No palco da vida



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CAPÍTULO X
O nome dele era Colly Winters, contou Paula, mais tarde, e tinha dezenove anos. O conjunto chamava-se "Explorers" e trabalhavam juntos há quatro anos, viajando de uma cidade para outra, na esperança de um dia tomarem-se famosos. Paula estava entusiasmada, repetindo que ele gostara dela sem saber quem era, sem saber que tinha um irmão famoso.

Ela, Vicki e Gail estavam tomando lanche juntas e conversando.

Vicki sorriu para Paula.

- Não sabia que você dançava tão bem!

O rosto da garota iluminou-se.

- Eu gosto de dançar, sempre observo os que dançam na televisão e depois pratico no meu quarto. Colly também me elogiou, disse que sou fabulosa! - Ficou com ar sonhador. - Eu dei a ele o número do meu telefone. Não conte nada a Jason.

- Onde é que o conjunto dele está tocando? – perguntou Gail.

- No George, um bar quase fora da cidade.

- E esse conjunto é bom mesmo? - perguntou Gail a Vicki.

- Muito bom. Por que, está pensando em contratá-los?

- Bem... estive pensando na sua sugestão e acho que vale a pena tentar. Quem sabe se eu conversar com o empresário deles...

- Colly é o empresário - interrompeu Paula mais do que depressa. - A senhora quer mesmo que eles toquem aqui?! Mas isso é genial!

- Você não pode dançar na boate - lembrou Gail. - Ainda é menor de idade.

- Eu sei, mas pelo menos ele vai ficar mais perto e a gente poderá se ver.

- Você gostou dele, mesmo, hein? - disse Vicki.

Paula fez que sim, os olhos brilhando.

- Ele mora num apartamento só dele em Londres! Imagine! Não é genial? Ah, como eu queria morar em Londres.

- Então, o que acha, tia Gail? - perguntou Vicki.

Gail ergueu-se, largando o guardanapo sobre a mesa.

- Vamos ver... Primeiro vou querer ouvi-los tocar e depois ver se chegamos a um acordo. - Ela encolheu os ombros. - Rock neste lugar tão antigo! Simon ficaria horrorizado. - Bateu no ombro de Paula. - Não fique entusiasmada demais. Nada está decidido ainda, mas eu prometo que vou ouvi-los e julgá-los com imparcialidade. Vou pedir para Kim ouvir também. Ela é perita nesses assuntos.

- Kim adorou-os! - exclamou Paula, depois franziu a testa. - A senhora não vai dizer a Colly quem sou eu, vai, tia Gail? As coisas mudam tanto quando as pessoas ficam sabendo que Jason é meu irmão!...

- Pode ficar tranqüila, não vou dizer nada. Agora preciso voltar ao trabalho. Tenho que falar com uns agentes de seguro.

- A respeito da jóia da sra. Wilson? - perguntou Vicki.

- Estamos tentando chegar a um acordo. Não há pistas ainda. - Gail suspirou. - Pelo menos não houve mais roubos...

Abigail afastou-se e Vicki ficou a sós com Paula.

- Colly vai acabar descobrindo quem você é. E se ele for seu amigo de verdade, isso não vai fazer diferença nenhuma!

- Eu sei, Vicki, mas eu quero que ele me conheça primeiro. Você me entende?

- Claro que sim.

- Eu tenho orgulho de Jason e gosto muito dele... mas é que é a primeira vez que alguém se aproxima de mim sem saber da existência dele. E Colly gostou de mim, ele me disse.

Vicki ficou apreensiva como uma mãe. E se Colly não fosse o que Paula estava idealizando? Não queria que a garota se magoasse. Ela estava tão esperançosa com a contratação do conjunto! E se Gail não os contratasse? Ela era tão conservadora!


