Nogueira de Faria o trabalho dos Mortos



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Nogueira de Faria
O Trabalho dos Mortos

(Livro do João)

1921
O Ceticismo é a moléstia moral do século.

F. Myers
Mas se o ceticismo vela entre nós, a necessidade de crer atrai-nos.

Camille Flammarion
A ciência moderna analisou o mundo exterior; suas penetrações no universo objetivo são profundas: isso será sua honra e sua glória; mas nada sabe ainda do universo invisível e do mundo interior. É esse império ilimitado que lhe resta conquistar. A humanidade cansada de dogmas e das especulações sem provas, mergulhou-se no materialismo ou na indiferença. Não há salvação para o pensamento senão em uma doutrina baseada sobre a experiência e o testemunho dos fatos.

Léon Denis






Fotografia de Raquel Figner
“A Ressurgida” cujo Espírito se materializou com admirável perfeição em 4 de Maio de 1921.

Conteúdo resumido
Este é um repositório de provas concretas da sobrevivência da alma, que expõe documentos divulgados na imprensa, ou registrados em atas, referentes aos fenômenos mediúnicos observados pelo Sr. Eurípedes Prado, obtidos graças à mediunidade de sua esposa Sra. Anna Prado. Reunindo preciosa documentação e cerca de 50 ilustrações, o autor imprimiu aos seus relatos a seriedade e o vigor científicos, tecendo-os, entretanto, numa linguagem descritiva e acessível a todos.

A obra apresenta admiráveis sessões de materialização de Espíritos recém-desencanados, registrados pela fotografia e pela moldagem de membros em cera. Contém, ainda, depoimentos de pessoas reconfortadas pelo reencontro com seus entes queridos, já habitantes do plano espiritual.

Este trabalho tem como objetivo oferecer elementos de estudos à Ciência, além de levar conforto aos que sofrem e esperança aos que não crêem na imortalidade.
Sumário

Dedicatórias

Aos Espíritos de João e Anita

Aos Esposos Prado

Ao Maestro Ettore Bosio
Primeira Parte

Aos que sofrem e aos que não crêem


CAPÍTULO I / 08

Como e porquê

Os que figuram neste livro

- Os experimentadores

- Eurípedes Prado

- Maestro Ettore Bosio

- Os assistentes

- Doutor Porto de Oliveira

- Doutor Ferreira Lemos

- Doutor Jose Teixeira da Mata Bacelar

- Doutor Renato Chaves

- Doutor Virgilio de Mendonça

- João Alfredo de Mendonça

- Estáquio De Azevedo

- Os Espíritos. “O João”

- Magnífico Retrato de João

- Anita

- Um marujo



- Outros Espíritos

CAPÍTULO II / 38

- As Primeiras manifestações

- Dos fenômenos

CAPÍTULO III / 44

CAPÍTULO IV / 46

- Sessão de 6 de Dezembro de 1919

CAPÍTULO V / 50

- Sessão de 14 de Dezembro de 1919 - Um contratempo prejudica os trabalhos

CAPÍTULO VI / 53

CAPÍTULO VII / 59

CAPÍTULO VIII / 63

- A Segunda Ata

CAPÍTULO IX / 67

- Sessão Realizada em 24 de Abril de 1920

CAPÍTULO X / 70

- Sessão Realizada em 30 de Abril de 1920

CAPÍTULO XI / 75

- Primeiras Experiências Fotográficas

- Fotografia a Magnésio

- Primeira Experiência

- Segunda Experiência

- Fenômenos Espíritas

- O Espiritismo em Belém

CAPÍTULO XII / 84

- Ata da sessão espírita realizada na residência do Senhor Eurípedes Prado, em 14 de junho de 1920


Segunda Parte
CAPÍTULO XIII / 88

- O Clero em Cena - O Padre Florêncio Dubois

CAPÍTULO XIV / 92

CAPÍTULO XV / 101

- Ainda a Ofensiva do Senhor Florêncio Dubois

CAPÍTULO XVI / 109

- A Recusa do Senhor Eurípedes e a nossa opinião

CAPÍTULO XVII / 114

CAPÍTULO XVIII / 116

CAPÍTULO XIX / 121

CAPÍTULO XX / 126

CAPÍTULO XXI / 133

- Experiência culminante - O excesso de controle. - Aparato desnecessário

CAPÍTULO XXII / 139

- As Materializações do João

- Uma Palestra com o Doutor Porto de Oliveira

CAPÍTULO XXIII / 144

CAPÍTULO XXIV / 148

- Datiloscopia e Espiritismo

CAPÍTULO XXV / 153

CAPÍTULO XXVI / 157

- Chave de ouro - Sem ambages - Uma profissão de fé - mais um papalvo - Salvo Seja

TRABALHOS EM PARAFINA

OUTROS FENÔMENOS

Escrita Direta

Comunicação

A paciência

Intervenção cirúrgica feita pelos espíritos


Terceira Parte
FOTOGRAFIAS / 176

- A prova fotográfica

- Fotografia luminosa

- Fotografias esquisitas

- Fotografias obtidas de dia

- Início da fotografia espírita em pleno dia


Quarta Parte
- Cartas do Doutor Melo César e Jose J. Teixeira Marques / 192

- As Materializações de Raquel / 200

- Aos Corações Amantíssimos de Frederico Figner e D. Ester Figner

- As Materializações de Raquel - Um Depoimento Valioso

- Primeira sessão a 1 de maio de 1921

- Segunda sessão a 2 de maio de 1921

- Terceira sessão a 4 de maio de 1921

- Quarta sessão a 6 de maio de 1921

- Os sensacionais fenômenos espíritas

Nota final

Aos Espíritos de João e Anita
Os verdadeiros autores desta obra, que é um testemunho humilde mais sincero da vida de Além-túmulo – verdade generosa e consoladora – mil vezes bendita, que encerra o maio, mais belo e mais tocante apelo da Misericórdia Divina aos amargurados e ingratos habitantes da Terra.
Aos Esposos Prado
Pelo muito que sofremos e sofrem no desempenho da tarefa elevada e santa de que foram investidos junto aos homens por altos desígnios de Deus.
Caros amigos Maestro Ettore Bosio
A sua pessoa, especialmente á sua dedicação infatigável e sem termo, deve a nossa causa à publicação deste volume. Ele enfeixa documentos que melhor assim ficam do que esparsos pelos jornais - É o depoimento espontâneo daquilo que vimos juntos e juntos observaram. Os incrédulos sorrirão, cheios de piedade. Os espíritos fortes zombarão. Haverá até quem duvide da nossa sinceridade, na nossa honra! Não importa. Não seriamos dignos de nós mesmos, das graças imerecidas recebidas do Céu, se o respeito humano nos impusesse silencio.

A uns e outros, do íntimo de minha alma, desejo o conforto, o estimulo, a fé e a esperança que sentimos ouvindo a palavra do Além e vendo seus abençoados mensageiros

Capítulo I
Primeira Parte
Aos que sofrem e aos que não crêem
Como e Porquê

Os extraordinários fenômenos espíritas observados pelo Senhor Eurípedes Prado, estimável cavalheiro e conceituado comerciante em Belém do Pará, obtidos graças aos variados dotes mediunímicos de sua esposa, despertaram-nos o desejo de enfeixar, em volume, diversos documentos que lhes são referentes - noticias da imprensa; atas, etc., para que não ficasse inteiramente perdido o subsídio que tais experiências poderiam trazer para essa formosa e simpática ciência que, sob o nome de Psiquismo experimental e mais modestamente chamada Espiritismo, aclara o horizonte dos conhecimentos humanos, desconcertando as construções orgulhosas da ciência oficial, confundindo as doutrinas negativistas, alentando espíritos em que se fizera à noite do cepticismo mais frio e prometendo uma nova era de renascença religiosa, amparada pelo veredicto dos homens mais cultos do mundo.

