Novas leituras da revista Vogue que edita uma revista de moda tendo a música como tema central



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Kate & Bowie: tradição e vanguarda
Anamelia Bueno Buoro

Centro Universitário Senac, Mestrado Senac Moda

anameliab@gmail.com

Resumo
Este artigo é parte de uma pesquisa maior, que analisa discursos nas revistas de moda brasileira. O objeto de estudo selecionado é um ensaio fotográfico, publicado na revista Vogue, que apresenta relações entre Moda e Arte, tendo a música como tema central. Busca-se assim compreender as relações entre o espetáculo do artista e sua apropriação no universo da publicação, desvelando a intertextualidade e a interdiscursividade dessas duas linguagens, a da moda e a da arte, dentro de uma revista de moda.


Palavras-chaves: revista Vogue, Arte, Moda.

Abstract
This article is part of a broader research that analyses the discourse of the Brazilian fashion magazines. The selected object of study is a photo essay at Vogue magazine which presents relations between Fashion and Art and has music as its main theme. The aim of the present article is the understanding of the artist spectacle and how the magazine appropriates the spectacle as a media discourse, reveling the intertextuality and the interdiscourse among Fashion and Art languages, on a Fashion magazine.


Keywords: Vogue Magazine, Art, Fashion
Este artigo é parte de uma pesquisa maior, que analisa discursos em revistas de moda brasileiras. O objeto de estudo selecionado é um ensaio fotográfico presente na revista Vogue, que apresenta relações entre Moda e Arte, tendo a música como tema central. Busca-se assim compreender as relações entre o espetáculo do artista e sua apropriação no universo da publicação, desvelando a inserção delas na tradição e na vanguarda dessas duas linguagens - a da moda e a da arte - dentro de uma revista de moda1.

A matéria em destaque, “Kate & Bowie”, foi originalmente produzida para a Vogue inglesa (maio, 2003) e importada para a Vogue brasileira nº 301 (agosto, 2003). A revista inglesa abordava a temática “moda e música”, a mesma que vamos encontrar na edição da revista Vogue brasileira. Essa matéria foi realizada com fotografias de Nick Knight, em que a modelo Kate Moss aparece vestindo os trajes que David Bowie usou em seus shows, nas décadas de 60 e 70.

A matéria inicia-se numa página dupla, com uma foto de Kate Moss sentada numa cadeira, tendo os pés apoiados em outras. Há um jogo de cores em vermelho, preto e branco nessa foto de abertura. A imagem ocupa três quartos da página dupla, e um corte levemente diagonal em preto do lado direito enquadra a fotografia, que é horizontalizada. A composição da foto deixa entrever uma montagem da imagem com sutis cortes diagonais.

Os textos verbais surgem na página à direita. Acima se lê, em caixa alta e em preto, sobre o fundo da foto: “Sexualidade ambígua e estilo chamativo, a encarnação anos 70 de David Bowie, Ziggy Stardust, redefine o Glam Rock”; na metade inferior, lê-se, em vermelho e em caixa alta, “KATE & BOWIE”; abaixo e alinhado à direita do texto superior, lê-se “Fotos Nick Knight”; no rodapé da página, à esquerda em preto e em caixa alta, aparece a referência da roupa vestida pela modelo: “top-quimono de cetim bordado e short, Kansai Yamamoto, botas de vinil Cabúqui e cachecol de lurex, ambos Gear. Meia-calça Aristoc”.

Na imagem, a modelo mostra pernas, braços, rosto, seio, barriga e umbigo, e veste botas brilhantes vermelhas de vinil com salto preto, meia-calça preta colante e fosca, short de cetim branco cavado, top-quimono de cetim branco com bordado e cachecol de lurex preto. A imagem dá a ver o brilho da estrela pop, por meio dos tecidos e materiais utilizados, todos potentes refletores de luz.

A fotografia apresenta um jogo poético na montagem entre a figura da modelo, o espaço da cena e a iluminação que cria a imagem. O fundo da cena acinzentada remete aos tons de prata, assim como as cadeiras de alumínio fragmentadas, em branco e cinza metálico.