Mas, para espanto de Vicki, Gail contratou-os para uma temporada experimental. Gostou muito de Colly, que achou um rapaz esperto e simpático e, ainda, incentivou Vicki a ir dançar na boate, dizendo que estava precisando muito distrair-se e divertir-se.
Vicki aceitou o conselho. Nos dias que se seguiram ela se obrigou a sair e fazer coisas, embora sua vontade fosse ficar fechada no apartamento sem ver ninguém. Foi várias vezes sozinha para Londres, onde a agitação da cidade grande a estimulava e contagiava um pouco. Visitou todas as lojas que encontrou pelo caminho, de roupas e de decorações. Conversou com decoradores, marceneiros, fazia projetos de arrumações e cálculos de gastos. E assim mantinha-se sempre ocupada, o que lhe dava menos tempo para pensar e sentir sua frustração.

Os "Explorers" fizeram sucesso imediato. Às vezes, à noite, Vicki ia até a boate e sempre acabava dançando. Fazia tudo o que podia para preencher seu tempo e a sensação de amargura de fato se dissipara, mas deixara em seu peito um enorme vazio.

Não tinha mais visto Jason. Ele telefonava para Paula todos os dias e a garota, como sempre, a mantinha informada das atividades do irmão. Soube que ele estava ensaiando para um programa na televisão, e tinha feito várias conferências em Oxford. A rainha havia assistido a uma das representações de Hamlet e cumprimentara-o pessoalmente, depois do espetáculo.

Estavam, agora, no quarto de Paula, estudando violão. Era pequeno e decorado com os tesouros dela: álbuns de discos, um aparelho de som, estantes com livros, uma coleção de conchas e posters nas paredes, aos quais fora acrescentado mais um: Colly, numa clássica pose, tocando guitarra. O que Jason ia dizer quando visse aquilo?

Mas o grupo era realmente bom. Tocavam bem e, apesar da aparência "punk" durante os shows, eram todos limpos, educados, saudáveis, sem quaisquer indícios de que fizessem uso de drogas ou fossem violentos.

Nos intervalos dos shows e quando não estava trabalhando, Colly e Paula ficavam juntos, ali pelas redondezas, sempre observados de longe por Royce. Não faziam nada de mais e portavam-se apenas como jovens que estivessem se conhecendo. Mas Vicki tinha certeza de que Jason não veria esse relacionamento com bons olhos.

- Será que você não está se afeiçoando demais a Colly? - perguntou Vicki a Paula, num determinado momento.

Paula demorou uns instantes para responder, ficou de cabeça baixa, olhando para o violão enquanto dedilhava as cordas.

- Eu o amo - disse ela, afinal.

- E ele, ama você também?

Paula encolheu os ombros, sem erguer a cabeça.

- Ah, você sabe como são os homens... acho que Colly nem percebeu que eu sou mulher, ele me trata como um amigo. Mas por enquanto está bom assim, não quero forçar nada.

Vicki ficou se perguntando se Paula sabia alguma coisa sobre sexo. Não podia imaginar a sra. Powell falando desse assunto com a garota. Como se tivesse lido seus pensamentos, Paula ergueu o rosto e sorriu.

- Não precisa se preocupar, porque eu sei me cuidar. Jason já me explicou tudo sobre sexo e sei que não estou preparada para isso, ainda. Tem muito tempo pela frente e não tenho pressa. Mas eu amo Colly. Ele é tão... tão diferente! Claro que eu não disse isso a ele. Acho que é melhor agente não se revelar demais para os homens, não é mesmo?

Vicki concordou, admirada com o bom senso da menina. Realmente, não era preciso preocupar-se com ela.

Como era inevitável, Colly acabou sabendo quem era o irmão de Paula, mas não se mostrou impressionado nem mudou o modo de tratá-la.

- Você vai sentir a falta dele, não é mesmo?

Paula olhou para Vicki meio assustada, como se quisesse dizer algo, mas logo retraiu-se de novo, e inclinou a cabeça sobre o violão.

- Eu acho que a gente vai se ver, pelo menos de vez em quando... e ele prometeu me escrever.

Vicki inexplicavelmente sentiu uma certa inquietação. Talvez fosse pela calma de Paula. Não era natural, ela estava calma e controlada demais para alguém que ia se separar do primeiro amor, dentro de pouco tempo. Verdade que Londres não era assim tão longe e Colly poderia visitá-la com facilidade, se Jason permitisse. Esse é que seria o problema! Paula devia estar sabendo disso, mas não parecia preocupada, estava até contente, o que era estranho.

