No palco da vida



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NO PALCO DA VIDA

Super Sabrina nº20

Copyright: Rosalind Carson

Título original: "Song of Desire"

Publicado originalmente em 1983

Digitalização/ Revisão: m_nolasco73




Contra capa: Como uma fã ardorosa, Vicki ficou empolgada quando conheceu Jason Meredith. Já tinha visto o famoso ator no palco e na TV, mas agora, vendo-o pessoalmente, achou-o ainda mais atraente e másculo. Vicki sabia da fama de conquistador de Jason, mas isso não evitou que ela também fosse mais uma vítima de seu charme arrasador! E apesar de Jason ter-lhe dito que sua carreira era mais importante do que qualquer mulher, Vicki deixou-se envolver pela magia de suas carícias irresistíveis.

Desesperadamente, ela tentou, em vão, lutar contra esse amor quase impossível...




CAPÍTULO I
Vicki estava adorando a viagem para Derringham, desde que saíra de Londres. Agora que se acostumara a dirigir do lado contrário da estrada, estava bem mais à vontade e mais tranqüila. A Inglaterra era uma beleza em abril! A rodovia secundária que atravessava o campo era um pouco movimentada e muito bonita. Tinha alugado, na véspera, um carro pequeno, desses econômicos e práticos.

O céu estava límpido, azul, e a brisa suave que entrava, pela janela do carro, brincava com seus cabelos longos e loiros. As árvores copadas à margem da estrada sombreavam o caminho e davam um aspecto encantado à paisagem...

O ânimo de Vicki melhorava a cada instante. Sentia-se cada vez mais confiante de que conseguiria a tão almejada paz de espírito, depois do que tinha sofrido. Estava, afinal, contente.

No banco da frente, a seu lado, o violão, que a acompanhava desde Los Angeles, dava-lhe a impressão de não estar totalmente sozinha.

Foi então que surgiu um carro prateado, vindo por trás a toda velocidade. O som impaciente da buzina sobressaltou-a fazendo-a perder a calma.

Por uma fração de segundo Vicki vacilou, apavorada, sem conseguir se lembrar de qual lado da estrada devia dirigir. Logo em seguida, lembrou e puxou o carro para a esquerda dando passagem ao carrão prateado que, ao ultrapassá-la, ainda buzinou de novo como se estivesse reclamando.

Com o coração palpitando, ela ainda viu de relance o homem que estava ao volante, depois saiu para o acostamento e parou, a fim de se recuperar do susto. Quem seria aquele maluco dirigindo daquele jeito, naquela estradinha sinuosa e estreita? É verdade que ela estava no meio da pista, mas, mesmo assim...

Depois de alguns instantes ela ligou o carro de novo e voltou para a estrada, mas já não estava com o mesmo ânimo. Só melhorou um pouco quando viu a placa indicando: "Derringham - Condado de Buckingham".

Mais alguns minutos e Vicki entrou numa das cidades mais bonitas que já vira. Ia reparando em tudo, encantada. As lojas; os bares; os restaurantes; uma taberna antiga com placa de madeira "O Cisne Negro"; a igreja de pedra. As ruas sossegadas, com pouca gente transitando.

De repente, no meio de um gramado, ela viu o que estava procurando: uma construção ampla, em estilo Tudor, ostentando uma tabuleta onde se viam piI3tados algumas árvores copadas e os dizeres: “Hospedaria da Arvore que Canta”. Incluindo o gramado, o hotel ocupava um quarteirão todo. Vicki contornou a rua e parou no estacionamento ao fundo, de onde se avistava um rio largo cujas águas calmas brilhavam ao sol da tarde. Na outra margem ficava um pitoresco bosque.

Estacionou seu modesto carrinho entre um M.G. e um Mercedes-Benz. Desceu, espreguiçou-se e olhou ao redor, maravilhada. Não tinha idéia de que o hotel de sua tia Abigail fosse tão grande e bonito. A construção de quatro andares era em forma de U e tanto na frente como nos fundos a paisagem era magnífica.

Ah, que delícia seria sentar-se à janela do apartamento de cobertura, que a tia prometera reservar para ela, e tocar seu violão! Desde que perdera o emprego não tinha tido ânimo para se dedicar ao violão, nem para mais nada. Estava, entretanto, decidida a começar vida nova ali, naquela cidade...

Ao lembrar-se de sua carreira que tinha sido destruída tão cedo, antes mesmo de tomar impulso, Vicki resolveu interromper o curso de seus pensamentos. Era melhor entrar logo. Tomara que tia Abigail não achasse ruim por ela ter chegado tão antes do dia marcado! Pegou o violão e dependurou-o, pela alça, no ombro. Talvez tivesse sido melhor ter telefonado de Londres, avisando... mas a tentação de fazer surpresa havia sido maior. Além disso, Abigail teria insistido para ir buscá-la, pois tinha a tendência de bancar a mãe da sobrinha e Vicki queria mostrar-se independente desde o início.

Entrou pela porta dos fundos e surpreendeu-se com a tranqüilidade do lugar. Está certo que era domingo à tarde, mas mesmo assim... Um hotel tão grande como aquele e tão vazio! Que coisa estranha!

No balcão da recepção não havia ninguém. Vicki aproximou-se, intrigada, e apertou o botão da campainha que havia ali. Pouco depois, abriu-se uma porta ao fundo e surgiu uma jovem de rosto redondo, cabelos ruivos, fartos e crespos.

