Nome do filme: tamarandá



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TAMARANDÁ


PRISCILLA MARÇAL DE MOURA

TRATAMENTO: 3
SINOPSE.
A DITADURA NO BRASIL ACABOU, MAS SERÁ QUE OS RESQUÍCIOS CONTINUARAM PARA QUEM FOI MILITANTE? SERÁ QUE ESSES MILITANTES VIVEM UMA VIDA NORMAL PÓS-DITADURA? UM TRISTE PASSADO SEMPRE ESTÁ PRESENTE. ESSE DRAMA FALA SOBRE OS FILHOS DOS “ANOS DE CHUMBO”. JOHN E MICHELLE SÃO FILHOS DAQUELES QUE SOFRERAM IMPIEDOSAMENTE O GOVERNO DOS ANOS 60. ELE ESTÁ TRAUMATIZADO COMO OS PAIS. ELA NÃO SABE QUE OS PAIS JÁ FORAM MILITANTES. JOHN E MICHELLE SÃO AMIGOS DE INFÂNCIA. NA ADOLESCÊNCIA, DESCOBREM O AMOR E NA JUVENTUDE, SEPARAM-SE. MICHELLE VIRA UMA JORNALISTA EM ASCENSÃO. JOHN SOME. MICHELLE VIAJA PARA SÃO PAULO, NA GRAVAÇÃO DO PILOTO PARA O SEU PROGRAMA E É INFORMADA PELO SEU DIRETOR QUE DENTRO DE INSTANTES VAI ENTRAR AO VIVO, NUMA BREVE ENTREVISTA COM O PREFEITO DO BAIRRO MAIS POBRE DO BRASIL: TAMARANDÁ. A ENTREVISTA CAMINHARIA NORMALMENTE, SE NÃO FOSSE POR UM MENDIGO PRÓXIMO A ELES A INTERROMPER TODA A ENTREVISTA, RECITANDO UM POEMA QUE DENUNCIA CLARAMENTE OS PODRES DO PAÍS. SERIA REALMENTE UMA ENTREVISTA NORMAL, SE A ENTREVISTADORA NÃO FOSSE A MICHELLE E SE O MENDIGO NÃO FOSSE O JOHN. O MESMO DESTINO QUE UNIU OS DOIS NA INFÂNCIA VAI JUNTÁ-LOS APÓS ANOS DE SEPARAÇÃO NESSA SITUAÇÃO INESPERADA. UM REENCONTRO ESPERADO HÁ ANOS, QUE ACONTECE COM MUITA SURPRESA, MUITA COBRANÇA, MUITA EMOÇÃO.

CENA 1. INT. NOITE. IGNORANTES.