Por algum tempo continuaram com a aula de violão. Paula tinha muito bom ouvido e aprendia depressa, com um entusiasmo tão grande que Vicki chegou até a pensar se a garota não estaria acalentando sonhos de participar do conjunto de Colly. Jason era capaz de ter um ataque! Na hora do lanche, David interrompeu a aula para chamá-las.

Enquanto tomavam chá David convidou Vicki e Paula para jantarem fora, num restaurante que ficava na cidade vizinha.

As duas foram. O lugar era realmente agradável e Paula ficou encantada. Para surpresa de Vicki, ela aceitara o convite sem reclamar. Tinha pedido, apenas, para voltar antes das nove horas, porque queria ver Colly no primeiro intervalo do show.

Vicki achou divertido o passeio e chegou até a pensar que se Kim não estivesse interessada em David, até que ela acharia bom fazer charme para ele. Isso ajudaria a passar o tempo, faria bem para seu ego e, quem sabe, até a ajudasse a esquecer Jason?!

Quando chegaram 'ao hotel, Paula foi correndo encontrar Colly. Aquela era a última noite dele na boate, e David convidou Vicki para tomar um café no apartamento dos Meredith. Pouco depois a garota entrou correndo e foi para o quarto dela, dizendo que Ia ler.

Vicki e David conversaram abertamente sobre várias coisas e ele acabou até fazendo confidências, revelando os problemas e traumas que tinha por ser de origem humilde, de uma cidade de mineiros, o que na Inglaterra era o suficiente para alguém ser discriminado.

- Neste país - dizia ele - o que conta é sua origem, o lugar onde se nasceu e a educação que se recebeu, os colégios em que se estudou... Eu fui criado numa aldeia de mineiros de carvão e até hoje tenho pesadelos com isso. Lembro-me de meu pai voltando da mina, todo sujo de poeira de carvão, sempre tossindo muito... Ele morreu aos cinqüenta anos num desmoronamento da galeria subterrânea que o soterrou e mais vinte e três homens. Eu o vi quando foi retirado dos escombros... - Ele suspirou fundo. - Minha cidade era um lugar horrível, Vicki! Você não pode imaginar a sujeira que era! Coitada da minha mãe, fazia de tudo para manter a casa limpa, mas era inútil... As cortinas ficavam acinzentadas, mal ela acabava de lavar...

Vicki observava-o enquanto ele falava. Nunca o vira falar tanto assim e de coisas tão íntimas. Começou a ficar meio constrangida, sem saber se queria ser a confidente dele. O olhar de David tomou-se distante como se estivesse olhando para dentro de si.

- Eu sempre tomo cuidado para não falar com sotaque nortista - continuou ele. - Ia ter que trabalhar na mina assim que tivesse quinze anos, mas a idéia me apavorava. Enfiar-me debaixo da terra todos os dias, viver sujo, longe da luz do dia e do ar puro... enterrado vivo como meu pai tinha sido! - Engoliu em seco, o olhar refletindo o horror antigo. - Eu fugi de casa no dia em que terminei os estudos de primeiro grau. Minha mãe, coitada, ainda me ajudou. Ela já morreu também.

Sabe, sempre gostei muito de ler e ela sempre me incentivou. Por causa disso fiquei sabendo que havia uma vida melhor, que eu podia tentar. Com o pouco dinheiro que minha mãe me deu, fui para Londres e arranjei emprego num hotel, como carregador. Emprego horrível, mas que me deu chance de conhecer gente educada, observar como se vestiam, como andavam e falavam. Fiz um curso para melhorar a dicção e perder o sotaque... Daí, um dia, o sr. Jason hospedou-se nesse hotel, e eu fiz uns serviços de datilografia para ele... Ele gostou e como estava sem secretário, contratou-me na hora.

- Ele...ele sabe da sua origem?

- Claro que sabe. Eu contei logo, mas Paula não sabe. Não achamos necessário dizer a ela...

