagrado ao fazer algo imperdoável: favorecer um concorrente.” (Os dois-pontos criam uma oposição entre o que se diz antes deles e o que se lhes segue)

(D) “... a velha praga da matéria “a pedidos” – o insulto impresso e pago, injúria legitimidade...” (O travessão introduz apostos que pretendem explicar a natureza da matéria “a pedidos”)


01. “... ao reabilitar a velha praga da matéria “a pedidos”...”

Adjetivos podem, muitas vezes, como no caso anterior, funcionar como termos modificadores do substantivo em emprego tipicamente conotativo.

Aponte a opção, dentre as que se seguem, na qual o adjetivo em destaque tem esse tipo de emprego:


(A) Ela era uma pessoa simples, sem dúvida.

(B) Aquele pobre rapaz não convive bem com a fama.

(C) Era um homem grande, que chamava a atenção.

(D) Comprou caros presentes para os amigos brasileiros.


02. O autor se refere à instituição UniverCidade como uma aberração acadêmica e ortográfica. A alternativa que esclarece, na realidade, o nome da instituição é a seguinte:
(A) resultante de um “trocadilho” gráfico intencional que aproxima as palavras Cidade e Universidade.

(B) um erro de grafia, pela confusão das diversas situações gráficas em que o fonema /s/ pode aparecer.

(C) um artifício de “marketing” que pretende chamar a atenção para a letra C, numa alusão à palavra Cultura.

(D) um neologismo, ou seja, uma palavra não dicionarizada, para suprir uma lacuna no léxico de nossa língua.


03. Na ordem direta das palavras na frase da Língua Portuguesa, o sujeito se apresenta como elemento inicial.

Nas passagens a seguir, retiradas do texto, apenas uma vez foi observada essa ordem “normal”.

Aponte a alternativa onde isso dá:
(A) “... cuja divulgação tanto anima as vendas de jornais e revistas...”

(B) “Ao despudor soma-se a arrogância...”

(C) “Neste quadro não se pode ignorar a contribuição deste Jornal do Brasil...”

(D) “Sobretudo no segmento da telefonia e telecomunicações onde circulam somas e apetites imensuráveis.”


04. Na defesa de sua tese, vale-se o autor de diversos recursos que o “auxiliam” na sua argumentação. Marque a opção que registra recursos não pertinentes à exemplificação dada:
(A) Presença de adjetivação expressiva e hiperbólica, a serviço da ênfase, cujos exemplos são palavras ou expressões, como: “esmagadora maioria”, “somas e apetites imensuráveis”, “nobilíssima página”, etc.

(B) Apelo ao chamado “argumento de autoridade”, na menção a figuras de grande respeitabilidade no meio jornalístico, que estariam a defender tese semelhante à dele.

(C) Menção a exemplos que confirmam uma participação e um posicionamento negativos, porque pouco íntegros, de pessoa ou instituição objeto de crítica no artigo.

(D) Destaque para efetiva importância dos veículos jornalísticos na construção da verdade, em função da liberdade de publicação das mais diversas opiniões, muitas delas materializadas nas matérias “a pedidos”.




Uma mulher chamada Guitarra
UM DIA, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.

0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.

(...) Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.
Vinícius de Moraes – Para viver um grande amor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.
Vocabulário:
mot d'espirit - dito espirituoso

jactância – arrogância, orgulho, vaidade

viola d’amore – viola de amor, antigo instrumento musical

Casals – Pablo Casals, famoso violocelista do século passado

Tremolos – repetições rápidas de uma ou duas notas musicais
01. O título do texto de Vinicius de Moraes estabelece, indiretamente, uma relação de identidade entre dois elementos.

Tal relação se torna possível pela aplicação do seguinte mecanismo:


(A) criação de valor ilógico para uma palavra

(B) vinculação de elemento inanimado a uma pessoa

(C) atribuição de característica inusitada a um objeto

(D) transformação de sentido denotativo em metafórico


02. Algumas estratégias argumentativas são empregadas para persuadir o leitor de que a opinião do enunciador é, na verdade, um fato.