Não queremos nem devemos afastar da complexa finalidade da fenomenologia espírita o lado filosófico-religioso, como alguns entendem. Nisso estamos com Léon Denis, mestre diletíssimo, a quem nossa alma deve as horas mais agradáveis desta existência. Di-lo com franqueza e superioridade o grande escritor: A primeira vista pode parecer estranho ouvir dizer que a idéia de Deus representa papel importante no estudo experimental, na observação dos fatos espíritas. Notemos, primeiramente, que há tendência, por parte de certos grupos, para dar ao Espiritismo caráter sobremaneira experimental, para se entregar exclusivamente ao estudo dos fenômenos, desprezando o que tem aspecto filosófico; tendência a rejeitar tudo o que pode recordar, por pouco que seja, as doutrinas do passado, para se limitar ao terreno científico. Nesses meios, procura-se afastar a crença e a afirmação de Deus como supérfluas, ou, pelo menos, como sendo de demonstração impossível. Pensa-se, assim, atrair os homens de ciência, os positivistas, os livre-pensadores, todos aqueles que nutrem uma espécie de aversão pelo sentimento religioso, por tudo que tem certa aparência mística ou doutrinal. Por outro lado, desejar-se-ia fazer do Espiritismo um ensino filosófico e moral, baseado sobre fatos, ensino suscetível de substituir as velhas doutrinas, os sistemas caducos e satisfazer ao grande número de almas que buscarei antes de tudo consolações às suas dores, uma filosofia simples, popular, que lhes dê repouso nas tristezas da vida. De um lado como de outro há legiões a satisfazer; muito mais até de um que de outro, porque a multidão daqueles que lutam e sofrem excede de muito a dos homens de estudo. A sustentar estas duas teses, vemos de uma e de outra parte criaturas sinceras e convencidas a cujas qualidades nos congratulamos em render homenagem. Por quem optar? Em que sentido convirá orientar o Espiritismo para assegurar a sua evolução? O resultado de nossas pesquisas e de nossas observações nos leva a reconhecer que a grandeza do Espiritismo, a influência que ele adquire sobre as massas provêm, sobretudo, de sua doutrina; os fatos são os fundamentos sobre que o edifício doutrinário se apóia.

Certamente que os alicerces representam papel essencial em todo edifício; mas não é nas construções subterrâneas do intelecto que o pensamento e a consciência podem achar abrigo. A nossos olhos, a missão real do Espiritismo não é somente esclarecer as inteligências por um conhecimento mais próprio e mais completo das leis físicas do mundo; ela consiste sobretudo em desenvolver a vida moral nos homens, a vida moral que o Materialismo e o Espiritualismo têm amesquinhado muito. Levantar os caracteres e fortificar as consciências, tal é o papel capital do Espiritismo. Sob esse ponto de vista, ele pode ser um remédio eficaz aos males que assediam a sociedade contemporânea, remédio a esse acréscimo inaudito de egoísmo e de paixões, que nos arrastam. Julgamos dever exprimir, aqui, nossa inteira convicção; não é fazendo do Espiritismo somente uma ciência positiva, experimental; é iluminando o que nele há de elevado, o que atrai o pensamento acima dos horizontes estreitos, isto é, a idéia de Deus, o uso da prece, que se facilitará a sua missão; ao contrário, concorrer-se-ia para o tornar estéril, sem ação sobre o progresso das massas. Decerto que ninguém mais do que nós admiramos as conquistas da Ciência; sempre tivemos prazer em render justiça aos esforços corajosos dos sábios que fazem recuar cada dia os limites do desconhecido Mas a Ciência não é tudo. Sem dúvida, ela tem contribuído para esclarecer a Humanidade; entretanto, tem-se mostrado sempre impotente para torná-la mais feliz e melhor. A grandeza do espírito humano não consiste somente no conhecimento: ela está também no ideal elevado. Não é a Ciência, mas o sentimento, a fé, o entusiasmo que fizeram Joana d'Arc e todas as grandes epopéias da História. Os enviados do Alto, os grandes predestinados, os videntes, os profetas, não escolheram como móvel a Ciência; escolheram a crença; eles tocaram os corações. Todos vieram, a fim de impelir as nações para Deus. “O Grande Enigma”, págs. 87- 89.

A transcrição de tais palavras do autor do “Depois da Morte” defende a nossa maneira de encarar a Doutrina e explica o porquê do método escolhido e desenvolvido neste trabalho, especialmente no segundo volume, se Deus para conceder vida para escrevê-lo.

Queremos que a nossa exposição siga linha paralela: ao lado da observação científica, as considerações inspiradas nos princípios gerais da Doutrina. Nos princípios gerais, sim, por isso que sinceramente abominamos o Espiritismo de feição sectária e partidária. O Espiritismo não é uma seita nem uma religião.

Nada mais ingrato, nada mais incabível e injustificável, do que esse ataque das várias crenças à filosofia espírita. E má paga ao serviço providencial que esta lhes presta. De alma aberta confessamos que ainda não conseguimos compreender esse ódio implacável que as religiões votam sem tréguas ao Espiritismo. Nos tempos que atravessamos, de experimentalismo feroz, os fatos espíritas, usando, como usam, do próprio método positivo preconizado pela ciência oficial contemporânea, servem de prova irrefutável, à imortalidade da alma, e, por conseqüência, à existência de Deus. São questões essas, já uma vez o dissemos, que não se podem desunir, A verdade está com o saudoso Farias Brito, quando ensina: “o problema de Deus e o problema da alma não são propriamente duas questões distintas, mas apenas duas faces de uma só e mesma questão”.

Porque, pois, esse ódio inflexível, ódio de morte, tão forte e cego, que leva os seus sacerdotes, ainda os mais ilustrados, ainda os mais distintos, até a injúrias pungentes contra aqueles que acreditam naquilo que a Igreja proclama como verdades universais: a existência de Deus e a imortalidade da alma?

Porque agredir tão sistematicamente uma doutrina cujos princípios morais e cujos fatos têm provocado inúmeras regenerações?

Porque não ser avisado como o velho Gamaliel: “se esta obra vem dos homens, ela se desvanecerá; porém, se vem de Deus, não podereis desfazê-la”.

***

Ainda menos podemos compreender essa intolerância para com as outras religiões quando ela parte dos espíritas. Nada mais reprovável do que isso, nada mais contrário ao espírito liberal da doutrina kardecista. O Espiritismo de seita estaria fatalmente condenado à morte. Sempre o repeliram os seus maiores e mais ilustres mestres, desde Allan Kardec.



Léon Denis, sobretudo, é de uma insistência eloqüente contra o espírito de seita. “Em realidade, no seu principio e no seu fim, escreve o grande filósofo lionês, todas as crenças são irmãs e convergem para um centro único. Como a límpida fonte e o regato palrador vão finalmente juntar-se no vasto mar, assim também Bramanismo, Budismo, Cristianismo, Judaísmo e seus derivados, em suas formas mais nobres e mais puras, poderiam unir-se em vasta síntese e as suas preces, juntas às harmonias dos mundos, converterem-se num hino universal de adoração e de amor. lnspirando-me nesse sentimento de ecletismo espiritualista, muitas vezes me sucedeu associar-me às orações de meus irmãos das diferentes religiões. Assim, sem me apegar às fórmulas em uso em semelhantes meios, pude orar com fervor, tanto nas majestosas catedrais góticas, como nos templos protestantes, nas sinagogas e até nas mesquitas.” (O Mundo Invisível e a Guerra, página 76.)

