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TEXTO DA CONTRA-CAPA

“Reconheço: sou um cristão manqué, se fixaram em mim os aspectos fraternais da fé em que não posso racionalmente crer. Esse cristianismo, legado dos beneditinos e de alguns jesuítas, é um sonho. Acordei. Me pergunto se não era melhor continuar dormindo.

Fiz tudo, errado ou certo, na hora certa. [...]

Acho que não preciso repetir onde está meu coração político. A cabeça se libertou das simplificações e paliativos, das certezas de manual. Examina e se auto-examina constantemente. É meu inferno e delícia, minha única justificativa plausível de alegar que evoluí dos macacos. Aceitos os riscos e incertezas dessa liberdade, essencialmente modesto, pois me acho disposto a aprender do que ou de quem me persuadir. Ainda que sozinho continuarei assim, mas sei que estou muito bem acompanhado.

Paulo Francis

TEXTO DAS ORELHAS



O afeto que se encerra é um ajuste de contas com os leitores, com o Rio, com o Brasil e com ele mesmo. Paulo Francis o publicou em 1980, aos 50 anos. O livro tem vigor, não é obra de um memorialista de século XVIII, retirado em um sítio a registrar o pacote de banalidades que foi sua vida. Longe da monotonia do saudosismo e das reparações, Francis abre uma frente de batalha, mostrando que a infância e adolescência de um carioca de classe média em Copacabana, mesmo nos anos 30 e 40, não era o que contam as lendas.

Ele avança para seus 20 anos e lembra como descobriu o Brasil em 1951, na excursão do Teatro do Estudante de Paschoal Carlos Magno ao norte/nordeste.

“Pela primeira vez vi o Brasil, vi a nu o crime secular de uma classe dirigente que em crueldade conhece poucos paralelos, que se esconde em falsa afabilidade e patriotismo, aqui não o último, mas o primeiro e único refúgio dos velhacos”. Estava localizado o inimigo e, nos 40 anos seguintes, Francis vai se tornar o jornalista mais conhecido, lido e discutido do Brasil.

No livro, os tempos se alternam como num solo de jazz. Há um tema principal, a vida do autor, e as variações, na forma de reflexão, informações laterais e propostas. A base destas últimas é a experiência, primeira e única, com o Brasil pobre. “Nunca imaginei que existisse algo igual na terra”, diz, sobre a época. Continuou achando isto, mas não acreditava mais que a elite brasileira, pública ou privada, nem a esquerda, tivessem um projeto para o Brasil. Esta desilusão com as elites brasileiras não o torna um pessimista crônico. Sempre, em qualquer um de seus livros, um humor peculiar distribuirá sarcasmo e ironia ao redor. Na última linha do livro: “Ainda que sozinho continuarei assim, mas sei que estou muito bem acompanhado”.

JOSÉ ONOFRE

“A inocência é uma forma de insanidade.”

(GRAHAM GREENE, O americano tranqüilo)

SUMÁRIO


  1. Bem...

  2. Prolegômenos: ou seja, alô

  3. Brasilidades

  4. A descoberta do Brasil

  5. “Deus é brasileiro”

  6. “E o que que você vai cantar, moço?”

À memória de Irene e Adolpho, meus pais, e de Fred Heilborn, irmão.


I. BEM...

ESTE livro não é uma autobiografia. Contém passagens autobiográficas. Não é o estudo, ou reminiscência, de um período histórico. É memória seletiva. E se toco minha trombeta, verão que nem sempre os sons são harmônicos. Fi-lo porque qui-lo. Esta, de resto, é a gênese honesta de qualquer obra literária. Somos todos narcisistas. A diferença é de grau e entendimento da nossa condição. E, claro, dos usos que fazemos de nós mesmos.

Há outros motivos. Bato bola para enfrentar o último volume da trilogia de romances, Cabeça de papel, Cabeça de negro e Cabeça (inédito)1. Este vai ser trabalho maior que os anteriores. Jornalismo me é fácil. Literatura é autoviolação, em mim que sou pouco dado a intimidades, um cálice que pediria a meu Pai, etc. Mas Paulo Francis dominou Cabeça de papel e de negro. Paulo Francis nasceu em 1951. Mexeu de leve nas cargas e castigos de Franz Paulo Trannin Heilborn, eu, antes que Paschoal Carlos Magno me batizasse “Paulo Francis”, nome típico de “bailarino” de teatro-revista (Glória May e Paulo Francis em Catuca o balaio da negra, de Stanislaw Ponte Preta...). Em Cabeça preciso confrontar a infância e adolescência de F.P.T.H., que não havia desenvolvido (começava) as defesas de Francis. Franz (nome que detesto), se não bebeu fel e gasolina, andou perto, menino meio gago, excessivamente sensível a rejeições dos raros a quem amou, às vezes brutal, indistinguível de uma besta-fera. Latia e mordia.

Esta é, portanto, a preliminar de Cabeça, intelectual na medida do possível, sem torrar os países baixos do leitor que espera, como eu, digeri-la ao de leve. Adio assim os choques emocionais do que será a ficção. E chegamos aos motivos finais. Franz nasceu (me dizem. Ver adiante) em setembro de 1930. Completo(ei) 50 anos em 1980. Acho boba essa mania (e clichê) de imprensa, simplificar a vida em décadas. Confesso, apesar disso, que a expressão “meio século” me fascina um pouco. Não é à toa que fui marxista-trotskista durante 14 anos. Resolvi ter um livro na rua aos 50 anos. Vaidade. E curiosidade.

Jornalista político e cultural, opino sobre isso e aquilo o tempo todo. Mas jornalismo, mesmo ensaístico, é dispersão de energias na vida do próximo, em coisas exteriores à ilha em que vivo e na qual um psicanalista amigo, Borsoi, descobriu uma catedral, meu superego: ajoelho, rezo e cumpro. A imagem é de Koestler. Borsoi não gostou de Koestler sem ler. Pensaram ao mesmo tempo. Borsoi foi um dos poucos psicanalistas brasileiros que escapariam da cadeia em país civilizado. Morreu. Não me analisou. Eu o admirava, mas minha única aterrissada em divã, em 1961, aconteceu quando perdi a memória de duas semanas. Recuperei a memória e dormia no divã de E. M. Medi o bicho, testei-o contra textos de Freud, Klein e até, colher de chá, o prefácio de Strachey ao estudo de Leonardo da Vinci. Desmoronou. Me perdeu de vez quando notei que fumava cigarro de filtro com piteira. Imperdoável. Depois que me despedi, quase em seguida, internaram o pobre E. M., síndrome qualquer-besteira. Duvido que soubesse diagnosticar. O homem levava Erich Fromm a sério. Está de volta, me informam, faturando. Numa das sessões, me fez esperar meia hora, enquanto falava a dois cafajestes, policiais (claro). Tentava suborná-los. Queria porte de armas. É que onde vivia, no Leblon, rapazes vizinhos zombavam dele. E. M. explicou que se refazia do trabalho diário, de cuecas, tocando piano. Os vizinhos emitiam o contraponto de “bicha, bicha”. Se o virtuosismo de E. M. era igual ao conhecimento de psicanálise, os rapazes esses têm minha solidariedade.

Divago. Tanto falo do resto, que não me sobra tempo para saber o que penso de mim. Às vezes me ocorre, desagradavelmente, que conheço melhor a cabeça (o título é de cortesia) de Jimmy Carter do que a minha. E só sei o que penso quando passo para o papel.

Os romances ajudaram bastante a me situar. São uma biografia espiritual do grupo em que me desmamei, mas o de Paulo Francis, não o de Franz (pronuncia-se, no Brasil, Fransh). Não me perguntem quem é quem nos Cabeças. E pergunta de quem nunca escreveu criadora-mente (bem ou mal; é irrelevante, já que o processo é idêntico). Em todo caso, como faço fé que este livro aqui venda, bajulo os interessados com uma pista. O narrador, Hugo Mann, é baseado em Dercy Gonçalves.

Quis ser escritor desde que li Crime e castigo, aos 14 anos de idade. Eu era um revoltado contra a ordem social, família, colégio, padres. Tolstói, antes de morrer, disse que não se sentia diferente de menino, aos 8 anos. Nem eu, agora (fim das semelhanças entre nós). Foi aos 8 anos que comecei a perceber a ambivalência, a ambigüidade, a falsidade do que me pregavam. Uma cacetada emocional me levou a essa precocidade crítica. Não importa. Nos tornamos o que somos. Me fechei em mim mesmo, perplexo, rancoroso, engatinhando sarcasmos. A perplexidade, expressa em aparente abobamento, fez suspeitar retardo. Mas fui sempre, nessa fase, primeiro da turma, prêmio de excelência do colégio. Ainda assim, meu santo pai me obrigou a extrair essa fajutice de Cyril Burt, um QI. A modéstia me impede...

Concluiu-se que Franz era apenas um menino “esquisito”. Eu ria melodramaticamente ao ouvir a palavra em casa, depois que dera uns pontapés violentos nalguma senhora amiga de família que pretendia me bolinar. Fui bebê e menino bonito. Sim, tenho provas fotográficas. Parecia o primeiro filho de Lindbergh, o que morreu, toc, toc, toc. Lourinho e de olhos azuis. A vizinhança que acompanhava o rapto em A noite ilustrada (acho) chegou a suspeitar ligeiramente de meu pai. E se eu fosse o garoto e houvesse sobrevivido? Proibiria papai e mamãe de escreverem, isso garanto, diminuindo o volume de lixo middle-brow, de sentimentalismo de classe média, nas livrarias.

Garoto fulo, eu temia as represálias da Autoridade e, pior, não sabia como combatê-la. Dostoiévski respondeu. Ele e Nietzsche (outro caso de inspiração simultânea) criaram a consciência moderna individual. O cerne revolucionário de Crime e castigo é que Raskolnikov racionaliza, e assim justifica, o assassinato de outra pessoa, em causa própria, pela capacidade maior que tem, teórica, de reorganizar a ordem das coisas, que ele destrói pelo ato consciente de um intelecto superior. Vale tudo, se você agüenta a parada, intelectualmente. A ordem estabelecida é uma tirania contra os súditos. Contra mim. A exaltação que essas palavras me causaram jamais foi igualada em qualquer experiência. Há, claro, outra componente na história, “reacionária”, que ignorei desdenhoso, e de que falo futuramente. Na época, renasci da irritação impotente à subversão do que me impingiam. Bastava “apenas” pensar bem, em profundidade, que a prisão, que a cela se abriria...

De 14 aos 27 anos li tudo que conseguia pegar, média de seis horas por dia, investimento que me rende até hoje. Colégio de manhã, almoço, leitura até à noite, quando voltava à normalidade moleque da idade. O que não entendia, muitíssimo, preenchia em comentários. Mastiguei Ulysses de Joyce olhando o mapa da mina de Stuart Gilbert. Atravessei os “esotéricos” Richards (I. A.) e Bradley (metafísico) me enchendo de eruditas mas transponíveis explicações. É só querer e não andar habitualmente de quatro, zurrando. A experiência me mudou opiniões mil, mas duvido que qualquer universidade me desse base semelhante.

Não que pensasse nisso, “glórias acadêmicas”. Colégio é bom, quando é, para a zorra, o esculacho. Pouco aprendi de útil. Deixe ver. As quatro operações, certo, mas sou fraquíssimo em divisão, frações e nem me lembro do que é uma equação de primeiro grau. Apesar disso, se ficarmos nos essenciais, discuto leigamente a Segunda Lei da Termodinâmica, a Teoria do Quantum e a Lei da Relatividade, o básico real, que, em anos, digeri. Ler? No primeiro dia decorei as combinações de letras (1937). Escrever? Ao contrário, boa parte da ilegibilidade da literatura e imprensa brasileiras se deve ao asneirol filológico ensinado nas escolas. “Custa-me crer” é a vovozinha. Rubem Braga ou Millôr Fernandes valem “n” Aurélios. Escrever é organizar intelectualmente, parafrasear a linguagem viva do povo. Ou fazer algo próprio, à la Guimarães Rosa. Entupiam-nos de regras hieroglíficas, de construções artificiais, de jargão acadêmico. E esse absurdo supremo, negando qualquer conversa normal, de não misturar a segunda e a terceira pessoas pronominais. “Brasil, ame-o ou deixei-o” resume minha crítica. Duvido que até general fale assim. “Tá fedendo, te manda”, é o que eles queriam dizer.

