Nunca fomos tão modernos: fragmentos sobre a liberdade nos dias que correm



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Nunca fomos tão modernos: fragmentos sobre a liberdade nos dias que correm


Gerson Pastre de Oliveira

I shop, therefore I am”, Bárbara Kruger

Este artigo – um ensaio propositalmente curto, na medida em que pretende ter o ritmo da contundência – traz aportes teóricos e algumas reflexões sobre a liberdade na contemporaneidade. Exprime inquietações relacionadas à individualização dos interesses e ao predomínio do eu sobre o coletivo, bem com perplexidades relacionadas às versões pós-modernas de conceitos como democracia, segurança e alteridade.

Palavras-chave: pós-modernidade, liberdade, alteridade, democracia.

“Nunca fomos tão modernos”. A frase recorrente, tantas vezes suscitada ao longo dos mais diversos debates acadêmicos, surge cheia de significado quando posicionada diante das incertezas atuais. O ideal, ou antes, o amálgama de idéias de corpo disforme que constituíram a modernidade, traz ainda, em seu frontispício, a legenda “ordem, beleza, limpeza” (Freud, 1997). Parece paradoxal, mas esta é a divisa que permeia e que conduz a trajetória de homens e mulheres contemporâneos. A lógica subjacente, entretanto, é outra. O fio condutor é a liberdade, alguma liberdade – ou em o quê a idéia de liberdade foi transformada. Para Bauman:

(...) a liberdade individual reina soberana: é o valor pelo qual todos os outros valores vieram a ser avaliados e a referência pela qual a sabedoria acerca de todas as normas e resoluções supra-individuais devem ser medidas. Isso não significa, porém, que os ideais de beleza, pureza e ordem que conduziram os homens e mulheres em sua viagem de descoberta moderna tenham sido abandonados, ou tenham perdido um tanto do brilho original. Agora, todavia, eles devem ser perseguidos – e realizados – através da espontaneidade, do desejo e do esforço individuais. Em sua versão presente e pós-moderna, a modernidade parece ter encontrado a pedra filosofal que Freud repudiou como uma fantasia ingênua e perniciosa: ela pretende fundir os metais preciosos da ordem limpa e da limpeza ordeira diretamente a partir do ouro do humano, do demasiadamente humano reclamo do prazer, de sempre mais prazer e sempre mais aprazível prazer (...) (Bauman, 1998a, p.9)

Resta a liberdade de proceder como é esperado pelos incontáveis olhares dos bem-nutridos que espreitam das frestas das persianas, para além das guaritas das casas fortificadas. Liberdade que se limita e que se constitui pelo consumo, como se “consumir objetos de desejo” fosse o mesmo que “satisfazer desejos” (Freire Costa, 1999). O corpo, resgatado em princípio, da condição de refém do excesso de ordem – objeto, em última instância, da escassez de liberdade conseqüente – insurge-se e passa a exigir, desmesuradamente. Talvez por isso Carlos Drummond de Andrade tenha escrito: “Meu corpo ordena que eu saia em busca do que não quero, e me nega, ao se afirmar como senhor do meu Eu convertido em cão servil” (1999, pp. 7-9). De refém a captor. Assim, da segurança sem liberdade, apanágio da trajetória moderna, à desregulamentação e corrosão do estado e das instituições, as tensões entre o público e o privado acabaram por oportunizar a soberania do um. A culpa deu lugar à ansiedade (Lasch, 1983, p.14): em lugar algum há paz, o tempo é raso e o desejo, incompleto. Velocidade: a tônica do tempo real, no qual “não há mais prova de nada” (Baudrillard, 1997, p.73), do tempo subversivo das tecnologias de informação-comunicação-absorção-isolamento, da “condensação do presente, na operação em andamento” (Lévy, 1993, p.115). Mais agora, ainda, do que quando assinalado por Sennett, dada a natureza extremamente sofisticada de seu avanço, “a comunicação eletrônica é um meio através do qual a própria idéia de vida pública foi levada a se findar”, de forma a tornar “o contato efetivo [entre os grupos sociais] desnecessário” (Sennett, 1988, p.344). A busca por felicidade parece resultar invariavelmente em frustração, porque descontínua, interrompida. Não agora, como não antes, apenas depois. Mas depois é apenas uma reedição do adiamento.

Resta a liberdade de exigir para si, sem consideração pelo outro. De proceder na negação do discurso da ordem, confirmando Lasch:

Exalta o respeito a regras e regulamentos, na crença secreta de que estes não se aplicam a ele. Ganancioso, no sentido de que seus desejos não têm limites, ele não acumula bens e provisões para o futuro, como fazia o ganancioso individualista da economia política do século dezenove, mas exige imediata gratificação e vive em estado de desejo, desassossegada e perpetuamente insatisfeito (1983, p.15).