Já o meu Espírito recebera idêntica lição de tolerância religiosa nas páginas benditas do Depois da Morte: “O verdadeiro iniciado sabia unir-se a todos e orar com todo. Honrava Brama na Índia, Osíris em Mênfis, Júpiter na Olímpia, como perfeitas imagens da Potência Suprema, diretora das almas e dos mundos. E assim que a verdadeira religião se eleva acima de todas as crenças, e a nenhuma maldiz.”

Gonzalez Soriano assim define o Espiritismo: “Não é uma filosofia nem uma seita religiosa: é a filosofia da Ciência, da Religião e da Moral, a síntese essencial dos conhecimentos humanos, aplicada à investigação da Verdade, a ciência das ciências.” E mais adiante: São seus fundadores todos os homens de todas as épocas e de todas as crenças que alcançaram o conhecimento de alguma verdade incontestável, demonstrada pela Razão e nela Ciência. São seus apóstolos os homens que hajam ensinado, ensinem ou venham a ensinar a Verdade.

A nós, que, antes de conhecer o Espiritismo, não nos seduziam os estudos religiosos, exatamente pela eterna guerra acesa entre as religiões, pela gana mútua, dos seus sectários, tão contrária às lições daquele que dissera aos seus discípulos a história encantadora, singela e tocante do Bom Samaritano; a nós, que éramos indiferente a tais assuntos, nos atraiu o lema kardecista: trabalho, solidariedade e tolerância. E porque nos tivéssemos sentido sempre à vontade, dentro dos princípios sem fronteiras do verdadeiro ideal espírita, ficamos e cada vez mais sentimos a nossa fé robustecida e confortada.

Não é de hoje, aliás, que nos empenhamos em dar combate a certa tendência sectarista que às vezes se nota entre os adeptos da Nova Revelação. Passado aquele natural entusiasmo de neófito, quando o estudo e a reflexão disciplinaram o deslumbramento e a alegria que nos causou a Fé, mais de uma vez nos lançamos contra o Espiritismo sectarista. De alma feita, em palestra pública, na União Espírita Paraense, dissemos: Em nosso entender, errôneo, talvez, mas desapaixonado e sincero, na guerra do clero contra nós não vemos o nosso pior inimigo. Este anda mais próximo: está em nosso próprio seio. Não nos referimos já àquele mal, que não é pequeno, da ausência de experiência, preparo intelectual e preparo moral de muitos de nós que nos lançamos imprudentemente às sessões chamadas práticas. Há, em nosso juízo, coisa mais grave. Devemos dizê-lo francamente: às vezes nos assalta o receio de ver tão belo e generosa Doutrina transformada em partido religioso, em seita intolerante quanto às outras; vê-la transformada em sistema de rígidos princípios, dentro de cujos limites, inflexivelmente demarcados, permaneçam os seus adeptos e, ao alto das fronteiras, em caracteres gigantescos: “Fora do Espiritismo não há salvação.” Vale não esquecer a lição de Claude Bernard: “Um dos maiores obstáculos na marcha geral e livre dos conhecimentos humanos, é a tendência para individualizá-los em sistemas. A sistematização é um verdadeiro enquistamento científico - e toda parte enquistada deixa de participar da vida desse organismo.”

Eram essas as palavras nossas em 1915. Não temos até hoje motivo para modificá-las. Mais firmes até nos encontramos em tais propósitos, porque cada vez mais convictos estamos de que em toda religião o erro, este apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos Céus.

O Espiritismo, insiste o autor do “O Problema do Ser e do Destino”, não dogmatiza; não é uma seita nem uma ortodoxia. Não faz imposições de ordem alguma; propõe, e o que propõe, apóia-o em provas; não exclui nenhuma crença, mas eleva-se acima de todas elas numa fórmula mais vasta, numa expressão mais elevada e extensa da verdade.

Resumindo: o fim capital do Espiritismo é todo moral e científico: de um lado, reacender a fé no coração dos que a perderam e dá-la aos que nunca a tenham possuído. Fortalecer os caracteres, alevantá-los à altura de tarefas cada vez mais úteis ao meio em que vivem, cada vez mais belas e dignificamos. Criar almas sadias, fortes e nobres, amparando-as nas lutas ásperas da adversidade e do infortúnio, dando-lhes a fortaleza de ânimo que as doutrinas negativistas fizeram esmorecer e destruíram.

Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar as más inclinações, diz o evangelho kardecista. E assim é.

De outro lado, demonstrar que Ciência e Religião não são forças opostas, mas irmãs e eternas. A Religião, adverte Edouard Schuré, corresponde às necessidades do coração e daí lhe vem a sua eterna magia; a Ciência às do espírito, e isso lhe dá uma força invencível.

A renascença espiritualista, que desponta em todos os recantos do Globo, mais veemente ainda após a Grande Guerra, far-se-á pela mão da Ciência.

Quase todos os dias o neo-espiritualismo faz uma conquista nas fileiras científicas. Testemunhos insuspeitos surgem espontaneamente. A pouco e pouco as prevenções se desfazem e intelectualidades como esse famoso Conan Doyle, que é médico, não se desdenham de dar público depoimento do que observaram e da transformação de suas idéias e crenças. E bem uma verdade consoladora esta: “dia virá em que todos os pequenos sistemas, acanhados e envelhecidos, fundir-se-ão numa vasta síntese, abrangendo todos os reinos da idéia. Ciências, filosofias, religiões, divididas hoje, reunir-se-ão na luz e será então a vida, o esplendor do Espírito, o reinado do Conhecimento.”

Assim seja.

***


Mas, afinal, porque publicamos este livro? Já o dissemos obedecemos a um duplo intuito: a) o de oferecer à Ciência elementos de estudo; b) o de levar o conforto, a esperança e a fé a muitas almas doloridas que a perderam. A propaganda pelo fato é irrespondível.

Há dois meios, diz Léon Denis, para se adquirir a ciência de além-túmulo: de um lado o estudo experimental, de outro a intuição e o raciocínio, de que só as inteligências exercitadas sabem e se podem utilizar. A experimentação é preferida pela grande maioria dos nossos contemporâneos e está mais de acordo com os hábitos do mundo ocidental, bem pouco iniciado ainda no conhecimento dos secretos e profundos cabedais da alma.

Os fenômenos físicos bem verificados têm para os nossos sábios uma importância inigualável. Em muitos homens a dúvida não pode cessar nem o pensamento libertar-se do seu estado de torpor, senão a poder dos fatos.

Eis porque o publicamos e o dedicamos também aos que sofrem e aos que não crêem. Uns e outros encontrarão nas páginas deste livro abundante manancial, de consolação, aqueles; de estudo e observação, estes. Praza a Deus que ele consiga apaziguar o sofrimento de uma única alma e despertar num só ânimo os encantamentos redentores da Fé.

Os que figuram neste livro
Dividiremos em três secções este capítulo: 1) os experimentadores; 2) alguns dos assistentes; 3) os Espíritos.
1) Os experimentadores - Toda a vez que os intransigentes negadores do fenômeno espírita se encontram face a face com provas tamanhas que a mais simples dúvida importaria num atentado à verdade e ao bom senso; toda a vez que se dá isso, batem em retirada, exclamando: é tudo fraude! Não lhes suspende a pena nem lhes mágoa a consciência a lembrança e até a íntima convicção da honorabilidade das pessoas envolvidas em tais estudos e experiências. Sabem perfeitamente bem que estas jamais viriam em particular ou de público vender ganga por ouro. Contudo, o preconceito em alguns, o sectarismo em outros, a leviandade e o orgulho na maior parte, como que lhes produzem uma insânia moral tão forte, que espanta e lhes fornece essa estranha coragem de acusar de fraudulento a quem nem sequer conhecem.