Claro, a idéia que linguagem escrita precisa ser solene é uma componente de elitismo dos privilegiados num país miserável de analfabetos. Idem, a profusão de acentos, os 4 mil verbos irregulares, a insistência em palavras não-coloquiais (me citem o homem público que diz “acho” ou “acredito”. Não, é “creio”. Uma das razões do sucesso de Carlos Lacerda é que falava como gente).

É, em suma, o grito infantil “eu sou o maior”, mascarado de seriedade e aplicação. Essa deficiência foi varrida da literatura e imprensa de países desenvolvidos. Mas persiste, universalmente, nas ciências. A cara de satisfação do medicozinho, quando lhe pedimos que traduza o diagnóstico obscuro, dispensa comentários, é o comentário... Os ingleses são exceção, talvez porque nas escolas deles, de elite, se aprenda (ou se aprendia, antes do “socialismo”) a linguagem clara, direta e resplandecente dos clássicos, de Homero a Shakespeare, que marca de vez quem provou. A economista Joan Robinson é leitura amena, romance de moças, perto da produção de alguns de meus bons amigos do Cebrap.

Bem, o chato do Paulo Francis já citou demais. É tempo de ativar Franz. Minha revolta era natural, gerações sempre se confrontaram, ou se confrontavam até os anos 40, antes que as crianças fossem educadas no narcisismo pseudoliberacionista de hoje, em que todas as vontades (falo das classes privilegiadas) lhes são feitas. Por isso, adultas, enfrentando a crueldade democrática da vida (de que ninguém escapa. Varia a dosagem), tentam compulsiva e neuroticamente repetir o “paraíso” sensório da infância, em sexo promíscuo, drogas, violências (manha), quando contrariadas; ou, alternativa, mulheres em particular e homossexuais em geral, se entregam à submissão e à autodegradação, qualquer coisa que lhes forneça uma consciência de identidade, do que nunca experimentaram. O capitalismo pós-industrial, tecnológico, dispensa (sempre aos privilegiados) a ética passada de trabalho, de sacrifícios, e a de sobriedade, que preservaria energias. Comer doce demais dá dor de barriga, ouvi, menino. Ligue a TV e o oposto é proposto. Tudo, corpo e alma, é bem de consumo ilimitado. O conceito de contenção, de que nada é de graça, que velhice e morte são complexas e inevitáveis evoluções e regressões, que a criatividade depende, em parte, de privações dos criadores (a definição exata de Freud do que é civilização), foi varrido de nossa cultura publicitária. Daniel Bell, o ex-marxista convertido em tecnocrata centrista, chama esse processo de “contradições do capitalismo”. É apenas o capitalismo no estágio atual.

Somente os “índios”, 2 dos 4 bilhões de habitantes do mundo, os miseráveis e os esfaimados estão sujeitos à velha escala de valores, e, na marra, na senzala que um dia explodirá como previ em Cabeça de negro, à la louca, sem nenhuma das ideologias renovadoras do pensamento ocidental (marxismo inclusive). A revolução no Irã', completamente fora dos diversos manuais, ilustra.

De volta a meu assunto, a intensidade da minha revolta não era natural. Notem, talvez eu tenha dado a impressão que vivia enfiado nos livros. Sobrava tempo de ser “normal”. Tocava punhetinhas matinais, vespertinas e noturnas. Ia ao cinema ver Mickey Rooney, Esther Williams, Red Skelton, Ronald Colman, Gloria de Haven, etc. Lendo Huxley (de quem copiei as poses dos intelectuais cheios de taedium vitae), continuava acompanhando o Globo juvenil. Passei noites na sinuca, jogando carambola de bolso com malandros (carambola é mistura de bilhar e sinuca. É, ou era, o preferido dos malandros. Eu, jogador medíocre, sempre atirei alto). Bebia. Aos 11 anos cheguei de quatro em casa, depois de uma festa junina de rua. Os mais velhos deram ao garoto a tarefa de segurar as garrafas de cachaça: minha primeira e última (que eu lembre) coma alcoólica. Me servi das empregadinhas, residentes e itinerantes. Estas apareciam ninguém sabe de onde e os meninos formavam fila, na escuridão da Rua Icatu, onde moram hoje alguns amigos do autor, e elas nos praticavam o que os padres da Idade Média resolveram desencorajadoramente apelidar de fellatio, sexo oral. Joguei futebol no colégio, quebrei e me quebraram, e na rua (racha), em que tínhamos hora em hora de esconder a bola da D.G.I., a polícia brutal de Getúlio, chamada por algum morador indignado pela nossa linguagem ou janelas arrebentadas. Só três íntimos, que partilhavam um pouco meus anseios de libertação, sabiam das seis horas de leitura. Até com o proletariado moleque, depois de incontáveis brigas de turmas (tenho uma cicatriz de navalhada à direita, abaixo do estômago. Às vezes, hoje, de pileque, exibo orgulhoso a amigos), estabeleci uma détente, quase uma entente cordial. Meu vulcão, digamos, geyser, rugia apenas eu sozinho.

II. PROLEGÔMENOS: OU SEJA, ALÔ

NASCI em 2 de setembro de 1930, na Rua São Clemente, Botafogo, Rio, perto da antiga embaixada americana (...), numa casa de vila, em ambiente de classe média. É o que dizem e o tabelião confirma. O leitor tem aí a pista-chave da minha personalidade. Tolero (de uns tempos para cá...), de cara alegre, os tolos, como recomenda o apóstolo Paulo. Tolero às vezes. Paulo também... Mas leio e ouço as coisas sempre em dúvida do que não posso provar. Essa desconfiança, a essa altura, me parece incorrigível. Infelizmente? Me salvou de boas e me priva do abandono emocional, que é uma das alegrias da vida, me informam, enquanto dura. O fato é que nos (raros) paroxismos uma voz me avisa: “Bicho, esse negócio não é contigo”. Não se iludam pela aparente e ocasional fúria de meus escritos. Escrevo frio como um pepino. Prefiro assim, ou já me habituei?

Sei apenas que nasci, presumo que pelos processos convencionais, não existindo na ocasião o bebê de proveta ou os Garotos do Brasil. E fui, jovem, a cara do meu avô alemão, Paul Heilborn, na mesma idade, o que exclui, provavelmente, a hipótese de adoção. Dando crédito à versão oficial, não é verdade que ao me baterem na bunda eu dissesse “Cogito ergo sum”, ou, segundo o vulgo, “Um Black Labei nas pedras”. Se me manifestei, à parte o que Shakespeare chamava sentimentalmente “the mostpiteous sound”, o som mais digno de pena, o nhenhém do desgraçado do bebê, teria sido na linha de “Por que não me consultaram se eu queria vir pressa joça”? A última frase de As memórias póstumas de Brás Cubas é minha opinião da paternidade.

Meus (pressupostos) pais, Adolpho Luiz Heilborn e Irene Trannin Heilborn, já tinham um filho de dois anos, Fred, que, no folclore familiar, eu duas semanas nascido, me atirou uma caixa de fósforos na cara. Essa guerra levou mais de 20 anos. Quando ele morreu, aos 34 anos, assassinado pela Cruzeiro do Sul2, nos tornáramos amigos. Nos respeitávamos e chegamos a alugar juntos um apartamento alguns meses. Perdi um irmão (há outro, Paulo Gustavo, 14 anos posterior a mim); um dos meus melhores amigos, Mário Faustino, poeta e crítico, o crítico de que precisamos ainda hoje, pois não-curriolável; Ivan Meira, um inventivo publicitário e participante da formação de Senhor, divertido, perigoso (diziam os inimigos. Não contem comigo); e Cilo Costa, ator e alegria das mulheres; todos se foram em desastres de aviação. E trabalhei meses na Panair, descobrindo que em toda e qualquer viagem o avião falha aqui ou ali e o público não nota ou é avisado (raramente as conseqüências são sérias). Mário morreu aos 32 anos. Ivan, 30 (no aniversário dele, um amigo comum, Newton Rodrigues, disse: “Como é, Ivan, você garantiu que não passava dos 30”. Ivan: “Cheguei, não passei...”). Cilo, 30 e poucos. Faço, em média, nos EUA, entre domésticos e externos, cerca de 100 vôos anuais. Toc, etc.

É Fred mesmo. Adolpho viveu alguns anos nos EUA, nos anos 20 (me contou a luta de boxe roubada em que Dempsey bateu o argentino Firpo, a que assistiu), e se encantara com o país. Voltando americanizado, tascou um nome afim no primogênito. Paguei. Paul Heilborn quicou em face desse “arreganho colonialista de Washington”. Daí o Franz que recebi, Adolpho me usou para apaziguar o pai. Os dois se entendiam mal. Distraído e sonhador, Adolpho esqueceu de incluir o Trannin na certidão, me surripiando o nome materno, prenúncio de coisas piores. No Santo Inácio, colégio jesuíta do Rio, me chamavam de “Caninho”, a principio, corruptela de Trannin (Trranân). Perdi o Trannin um dia na secretaria e virei eiulbórn (ráiulbórn ).

Meu pai ganhava bem, na Esso... Dez anos de casa, estabilidade (pré-“opção” pelo Fundo de Garantia), futuro certo, americanófilo, inglês sem sotaque (e alemão, francês e espanhol). Paul Heilborn tinha algum. Viera para o Brasil em 1889 assumir uma posição na Teodorville (talvez falte ou haja uma letra demais aí), de que terminou o segundo homem, até que encampada quando o Brasil entrou na guerra em 1943. Não se tratava do imigrante de tamancos, dum cutruco teutônico. Muito nos orgulhávamos disso, considerando-nos à parte do que o célebre Mesquita (Mesquitá, hoje morto ou aposentado em Biarritz, não me lembro qual) do Itamarati chamava de “merros brrasileirros”. Bobo? Sem dúvida.

Paul Heilborn, às 7 da manhã, estava de pé, banho frio tomado, de paletó e gravata-borboleta, passeando o dobermann, Lumpen, nome que, mal sabia eu, era, no contexto marxista, uma palavra a ser repetida em todas as discussões. Lumpen, fazendo justiça ao nome, se desmilingüia diante de qualquer lulu. Velho e doente, assustava, porque baixaram uma regulamentação dessas idiotas (no nível da de Juarez Távora, ministro da Agricultura, proibindo que se carregasse porco de cabeça para baixo em estrada no interior), que obrigava o uso de mordaça especial em cachorros de porte maior. Lumpen, mascarado (meu avô foi, que me lembre, a única pessoa a cumprir a regulamentação), provocava gritos e desvios rápidos de senhoras e crianças. Houve outro, Kid, este o típico dobermann, feroz com todo desconhecido. Kid se revelou um sodomita vocacional. As visitas que ousavam entrar na casa sem guia se viam de repente tendo aquele monstro nas costas, um vasto membro erecto, enquanto nós, netos, ríamos às lagrimas; até que nossa tia, filha de Paul, nos comandava de alguma janela que o afastássemos da vítima, a essa altura já chorando ou tremendo. Kid lutava conosco, de brincadeira, nos lanhando bastante. Nos deu a medida exata do comportamento de cachorros, o que evitar, o que é mero ruído. Ganhei algum dinheiro nisso, apanhando uma vez a mala de colega num terreno baldio cheio de vira-latas bancando machos, aos latidos. Olhei os bichos e entrei tranqüilo, pegando a mala. Cachorro de briga não fica se sacudindo. Pára completamente antes do ataque. Se rebola, não resiste à autoridade masculina. É o nosso primeiro escravo pré-histórico, o animal. Prefiro gatos. Têm mais personalidade.

Paul era uma figura de autoridade benévola, mas “fria” no contexto brasileiro. Um beijo de filha, nora e neta já lhe parecia em conta (um dos filhos o beijava. Ver adiante). Falava português fluentemente, sem erros, com um sotaque não carregado. Acompanhava nossa vida política. Algumas surpresas: tinha horror a militares. Meu tio Sylvio, o mais jovem, recrutado médico, major, da FEB (Força Expedicionária Brasileira à Itália. Sylvio terminou não indo), um dia entrou em casa de uniforme, se exibindo a nós. Paul disse que despisse a farda e reaparecesse “vestido de gente”. Paul admirava Getúlio Vargas, o que pode ser atribuído ao autoritarismo germânico. Ouvi-o no entanto várias vezes falar do bem que Getúlio fizera pelo povo...