A estratégia de persuasão presente nesse texto não inclui o uso de:


(A) imagem poética

(B) pergunta retórica

(C) interlocução direta

(D) argumento de autoridade


03. O violão é não só a música (...) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina (...), o único que representa a mulher ideal:

Para defender o ponto de vista acima apresentado, o enunciador organiza o segundo parágrafo com base em um processo de:


(A) definição

(B) associação

(C) exemplificação

(D) contextualização


04. A metáfora-base do texto se realiza, em plenitude, no terceiro parágrafo.

O caráter conferido por esse parágrafo ao texto pode ser qualificado como:


(A) emotivo

(B) sensual

(C) figurativo

(D) contemplativo


05. No texto, fragmentos narrativos associam-se a seqüências descritivas, originárias de um processo subjetivo de observação.

A alternativa que apresenta uma dessas seqüências descritivas é:


(A) “atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade;” (l. 16-17)
(B) “E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d’amore,” (l. 23-24)
(C) “Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo?” (l. 33-34)
(D) “só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.” (l. 40-41)


Qualquer canção
Qualquer canção de amor

É uma canção de amor

Não faz brotar amor

E amantes

Porém, se essa canção

Nos toca o coração

O amor brota melhor

E antes
Qualquer canção de dor

Não basta a um sofredor

Nem cerze um coração

Rasgado

Porém, inda é melhor

Sofrer em dó menor1

Do que você sofrer

Calado
Qualquer canção de bem

Algum mistério tem

É o grão, é o germe, é o gen2

Da chama

E essa canção também

Corrói como convém

O coração de quem

Não ama

CHICO BUARQUE
Vocabulário:

dó menor – um dos tons musicais

gen – relativo a origem, nascimento

01. A coerência é determinada, entre outros fatores, por elementos que contribuam para a progressão do texto.

Na letra da canção de Chico Buarque, a coerência do texto decorre da utilização dos seguintes recursos:
(A) marcação rítmica, repetição vocabular, paralelismo sintático

(B) marcação rítmica, repetição vocabular, multiplicidade temática

(C) repetição vocabular, paralelismo sintático, multiplicidade temática

(D) marcação rítmica, paralelismo sintático, multiplicidade temática


02. A pluralidade de sentidos, característica da linguagem poética, pode ser obtida por meio de vários mecanismos, como, por exemplo, a elipse de termos.

Esse mecanismo está presente, de modo mais marcante, no seguinte verso:


(A) “E amantes” (v. 4)

(B) “E antes” (v. 8)

(C) “Rasgado” (v. 12)

(D) “Calado” (v. 16)


03. Diferentes relações lógicas são estabelecidas entre as orações que compõem as estrofes do texto.

Na segunda estrofe, essas relações expressam as idéias de:


(A) adição, contraposição e comparação

(B) negação, anterioridade e adversidade

(C) finalidade, contrariedade e consecução

(D) proporcionalidade, intensidade e conclusão


04. Na última estrofe do texto, o mistério a que se refere o eu lírico indica uma construção paradoxal.

Os elementos que compõem esse paradoxo são:


(A) início e fim

(B) alegria e dor

(C) música e silêncio

(D) criação e destruição




O segundo verso da canção
Passar cinqüenta anos sem poder falar sua língua com alguém é um exílio agudo dentro do silêncio.

Pois há cinqüenta anos, Jensen, um dinamarquês, vivia ali

nos pampas argentinos. Ali chegara bem jovem, e desde então nunca mais teve com quem falar dinamarquês.

Claro que, no princípio, lhe mandavam revistas e jornais. Mas ninguém manda com assiduidade revistas e jornais para alguém durante cinqüenta anos. Por causa disto, ali estava Jensen há inúmeros anos lendo e relendo o som silencioso e antigo de sua pátria. E como as folhas não falavam, punha-se a ler em voz alta, fingindo ouvir na própria voz a voz do outro, como se um bebê pudesse em solidão cantar para inventar a voz materna.

Cinqüenta anos olhando as planuras dos pampas, acostumado já às carnes generosas dos churrascos conversados em espanhol (...).

Um dia, um viajante de carro parou naquele lugarejo. Seu carro precisava de outros reparos além da gasolina. Conversa-vai conversa-vem, no posto ficam sabendo que seu nome também era Jensen. Não só Jensen, mas um dinamarquês. E alguém lhe diz: aqui

também temos um dinamarquês que se chama Jensen e aquele é o seu filho. O filho se aproxima e logo se interessa para levar o novo Jensen dinamarquês ao velho Jensen dinamarquês – pois não é todos os dias que dois dinamarqueses chamados Jensen se encontram nos pampas argentinos.