1968. TEATRO DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SP. MUTANTES E CAETANO VELOSO TENTAM CANTAR “É PROIBIDO PROIBIR”. TODAVIA, O PÚBLICO JOGA TOMATES, OVOS, E ELES SÃO VAIADOS. A PLATÉIA FICA DE COSTAS ENQUANTO ELES TOCAM E OS CANTORES FAZEM O MESMO.
CAETANO
- É essa a juventude que quer tomar o poder? Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Vocês estão por fora! Que juventude é essa? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na “Roda Viva” e espancaram os atores. Não diferem de nada!
O PÚBLICO COMEÇA A SAIR E ELES CONTINUAM A CANTAR “É PROIBIDO PROIBIR”.
CENA 2. EXT. TARDE. SENSURAS.
1973. PHONO 73. ANHEMBI. SP. NO CAMARIM, MILTOM NASCIMENTO E CHICO BUARQUE CONVERSAM COM A PRODUTORA.
PRODUTORA
- Vocês dois, por favor, cantem uma música romântica se possível. Aqueles chatos da censura estão por aí de novo. É uma merda!
MILTOM
- Pode deixar!
CHICO BUARQUE E MILTOM NASCIMENTO VÃO PARA O PALCO.
CHICO
- Hoje nós vamos cantar uma música inédita. Chama-se “Cálice”.
MILTOM NASCIMENTO E CHICO BUARQUE NO PALCO CANTAM “CÁLICE”. O PÚBLICO GOSTA E APLAUDE. OS MILITARES QUE ESTAVAM SENTADOS, VÃOS PARA A MESA DE SOM CORRENDO E CORTAM O SOM DOS MICROFONES. CHICO E MILTOM CONTINUAM CANTANDO SEM MICROFONE. OS MILITARES TIRAM OS DOIS DO PALCO A FORÇA E MANDAM A PLATÉIA IR PARA CASA.
MILITAR
- Todo mundo para casa! Todo mundo para casa! Vocês não tem nada que vir para rua ouvir isso! Arrumem o que fazer, já!
ALGUNS SE LEVANTAM E SAEM, ENQUANTO OUTROS PERMANECEM SENTADOS. ESTES, OS POLICIAS AMEAÇAM COM CACETETES.
CENA 3. EXT. MANHÃ. A NOTÍCIA.
CHICO BUARQUE E TOM JOBIM NA PRAIA DE COPACABANA COM VIOLÃO.
CHICO
- Já está sabendo a doideira que o Ditador decretou?
TOM
- O AI-5? A lavagem cerebral que ele querem fazer? Eu não vou deixar de cantar porque o Governo quer, nós somos o que nós cantamos!
CHICO
- Querem censurar tudo. Teatro, cinema, literatura, música!
TOM
- Eles acham que somos animais, não é? Só falta agora colocar algemas na gente e mandar a gente para outro país!
CENA 4. EXT. TARDE. DEPORTADOS.
NO PORTO DO RIO DE JANEIRO, TOM JOBIM, CHICO BUARQUE, CAETANO VELOSO, PESSOAS LIGADAS A CULTURA SÃO DEPORTADAS PARA EUROPA. ESTÃO ALGEMADOS.
CAETANO
- Qual o nosso crime, cantar?
CHICO BUARQUE
- Pra qualquer lugar que me deportarem eu vou cantar a amargura que é viver nesse país!
GERALDO VANDRÉ
- Só porque eu cantei no Festival que os soldados são ensinados a morrer pela pátria e viver sem razão, censuraram minha música! Exilado por cantar a verdade! Nunca mais eu quero voltar para isso aqui! Isso aqui não vai mudar nunca!
DIRETORA DE ESCOLA
- Você acredita que eles tiveram a coragem de fechar minha escola? Eles alegaram que eu levava influências comunistas aos meus alunos.
GERALDO VANDRÉ
- E os seus alunos são de que período?
DIRETORA DE COLÉGIO
- Lá só tem Jardim de infância. Só bebê! Dentro do colégio, porém só na minha sala, tem sim alguns livros de Karl Marx, mas e daí?
MILITARES MANDAM TODOS ENTRAREM NA EMBARCAÇÃO. CRIANÇAS CHORAM AO VEREM OS PAIS INDO EMBORA.
CENA 5. EXT. TARDE. PRIMEIRA VEZ.
SÍLVIA E CARLOS SAEM DO BONDE DE SANTA TEREZA E SUBEM PARA O TERRAÇO DA ESCOLA ESTADUAL ONDE ESTUDAM. CARLOS ESTÁ COM UM VIOLÃO. ANO DE 68. ESTÃO COM 18 ANOS.
CARLOS
- Aprendi tocar uma música só para você!
SÍLVIA
- Mesmo? Qual?
CARLOS COMEÇA A TOCAR E CANTAR YESTERDAY PARA ELA. ELA INTERROMPE-O TOCAR TAPANDO A BOCA DELE CARINHOSAMENTE.
SÍLVIA
- Eu tenho algo muito importante para lhe dizer, Carlos. Eu também te amo. Muito! E eu não tenho a menor vontade de me casar virgem, como a Igreja manda! Me beija.
SÍLVIA E CARLOS BEIJAM-SE, ELE ABAIXA A ALÇA DA BLUSA DELA E BEIJA O SEU PESCOÇO. CÂMERA FILMA O CÉU ESTRELADO E A LUA CHEIA.