- Oi, está querendo um quarto? É pena, mas o hotel está lotado.

- Não, eu já tenho quarto, quer dizer, pelo menos acho que tenho...

- Ótimo. Então, o que deseja? - disse a garota, sorrindo e analisando Vicki.

A ruiva era sensual e curvilínea, muito atraente.

- Você é americana, não é? - perguntou ela.

- Sou, sim. Meu nome é Vicki Dennison, sou sobrinha de Abigail Carstairs. Eu era para chegar só na semana que vem, mas acabei vindo antes. Espero que minha tia esteja aqui.

- Ah, está, sim, ela nunca sai daqui. Este hotel é o mundo dela. Ela está lá em cima no salão de festas, tendo uma reunião com os funcionários. Tivemos uns probleminhas aí... Não quer esperá-la no escritório dela? Acho que não vai demorar. É logo ali. - Ela apontou para uma porta no fim do saguão.

- E os hóspedes, onde estão? Está tudo tão deserto...

- Estão no salão de chá. Todos os dias das três às cinco horas o hotel serve um delicioso chá, com sanduíches, bolos, biscoitos e tudo mais. Tem até um conjunto de músicos tocando. Os hóspedes adoram! Você pode esperar lá, se preferir. Assim poderá tomar um chá.

- Ah, olha só como eu estou! De jeans e camiseta, chegando de viagem... o pessoal deve estar chique lá no salão!

- Você está ótima assim. Aliás você é até mais bonita do que sua tia falou. Que dentes lindos você tem! E essa cor bronzeada, então! Ela avisou todo mundo que você iria chegar.

Meu nome é Kimberley, mas meus amigos da discoteca me chamam de Kim.

- Você gosta de dançar, Kim?

- Adoro! Não saio da discoteca. E você, gosta? Você toca violão? - Ela apontou para o instrumento que Vicki carregava.

- Toco só músicas clássicas, mas gosto de música moderna, também.

- Que bom! Quem sabe a gente possa ir junto a essa discoteca que eu conheço em Londres. Aqui não tem onde se dançar. Se você quiser, é claro...

- Se eu tiver tempo, gostaria muito.

Vicki falou com sinceridade, pois tinha simpatizado com aquela garota. Sorriu para ela e afastou-se em direção ao escritório da tia.

Abriu a porta e entrou, ainda sorrindo. O sorriso, entretanto, morreu em seus lábios quando deparou com um homem sentado à escrivaninha de sua tia e reconheceu-o como o que dirigia o carro prateado na estrada. Não esperava vê-lo de novo, muito menos ali, no escritório de Abigail, tão à vontade, fumando, com a cadeira inclinada para trás. Ainda usando o mesmo chapéu de tirolês e os óculos escuros.

O homem não mudou de posição, mas ela percebeu que ele a reconhecera também. Ficou irritada com aquele jeito convencido. Quem ele pensava que era? Algum artista famoso, viajando incógnito?

- O que está fazendo aqui? - perguntou Vicki.

Ele afastou o cigarro dos lábios.

- Que pergunta! Eu tenho todo o direito de estar aqui.

A voz dele surpreendeu-a e desconcertou-a. Era uma voz bonita, grave, clara e bem modulada. Engraçado, mas até lhe parecia familiar... Ora, que bobagem!

- E você? - disse ele. - É uma dessas cantoras ambulantes que vão de cidade em cidade e assustam os pobres moradores dirigindo feito maluca pelas estradas?

- Como é que pode dizer uma coisa dessas?! Foi você que me jogou pra fora da estrada, guiando aquele monstro prateado feito um louco!

- Ora, o que é isso? Não seja tão irascível! E, depois, onde se viu chamar um Jaguar de "monstro prateado"?!

- Problema meu se sou ira... irascível! - Para seu desespero, Vicki gaguejou ao pronunciar a palavra.

- Irascível quer dizer pessoa que se irrita com facilidade.

- Sei muito bem o que quer dizer! - Ela ficou furiosa. Não suportava os homens que a tratavam como a loirinha bonitinha e burra.

- Além do mais, quem estava dirigindo no meio da pista era você e eu não estava em excesso de velocidade, você é que andava muito devagar.

Vicki engoliu em seco. A calma com que ele falava estava fazendo com que se sentisse uma tola de estar tão irritada. E, ainda por cima, ele tinha razão. Ela respirou fundo. Não pretendia criar sentimentos negativos logo na sua chegada, nem arranjar complicações com hóspedes ou funcionários do hotel.

Ela se aproximou da escrivaninha e forçou um sorriso.

- Acho melhor começarmos tudo de novo... Sou Vicki Dennison e peço desculpas por ter tratado você tão mal. Não costumo ser tão... tão agressiva assim, mas é que eu me assustei muito àquela hora na estrada. Cheguei aqui à Inglaterra ontem e ainda não me acostumei a dirigir pela esquerda.

- Vicki?!

- É. Meu nome é Victoria mas o apelido é Vicki.

- Prefiro Victoria. Tudo bem, Victoria, eu também devo pedir desculpas.

De repente ela percebeu que ele não se apresentara, nem sequer dissera seu primeiro nome. Por detrás dos óculos escuros ele a examinava atentamente. Já estava ficando irritada de novo. Com o cigarro na mão, num gesto indolente, ele apontou para o violão, ainda dependurado pela alça no ombro dela.

- Afinal, você é mesmo uma cantora ambulante?