Ora, assim sendo, naturalíssimo é que, antes que o mais, deseje o leitor saber dos experimentadores e demais pessoas que tomaram parte na investigação dos admiráveis fenômenos relatados neste livro, quais as aptidões, cultura e caráter dessas pessoas.


Eurípedes Prado
A essa justa curiosidade responderemos: o Senhor Eurípedes Prado é comerciante em Belém, abastado e conceituadíssimo, pelas suas qualidades de espírito e de coração, acatado e estimado no seio da sociedade belemense.

Quem ele é diremos por suas próprias palavras, quando teve necessidade de vir à imprensa, em discussão amistosa com o ilustre Doutor Porto de Oliveira, que atribuía e creio que ainda hoje atribui os fenômenos a motivos hipnóticos. Foram, então, dizeres do Senhor Eurípedes Prado:

“Os fenômenos observados em minha casa, no recesso de meu lar; cercado de minha esposa e filhos, foram franqueados, ao princípio, a um pequeno círculo de amigos.

Mais tarde esses amigos, naturalmente entusiasmados pela novidade, começaram a pleitear o ingresso de outros, às minhas experiências.

Relutei em aceder; porém, os pedidos foram tantos que fui cedendo, até consentir na divulgação pela imprensa desta cidade.

Poderão acusar-me de não esconder esses fenômenos?

Penso que só o criminoso se esconde, e na minha casa nada se dava de clandestino.

Fiz com esses fatos, que parecem ser inéditos no Brasil, o mesmo que fazem todos aqueles a quem se depara uma coisa desconhecida na localidade em que vivem.

Bem sei que qualquer fato novo, destoante do costumeiro, desperta comentários e crítica. Eu, porém, me julgava a cavaleiro de qualquer suspeita, pois não tinha interesse em propagar esses fatos. Nada usufruo pecuniariamente; os impressos às minhas experiências, apesar de solicitados com empenho, não eram nem são pagos. Nunca fiz convites, ninguém pode dizer que eu tenha desejado esta ou aquela pessoa. Nada pretendo das pessoas de destaque que assistiram às manifestações dos fenômenos. Desafio que alguém diga o contrário.

Aos médicos e advogados que freqüentaram as nossas sessões não solicitei seus serviços profissionais.

Os altos funcionários do Estado, membros do Superior Tribunal de Justiça, lentes e deputados, advogados; juízes, oficiais de Marinha, representantes do alto comércio e grandes números de pessoas pertencentes a diversas profissões, todos foram a minha casa, com prévia solicitação, direta ou indiretamente, por intermédio de amigos comuns.

Essas pessoas podem vir declarar se as convidei e se posteriormente lhes pedi alguns favor.

Qual o móvel, portanto, desse crime?

A mola do mundo, dizem, é o dinheiro; e esse fator não passou pelas minhas mãos. As pessoas de bom agrado que foram a minha casa, não receberam, da minha parte, a menor manifestação de engrossamento. Nada pretendo da política nem da administração do Estado, nem das corporações, cujos membros, em caráter particular, estiveram em minha casa.

Nada pretendo, nada quero, nem mesmo provar alguma coisa a alguém. Não faço questão que Fulano acredite ou que Sicrano deixe de acreditar.

Tenho minha vida econômica independente.

Comerciante, sócio de uma firma que dispõe de avultado capital, que goza de incontestável crédito e que não tem dívidas vencidas, nem encrencas no Acre, não preciso, absolutamente, ele agradar este ou aquele para viver. Havendo justiça, dispenso os favores.

Se o interesse não preside à suposta farsa, onde estaria, pergunto de novo, o móvel ou a causa do crime?

Um desequilíbrio mental poderia justificar esse disparate? Uma epidemia alucinatória poderia atingir a todos os membros de minha família? Será possível que eu, que posso gerir a minha casa comercial, que os meus filhos maiores, que se formam este ano em Farmácia; que meu cunhado, que é quintanista de Direito, estejamos alucinados?

Nesse caso, como admitir a inépcia de tanta gente que tem freqüentado nossa casa, de tantas pessoas ilustradas se deixando enganar por alguns doentes? (Gravura 1.)



Gravura 01
Da esquerda para a direita: 1) Srta. Antonina Prado (médium psicográfica; 2) Eurípedes Prado; 3) Senhora (a médium); 4) Srta Alice Prado; 5 Eratóstenes Prado.

Essas palavras encerram o desabafo justo, necessário, indeclinável de um homem digno que se vê, de súbito, acoimado de farsante, ele, que sempre fora o primeiro a solicitar o exame rigoroso do fenômeno! Mas, não diremos quem é ele, somente por suas palavras: os próprios investigadores declaram a honestidade, o critério, o conceito do chefe da família Prado, sempre solícito em atender as exigências de controle que aqueles alvitravam. No intuito de evitar ociosas repetições, porque encontraremos essas referências adiante, citadas em ocasião mais oportuna, deixaremos de transcrevê-las aqui.

Para que dizer mais? E convém reparar: quem acusou o Senhor Prado como capaz de atos de fraude? Um sacerdote, que, não obstante ilustrado e talentoso, será sempre, por dever da profissão que abraçou, um implacável inimigo de todos os princípios religiosos que não batam palmas à Igreja de Roma.

Opondo-se às afirmativas gratuitas desse adversário suspeito, é, entretanto, mercê de Deus, imenso o rol de pessoas cuja austera idoneidade moral ninguém ousaria contestar - e decerto menos falível do que a infalibilidade do Papa - dogma que recebeu a sua primeira condenação do verbo de Strossmayer, inspirado pelo Céu, no próprio Concílio em que, por mal da Igreja, o decretaram.



Gravura 2
Maestro Ettore Bosio
Em poucas palavras: grande e modesto artista, forte e excelente caráter. Grande e modesto artista, dissemos.

Ser-nos-á fácil prová-lo. Correm mundo os elogios calorosos que mereceu de gênios musicais, como Martucci, Carlos Gomes, Viana da Mota e outros.

Compositor exímio, seu temperamento e sua timidez o afastaram das glórias autorais, que lhe estavam reservadas, a julgar pelo início de sua carreira de artista, pelo êxito de seus trabalhos de moço. Uma das suas mais apreciadas óperas, quando ainda jovem, “O Duque de Vizeur”, libreto de Pacheco Neto, conquistou aplausos dos mestres, a simpatia dos críticos, a consagração das platéias.

Falem por nós testemunhos insuspeitos:

Em 22 de Junho de 1895, Carlos Gomes, o imortal maestro nacional, escrevia ao empresário F. Brito, do Rio, recomendando-lhe “O Duque de Vizeu”

“Amigo F. Brito.

O sentido destas linhas é especialmente para lhe apresentar e recomendar muito vivamente o meu jovem colega compositor E. Bosio, musicista de primeira ordem.

Ele é autor de uma ópera de assunto português muito interessante: “O Duque de Vizeu”. Pelos trechos que eu ouvi desse importante trabalho ao piano, reconheci em seu egrégio autor as qualidades de operista distinto e conhecedor do melodrama moderno.

Carlos Gomes.”

E em 30 de Setembro de 1896 o grande pianista português, José Viana da Mota, deste modo se referia ao mesmo trabalho:

“Caro senhor e amigo Maestro Ettore Bosio.

Percorri com grande ingresse a sua ópera “O Duque de Vizeu”, talvez a primeira ópera séria escrita em português. Lisonjeia-me o seu pedido e exponho-lhe francamente a minha opinião. Acho o seu trabalho sério. Revela um grande sentimento dramático, a melodia é fácil, fluente e expressiva, as situações com os caracteres estão bem definidos e coloridos, o interesse mantém-se sempre pela distribuição artística dos contrastes. A maneira como emprega alguns motivos durante toda a peça é perfeitamente inspirada na forma moderna da ópera. As vozes estão tratadas de maneira a dar excelente ocasião aos cantores para brilharem facilmente, a orquestra é discreta, transparente e bem colorida.

