Noite de Sedução



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Noite de Sedução

Natalie Anderson

Título original: ALL NIGHT WITH THE BOSS


Ele é seu chefe... e um homem irresistível.
Rory Baxter é alto, moreno, sexy... e, para o tormento de Lissa Coleman, é também seu novo chefe. Mas Lissa está determinada a não se deixar envolver por Rory. Afinal, ela já fora magoada por um diretor antes. Qual garantia teria de que não sofreria de no­vo? Mas Rory tem seus próprios métodos de sedu­ção, e ele sabe o quanto Lissa se sente frágil perto dele... Então, por que não testar todos os limites de resistência de sua adorável assistente?

Em pouco tempo, surge a oportunidade perfeita para Rory e Lissa ficarem a sós... uma noite inteira... E ela descobre que ele é tão ardente na cama quanto na condução dos negócios. Mas será somente uma noite o suficiente para saciar o desejo desperto em Lissa?



Digitalização: Simone Ribeiro

Revisão: Crysty

CAPÍTULO UM

A festa dos funcionários da Franklin Co. mal havia começado e Lissa já estava entediada. Precisava de ar fresco.

Com passos decididos seguiu para a varanda do andar e procurou por um banco bem escondido, a fim de que não fosse vista e pudesse descansar por, pelo menos, cinco minutos.

Mal se sentara quando viu a figura de um homem alto e de cabelos negros, trajando calças jeans e um suéter de lã cinza, caminhando calmamente em sua direção. Não podia ver seu rosto com clareza, pois a única iluminação provinha do interior do salão. Po­rém, estava certa de que não o conhecia. Pelo menos não fazia parte do quadro de funcionários da empresa onde ela trabalhava já há cinco meses.

Suspirou, desconfortável. Só poderia ser Karl, o amigo que Gina insistira em lhe apresentar.

Por que será que as pessoas sempre estão preocu­padas em arrumar um par ideal para alguém que jul­gam carente apenas por estar sozinha ?, lamentou-se, em pensamento.

Apesar da promessa que fizera à amiga de dar a ele uma oportunidade, resolveu justamente o contrário: diria que estava "dando um tempo" a si mesma e o despacharia bem rápido.

Ignorando a angústia assim que o homem chegou mais perto, ela antecipou-se:

— Foi Gina quem lhe pediu para vir falar comigo? — perguntou ela usando um tom frio. Do tipo de quem não está a fim de fazer amigos.

— Não — respondeu o homem, com segurança. Lissa teve um rápido vislumbre dos dentes alvos, enquanto ele sorria em meio à escuridão.

Com um gesto de cabeça ele pediu permissão e sen­tou-se no banco em frente ao dela, repousou ao seu lado o copo de bebida que trazia.

Ela ainda não conseguia ver plenamente suas fei­ções. Porém, as pernas cruzadas eram tão longas que os joelhos quase a tocavam. Os bancos estavam tão próximos que Lissa até podia sentir de leve um aroma cítrico e refrescante.

— Não sei o que Gina falou a meu respeito. Mas, quero que saiba que não estou a fim de novos relacio­namentos.

— Oh! É mesmo? — respondeu ele, demonstrando surpresa.

Ela engoliu em seco para tomar coragem e dispa­rou as palavras, sem nem mesmo tomar fôlego. O que precisava era livrar-se logo daquela situação:

— Eu sei que parece difícil acreditar. Mas estou realmente querendo ficar sozinha. Sei que você é uma ótima pessoa e não terá dificuldades em encontrar ou­tra garota. Afinal, segundo Gina, você é um incrível conquistador!

A inesperada gargalhada dele a surpreendeu.

— E mesmo? Quanta gentileza dela! — exclamou ele depois de dar um gole no drinque. — E, se eu dis­ser que me interessei por você e não quero nenhuma outra?

Lissa apertou o copo que mantinha nas mãos. Ain­da sentia-se incomodada com a súbita intromissão dele, atrapalhando a privacidade que buscava.

— Estará perdendo seu tempo — Lissa respondeu com uma grosseria a que não estava acostumada. Po­rém, precisava desencorajá-lo.

— Uau! Sempre é assim tão "direta"? Ela franziu o cenho.