- Nada disso. Sou sobrinha de Abigail Carstairs, a dona deste hotel, e estou aqui para ajudá-la numas reformas.

- Mas, minha flor, por que não disse antes! - Ele se ergueu, num gesto repentino, apagou o cigarro, e estendeu a mão por sobre a mesa. - Eu tenho o maior carinho e respeito por Abigail e é um prazer conhecer a sobrinha dela!

Desnorteada com aquela súbita mudança de atitude, Vicki ficou olhando para ele e estendeu a mão também, com certa relutância.

Ele era alto, imponente, com ombros largos e um corpo de músculos bem proporcionados. Ela, sem querer, sentiu-se atraída por ele de um modo que não conseguia definir. O contato daquela mão pareceu espalhar uma onda de calor em seu corpo.

- Disseram-me para esperar tia Abigail aqui.

- Sente-se, por favor -disse ele, indicando uma cadeira ao lado da escrivaninha.

O sorriso de derreter corações que o rapaz deu fez com que Vicki ficasse preocupada com as reações que ele estava provocando nela. Era melhor ficar em guarda com aquele tipo atraente. Já se deixara levar uma vez por sorrisos charmosos e palavras doces e dera-se muito mal!

Sentou-se e largou o violão na mesa.

- Você é assistente de tia Abigail?

Ele a analisou por instantes, sem tirar os óculos, e sorriu de novo.

- De onde você é? Eu poderia ir adiantando as coisas, se fosse preenchendo a sua ficha.

Vicki ficou intrigada. Se ele era tão íntimo da tia quanto dissera, como não sabia de onde ela era? Segundo Kim, sua tia tinha avisado até os funcionários de sua chegada. Engraçado! Havia algo de estranho com aquele homem! Por que será que não tirava aqueles óculos escuros? Será que tinha algum defeito na vista? E o chapéu então, tão ridículo! Será que 'ele era careca? Seu rosto era bonito, com traços bem definidos, pele bronzeada, uma boca bem feita, carnuda e sensual. Ele devia ter uns trinta e cinco anos...

Aliás, parecia um rosto conhecido que ela não conseguia identificar. O sorriso, a voz... principalmente a voz. Onde será que já o vira antes?

Sentiu-se enrubescer quando percebeu que ele havia notado seu olhar fixo. Pigarreou e bateu com a caneta na mesa como se quisesse, com isso, lembrá-la de responder à pergunta que fizera.

- Sou de Los Angeles - disse ela, depressa.

- Não é a minha cidade preferida...

- Você já esteve lá?

- Já. Qual é a sua idade?

- Vinte e cinco. Ei, o que é isso? Até parece entrevista para admissão em emprego!

- É mais ou menos isso. Bem, agora vejamos... altura... peso... olhos verdes - Ele escreveu, depois olhou para ela - verde-mar. Sabe que eles brilham quando você fica brava? Aliás, são muito bonitos. Como você define a cor dos seus cabelos?

- Ora... acho que são loiros.

- Hum. É um tom surpreendente. É natural ou você faz reflexos?

- Imagine só! Claro que é natural.

Vicki achou que ele já estava exagerando, estava invadindo sua intimidade .

- Você é casada ou solteira?

- Solteira.

- Não é divorciada nem viúva, é?

- Não.


- Então não tem filhos.

- Claro que não! Mas que espécie de ficha é essa que está preenchendo?

Ele ignorou o protesto e continuou anotando.

- Emprego anterior?

- Decoradora. Trabalhei na firma Hendrickson e Marriott em Los Angeles.

- Foi você quem pediu demissão?

Ela titubeou por instantes. Ele ergueu a cabeça para encará-la.

- Foi despedida?

- Não foi bem isso... quer dizer... será que é necessário, mesmo, tanta formalidade? O serviço que vou fazer é para tia Abigail, em particular. Não preciso responder a essa pergunta...

- Registro de trabalho é uma das coisas mais importantes na Inglaterra. Não se brinca com isso. É preciso obedecer à regulamentação.

- Oh, meu Deus! - Vicki suspirou. - Então escreva aí que fui despedida.

- Por que motivo?

- Francamente sr.... como disse que era mesmo o seu nome?

- Eu não disse.

Ah, sei. - Ela fez uma pausa, mas ele não revelou o nome - Pois é, não vou responder mais a pergunta nenhuma. Vou esperar tia Abigail.

- Vicki! - exclamou uma voz, atrás dela.

Vicki ergueu-se e virou-se, aliviada de ver a tia. Abigail estava mais elegante do que nunca com tailleur azul-marinho e blusa branca. Tinha mudado o penteado, desde a última vez que visitara a Califórnia. Agora usava os cabelos castanho-escuros presos num coque baixo, o que realçava as linhas clássicas de seu rosto. A maquilagem era suave, apenas um pouco de sombra marrom para acentuar os olhos castanhos e um batom leve. Era de estatura mediana, mas tinha um porte altivo e uma presença tão marcante, que dava a impressão de ser mais alta.

Vicki sempre admirara a aparência impecável da tia. Esta abraçou a sobrinha calorosamente e beijou-a no rosto.

- É tão bom ver você de novo! Mas como está linda! Ah, eu tinha me esquecido como é o bronzeado da Califórnia! Aqui o sol não é tão forte. - Ela contemplou Vicki melhor, e sorriu. - Meu Deus, como o tempo voa! Parece que ainda ontem você estava brincando com bonecas! E que criança linda você era!

