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Anos de tormenta

A. J. Cronin

Livro Um
CAPÍTULO I


Numa úmida tarde de dezembro, a cinco desse mês, no ano de 1919 – data que marcou o início de uma grande mudança em minha vida - bateram seis horas na torre da universidade e um nevoeiro ralo do Rio Eldon ia cercando os edifícios de Patologia Experimental, no sopé do Monte Fenner, invadindo nossa comprida sala de trabalho que cheirava ligeiramente a formol e era iluminada apenas por lâmpadas baixas veladas de verde.

O Professor Usher ainda estava em seu escritório, por trás da porta fechada, à minha direita. Com os ouvidos incomumente apurados, eu podia ouvir os tons precisos enquanto ele falava, demoradamente, ao telefone. Furtivamente, olhei para os dois outros assistentes que, como eu, faziam parte do grupo do professor. Diretamente à minha frente, Spence estava no seu banco, movimentando tubos de culturas, esperando a chegada de sua mulher. Ela o visitava regularmente nas noites de sexta-feira, e eles iam jantar ou ao teatro. Um raio oblíquo traçava na parede uma cruel caricatura do seu perfil quebrado.

No canto mais distante do laboratório, Lomax tinha deixado o trabalho e batia distraído um cigarro na unha do polegar - sinal para uma saída que ele geralmente conseguia tornar fácil e negligente. Dentro em pouco, aborrecido, cercado por uma vagarosa nuvem de fumaça, levantou-se e ajeitou as ondas do cabelo num espelho que ele guardava em cima da pia.

- Vamos a algum lugar esta noite, Shannon. Jante comigo e depois vamos a um cinema.

O convite era lisonjeiro, mas, naturalmente, esta noite eu o recusei.

- E você, Spence? - Lomax voltou-se para o outro. - É que eu e Muriel vamos sair esta noite.

- Que cidade insociável! - queixou-se Lomax.

Neil Spence hesitava, quase pedindo desculpas, tapando o queixo com a mão esquerda, um gesto instintivo que lhe parecia dar confiança e que sempre me tocava, aumentando a afeição e profunda simpatia que eu sentia por ele.

- Por que não vem conosco? A sugestão fez Lomax hesitar.

- Ora, não quero me intrometer e estragar a noite de vocês.

- Nada disso.

Nesse instante ouviu-se a buzina de um automóvel, e quase imediatamente Smith, o atendente, entrou e anunciou que a Sra. Spence tinha chegado e estava lá fora.

- Não façamos Muriel esperar. - Spence, tendo vestido seu sobretudo, esperou o amigo Lomax à porta. - Acho que você vai gostar do espetáculo desta noite... É The Maid of the Mountains. Boa noite, Robert.

- Boa noite.

Quando eles saíram, respirei um pouco mais depressa e meus olhos, vagueando por aquele mundo que eu amava, aquele mundo íntimo, misterioso, secreto, foram pousar, com apreensiva expectativa, na porta do professor.

No mesmo instante, ela se abriu e Hugo Usher apareceu. Suas entradas e saídas, aliás todos os seus movimentos, tinham um jeito um tanto teatral, que se enquadravam tanto com sua figura severa, cabelos cinza-aço e pêra aparada, que ele me dava a impressão desconfortável de ser menos um cientista notável do que um ator desempenhando com excessiva perfeição o seu papel. Chegou até a centrifugadora Hoffman, próxima do meu banco. Apesar de sua expressão bem controlada, para mim não era difícil ler, na ligeira contração dos seus músculos frontais, uma desaprovação pelas minhas peculiaridades, do velho uniforme naval, que eu persistia em vestir, ao meu insucesso, durante as últimas seis semanas, para mostrar entusiasmo pela pesquisa que ele me obrigara a fazer.

Então, com um tom benévolo, que ele adotava para moderar sua severidade, disse brevemente:

- Não, Shannon... Acho que não.

Meu coração parou de pular e afundou lentamente, enquanto meu rosto corava de decepção e mortificação.

- Mas, certamente, professor, se o senhor leu o meu memorando...

- Li-o - interrompeu ele e, à guisa de prova, depôs na minha mesa a folha datilografada que, mais cedo, naquele mesmo dia, eu lhe tinha apresentado e que agora, para os meus olhos queimando, tinha a suja e deplorável aparência de um manuscrito recusado. - Lamento não poder aceitar sua sugestão. O trabalho no qual está empenhado é de uma considerável importância. Impossível... Permitir que o interrompa.