— Desculpe-me se estou sendo rude. Não era o que eu desejava. Apenas não quero que haja nenhum mal-entendido.

— Está bem! — exclamou ele, sorrindo e erguendo as mãos em sinal de rendição.

Ela observou que o homem parecia muito confi­ante para alguém que acabara de ser rejeitado. Per­manecia relaxado e sorridente. E seu sorriso era tão cativante que quase a fazia arrepender-se do que dis­sera.

Sem saber como agir, Lissa espiou através da ja­nela mais próxima e vislumbrou Gina acompanhada de dois consultores da firma, que lhe disputavam a atenção.

Sem pensar, olhou novamente para Karl. A amiga devia ter prevenido de que ele tinha o físico mais atra­ente do planeta.

— Agora que já estabeleceu sua posição a meu res­peito, que tal me contar algo sobre você?

— O que gostaria de saber? — indagou Lissa, com cordialidade. Afinal, não precisava ser tão grosseira.

— Não sei — declarou ele, estendendo uma das pernas. — Por que não começa falando da Austrália? Não é de lá que veio?

Na verdade, vim do sul da Nova Zelândia. — ela respondeu, tentando não demonstrar a admira­ção provocada pela perna musculosa bem ali na sua frente.

— Perdoe-me. Até hoje não consigo distinguir o sotaque da Nova Zelândia do da Austrália — revelou com ar divertido. E inclinando-se um pouco na dire­ção dela, lançou um desafio: —- E quanto a mim? De onde acha que eu sou?

O gesto de proximidade a abalou. O que faria se ele a agarrasse?

— Escócia! — arriscou ela. E, para seu alívio, o viu recostar-se de novo no banco.

— Estou impressionado!

Houve um breve intervalo de silêncio.

Ela espiou novamente através da janela e dessa vez notou que Gina estava acompanhada de um jovem que nunca tinha visto antes.

— Veja! Aquele deve ser Rory!

— Onde?


— Ali, com Gina! Parece que estão se dando bem.

— Quem?


— Rory! — ela respondeu com impaciência — Gina deve ter contado para você sobre ele. Está retornando depois de ter estagiado na matriz em Nova York. É o consultor mais jovem promovido a sócio. Vai come­çar amanhã, mas todos diziam que havia uma chance de ele aparecer hoje na festa. — E por mais algum tempo permaneceu observando o casal. Depois pros­seguiu: — Ela sempre disse que não tinha a mínima chance com ele. Mas não é bem o que parece, não acha? Ele parece muito interessado nela.

— Se ele gostar do estilo dela, pode ser. Ela revidou incrédula:

— Que homem não gostaria? Gina é pequena, deli­cada, loira natural e, além de tudo, tem olhos azuis maravilhosos!

— Depende, há muitos homens que conheço que preferem mulheres altas, voluntariosas, com olhos e cabelos castanhos.

Obviamente ele a estava descrevendo. E, sem que ela esperasse, ele estendeu uma das mãos em sua dire­ção. Lissa permaneceu imóvel, quando ele apanhou uma mecha de cabelos sedosos e a enrolou nos dedos. E, para seu total espanto, desejou intimamente que ele prosseguisse com a carícia.

Lissa respirou fundo.

— Eu a estou aborrecendo? — perguntou recolhen­do a mão.

— Não... — ela declarou, indecisa. Na verdade sen­tia-se contrariada pelo fato de seu intento em ficar iso­lada ter sido frustrado. Cruzou as pernas para afastá-las dele e comentou: — Ele não parece nem um pouco com o que eu imaginava!

— Quem?

— Rory, é claro. Pensei que fosse mais alto e ex­pansivo. — E, ao falar nisso, retornou a atenção para o homem à sua frente, que voltara sutilmente a pressi­onar um dos joelhos contra as pernas dela.



Lissa podia sentir lhe o calor e a firmeza. E, antes que se deliciasse com o toque, descruzou as pernas para cruzá-las novamente em posição diferente.

— Como Gina descreveu Rory para você?

— "Um deus grego" ela falou — E, erguendo uma das mãos, enumerou os itens, destacando um dedo para cada um: —Alto, bronzeado, corpo atlético... E também o tipo de líder que todos admiram. Não vejo nada disso naquele homem ao lado dela. Bem, pelo menos, essa foi a versão dela. — E, depois de uma pausa forçada, con­cluiu: — Dizem que ele tem fama de ser esnobe. E de nunca se envolver com nenhuma colega de trabalho.