- E você está contente com o seu trabalho, David?

- Devo admitir que não é multo agradável viver à disposição de outra pessoa, mas não tenho queixas do sr. Jason.

Vicki percebeu que ele não respondeu à sua pergunta. Será que ele não gostava de Jason?

- Você tem planos para o futuro? - perguntou ela, e acrescentou depressa: - Não pretendo ser indiscreta, David, só estou demonstrando interesse...

Ele sorriu, mais à vontade.

- Isso me alegra. Eu tenho planos para o futuro, sim. Mas preferia que você não comentasse isso com o sr. Jason.

- Pode ficar tranqüilo que eu jamais faria isso. Aliás, é pouco provável que me encontre de novo com o seu patrão.

David falou apenas, sem muitos detalhes, que pretendia estabelecer-se, comercialmente e que estava juntando dinheiro para isso.

Vicki não forçou pormenores e a conversa acabou, mudando para coisas mais amenas, até que ela se ergueu para ir embora.

- Obrigada pelo jantar, pela noite agradável e... por me confiar o seu passado.

- Será que eu caí no seu conceito por isso...? Você ainda vai querer ser... minha amiga?

- É claro que não caiu. - Vicki procurou palavras que não a comprometessem. Bela enrascada em que se metera! - Eu admiro as pessoas que têm coragem de lutar e progredir na vida. Lógico que continuamos amigos.

- Vicki...

David deu um passo à frente e, enquanto Vicki pensava o que fazer para sair daquela situação sem magoá-lo, ele a tomou nos braços, num gesto rápido, e a beijou com furor. Vicki debateu-se e quando conseguiu empurrar o rosto dele, disse:

- Não, David, pare com isso!

- Vamos para o meu quarto... - O olhar dele brilhava de desejo.

David estava mesmo pensando que ela queria ir para a cama com ele. Mas o que fizera para dar essa impressão? Ficou sem saber o que dizer, mas de repente ele caiu em si e mudou de expressão.

- Peço que me desculpe, Vicki.

Terrivelmente constrangida, Vicki pensava no que dizer, quando a porta se abriu e Royce entrou, com ar preocupado.

- Por acaso viram Paula passar por aqui?

- Voltou faz tempo e foi para o quarto dela - disse David, com voz tensa.

- Ela não está no quarto dela - disse Royce, sacudindo a cabeça. - Estava lá embaixo, agora mesmo, ajudando os rapazes do conjunto a embarcarem os instrumentos. Eu estava de olho, mas depois que o ônibus foi embora, ela sumiu.

- Onde ela iria a esta hora da noite?! - disse Vicki, preocupada, e correu para o quarto da garota.

Os dois homens a seguiram, mas não havia ninguém no quarto. Sobre a penteadeira havia um envelope endereçado a Jason. Vicki sentiu uni calafrio.

- É melhor abri-lo - disse ela a David.

Ele abriu o envelope e Vicki observou-o enquanto lia.

- Ela foi para Londres - disse ele, afinal, ao terminar a leitura. - Diz que não pode ficar longe de Colly e que não precisamos nos preocupar. Ele vai tomar conta dela. – David estreitou os lábios. - Vou chamar a polícia.

- Não! - gritou Vicki. - Se a imprensa tomar conhecimento disso, Jason vai ficar furioso. Paula não está em perigo, tenho certeza. Colly é um bom rapaz.

- Acho que você tem razão - disse David. - É melhor chamar o sr. Jason.

- Não - disse Vicki, de novo.

- Mas o que vamos fazer então? Precisamos tomar alguma providência! .

- Sei disso. Espere um pouco, deixe-me pensar.

De repente ela se lembrou. Abigail devia ter o endereço do rapaz em Londres.

- Vou para Londres falar com Jason pessoalmente e depois iremos procurar Paula. Tia Gail deve ter o endereço de Colly.

- Mas já passa das onze horas. Você não pode ir guiando até Londres, sozinha - disse David. - Eu vou junto!

- É claro que posso ir sozinha! Não sou nenhuma criança e estou acostumada. E depois é melhor que a sra. Powell não saiba disso por enquanto.