- Ah, tia Abigail! - protestou ela, constrangida com a presença do estranho.

Abigail riu.

- Não tenho culpa de adorar a filha única de minha irmã! - Ela fez pausa e ficou mais séria. - Aconteceu alguma coisa para ter chegado tão antes? Fiquei admirada quando Kim me disse que você estava aqui. Na sua carta você dizia que viria dia vinte e oito de junho.

- Não aconteceu nada. Estão todos bem, papai e mamãe, e mandaram lembranças. É que ia haver uma greve nas Companhias de Aviação e ninguém sabia quanto tempo iria durar. Achei melhor vir antes, para garantir. Fiquei um dia em Londres e aluguei um carro para vir até aqui .

- Por sinal, o carro é de um tom de verde pavoroso! - disse o homem, atrás de Vicki, erguendo-se.

Surpresa, Abigail olhou para ele e mordeu o lábio num tique nervoso. Depois olhou de um para o outro.

- Nem tinha visto você aí - disse ela, depressa. - Faz muito tempo que está esperando? Ninguém me avisou que tinha chegado!

- Ninguém sabe. Eu entrei pelos fundos. Achei que devia falar com você antes de subir.

- Desculpe tê-lo chamado de Londres, mas achei que você gostaria de saber da sua irmã.

- O que foi que ela aprontou dessa vez? O recado que recebi não esclareceu muito.

Abigail ia começar a responder, mas olhou para Vicki.

- Você não imagina como estão as coisas por aqui. Kim deve ter lhe dito que tivemos problemas... É que já é o terceiro furto que acontece no hotel. Desta vez foi o pingente de brilhante da sra. Wilson! E vale uma fortuna!

- Escute aqui, Gail, lógico que isso não tem nada a ver com... - começou o homem.

- Não. Eu chamei você aqui por causa do que aconteceu ontem... o furto foi hoje. Aliás, acabei de ter uma reunião com todos os funcionários. Precisamos resolver esta situação, ou então ninguém mais vai querer se hospedar aqui. - Ela olhou para Vicki de novo e sorriu. - Você se incomoda se eu pedir para Kim levá-la até o seu quarto? Assim você pode ir se acomodando e desfazendo as malas. Na hora do jantar agente conversa melhor.

- Claro que não me incomodo.

Vicki ficou mais curiosa ainda para saber quem era o homem. A tia não o apresentara e falara com ele num tom de reverência. Certamente ele não era um dos empregados do hotel. Então, por que fingira ser? Por que fiz:era todas aquelas perguntas dizendo estar preenchendo a ficha? Abigail dissera tê-lo chamado por causa da irmã dele, mas quem seria ela? Mistério em cima de mistério!

O homem olhava para ela de novo, com ar de riso. Vicki sentiu-se constrangida. Ele tinha lhe pregado uma peça e ela caíra direitinho. Estava com vontade de pedir a ele uma explicação, mas, percebendo a ansiedade da tia, simplesmente encolheu os ombros e encaminhou-se para a porta. Era melhor ignorar aquele estranho.

Abigail acompanhou-a até o corredor.

- Desculpe estar pedindo para você sair assim... mas Kim vai cuidar bem de você. O que achou dela?

- Gostei dela.

- Eu também gosto - Gail sorriu. - Às vezes os hóspedes se chocam um pouco à primeira vista, mas acabam todos gostando dela. Ela é tão boazinha, tem um coração de ouro, e está sempre alegre! Além do mais, é muito competente, ótima para organizar passeios. E é de confiança.

Abigail deixou as duas juntas e afastou-se. Kim levou Vicki até um pequeno elevador de grade de ferro.

Vicki teve vontade de perguntar a ela sobre o “homem misterioso" mas se conteve. Seria indiscreto ficar perguntando aos funcionários .

O elevador subiu meio aos trancos e quando parou no quarto andar Vicki suspirou aliviada, resolvendo que evitaria usá-lo.

O quarto, entretanto, era encantador e aconchegante, decorado com mobília antiga. Muitos de seus ex-clientes em Los Angeles dariam uma fortuna por uma só daquelas peças. A colcha da cama era estampada com florzinhas, as cortinas eram amarelas, combinando com o estampado, e dando uma aparência ensolarada ao aposento; havia uma penteadeira de três espelhos, duas poltronas e um pequeno divã. A janela dava para o pátio, tal como ela queria, oferecendo uma bela paisagem do rio e do bosque.

Por alguns instantes, Vicki ficou diante da janela admirando o cenário em silêncio. Pouco depois, porém, chegou o camareiro com sua bagagem e ela começou a desfazer as malas. Em seguida tomou um banho de imersão, demorado e relaxante.

Sentindo-se descansada e com ânimo novo, sentou-se à penteadeira para fazer a maquilagem leve que costumava usar; penteou os cabelos com capricho, prendendo-os na nuca com uma fivela dourada, favorecendo as mechas mais claras. Escolheu o vestido verde de crepe que realçava seus olhos. Não que estivesse esperando encontrar o "homem misterioso", mas se o visse queria estar preparada.

Aquele homem a intrigava e a presença dele a perturbava de certa maneira, justamente o que ela não queria que acontecesse. Tinha decidido não se envolver com homem nenhum por um bom tempo.