— E só por isso ele é considerado esnobe?

— Talvez porque leve muito a sério a proibição da empresa. Os funcionários não podem ficar distraídos com envolvimentos amorosos entre si.

— Acha isso ruim?

— Não — negou ela, sorrindo. — O que acho é que na prática não funciona. Homens e mulheres traba­lhando juntos muitas horas, então é muito natural que acabe surgindo alguns casos românticos. Mas relacio­namentos no trabalhos são muito complicados e qua­se nunca acabam bem. — Isso ela sentira na própria pele, quando se envolvera com Grant. — Justamente por ser natural, Gina insistiu em me apresentar para você.

— E o que ela disse a meu respeito?

— Que era uma excelente companhia. Sabia como proporcionar diversão a uma garota. — Ela sentiu uma ponta de culpa ao revelar as palavras da amiga. Mas, como considerava isso um elogio, com certeza Gina não ficaria zangada. E, a julgar pelo carisma que ele tinha, a amiga estava certa.

— E você está precisando de diversão?

— Gina é que pensa assim. Para ser franca, estou muito bem sozinha. E, quando achar que preciso de companhia, saberei muito bem encontrar por mim mesma. Mas como ela também é sua amiga e está pre­ocupada porque não namora há mais de dois meses, imaginou que poderíamos formar um par perfeito.

— E, se está tanto tempo sozinha, não sente vonta­de de uma companhia masculina?

Lissa preferiu não responder. Era evidente que se sentia carente. O problema era que todos os homens que conhecia eram colegas de trabalho. Não queria re­petir o desastre que enfrentara com Grant. Um relacio­namento com alguém alheio à firma seria mais seguro.

"Seguro" era modo de dizer, porque ele não parecia nem um pouco confiável. O joelho novamente lhe pres­sionando as pernas e transmitindo o calor do seu cor­po não parecia nada seguro. Ela teve o súbito desejo de sentar-se ao lado dele e sentir a pressão não só dos joelhos, mas das longas pernas fortes. E aquilo pode­ria ser perigoso. Ela sequer sabia com quem estava brincando.

Parecendo ler sua mente, ele perguntou:

— Não está sentindo frio? Estamos aqui fora há muito tempo.

Ela sacudiu a cabeça.

— Estou bem. Mas não se prenda por minha causa. Se quiser, pode entrar — disse ela com docilidade, incerta se desejava que ele fosse embora ou permane­cesse ali.

Karl parecia ser divertido, e ela precisava admitir que estava adorando o assédio dele.

— Prefiro ficar aqui fora. É mais agradável. — E, espiando para dentro do copo dela, perguntou: — O que está tomando?

— Um desses drinques de maçã.

— Uma bebida alcoólica?

— Sim. Mas é doce.

— E também perigosa se beber muito rápido.

Quantos champanhe já tomou?

— Este é o segundo.

— Você já jantou?

Ela disfarçou e virou o rosto para o lado. Tinha descruzado as pernas e agora os joelhos encostavam-se aos dele. Tentou ignorar o calafrio que lhe subia pelas coxas, instigando-a a apartá-las.

— Está me fazendo um convite para jantar ou dizendo que estou embriagada? De qualquer forma, para ambos os casos, minha resposta é "não".

Ele inclinou-se para a frente e encarou-a com a face a poucos centímetros da dela. Só então ela pôde, fi­nalmente, ver direito o rosto dele, cujas feições eram muito bonitas. O queixo forte e quadrado, o nariz retilíneo. Porém, o que mais a impressionou foram os olhos: eram de um verde mais intenso do que uma es­meralda legítima.

Ficou paralisada. Nunca tinha visto um olhar tão vivido. Levaram alguns segundos antes que ela se lem­brasse de piscar. Aqueles eram o tipo de olhos no qual alguém facilmente mergulharia.

— Então é assim? — questionou ele, com um sorri­so esboçado no canto dos lábios charmosos.

Fascinada, ela observou os lábios dele se aproxi­marem de sua boca. Eram inexplicavelmente convi­dativos. Ela nem percebeu quando ergueu a cabeça e, praticamente, aguardou ser beijada. Porém, quando se deu conta o que estava fazendo, recuou e ergueu-se.