David concordou, relutante, mas não disse mais nada. Escreveu o endereço dos Hammond e entregou-o a Vicki. Ela correu para o apartamento da tia e explicou a situação. Gail aprovou o plano da sobrinha e deu a ela o outro endereço. Quinze minutos depois Vicki estava na estrada a caminho de Londres.

Só então começou a pensar que iria rever Jason e uma ansiedade brotou dentro dela. Era quase uma obsessão, a vontade de vê-lo crescia a cada instante e isso só podia ser amor.



CAPÍTULO XI
Os Hammond moravam numa bonita casa de três andares. Christopher Hammond abriu a porta e, ao deparar com Vicki, ficou contente.

Imediatamente Jason surgiu na sala, uma xícara de café na mão e expressão de alarme no rosto. Vicki sentiu um aperto no coração ao vê-lo.

- Mas o que foi que... - começou ele.

- É Paula - interrompeu Vicki. - Nós temos que ir buscá-la em Hammersmith... eu estou com o endereço aqui e acho que devemos ir já.

Ela imaginou que ele fosse pedir maiores explicações, mas Jason apenas olhou-a, largou a xícara e foi buscar o paletó.

Poucos minutos depois estavam no carro de Vicki. Jason tinha deixado o dele no estúdio da TV. No caminho ela foi contando o que Paula tinha feito, enquanto ele ouvia, tenso.

- Se aquele moleque fez alguma coisa com ela... - começou ele, em tom de ameaça.

-Tenho certeza de que não fez nada. Colly é um bom rapaz, Gail também acha. Estou admirada por ele ter feito uma loucura dessas, mas tenho certeza de que não faria nada de mal para Paula! Ele gosta muito dela!

- E eu que pensei que ela estivesse criando juízo afinal! Por essa ela merece uma surra de ficar com o traseiro ardendo!

- Não seja ridículo. - Ele a olhou espantado e Vicki continuou dizendo umas verdades que estavam engasgadas em sua garganta. - Paula não é mais uma criança! Já é quase uma mulher. Você parece achar que ela vai ficar criança até vinte e um anos e então, de repente, vai virar adulta de uma hora para outra. Não é assim, Jason. Ela tem que crescer aos poucos, cometendo erros, às vezes, experimentando atitudes, voltando a alguns comportamentos infantis... Eu sei que Paula andou fazendo muitas besteiras, mas também você não ajuda muito. Você a mantém tão enclausurada que seria de se admirar que ela não se rebelasse!

- Não sabia que você era psicóloga infantil! Lembre-se de que Paula é minha irmã. Eu a criei desde pequenininha e a conheço melhor do que ninguém! Além do mais, fugir assim não é atitude de alguém amadurecido. Não posso imaginar o que deu nela! Paula sabe como somos vulneráveis a extorsões e chantagens!

- Ela ama Colly.

- Ora, o que uma garota de quinze anos pode saber do amor?

- Julieta tinha quatorze anos.

- Julieta é uma personagem fictícia.

- Baseada na realidade. As pessoas se apaixonam em qualquer idade... Paula talvez entenda mais do que você de amor!

Vicki percebeu o quanto Jason estava espantado com sua argumentação, mas resolveu ir em frente.

- Você é muito ríspido com ela! Deixa-a trancada no hotel, proíbe-a de namorar, de se maquilar... você a está sufocando e se continuar assim vai acabar perdendo-a! Quando agente ama alguém, é preciso deixar a pessoa livre para respirar e sentir-se dona de si. Se agente não faz isso, a pessoa se revolta e luta até se livrar!

Jason ficou sem dizer nada e Vicki olhou-o de relance. Ele a olhava, com expressão indecifrável. Talvez tivesse falado mais do que devia... achou melhor não dizer mais nada, em todo caso.