Meu tio-avô tinha sido oficial prussiano, jogador e mulherengo, sempre endividado. Paul queria ser o oposto dele. É a velha “síndrome Oswaldo Cruz” (o pai do mata-mosquitos se aniquilara em boêmia. O filho, bem, matou mosquitos, se bem que, dizem, no fim da vida, houve o “retorno do reprimido”, em que procurou imitar o pai. Qualquer estudante de Freud entende). Paul terminou a vida sem o “retorno”. Morreu de enfarte, em 1946, tomando o banho frio diário.

Meu tio-avô (esqueci o nome) morreu na Primeira Guerra. Presumo que numa carga de cavalaria (a arma dele) contra tanques, dado o nível de inteligência do conflito 1914-1918. O souvenir a que tive acesso, uma espada, era maior que eu, garoto, e me fazia sonhar os feitos habituais. Adorei soldadinhos e botão. Importávamos brinquedos da Alemanha cuja qualidade artesanal acredito inexista hoje. Irmãos, primos e amigos guerreávamos no soalho. É expressivo da força de Hollywood na garotada dos anos 40 que todos quiséssemos ser os “americanos” na guerra, nós, Heilborn, descendentes de alemães. Meu avô detestava Hitler. Não havia anti-semitismo em casa, exceto o “normal”, pré-genocídio, o anti-semitismo cristão, em suma. É instrutivo, para citar um único exemplo, ler Agatha Christie ou John Buchan, em que os judeus aparecem vilões, ou, na melhor das hipóteses, desagradáveis corpos estranhos. Os conspiradores de 39 degraus, que a maioria conhece do filme de Hitchcock, no original são agentes do “judaísmo internacional”. Minha família paterna estava nessa. Meu pai, na guerra, confirmou-se “lacaio do imperialismo americano”, irritando Paul, que, se anti-Hitler, patrioticamente não podia torcer, de coração, contra o país em que nascera. Os outros, que me lembre, não davam pelota, exceto Paulo Filho, justamente o mais abrasileirado, que defendia as razões (não, friso, Hitler) da Alemanha contra Inglaterra e França. E razões havia, claro, o Tratado de Paris (erradamente referido como de “Versalhes”) foi uma infâmia. Ingleses e franceses, temendo a competição econômica da Alemanha, levaram o débil Woodrow Wilson a unir-se a eles impondo punições draconianas aos derrotados em 1918. Ninguém escreveu mais eloqüentemente sobre o assunto do que o economista liberal inglês Maynard Keynes, em As Conseqüências Econômicas da Paz (1919), panfleto que é análise devastadora da atitude dos Aliados e que prevê a nova guerra, que Hitler desencadeou. Durante muito tempo, pasmos e culpados pela nossa conivência no massacre dos judeus (sem falar de eslavos, ciganos e outras “sub-raças”), convertemos Hitler em demônio, numa aberração da malevolência teutônica. Nada justifica Hitler, naturalmente, mas isso não justifica a perda de perspectiva histórica, hoje aos poucos recuperada graças a historiadores do nível de A. J. P. Taylor e Geoffrey Barraclough, entre outros.

A guerra mal tocou os confortos da classe média brasileira. Paul, de renda reduzida, economizara mais que o suficiente. Mantínhamos costumes alemães. Aos domingos, jantávamos frios, pão preto, cerveja (para os adultos) e café com leite às crianças. Estas não podiam falar à mesa, exceto se solicitadas. Nos obrigavam que ficássemos de mãos cruzadas, enquanto não comíamos. Eu mexia sem parar nos descansos dos talheres, parando momentaneamente ao ouvir enérgicos “Frantz” (a pronúncia alemã) de Paul. Um dia, para chateá-lo, disse no almoço dominical da família que a vida é “vinho, mulheres e canções”, de que minha experiência era praticamente nenhuma. Levei preleção do velho que a vida é “sacrifício, trabalho, realização”. Contestamos isso, claro, minha geração. Mas contestávamos uma estrutura real e, na aparência, consistente. A juventude (privilegiada, lembro sempre) de hoje contesta um vácuo e daí as vertigens... E a mensagem de Paul se impregnou em mim. Passada a fase de rebelião me converti num cu-de-ferro, com lapsos que não alteram a base.

Meu avô tinha uma casa magnífica de dois andares em Copacabana, na Rua Toneleros (que agora leio nas placas “Tonelero”), então inteiramente residencial, em frente da Hilário Gouveia. Se estendia, à parte o terreno em volta, a um morro “sem fim”. Fred, Carlos Heilborn Filho, Carlito, primo, filho do meu tio mais velho, amigos e eu brincávamos nesse autêntico parque. Tocávamos fogo em formigueiros, nos espetávamos estupidamente com bambus pontiagudos, o que Fred e Franz aprenderam no Colégio São Bento Internato, nossa primeira baldeação no mundo fora dos prazeres e disciplina familiares.

A casa hoje é uma cabeça-de-porco de três blocos, dessas em que se sente o cheiro da comida nos corredores. O morro morre.

Essa casa, enquanto Paul era vivo, uniu a família, aos domingos. Dirigida pela filha, Maria Luiza, Lili, amada de todos, solteirona que, jovem e atraente, recusou propostas de bons casamentos, preferindo servir, acima e além do dever, pai e mãe. Toda vida serviu a alguém. Perfilhou meu irmão mais moço, Paulo Gustavo, depois da morte de minha mãe, dedicando-se a ele até morrer, 1978. É o melhor ser humano que já conheci. Nunca a vi reclamar de nada. Tinha razões de sobra para protestos. Fé sincera e resignação católicas explicam bastante. Não a imaginem uma devota idiota de boa natureza. Nada disso. A família, de brincadeira (espero), diz que eu a comunizei, porque em 1964, pensando que o coronel Borges, chefe de polícia de Carlos Lacerda, iria se vingar do picadinho que eu fazia dele, na Última Hora, fui morar com ela uns tempos. Me recebeu, em 1° de abril de 1964, de bandeira nacional, o Brasil salvo dos comunistas; meu irmão, Paulo, armado, porque o morro supostamente iria descer. Deixo à imaginação do leitor minha cara. Acontece que nunca perco a palavra e, na hora, descrevi, em linguagem leiga, o que Roberto Campos ia cometer contra o país (em 1980, “se queres um monumento, olha em torno”).

Começaram as perseguições e o que a Igreja chama de carestia (digamos, a bem da justiça, o agravamento da carestia). Lili percebeu tudo sozinha. O máximo que fiz, se tanto, foi interpretar a maneira mistificadora de perpetrar o saque “revolucionário”. E Lili era uma católica instruída. Estudou o concílio sob Paulo VI e, particularmente, a encíclica O progresso dos povos, sem falar da Ceiam, das falas de Dom Hélder Câmara, etc. E no prédio morava Mário Martins, outro udenista renascido para a realidade brasileira, em que todos votamos senador na pseudo-eleição de 1966.

A mãe de Lili, minha avó Alice, tinha sido outro tipo de católica. Seguia procissão (um baixo entre católicos informados) com o mesmo entusiasmo que um advogado em início de carreira (nos EUA, ao menos) persegue carro de bombeiro. Já explico os motivos prováveis da carolice. Mal me lembro de Alice. Morreu em 1940, de deficiência cardíaca. Achei extraordinário que tomasse goles de champanhe, parte do tratamento. No dia da morte, fui ao Cinema Pirajá ver Capitão blood, Errol Flynn. Um cara queria que eu pusesse a mão dentro da braguilha dele. Não entendi e mudei de lugar.

Um dos mitos mais resistentes no Rio, hoje nacional, é que os cariocas sempre foram praieiros. Mil e uma lixeiras musicais, pilhas de reportagens, etc. O Jornal do Brasil, no auge do prestígio, década de 1960, fomentou-o mais que qualquer outra força. E Copacabana se convertendo em favela do asfalto, chegou a vez de Ipanema. De novo, hordas aspirando à vida chique, empreiteiros escorados na liberação de gabarito no governo Lacerda transformaram a região em “fezes e merda”, apelido tirado de uma das ruas do bairro, Farme de Amoedo.

Se o mito encarnou em versão caricata, sempre foi falso. Os bairros mais procurados no meu tempo de garoto, década de 1940, eram Flamengo e Botafogo, onde não havia (ainda) praias, Laranjeiras e Cosme Velho. A maioria das casas de Copacabana pertencia a estrangeiros, da Europa central, em particular. Os ingleses preferiam Icaraí, em Niterói, onde morei dois anos e onde Fred nasceu. Em Ipanema e Leblon, quase desertos, a mesma coisa. Existiram pioneiros isolados, do Rio, na paixão pela praia. Lembro logo Millôr Fernandes, Sérgio Porto, Yllen Kerr, o grupo de Edu e Mariozinho de Oliveira (este de ascendência parcialmente alemã).

Foram americanos e judeus que popularizaram Copacabana, que inventaram a “princesinha do mar”, publicitariamente. Os poucos judeus que o governo admitiu (exigindo fiança de 400 contos, uma fortuna) se estabeleceram no Leme, produzindo o trocadilho infame, Jerusaleme. E os americanos celebrizaram o lugar. A partir de 1943, vinham tropas dos EUA, rumo a Natal (em que “deixaram uma criança debaixo de cada cama”), Recife e África. Não havia, convém lembrar, jatos, ou aviões de grande autonomia. A rota Rio-Nova York exigia parada obrigatória em Belém do Pará. No Rio, os gringos se fixaram em Copacabana. Tornaram bares que não existem mais, Albatroz e Alvear, e o decadentíssimo Alcazar (onde se comia, na época, um dos melhores bifes da cidade) em centros populares. As mulheres se atiravam sobre (sob) eles. O amendoim torradinho subiu de 1 a 100 réis. A modernidade, enfim: o entulhamento de gente em prédios irrespiráveis, o congestionamento de esgotos, a inflação, pintaram a partir daí, prenunciando o Brasil Grande.

Nós Heilborn íamos à praia, pegávamos jacaré de prancheta. Meu primo Carlito fez nome deslizando em tarugos, as ondas maiores e assustadoras de tempo ruim. Menos meu pai. Preferia levar os filhos à praia do Russell, em verdade praça, hoje sede do Blocão, da Bloch Editora. Ninguém suspeitava do valor mais alto que se alevantaria sobre aquela plácida grama... Grama se come.

Morávamos, então, depois de Botafogo, no Lido, Leme, linha divisória com Copacabana. As senhoras de classe média tomavam chá no OK, agora um botequim sórdido, como quase todos na orla Leme-Leblon. As senhoras de sociedade preferiam o Copacabana Palace, o único hotel internacional da cidade, dos Guinle, e os senhores iguais comiam no Bife de Ouro, enquanto na piscina se reuniam, à parte estrangeiros e paulistas ricos, os jovens que quebrariam todos os bares quebráveis do Rio a Petrópolis.

Uma das minhas vizinhas do Lido, Belford Roxo, era Leonora Amar, estrela de cinema, que se tornaria Madame Du Barry do México, sob Miguel Alemán. Gostava deste menino e me levava à praia sob uma cacofonia de assobios e graçolas incompreensíveis para mim. Pena que Leonora não fosse chegada a criança, pedófila. Teria sido talvez um prazer e uma nota biográfica lisonjeira.

Exagerei um pouco a ausência brasileira das praias. Mineiros e paulistas gostavam. Estes ficavam mais no Hotel Luxor, no posto 4, nos divertindo os paletós e gravatas que não abandonavam no calor. O posto 4 e o 6 iniciaram a vida em Copacabana, antes da malta. O 6, pelas águas mansas, tinha a preferência de mamães e pimpolhos, e, claro, nosso desprezo; no 4 é que meu primo se exibia brilhante em jacaré de tarugos. As meninas disputadas se chamavam Vivian, loura e olhos azuis, Carmem, o nome diz tudo, e a rechonchudinha e gentil filha do alfaiate número 1 do Rio, De Cicco, Nelly, paixão geral. Desprezada, porque alta e magra, “nada de peitos e nada de costas”, se falava, ninguém prevendo modas futuras, sem as chamadas papas na língua, Danusa Leão, que, quando baixou o new look de Christian Dior, tornou-se modelo dele em Paris e durante anos foi pedida em casamento pelos intelectuais da moda, que a celebrizaram em prosa e verso. E amigo íntimo dela, outro “esquisito”, meu colega de Santo Inácio, implicante, debochado e divertido, Sérgio Figueiredo, “esquisito” porque não praticava jacaré, lia Gide e Variety. Sérgio é hoje um dos assessores informais e amigos dessa mistura de Rasputin e Macunaíma tecnocrático, o Dr. Delfim Netto.