Por isso creio que o seu “O Duque de Vizeu” produzirá grande impressão a qualquer público que o ouça como já aconteceu nesta cidade e desejo-lhe que o seu talento continue a ser admirado igualmente em todos os lugares onde se fizer ouvir.

Agradeço-lhe o prazer que me proporcionou e saudo-o como seu amigo:

José Viana da Mota.”

Sobre essa ópera o crítico de arte da “A Província do Pará,” o falecido literato Antônio Marques de Carvalho, disse:

“O Duque de Vizeu” soube conquistar saliente lugar entre as modernas composições; pelo menos se colocou igual à “Cavalaria Rusticana”, de Pietro Mascagni e muitíssimo acima de “Bug-Jargal”, do nosso co-provinciano Malcher.

Com efeito a música cheia e vigorosa de “O Duque de Vizeu” não pode ter paridade com os efeitos fáceis, com os “ritornelos” assimilados de outros maestros, que em não pequena porção se encontram nas composições de que acima falamos, apesar de serem ambas de merecimento conhecido. São estas as composições do maestro Ettore Bosio, algumas delas ainda inéditas:

Operas melodramáticas - “I Vesperi”, em 2 atos; “La Coppa d'Oro”, em 1 ato; “Ideale”, em 1 ato; “Seméle”, em 1 ato, o seu mais belo trabalho; “O Duque de Vizeu”, em 3 atos e “Alessandra”, em 3 atos e em preparação.

Trabalhos sinfônicos (para orquestra) – “Scherzo Danza”; Prelúdio in Fá “Omaggio a Carlos Gomes”; “Marcha Elegíaca Umberto I”; “A Taboca do Ceguinho”; “Cena Pitoresca Brasileira”; “Nazareida”, poema sinfônico em 3 partes: Círio, No Arraial e Idílio e Dança; “Andante melancólico”.

Peças diversas - Um pequeno álbum com cinco peças para piano; “Largo piangente” , para quinteto; “Vogando”, barcarola para pequena orquestra; “A Pequenina”, texto em português, para canto e orquestra; “Esser vorrei”; “Flor da Morte” e “Addio”, romanzas para piano e canto; “Marcha triunfal Augusto Montenegro”; “Estalidos”, galope para orquestra e diversas marchas para bandas; “Olímpia”, valsa; “Olímpia”, marcha solene, para orquestra; “Serenata campestre”; “All' antica”, gavota; “Ricordo húngaro” e “Samba do Costa.”, para sexteto e diversas outras.

Como crítico musical deixou renome na cidade mais culta do Brasil: São Paulo. Vem de feição notar que, já há esse tempo, embora muito moço, Ettore Bosio, nas suas discussões de imprensa, jamais desceu a verrina, silenciando, como devia silenciar, dignamente, aos excessos de linguagem dos seus adversários.

Quando, há anos, em Pernambuco, informa-nos um dos seus críticos, “numa polêmica renhida, com o cronista do “Diário Popular”, Gonçalves Silva, polêmica em que Bosio levou sempre a melhor, conquistou as simpatias pela sua linguagem cortês e elevada, em contraste com o estilo agressivo do seu competidor”. Nos artigos que o padre Florêncio Dubois escreveu contra os fenômenos observados pelo Senhor Eurípedes Prado, Bosio era impiedosamente maltratado. Foi a sua maior vítima. Bosio, entretanto, perfeitamente compenetrado do espírito da Doutrina, não deu resposta alguma. O tempo, dizia a quem o interpelava sobre o seu silêncio, responderá por mim. Mais tarde o Senhor Dubois verá quem tem razão. Foi quem agiu mais de acordo com os princípios que professava. E nada lhe quebrantou a energia. Continuou a trabalhar como dantes.

Ao lado do artista; o homem de bem. Ninguém conhece de Ettore Bosio senão atos louváveis. E se isso não bastasse, embora seja o bastante, o ilustre artista está a salvo de qualquer suspeita de conduta inspirada em interesses subalternos e inconfessáveis, porque, graças ao seu labor infatigável, conseguiu relativa abastança.

Ateu há bem pouco tempo, Ettore Bosio, assim que se persuadiu, após as mais exigentes experiências, da vida de além-túmulo, não teve a covardia moral de ocultar suas novas convicções, não obstante os preconceitos intolerantes da época. Bem ao contrário, sempre a disse e di-la sempre em toda parte. Assim abre o seu belo livro “O que eu vi”

“Ateu, eu estava perfeitamente convencido de que a alma era apenas a resultante do perfeito funcionamento cerebral humano, cujo desaparecimento coincidiria com a extinção vital do corpo.

A leitura da metafísica religioso, em lugar de me afastar do ateísmo, veio consolidá-lo mais ainda, surpreendendo-me bastante que sábios e teólogos edificassem a Grande Casa de Deus sobre alicerces tão carecentes de fundamentos científicos.

Procurei na Bíblia a prova da imortalidade da alma, mas o efeito foi completamente negativo. As incongruências e bizarras extravagâncias, para não dizer outra coisa, do Velho Testamento, distanciaram-me ainda mais do caminho da verdade.

Nas horas de hesitação, quando o espírito vacilava entre pensamentos antagônicos, dizia eu comigo:

- Será, concebível a existência de Deus, se tudo o que nós vemos é matéria? E se tudo é matéria, como é que existem leis evidentemente inteligentes e variáveis de acordo com a evolução desta? E se verdade é o infinito do Tempo, do Espaço e da Matéria, porque não admitir também o da nossa existência?

Tudo isto me passava com a rapidez do relâmpago, pela imaginação, e para tudo isto eu procurava nestes momentos de abandono espiritual uma solução racional, lógica e aceitável.

Deram-me para, ler alguns livros espíritas, mas aí também estava Deus, como eixo do seu grande mecanismo religioso, e, até então, Deus, para mim, era palavra sem significação.

Certos pontos, apenas, chamaram-me a atenção, nesta leitura: os das manifestações dos Espíritos por meio dos médiuns. Este para, mim suposto liame com os habitantes do Espaço, do mundo invisível, despertou-me, como era natural, o desejo de conhecê-lo “de visu”. De fato, na noite de 23 de Fevereiro de 1920, assisti, depois de reiterados pedidos meus, na casa do Senhor Eurípedes Prado, ao fenômeno espírita chamado materialização, sendo médium a sua própria esposa.

A respeitabilidade da família, a sinceridade do ato, o ambiente de honestidade e de absoluto desinteresse, tudo isso me convenceu de que o fenômeno era real, e, como tal, assombroso! Vi-me então em presença, pela primeira vez, de Espíritos materializados, demonstrando estes inteligência e vontade próprias, independentemente do pensar dos assistentes. Não havia mais dúvidas, eram eles os habitantes do Além.

Procurei assistiu a novas manifestações dos Espíritos para ratificar a minha opinião sobre o que tinha visto; o êxito foi completo.

A alma era imortal, e, por conseguinte - Deus, Espírito Perfeitíssimo, existia!

Eis como eu me tornei espírita.”

2) Os assistentes - Ser-nos-á impossível fazer uma enumeração aproximada das pessoas que têm assistido aos fenômenos mediúnicos produzidos pela Senhora Prado. Isso teria, pelo menos, o mérito do número. Mas na impossibilidade de uma referência completa, mencionaremos aquelas que mais de perto se interessam por eles. O que há de mais elevado e culto na Capital do Pará foi atraído às sessões do Senhor Eurípedes Prado. De memória, porque apenas meias dúzias de atas foram lavradas, citaremos algumas dessas pessoas, convindo observar que não assistimos a todas as sessões:

- Drs. Lauro Sodré e João Coelho, ex-governadores do Pará.