A pose de Kate Moss nessa primeira foto traz um modo pouco usual de sentar. Apoiada de lado numa das cadeiras, as costas levemente curvadas parecem apenas parcialmente encostadas no espaldar, enquanto uma das pernas se estende sobre o assento e a outra se apóia no espaldar de outra cadeira. Um dos braços mostra-se estendido sobre a perna esquerda e o outro dobrado sobre a cabeça. O olhar da modelo não mira diretamente o leitor, ocultado eu está pela maquiagem do olho, feita em tons de cinza escuro e preto. Por um lado, esse olhar se volta sobre si mesmo e, por outro, olha o leitor de soslaio. A boca entreaberta, a roupa que deixa entrever o corpo nu e as pernas abertas marcam a sensualidade dando o tom de ousadia da cena.

O glamour da imagem é reforçado pelo texto à direita, que faz referência ao Glam Rock, ou seja, o rock glamouroso. “Glamour” é o termo, em francês, que significa “charme sensual das atrizes de Hollywood; sedução”.

A matéria segue um padrão de imagens que tem a seguinte sequência: uma foto de Kate em página dupla, duas fotos de David Bowie, separadas por uma linha diagonal, e uma foto de Kate Moss, na página da direita; em seguida, mais uma página dupla com imagens de Kate Moss e, na sequência, novamente duas imagens de David, com uma de Kate à direita. A foto que encerra a matéria, na página à direita, mostra a modelo vestida com um macacão colorido e brilhante, o mesmo usado por Bowie na página anterior.

A unidade dessa sequência de oito páginas é reforçada por um sutil corte diagonal na vertical nas páginas. O corpo da modelo reitera a força diagonalizada, construindo um diálogo entre suas fotos e as do músico. As cores vibrantes e agressivas conferem força às fotos do músico e se opõem às cores mais suaves, que fazem fundo para as poses da modelo. O discurso dessa matéria é construído nessa seqüência, alternando música e moda, corpos são mostrados posando, cantando e dançando.



A página dupla que se segue à de abertura mostra duas fotos de Bowie como Ziggy Stardust e Thin White Duke, uma posando para o fotógrafo, outra no palco, em ação, e uma página inteira com a foto da modelo. A composição da cena mostra a modelo colocada numa quase vitrina, apresentando a mesma roupa do músico fotografado em preto e branco, no lado esquerdo. Se à esquerda o microfone em frente à boca aparece como centro do foco da fotografia, na página ao lado, é a luz que conduz o olhar do leitor para a figura da modelo. O foco de luz é o microfone da modelo.

Nas fotos onde Bowie aparece, o que está à vista é o músico como personagem, atuando e posando para o fotógrafo, é a justaposição das imagens que fortalece a importância da roupa na criação da personagem. Podemos dizer que o músico é “desmusicalizado”, na medida em que é o contexto do vestir que se dá a ver. David Bowie, no entanto, não se apresenta inocentemente nas páginas, pois ele também posa, tal como a modelo, com sua figura andrógina que encara o leitor com altivez, revelando algo sobre seu modo de pensar e de produzir sua arte, através da roupa. Diana Crane afirma que a música, as subculturas urbanas e a mídia elaboram uma força de informação nas décadas do pós-Segunda Guerra, a qual fortalece a construção da identidade masculina. A autora destaca que foi David Bowie quem, na década de 1970, desferiu um ataque radical “à forma como o vestuário codifica e estipula os gêneros”; ele destaca-se como o primeiro cantor a projetar uma imagem abertamente travestida, “ao usar vestidos, maquiagem nos olhos, perucas extravagantes e bijuterias - estabelecendo um novo conjunto de ícones visuais, copiados por muitos grupos posteriores e por seus fãs” (CRANE, 2006: 367).