Talvez ele tivesse razão, pensou. Sentia-se um pou­co atordoada. Mas era impossível! Não tinha bebido tanto assim! Quem sabe fosse por não ter se alimenta­do direito?

— É, é assim — respondeu ela, finalmente. — Não pense que vai me seduzir só porque Gina acha que deve.

Ele apoiou a cabeça entre as mãos e riu para valer.

— Pare com isso! — ela o repreendeu um tanto desgostosa, mas, divertida. — Não acho tão engraça­do. Já lhe disse que não tenho interesse em nenhum envolvimento no momento.

Ele não parava de rir. Ela começou a se perguntar qual era a piada. Talvez ele a estivesse achando engra­çada. Pensou em um modo de por fim à comédia, mas antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele ergueu-se e, ainda com o semblante alegre perguntou:

— Vai voltar para a festa?

Só aí ela notou o quanto ele era alto. Lissa, que não era havia, mesmo com os saltos altos tinha que olhar para cima para poder encará-lo.

— Acho que vou para casa — declarou ela, mirando-se no reflexo dos fabulosos olhos verdes.

— Boa idéia.

Ainda bem que ele não protestou. Precisava sair dali. Ou melhor. Sair de perto dele. Pela primeira vez ad­mitiu que subestimara a habilidade de Gina em pro­mover a aproximação de casais compatíveis. O ho­mem lhe tirava o fôlego.

— Foi um prazer conhecê-lo, Karl. Tenha uma boa noite. — E, com polidez, estendeu a mão para troca­rem um aperto de despedida. E esse foi seu maior erro!

O repentino contato físico lançou ondas de eletrici­dade que subindo pelos braços, culminava no cora­ção, ocasionando uma pulsação acelerada. Ele segu­rou a mão dela com firmeza. O calor emanado parecia ligá-los num ponto comum. Ela podia perceber a ex-citação crescer em seu ventre e sabia que ele estava ciente disso pela maneira como a fitava.

Com grande esforço ela recolheu a mão e depois de pronunciar um sonoro "até mais", dirigiu-se para a saída.

Ele a acompanhou com os olhos, enquanto ela se afastava. Será que deveria tê-la impedido de sair? Talvez, pensou. Porém, a atração que sentira estava difí­cil de controlar. Será que estava sofrendo um "ata­que de luxúria"? Se fosse isso, nunca experimentara nada semelhante. Pelo menos, não tão intenso! Estava de volta a Londres há tão pouco tempo e já caíra de amores por uma linda imigrante?

Sem esperar pela resposta da consciência, acabou por descer as escadas o mais rápido que conseguia, para chegar ao saguão do prédio antes dela.

Lissa suspirou com alívio. Estava tomando a deci­são certa, pensava. Não poderia entregar-se a "um pouco de diversão" como Gina queria que fizesse. Este era o melhor momento para escapar da tentação.

Imersa em pensamentos, entrou no elevador. Mas quando a porta abriu no andar térreo, dois braços for­tes a ajudaram a sair. Tudo que pôde sentir foi uma respiração ofegante e o coração batendo rápido, sob o suéter de lã.

— Você? Como pode! — admirou-se ao ver o dono dos olhos verdes, que sorria divertido.

— Vou levá-la para casa.

— Não precisa.

— Mas eu quero. Além do mais, não deve voltar sozinha. Bebeu demais.

Ela ergueu uma das sobrancelhas em protesto:

— Você também andou bebendo.

— Só tomei um drinque. E jantei bem. Tenho ple­nas condições de levar você com sobriedade.

— Minha mãe me ensinou a nunca entrar no carro de um estranho.

— Não sou um completo estranho! Passamos mais de uma hora nos conhecendo!

Ela pensou por um momento, pressentindo que iria fraquejar. Gina o conhecia há muito tempo. Além dis­so, uma carona para casa era tentadora. Naquela hora o metrô deveria estar lotado e depois haveria mais dez minutos de caminhada com os saltos altos.

E, por acréscimo, um pouco mais de tempo na com­panhia dele...