CENA 6. INT. NOITE. TORTURAS.
EXÉRCITO DA RUA BARÃO DE MESQUITA, TIJUCA, RIO DE JANEIRO. MULHER GRITA DE DOR AO TER O BICO DE SEUS SEIOS APERTADOS COM UMA TESOURA POR UM MILITAR. TOCA CÁLICE, CHICO BUARQUE.
MULHER
- Eu não faço parte de nenhum movimento estudantil, eu só estava na praia, qual o problema de ir à praia, todo mundo vai à praia!
MILITAR
- Mentirosa!
SOM DE ESPANCAMENTO. A MULHER PASSA EM FRENTE À CELA DE MARIA E SÍVIA, JÁ SANGRANDO ENTRE AS PERNAS, COM HEMORRAGIA.
MARIA E SÍLVIA E OUTRAS MULHERES ESTÃO NA CELA PARA O INTERROGATÓRIO. HÁ UM AMPLIFICADOR QUE EMITE OS SONS DA CELA DELAS PARA A CELA DOS HOMENS.
PRESA
- Já sabe o nome que vai dar a criança?
MARIA
- Se for menina vai ser Michelle, por causa da música Michelle, dos Beatles, se for garoto vai ser John, por causa do meu querido John Lennon.
MILITAR ZOMBANDO
- Escutem isso! A atriz está grávida! Filha de vadia, vadia será! Tanta profissão digna para vocês seguirem: Medicina, Advocacia, Engenharia...
MARIA
- Interpretar é a nossa profissão!
SÍLVIA
- Deixa ele falar sozinho, Maria! Vai dar corda pra esse ordinário?
MILITAR
- Cala a boca, puta! Tirem todas daqui e joguem para outra cela. Só deixa a mal criada!
MARIA
- Eu não vou deixá-la sozinha! Covardes! Não toquem nela!
MILITAR JOGA ÁCIDO NO ROSTO DE MARIA, QUE GRITA DE DOR. SEU ROSTO INCHA NA HORA. OUTROS MILITARES TIRAM SUA BLUSA E A ARRASTAM PARA OUTRO LUGAR. MILITARES TIRAM TODAS DA CELA E SÓ DEIXAM SÍLVIA. SÍLVIA TREME DE MEDO. ENTRAM MAIS 4 MILITARES NA CELA, UM COM UMA MADEIRA GRANDE. MILITAR TENTA COLOCAR A MADEIRA ENTRE AS PERNAS DE SÍLVIA. NA CELA DOS HOMENS, SÓ ESTÁ CARLOS, OUVINDO PELO AMPLIFICADOR SUA MULHER A GRITAR.
SÍLVIA
- Me larga! Eu não sei onde está o jornalista Herzog, por favor, eu estou grávida!
CARLOS
- Não toquem nela, vocês não têm esse direito!
MILITAR
- Quem é você para falar de Direito? Jornalista não deveria nem ter o Direito de nascer!
15 HOMENS MILITARES ENTRAM NA CELA DE CARLOS, ESPANCAM E JOGAM ÁLCOOL EM TODA CELA.
MILITAR ACENDE O FOGO E APONTA O FÓSFORO PARA ELE
- Vai dizer ou não vai dizer onde o jornalista Herzog está?
CARLOS TENTA FALAR, MAS AS PALAVRAS NÃO SAEM PORQUE LEVOU MUITO SOCO. ESTÁ SEM ALGUNS DENTES.
- Eu não sei.
MILITAR APAGA O FÓSFORO, ENFIA O REVÓLVER NO OUVIDO DE CARLOS E PUXA O GATILHO, MAS NÃO TEM BALA.
MILITAR SOCA O OUVIDO DELE COM FORÇA
- Amanhã tem mais, hoje foi só aquecimento! Eu vou trazer umas declarações aí para você assinar. Você vai afirmar que está sendo muito bem tratado aqui no Exército, o que não é mentira, concorda? Você é respeitado, tem todas as refeições, está na mesma cela que a puta da sua mulher...Se você se negar a assinar a declaração, se prepara, tudo o que eu fiz com você eu faço com a gostosa da sua mulher. Só que na sua frente.
CARLOS
- Piedade, ela está grávida!
MILITAR
- A raça de vocês não merece nascer!
CENA 7. INT. MANHÃ. INFÂNCIA.
CASA DE SÍLVIA. COZINHA. ÁGUA COMEÇA A FERVER NA PANELA. JONH APAGA O FOGO, MOLHA UMA TOALHA E ESFREGA NA TESTA E NO BRAÇO. DEPOIS, VAI PARA A CAMA E FINGE DORMIR. FASE INFANTIL DE JONH.
SÍLVIA
- Filho, hora de acordar para ir para o colégio. Jesus! Você está muito quente! É febre!
JOHN
- Mãe, estou com dor de cabeça.
SÍLVIA PEGA O TERMÔMETRO
- Deixa eu medir sua temperatura.
JOHN
- Por quê? Mãe, você não acredita em mim?
SÍLVIA
- Tá. Eu vou te dar um remédio e te deixo na casa da Michelle, mamãe e papai vão trabalhar, tá bom?
JOHN RI.
CENA 8. INT. MANHÃ. MENTIRAS.
COZINHA DA CASA DE MARIA. FASE INFANTIL DE MICHELLE E JOHN. MICHELLE TAMBÉM MOLHA UM PANO NA PANELA E COLOCA NA TESTA. MARIA CHEGA NA COZINHA.
MICHELLE COLOCA A MÃO NA TESTA
- Mãe. Acho que estou morrendo, estou tão quente.