Baixei os olhos, abatido por meu orgulho ferido em ter apresentado o meu pedido, sabendo que suas decisões eram sempre irrevogáveis. Embora minha cabeça estivesse curvada, eu podia sentir seu olhar para os diapositivos empilhados na madeira corroída de ácidos da minha mesa.

- Já terminou as nossas últimas contagens?

- Ainda não - respondi, sem levantar os olhos.

- Você sabe que eu, particularmente, quero a nossa comunicação terminada para o Congresso da Primavera. E como vou estar fora durante várias semanas, é imperioso que você toque para a frente com a maior rapidez possível.

Como eu não respondesse, seu sobrecenho enrugou-se um pouco. Pigarreou. Pensei que ia receber uma dissertação sobre a nobreza da investigação patológica, especialmente quando ligada ao seu assunto favorito: a teoria das opsoninas. Contudo, depois de brincar um momento com o seu chapéu mole de abas largas, enfiou-o inclinado na cabeça.

- Boa noite, Shannon.

Com aquela curvatura formal que tinha aprendido no estrangeiro, retirou-se.

Fiquei sentado por longo tempo, completamente imóvel.

- Estou pronto para fechar, senhor.

Magro e cadavérico como sempre, o Atendente Smith estava me olhando com o canto do olho, o mesmo Herbert Smith que, quando entrei pela primeira vez no laboratório de zoologia, esfriara meu entusiasmo com o seu pessimismo. Agora ele era o chefe dos atendentes do Departamento de Patologia, mas a obtenção desta posição melhor não o havia mudado, e tinha para comigo uma suspeita muda de que meus poucos sucessos, inclusive o grau de Medicinae Doctor (M.D.) e a obtenção da Medalha de Ouro Lister, tinham aumentado ao invés de dissipar.

Sem uma palavra, cobri meu microscópio, guardei os diapositivos, apanhei o meu quepe e saí. Meus pensamentos eram amargos, quando eu descia no escuro a avenida molhada do Monte Fenner, atravessava a apinhada Pardyke Road - onde, embaixo de arcos nevoentos de luz, os bondes trepidavam e sacolejavam pelo oleoso pavimento - e entrava no insípido Distrito de Kirkhead. Ali, terraços de casas antiquadas, aferrando-se desesperadamente à respeitabilidade ante à invasão dos bares e botequins, sorveterias e casas para trabalhadores das docas vizinhas, erguiam os seus altos e medonhos frontões, com cornijas de estuque quebradas, pórticos torcidos e beirais caídos, chorando, parecia, sua antiga glória, sob o céu eternamente nevoento.

No número 52, que ostentava na bandeira da porta o delicado nome de ROTHESAY, e mais abaixo, em letras discretas de dourado escamado, HÓSPEDES, subi as escadas e entrei.
CAPÍTULO II
Meu quarto, no alto da pensão, era pequeno, quase um sótão, parcamente mobiliado com uma caminha de ferro, uma pia branca de madeira e um texto bordado em lã com uma moldura preta. Mas tinha a vantagem de dar para uma pequena estufa de vidro pintado de verde ainda provida de prateleiras e bancos, uma relíquia dos prósperos dias da mansão. Embora fria no inverno e sufocante no verão, servia-me convenientemente de escritório.

Por essa acomodação, mais duas refeições por dia, eu pagava às Srtas. Dearie, co-proprietárias do estabelecimento, a módica soma de 34 xelins por semana - a qual, devo reconhecer logo, era o máximo de que eu podia dispor. O dinheiro que eu tinha herdado de meu avô, "para me sustentar na universidade", tinha não mais do que cumprido sua finalidade, ao passo que meus honorários como assistente, e pelo trabalho extraordinário de instrutor de bacteriologia para terceiranistas, subiam a cem guineis por ano, uma ilusória sugestão de moedas de ouro que escondia o fato de que na Escócia são cautelosos para não estragar com mimos os seus gênios em botão.

Assim, no sábado, depois de pagar a minha pensão, mal me restavam cinco xelins no bolso para fazer o meu lanche na União, mais roupas, sapatos, livros, cigarros - em suma, eu era ultrajantemente pobre, obrigado a usar o meu uniforme obsoleto, que tanto ofendia a noção de conveniência do Professor Usher, não por preferência, mas por ser a única roupa que eu possuía.