Será que devo aceitar?, titubeou. Desde que ele se aproximara dela na varanda, os instintos sexuais que ela tanto refreara vieram à tona. O poder de sedução que ele exercia era forte demais. Mais do que suficiente para oferecer perigo.

Olhou-o por alguns segundos, indecisa. Mas tudo que podia focar eram os incríveis olhos verdes.

— Está bem. Se insiste...

— Será um prazer.

Juntos retornaram ao elevador.

Ele a conduziu pelo braço até a garagem do prédio.

Lissa se perguntava mentalmente qual tipo de carro seria o dele? Provável-mente um conversível com bancos de couro.

Quando saíram do elevador e caminhavam no es­paço livre entre os carros enfileirados, Lissa procura­va ignorar a sensação da mão enorme que lhe pressio­nava o ombro direito. Os dedos grossos pareciam condutores de eletricidade. Ela apertou os lábios com força.

Só não estava preparada para a enorme van, verme­lha acastanhada, com uma das laterais parcialmente amassada. Os sete assentos pareciam ter sido usados recentemente. Havia o indisfarçável rastro de crian­ças. Papéis de bala no chão e nas duas últimas poltro­nas, acessórios de proteção para bebês.

— Está esperando alguém mais? — perguntou ela, ansiosa.

— Não — ele respondeu lacônico e abriu a porta do veículo para que ela entrasse.

Lissa acomodou-se e puxou o cinto de seguran­ça. E, antes que o prendesse, sentiu que sentara em cima de algo. Ergueu um pouco os quadris e vascu­lhou com a mão esquerda. Achou uma embalagem aberta contendo algumas uvas passas secas. E a en­tregou a Karl, que acabara de se acomodar atrás do volante.

— Oh, ótimo! — exclamou ele. — Estava me per­guntando onde a tinha deixado. E, com um sorriso maroto, revelou: — Meu jantar.

Ela baixou o olhar para a mão esquerda dele, re­pousada no volante. Não usava aliança. E, também não haviam marcas deixadas pelo uso. Não pôde evitar reparar nos dedos longos e as unhas limpas e bem cor­tadas.

Ao ligar a ignição do carro, finalmente explicou:

— Esta van é da minha irmã. O meu carro não esta­va disponível, então pedi emprestado o dela. Ela tem três filhos. Por isso a bagunça.

— É mesmo? — questionou ela, enquanto prendia o cinto de segurança. — E que tipo de carro você tem?

— Adivinha.

— Hum... Um modelo esportivo, talvez. Daqueles que atraem a atenção das garotas.

— Não preciso de um carro assim para atrair a aten­ção das mulheres.

— Verdade? — ironizou ela, diante do esnobismo. Ele sacudiu a cabeça e sorriu para ela. A intensida­de do olhar parecia atravessá-la.

— Confia apenas na sua aparência e charme? — zombou divertida.

— E mais algumas coisas... — insinuou ele. Disso ela não duvidava. O que não faltava para aque­le homem eram atrativos.

— E então? Para onde vamos?

— Oh, St. Katherine's Dock, Tower Hill. Ele a encarou com as sobrancelhas erguidas:

— Pensei que fosse me pedir para deixá-la no Earl 's Court ou no Shepherds Bush. Não é nesses lugares que se encontram os imigrantes da Irlanda ou da Nova Zelândia?

— Não sei. Não freqüento esses lugares.

— Por quê? Evita o contato com seus próprios patrícios? — quis saber ele, enquanto saía da garagem e se posicionava no tráfego intenso de veículos na ave­nida.

— Não. Mas se quisesse intensificar meus contatos com eles, não teria saído da Nova Zelândia.

Ele a observou com desconfiança.

— Está fugindo de alguma coisa?

— Fugindo "para" alguma coisa — ela corrigiu — Não me entenda mal. Eu amo a Nova Zelândia, mas Londres é uma cidade grande e com melhores possi­bilidades de se fazer uma boa carreira.

— Então mora em St. Katharine's Dock? — Ele perguntou, no momento em que passavam em frente aos luxuosos blocos, construídos no aterro recente.

— Sim — confirmou ela com um sorriso. — Mas não num desses apartamentos luxuosos. Há um antigo prédio logo atrás dos blocos. É ali que tenho um apar­tamento modesto. — Deu um suspiro. — Não imagi­na com fico feliz em atravessar todos os dias este lo­cal. Afinal, estou em Londres!