Mas me antecipo. Meu pai pagou o catolicismo de Alice, como paguei o nome americano de Fred. Alice teve o filho mais velho, Carlos, e, depois, uma filha, Carmem. A menina morreu na infância. Não acreditando que raio caía duas vezes no mesmo lugar, superstição banal, Alice deu o nome de Carmem à filha seguinte, também morta no berço. Apareceu Adolpho. Alice prometeu a Deus que, se o poupasse, o filho andaria até os sete anos de idade vestido de azul e cheio de cachinhos. As crianças são o proletariado extremo, porque em qualquer classe social estão sujeitas a caprichos humilhantes de adultos. Adolpho deve ter ouvido incontáveis “viado” e “olha a bonequinha da mamãe”, numa idade importante na formação emocional. Os nervos dele eram vulneráveis. Desenvolveu o hábito de sonhar acordado, vivendo muito de imaginação. Menino frágil, o único franzino e de altura média entre os irmãos (cresci 20 centímetros acima dele), filhinho de Alice, que se preocupava em excesso que sobrevivesse, excesso que trai, em tantos casos, o desejo inconsciente de que o protegido morra. A morbidez religiosa de Alice dá base a essa conjetura. Não passa disso, conjetura. E também, na minha experiência, filhos que vivem depois que antecessores morreram não escapam de um ocasional comentário comparando-os desfavoravelmente aos perdidos, o que dói horrores em crianças e mesmo em adultos. Adolpho precisava se provar em casa e no mundo. Na Escola Alemã, que todos os meus tios freqüentaram, não escapou dos rigores típicos, da palmatória à aridez emocional da “raça”, reforçadas em casa pela distância de Paul e a obsessão de Alice que Deus lhe perdoasse a morte das Carmens. Mais uma vez, especulo. O assunto nunca desceu à terceira geração, o que só me faz reforçar a especulação.

Paul, provavelmente, serviu de pai e mãe de todos, deixando Alice entregue à religião, opiado não apenas do povo. Os filhos mostravam a carência. Carlos, o primogênito, era um secarrão, um rebelde, que, jovem, fugiu da escola, mandou-se para os EUA. Começando de baixo na General Motors (a mulher, Maria Luiza, lhe lavava o único par de meias todas as noites), fez contatos e, no Brasil, converteu-se em bem-sucedido homem de negócios, importador principal da Chrysler, etc. Terminou até grã-fino, suspeito que relutante. Não consigo lembrá-lo sem a boca franzida, “mantenha distância”. Apesar disso e de um individualismo que alienou às vezes os irmãos, era capaz de largesse afetiva. Foi um embutido emocional como quase todos nós.

Adolpho, imagino, sofreu mais que ninguém essa ausência de quem lhe entendesse o superávit de sensibilidade, de resto, ainda na minha geração, considerado “coisa de mulher”. O seguinte, Paulo Filho, se saiu melhor. Gregário, alegre, amável, se abrasileirou fácil. Na família dele, mulher e filhos, um casal, havia aquela beijocação, abraços, abertura, que, em boa parte, nos faltavam. Um outro primo, adolescente, na presença de estranhos, a mãe o esbofeteava. Paulo Filho, dado a esportes, da diretoria do Fluminense, cartola de natação (a filha, minha prima Cecília, foi recordista sul-americana de nado de costas em todas as distâncias), abriu e assimilou o Rio para ele e descendentes. Beijava Paul. Meus primos, Cecília e Walter, se dão e se davam tão bem, que, adolescentes, saíam juntos, sozinhos, em programas, quando se achava um dos baixos máximos irmão acompanhar irmã, exceto se fosse proteger-lhe a “honra”.

Paulo Filho foi corretor de fundos públicos, posição de privilegiados (“Ali Babá e os 40 ladrões”, o apelido desses corretores). Sylvio, o único vivo, até mais ou menos aposentar-se, era um cirurgião e clínico de prestígio, doutorado na Alemanha. Sylvio, caçula, se trancava mais que os outros. Se abria, em termos, conosco, a nova geração, nos mostrava as mulheres de Vargas em Esquire, que assinava, mulheres que hoje não excitariam um monge trapista, mas que no puritanismo oficial estadonovista nos forneciam farto material de punhetinhas. O chamado homme à femmes, que não resistem a um tipo bonito e impenetrável. Casou-se várias vezes, teve pencas de “casas militares” e terminou produzindo dois belos filhos quando a maioria de nós já pendurou as chuteiras. Lembro-me de um episódio: uma embaixatriz (no names, please) atracou-se com uma jornalista (idem), por causa dele, no Metro Copacabana, então bem freqüentadíssimo. Sylvio deixou-as brigando e voltou para casa. O delegado (próximo, na Rua Hilário Gouveia) mandou respeitosamente chamá-lo e pediu-lhe explicações. Sylvio: “Devem ser doidas”. Fred e ele se pareciam fisicamente, em certo período. Em verdade, somos irmãos espirituais, ou “ferreiros”, nos cadeados que nos impusemos, ou fomos, porque desbundei um pouco na promiscuidade de teatro e jornalismo.

Lili, de tão reservada, chegou a criar problemas triste-cômicos. Em dificuldades financeiras (de que não revelava a metade) nos últimos anos, Carlito e eu praticamente tivemos de forçá-la a aceitar um subsídio mensal, que ela recusou persistentemente, até que falei: “Parece até que Carlito e eu queremos roubar você”. E “roubamos”, sim, daquela dignidade e repressão inculcadas na infância.

Não me entendam mal. Paul Heilborn não era um ferrabrás, ou déspota. Foi cortês à européia e não à latina. Foi honrado e justo pelas luzes dele. Tenho certeza que amava os filhos, bem menos que me amasse. Acho que me considerava um futuro marginal, pelos indícios que percebeu. Uma das minhas primeiras memórias de infância, aos quatro anos de idade, é de um banho de banheira, na casa de Paul, administrado por Laudina, babá querida, uma preta velha (reciprocava, estranhando à la “Mammy” de Scarlett O’Hara meus hábitos alimentícios, resmungando: “Pão seco e água, Deus nos ajude”). Aos quatro anos, não tolerava que me vissem nu3. Paul entrou no banheiro. Me levantei da banheira, gritando: “Vai à merda, seu”. Até hoje não me lembro onde aprendi a palavra “merda” e significado. Paul, lívido, rodou nos calcanhares.

Meninos, nas reuniões familiares, nos obrigavam ao paletó. Eu trazia, claro, mas só vestia comandado. No segundo casamento de Adolpho, com Lourdes, “tia” (ela detesta “madrasta”. Tem razão. É onomatopaicamente brutal. Pior é stepmother, em inglês, que sugere pneu), na interminável cerimônia católica daqueles tempos pré-concílio 2, induzi irmão e primos a um pôquer de dados sobre um dos automóveis. Foi a única vez que Paul me atingiu, fisicamente, de mau jeito. Me arrancou os dados da mão, me espremendo os dedos, me acusando, o mais jovem, do desrespeito. Certo, mas como ele sabia? É interessante que aos 20 anos, comparando fotografias, nos pareçamos tanto.

Paul era um alemão do século XIX, educado sob os rigores de Bismarck. As diferenças entre famílias européias e do Novo Mundo falado, ainda hoje, apesar da americanalhação crescente e generalizada, são marcantes. Os pais europeus batem nos filhos. Se privilegiados, mantêm distância deles. Lhes impõem uma estrutura fixa e externa de comportamento que nos parece ditatorial, na era do Dr. Spock.

Paul chegou adulto, formado, ao Brasil imperial. Meu pai e tios receberam essa carga que contrastava chocantemente com o informalismo e o derramamento brasileiros, do Rio em particular. Se Alice não houvesse se ensimesmado depois das Carmens é provável que um certo meio-termo entre o Velho e o Novo fosse alcançado. Até minha geração pegou as sobras. Era raro que nos beijássemos e abraçássemos, a família de Paulo Filho sempre excetuada. Minha timidez levou a semigagueira, mais um stammer, hesitação seguida de arranque ao falar, a uma agressividade na qual eu tentava encobrir o desconforto em face do brasileirismo de colegas e amigos, a que, talvez, eu gostaria de ter podido aderir. Restam muitos reflexos. “Cenas”, fora das artes, me reduzem a secura total. E me sinto sempre numa espécie de exílio pessoal. Sou um estrangeiro nato.

Só no teatro pude baixar a ponte levadiça, aos 21 anos. Ensaiando no pequeno Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno, a voz me faltava, em potência, não indo às ultimas filas. Tive medo do vexame em espado grande. No Teatro Amazonas, a bela relíquia do tempo que Henry Ford quis nos desenvolver e tungar a borracha, ao entrar em cena, nervosíssimo, ouvi voz poderosa repercutindo e voltando das paredes do fundo. Levei segundos a perceber que o som partia de mim. A catarse veio do desespero, que é, de resto, donde deve vir. D. Esther Leão, professora de voz, me disse, ao me ver no palco, ano seguinte, que fui dotado de “impustção natral”. A palavra sábia de sempre dos experts.

Em 1939, meu pai teve a última e uma das mais violentas explosões com Paul. Decidiu deixar a Esso, onde a vida lhe era mansa, e, repito, estável e garantida. Paul achou irresponsabilidade. Estava certo. Adolpho não tinha cabeça ou vocação para negócios. Bondoso, solícito, dispersivo, e, pior, não era ave de rapina. Meteu-se em export-import4. Foi roubado por sócios inescrupulosos; várias tentativas fracassaram porque fracassaram. Em parte isso se deveu a que não sabia jogar pesado. Em parte. O fato também é que não conseguia se concentrar num trabalho que lhe exigisse decisões. Faltava-lhe confiança em si próprio. Sobreviveu sempre, enquanto pôde trabalhar, mas sem o sucesso esperado. Preferia ler poesia romântica, escrever “pensamentos” líricos, sonhar acordado; dançar (sic, ver adiante), suprindo em fantasia o que a vida e ele próprio lhe negaram.

Quando pude analisá-lo, pós-Dostoiévski, deduzi que era incapaz de dominar o mínimo de realidade, que, a um preço, distingue os fortes. Não é crítica, é registro. Amei-o à distância. Irracionalmente, juntos. Os motivos se tornarão claros, não resistia à compulsão de ridicularizá-lo, de contradizê-lo, às vezes com bastante crueldade. Me amaldiçoava por essa ignomínia, que repetia no próximo encontro, isto quando ele já estava morrendo lentamente de câncer no pulmão, a carne queimada de cobalto. Depois do que sabemos de nós mesmos não há perdão.

Adolpho sofreu a vida toda porque não foi bem-sucedido como os irmãos. Não tinha motivo concreto. Minha mãe (e Lourdes), Fred e eu nunca reclamamos. Morávamos em conforto, os filhos estiveram nos melhores colégios, viajaram cedo ao exterior (nos anos 50 privilégio de ricos), nada nos faltou, em suma. O problema não era esse. A explicação virá em tempo. Sou obrigado a plantar o terreno.

Osny Duarte Pereira, bom amigo, jurista, se referindo a duas clientes que preferiram viver em semimiséria a dividirem uma herança, não chegando a acordo, me disse que a burguesia se cria dificuldades imaginárias. A palavra está certa, mas Osny, marxista, é culpado de um certo reducionismo.