Ziggy Stardust é a personagem encarnada por Bowie nos anos 1970. Ele a cria para o cinema e para os shows, vivendo o drama do mito que é consumido pela cultura de massa. A personagem de Ziggy, produzida a partir da figura do mito, do astro e do espetáculo, veste um figurino cheio de brilhos, decotes e cores fortes, brinca na fronteira dos gêneros e com a própria sensualidade. Mais do que a roupa, Ziggy é um estilo de vida, o estilo de vida do pop star cercado por fãs, sexo, drogas e rock and roll. Para Kate Moss, acontece o inverso, já que a roupa é o produto que se mostra por meio dela. A modelo revela as possibilidades da roupa, enquanto a roupa de Bowie explora as múltiplas possibilidades do homem e do artista.

A roupa que Kate exibe na página 87 dialoga com a roupa vestida por Bowie quando na pele da personagem Thin White Duke, criada pelo músico e alinhada com as idéias do fascismo e do nazismo. O figurino dessa personagem, inspirado nos cabarés europeus, mostra-se mais sóbrio do que o da figura de Ziggy.

Consciente desse poder de significação do vestuário, o artista compõe suas personagens a partir de sua indumentária, ou seja, põe a roupa a serviço da construção da personagem e de seus valores. Na fase Thin White Duke de David Bowie, a estrutura clássica das roupas é apropriada por ele, a fim de manifestar sua persona mais conservadora, um aspecto de sua personalidade que se expõe aos refletores, enquanto as roupas mais ousadas que compõem a figura arrojada de Ziggy Stardust são deixadas de lado, lançando na sombra essa outra face do artista.

Nas páginas 5 e 6 da matéria, surge a modelo vestindo um terno azul. A figura de Kate Moss domina a cena em meio ao palco cinza, com o chão iluminando o corpo, que apresenta um movimento de dança congelado e ocupa o centro da página esquerda. Na sequência à direita, a cena é composta por objetos do palco: um cubo branco e dois objetos que se parecem com spots ou ventiladores pretos. A iluminação organiza e estrutura a dimensão do espaço da cena, criando um centro no segundo plano e demarcando o primeiro e terceiro planos. Então temos, à esquerda, a presença da modelo; à direita, a ausência do músico. A informação verbal sobre o traje e os adereços aparece na base esquerda da página 6.

Kate Moss veste, nessa página, o mesmo terno que será usado por Bowie na página seguinte. As duas figuras estão novamente em diálogo, nessa seqüência de páginas, na medida em que ela aparece fotografada num movimento de dança, tal qual um cantor no palco, e ele posa para o fotógrafo, tal qual um modelo fotográfico. Ao ver a mesma roupa em dois momentos seqüenciados, percebe-se que o vestir de um e de outro compõem uma gama de significações opostas. A roupa no corpo da modelo é lida a partir dos paradigmas dos modelos clássicos. Nela, insere-se o ideal de belo, a harmonia de proporções, a justa medida do gesto e da pose na fotografia. A mesma roupa, vestida pelo artista, mostra características diversas. A camisa, a gravata, a maquiagem, o cabelo, a pulseira, a pose e o próprio corpo de Bowie transformam a visão clássica da roupa mostrada pela modelo, por meio de uma postura exótica e andrógina. A versão de modelo clássico da roupa, apresentada por Kate Moss numa página, cria um jogo de oposições entre as duas figuras, a do músico e a da modelo, assim como também entre dois tempos presentes nessa seqüência de fotos: década de 1970 e ano de 2003.

A matéria termina nas páginas 7 e 8, em que se vêem duas fotos do artista, uma posada para o fotógrafo, usando o mesmo terno azul que a modelo vestia na página anterior, e outra, tirada no palco, com uma roupa de malha colorida que revela um ombro nu. Na página 8, a modelo veste o mesmo macacão colante de tricô de estampa colorida que o músico veste ao lado. Sentada sobre um cubo branco, com as pernas dobradas abertas / fechadas e as pontas dos pés encostadas uma na outra, a foto da modelo constrói a imagem de uma serpente, com o corpo longilíneo levemente arqueado, o braço direito estendido e apoiado no antebraço esquerdo, que, por sua vez, se apóia no joelho direito. O movimento dos dedos também reforça o serpentear da cobra.