Todavia, estas apertadas circunstâncias mal me perturbavam.

Minha educação em Levenford tinha-me afeito de tal modo às vicissitudes da vida espartana como o mingau encaroçado, o leite aguado de um azul singular e inesquecível e os sapatos de sola grossa com tachas para que durassem mais. Além disso, eu considerava o meu presente estado como puramente transitório, precursor de um esplêndido futuro, e tinha a mente tão desesperadamente voltada para o empreendimento que deveria levar-me a um grande e imediato sucesso que não podia ocupar-me com ninharias.

Quando cheguei à minha alta água-furtada, da qual eu tinha uma vista para uma parede branca de tijolos encimada pela chaminé do incinerador da cidade, detive-me por momentos em determinado pensamento, estudando o papel que Usher me havia devolvido.

- O senhor vai se atrasar para o chá.

Com um sobressalto, virei-me para a tímida visitante que estava à minha porta. Era, está claro, a Srta. Jean Law, minha vizinha na porta contígua do corredor. Uma dos cinco estudantes de medicina que moravam na Rothesay, ela estava freqüentando as minhas aulas de bacteriologia, e durante todo o presente curso fizera-me alvo de suas atenções de vizinha.

- O gongo tocou há cinco minutos - murmurou ela, no seu sotaque nortista; e, notando minha irritação, teve a graça de corar: um rubor quente e recatado que subiu a seu rosto claro, mas não a levou a baixar os olhos castanhos. - Bati, mas o senhor não ouviu. Amarrotei o papel.

- Já lhe pedi, Srta. Law, que não me perturbe quando estou ocupado.

- Sim... Mas a hora do seu chá - protestou ela, mais do que nunca rolando os erres em sua confusão.

Não pude evitá-lo... Diante dela, na sua saia de sarja azul, sua simples blusa branca, meias pretas e sapatos grossos, rogando-me com aquela séria solicitude, como se a perda do meu chá fosse uma calamidade mortal, fui obrigado a sorrir.

- Muito bem - consenti, imitando seu tom de voz. - Irei neste instante.

Descemos juntos para a sala de jantar, uma pavorosa câmara mobiliada com estofados de pelúcia vermelha e puída, e até o linóleo impregnado do cheiro de repolho cozido.

No consolo da lareira, que tinha uma franja de veludo com borlas, estava o orgulho das Srtas. Dearie, penhor do seu falecido pai e da sua própria educação como "damas": um horrível relógio de mármore verde, parado, mas apoiado por duas figuras douradas de capacete, portando machados e a legenda Presenteado ao Capitão Hamish Dearie por ocasião da sua aposentadoria no comando da Brigada de Fogo de Winton. A refeição, pálida e magra sombra do tradicional "grande" chá dos escoceses, já tinha começado, e a Srta. Beth Dearie o presidia na mesa de mogno coberta com uma remendada mas limpa toalha branca, com uns poucos pratos de pão, bolos de aveia e de sementes aromáticas, uma bandeja de arenques, um para cada pessoa, e um bule de metal Britannia, encaixado numa "boneca" de tricô azul. Ao servir nosso chá, a Srta. Beth, uma solteirona correta, alta e orgulhosa, de 45 anos, parecia acentuar seu ar de empobrecida fidalguia, mostrando-nos - embora tivesse respeito pelo meu diploma de doutor, e a Srta. Law fosse certamente a sua favorita - o seu tênue sorriso de "sofrimento", que desaparecia somente quando eu metia um penny em uma caixinha de madeira colocada ao lado de uma lata vazia de biscoitos no centro da mesa, e marcada "Para os Cegos".