Estava se sentindo independente pela primeira vez e queria cuidar de sua vida como bem entendesse. Para proteger-se de envolvimentos, ela criara uma barreira emocional e não ia permitir que ninguém a quebrasse.

Consultou o relógio de pulso. Será que já estava na hora do jantar? Gail esquecera de lhe dizer. Era melhor descer e ficar no saguão do hotel.

Desceu pela escada, larga e em espiral, e parou no andar de baixo para ler uma tabuleta antiga que viu dependurada no corredor: “Regulamento desta Hospedaria - quatro centavos por noite. Proibido mais de cinco pessoas numa cama. Proibido dormir de botas”.

Vicki riu. Como era antiga aquela tabuleta! Ainda sorrindo, ela se virou e foi então que ouviu aquela voz masculina, familiar , muito alta, vinha de um quarto ali perto. A porta estava entreaberta.

- Já lhe disse um milhão de vezes que não suporto esse seu comportamento! - gritava o homem.

- Ora, você é um puritano, bitolado! - disse uma voz de mulher jovem, em tom de ironia.

- E você é uma sem-vergonha, descarada! Vulgar, cínica, e sem pingo de consciência! Tenho vontade de matar você agora mesmo!

- Você não tem coragem pra isso! Você é um covarde! Só sabe falar grosso, mas na hora de agir...

- Sou covarde, é? - disse ele em tom mais baixo e ameaçador.

Vicki sentiu um calafrio de medo e ficou ali, paralisada, esperando que a jovem respondesse algo. Mas, em vez disso, ouviu, horrorizada, um ruído abafado de algo caindo e um grito lacinante. Depois fez-se um silêncio absoluto.

CAPÍTULO II
A reação de Vicki foi instintiva. Sem parar para pensar, ela escancarou a porta e entrou num pequeno hall que dava para uma saleta bem iluminada. Lá, no fundo, estava o “homem misterioso" de costas para a lareira, e de frente para ela.

Vicki quase perdeu o fôlego. Afinal, o mistério estava desfeito. Sem aquele chapéu ridículo e os óculos escuros, ela o reconheceu no mesmo instante.

- Mas você é Jason Meredith!

Foi tudo o que ela conseguiu dizer. Por um longo instante ficou parada, olhando para ele embasbacada. Esqueceu até mesmo o motivo por que tinha entrado ali. Jason Meredith! Não era à toa que tinha achado conhecido aquele rosto, aquela voz.

Havia visto o último filme dele, nos Estados Unidos, um sucesso de bilheteria, e já o vira várias vezes atuando em teleteatros interpretando também O'Neill, Shaw.

Jason Meredith era um dos melhores intérpretes de Shakespeare da Inglaterra, aclamado pela crítica de vários países, com o mesmo respeito com que se falava de Laurence Olivier, Sir John Gielgud, Richard Burton e outros monstros sagrados do palco, inclusive o próprio pai de Jason, Giles Meredith, que já morrera há algum tempo.

Jason era mais bonito ainda em pessoa do que na tela. Os cabelos castanho-escuros, fartos e rebeldes, emolduravam um roso de olhos acinzentados, muito expressivos, Todo ele irradiava um magnetismo irresistível.

Nesse instante entrou no quarto um homem alto e forte, de cabelos grisalhos, que se aproximou de Vicki com ar de ameaça,como se fosse pegá-la e jogá-la longe.

Assustada, ela recuou um pouco.

- Está tudo bem, Royce - disse Jason, achando graça. - Não acho que Vicki represente algum perigo. Ela é mais uma gatinha do que um tigre.

O homem parou onde estava e ficou apenas olhando-a de olhos semicerrados.

- A porta estava aberta... e eu... eu ouvi um grito - gaguejou ela, lembrando-se afinal do que fora fazer ali. - Pensei que... ah...

A voz de Vicki morreu na garganta ao ver outra pessoa na sala, sentada no sofá: uma garota bonita de olhos luminosos e brilhantes, com cara de menina levada. Parecia ter uns quinze anos.

Ela deve ter pensado que você estava me matando, maninho - disse ela a Jason, achando muita graça.

- Até que não era má idéia. Também, por que você tinha que gritar daquele jeito?! Não sei como não atraiu o hotel inteiro para cá! E, sem dúvida, foi você que deixou a porta aberta. Quando vai aprender a ter mais cuidado?

A garota fez uma careta para ele.

- Você veio me salvar? - perguntou ela a Vicki. - Puxa, como você é corajosa! Só que nós estávamos apenas ensaiando.

Vicki sentiu ter enrubescido. Ficara tão atônita de estar diante de Jason, em pessoa, que nem percebeu que ele estava com um texto na mão.

- Ah, vocês estavam lendo um texto... - Vicki teve vontade que o chão se abrisse para que ela sumisse de vista.

- Por sinal que não é nada bom - disse Jason, irritado. - Como é que o escritor pode querer que um ator grite essas frases tão longas? E tem falas de um tremendo mau gosto! - Ele largou as folhas de papel no sofá e olhou para Vicki com ironia no olhar. - Mas, acho que se você se convenceu de que a briga era verdadeira o diálogo não deve ser tão banal quanto eu pensei.

Vicki ficou ainda mais vermelha, sentia o rosto queimar. Como sair daquela situação embaraçosa e humilhante, salvando ao menos um pouco de sua dignidade?

- Desculpem-me... É que eu não o reconheci logo. Não sabia que você era Jason Meredith e... por isso não me ocorreu que pudessem estar ensaiando. Pensei que... - Ela se interrompeu bruscamente, antes que falasse mais besteiras.