MARIA
- De novo, filha? Mentir não é legal, já te falei!



SÍLVIA
- Maria. Estou entrando. Posso deixar o John aqui? Ele está com febre, estou atrasada para o trabalho...
SÍLVIA FALA E VAI EMBORA.
MARIA
- Pode sim.
MARIA LIGA O VÍDEO CASSETE E PROCURA UM VÍDEO DO CHARLES CHAPLIM QUE ELES GOSTAM DE ASSISTIR.
- Vocês acham que me enganam, não é? Eu sei muito bem que os dois estão mentindo para mim, eu conheço o truque de molhar o pano e fingir que está com febre! Mas como eu já fui criança e também já fiz isso, eu não esquento a cabeça. Matar aula para assistir filme é ótimo!
JOHN E MICHELLE, RINDO, TIRAM OS CASACOS QUE ESTAVAM VESTINDO.
JOHN
- Tia, faz pipoca aí para gente!
MARIA
- Você é folgado, héin, menino!
SÍLVIA VOLTA
- O remédio do John, quase que eu esqueço...
JOHN E MICHELLE JOGAM O COBERTOR POR CIMA E TENTAM FECHAR OS OLHOS, FINGINDO DORMIR. SÍLVIA VAI EMBORA E OS TRÊS RIEM. MARIA LIGA A T.V PARA COLOCAR A FITA DE VÍDEO E NA TELEVISÃO, ESTÁ PASSANDO UM PROGRAMA DE ENTREVISTAS. UM POLÍTICO SENDO ENTREVISTADO PELO REPÓRTER.
POLÍTICO
- O Brasil está no caminho certo para o desenvolvimento. Estamos vivendo um milagre econômico. Mudando de assunto, eu vou fazer um pedido aqui. Quem souber notícias desses terroristas brasileiros, para o bem da sociedade, liguem para a Polícia.
O POLÍTICO PEGA UM CARTAZ, COM FOTO 3X4 DE MARIGHELLA, LACERDA E 2 MULHERES.
MARIA
- Mas esse é o Marighella, ele é do bem! Hipócritas!
MARIA IMPULSIVAMENTE JOGA A XÍCARA CONTRA A TELEVISÃO. JOHN E MICHELL SE ASSUSTAM.
- Desculpa, crianças. É porque o Governo me assim, nervosa!
MARIA COLOCA A FITA DE CHARLES CHAPLIN PARA OS DOIS ASSISTIREM.
JOHN
- Senta aqui, tia.
JOHN, MICHELLE E MARIA ASSISTEM AO FILME. MICHELLE OLHA ASSUSTADA PARA A MÃE.
CENA 9. INT. NOITE. CRISES.
SALA DA CASA DE SÍLVIA. JOHN E MICHELLE AINDA NA FASE INFANTIL. MICHELLE DORMINDO EM CIMA DE JOHN.
MARIA LÊ “LOVE STORY” PARA AS CRIANÇAS DORMIREM
- “Quase instintivamente, beijei-a de leve na testa. Eu lhe dei licença? – perguntou ela. Como? Disse que podia me beijar? Desculpe. Perdi a cabeça. Pois eu não. Estávamos...”.
ERIC E CARLOS PEGAM OS FILHOS NO COLO E OS COLOCAM NO QUARTO.
ERIC
- Dormiram.
A VIZINHA DA CASA AO LADO DE ONDE SÍLVIA E CARLOS MORAM ESTÁ OUVINDO MARCHINHAS DE CARNAVAL, BEM ALTO. ESTÃO CANTANDO E RINDO. PORÉM ERIC E SÍLVIA ACHAM QUE OS VIZINHOS ESTÃO ZOMBANDO DELES.
CARLOS TAPA O OUVIDO
- Você está ouvindo isso, amor? Nossos vizinhos estão rindo da gente, eles estão rindo porque sabem que nós fomos humilhados pelos Militares!
SÍLVIA
- Será que eles também são torturadores? Será que eles estão nos seguindo? Acho melhor a gente se mudar de novo, Carlos!
SÍLVIA SE VÊ PELADA E AS BARATAS SUBINDO EM SEU CORPO. TEM UMA CRISE DE CHORO.
- Eric! Manda o vizinho desligar essa porcaria de música e parar de rir da gente. Agora!
JOHN, QUE ESTAVA NA PORTA OUVINDO TUDO, CORRE E ABRAÇA A MÃE E O PAI.
JOHN
- Calma, mãe. É só uma marchinha de Carnaval! Não tem ninguém rindo de vocês! É Carnaval, todo mundo fica feliz no Carnaval!
CARLOS