— E esse era realmente seu sonho?

— Sim. E sempre quis ir a um espetáculo apresen­tado pelo Coronation Streetl

— Coronation Street? — repetiu ele. — Mas fica em Manchester!

— Ah, sei lá! Talvez esteja me confundindo com o Eastenders. De qualquer maneira, Londres é excitante! Qualquer coisa que quiser está disponível! — exclama­va ela com entusiasmo, gesticulando com as mãos.

Ele alargou o sorriso diante de tanto entusiasmo.

— Está parecendo uma turista recém-chegada!

— E o que há de errado com isso? A empolgação é minha marca registrada.

— E é tão animada assim em outras atividades? — perguntou ele com uma pitada de malícia na voz.

Ela retornou com um olhar de censura e ele sorriu matreiro.

— O que quero dizer é que adoro passar pelas tor­res e ver os sorrisos felizes dos turistas que entram nas lojas masculinas e acabam com o estoque das roupas mais caras do mundo!

— É mesmo?

— Garanto que precisaria dar esta van em troca de apenas uma jaqueta. Os preços são chocantes!

— Aposto que não são mais altos do que na Ponte Vecchio em Florença.

— Florença? Já esteve lá?

— Sim. É maravilhosa! Você precisa ver a Vênus de Botticelli! Vou levá-la comigo para visitar Flo­rença.

Lissa silenciou enquanto analisava o que ele acaba­va de dizer. Pelo que ela sabia, a Vênus de Botticelli era uma obra prima exibida na Uffizi Gallery. Uma das mais famosas obras admirada através das gera­ções. Só podia ser conversa para impressioná-la. Era um paquerador incorrigível, concluiu. O único pro­blema é que ela estava realmente se divertindo com aquela conversa toda.

— Mente muito bem! — exclamou ela.

— E acho que está funcionando. — Ele devolveu com um sorriso satisfeito.

— É bom que eu me previna.

— E é bom que eu saiba com quem estou lidando. O que será que Karl quis dizer? Ela pensou. Será que estava testando sua cultura?

Naquele ponto, ele contornou as torres e ela indi­cou-lhe o modesto prédio de três andares.

Quando ele estacionou, Lissa sentiu que estava in­decisa. Não sabia se deveria agradecer e sair o mais depressa possível ou ficar aguardando o que ele faria, se ela se demonstrasse "aberta a novas possibilidades" como haviam sugerido Gina e o próprio Karl.

Ela o espiou com o canto dos olhos e concluiu que ele não parecia tão interessado. Apenas a observava com aquele olhar arrasador. Talvez gostasse apenas de exibir seu charme.

Sentiu-se tensa com a forma como ele se comporta­va. Quem sabe estivesse percebendo a inquietude in­terna dela? Optando por manter uma atitude equili­brada, Lissa agradeceu:

— Obrigada pela carona. Foi muito gentil.

— Não há de quê. Foi um prazer. — Ele retornou com a mesma formalidade.

Ela se libertou do cinto e se preparou para sair. Fi­cou surpresa ao vê-lo contornar o carro e apressar-se em abrir-lhe a porta.

— Acho melhor acompanhá-la. Não tenho certeza de que conseguirá subir as escadas sozinha.

Ela protestou :

— Claro.que consigo. Está pensando que estou bê­bada?

Com certeza não estaria tão alterada com apenas duas taças de champanhe. Porém não podia negar que se sentia um pouco atordoada. E aquilo se de­via provavelmente por não ter se alimentado, pen­sava. Nunca pela proximidade do esplêndido exem­plar masculino.

— Não. Talvez cansada. Não está? — Ele sorriu novamente. E ela já estava se acostumando a derreter com aquele sorriso.

Lissa desceu do veículo e ele aproximou-se dela. Na verdade, próximo demais!

— Se está segura de que pode ir sozinha, eu a deixo livre. — falou em tom meigo, quase encostando o cor­po no dela.

Ela podia sentir o calor do corpo vigoroso e tre­mendamente sexy. Karl era fantástico e divertido. Era evidente que conseguiria subir sozinha a escadaria. Isto é, se suas pernas parassem de bambear!