- Não precisa se desculpar , Victoria. Não leve isso tão a sério. - A voz dele tornou-se gentil. - Vou lhe oferecer uma bebida para que se recupere do susto. É o mínimo que posso fazer para me redimir.

Ela não tinha mais certeza se ele estava sendo irônico ou não. Parecia sincero.

- Aceita um vermute?

Vicki ficou indecisa.

- Por favor, Victoria - insistiu ele, com aquela voz quente e grave que fez o coração dela bater descompassado.

- Aceito sim, obrigada.

Ele sorriu e isso o tornou mais atraente ainda. Nenhuma mulher resistiria a tanto charme.

Vicki ficou tão atordoada que mal pôde andar até a poltrona que ele indicou e sentar-se. Quando a garota parou na frente dela com o cálice de bebida, Vicki custou a perceber.

- Ah... obrigada. Desculpe, eu não vi... ah...

- Tudo bem - disse a garota com sarcasmo. - As mulheres sempre ficam assim diante de Jason. Já estou acostumada.

Vicki tentou disfarçar seu constrangimento. Devia estar parecendo uma perfeita idiota. Tomou um gole de vermute e endireitou-se na cadeira, querendo parecer natural.

- Deixe-me lhe apresentar minha irmã Paula - disse Jason secamente.

Agora o sorriso dele parecia um pouco forçado, como se quisse deliberadamente impressioná-la. Devia estar se divertindo às suas custas. Quantas mulheres não teriam perdido a cabeça com aquele sorriso!

- Esta é Vicki Dennison, Paula, a sobrinha de Abigail que veio de Los Angeles.

- Muito prazer - disse Paula, quase com rispidez. Depois olhou com petulância para o irmão. - Você vai querer continuar com aquela leitura chata, vai?

- Acho que por hoje basta. Vá trocar de roupa para jantar, mas não saia do seu quarto. A ordem continua valendo: não pode ir a lugar algum a não ser comigo, com Royce ou David.

Ela fez uma careta e mostrou a língua para o irmão, depois sorriu para Vicki e saiu correndo da sala.

Só então Vicki percebeu que aquela sala fazia parte de um pequeno apartamento, como o de sua tia Gail, onde estava hospedada.

Jason tinha se servido de bebida e sentara-se no sofá em frente à poltrona. Acendeu um cigarro e reclinou-se para trás apoiando a cabeça no encosto.

- Espero que desculpe a rudeza de Paula - disse ele, com um suspiro. - Ela está brava comigo porque eu não a deixei sair para ver um filme que estava querendo. Depois ainda pedi que lesse o roteiro comigo.

- Ora...

- Essa minha irmãzinha está sempre arranjando encrenca! Ontem criou um problema desagradável para Gail e eu a deixei de castigo. Por causa disso tive que vir de Londres e eu estava lá tratando de um assunto muito importante para mim! Fiquei louco da vida! Por isso fiquei tão nervoso com o incidente na estrada...

Vicki achou que o "assunto importante" devia ser mulher, pelo que lera dele nos jornais e revistas, mas logicamente não disse nada.

- Mas por que, afinal de contas, você fingiu ser um funcionário do hotel? Todas aquelas coisas que me perguntou para pôr na ficha!

Ele fez cara de inocente e apagou o cigarro calmamente.

- Eu só não disse para quem era a ficha... Você não me reconheceu e achei melhor fingir ser um funcionário do hotel. Iria parecer muito pernóstico revelar a minha identidade, assim de repente. - Ele sorriu de novo. - Pelo menos fiquei sabendo alguma coisa a seu respeito.

Vicki não podia acreditar que tivesse despertado algum interesse nele. Ficou outra vez em dúvida se Jason estava sendo irônico ou não.

- Sua irmã é muito bonita.

- É. Acho que eu estou prejudicando Paula de certa maneira, Victoria.

Ouvir seu nome pronunciado por aquela voz maravilhosa era demais para ela. Parecia estar sonhando! Não podia ser verdade o fato de estar ali, naquela sala, conversando com aquele homem tão famoso e cobiçado! Queria se mostrar natural, achar coisas inteligentes para dizer, mas... era impossível! Chegou até a ficar aliviada quando Royce entrou dizendo a Jason que o estavam chamando ao telefone.

Ela ficou observando Jason atravessar a sala com passos elegantes de um atleta. Ele atendeu o telefone no aposento ao lado.

- Mas, Sabrina, minha querida...

Vicki não queria ser indiscreta e ouvir a conversa, mas também não seria delicado sair antes dele voltar. Procurou distrair a atenção, analisando o ambiente. Era uma bela sala... Até aquele momento, aliás, não tinha visto nada que precisasse ser redecorado naquele hotel. Estava começando a desconfiar que o convite de Gail tinha outro motivo. Provavelmente, sua mãe havia comentado algo com a irmã, dizendo que seria bom se a filha pudesse sair um pouco de Los Angeles. Era muita coincidência o convite ter surgido justo naquela ocasião em que estava tão chateada com os problemas que tivera na Hendrickson e Marriott. ..

Assim que Jason entrou, Vicki levantou-se, ainda segurando o cálice de vermute.

- Eu preciso ir, tia Gail já deve estar me procurando...