Pontualidade, como a polidez, era um dos princípios da Srta. Dearie mais velha, e que todos os chegados depois que ela "pedira a bênção" deviam apresentar desculpas, embora a gente fosse perdoado por duvidar, em momentos descuidados, de que aquele tributo jamais chegasse a seu indicado destino. Comecei a comer calado o meu arenque, que estava salgado, oleoso e mais do que usualmente minguado. Aquelas duas distintas damas se esforçavam por igualar a despesa com a receita, e a Srta. Beth - que "gerenciava" o estabelecimento na frente, enquanto a Srta. Alice cozinhava e limpava nos fundos - fazia com que o pecado da gula nunca fosse cometido em sua presença. Apesar disso, a escrupulosa reputação da sua casa era reconhecida pelas pessoas ligadas à universidade, e raramente tinha uma vaga. Esta noite vi que, além de sua tripulação de seis, Galbraith e Harrington, dois estudantes que ainda não tinham colado grau, estavam ausentes, tendo ido passar o fim-de-semana em casa, mas, diante de mim, sentavam-se os dois outros estudantes de medicina, Harold Muss e Babu Lal Chatterjee. Muss era um rapaz de estatura abaixo dos seus 18 anos, perpetuamente sarapintado de espinhas, e provido do mais notável conjunto de dentes protuberantes de bode. Estava apenas no seu primeiro ano e na maior parte do tempo mantinha um silêncio deferente, mas, ocasionalmente, quando julgava que alguém tinha feito uma troça, rebentava de rir com um relincho de cavalo selvagem. Lal Chatterjee, um hindu de Calcutá, era mais velho do que Muss, na verdade teria uns 33 anos, muito gorducho e molenga, com uma tez lisa de açafrão realçada por uma barbicha aparada, com um rosto sorridente, inefavelmente estúpido. Fazia pelo menos 15 anos que ele vivia entrando e saindo do curso da Universidade de Winton, usando calça bombacha que pendia no assento como um saco de batatas vazio, e sempre com um enorme guarda-chuva verde, procurando sem êxito obter seu diploma de médico.

Loquaz e de boa natureza, com uma tagarelice amável e incessante, tinha-se tornado na universidade uma instituição cômica. Assim que entramos, numa "melopéia" que sempre parecia o grito do muezim anunciando as horas de oração e a ser afinada em tom menor, ele começou:

- Ah! Bom dia, Dr. Robert Shannon e Srta. Jean Law. Receio que já tenhamos comido todos os alimentos. Por seu atraso, talvez venham a morrer de subnutrição. Oh, sim, talvez, ha! Ha! Sr. Harold Muss, por obséquio, alcance-me a mostarda, muito obrigado. Apelo para o doutor meu colega. Pergunto-lhe, Dr. Robert Shannon, a mostarda estimula as glândulas salivares, das quais há duas, a sublingual e outra cujo nome anotei cuidadosamente no meu caderno? Desculpe-me, doutor, como se chama a outra glândula?

- Pâncreas - sugeri.

- Ah! sim, doutor, o pâncreas - concordou Babu, radiante. - Esse é exatamente o meu ponto de vista.

Muss, que estava tomando chá, engasgou-se violentamente.

- O pâncreas! - exclamou, sem fôlego. - Eu não sei muito, mas isso fica na minha pança!

Lal Chatterjee olhou com reprovação para aquele seu convulsivo colega.

- Oh, pobre Sr. Harold Muss! Não exiba sua ignorância. Queira lembrar-se de que estudo medicina há muito mais anos do que o senhor. Tive a honra de ser reprovado como Bachelor of Arts na Universidade de Calcutá, provavelmente antes de o senhor ter nascido.

A Srta. Law estava tentando encontrar meu olhar e atrair-me para sua conversação com a Srta. Beth. Discutiam com o grave mas grande interesse daqueles que, ligados por simpatias evangélicas, esperavam a próxima apresentação de O Messias, no St. Andrew's Hall - sempre um notável evento de inverno em Winton - mas uma vez que eu tinha, por motivos pessoais, uma particular reticência por assuntos religiosos, fixei os olhos no meu prato.

- Gosto muito de música coral, o senhor não gosta, Sr. Shannon?

- Não - respondi. - Receio que não.

Neste ponto, a Srta. Ailie Dearie entrou, vinda da cozinha, silenciosamente, nas suas chinelas de feltro esfiapadas, uma figura pesada trazendo o "cristal", isto é, a sopeira de vidro de ameixas cozidas mas duras como pedra que nas "noites de defumados", com a inevitabilidade da morte, terminava o nosso triste repasto.