- Vocês não estão escutando essa risada sarcástica dos vizinhos? Eu não acredito!
SÍLVIA ESCUTA DUAS VOZES DE MILITARES GRITANDO COM ELA.
MILITAR EM OFF
- “Diz onde está o jornalista Vladimir, sua vadia!”.
MILITAR EM OFF
- “Se você não me disser onde seu marido está escondido, eu jogo essa menina do segundo andar, entendeu?”.
SÍLVIA
- Eu não estou me sentindo bem!
ERIC E MARIA COLOCAM SÍVIA E CARLOS PARA SENTAR NO SOFÁ, ENQUANTO JOHN RÓI UNHA ASSUSTADO.
MARIA
- Fica calma, amiga, fica calma, nada mais vai te acontecer. Você precisa se lembrar todos os dias que aquela tortura acabou, está no passado. Demorou, mas acabou!
ERIC
- Pega o calmante para eles tomarem, Maria.
MARIA VAI ABRIR A GELADEIRA E LEMBRA QUANDO ELA E SÍLVIA PERDERAM O FILHO NA ÉPOCA DA DITADURA.
CENA 10. EXT. TARDE. ABORTO.
EXÉRCITO DA RUA BARÃO DE MESQUITA, TIJUCA, RIO DE JANEIRO. MARIA E SÍLVIA NUM CUBÍCULO PARECIDO COM UMA GELADEIRA, NA POLÍCIA DO EXÉRCITO. ESTÃO COM 5 MESES. HÁ ALTO FALANTE NO TETO E O SOM DE MILITARES GRITANDO. QUANDO ELES PARAM DE GRITAR, BATEM NO CUBÍCULO COM MARTELO. QUANDO PARAM DE BATER, SURGEM SONS DIVERSOS, COMO SIRENES, TURBINA DE AVIÃO.
MILITAR
- Se vocês ainda não estão loucas; o que eu duvido muito, certamente ficarão!
MARIA
- Eu estou passando mal!
SÍLVIA
- Eu também. Não agüento mais essa barulhada!
MARIA
- Eu tenho os meus direitos!
MILITAR
- Direitos humanos para humanos direitos!
MARIA
- Acho que vou ficar surda.
SILVIA
- Quarto dia sem comer, sem beber, sem ver meu marido! Sinceramente, acho que não vamos resistir! Ou morreremos, ou vamos morar num Hospício, como ele disse!
MARIA
- Eu ainda acho que um dia nós vamos acordar, olhar parar trás e ver que o pesadelo acabou. Essa hora era para eu estar no palco, encenando com meus amigos. Como eu sou besta. Estou na fossa e ainda consigo sorrir.
SILVIA
- É bom desabafar!
MARIA
- Interpretar é divino, Sílvia! Meu ex-namorado terminou comigo me dizendo que tinha vergonha de namorar uma prostituta. É assim que a sociedade enxerga os atores... É isso que a minha família também acha de mim!
SÍLVIA
- É, minha amiga, é duro fazer arte no Brasil!
MARIA
- É duro nascer no Brasil. Se eu morrer aqui, quero morrer encenando. “Oh, ninguém o sabe melhor do que eu, que espécie de amor é esse, que se usa na sociedade e que se compra e vende por uma transação mercantil, chamada casamento!...”
MILITAR
- Cala a boca agora, ou eu vou aí arrancar essa coisa do seu útero!
MARIA NERVOSA SOFRE UMA HEMORRAGIA
- Eu estou perdendo meu filho... Socorro! Vocês mataram meu filho, assassinos!
OUVE-SE GARGALHADAS DOS MILITARES.
CENA 11. INT. NOITE. MAIS CRISES.
CONTINUAÇÃO DA CENA 9.
ERIC
- Maria, você está bem?
MARIA SENTA-SE NO SOFÁ
- Não, eu também estou passando mal.
CENA 12. EXT. NOITE. PRAÇA DA CIDADE. MENSTRUAÇÃO.
MICHELLE CORRE MUITO. CHEGA NUM ESCONDERIJO. ESTÁ BRINCANDO DE POLÍCIA E LADRÃO. FASE INFANTO JUVENIL DE JONH E MICHELLE. ELES MORAM EM SANTA TEREZA. TOCA MINHA HERANÇA: UMA FLOR. VANESSA DA MATA.
JOHN FINGE QUE ATIRA NELA
- Presa em nome da lei!