Jason também não tocou mais no assunto. Limitou-se a indicar o caminho, seguindo o mapa. Vicki olhava-o furtivamente. O que estaria pensando? Será que estava muito bravo com Paula? Será que estava bravo com ela por defender a garota? Segurava a direção com força, seu corpo estava tenso. A presença máscula e marcante dele estava começando a afetá-la. Sentia-se nervosa, inquieta, cada vez que lembrava daquele corpo nu, daquelas mãos fortes acariciando-a. E quanto mais ele a olhava, mais difícil ficava.

Só quando estavam quase chegando é que Jason falou, com delicadeza.

- Eu agradeço você por ter vindo a Londres me procurar, Victoria - fez uma pausa. - E David, por que não veio com você?

Vicki enrubesceu sem querer, lembrando o desagradável episódio do beijo.

- Eu preferi vir sozinha... David quis telefonar para você, mas eu o fiz mudar de idéia. Fiquei com medo que você...

- ...tomasse alguma atitude drástica?

- É.


Ele riu, nervoso.

- Era bem provável mesmo. Ainda não sei se não vou acabar fazendo uma loucura. Não confio tanto nesse tal de não sei lá quem!

- Colly Winters, é o nome dele. Não acha que deveria ao menos lembrar-se do nome do único amigo de sua irmã?

- Único amigo, por quê?

- Ora, onde é que você acha que Paula vai arranjar amigos? Na escola, os colegas a tratam como irmã de uma celebridade, como se ela não tivesse personalidade própria. E você não a deixa ir a lugar algum sem Royce! Quem vai se aproximar dela, assim? Eu sei que você faz isso pensando na segurança dela, mas isso dificulta esse aspecto. Paula é uma garota muito só, Jason. Por isso ela se afeiçoou tanto a Colly, que a tratou com atenção...

- Mas ela tem a sra. Powell, David e... - Vicki suspirou fundo e ele se interrompeu. - Acho que você tem razão. Paula precisa de amigos da idade dela.

Já estavam no, quarteirão de Colly e começaram a procurar o número da casa dele. Jason foi quem achou.

- Meu Deus! Olhe só que lugar! Eu sabia que isso não era gente para Paula!

Vicki não tinha como contradizê-lo dessa vez. Realmente o prédio velho não tinha uma aparência muito boa. As paredes estavam todas pichadas com dizeres; muitas das janelas estavam quebradas e remendadas com fita colante e plástico. Parecia mais uma enorme favela. Vicki ficou aflita. Talvez Jason tivesse razão. Talvez Colly não fosse mesmo boa companhia para Paula. Quem sabe se...? Era melhor interromper o curso dos pensamentos.

- Acho que vamos ter que estacionar na rua - disse ela. - Não estou vendo...

- Estacione ali - ele apontou para um lugar em frente à estação de trem.

Vicki fez a conversão na rua e só quando ia parar do outro lado viu o que Jason tinha visto. Dois jovens parados, olhando para o quadro de horários: Paula e Colly. Estavam os dois de jeans desbotados, de mãos dadas, e tão distraídos que só perceberam Vicki e Jason quando já estavam bem perto. Paula, quando viu o irmão, correu para ele e atirou-se em seus braços.

- Ah, Jason, que bom que você está aqui. Eu não sabia o que fazer! Não tem mais trem e não passa um táxi por aqui!

Colly ficou onde estava, pálido, passando a mão nos cabelos cacheados. Vicki teve pena dele. Parecia tão indefeso e desarvorado quanto um menino cuja brincadeira não deu certo!

Jason olhava-o, por sobre a cabeça de Paula, com o ar furioso de um pai ultrajado.

- Acho que você me deve uma explicação, rapazinho - disse ele, com voz severa.

Colly engoliu em seco, olhou de um lado para o outro, mas afinal empertigou os ombros e deu um passo à frente, ganhando a admiração de Vicki.

Antes que ele falasse, entretanto, Paula interferiu.

- Foi tudo culpa minha, Jason. Colly nem sabia que eu estava no ônibus! Eu me escondi sem ele saber e só quando chegamos aqui é que apareci. Pensei que ia ser muito bacana, mas não estou achando nada bom!