O rosto é iluminado por um spot de luz colocado logo acima da cabeça. Sua expressão é enigmática e sedutora. Novamente a boca aparece entreaberta e os olhos semicerrados, com maquiagem em tons metálicos, olham, de viés, para o leitor. O ombro, o joelho, as pernas abertas / fechadas expõem a sensualidade da modelo que encarna a figura da cobra. Essa pose faz ver uma serpente que seduz cada leitor que se detém diante dela.

Nas imagens da modelo, percebemos também um “congelamento” dos movimentos corporais da figura do artista em performance, dançando no palco do show. Nota-se aí que, ao se apresentar, nesse ensaio fotográfico, a modelo estabelece um percurso dialógico com o artista, na medida em que vai passando, de modelo que apresenta roupas ao leitor da revista, a personagem-serpente sedutora, semelhante àquelas criadas pelo músico para elaborar um discurso em suas apresentações.

Agachado na foto da página ao lado, David Bowie, em meio à performance, é a imagem que conversa com a imagem da modelo. Com a boca aberta e os olhos fechados, vestindo o mesmo macacão de malha estampada e segurando o microfone com a mão direita, o rosto do artista volta-se para a esquerda. Nessa cena, ele aparece iluminado por luz vermelha, enquanto, logo atrás e em pé, vê-se o guitarrista Mick Ronson tocando com energia, banhado pela mesma luz e vestido com camisa de cetim branca e calça preta que brilha com paetês prata. A figura de David Bowie em movimento é vista no meio das pernas cobertas de paetês de Mick Ronson. Os dois músicos mostram-se no auge da performance. A sensualidade está em destaque nessas duas fotografias. Nas fotos, tanto Bowie como Kate Moss revelam e escondem seus corpos. A expressão do rosto de Kate parece provocar o leitor, enquanto a expressão do artista é de êxtase.

Nesse ensaio fotográfico, a figura de David Bowie apresenta o artista de vanguarda da década de 1970, contrastando com a figura de Kate Moss que, na sua função de modelo, reitera a apresentação da roupa como objeto de valor, bem como reforça os valores estéticos clássicos. Vanguarda e tradição dialogam nesse jogo de uso das roupas como figurino do artista e como objeto de valor para a modelo. Bowie, ao utilizar as roupas como figurinos para seus personagens, retira a peça de uma tradição da moda feminina da década de 1970 e a torna vanguarda para o figurino do músico. Kate Moss, ao utilizar o figurino do músico de vanguarda quase trinta anos depois, insere a mesma roupa numa tradição da moda, aproximando-a a partir de uma estética clássica.
Referências bibliográficas

CRANE, Diana. A moda e seu papel social: classe, gênero e identidade das roupas. Trad. Cristiana Coimbra. São Paulo: Senac, 2006.

LANDOWSKI, Eric. A sociedade refletida. Trad. Eduardo Brandão, São Paulo, Educ/Pontes, 1992.

GREIMAS, Algirdas Julien. Da imperfeição. Trad. Ana Claudia de Oliveira. São Paulo: Hacker Editores, 2002.

Houaiss, Antonio et all. Dicionário de Língua Portuguesa.

OLIVEIRA, Ana Claudia de. (org.) Semiótica plástica. São Paulo: Hacker Editores, 2005.



Anamelia Bueno Buoro é doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). É professora de História da Arte e de Análise da Imagem em cursos de pós-graduação e graduação do Centro Universitário SENAC, S.P.. Publicou Olhos que pintam (S.P., Educ/Cortez, 2002), O olhar em construção (S.P., Cortez, 1996), entre outros. Coordena a coleção O leitor de imagens (S.P., Ed. Nacional, 2007).


1 Entende-se por tradição um conjunto de valores estéticos, culturais e sociais que são transmitidos de geração em geração, promovendo um sentido de continuidade e de duração ao longo do tempo. Por sua vez, vanguarda é compreendida como um conjunto de valores capazes de gerar o desenvolvimento de novas técnicas, idéias e conceitos novos, avançados, promovendo um sentido de ruptura e de fragmentação no tempo (cf. Houaiss, XXXX, p. 2745 e 2827).


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