(...) Quando Jensen entrou na casa de Jensen e

disse “bom dia” em dinamarquês, o rosto do outro Jensen saiu da neblina e ondulou alegrias. “É um compatriota!” E a uma palavra seguiram outras, todas em dinamarquês, e as frases corriam em dinamarquês, e o riso dinamarquês e a camaradagem dinamarquesa, tudo era um ritual desenterrando ao som da língua a sonoridade mítica da alma viking.

(...) Em poucas horas, povoou sua mente de nomes de artistas, rostos de vizinhos, parques e canções. Tudo ia se descongelando no tempo ao som daquela língua familiar.

Mas havia um problema exatamente neste tópico das canções. Por isto, terminada a festa, depois dos vinhos e piadas, quando vem à alma a exilada vontade de cantar, Jensen chama Jensen num canto, como se fosse revelar algo grave e inadiável:

– Há cerca de cinqüenta anos que estou tentando cantar uma canção e não consigo. Falta-me o segundo verso. Por favor (disse como se pedisse seu mais agudo socorro, como se implorasse: retira-me da borda do abismo), por favor, como era mesmo o segundo verso desta canção?

Sem o segundo verso nenhuma canção ou vida se completa. Sem o segundo verso a vida de um homem, dentro e fora dos pampas, é como uma escada onde falta um degrau, e o homem pára. É um piano onde falta uma tecla. É uma boca de incompleta dentição.

Se falta o segundo verso, é como se na linha de montagem faltasse uma peça e não houvesse produção. De repente, é como se faltasse ao engenheiro a pedra fundamental e se inviabilizasse toda a construção. Isto sabe muito bem quem andou cinqüenta anos na ausência desse verso para cantar a canção.

Jensen olhou Jensen e disse pausadamente o segundo verso faltante. E ao ouvi-lo, Jensen – o exilado – cantou de volta o poema inteiro preenchendo sonoramente cinqüenta anos de solidão.

Ao terminar, assentou-se num canto e batia os punhos sobre o joelho dizendo: “Que alegria! Que alegria!”

Era agora um homem inteiro. Tinha, enfim, nos lábios toda a canção.
www.educacaopublica.rj.gov.br

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA


01. E como as folhas não falavam, punha-se a ler em voz alta, fingindo ouvir na própria voz a voz do outro, (l. 11-13)

As emoções do velho Jensen, reavivadas pela sonoridade da língua dinamarquesa, revelam a preservação de um caráter de pertencimento que pode ser traduzido como:


(A) herança materna

(B) identidade cultural

(C) memória coletiva

(D) compromisso social


02. Ao longo do texto, é a língua materna que mantém o velho Jensen próximo a sua terra natal.

O elemento que, concretamente, sintetiza essa aproximação é:


(A) o som silencioso da pátria

(B) o exílio agudo da memória

(C) o verso esquecido da canção

(D) a sonoridade mítica da infância


03. O processo de personificação é um recurso utilizado no texto para humanizar a narrativa e cativar o leitor.

Um exemplo de personificação aparece no seguinte fragmento:


(A) “Passar cinqüenta anos sem poder falar sua língua com alguém é um exílio agudo dentro do silêncio.” (l. 1-2)
(B) “E como as folhas não falavam, punha-se a ler em voz alta, fingindo ouvir na própria voz a voz do outro,” (l. 11-13)
(C) “Cinqüenta anos olhando as planuras dos pampas, acostumado já às carnes generosas dos churrascos conversados em espanhol” (l. 15-17)
(D) “Era agora um homem inteiro. Tinha, enfim, nos lábios toda a canção.” (l. 69-70)
04. Até a chegada aos pampas de um novo viajante dinamarquês, a narrativa é marcada pelo distanciamento e pela solidão.

O recurso utilizado para indicar que tal realidade estava prestes a ser superada é:


(A) o foco da narrativa

(B) o tempo dos verbos

(C) a construção de diálogos

(D) o nome dos personagens




O Necrológio dos Desiludidos de Amor

(fragmento)


Os médicos estão fazendo a autópsia dos que se mataram

Que grandes corações eles possuíam

Vísceras imensas, tripas sentimentais

E um estômago cheio de poesia

Carlos Drummond de Andrade)

01. “Necrológio” (está no Aurélio) é “notícia em jornal, etc., relativa a pessoas falecidas”. Levando em consideração esta definição, as duas ocorrências da preposição de no título do texto indicam, respectivamente:


(A) agente / explicação.