- Sinto muito, sr. Jason - disse Colly, com voz firme. - Eu ia levá-la de volta imediatamente. Estávamos aqui vendo o horário de trens e, como não havia nenhum trem, eu já ia chamar meu amigo que dirige o ônibus. Sabe, não tenho telefone e...

Jason, impaciente, segurou a irmã pelos ombros e olhou-a bem nos olhos.

- Você está bem, Paula? Por acaso alguém...

- É claro que estou bem! Por que não haveria de estar?

Havia tanta inocência na voz e no rosto dela que Jason pareceu convencer-se de que era verdade. Suspirou fundo e relaxou a postura. Então olhou para Colly, que já havia entendido a preocupação dele.

- Já é tarde da noite - disse Jason ao rapaz -, e aqui não é lugar para se conversar, é melhor cada um ir para a sua casa. Mas vou querer que você me telefone amanhã cedo. Estarei na "Hospedaria da Árvore que Canta". Está bom às dez horas?

- Sim senhor.

- Não foi culpa dele, Jason... - insistiu Paula, olhando do irmão para Colly com ar de apelo.

- Amanhã cedo a gente conversa.

Colly despediu-se. Lançou um último olhar para Paula e atravessou a rua, com as mãos nos bolsos e os ombros encolhidos. Só então os três foram para o carro.

A garota desandou a chorar, agarrada a Jason. Vicki temeu a reação dele, mas para sua surpresa ele foi paciente com a irmã, deixando-a falar e ouvindo-a. Tal como Vicki imaginara, a idéia tinha sido só de Paula e Colly ficou apavorado quando a viu lá. Tinha mentido quando dissera que morava sozinho. Na verdade morava com a mãe viúva, que Paula detestou. Uma mulher gorda e desleixada, que usava um penhoar velho e puído, tinha a cabeça cheia de bóbis, e um cigarro dependurado no canto da boca.

O apartamento era minúsculo, só tinha dois quartos pequenos e estava cheio de roupa lavada estendida em varais. A mãe de Colly ganhava a vida lavando roupa para fora e não recebeu bem a garota que tinha ido atrás de seu filho. Paula ficou apavorada e não quis ficar lá de jeito nenhum. Colly, entretanto, não a deixou sair sozinha àquela hora para voltar para casa.

Jason ouvia sem dizer nada, compreensivo e não bravo.

- Não posso condenar a atitude dele, é claro - disse ele à irmã, afinal. - Victoria disse-me por que você foi atrás do seu amigo. Quero conversar sobre isso que você sente quando estiver mais calma.

- Você vai me pôr de castigo?

- Não, acho que você já foi punida.

Paula, sentada no banco de trás do carro, abraçou o irmão prometendo nunca mais fugir ou fazer qualquer coisa que o deixasse preocupado.

Jason não falou mais nada durante todo o percurso de volta. Paula acabou adormecendo e Vicki concentrou a atenção na estrada, sentindo que tinha se intrometido demais onde não devia.

Quando parou o carro no estacionamento do hotel, Jason ajudou a irmã a descer e depois olhou para Vicki, ainda ao volante.

- Você deve estar muito cansada.

- Um pouquinho só - respondeu ela, sorrindo.

- Obrigado por tudo o que você fez... Gostaria de vê-Ia amanhã cedo, quer dizer, hoje cedo. - Ele sorriu e olhou para o relógio. - Que tal às onze horas? É muito cedo para você?

- Você acha tão necessário conversarmos?

- Acho, sim. Tenho uma outra proposta a lhe fazer. Venho buscá-la às onze horas, então, e iremos almoçar juntos.

Antes que ela adivinhasse a intenção dele, Jason se inclinou para dentro do carro e beijou-a de leve nos lábios.

- Obrigado mais uma vez, Victoria.

Com um sorriso ele se afastou. Vicki encostou o rosto na direção do carro e suspirou fundo. Pronto! Bastara aquele beijo de agradecimento e seu coração já se enchera de esperanças novamente! Quando é que ia deixar de ser boba? Um convite para almoçar também não queria dizer nada! Para que ficar daquele jeito, com o coração batendo descompassado, como se pudesse acalentar ilusões de ser amada por aquele homem inacessível?




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