Diferente de sua irmã, a Srta. Ailie era uma criatura tenra e dócil, um tanto desleixada em sua aparência, pesadona e lenta, com as mãos nodosas e desfiguradas pelo trabalho doméstico. Dizia-se provavelmente coisa da insensatez dos estudantes, animada pelo fato de que seu único recreio, à noite, era ler as novelas românticas da biblioteca pública - que, quando moça, tinha tido um trágico caso de amor. Seu rosto bondoso, afogueado pelo fogão, paciente sob a língua ácida da irmã, era triste e pensativo, com uma mecha de cabelos caindo constantemente sobre a testa, que a mulher tinha o curioso hábito de afastar com os lábios, com um ligeiro sopro para cima. Talvez suas próprias dificuldades a fizessem simpatizar com os meus problemas. Agora, com bondoso interesse, curvou-se e cochichou no meu ouvido:

- Como foram as coisas hoje, Robert?

Para tranqüilizá-la, forcei um sorriso, e ela acenou com a cabeça, indicando sua satisfação, soprou o cabelo e saiu.

O coração da Srta. Ailie era mais mole do que as suas ameixas! Porque nos próximos cinco minutos nenhum som era audível, exceto os da difícil mastigação, o estalo dos caninos errantes de Muss contra a fruta de pedra.

Quando nada comestível ficou sobre a mesa, a refeição terminou com Beth Dearie levantando-se como a castelã que acaba de oferecer um banquete em seu castelo. Nós então nos dispersamos para os nossos quartos; Harold Muss, com um ar ausente, tirando espinhas de arenque dos dentes com o indicador, e Lal Chatterjee arrotando musicalmente com uma espécie de majestade oriental, en rou te.

- Sr. Shannon. - Apressando-se atrás de mim, a Srta. Law sussurrou meu nome. Ao menos eu lhe tinha tirado o costume de dirigir-se a mim como "Doutor", um título que, com as suas implicações de mediocridade profissional, eu naquela fase detestava inteiramente. - Não estou bem certa do que escrevi sobre o Trypanosoma pambierae... O senhor sabe, a questão que hoje nos apresentou. Ela despertou tanto o meu interesse que... O senhor teria... Teria a grande bondade de dar uma olhada?

Apesar de preocupado e aborrecido, não tive a força de vontade para recusar; algo naquele desprotegido frescor do seu rosto afastava as minhas respostas mais rudes.

- Traga-o - resmunguei.

Cinco minutos depois, sustentado pelas molas quebradas de uma cadeira da estufa, li o que a moça havia escrito, enquanto ela, sentada muito ereta na beira de um banco coberto por um encerado rachado, com as mãos cruzadas nos pulsos sobre a sua saia de sarja, olhava-me com um ar grave e ansioso.

- Servirá? - perguntou ela, quando terminei de ler.

O ensaio era notavelmente bem-feito, com várias observações inteiramente originais e uma série extremamente precisa de desenhos do desenvolvimento do parasita flagelado.

Ao considerar aquela jovem, eu tinha que admitir que ela não era igual à maior parte das moças que vinham em bandos para a universidade, querendo "fazer" medicina. Algumas delas vinham para divertir-se, outras eram empurradas por pais ambiciosos da classe média, ainda outras estavam apenas procurando casar-se com um rapaz aceitável que um dia, em alguma comunidade suburbana, se tornaria um clinico enfadonhamente respeitável, mais ou menos incompetente, mas financeiramente garantido.

Nenhuma tinha qualquer talento ou capacidade para a profissão.

- Vê o senhor - murmurou ela, como para encorajar minha opinião – há trabalho esperando por mim. Estou ansiosa por colar grau.

- Isto está bem acima dos padrões comuns - falei. - De fato, está muitíssimo bom.

Uma onda de calor assomou-lhe às faces macias.

- Oh! Muito obrigada, Dr.... Sr. Shannon. Vindo do senhor , isso significa tudo. Não lhe posso dizer o quanto, nós estudantes respeitamos sua opinião... E o seu... Sim, deixe-me dizer, o seu brilho. E naturalmente sei o que passou na guerra.

Tirei o chinelo e examinei a rachadura que começava no meu artelho. Eu já tinha tentado explicar por que eu não podia ferir aquela minha estranha vizinha; contudo, precisava dar vazão à minha sensibilidade ferida. Minha natureza era reservada e secreta, e eu não era constitucionalmente um mentiroso; todavia, sob aquele olhar estatelado e confiante, algum diabo, que eu talvez tivesse herdado do meu incorrigível avô, tinha começado, naquelas últimas semanas, escondido pelo meu semblante pensativo e até melancólico, a praticar as mais descabeladas diabruras.