Os problemas são imaginários apenas na aparência. É da condição humana cismarmos irracionalmente em certas atitudes, ou assim parece ao observador superficial. A cisma é um disfarce, um substituto (imaginário) do que realmente nos aflige, nos aflige tanto que não ousamos sequer trazê-lo à consciência. A expressão psicopática disso é a paranóia. “Eu amo ele” se converte em “ele me odeia”, na análise que Freud fez do antagonismo de Otelo a Cássio (em Shakespeare, não em Verdi). Me parece correto, ainda que em alguns casos sexo não seja a força motora principal dessa inversão: se bem que acredito, seguindo Freud, que sexo, a origem da vida, em última análise, permeia todos os nossos atos, pensamentos e sentimentos. Que alguém duvide disso, desculpem a franqueza, me confirma a inteligência budista, que considera a burrice pecado mortal. As “irmãs” de Osny certamente encontraram na herança o proscênio visível, tolerável, de algum drama afetivo inadmissível, da mesma forma que Desdêmona paga pelos complexos sentimentos de Otelo por Cássio. Resumindo, acho que minha família paterna sofreu apenas as fisgadas e flechas de um destino ultrajante, o que é comum a todos nós, e acho também que Shakespeare aqui é pleonástico. Prefiro Waugh, apesar do ranço católico: “Qualquer destino é pior que a morte”. O anticlichê sutil da frase se perde um pouco em português.

O destino pior que a morte, em inglês, no vitorianismo, era perder a virgindade sem casamento. Mas a frase é boa assim mesmo.

Os Heilborn não foram tema de escândalo (escorregamos em particular). Os homens atingiram eminência e sucesso, exceto meu pai que, inadequado para a vida prática, nem por isso nos privou das vantagens iniciais dos outros primos. Meu tio Carlos, que envergou a armadura e a maça do homem de negócios, não teria sido capaz de bajular ministros, oferecendo-lhes comissões, mulheres (ou rapazes), em troca de assalto ao Banco do Brasil e quejandos. Gente honrada. Um conceito burguês, irrelevante, a meu ver, mas eles acreditavam e cumpriram. E classe, noutro sentido, não lhes faltava. Impossível imaginar Sylvio, no donjuanismo, plantando notícias de “feitos” em colunas sociais, ou bazofiando em botequim. Um gentleman não faz isso, ponto. Tinham e nos legaram horror à cafaj estada.

A família de minha mãe é igualmente discreta. Francesa de origem, Trannin. Há dúzias de Trannin no catálogo de Paris. Meu ramo é de Friburgo, estado do Rio, e soube, recentemente, “pesquisando” este livro, que se espalhou ao Paraná e Mato Grosso. Uma constante na família é a preferência pelo campo à cidade (sinto ocasionalmente solicitações que presumo atávicas). O folclore é que os Trannin vieram a Friburgo (de Paris) explorar o “bicho-da-seda”. Os exportadores ingleses teriam queimado tudo, obrigando-os a recomeçar a vida. Os ingleses, no século XIX, representavam na demonologia brasileira o papel dos americanos hoje em dia (os alemães-ocidentais serão os próximos?). Eram, sem dúvida, os “amigos” a quem exportávamos produtos primários e a quem devíamos os proventos das exportações, e que nos forçavam déficits comerciais e endividamento permanente. O modelo Campos-Delfim, longe de ser criatura do golpe de 1964, é da essência da nossa História escrava. Mudam as casas-grandes. Trocam os capatazes e métodos, “abordagens”. A senzala continua, se consolando em fantasias e circo. Se o folclore é verdadeiro, os Trannin, imigrantes, formam entre os pioneiros da industrialização nacional, ainda que tubulassem.

Minha mãe e irmãos tiveram o azar de ficar órfãos, crianças. Por que órfãos eram (são?) maltratados? Imagino que, indefesos, excitem o sadismo impune de adultos e das outras crianças que se sentem protegidas. E deve haver a componente de baixa religiosidade que responsabiliza as crianças pela morte prematura dos pais. Irene, Luiz, Almir, Dulce, Orlando e Euclydes foram distribuídos por parentes, recebendo tratamento variado. Nunca se queixaram de nada, diante de mim, ao menos. Almir (morto) fez uma carteira de seguro bem-sucedida. Dulce casou bem e é avó. O casamento de Luiz e Zillah desafia os autores de réquiem dessa instituição (ou sacramento, se preferirem). Todos trabalharam pesado e se sustentaram. Excetuando Orlando, solteiro, continuaram a família. Também eles respeitaram os valores da classe média.

Irene era bonita, um tipo Degas, talvez algo semítico, o que Degas, anti-semita furibundo, não me perdoaria.

Há um mistério aqui. Os Trannin que conheço (nem um décimo) são católicos. Os Heilborn também (menos Paul, que morreu luterano, e alguns outros que aderiram ao babalaô espírita ou seitas protestantes). Mas sei de tios-avós maternos, que mal lembro, chamados Moisés e Davi, o que, diria Lênin, não deve ser acidental. Orlando tio, “Doca” (não Street, pelo amor de Deus), filossemita convicto, afirma que os Trannin são de ascendência judia, que a família é de origem italiana, Trani, e, na França, traduziu-se em Trannin. Me orgulharia partilhar a raça (que não existe, cientificamente, claro; o vulgo no entanto acredita que existe, logo, existe na “cabeça” da maioria) de Freud, Marx e Trótski, influências decisivas na minha vida. O que me parece implausível é que os Trani, segundo Orlando, tivessem deixado a Itália por perseguição religiosa, já que a Itália, ao contrário da França, e me baseio na autoridade de Hannah Arendt, apresenta honroso prontuário de anti-anti-semitismo. Até Mussolini, exceto nos últimos tempos, quando se tornou mero títere de Hitler, dava fuga aos judeus, escondendo-os na Riviera italiana. Se não bastasse o mistério Trannin, vejo no catálogo de Nova York dezenas de Heilbroner, judeus, inclusive um amigo admirado, Robert Heilbroner, o mais razoável e legível dos economistas modernos.

Fica a anotação, que desenvolverei no próximo capítulo, explicando minha brasilidade, ou falta de. Decidi passar em revista as origens familiares porque até amigos íntimos, não de infância, me perguntam sobre minha ascendência, se, inclusive, nasci na idolatrada, salve, salve.

Houve um tempo que corria o boato que eu era austríaco, esse inventado e alimentado pelos galhofeiros de O Pasquim. Na primeria cana, me apelidaram Francis de Orleans e Bragança... Na visita de Carter ao Brasil, em Brasília, um jornalista que respeito, avis rara, disse que me supunha israelita. Sou mesmo é um dos remanescentes dessa espécie quase extinta, o carioca, e nas raras reuniões em que encontro apenas semelhantes, rimos bastante do que os acariocados mineiros, espírito-santenses, paulistas e nordestinos dizem da nossa cidade, que eles, os acariocados, tomaram, sem dúvida, e pela qual falam com a falta de autocrítica peculiar a conquistadores.

Estou ciente também que meu possível judaísmo ancestral reabastecerá gostosas ilusões dos bravos sionistas brasileiros, a turma do “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, inconformados com as minhas críticas a políticas do Estado de Israel. Concluirão que não passo de judeu renegado, que descarrega o ódio às origens em anti-semitismo. Certos judeus, stalinistas e homossexuais partilham a alucinação de que ninguém pode criticá-los porque merecem. Não acreditam em Hamlet que disse: ninguém escaparia do chicote se recebesse o merecido. Judeus invocam o anti-semitismo, que, na religião deles, faz parte da natureza (sic) do gentio. Stalinistas falam de “interesses de classe”, ou pior, nas esquerdas, de desviacionismo. Homossexuais pretendem que heterossexuais apenas fingem interesse em mulheres, não tendo coragem social e moral de aderirem ao “espada a espada”. Paranóicos, é verdade, também têm inimigos verdadeiros, agora “também” não quer dizer “tudo”. A superioridade moral do perseguido é tão discutível quanto a do perseguidor. Negros que se queixam da escravidão esquecem convenientemente que outros negros vendiam os escravos que os árabes revendiam aos brancos. Vemos o que os israelenses fazem aos “judeus” deles, os palestinos. Os stalinistas, 1980, deram mais, de sobra, do que levaram. Homossexuais, onde podem, nos EUA, por exemplo, querem rasgar a Constituição (que os liberou, legalmente, até certo ponto; o resto é resistência extralegal), se a liberdade de crítica é estendida contra eles. É uma tragicomédia. Rio pouco e, francamente, a tragédia me impressiona menos, hoje, do que a repulsividade intrínseca dessas manifestações de irracionalismo. Vitimização profissional é um nojo.

Fui o filho preferido de Irene. Gorduchinho, sempre no colo, enquanto deu pé, sorridente (...), e Fred, ao lado, chorando de frustração (fotografias, como avisa laconicamente o teletipo da UPI ao sumarizar as notícias importantes do dia). Companheiro diurno inseparável. Ouvimos seis novelas da Rádio Nacional, juntos. Lembro bem a voz de Ismênia dos Santos, que sugeria um físico de Jean Simmons (primeira paixão cinematográfica). Levado à ópera criancinha, Madame Butterfly (Grace Moore), deslumbrado ao primeiro contato, o que persiste, em 1980. Mudaram os compositores. Hoje, só o último Verdi, Wagner e Richard Strauss (dois seres humanos e “pensadores” odiosos) tocam forte naquelas cordas vibradas 43 anos atrás...

Irene às vezes chorava, em silêncio, na minha companhia. Ouvi-a dizer, muito, a frase mais comum da humanidade: “Como sou infeliz”. Eu respondia carinhoso, presumo, não lembro, sem entender nada, o que lembro.

Dei ratas. Um dia na Drogaria Pacheco (“mais em conta”, me fascinavam os remédios descendo à la Tarzan, em cordas, ao freguês), o caixeiro perguntou: “E a senhora vai bem, não é, D. Irene?” O nosso coloquial é repeticioso e reafirma sempre nossas ansiedades (“fulano não está, não?”). Irene: “Bem, obrigada, e o senhor?” Franz: “Ué, como é então que você diz em casa que é infeliz?” Irene enrubesceu e me fez um “shsh” delicado. Enrubesci eu. Enrubescia à menor crítica dos amados.

Caixeiro “não ouviu”. O serviço no Rio, naquele tempo, era um prodígio de amabilidade. O próprio Rio, que não existe mais, tinha uma fidalguia fraterna, se é que as palavras conjuminam. Sei que parece incrível, em face do presente. E friso que falo dos anos 30 e 40 e não do tempo de Machado de Assis ou João do Rio. Hoje, a miséria, em guerra civil não declarada, nos ataca de um flanco. Do outro, enfrentamos a brutalidade, a ostentação dos beneficiários e produtores da miséria.

A infelicidade de Irene. Ela não sabia que felicidade é apenas aspiração consoladora de leitoras de Cláudia. Terminou órfã, na tutela de um tio materno, Álvaro da Matta. Na casa dele, na Rua Benjamin Constant, namorou o vizinho Adolpho, separados por um muro. O velho da Matta, quando o conheci, digo, já capaz de julgar comportamento, me sugeriu uma dessas personagens adultas de Dickens ou Brontë (Charlotte), cujo prazer na vida é maltratar crianças. Se falasse inglês eu acreditaria em reencar-nação literária. Não é bem assim, me garantem tios sobreviventes, um dos quais no entanto, também sob da Matta, fugiu de casa... Álvaro teria sido honrado, pelos critérios dele. Himmler também foi, claro. Desmaiava ao ver sangue, ia às lágrimas ouvindo Mozart, vomitando ao sentir o cheiro das pessoas que enfiara nos campos de concentração e extermínio. Uma alma sensível. Enfim, escrevi coisa semelhante de Paul Heilborn, logo não vou negar o beneficio da dúvida a da Matta, a quem não experimentei na pele.

De qualquer forma, Irene, sob o estigma da orfandade, reprimiu uma natureza passional que só lhe permitiam expressar em submissão, doçura, meiguice: pelas regras da época, mulheres da classe dela (e de todas, em graus variados) “deviam” apenas esperar casamento, maternidade, a gerência do lar. E qualquer faísca de revolta, aposto, da Matta apagaria impiedoso.