- Desembargadores Santos Estanislau Pessoa de Vasconcelos, Anselmo Santiago, Napoleão Simões de Oliveira, membros do Tribunal Superior de Justiça do Estado.

- Doutor Inácio Xavier de Carvalho, Magistrado federal e conhecido poeta e jornalista.

- Doutor Pio de Andrade Ramos, magistrado estadual.

- Doutor José Teixeira da Mata Bacelar, médico.

- Doutor Mata Bacelar Filho, médico.

- Doutor Antônio Porto de Oliveira, médico.

- Doutor Diógenes Ferreira de Lemos, médico.

- Doutor Jaime Aben-Athar, médico.

- Doutor Renato Chaves, médico.

- Doutor Juliano Pinheiro Sozinho, médico.

- Doutor Virgílio de Mendonça, médico.

- Doutor Ciríaco Gurjão, médico.

- Doutor Gurjão Sobrinho, médico.

- Doutor Auzier Bentes, médico.

- Doutor Pereira de Barros, médico.

- Doutor Pontes de Carvalho, médico.

- Doutor Gastou Vieira, médico legista.

- Doutor Amazonas de Figueiredo, advogado, lente na Faculdade de Direito e diretor do Ginásio Pais de Carvalho.

- Doutor Morisson de Faria, advogado, lente substituto na Faculdade de Direito.

- Doutor Severino Silva, advogado e conhecido homem de letras.

- Coronel Apolinário Moreira, diretor da Fazenda Pública.

- João Alfredo de Mendonça, jornalista.

- Eustáquio de Azevedo, jornalista e poeta, autor de vários livros de valor, em prosa e verso.

- Doutor Antenor Cavalcante, advogado e jornalista.

- Doutor Gentil Norberto, engenheiro, chefe da Comissão de Colonização do Oiapoque.

- Arquimimo Lima, agrimensor, chefe da 5º Secção da Intendência Municipal.

- José Girard, pintor, artista de mérito e lente na Escola Normal.

- Doutor Mastins Pinheiro, advogado e senador estadual.

- Doutor Justo Chermont, senador federal.

- Kouma Hourigoutchy, diplomata japonês.

- Angione Costa, jornalista e homem de letras.

- Doutor Pena e Costa, jornalista e promotor público.

- Coronel Simplício Costa, comerciante.

- Abel Costa, dentista.

- Pedro Batista, farmacêutico.

- Manoel Coimbra, diretor da Escola de Farmácia e lente na Escola Normal.

- Manoel Barbosa Rodrigues, comerciante.

- João da Rocha Fernandes, comerciante.

- Antônio Albuquerque, comerciante.

- Manoel Tavares, comerciante, etc.

Destes, nós nos ocupamos particularmente, entre os médicos, dos Drs. Porto de Oliveira, Ferreira de Lemos, Renato Chaves, Virgílio de Mendonça e Mata Bacelar; entre os jornalistas e homens de letras, dos Srs. João Alfredo de Mendonça, Eustáquio de Azevedo, pelo papel mais ou menos saliente que tomaram nas experiências.

Esta citação pessoal de nomes tem por intuito dizer aos que nos lêem que não foram ignorantes nem imbecis aqueles que freqüentaram as sessões Prado. Observaram e verificaram o fenômeno. Não modificaram, por isso, suas idéias. Atribuíram-no, em grande maioria, a outras causas, menos à fraude. O Senhor Doutor Lauro Sodré, por exemplo, cuja fidelidade aos princípios positivistas o País inteiro conhece, depois de ter assistido a uma sessão, declarou:

“Não creio que haja aí uma intervenção de almas. São, a meu ver, forças ainda desconhecidas. Mas o que repilo, pelos meus sentimentos de justiça, é a idéia da fraude.”

Assim falam as almas nobres.

O Doutor João Coelho disse, sem receio do ridículo e de anátemas, ter tido a impressão de reconhecer os traços fisionômicos do Espírito, cuja mão apertou, fisionomia em nada semelhante a qualquer dos presentes... Quem seria, pois?

***

Não se recusaram esses homens a proclamar a veracidade do fato. Porque a nossa questão é, no presente caso, uma única: essa veracidade. Nada mais do que isso. Dêem a explicação que entenderem e quiserem dar. Desde que se iniciou a fase moderna das manifestações de além-túmulo, com a “dança das mesas”, que os negativistas estabelecem mil hipóteses para explicar os fenômenos espíritas - desde a teoria do maravilhoso “músculo rangedor”, do Doutor Schiff, teoria que Jobert de Lamballe desenvolveu, até as hipóteses hipnóticas de hoje.



Cada vez mais vitoriosa, não obstante, a verdadeira causa progride, avança, conquista adeptos, invade o mundo...

Vejamos, entretanto, qual a opinião do Senhor Doutor Porto de Oliveira..


Doutor Porto de Oliveira
Especialista em moléstias nervosas, foi um dos que mais se interessaram pela explicação dos fenômenos. Fê-lo, aliás, sempre lealmente, sem segundas intenções, sem atitudes reservadas. Negou a causa sempre; nunca admitiu a fraude consciente. Cremos que indica a hipnose como a origem do fenômeno. E' o que se depreende de uma entrevista concedida à “Folha do Norte”, publicada na edição de 22 de Agosto de 1920.

Disse S.S.ª: “Na minha opinião trata-se de um transe hipnótico a que é sujeita, possivelmente, a médium, por alguém presente às sessões.” Infelizmente o ilustre alienista não indicou esse alguém. Achou, decerto, que não deveria fazê-lo. Foi um mal.


Doutor Ferreira Lemos
Oculista de fama em Belém, S.S.ª assistiu a umas quatro ou cinco sessões. Em todas elas observou sempre friamente o fenômeno, aparentando quase indiferença, dispensando, por vezes, lugar na primeira fila dos assistentes. Mas, notava-se, sob aquela aparência de quase pouco caso, preocupação insistente de “penetrar o mistério”.

A alguém que lhe pediu, de uma feita, que examinasse a grade, respondeu delicadamente: “Não. Tenho olhos de lince.” Quase sempre, terminados os trabalhos, quando havia experiência em parafina, S.S.ª, como por distração, entretinha-se a fazer luvas de cera, reproduzindo o processo do Espírito pondo a mão nua no balde de parafina derretida, retirando-a para o de água fria, até que, obtida a luva, tentava retirar a mão sem inutilizar-lhe o punho, o que não conseguiu nunca. Será ocioso lembrar que, quando o ilustre médico efetuava essas experiências, já a parafina estava resfriada, acusando temperatura facilmente suportável. Ainda hoje, estamos persuadidos de que S.S.ª não se arriscaria a tentá-las no início das sessões, quando a parafina fervia, à nossa vista, no balde sobre o fogo, inteiramente liquefeita por uns cem graus de calor...

Outra circunstância apreciável: ao contrário da maioria dos assistentes, S.S.ª quase nada examinava no começo das sessões. S.S.ª demorava-se mais nesse exame quando findos os trabalhos. Então, o jovem cientista examinava detidamente a grade que durante a sessão permanecia fechada a cadeado e lacrada. Casualmente, talvez, passeava o olhar pelas paredes, pelo soalho, como quem procurasse molas e alçapões. Mas, estamos certos, S.S.ª não atribuiu nunca à fraude a produção dos fenômenos. Se assim fosse, não teria assinado as atas que voluntariamente assinou.

Um dia, entretanto, propôs-se a mandar fazer, ele mesmo, uma jaula inteiriça, toda de ferro, para ser utilizada nas experiências. Houve quem pensasse, por isso, que S. S.ª desconfiava da grade. Não bastavam o lacre, os timbres especiais, as moedas colocadas sobre o lacre. Impunha-se a grade. Conseguiu substituí-la pela “jaula”, na expressão exata e feliz do Doutor Porto de Oliveira. (1)



(1) – Vide pág.144.

