Não sei se posso



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VELHO HOMEM MOÇO



VELHO HOMEM MOÇO

A criança aprende a caminhar na terra.

O moço aprende a caminhar na água.

O homem aprende a caminhar no fogo.

O velho aprende a caminhar no ar.

Este texto não tem qualquer pretensão de fidelidade histórica ou geográfica.



PREFÁCIO


...tentar falar de um homem que percorreu a minha vida desde sempre, desde criança, desde muito antes de haver nascido...
...tentar falar de uma pessoa das mais simples, sem nome ao certo, sem certidão de nascimento, sem idade ao certo, analfabeta.
...um empregado de família, que permaneceu na família enquanto menos que um empregado, ou muito mais que isso...
...desses homens parecidos com milhares de outros, que percorrem suas vidas no mais completo anonimato, fadados ao mais absoluto esquecimento, devorados pela grande máquina – a dita sociedade – feito carne de quinta categoria...
...tentar falar de um homem que me ajudou a aprender a sorrir, uma espécie de mestre, formado nas universidades do mundo, da vida. Uma espécie de grande avô...


Não sei se posso. Ou se consigo. Falar um pouco ao menos, já que quase nada sei, daquele homem, daquela história.


Tanto tempo faz que ele vive ali, naquele canto de mundo (aliás qualquer lugar pode ser um canto de mundo). A questão é que, ao que me parece, ali ele fez um mundo encantado, um mundo em canto.

Lá ia eu escrever que ele mora ali sozinho. Às vezes é difícil enxergar os seres que habitam o mundo do outro, não estou falando nem mesmo daqueles do3 chamado mundo interno, é difícil perceber até mesmo os do chamado mundo externo. Somos terrivelmente levianos, basta que encontremos um sujeito desacompanhado de outro, e o taxamos de só, solitário. Como se os pássaros, os peixes, as árvores, as flores, os frutos, as pedras, as águas, as nuvens, a chuva, a lua, o sol, etc., não fizessem parte ativa da vida e do mundo. E isso para não falarmos dos inúmeros seres do mundo interno de todos nós.

A sua casa é soberba. Um grande cômodo que compartilha ambientes vários, harmoniosamente destacados, não por paredes ou biombos, e sim pela disposição dos móveis e utensílios. A sala, que também lhe serve às refeições, o dormitório, o espaço de reflexão, a cozinha. Apenas a varanda, na frente da casa, e o banheiro, nos fundos, estão destacados por paredes. Os demais cômodos possuem como que paredes invisíveis, funcionais. (é bom que fique claro não ter sido ele o autor das designações para as diversas partes de sua casa, eu assim o fiz após tê-lo observado por diversas vezes fazendo uso dos vários ambientes). Teve ele o cuidado de dispor os móveis e objetos de forma que não se agridam, não interfiram destoando do todo, enquanto preservam a identidade de cada ambiente. Percebe-se que o interior dessa casa vem sendo preenchido aos poucos, por objetos escolhidos e conquistados ao longo de sua vida. Neste sentido não é uma casa acabada, está sempre disponível para receber algo novo e assim se modificar. Móveis de aspecto jovem convivem com outros já bastante marcados pelo tempo, porém tudo sem entulhação. O Homem aprendeu que tudo na vida tem o seu tempo, a sua própria vida, e por isso por vezes substitue um objeto por outro, que lhe parece mais adequado às suas necessidades, sem que despreze ou desvalorize o utensílio substituído, ao contrário, sabe ele que se apegar a algo para sempre, indiferente ao seu significado no presente, e mesmo quando não está lhe servindo, seria tentar negar a própria natureza das coisas, seria tentar possuir aquilo que já não lhe pertence, seria construir um cemitério a que chamaria de sua casa.

As paredes, pelo lado de fora, são brancas, caiadas. No interior são de tijolo cru, emolduradas pela madeira dos caibros que compõem a estrutura da casa, talhados e lustrosos, dando um aspecto ao mesmo tempo robusto e aconchegante.

Não sei dizer se o Homem construiu essa casa (sei que vem construindo), ou se já a encontrou ali e deu prosseguimento nela. Sei que, na verdade, cada homem constrói a sua casa a partir de casas construídas por outros. Ninguém começa do zero, ou se preferirmos, o nosso zero, o início de cada um de nós, é a continuação e amealhação de passos e estradas e degraus construídos e percorridos por outros, a história de cada homem sendo composta e compondo a história do ser humano.

Aquele Homem vive ali, naquele canto de mundo, há tanto tempo que chego a pensar que sempre morou ali, talvez tenha se ausentado por algum tempo, por qualquer necessidade sua de ir a outros lugares, sem que jamais houvesse abandonado a sua casa.

A primeira vez que o visitei já faz muito tempo, os detalhes estão opacos, porém as sensações que tive continuam marcantes dentro de mim. Não propriamente uma visita, eu o descobri creio que por acaso, num daqueles dias em que a gente sai sem rumo, sem saber para onde se está indo, conseguindo apenas, se olhar para trás, ver de onde se saiu, e não querendo retornar. Seguindo a trilha que margeia o rio, caminhando no mesmo sentido da sua correnteza, me deparei finalmente com o casebre, assim o qualifiquei pela primeira vez, com sua frente voltada para o leste, a uns vinte passos do rio, e quase todo encoberto pelas árvores da floresta, que ali deixa suas sombras e prossegue infinitamente pelo oeste, se ampliando, se perdendo pelos contornos das montanhas, ganhando tal intensidade que o verde vai se transformando e escurecendo até virar uma tênue linha do horizonte. Tal era o silêncio, que cresceu em mim o medo, estaquei durante um tempo, para mim infinito, e sem me dar conta caminhei em lentos passos, mais para perto. Os meus passos quebraram o gelo, e só então pude ouvir sons, pareciam de terra sendo revolvida, até que os sons da floresta afinal me tomaram, os pássaros, os grilos, as folhas e galhos agitados pelo vento, um farfalhar constante, e a turbulência mansa das águas do rio. Ao passar próximo da varanda consegui enxergar uma nesga de terra até então escondida pela casa, e pude ver o Homem, acertando com o dorso da enxada, as laterais de um canteiro de verdura. O chapéu com a aba voltada para baixo me impedia de ver o seu rosto, até que, num repente, ele se voltou para mim e deu um discreto sorriso, o que me bastou, me fez tão à vontade que terminei de me aproximar, e ali fiquei talvez pelo resto do dia, quietos nós dois, quando então deu por terminado o seu serviço, um novo olhar para mim, em seguida caminhou para os fundos de sua casa, e sumiu. Com a sensação de ter descoberto algo muito valioso, e só meu, uma espécie de tesouro, retirei-me.



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