Irene, se vivesse, estaria na idade da minha colega de colunas radicais na Última Hora, Adalgiza Nery, que morreu quando eu escrevia este livro. Adalgiza é uma das poucas dessa geração que fugiu do cricri (ou, abaixo, do papel de “doméstica”). Mas Adalgiza, à parte a vocação permitida (em termos) às mulheres de escrever, na oposição formou personalidade imperiosa. Belíssima, na juventude, percebeu e usou o poder do eterno feminino, que tanto preocupou Goethe. Fez muito bem. E, incomum em mulheres (particularmente nas feministas oficiais), desenvolveu uma cabeça política. Apesar disso, a última vez que a vi, ela cassada, comovida que me solidarizasse (formamos no jornal uma sociedade de admiração mútua, pela nossa resistência conjunta — espontânea — à tutela do PCB), me contou de entraves e humilhações no início da carreira, inconcebíveis se fosse homem. É uma confidência que não vou revelar. Nada tem a ver, aviso aos maliciosos, com o casamento de Adalgiza e Lourival Fontes, melhor conhecido da maioria dos brasileiros como “aquele homem que não penteava o cabelo”, e Goebbels (Lourival foi chefe de censura e propaganda do Estado Novo, DIP) sem talento aos politizados. Em algumas pessoas, a tirania do convencional estimula à revolta. A maior parte se rende ao que Thoreau chamava de “quiet desperation”, um desespero quiescente, nem por isso menos sofrido.

Irene era das últimas. Nenhum sinal da têmpera de Adalgiza. Recebeu pouca educação formal, considerada “perda de tempo” no feudalismo masculino-católico brasileiro. No meu tempo de adolescente é que apareceram, como grupo, as primeiras gatas-pingadas nas universidades, e gente de classe alta, em geral. Acho que a orfandade e a cabeça estreita de da Matta formaram minha mãe. Ficou, de pessoal, a ternura infinita de que fui o principal recipiente. Tinha um mínimo de amigas íntimas. À parte uma irmã querida, Dulce, só lembro uma certa Alice, solteira, de quem um dia, pela fresta da porta, vi as pudendas, quando fazia pipi num pinico. Pudendas não eram nota 10. Sei que minha mãe admirava (elogiando para mim) as cunhadas Zillah e Lili, mas a timidez de Irene impediu, provavelmente, aproximação maior. Os Heilborn reclamavam que ela não falava, talvez porque, timidez já incluída, eles não deixassem ninguém falar, do que me acusam amigos, hoje; com razão?

Irene se sentia atraída pelas artes. Certo, gostava de abominações, A. J. Cronin, A lenda do beijo e Num mercado persa. Achou Stefan Zweig cruel (se lesse um dos filhos...). Mas acompanhávamos aos domingos, 5 da tarde, a ópera completa da Ministério da Educação. Ouvimos atentos as aulas de Ayres de Andrade sobre piano, ilustradas por Rubinstein em Chopin, Gieseking, nazista (a inteligência média de músicos é comparável à de profissionais de tênis), na sutileza nunca igualada em Ravel e Debussy; Casadesus, etc. Ouvi na Ministério o Tristão de Lauritz Melchior e Kirsten Flagstad. Quando rapidamente, pré-golpe de 1964, fiz comentários políticos na Rádio, ofereci ao discotecário três Tristãos. Bõhm, Von Karajan e me esqueço o outro, em troca da preciosidade ortofônica (42 discos, se não me engano) de Melchior e Flagstad. Neca. Flagstad tem quase uma equivalente, hoje, Birgit Nilsson, que, aos 61 anos, é capaz de fazer a sofisticada platéia de Wagner em Nova York entrar em rugidos animais que me assustam, apesar de que partilho. Quebraram a forma que produziu os sons másculo-celestiais da garganta de Melchior, reduzido, no fim da vida, a banalidades de musicais da MGM, a duetos com Kathryn Grayson e Jane Powell...

Minha mãe se horrorizava em face da amoralidade pagã de Wagner. Preferia o óbvio, o Verdi menor, Massenet, Charpentier, Saint-Säens, algum Puccini (não a melhor, Turandot, ou a selvagem Manon Lescault). Havia exceções reveladoras de potencial subdesenvolvido. Apaixonou-se pelo Otelo, do Verdi maioríssimo, que bate em efeito no palco o original de Shakespeare, talvez por ser, como observou Robert Lowell, mais vulgar que Shakespeare (a peça é inacreditável, literalmente. Aquela besteira do lenço se resolveria em cinco minutos. É música poética, certo, que tocada certa nos suspende, temporariamente, a incredulidade. Logo, argumenta Lowell, por que não música-música de uma vez?). E se extasiava em Chopin, Schumann, Brahms, Schubert, os românticos. Em música descobriu a saída das austeridades confinantes em que foi criada. Me diz mais dessa criação, do que informação de terceiros, que nunca aprendesse piano, “prenda” acessível a tantas mocinhas casáveis na época.

Adolpho casou por amor. Irene, não sei. Certamente gostava dele. Acho que amor só deu a mim, que retribuí, até que me fez, ou não impediu, o mais provável, um Otelo. O problema é que Adolpho e Irene foram emocionalmente esfaimados na infância. Se atrofiaram em inibições. Cabia a meu pai, o Senhor, fazê-la dar-se, abrir-se. Não conseguiu, ou não tentou. Se habituara demais a viver de fantasias. Recolhia-se, e Irene, na prisão feminina do tempo, não ousaria tomar a iniciativa. Nunca houve, bem entendido, uma palavra rude entre os dois, ou desentendimentos profundos, na minha presença ou ciência. Adolpho provia e socorria nas horas necessárias. Sentíamos, Fred e eu (e, imagino, Irene, quanto, sem jamais falar no assunto), a barreira que ele estabelecera contra o mundo.

Não quero exagerar. Adolpho nos levava, meninos, à praia da Urca. Nos ensinou a nadar. Fingi que aprendera antes do tempo, ele fingiu acreditar e, um dia, me surpreendi nadando, aos cinco anos. Havia piqueniques de família, em Paquetá, na serra de Petrópolis, etc. Fomos a feiras internacionais, no Rio, onde, uma vez, Carlito ganhou primeiro lugar na corrida de automóveis de criança, eu a tiracolo. E Adolpho nos introduziu ao futebol. Botafoguense doente. Fred, idem, desinteressado. Sócio inscrito do Fluminense (onde treinei natação sob Caximbau. Desisti porque chatíssimo), vi meu primeiro Fia x Flu. Pirilo passou a bola a Zizinho e me tornei Flamengo eterno. Perdi os modos e, na típica tradição flamenguista passional, descarreguei “merdas” e “viados” sobre o adversário, aos gritos, esquecido de que estava na social dos ditos “ms” e “vs” Só não apanhei de flus idosos porque menino de sete ou seis anos. Limitaram-se a me lançar repetidos “cala a boca, moleque”, ao que respondia “é a mãe”. Não há dúvida de que nasci Flamengo...

Víamos Adolpho relativamente pouco. Pela manhã, no café, resolvendo satisfeito as palavras cruzadas do Correio da Manhã; abusando um tanto de geléia, em que não toco nunca. Em 1967, um dos editores do Correio, resolvi suspender as “cruzadas”, que achei debilóides. Desabaram protestos de leitores na diretoria. Niomar, a proprietária, me mandou repô-las. Escrevendo agora me pergunto se não caí inconscientemente numa tola vingança edipiana. A noite, Adolpho reaparecia, em passadas largas, próximas do andar de Groucho Marx, nos dava “buenas” (sic) e se dirigia ao banheiro, antes do jantar, lavando-se e se exibindo diante do espelho. Era vaidoso. Tinha, em aparência, 10 anos menos que a idade, os matusalênicos 40 anos de que essas cenas me voltam à memória. Não se envolvia no cotidiano dos filhos, exceto em emergências e entretenimento de fim de semana, nem se esperava isso de um pai de família burguês. À vontade literária, irrealizada, juntava a Ciência Cristã. Essa seita, fundada por Mary Baker Eddy, americana, pressupõe, entre outras coisas, que males físicos ou mentais decorrem de maus pensamentos, pecados, “más vibrações”, diriam os meninos de hoje. Adolpho se gabava de me haver curado de uma febre, antes de um piquenique, exercendo rezas do credo. Não me lembro de febre ou cura.

A Ciência Cristã é a causa ostensiva de nossos conflitos. E apressou a morte de Adolpho, em 1973, aos 74 anos. Ele tinha uma constituição forte, a exemplo de tanta gente franzina. A recusa de recorrer a médicos, já doente, pressão altíssima, complicações variadas, inclusive insultos cerebrais (de que reemergiu incólume), um mal de pele horrível no rosto (que um antibiótico sabido eliminaria de vez) e, finalmente, o câncer no pulmão; à exceção deste, quase sempre incurável, o resto teria sido controlado pela medicina. Jean Harlow, bem mais jovem, morreu de doença curável no rim, pelo atraso da mãe dela, “cientista”, em chamar um médico. Deve haver dezenas de outros casos. Onde está a polícia?

Antes de explicar nossos conflitos, algumas opiniões sobre a Ciência Cristã. Me dei ao trabalho de inspecionar as obras de Eddy. São, numa frase caridosa, mistura de budismo incompreendido e Coca-Cola. Ninguém nega, ou negava, ao menos depois de Charcot, no século XIX, a componente psíquica possível em doenças fisiológicas. Daí a reduzir todas as panes do organismo ao chamado psicossomático, sem falar da decadência que leva à morte, à mera ação moral, é patético. E moral é uma palavra que exige rigorosa definição contextual. Em miúdos, nada significa exceto dentro de um todo histórico, sociológico, econômico e psicológico. Fico no último, porque não pretendo escrever ensaio sobre tal banalidade.

Desde Freud e Janet, é óbvio que o ser humano não é senhor sequer da própria cabeça, que nos movem impulsos e desejos de que não temos consciência. Logo, na melhor das hipóteses, “moral” é um conceito que precisa ser conquistado (criado) à custa de imenso esforço de autocrítica e crítica das forças externas que nos moldam a existência.

Eddy é a típica otimista idiota da classe média americana, que leva Gabriel Kolko, o historiador, a palavras menos publicáveis que a complexa sintaxe que usa nos contando a História subterrânea dos EUA. Eddy acreditava em “moral fixa”, transcendental. Não é nisso diferente de outros líderes religiosos e pensadores idealistas que imaginam este mundo, o único de que dispomos, um passatempo em face do eterno que nos espera. Agora, se Platão ou Santo Tomás (assessoria de Aristóteles) nos afirmavam dogmatismos de essência, na prática as escolas que orientaram se mostram flexíveis e adaptáveis às circunstâncias. Eddy se poupa essas dificuldades “materiais”.

É uma das precursoras do narcisismo consumista já referido. A “Ciência” talvez tenha sido pioneira em oferecer salvação sem dor, na linha dos pseudocultos do nosso tempo, tão do agrado de jovens que procuram conforto espiritual permanente, sem enfrentar o que Joyce chamava o pesadelo da História. Acontece que esse pesadelo não acaba e termina nos alcançando acordados.

Eddy batoteou os trechos das Escrituras, que afirmam o efeito maléfico do que chamarei estenograficamente “pecado” sobre nós, e propôs que em sessões coletivas de “boas vibrações” e rezas encantatórias os fiéis encontrassem paz, felicidade, etc. enquanto se preparavam para um além em que esses objetivos se eternizassem. Se não fosse a guerra que moveu contra a medicina, a “Ciência” seria somente um placebo a mais na longa história do babalaô. Eddy morreu rica e cercada de médicos, o que Stefan Zweig, entre outros, demonstrou numa biografia arrasadora, que Adolpho se recusou a ler.

A “Ciência”, repito, pedindo um pouco de paciência aos leitores, me fez explodir contra meu pai. Não vou antecipar. Basta dizer por enquanto que nunca o odiei, conscientemente, e acredito que não tinha a menor intenção de provocar o mal que nos trouxe a todos, a ele próprio inclusive, não só no que relatei acima. Aguardem e verão. Ainda assim, acho também que somos, em parte, responsáveis pelos nossos atos. E minhas reações irracionais contra Adolpho vieram desse aborto religioso dessa mulher safada.

É minha última digressão neste capítulo, necessária porque a “Ciência” é desconhecida da maioria no Brasil e, sem entendê-la, o que veio depois pode parecer ainda mais grave do que a realidade que marcou Adolpho, Fred e eu.