MICHELLE
- Ai! Que susto! Como você achou meu esconderijo?

JOHN
- Aqui é muito fácil, eu só me escondo na casa das pessoas...
A CALÇA DE MICHELLE ESTÁ SUJA DE MENSTRUAÇÃO. JONH ESTÁ MUITO ASSUSTADO. COMEÇA A GAGUEJAR.

JOHN
- Eu não sei de onde veio esse tiro, mas não fui eu, eu juro... Está doendo? Vamos chamar a Ambulância, Michelle!

MICHELLE
- Do que você está falando?

JOHN
- Da sua bermuda!


MICHELLE OLHA PARA SUA ROUPA E SE ASSUSTA COM O QUE VÊ.
- O que é isso, John? Me ajuda, por favor! Será que estou morrendo?
JOHN TIRA SUA BLUSA E AMARRA NA CINTURA DE MICHELLE. VÃO EMBORA PARA CASA CORRENDO, DE MÃOS DADAS.

CHEGAM EM CASA. SÍLVIA E CARLOS ESTÃO VENDO O NOTICIÁRIO.


JORNALISTA
- “E hoje fazem 10 anos da morte do Jornalista Vladimir Herzog. Ele foi torturado e morto em São Paulo, no DOI-CODI, em 26 de outubro de 1975. Ele jamais se envolveu em qualquer ação armada, e o que mais intrigou seus familiares foi a farsa, a respeito da sua morte. Ele foi colocado numa posição absurda e o Exército anunciou que ele se enforcara...”
APARECE A FOTO DE COMO O JORNALISTA MORREU.
JOHN
- Mãe, a Michelle está cheia de sangue.
SÍLVIA
- Deixa eu ver. Que ótimo, virou mocinha!
MICHELLE
- E isso é bom ou ruim?
SÍLVIA
- É para falar a verdade? É ruim. Mas significa que você está com saúde, é bom. Vamos lá se trocar.
JOHN
- E eu, vou virar um rapaz quando?
CARLOS
- Quando seus pêlos crescerem.
JOHN
- Então eu não quero virar rapaz nunca, pêlos é muito feio!
CARLOS RI.
CENA 13. EXT. NOITE. PERSEGUIÇÃO.
SÍLVIA E CARLOS ESTÃO NUM MORRO GRAVANDO UM MILITAR SEM FARDA VENDENDO ARMAS PARA TRAFICANTES. DEPOIS QUE OS TRAFICANTES E OS POLICIAIS VÃO EMBORA, ELES DESCEM.