Durante as nossas freqüentes conversações eu lhe tinha confiado que vinha de uma família rica e aristocrática de Levenford, mas que, tendo ficado órfão e preferido a pesquisa médica a uma carreira de antemão traçada para mim, tinha sido expulso e privado de meu lar ancestral.

Sua inocente credulidade incitava-me a novas petas.

Durante os quatro anos da guerra, eu tinha levado uma existência monótona e sem acontecimentos como médico a bordo de um cruzador ligeiro destacado para tarefas com submarinos no Mar do Norte. Nossas missões semanais, através dos campos minados pelo inimigo, eram talvez bastante perigosas, mas inteiramente aborrecidas. No porto, bebíamos gim, jogávamos vinte-e-um e pescávamos enguias. Um dos nossos oficiais superiores foi pilhado em roupas íntimas com uma bela mulher, à qual, disse-nos ele depois, estava ensinando a abstrusa arte da navegação. Além disso, nada quebrou a monotonia até que entramos na Batalha da Jutlândia, e então tudo aconteceu tão depressa que restou apenas uma confusa impressão de barulho e clarões, eu suando numa enfermaria de bordo, fazendo tudo mal, com dedos trêmulos, minhas entranhas tão liquefeitas que durante uma semana inteira sofri abominavelmente de cólicas.

Naturalmente, isto não servia para a Srta. Jean Law; assim, enquanto ela bebia as minhas palavras, inventei uma nova e mais pitoresca história. Tínhamos sido torpedeados, errado durante dias numa balsa no meio do Pacífico, houve cenas dramáticas de fome e sede, lutamos com tubarões e assim por diante até que, pelo mais incrível dos acasos, acordei, pálido mas triunfante, aliás um herói, num hospital da América do Sul.

Durante meu presente silêncio, ela pareceu ficar mais nervosa, agora os seus cílios começaram a tremer, sempre um sinal de tensão interior.

- Estive pensando... Quero dizer... Não me parece justo, Sr. Shannon que eu saiba tanto a respeito do senhor... Enquanto o senhor nada sabe sobre mim. - Fraquejou por um momento, e depois continuou bravamente: - Eu estava pensando se o senhor gostaria de ir à minha casa em Blairhill.

- Bem - disse eu um tanto surpreendido. - Vou estar muito ocupado durante todo o inverno.

- Sei disso. Mas o senhor tem sido tão bondoso comigo que eu gostaria que conhecesse minha gente. Naturalmente - acrescentou, às pressas - somos pessoas simples, não como o senhor. Meu pai - e novamente ela corou; contudo, com um ar de quem depois de uma longa consulta consigo mesma tomou uma resolução difícil, continuou valentemente: - não é uma pessoa muito importante. Ele é... Padeiro.

Houve uma pausa um tanto longa. Sem saber o que dizer, ou fazer, fiquei sentado muito silencioso. Eu começava a sentir-me desconfortável, quando ela, subitamente, sorriu, mostrando a mesma centelha de humor que iluminava seu fervor seráfico.

- Sim, ele faz pão. Trabalha na padaria com meu irmão mais moço e outro homem. E manda as fornadas para o campo numa carroça puxada por um cavalo. É um negócio bem pequeno, mas estabelecido há muito tempo, como pode deduzir. Assim, embora o senhor tenha grandes relações, não olhe para nós com desprezo.

- Deus do céu, por quem me toma! - Picado, lancei-lhe um olhar rápido, mas ela era muito inocente para ver um duplo sentido.

- Então irá? - Com uma expressão deliciada, levantou-se, apanhou os seus papéis do braço da minha cadeira e ficou olhando para mim. - Fico-lhe muitíssimo grata por esses tripanossomos. A medicina tropical me interessa muitíssimo. - Meu olhar inquiridor provocou uma confidência final: - O senhor sabe... Pertenço à Irmandade em Blairhill... E imediatamente após a minha formatura... Vou como médica para a nossa missão em Kumasi, na África Ocidental.

Meu queixo deve ter caído pelo menos uns três centímetros. A sua absurda capacidade de surpreender-me não teria fim? Meu primeiro impulso foi rir, mas a expressão dos seus olhos, que brilhavam como se ela tivesse lobrigado o Santo Graal, impediu-me. E enquanto a observava, tinha que admitir que ao menos ela possuía a virtude da sinceridade.



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