Adolpho, cumpridos os deveres familiares, com a retidão Heilborn, recaía na adolescência, aos 40 anos. É mito que as mulheres sofram exclusivamente a menopausa. Tecnicamente, sim; na cabeça o sentimento é bissexual. Carlito gozava (amavelmente) o pai quando este se dava a desforços juvenis, “Olha aí, vai estourar, vai estourar”. É profunda ofensa a um homem que as meninas o chamem de coroa. Aos 28 anos, levei namorada de 18 a matinê de Alda Garrido, de que eu, crítico de teatro, perdera o espetáculo de estréia e precisava comentar. O teatro (Rival) estava fechado, sei lá o motivo. “Boa”, disse, “assim podemos ir ao Odeon (um cinema na Cinelândia, Rio), que há uma reprise de Gavião do mar, Errol Flynn é ótimo”. Ela: “Quem é Errol Flynn?” Se fosse chegado a chiliques, teria tido um. Pela primeira vez na vida me dava conta na carne que gerações mais jovens erguiam a cabeça (no caso, apenas no sentido físico da palavra). Errol Flynn foi, por assim dizer, o meu mais querido amigo de infância.

Adolpho era uma Eliza Doolittle, de calças compridas. Poderia ter dançado a noite inteira como a moça de My fair lady. Saía sozinho à noite, a dancings, e furava cartão. Nada mais. Se lhe ocorria, claro, a idéia, garanto que não mijava fora do penico. Irene contava, divertida, que às vezes ele se despia dançando e punha o pijama dançando, cena que caberia em comédias ligeiras de Hollywood.

Minha mãe era minha vida. Escrevo a frase, paro e pasmo, em face desse clichê, no nível de “agora que já conhece o caminho”. Mas não minto e o lugar-comum sentimental não é, invariavelmente, atestado de falsificação. Vivia grudado nela, enquanto pude e me permitiram, sem qualquer outro interesse. Uma nota dissonante ou complementar. Depois de Laudina, tive uma babá também chamada Irene. Me introduziu ao sexo, aos cinco anos. Não que eu soubesse aonde me levava. Ia. Saias adentro, apalpadelas, até a “zona do agrião”, quando a defesa se fechava inexpugnável. Acontecia “qualquer coisa” dentro de mim, o clímax, nunca me ocorreu analisar. Gostava e pedia mais. Recebia, nos limites “convencionados”.

Irene mãe e eu passávamos os verões em Friburgo. Revia parentes, imagino, e se ocupava de mim, dia e noite, sozinhos. Fui leitor de Cláudia, realizado... Queria me mostrar, fazer farol, se dizia. Tombos vários de bicicleta não me impediram, “macho”, de aprender. Os moleques instrutores, voz baixa, afirmavam, “Esse cabrão é fogo na roupa”. Imaginei que “cabrão” fosse elogio e inchava. Se soubesse o sentido (viado) e que me contestavam a competência, com razão, aliás, é provável que reagisse à la Paulo Francis, que, a exemplo de Alien, o oitavo passageiro, estava dormente apenas. Ciúmes ferozes. Um certo Fábio nos perseguia, gentil, atencioso, o chamado “come quieto”. Dei-lhe um pontapé, ao primeiro e último afago. Sei que doeu. Sempre tive pé de prancha e mirava na canela. Adolescente, um dia vi Fábio, bem velho, em Botafogo. Não me reconheceu, claro. Cheguei a fechar a mão. Um malandro, Pedrinho, assassino (deve continuar na cadeia, pegou três sentenças máximas), meu admirador confesso (?), disse: “Ô França, tu qué acertá esse cara, né? Deixa comigo que eu corto ele, não te mete nisso que tu é bacano”. Declinei o amável oferecimento. Duvido que Irene tivesse dado a Fábio. Nenhuma restrição moral (ciúme é outra coisa). Apenas não fazia o gênero dela.

Desafiando o bom senso (velho hábito), me enchia de maçãs ácidas, que me punham na cama, alergia, coberto de urticárias, menos o rosto. Recuperado, recaía. Adoro o diabo da maçã, que é meu “café” em Nova York, hoje sem conseqüências. Me ocorre que agüentava a urticária porque mantinha Irene prisioneira no quarto, me consolando. Crianças são insaciáveis de carinho. Gatos exigem menos e, em retrospecto, dão mais.

Enfeei. O começo foram os óculos. Uma noite, no campo do Botafogo, vi as luzes dobradas. Estrabismo, corrigível, corrigido. Se diz que é sinal de gênio. Gostaria de acreditar, mas me lembro dos confúsos sinais de tráfego do Sr. Júnior (R. Magalhães) e concluo que é confortadora superstição. O oculista descobriu também hipermetropia (vista cansada) e astigmatismo. Uso óculos desde os sete anos. Nem os sinto mais, certo, e recusei lentes de contato, a que me adapto bem (antes das “quentes” inclusive). Não vou mudar a cara a essa altura dos acontecimentos. Sou capaz de cruzar ruas sem morrer atropelado. Distingo tudo, imprecisamente. Dez graus em cada olho. Há quem tenha 20. Joguei futebol, briguei e apareci no palco sem óculos.

Ainda assim, é um handicap sério e me sinto roubado. Nos tempos de febre intelectual dei com A arte de ver, de Aldous Huxley. O argumento é irrefutável. Os oculistas nos impõem muletas, os óculos, e fica por isso mesmo. É como se alguém quebrasse a perna e vivesse permanentemente no gesso. Não se pesquisa cura das doenças. Huxley elogia um certo Dr. Bates, que criou exercícios de recuperação, que lhe melhoraram, a Huxley, a quase cegueira (ele tinha opacidade na córnea, o que é muito grave). Não haveria jeito de curar miopia, vista cansada e astigmatismo? Ninguém sabe, porque os oculistas, que pedantemente preferem o título de oftalmologistas, são dóceis servos dos fabricantes de muleta e a perpetuaram. É um dos setores mais atrasados, se não o mais, da medicina. Dentistas nos reimplantam uma dentadura “natural” (na Califórnia, Hollywood em particular, é rotina aperfeiçoadíssima). Há, em alguns casos, transplantes bem-sucedidos de córnea, mas são exceções que confirmam a regra de subserviência à indústria ótica.

Precisamos de 50 mil velas, um sol normal, para ler sem esforço. Aumentou a alfabetização e o comércio de muletas, porque rara é a casa, ou cubículo, adequadamente iluminados. No hotel de Niemeyer em Ouro Preto, passei lá dias em 1958, puseram a luz do banheiro embaixo da pia, tornando impossível uma barba decente. Depois de descompor com a delicadeza habitual a gerência, me queixei a Oscar, em pessoa. Ele culpou o construtor, que respeitara apenas o risco do prédio. Se Oscar, a quem todo mundo e “o mundo” ouvem, não pode, quem há de? Os oculistas deveriam estar nos balcões das óticas e não posando de doutores. Nos EUA, de resto, qualquer ótica poderosa nos receita, dispensando a mão-de-obra supérflua.

Depois, na minha inicial decadência, a cabeça começou a crescer desproporcionalmente ao resto. Ainda persiste um certo desequilíbrio, hoje, que o corpo se desenvolveu. Antes disso, até os 15 ou 16 anos, quando cresci 20 centímetros, sugeria uma caricatura de David Levine, elefantíase de cabeça. Aos 11 anos, saindo de um longo nado, satisfeito comigo mesmo, Irene disse: “Como ficou feinho meu filhinho querido”. Morri de ódio, mas já tinhamos “rompido” quatro anos atrás.

Aos sete anos, nos jogaram, Fred e eu, sozinhos, no colégio beneditino, São Bento internato, a princípio em Paquetá, depois na Muda da Tijuca. Não protestei, chorei, ou entendi. O choque deve ter sido sem paralelo, anterior ou posterior, pois reprimi-o na consciência e nunca reemergiu. De príncipe paparicado por mamãe e babás, à solidão e ao desconhecido. Vestia uniforme ridículo, azul-marinho, dragonas azul-claras, quepe que me ampliava o cabeção (nunca mais na vida aceitei um chapéu na cabeça). Uma viagem de 2 horas e 30, na barca da Cantareira, um transatlântico em relação a mim, na companhia de irmão que ao menor pretexto me traulitava. Lembro apenas, concretamente, da maçã que Irene me deu na Praça 15, ponto de partida. Durante dias acalentei a maçã, dormia com ela, nem sei se comi antes de apodrecer. E começaram os pesadelos, tombos de grandes alturas, ataques de animais selvagens. Nos fins de semana em casa, os pais notavam que Franz berrava dormindo. Chamavam de “terror noturno”, não suspeitando a causa. Escrevendo isso, lembro também que só voltei a comer maçã nos anos 70, nos EUA. Ácidas.

Mais uma vez, coloco os fatos em perspectiva. A experiência não foi “preto e branco”. O São Bento me deu alegrias. Os padres, quase todos alemães, nos baixavam vara (de marmelo) e, se a ofensa era grave, nos faziam ajoelhar, de castigo, horas. Talvez a memória me traia, mas não me ocorre ninguém que se dissesse, a sério (havia sempre a choradeira de pseudovitimização em colégio), injustamente punido. Como as mulheres árabes da piada, sabíamos por que apanhávamos. Não tirava pedaço. Uma ou duas varadas, no máximo. Nenhum padre sádico.

Nos conduziam à fé católica sem o terror jesuíta do inferno, que peguei no Santo Inácio, ou a incredulidade igualmente jesuítica de que o homem, livre das presilhas religiosas, fosse capaz do bem. O Deus beneditino era compreensivo, de amor e compaixão. O jesuítico reviveu traços do velho Jeová, implacável e incendiário.

Os beneditinos eram caras “iguais”. Os jesuítas, sutis manipuladores. A Sociedade de Jesus dominou a Igreja desde a Contra-Reforma, foi a tropa de choque em face dos avanços heréticos do protestantismo e concomitantes, nacionalismo e capitalismo. Durante séculos decidiu quem seria papa, apesar da habitual encenação de cardeais. Ordens como a beneditina, que contribuíram para a Inquisição, foram marginalizadas pelos elitistas de Santo Ignácio de Loyola (não é segredo que tanto Dzerjinski, o chefe da Tcheka soviética, e Himmler, da SS, estudaram os métodos de organização de Santo Ignácio), e, no margina-lismo, se amenizaram, devotando-se mais à contemplação e ganhando maior tolerância pelos pecadores. Reemergi-riam depois do Concílio de Paulo VI na vanguarda de uma Igreja menos aferrada somente ao eterno. Os próprios jesuítas se deixaram tocar pelo aggionarmento e, a última notícia, estavam em cisma entre conservadores e os novos ativistas.

Os beneditinos jogavam bola conosco (escondendo a bola na batina: não dava para aplicar uma “tesoura” num padre), nos contavam histórias maravilhosas (de fundo religioso, claro, mas não opressivo). Sabiam consolar e estimular crianças. Tenho as melhores recordações do colégio, em que o recreio era praia, e, na Tijuca, descobri jambo, tamarindo, jabuticaba e outras frutas “exóticas”. Nunca fiz tanto esporte. Vivíamos no mar ou na selva (onde a brincadeira da lança de bambu se desenvolveu). A única vez que estive no Corcovado foi em excursão beneditina a pé. À parte futebol, aprendi a jogar cricket, xadrez e um jogo de cartas divertidíssimo cujo nome esqueci.

Tornei-me devotíssimo, ajudei missa. Pensei ser padre, tal meu encantamento. Hoje, respeito sinceramente a capacidade de fé de quem tenha lido Freud e, em particular, Wittgenstein, e permaneça crente, desimpedido de raciocínio. Não “pensava” assim de 7 a 11 anos de idade. E, em retrospecto, admitindo a impossibilidade lógica do que me pregavam (lógica dentro do cérebro que o próprio Deus supostamente nos forneceu. Que outro instrumento poderíamos utilizar?), não renego os momentos de tranqüila solidão, de paz de tormentos que eu mal começava a entender, que a oração me proporcionou, seja ou não transferência e desvio neuróticos e, em última análise, religião seja devaneio que não se sustenta ao menor teste empírico intelectual. Era bom e sinto saudades daqueles “galhos que tremem contra o frio, corais desnudados e arruinados, em que antes os doces pássaros cantavam”, a única (e maravilhosa, traduzo mal) menção de Shakespeare — soneto 73 — à Igreja de Roma suplantada por Henry VIII.

