Nos anos 60, a literatura memorialística no Brasil já havia atingido certo grau de maturidade, o que tornava a ambientação pro



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DRUMMOND E MURILO MENDES PARA JOVENS

Afonso Henrique Fávero – UFRN

Nos anos 60, a literatura memorialística no Brasil já havia atingido certo grau de maturidade, o que tornava a ambientação propícia ao surgimento de formas mais ou menos insólitas dentro do gênero. Estas vieram nas obras autobiográficas de dois poetas de elevada estatura literária: Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. Insólitas, porque tais obras fugiam do modelado de prosa comum aos textos de memórias. Boitempo e Menino antigo (Boitempo II)1, de Drummond, são obras poéticas escritas em versos de métrica variada, compondo poemas também de dimensão variada. A idade do serrote2, de Murilo Mendes, está composto em prosa, mas de tal modo aparentada à poesia que poderia ser concebido como tal. Antonio Candido atribui-lhe a denominação “prosa-poesia”.3

Nestes autores a presença mais ostensiva da elaboração literária reafirma a possibilidade de um tratamento fortemente artístico a ser dispensado aos aspectos particulares da vida pessoal. Naturalmente o resultado aparecerá na forma de livros com matizes poéticos e ficcionais.

Carlos Drummond de Andrade sempre apresentou, em meio a sua produção, uma temática voltada para a memória; é de se reparar o quanto este termo é importante na obra do poeta. Com Boitempo e Menino antigo o que sucede são memórias em forma de poema, diferença que promove uma mudança de tom, visto que as duas obras permitem “discernir um veio autobiográfico sem amargura, em contraste com a notória acidez denotada pelo emissor dos versos em relação a si mesmo no restante da obra”.4 Desaparecem por ora as inquietudes que marcam a produção anterior para figurar em seu lugar uma visão das coisas mais tranqüila, um humor mais brejeiro, resultantes de um olhar que contempla, por assim dizer, um “eu antigo”, descobridor do mundo e de seus descompassos e próximo do desejo de onipotência próprio das crianças:

Iniciação Literária

Leituras! Leituras!

Como quem diz: Navios... Sair pelo mundo

voando na capa vermelha de Júlio Verne.

Mas por que me deram para livro escolar

a Cultura dos Campos de Assis Brasil?

O mundo é só fosfatos - lotes de 25 hectares

- soja - fumo - alfafa - batata-doce - mandioca -

pastos de cria - pastos de engorda.

Se algum dia eu for rei, baixarei um decreto

condenando este Assis a ler a sua obra.

(Menino antigo, p. 121)

É assim que por meio de seus versos Drummond vai fixando, como todo bom memorialista, as imagens fugidias da cidade natal, o ritmo e os costumes da vida que ali se levava, os seus personagens marcantes, a iniciação amorosa, a escola, a vida religiosa, os parentes, os festejos, todo um mundo, enfim, recuperado com grande vigor evocativo.

A idade do serrote infunde também à matéria da memória um acento artístico por meio de recursos variados, dos quais vale a pena destacar alguns para se ter uma amostra do poder expressivo de Murilo Mendes também nesse gênero.

Antonio Candido já chamou a atenção para o ajuste que o autor efetua entre o discurso e o tema abordado, exemplificando com a variação apresentada pelos períodos quanto a suas dimensões. Por isso as lembranças iniciais da existência são expressas em sintagmas nominais coordenados entre si, “quando são referidos fatos e circunstâncias anteriores à possibilidade de a memória concatenar”.5 Tomemos apenas um dos muitos pequenos blocos que aparecem logo no início da obra: “As babás. A noite obscura do corpo. Histórias, parlendas, orações. Etelvina. Sebastiana” (p. 6). São como que fiapos de memória despontando do fundo meio indistinto em que jaziam. Quando os fatos recordados se referem a uma época posterior, com a memória um pouco mais assentada, a tendência do discurso é tornar-se mais organizado. Outro recurso está no notável aproveitamento da sonoridade, que às vezes o próprio autor gosta de explicitar. O final do capítulo “Analu”, sobre a namoradinha de dez anos, traz um discurso direto afetivo - “Bobo!” - cujos bês desencadeiam e prolongam o beijo que trocam: “Beijamo-nos. Sua boca sabe a balas de bergamota” (p. 25). Em outro capítulo, a respeito de um circo na cidade, diz: “O nome do leão era Marruzko. Esses dois erres, com o zê azedo e o ká cortante, mais o urro do u no centro, formavam um composto que me aterrorizava” (p. 29-30). Além desses recursos sonoros, encontramos também neologismos como, por exemplo, “cobranoratizei-me” (p. 63), no capítulo sobre Cláudia, de excepcional beleza. A invenção chega à mescla de vocábulos de outras línguas, a uma pontuação às vezes muito particular, às construções curiosas, principalmente no capítulo “Momentos e frases”.

Assim é o livro de Murilo Mendes, que como todo livro de memórias traz aquela gama variada de temas, com a distinção de que o autor produziu entre nós a obra mais singular da literatura de memórias.

Para finalizar, é certo dizer que nossos bons romancistas tendem a compor memórias de boa qualidade, o que pode ser entendido até mesmo como conseqüência de seus trabalhos ficcionais. Torna-se necessário acrescentar que nossos poetas de primeira linha também o fazem, conforme o caso, por exemplo, de Manuel Bandeira em Itinerário de Pasárgada; e agora os de Drummond e Murilo Mendes.



1Boitempo & A falta que ama. 3a. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1976. (A 1a. ed. de Boitempo é de 1968).

Menino antigo (Boitempo II). 3a. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1978. (A 1a. ed. é de 1973).

2Rio de Janeiro, Sabiá, 1968.

3“Poesia e ficção na autobiografia”. In A educação pela noite e outros ensaios, ed. cit., p. 54.

4Ibidem, p. 55.

5Ibidem, p.58.


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