- Acabei de falar com ela pelo telefone. Ela vai subir agora para se arrumar. O jantar será no apartamento dela daqui a quarenta e cinco minutos. Abigail adorou saber que você está aqui se divertindo!

Ela ficou sem saber o que falar e acabou sentando-se de novo. Ele pegou o copo de bebida de cima da mesinha e sentou-se também.

- Do que, mesmo, estávamos falando?

- De Paula...

- Ah, é. Sabe, eu acho que ela está se tornando muito difícil. Quando era pequena, era bem mais fácil cuidar dela. A sra. Powell, minha governanta, e eu dávamos conta muito bem. Paula era uma criança boazinha, mas agora... - Ele suspirou e tomou um gole da bebida.

Vicki lembrou-se que Giles Meredith morrera num acidente de carro pouco antes do nascimento da filha. Lera a reportagem toda numa dessas revistas que ficam em salões de cabeleireiro. Ali dizia que o nascimento de Paula tinha sido bastante difícil. Elizabeth Meredith, a mãe, já estava com mais de quarenta anos, ainda traumatizada com a recente morte do marido, e um ano depois veio a falecer também.

O repórter enaltecia as qualidades do casal como intérpretes de Shakespeare e salientava que os dois tinham sido tão companheiros que sempre se recusavam a trabalhar em peças que não oferecessem papéis para os dois.

Jason estava com uns vinte anos quando ficou sozinho com a irmã ainda bebê. Não deve ter sido nada fácil para ele assumir responsabilidade de criar Paula! Vicki sentiu uma onda de simpatia por ele.

Sabia que por aquela época Jason casara-se com Claire Bellamy, uma famosa cantora de ópera. Segundo os colunistas, fora um casamento tumultuado, com brigas escandalosas em público e reconciliações. Claire tinha morrido num acidente de avião, há uns três anos e depois disso Jason sempre aparecer nos noticiários envolvido em romances com as mulheres mais bonitas e famosas.

- Você está muito calada, Victoria.

- Estava tentando lembrar qual a peça em que você está trabalhando agora...

- No momento estou fazendo Otelo, de Shakespeare, e depois será Hamlet. Sabe, é engraçado mas eu me sinto como se fôssemos velhos amigos!

Vicki não sabia como responder, ela não se sentia nada à vontade diante dele.

- Hamlet... é uma história fascinante! Não assisti à peça no palco, mas li na escola e vi o filme de Olivier na televisão. - Ela respirou fundo e mudou de assunto. - Você mora neste hotel? Eu li numa revista que você herdou a casa de seus pais... por acaso é aquela em estilo georgiano, na outra margem do rio...?

Ela se interrompeu bruscamente. Estava indo de mal a pior. Agora estava revelando que lia revistas onde se publicava toda espécie de mexericos sobre artistas. Se continuasse assim, que opinião ele não faria dela!

O rosto de Jason ficou tenso.

- É, sim. - Ele fez uma pausa. - Desculpe se respondi com rispidez, mas é que você tocou num assunto delicado. Houve um incêndio lá, há quase um ano, que causou muitos danos. E por isso que estamos morando aqui por enquanto. A sra. Powell e o meu secretário, David Brent, estão conosco, e Royce, é claro. Vai levar uns dois ou três meses ainda para que casa fique habitável.

- Parece que foi um incêndio provocado, não foi?

- É, foi o que disseram os peritos que examinaram o local... Ainda bem que não houve vítimas.

- Mas por que alguém haveria de querer pôr fogo na sua casa?

- Infelizmente quem se toma conhecido do público, como nós atores, acaba. sendo alvo de pessoas desequilibradas. O incêndio aconteceu pouco depois de uma carta ameaçadora. Aliás, é por causa dessa carta que Royce está super cauteloso. Viu como ele agiu logo que encontrou você aqui dentro, não é? - Ele tomou mais um gole e sorriu querendo disfarçar a tristeza. - Royce é o nosso mordomo, trabalha para nós há anos e é muito dedicado...

- Nossa! Eu pensei que ele fosse me pegar e me jogar lá pra fora!

- É, eu vi que você ficou assustada. Desculpe, mas na verdade Royce é uma pessoa muito gentil.

Ele largou o copo na mesinha, inclinou-se para trás e encarou Vicki.

- Bem, mas chega de falar da família. Conte-me alguma coisa sobre você, Victoria. Você disse que é decoradora...?

- Sou.

Foi só o que ela respondeu, temendo que ele perguntasse de novo o motivo de ter sido despedida do emprego. Mas, por incrível que parecesse, Jason mostrou-:se realmente interessado e conseguiu afinal deixar Vicki tão à vontade que ela própria se admirou de contar a ele sobre seu pai, zoólogo, e sua mãe, corretora de imóveis. Chegou até a falar de seu trabalho como se ajustasse perfeitamente ao cliente que a contratara.



- Eu entendo muito bem. A melhor coisa que existe é trabalhar no que a gente gosta. Por acaso você já fez teatro, Victoria?

- Só quando estava na escola, mas nunca fui muito boa nisso.

- Não? Pois eu imaginei o contrário. Você tem uma excelente movimentação e um rosto bastante expressivo. A sua entrada aqui, agora há pouco, foi magnífica! Digna de um palco!

Inesperadamente Jason se ergueu e ajoelhou-se ao lado da poltrona dela, segurou-lhe o queixo e forçou-a a encará-lo. Vicki ficou paralisada, sentindo o olhar dele analisar seu rosto com intensidade.