(B) paciente / causa.

(C) posse / meio.

(D) causa / agente.


02. Desconsiderando a forma em versos do texto, a primeira junção dos vocábulos que mostra que não estamos diante de um texto informativo é:
(A) “fazendo a autópsia”.

(B) “dos que se mataram”.

(C) “vísceras imensas”.

(D) “tripas sentimentais”.


A notícia é virtual mas a dor é real




Prudêncio é um motorista de ônibus exemplar. Obedece a sinal de trânsito, não anda a mais de 60 e, acreditem, respeita estudante e velhinha. Só tem um porém: Prudêncio, qual os duendes, não existe. É um personagem criado pelas empresas de transporte rodoviário para educar os motoristas. Ele é, para usar uma palavra da moda, virtual. Prudêncio ganhou esta semana uma companhia: os guardas virtuais, bonecos de fibra de vidro para assustar ladrões. Feitas as apresentações, nota-se que existem dois brasis. O Brasil virtual é conduzido por prudêncios, vigiado por guardas de fibra de vidro, regido por leis impecáveis.

O Brasil real é povoado de motoristas de ônibus desvairados, guardas corruptos e leis que não pegam. Esse descompasso entre os dois mundos produz coisas risívies e outras nem tanto.

Exemplo risível:

Num trecho da Rua Jardim Botânico, a placa avisa: velocidade máxima de 10 quilômetros por hora. No velocímetro do carro, o mínimo é 20. Menos que isso só parado.

Recebo a notícia de que meu pai se acidentou na Lagoa. Em seguida, contam-me o pior. Custa a vir o desmentido e nesse meio tempo misturam-se dor, desespero, desorientação e revolta. Na origem do engano, está a ligação de um repórter para o antigo telefone da família. A atual dona da linha, sem mais o que fazer inventa a história da morte. Não contente, informa que é empregada dos Ventura há 14 anos, enriquece a narrativa com detalhes do acidente e fabrica um choro copioso. Tudo falso, mas a agência Estado põe a notícia na Internet e a mentira voa longe. País dos boatos, o Brasil espalha rumores com leviandade e sofreguidão, ainda mais em tempos de Internet, reino do virtual. Cria-se um mundo paralelo que fere e interfere no mundo real. E como fere.

(Mauro Ventura, “JB”, 05,10,99)

03. O texto pode ser entendido como:


(A) um texto de natureza argumentativa, com exemplificação adequada à tese desenvolvida.

(B) um texto de natureza descritiva, com detalhamento que o valoriza.

(C) um texto de natureza narrativa, com eventual característica dissertativa.

(D) um texto sem qualquer predominância do gênero, dada a sua natureza híbrida.


04. Observe o emprego das formas verbais adiante destacadas em passagens do texto e aponte a alternativa em que a explicação que se formula a respeito não é pertinente.
(A) “Obedece a sinal de trânsito, não anda a mais de 60 e, acreditem, respeita estudante e velhinha.” (As formas no presente do Indicativo expressam habitualidade de ação)

(B) “Recebo a notícia de que meu pai se acidentou na Lagoa”. (A forma no presente concorre para “presentificar” o fato narrado, aproximando-o do leitor)

(C) “O Brasil virtual é conduzido por prudêncios,...” (Eis aí uma construção na chamada voz passiva analítica)

(D) “Em seguida, contam-me o pior. Custa a vir o desmentido e nesse meio tempo misturam-se dor, desespero”. (As duas formas verbais na terceira pessoa do plural exemplificam a voz ativa)




Num remoto confim do Universo, existe um grupo de planetas que vive como uma verdadeira família. Nossa história gira em torno do Sr. Terra (...) Dono de personalidade polêmica, questionadora, e politicamente incorreto, é o único co uma intensa vida interior. Lua, sua eterna companheira, acompanha-o por todo canto, partilhando dúvidas e incertezas.