Enfim, o Doutor Ferreira de Lemos parecia aplicar aos fenômenos espíritas a máxima de Floriano: confiar desconfiando sempre...

Não foi em nosso entender - e que S.S.ª nos perdoe, se pensamos mal, pois que nenhuma intenção temos de ofendê-lo - não foi apenas o desejo de resolver o caso sob o ponto de vista médico, se é que S.S.ª pensava tratar-se de um caso médico, que inspirou a idéia da jaula. Outro intuito, talvez, lhe determinasse a conduta: surpreender a fraude... Daí essa idéia luminosa da jaula...

Não seria bem isso?

O certo é que até hoje não sabemos a sua opinião sobre o caso. Apenas, quando entrevistado pelo “Estado do Pará”, o jovem médico sentenciou: “Seja como for, a materialização é um fato anormal.”
Doutor Jose Teixeira da Mata Bacelar
Médico homeopata. Um dos caracteres mais austeros e mais nobres de que temos tido notícia e conhecido. Tradição de honra e bondade, o ilustre apóstolo da Ciência, mas da verdadeira Ciência que se rende à evidência dos fatos, sem preconceitos de infalibilidade nem mal entendidos orgulhos, materialista convicto que era, não fugiu à profissão de fé espírita, após a rigorosa observação dos fenômenos.

E essa mesma profissão de fé, que adiante publicamos, é um testemunho eloqüente do seu elevado caráter.


Doutor Renato Chaves
O médico legista e clínico em Belém, diretor do Gabinete de Identificação, junto à Polícia Civil. Um dia, falamos sobre o assunto, que há esse tempo, em virtude da acalorada discussão pela imprensa, era o assunto predileto de todas as palestras. S.S.ª lembrou, então, como espada de Alexandre para cortar o nó górdio das dúvidas e das polêmicas, as fichas datiloscópicas. Aceitamos com entusiasmo o alvitre. Dias depois o Doutor Chaves o tornava público pela “Folha do Norte”.

Desde a primeira troca de idéia sobre o assunto, entretanto, externamos sem reservas a nossa opinião, que até hoje mantemos. Dissemos, então, ao Doutor Renato: “O nosso entusiasmo por essa experiência nasce de que ela virá fazer perfeita distinção entre os fenômenos anímicos e espíritas. Não se admire, meu caro, se, alguma vez, a ficha obtida for idêntica à da médium. E' possível o desdobramento desta - e por conseguinte serão perfeitamente iguais a ficha do fantasma da médium e a da médium. Mas, ao lado destas, o meu amigo conseguira outras, totalmente diferentes; isto é, as fichas dos Espíritos.” (2)



(2) Vide pág. 150.

O Doutor Renato Chaves, como o seu colega, Doutor Porto de Oliveira, atribui o fenômeno a causas hipnóticas. “O fato poderá, talvez, encontrar solução nos problemas menos complexos e mais naturais do Hipnotismo” - disse o diretor do Gabinete de Identificação do Pará, quando ouvido pelos jornais.


Doutor Virgilio de Mendonça
Clínico em Belém e senador do Estado. Nome político conhecido em todo o País. Tem estudos de hipnotismo, à observação do qual se dedicou desde os bancos acadêmicos. Sua tese de doutoramento versou sobre tais manifestações, sendo um dos rubricadores da chapa da fotografia, cuja publicação causou tanto alarme entre os católicos. Ignoramos se S. S.ª tem opinião feita e definitiva sobre a origem dos mesmos. Parece-nos, entretanto, que após alguns exames, minuciosos e serenos, ele os aceitou como manifestações espíritas.

Efetuou inúmeros controles, sem contudo magoar os sentimentos de honra da Família Prado, nem exceder-se inconvenientemente em suas dúvidas e conseqüentes medidas de exame e precauções. Por isso mesmo e pela franqueza com que confessa as dificuldades da ciência oficial para explicar o caso, o Espírito o chamava “o escudo da médium”, quer dizer, a testemunha ocular e insuspeita de tudo quanto se passava.

***

Dos demais médicos, muitos dos quais presenciaram uma única experiência, não sabemos o que pensam. E' certo que, ao menos aqueles a quem ouvimos, embora atribuindo o fato a causas de feição materialista, a casos médicos, repeliram nobremente a idéia da fraude. E um gesto que os honra.



São, por exemplo, palavras do Doutor Aben-Athar, tido como um sábio entre seus pares: “Quais sejam as causas, não sei. Os fatos aí estão por mim constatados. Toda idéia de fraude é inconcebível.”

Apenas um, o Doutor Ciríaco Gurjão, afirmou, ao que nos consta, tratar-se de fraude, sob o fundamento de que ele apertara a mão de um ser humano, de uma pessoa perfeitamente viva e não de um Espírito: S. S.ª esperava encontrar a mão fria de um cadáver ou nada encontrar e... estenderam-lhe a mão robusta, cheia de vida de... Espírito materializado? Não acreditou, decretando a fraude. E' anedótico, franqueza: a perfeição do fenômeno desperta a incredulidade... Mas, seria mesmo a mão de uma pessoa viva? (3) - De quem? Se o fenômeno consiste nisso mesmo. Passemos adiante.



(3) Vide considerações de pág. 135 e seguintes.

O Doutor Gurjão Sobrinho, ao que ouvimos, participa da opinião de seu ilustrado tio.


João Alfredo de Mendonça
E' da atual geração intelectual do Norte uma das figuras mais simpáticas. Sereno, metódico, observador, de rara capacidade de trabalhe. É, sobretudo, um jornalista, na acepção integral do termo. O editorial austero e doutrinário; a gazetilha, o suelto, a crônica, a notícia, todas as secções do jornal não lhe guardam segredos. Modesto, modestíssimo, o secretário da “Folha” tem um traço bem eloqüente de caráter: detesta exibições. Além disso, raros tão francos e leais.

Em sua casa, em conseqüência de fatos que a seguir se narram, realizaram-se algumas sessões. Sua esposa, mãe, irmãs e sobrinhas examinaram o vestuário e a “toilette” da médium, quando a mesma ia trabalhar, da primeira à última peça, sendo que - e é necessário que se frise - o vestido que a médium usava nas sessões era remetido à família Mendonça, muitas horas antes do início destas, com tempo bastante para ser também examinado.

Como se verá adiante, do aposento em que se vestia, na presença daquelas senhoras, a médium, até à grade, era sempre acompanhada e também estava sob a vista de todos.

O Senhor João Alfredo de Mendonça seria incapaz de consentir que sua esposa, por exemplo, se prestasse a auxiliar “truques”, nem a distinta senhora a isso se prestaria.

Uma última informação: o Senhor João Alfredo de Mendonça não é nem nunca foi espírita.
Estáquio de Azevedo
Quem é que no mundo das letras, onde quer que se fale a língua portuguesa, desconhece o nome de Jaques Rola?

Dos seus méritos como escritor e poeta o País inteiro dá testemunho, através do aplauso com que a crítica recebe os seus livros. Nenhum gênero literário lhe é estranho. Poeta e prosador, excelente “conteur” e romancista. A crônica, o verso, o teatro, devem-lhe numerosos e sempre louvados trabalhos.

Do seu caráter justo, bom, direito, dirão aqueles que com ele convivem. Não tem falhas. E fazemos questão de salientar o feitio moral de todos esses homens para que o leitor saiba que não se trata de criaturas levianas.

Eustáquio, que tem um patrimônio intelecto-moral tão belo, não desdenhou vir a público dizer-se “papalvo”. (4)



(4) Vide pág. 162.