CARLOS
- Militar vendendo arma para traficantes. Que país é esse...

SÍLVIA
- Estou quase desmaiando de fome, amor. Estamos na rua desde cedo...

CARLOS
- Então vamos parar ali para lanchar.

CELULAR DE SÍLVIA TOCA.
SÍLVIA
- Alô. Oi filho, tudo bem? Está me esperando, como assim? Não, eu não liguei para você, nem seu pai ligou. Sei pai está aqui, do meu lado. Filho vai à Delegacia agora e me espera lá, rápido.
CARLOS
- O que houve, Sílvia?
SÍLVIA
- Ligaram para o John, como se fosse eu. Eles querem matar nosso filho, vamos embora agora!
CELULAR DE CARLOS TOCA.

TRAFICANTE


- Me entrega essa filmagem agora, na esquina, senão vocês só vão falar com o filhinho de vocês no cemitério. No caixão. Agora, entenderam?
CARLOS E SÍLVIA VÃO PARA A ESQUINA E ENTREGAM TODO O MATERIAL AO TRAFICANTE, QUE ESTÁ ACOMPANHADO DE MAIS 10 HOMENS.
TRAFICANTE
- Da próxima vez não tem conversa não, meu irmão. Jornalistas de merda!
TRAFICANTE ATIRA PERTO DELES DOIS, PARA ASSUSTAR E VÃO EMBORA DE CARRO.
CENA 14. EXT. NOITE. CONFISSÕES.
MICHELLE E JONH DEITADOS NUM JARDIM PERTO DE CASA OBSERVAM A NOITE ESTRELADA. FASE INFANTO-JUVENL.

MICHELLE
- John. John. Você está dormindo?

JOHN
- Estava, você me acordou.

MICHELLE
- O céu está perfeito hoje!

JOHN
- É, mas meu sono está mais...

MICHELLE
- Tenho uma coisa para te contar. Acorda!

JOHN
- Fala.

MICHELLE
- Eu tenho maior inveja do seu nome, sabia? Na verdade eu queria ser você!

JOHN
- Que besteira, meu nome nem é brasileiro, eu odeio meu nome! Porque meus pais não colocaram João, ao invés de John?
MICHELLE RI E FECHA OS OLHOS PARA DORMIR.

JOHN
- Tenho uma coisa para te contar também. Dei meu primeiro beijo hoje, foi chato e nojento, não quero beijar nunca mais!


MICHELLE ABRE OS OLHOS, ASSUSTADA.
- Chato e nojento? Pensei que fosse bonito e romântico!
JOHN
- Só é assim nos livros, Michelle!
MICHELLE
- Pensei que a vida fosse mais legal!
MICHELLE E JOHN DEITAM E OLHAM PARA O CÉU ESTRELADO.
MICHELLE
- Mesmo assim eu quero saber como é. Me ensina?
JOHN
- Tá. Fecha os olhos e abre a boca.
MICHELLE FECHA OS OLHOS E ABRE A BOCA, SORRIDENTE. JOHN PEGA UM POUCO DE MATO DA GRAMA, COLOCA NA BOCA DE MICHELLE E SAI CORRENDO. MICHELLE COSPE. MICHELLE SAI CORRENDO ATRÁS DELE.
MICHELLE
- Eu te odeio, John, eu te odeio!
JOHN CORRE, OLHANDO PARA TRÁS E IMITANDO PARA MICHELLE A EXPRESSÃO QUE ELA FEZ ENQUANTO AGUARDAVA O BEIJO.
CENA 15. EXT. TARDE. MEMÓRIAS.
CARLOS, SÍLVIA E OUTRAS PESSOAS SAEM DA IGREJA DA CANDELÁRIA. JOHN ADOLESCENTE.
SÍLVIA
- Sabe meu filho, eu preciso te contar uma história triste. Alguns anos trás, eu, seu pai, os pais da Michelle e outras pessoas estávamos exatamente aqui. Era a missa de sétimo dia de um amigo nosso, morto na Ditadura.
CARLOS

- Para que contar isso para o John, Sílvia?