01. Os elementos não-verbais, nas histórias em quadrinhos, estão carregados de valor semântico. A presença de linhas que unem os balões, no segundo e terceiro quadrinhos, apontando para o infinito, é indicativa da:


(A) rotação da Terra

(B) curiosidade da Lua

(C) omissão de Saturno

(D) velocidade de Vênus


02. No quadrinho final, a fala do Sr. Terra se justifica pela analogia entre o personagem e o nosso planeta.

A caracterização desse personagem se relaciona com:


(A) as dúvidas dos personagens frente ao futuro

(B) a interferência dos planetas sobre a vida humana

(C) a degradação do meio ambiente inerente ao progresso

(D) as especificidades do Sistema Solar expressas nos quadrinhos


03. Os significados das imagens estão relacionados com o tratamento dado aos elementos que as compõem.

Na pintura de Chagall, o tratamento conferido aos elementos situados em primeiro plano – homem e animal – gera, pela comparação, o seguinte sentido:
(A) a música é realidade para os homens, mas não para os animais

(B) os homens, tanto quanto os animais, podem ser feitos de música

(C) os músicos, ao contrário dos animais, podem-se transformar em música

(D) a música pode ser a essência dos músicos, sejam eles humanos ou não


04. Embora tão diferentes, produzidos em épocas e contextos tão diversos, os textos desta prova aproximam-se na medida em que estabelecem um vínculo entre música e:
(A) vida

(B) criação

(C) verdade

(D) espiritualidade



1%
O médico Dráuzio Varela, que tem o dom raro da comunicação lúcida e direta, lembrou certa vez na TV que 99% de nossa carga genética é exatamente igual à macacos. Isto é, o mísero 1% faz todo esse estrago...

Ou, na frase de Hamlet, assim a consciência – principal produto daquele 1% - faz covardes de todos nós. Há quem defenda a “inteligência” dos macacos, como a de golfinhos e outros mamíferos. Eu diria que, de certa forma, eles são mais inteligentes do que os humanos. Afinal, até agora não se viram macacos organizando “cimeiras”, desenvolvendo robôs que dançam tão desengonçadamente quando seus criadores, atirando um no outro por causa de camisas de futebol, lendo horóscopo de manhã e vendo telenovelas à noite. Em compensação, macacos não participam de vibrantes polêmicas, como Ana Paula Arósio vs Luana Piovani, não sentem saudade do tempo em que carros não existiam e não preparam bananas flambadas com sorvete de creme. Podemos ser covardes, mas também podemos nos divertir. (...)

(Daniel Piza – Gazeta Mercantil, 02,07,99)
01. Os elementos coesivos “Afinal” e “Em compensação” introduzem períodos que se relacionam à afirmação: “Eu diria que, de certa forma, eles são mais inteligentes que os humanos”.

Com o uso de tais elementos, o articulista pretende, respectivamente:


(A) ilustrar, com ironia, a “superioridade” dos macacos e reconhecer “vantagens” da consciência humana.

(B) ratificar as palavras de Hamlet e refutar as declarações de Dráuzio Varela.

(C) enfatizar a “inteligência” dos macacos e enaltecer as futilidades femininas.

(D) esclarecer a finalidade do artigo e introduzir argumentos a favor dos macacos.


02. Da leitura atenta do texto, podemos inferir que o seu autor:
(A) refere-se com ironia à capacidade comunicativa do médico Dráuzio Varela.

(B) menciona a consciência como aspecto distintivo entre homens e macacos.

(C) considera que a covardia dos seres humanos tem pouco a ver com sua carga genética.

(D) afirma, em termos definitivos, a predominância da inteligência dos macacos sobre a dos homens.


03. Segundo os argumentos utilizados pelo autor, os macacos seriam, “de certa forma”, mais inteligente porque os humanos, entre outras atitudes, são capazes de:
(A) menosprezar problemas graves para a sociedade.

(B) criticar socialmente os seus semelhantes.

(C) praticar atos gratuitos de violência contra seus semelhantes.

(D) recusar-se a admitir a “inteligência” dos macacos.


04. “... dançam tão desengonçadamente quanto seus criadores...”

O exemplo anterior exprime uma relação de comparação entre orações, TAM bem presente em:


(A) “... 99% da nossa carga genética é exatamente igual à dos macacos.”
(B) “Ou, na frase de Hamlet, assim a consciência (...) faz covardes de todos nós.”
(C) “... eles são mais inteligentes do que os humanos.”
(D) “... macacos não participam de vibrantes polêmicas como Ana Paula Arósio vs Luana Piovani.”



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