- Hum... deixe-me ver - disse ele, pensativo. – Até agora eu já vi você expressar raiva, surpresa de ter me reconhecido, medo e... é, uma certa admiração contida. Agora você está de novo com medo...

Enquanto Jason falava, Vicki sentia o despertar de estranhas emoções e reações em seu corpo. O contato da mão dele em seu rosto, aquele olhar assim tão próximo e aquela voz vibrante provocavam-lhe coisas que nunca sentira antes. Uma quentura espalhava-se por seu corpo e uma sensação gostosa de langor a imobilizava...

- Seus olhos são mesmo muito bonitos...

Ele recitou uns versos de Shakespeare para completar o elogio e ela identificou o autor.

- Ah, você conhece! Gosto de mulheres que lêem.

Antes que Vicki pudesse responder qualquer coisa, Jason se ergueu e pegou o texto que Paula deixara no sofá.

- Talvez você possa me ajudar afazer esta leitura.

- Acho que eu não faria direito... - Nervosa, Vicki inclinou-se para a frente e largou o cálice. - É melhor eu ir embora...

- Que bobagem! Ainda faltam quinze minutos para a hora do jantar. O que você vai ficar.fazendo? - Ele se sentou no braço da poltrona dela e aquela proximidade deixou-a perturbada.

Vicki começou a ficar assustada. O que estava acontecendo com ela? Estava se portando como uma adolescente, macaca de auditório!

- Pronto, vamos lá - disse Jason, como se não estivesse percebendo o efeito que causava nela. - A mulher, chamada Theresa, acabou de gritar depois de Bradley tê-la jogado no chão. Está olhando para ele, aterrorizada. Ele se abaixa ao lado dela, arrependido de ter chegado àquele ponto. - Jason olhou para Vicki, irônico. - Por falar nisso eu não joguei Paula no chão. Só bati com a mão naquele móvel ali para fingir... Quando estou representando, sempre me deixo levar pelo papel!

Vicki sorriu nervosa e fez menção de levantar-se.

- Ah, Victoria, não me abandone agora. Eu prometi ao rapaz ler a peça dele. É um jovem autor, tem coisas boas em certo aspecto, mas usa muitos clichês. Esse trecho é meio fraco. Mas eu sempre cumpro as minhas promessas!

Sem jeito, Vicki pegou as folhas de papel.

- Mas, eu não sei...

- É só ir lendo. Veja, estamos aqui: Bradley ajuda-a a erguer-se do chão, coloca-a sentada numa poltrona e senta-se no braço da poltrona.

Desolada, Vicki começou a ler em voz alta sua fala no texto.

- "Por que me trata desse jeito, sabendo o quanto eu amo você?"

- "Porque eu amo você, meu amor. Amo demais para suportar que você olhe para outro homem."

As palavras eram banais, mas a entonação que Jason dava enriqueciam-nas, transmitindo emoção. Ele entrara no papel.

- "Eu só olho para provocar seu ciúme."

- "Eu sei."

Quando Vicki ia virar a página, Jason segurou-lhe a mão detendo-a. Ela olhou para ele e aquela quentura gostosa espalhou-se de novo por seu corpo. Jason olhava-a com ternura, como se ela fosse a mulher mais linda e mais desejável do mundo. Quando ele aproximou o rosto devagar, Vicki largou o texto e segurou seu braço. De repente os braços de Jason a envolveram, puxando-a para si.

Tudo parecia estar acontecendo em câmara lenta. Vicki sentiu o corpo dele contra o seu, irradiando um calor perfumado, e depois aquela boca linda e sensual aproximou-se e apossou-se de seus lábios com delicadeza.

Vicki sentiu-se derreter, todo seu corpo amoleceu e o resto do mundo deixou de existir. Queria que não terminasse mais aquele abraço e aquele beijo!

Quando Jason afastou o rosto e a olhou nos olhos, bem de perto, pareceu por instantes estar tão perturbado quanto ela, mas logo em seguida largou-a com um gesto brusco.

- Desculpe-me, mas, como já lhe disse, sempre me deixo levar demais pelo papel. -Ele sorriu. - Eu estava apenas seguindo o texto...

Atordoada, ela olhou para as folhas de papel sem conseguir focalizar as letras. Estava tremendo toda. Mas ele apontou para umas linhas: “Ele olha com ternura para ela, toma-a nos braços, devagar, e beija-a demoradamente".

Vicki engoliu em seco. Mas como não pensara nisso!? É claro que ele estivera só representando! O que mais poderia ser? Amor à primeira vista, logo com ela, Vicki? Ele que conhecia tantas mulheres lindas!

Com muito esforço ela conseguiu rir.

- Você tem razão, o texto é fraco mesmo.

Jason se ergueu e estendeu-lhe a mão.

- Não vou prendê-la mais, não quero que Abigail fique brava comigo. Ela já deve estar esperando.

Com muito esforço Vicki se controlava para não demonstrar o quanto ficara perturbada com o beijo. Respirou fundo e procurou dizer algo para sair dali com dignidade.

- Obrigada pela aula de teatro.

- Foi um prazer.

A expressão dele era indecifrável, já não estava mais sorrindo.

Vicki despediu-se e subiu para o apartamento da tia, contente ao menos de ter conseguido sair-se bem, no final, sem demonstrar a Jason que aquele beijo fizera-a perder a cabeça por completo. Um beijo só bastara para que se apaixonasse perdidamente.




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