SÍLVIA
- Ele tem o direito de saber, ele é nosso filho. Após a missa, isso aqui ficou cheio de Fuzileiros Navais, DOPS, Polícia. Todos queriam engolir a gente, só porque viemos assistir uma missa...
JOHN
- Teve sangue?
SÍLVIA BALANÇA A CABEÇA POSITIVAMENTE.
SÍLVIA
- Todo mundo gritava “Mataram um estudante! Podia ser seu filho! Mataram um estudante! Podia ser seu filho!”. Agora você entende porque sua mãe e seu pai não regulam bem da cabeça? Não respeitaram nem nosso momento de luto.
JOHN
- Quer dizer que os pais da Michelle também foram militantes?
SÍLVIA
- Sim, eles eram atores, também foram presos, só que os pais da Michelle sempre esconderam isso da filha. Eles não queriam que a Michelle se preocupasse ou sofresse em saber que os pais foram torturados. Eles mentiam diziam que eram Médicos!
JOHN
- Entendi.
CARLOS
- Esquece essa história, filho.
JOHN
- Vou tentar.
CARLOS
- Vamos embora?
SÍLVIA
- Daqui a pouco. Vamos ficar aqui e fazer um minuto de silêncio pelas almas sofridas.
JOHN OLHA PARA A MÃE, SEM ENTENDER O QUE AQUILO SIGNIFICA E CARLOS FAZ UMA EXPRESSÃO DE PREOUCUPADO COM A SAÚDE MENTAL DE SUA MULHER.
CENA 16. EXT. NOITE. SOBRE SEXO.

JOHN E MICHELLE NO QUARTO DE JOHN. FASE ADOLESCENTE.


JOHN
- O que houve que está com essa cara?

MICHELLE
- Você transou com a Érica?


JOHN
- Sim.
MICHELLE
- E você já ligou para ela?
JOHN
- E por quê eu ligaria, Michelle? Ela não é minha namorada.
MICHELLE
- Por quê você ligaria? Porque sexo não é só tirar a roupa, colocar, fazer com um, com outro...Os homens acham que nós somos o quê? Descartável?
JOHN
- Já sei porque você está com esse bico todo. Aposto que dormiu com o Júnior e ele não te ligou até agora. Eu falei pra você não ficar com o Júnior, ele não presta!
MICHELLE
- Nenhum de vocês presta. E o pior: ele é bom de sexo, mas é burro, sempre é assim comigo.
JOHN
- E a Érica é muito inteligente, mas ruim de sexo.
MICHELLE
- O problema é que nós somos exigentes demais, sempre fomos.

JOHN
- Não tem problema não, se a gente não encontrar ninguém até os 30, 35, eu te peço em casamento!



MICHELLE
- E quem disse que eu vou aceitar?
JOHN MEXE NUMA MALA, QUE ESTÁ CHEIA DE PAPÉIS, FITAS DE VÍDEO E LIVROS.
MICHELLE
- John, eu quero falar uma coisa com você. É sério. O vestibular está chegando, eu não estou vendo você estudar, você anda muito acomodado, cara!
JOHN GRITA COM MICHELLE
- Vê se acorda, Michelle! Toda noite meus pais têm um excesso de loucura pós-ditadura e você vêm com um discurso ridículo de “Faça Faculdade para ser alguém?”. Ter Faculdade ou não ter, não me interessa, nada vai mudar a realidade: pobre, cada vez mais pobre e rico, mais rico. Você é tão inocente... Acha o quê? Que seus pais morreram num acidente de carro? Só se emboscada tiver o nome de acidente agora...
MICHELLE
- Minha tia me disse que meus pais nunca se envolveram com política.
JOHN
- E você acreditou?
MICHELLE
- Minha tia também me disse que meu pai morreu por causa da labirintite, que enquanto ele dirigia...
JOHN
- Santa inocência, Michelle!


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