3) Os Espíritos. “O João” - Chamou-se em sua última encarnação Felismino de Carvalho Rebelo, desencarnado há uns vinte anos. Era tio da médium e possuía o caráter jovial que de quando em quando trai em suas manifestações. E' aliás um princípio comprovado da Doutrina Espírita: a morte, simples retorno à vida normal, que é a do Espírito, não melhora, só por só, o desenvolvimento intelectual e moral do morto. O que se dá, tão somente, é que, estando livre da influência, do jugo da matéria, a alma percebe melhor, e melhor compreende os diversos problemas da vida, da evolução eterna e progressiva dos seres, no seio da Criação.

Várias são as passagens em que aparece o caráter jovial desse Espírito. Ao lado dessa jovialidade, há a obstinação. Voluntariosa até quase à teimosia, não deixou nunca de enfrentar as dificuldades que o fenômeno, por este ou por aquele motivo, apresentava. Quase sempre essas dificuldades lhe vinham da hostilidade mental da maioria dos assistentes. Não há que ser muito entendido em Espiritismo ou, se quiserem, em Psiquismo, para saber a imensa influência que sobre os fenômenos exerce essa força, poderosa por excelência, que é o pensamento.

Absolutamente descrentes uns, persuadidos de mero caso psicopatico outros, de atenção fixa sobre a médium, todos esses perturbam os trabalhos, consciente ou inconscientemente, quase inutilizando as experiências.

Sabemos que a materialização do fantasma é obtida pelo poder de vontade dos Espíritos, bem assim as vestes que o envolvem:

Para os invisíveis o perispírito está como estaria para nós o nosso próprio corpo, que vestimos como bem nos apraz. Imaginemos que, no ato de compor o nosso trajo, alguém venha impedir-nos de fazê-lo, tirando-nos esta ou aquela peça, interrompendo-nos, enfim. Para consegui-lo, teríamos muito maior dificuldade do que se o fizéssemos sem aqueles obstáculos. E' o que se dá, temos razões para acreditá-lo, salvo diferenças oriundas da própria natureza dos casos, com os fenômenos de materialização. O Espírito, no ato de agregar os fluidos que, para isso, consegue ir “extraindo” da médium, recebe, como verdadeiras forças dissociativas, as vibrações mentais dos assistentes tanto mais eficazmente destruidoras do seu trabalho, quanto mais cientemente manejadas. A isso atribuímos o fato, aliás repetido, de João, especialmente nas suas primeiras experiências, recomendar aos assistentes que palestrassem, o que, às vezes, ele mesmo fazia, por intermédio de um outro Espírito incorporado na Senhora Prado, no estado de transe.

Um exemplo de influência mental sobre os trabalhos: Na sessão realizada a 15 de Dezembro de 1919, quando João se esforçava por fazer moldes em parafina, o Espírito que falava pela médium adormecida disse: “Um de vós pensa em relação aos outros. Como são tolos! Tudo isto é o produto de forças ainda desconhecidas que agem.”

E depois de uma pausa:

“E um incrédulo. E a corrente desses pensamentos dificulta ainda mais a tarefa do João... (5)

(5) Vide pág. 60.

Quanto à palestra, deu-se isto: na sessão de 30 de Setembro de 1919, em dado momento, como se notasse uma certa impaciência dos assistentes, pelo fenômeno, que demorava, o Espírito, que pela médium adormecida conversava com o Doutor Virgílio de Mendonça, pediu que a entretivessem. Esta solicitação levou aquele médico a perguntar porque João preferia a conversa à concentração, usada em casos tais.

- “Porque aquela distrai a vossa impaciência. Enquanto conversais, João trabalha. Conversai.” (6)

(6) Vide pág. 54.

Mas, mesmo assim, sempre o fenômeno se realizou, embora fracamente.

Nunca registramos “um verdadeiro desastre”. (7) Certamente que não raras vezes as sessões deixavam a desejar; mas, embora imperfeitamente, sempre se fazia alguma coisa, devido principalmente à tenacidade impressionante de João.

(7) Vide pág. 144.

Batizaram-no assim pelo fato de ter dado a sua primeira manifestação na noite de 24 de Junho. Quando lhe souberam o verdadeiro nome, conservaram aquele, mesmo porque assim já se tornara de todos conhecido. (Gravuras 3 e 4.)





Gravura 3
Fotografia de João, quando vivo


Gravura 4
A Fotografia do seu Espírito
Contando-nos como obteve esta fotografia, escreveu maestro Bosio no seu admirável livrinho “O que eu vi”:
“Magnífico retrato de João”
Um transe excelente
No dia 5 tínhamos combinado, eu e minha esposa e conosco as filhas da médium, ir tomar passes na casa do Senhor Bastos. Na volta, entramos todos em nossa casa para conversar um pouco. Uma lembrança insistente sugeria-me telefonar à Senhora Prado, mesmo sem ter assunto a tratar, o que fiz, respondendo-me em voz agitada, ela mesma. Pedia-me que mandasse incontinenti as filhas, visto sentir-se muito mal.

A ocasião não podia ser mais própria para o caso. Fomos depressa, encontrando a Senhora Prado agitadíssima e chorando convulsivamente. Não perdi tempo; cortei o cordão que prendia a tampa do chassis, abri-a e me coloquei no meu lugar. As filhas acompanharam-na até à sala, sentando-a na cadeira indicada pelo João.

O sinal não se fez esperar; dei a exposição necessária, obtendo um resultado esplêndido como se pode verificar pela fotografia abaixo. O motivo da comoção da médium foi ter visto o próprio filho Eratóstenes no quarto de dormir, achando-se este atualmente no Rio de Janeiro.

Durante o transe continuava ela soluçando fortemente. A figura nitidíssima é do Espírito “João”, que em vida tinha o nome de Felismino de Carvalho Rebelo.

Ao lado direito coloco o seu retrato quando encarnado, e junto, à esquerda, o mesmo em Espírito. E notável a clareza e nitidez da fotografia, a “pose” solene, o manto duplo, estendendo o braço esquerdo que mal se vê segurando uma parte da sua vestimenta espiritual. Na parte superior da cabeça observa-se um arco fluídico e atrás uns panos também fluídicos, envolvendo-a. Apenas uma pequena diferença entre os dois retratos: é que o espiritual tem os bigodes um pouco mais visíveis.”

Anita - Pouco tempo depois das materializações de João, uma noite, inesperadamente surgiu do gabinete mediúnico uma moça. Quem seria? Deu o nome de Anita, dizendo ter sido florista em sua última encarnação. Dedicou-se especialmente aos trabalhos de parafina, confeccionando flores de admirável perfeição.

Dentro em pouco era familiar nossa e não raras deixou cair entre as nossas a sua mãozinha mimosa e branda. (Gravura 5)

Gravura 5
A Fotografia do Espírito de Anita
Narrando como obteve a sua fotografia, o nosso amigo Bosio assim se expressa:
A fotografia de Anita
No dia 11, às 13 horas, um toque de telefone avisou-me que era precisa a minha presença na casa da Senhora Prado. Pensando que se tratasse de mais uma chapa, não perdi tempo, fui. Chegando, soube que não se cogitava disto. O João, tendo puxado o álbum, queria falar-nos.

Espírito (dirigindo-se a mim) - Dá-me esta chapa, pois desejo fazer uma experiência. Conheço o organismo da médium. Ela está abalada com o telegrama (8). Não tirem o sofá dali, apenas as cadeiras. Quero ver se podemos desmaterializar a madeira. (E dirigindo-se a Srta. Alice). Vá tocar a minha música.



(8) - A Senhora Prado tinha recebido de Pernambuco, pela manhã, um telegrama de seu esposo

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