Os encantos dos ritos tridentinos e do latim também me tocaram fundo. O sopro renovador do Segundo Concílio derrubou um dos supremos prazeres estéticos dessa fé que perdi. Reconheço que me intrometo onde não devo, mas aí está.

Outra surpresa agradável foi o comportamento de Fred. No colégio, ao menos, a fidelidade tribal bateu o rancor edipiano. Ele me protegeu a inocência, destruindo-a. Eu não sabia me dar com os outros, restrito apenas às certezas e familiaridades de casa. Fred me ensinou o que evitar, o que, em colégio interno, naquele tempo, significava principalmente evitar o que chamávamos, não sei por quê, os “bocas-de-fogo”, sodomizadores, mais velhos, de meninos desprevenidos. Havia muito disso no São Bento, à noite, e também “meia”, esfregação mútua, sem penetração. Escapei ileso e me permito duvidar que, se encaminhado ao papel feminino por incompreensão, conseguisse executá-lo. Não gosto que estranhos me toquem. Em 1937 ou 1980.

Se escreve tanta besteira sobre homossexualismo quanto economia. Enfiem uma centena de meninos juntos e é fatal que haja contatos sexuais. Nem sempre, ou melhor, quase nunca, marcam orientação adulta. Parece ponto pacífico que homossexualismo é produto de subdesenvolvimento emocional, de atrofia afetiva em períodos de infância. Essa definição é correta, acredito, em essência, mas pede clarificações e omite variantes. Homossexualismo certamente não é hábito, ou vício, que se adquira. Meninos vários que sei enrabados no São Bento se converteram em heterossexuais. Outros, “homens” lá, se descobriram homossexuais, já adultos. Hoje, se sabe (Charles Rycroft) que a homossexualidade, adjetivo e, a não ser em caso glandular, nunca substantivo, vem a adultos decorrente de dissolução ou confusão de identidade da pessoa. Idem, e principalmente, colegas do Santo Inácio, onde a perseguição ao homossexual declarado atingia crueldade inimaginável no clima amoral do internato. Amoral é a palavra exata. Os alunos veteranos de internatos criam uma relação com os mentores não muito diferente da que existe entre autoridades e meliantes contumazes não perigosos. Há limites intransponíveis, claro, mas os “direitos” dos “bandidos” são submetidos à popular “vista grossa” dos bedéis ou “tiras”. Havia até um “tipo colégio interno”, reconhecível aos que freqüentaram essas instituições: meio porco, esculachado, às vezes polimorfo perverso, bêbado, fumante, jogador, um marginal prematuro, em suma. É um mundo contido em si próprio o dos internatos. Diante dos padres representávamos (eles sabiam) a comédia da aquiescência. Soltos, revertíamos à barbárie.

Eu mesmo, santinho e cê-dê-efe, tinha outra face. Amei a missa tridentina, certo, mas me dava direito a tomar café com o padre assistido, antes dos colegas. A mesa dos padres oferecia pão, café, leite, manteiga, frutas, mel, à vontade. A nossa, média, meia bisnaga, uma fruta. Fé ou fome? Um pouco das duas coisas. À fome natural das crianças se juntava o clichê inevitável da carência afetiva, da falta dos pais, que ronronava em nossos estômagos.

Arranjei um amigo, meio trôpego, sensível e gago como eu, inteligente, o tipo frágil que atrai implicantes brutalhões. Um maior, 11 anos, chateava bastante o pobre. Um dia me irritei de verdade. Esqueci o começo da briga. Lembro de estar em cima do maior, batendo-lhe a cabeça, já sangrando, no concreto, ele desacordado, até que Fred me puxou forte. Se já não tinha sido incomodado, pela proteção de Fred, desta vez em diante acredito que desencorajei definitivamente aspirantes, se havia, a meu marquês de rabicó. O maior, esse esqueceu o episódio, aparentemente. Conheço-o mais ou menos, esbarramos de quando em quando, nunca notei um traço de memória, leve que fosse.

Endureci. Nunca mais houve os chamegos absolutistas de mãe e filho. Minha rudeza e silêncio se tornaram notórios. No futebol, me destacava pela selvageria, não na competência, ao contrário de Fred, que achava o jogo chato, mas era um beque difícil de passar porque jogava bola de verdade (baixando o sarrafo também. Todos jogávamos pesado). Católico sem dúvidas, fiz futebol de hóstia não consagrada e bebia o vinho dos padres (também não consagrado). Comecei a aprender piano. O professor, alemão, civil, numa aula me deu um cascudo. Acertei-lhe um pontapé no saco. Fim do futuro Paderewski.

Não falava quase. Meu olhar era de ódio frio e concentrado, me disse esse único amigo íntimo (Floriano?), contra todos. Minha aridez afetiva e rispidez no trato, esta última que me rende até hoje considerável folclore de agressividade, nasceram aí, no corte brusco da intimidade de mãe e filho. A natureza se compensa. Se fechei as extroversões habituais, não muito difícil, dado o meu lastro de secura Heilborn, o vácuo foi preenchido por uma atitude crítica impiedosa, a princípio baseada apenas, presumo, em frustração emocional, mas em tempo, dos oito anos em diante, se alimentando de si própria, do meio ambiente, das diferenças que se evidenciavam entre o pregado e o cumprido, etc., o que mencionei no início deste livro, até a explosão intelectual de Dostoiévski, em que me vi e ao próximo nus. Sou um subversivo nato. Só reabri afetivamente aos 28 anos, mas essa é outra história.

As aparências não enganam. Revendo fotos de sete anos, ainda tenho o ar do anjinho bebê. Aos 11, a boca mostra um snarl, aquele levantar de lábios do cão que ataca. Aos 14, os olhos são de “quem já viu tudo”, na frase de um colega do Santo Inácio, Fernando Luís Tavares Rodrigues, hoje exercendo talento único em matemática na IBM. Não tinha visto a liça metade, claro, mas veria tudo pela frente confinado num prisma de suspeita, desconfiança e hostilidade. A idade, as pauladas, as artes, filosofia, a reabertura dos 28 anos, transformaram bastante rosto e atitudes; agora, estou sempre de pé atrás, e em riste, na frase de uma amiguinha. Não me sinto inteiramente à vontade na companhia do próximo, nem dos (meia dúzia) mais íntimos.

Bastam alguns exemplos: aos sete anos, fazia pipi na cama, sintoma clássico de insegurança, regressão mental, segundo Adolpho. Furioso, passei uma noite em claro, o que não é piquenique nessa idade. Nunca mais fluí incontinente. Aos sete anos, numa reunião de família no segundo andar (equivalente a cinco em prédio normal) da casa de Paul, de repente corri e pulei sobre o peitoril da janela aberta. Lá fiquei olhando para baixo. Paulo Filho não perdeu a cabeça, o único, e foi a mim, manso, falando amenidades. Não me enganou um minuto. Me deixei trazer à segurança. Não pretendia mesmo pular, que eu saiba. E recusei, correndo da sala, que Irene saciasse o próprio susto me acarinhando. Não admitia que amigos me abraçassem, que pusessem sequer a mão no ombro. A ninguém parece ter ocorrido me chamar de apelido ou diminutivo, humorístico ou afetivo. Adulto e em marcha reduzida, alguns tentaram um Paulinho. Uma vez. Tudo isso veio nos tempos do internato.

A morte de Irene encerra minha formação emocional. Ela ficou grávida extemporaneamente aos 39 anos de idade. Chamou-se um médico de fama, Silvio Sertan. Fred e eu vivíamos nossa vida e não demos maior importância ao acontecimento. Começamos a notar que Adolpho de manhã e à noite rezava alto no quarto o evangelho segundo Mary Baker Eddy. Nas vezes que fomos admitidos, Irene parecia fraca, o que, na ignorância, atribuímos à gravidez “fora de época”. Ninguém nos desmentiu. Não víamos os lençóis cheios de sangue das freqüentes hemorragias internas que sofria. Ouvíamos pedir a Adolpho, entre uma e outra frase do Cristo à la Eddy, que chamasse o médico. Adolpho telefonava. Sertan nunca botou os pés na nossa casa nesse período crítico. Receitava pelo telefone. Chorou no enterro o feito que, em país civilizado, lhe cassaria a licença e provavelmente o poria na cadeia.

Admito que a confiança de Adolpho em Eddy o reassegurasse, não porque Sertan engolisse a “Ciência”, e, sim, porque Adolpho, inocentemente, minimizava os problemas cuja existência, de resto, “desconhecia” convicto. Não é que meu pai negasse remédios a Irene. Cumpria rigorosamente as receitas de Sertan. Não tentava impor religião a ela, ou a ninguém. Não era um fanático.

Acreditando, porém, no que pregava (o oposto é mais comum), tendia a crer que encaminharia Irene a um parto seguro, dispensando assistência médica alerta.

Foi só na manhã que Zillah, tia, veio visitar Irene, descendo de Petrópolis, onde morava, que nos demos conta da seriedade da condição da nossa mãe. Zillah, no vocabulário permissível a mulher educadíssima, descompôs Adolpho, disse mais e energicamente a Sertan, este escondido, como de costume, no telefone. Ordenou por conta própria o internamento de minha mãe na casa de saúde São José.

Ainda assim não prevíamos o pior. Estranhávamos que não nos permitissem visitar Irene. Mais tarde, soubemos que Sylvio operara, com sucesso, um quisto sebáceo grande, na cintura de minha mãe, mas depois Zillah nos contou que Sylvio e enfermeiras notaram que o organismo dela resistia, devolvia medicamentos, de tão debilitado.

Paulo Gustavo nasceu em 25 de agosto de 1944. Irene morreu em 13 de setembro. Nenhuma conexão entre uma coisa e outra. Irene morreu de eclâmpsia, septicemia e fraqueza geral. É verdade que os antibióticos desenvolvidos na Segunda Guerra, começando pela sulfa e penicilina, custaram a chegar ao Brasil. É verdade, também, que feitas algumas clarissímas exceções em 1980, eu não confiaria à medicina brasileira uma unha encravada.

Apesar disso, minha mãe morreu também pela inadvertência de Adolpho e a negligência de Sertan. Adolpho não sabia o que fez. Sertan não fez o que sabia.

Ela me chamara entre o nascimento de Paulo Gustavo e a morte. Desconhecendo a gravidade, fiquei distante, “cortês”, não-receptivo no quarto, na cela de prisão que me enfiaram e que, em revolta, tranquei o cadeado. Lembro os olhos amorosos e súplices que vi vivos a última vez, eu numa confusão de sentimentos e angústia inexprimível que me reduziram à passividade impotente. O horror, o horror.

Zillah, dias depois, nos deu, aos filhos, a notícia que a morte seria em horas (não sabíamos da certeza de morte até aquele momento). Nos plantamos, a família, no quarto, tontos, incompreensivos. Sertan posando de esculápio que luta abnegado contra o último suspiro da paciente. Minha catatonia era de tal ordem que nem a excelente idéia de estrangulá-lo, ou arrebentá-lo a pontapés, me passou pela cabeça. Daí em diante há a memória daquele arfar que marca o fim próximo da respiração e o fim que julguei definitivo da minha capacidade de amar qualquer pessoa. Não chorei ou guardo lembranças do resto. A vida me foi suspensa naquelas horas finais, congelada afetivamente.

Adolpho sofreu e se torturou o resto da vida. Jovem na meia-idade, envelheceu prematuramente. Se consolou acelerando o religiosismo, variando à umbanda, mantendo a “Ciência” que o impediu de tratar-se em tempo e escapar da confluência de males que o mataram. A segunda mulher, Lourdes, também viúva, dedicou-se a repô-lo de pé, cuidando dele de maneira humana, o que Adolpho negara, ingenuamente, por superstição, a Irene. Não lhe guardei rancor consciente. As explosões de baixo são outra conversa. Adolpho se puniu “melhor” do que Fred e eu poderíamos, se quisessémos, e não queríamos, entendendo maduramente causa e efeito. Nem a Sertan consigo odiar. O crime de Sertan é o que mais enfrento tentando entender o mundo: a incompetência pretensiosa e hipócrita. Por que nunca foi ministro da Saúde me escapa. Não conheco ninguém tão qualificado, no contexto brasileiro.

Irene é irrecuperável. Morremos uma vez só. Felizmente, porque nascemos diversas. A primeira é a menos dolorosa.



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