Ele estendeu uma das mãos e, com carinho, afastou alguns fios de cabelo que teimavam em cair na testa delicada.

— Até a próxima, linda! — ele murmurou, e desli­zando a mão para a nuca de Lissa, inclinou o rosto e depositou um beijo rápido nos lábios macios.

O toque da boca masculina arrancou-lhe um ge­mido.

Ao pressentir sua aquiescência, ele tomou-lhe os lábios novamente. Dessa vez com maior vigor e in­tensidade. Ela sentiu o peso das mãos másculas per­correr-lhe a espinha e terminar por pressionar-lhe os quadris contra a rigidez da intimidade viril.

Lissa ergueu os braços para empurrá-lo, num gesto de defesa. Porém, o desejo de tocá-lo foi maior e aca­bou por acariciar-lhe o tórax, sentindo a musculatura poderosa mover-se por baixo da lã macia do suéter.

Ele pressionou o corpo contra o dela até que ficas­sem colados. O impacto foi tão prazeroso que ela delirou. Seu corpo reagiu instintivamente. Os mamilos se enrijeceram e os lábios relaxaram, permitindo que ele explorasse com a língua o interior da boca ávida.

O inocente beijo de "boa noite" acabou se tornando uma carícia apaixonada.

O perfume era inebriante. Ela se rendeu ao prazer do contato com o físico rígido, no qual todas as cur­vas do seu corpo se amoldavam. Sem raciocinar, aprofundou os dedos nos cabelos espessos e fartos e pressionou-se o quanto podia contra o peito largo.

Quase sem fôlego e com o corpo abrasado, perce­beu as mãos dele se introduzirem por baixo de suas saias até alcançarem as ligas que prendiam as meias de nylon, depois subirem além e acariciarem a pele nua. O toque inebriante fez com que ele emitisse um gemido alio.

Aquele era o alarme que ela precisava para tomar consciência do que estavam fazendo.

Ela inclinou a cabeça para trás interrompendo o beijo e o afastou pondo ambas as mãos contra o peito am­plo. Estava chocada com a própria ferocidade e não tinha coragem suficiente para olhá-lo de frente. Prefe­riu manter o olhar nos blocos de apartamentos até que a emoção se acalmasse. Tinha medo de que se voltas­se a olhá-lo, cairia de novo em seus braços.

Ele se manteve um pouco afastado, sem nada dizer. Mas ainda podia notar-lhe a respiração ofegante.

Lissa tinha consciência de que seu corpo pedia mais do que um beijo. Aquilo fora apenas uma amostra do fogo interior que estava prestes a explodir. Porém, não estava interessada em passar a noite com o amigo de Gina. Principalmente porque sabia a fama que ele tinha de ser um mulherengo inveterado. E, pelo jeito, muito experiente, a julgar pelo beijo.

A emoção transformou-se em raiva. Mais dela mes­ma do que de Karl. Ele estava no seu papel. Ela é quem deveria impor os limites.

— Boa noite — ela murmurou.

E, dessa vez, afastou-se apressada.

Somente quando estava diante da porta de seu pré­dio foi que encontrou coragem para se virar e conferir se ele ainda estava lá.

E estava! Recostado na porta do carro, com as per­nas e os braços cruzados. Embora fosse difícil distin­guir seus traços àquela distância, estava certa de que sorria. Ele acenou com uma das mãos e ela, ainda aba­lada, não retribuiu. Surpreendeu-se por ter consegui­do introduzir a chave na fechadura da porta na primei­ra tentativa.

Cinco minutos depois ela permitia que a água quente do chuveiro caísse abundante sobre a nuca. Estava di­fícil relaxar e apagar a imagem do sorriso cativante e os fabulosos olhos verdes de Karl.

Que homem tentador!

Por outro lado, ponderava: que mal teria em manter um relacionamento com ele? Ainda que fosse apenas um namoro casual e sem expectativa de um compro­misso sério? Pelo menos não trabalhavam juntos, e isso era ótimo.

Mas também havia o fato de que partiria dali a dois meses. Seria loucura embarcar em algo que poderia ser mais forte do que supunha e fugir de seu controle. Se isso ocorresse poderia sair mais magoada do que nunca.

Não! Definitivamente não!

Esperar por uma situação amorosa mais calma e segura. Era o que realmente pretendia.




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