Graças ao liberalismo, a última fronteira da segurança escancara-se, devassada: o trabalho passa a ser um instrumentalizador de pessoas, tem caráter fugaz, transitório e evidencia o engodo da flexibilidade (Freire Costa, 1999). As formas de vigilância, como evoluções das estratégias punitivas, passam a ser objetos de desejo – não é mais necessário induzir as pessoas à vigilância, na medida em que elas mesmas crêem e anseiam por ela (Foucault, 1989; Bauman, 1998b, p.60). Recuperando, ainda, Sennett:



Os trabalhadores, assim, trocam uma forma de submissão ao poder – cara a cara – por outra, eletrônica (....) Na revolta contra a rotina, a aparência de nova liberdade é enganosa. O tempo nas instituições e para os indivíduos não foi libertado da jaula de ferro do passado, mas sujeito a novos controles do alto para baixo. O tempo da flexibilidade é o tempo de um novo poder. Flexibilidade gera desordem, mas não livra das limitações (2001, p.68)

E é justamente, como asseverou Bauman (1998a), desde a perspectiva liberal que o conceito de democracia sofre insidiosa revisão, enfraquecedora de seus princípios e mecanismos no âmbito político, apresentando-se “relativizada, singularizada, privatizada e desregulamentada. Uma democracia a la carte, enfim” (Aquino et al, 2003), caracterizada pelo exercício desmedido das liberdades de caráter puramente pessoal, que desvaloriza a alteridade. Mais do que a alienação, em termos marxistas, a indiferença (Lipovetsky, 1989, p.40). Ou, em outros termos:



Democracia ‘a la carte’ significaria o efeito do esvaziamento do ideário democrático quando transposto, de modo linear, [do contexto político] ao âmbito civil/social. O sentido público e comunitário passa a ser subjugado pelo exercício das vontades individuais livres. E o plano político da ‘vida pública’ é reduzido ao da associação de indivíduos (supostamente) livres (Aquino et al, 2003)

O rompimento com a segurança cálida da ordem limitadora das vontades individuais dos tempos modernos cobra seu preço. A vertiginosa insegurança da contemporaneidade clama por narcoses de tipos variados para tornar-se suportável, de alguma forma. Desde então, estabeleceu-se a compulsão pelo consumo de coisas e conceitos. O consumo como provedor identitário do sujeito, que vagueia, nômade, confundindo o estar com o ter (e, em última instância, com o ser) – ou, na visão de Lasch (1986, p.22), causando “insubstancialidade do mundo externo”:



A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito especular faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou caracterizar seus desejos (Lasch, op.cit.)

Esse impulso surge desvinculado de seu objetivo primeiro, o de prover felicidade emocional privada:



falamos de um ‘consumo’ de bens materiais ou símbolos de status, sem perceber que o que está sendo verdadeiramente ‘consumido’ é a vitalidade de nossos corpos e mentes, diariamente vendida e comprada, usada e abusada para azeitar a máquina ensandecida do lucro. Observadas de perto, as promessas da ‘sociedade de consumo’ são espantosas. Tudo cabe numa lista tacanha, onde, de um lado, estão os meios de evasão (...) e, de outro, a realidade social da qual todos querem se evadir (Freire Costa, 2003)

Ao que parece, a alternativa às estratégias do “mínimo eu” (Lasch, 1986), motivadas, talvez, pela diluição dos limites entre o público e o privado, repousa nas possibilidades criadoras e mediadoras da palavra, ela mesma tomada no sentido invulgar como “fundadora do sujeito”, inserida no espaço de suspensão entre o “não mais” e o “não ainda” arendtiano, como meio de “acolher a [desejável] incerteza sem torná-la desamparo” e de “trocar a previsibilidade pela aventura da liberdade”, mas uma liberdade que é mais do que o banquete oferecido até a saciedade das vísceras e que é diferente da preferência que ignora a alteridade – um preferir que equivale a “seguir ou identificar-se com a regra de preferência dominante” (Freire Costa, 1997).



A palavra como antídoto ao hábito, ao ciclo do ‘sempre do mesmo jeito – sempre a mesma coisa’. Pois este espaço de suspensão, este interstício, é onde mesmo a vida se dá. Para isso, talvez, venha a palavra, no âmbito público, a permitir que se recupere o sentido da existência do outro, que se o considere, enfim, além do mero sujeito instrumentalizado a serviço do desejo – algo descartável, assim como “a mulher mais triste que já segurou um martini” de Vanilla Sky. E que restabeleça os ideais democráticos no âmbito político, no lugar onde eles fazem sentido e no qual não são paradoxais.

Talvez, assim, reste a liberdade que se consolida no convívio e no respeito, que não escorra pelos dedos, que não fuja pelas infovias, que não escape pelo ralo do cinismo. Liberdade capaz de encontrar a felicidade e estendê-la para além daqueles momentos nos quais ela nos surpreendeu, distraídos.

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