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III Encontro da ANPPAS

23 a 26 de maio de 2006

Brasília-DF
O Ambiente como Mundo Vivido - Uma Abordagem do Espaço Segundo a Geografia Fenomenológica
Cristiano de Souza Calisto (CDS/UnB)

Glória Maria Vargas (CDS/UnB)


Resumo do Trabalho

O presente trabalho se propôs a desenvolver um estudo do espaço em uma abordagem da Geografia Fenomenológica, buscando pensar além dos elementos físico-espaciais, procuramos compreender o mundo dado como fruto de um fenômeno intersubjetivo, vivido pelos homens em contato uns com os outros e com seu entorno. As análises aqui realizadas se deram a partir de atividades desenvolvidas com um grupo de 20 (vinte) professores e 05 (cinco) servidores que compõem todo o corpo docente e diretivo do Centro de Ensino Fundamental do Pipiripau II, localizado cidade de Planaltina-DF.

As ações desenvolvidas tiveram por objetivo produzir o registro, a leitura e compreensão das percepções ambientais destes atores, e a forma com que o educador, enquanto sujeito fenomênico, percebe e utiliza os elementos ambientais em suas práticas pedagógicas e cotidianas.

Na busca pela melhor análise e entendimento possível, acerca das ações aqui propostas, os principais aportes teóricos utilizados encontram-se referendados nos trabalhos de Milton Santos, Yi-Fu Tuan, Enrique Leff e Edward Relph.


I – Introdução

A forma com que nos relacionamos uns com os outros em nossos círculos sociais, como também as ações que desenvolvemos nos ambientes em que nos encontramos inseridos são resultado e determinam a maneira com que percebemos e nos vemos no mundo. Para Husserl (apud NOGUEIRA, 2004, p.213) o mundo passa a existir a partir da inserção do homem nele, como “ser no mundo”. “A consciência é sempre consciência de alguma coisa... o objeto é sempre objeto-para-um-sujeito, importa descrever neste momento como o objeto é para nós.” Sendo por tanto, o mundo real, não um reflexo de modelos conceituais, mas sim a realidade do espaço vivido pelo sujeito, o espaço do ser no mundo. Nesta perspectiva, de uma ciência aberta à fenomenologia, que foram abordados os aspectos da presente pesquisa, i.é.:



Com essa visão de ciência que olharemos os cidadãos comuns, sujeitos de nossas pesquisas, vendo suas descrições dos lugares como o conhecimento concreto deles, reconhecendo suas representações do mundo e dos lugares. Tentaremos interpretar as informações dos sujeitos tal como eles nos demonstrarão, e a fenomenologia nos dá sustentação para isto, pois ela é a tentativa de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela é.(NOGUEIRA, 2004, p. 211/212).
A partir da influência humanística e fenomenológica, o pensar geográfico de um determinado lugar e dos problemas sócio-ambientais que o afetam passou a considerar os aspectos da percepção de quem ali habita. Isto acabou trazendo para a luz do conhecimento a composição das relações com o lugar, visto que a geografia fenomenológica, ao tratar dos lugares, considerando seus significados e representações, trás para o debate questões que giram em torno do mundo percebido e vivido:
Esta preocupação com o espaço vivido colocou no centro da análise o lugar. Isto porque é o lugar, mais que o espaço, que se relaciona à existência real e à experiência vivida. O lugar, porém, é visto pela Geografia sob influência da fenomenologia não como um lugar em si, um lugar objetivo, mas como algo que transcende sua materialidade, por ser repleto de significados. Por isso é que o lugar, concreto, único e que tem uma paisagem, não apenas natural, mas essencialmente cultural, torna-se o centro e o objeto do conhecimento geográfico (LENCIONI, 2003, p.154).
II - Bases Conceituais

O entendimento das perspectivas de “lugar” e “espaço” nos remete às relações de vínculos de pertencimentos que são mantidas com estas categorias de construção espacial. São as sensações de pertencimento que possibilitam a conversão do “espaço” em “lugar”, ou, do contrário, o sentimento de não-pertencimento possibilita a transformação de “lugar” em “espaço”. Edward Relph (1976) desenvolve a noção de “insideness” e “outsideness” para se referir aos graus e tipos de ligações que definem as formas com que as pessoas encontram-se imersas em suas realidades. O foco que está centrado na experiência humana de “lugar”, compreendendo este como a fusão da ordem natural e humana, sendo os centros significantes da nossa experiência no mundo.

Quanto mais o indivíduo atribui significado e importância para o ambiente, sentindo-se inserido neste, recheando-o com uma variada gama de intenções e transformações, tanto de caráter prático e objetivo quanto no sentido da subjetividade, emoções e sentimentos, mais este ambiente se converte em “lugar”. E no lugar prepondera a sensação de insideness. A amplitude das sensações de afinidade para com o ambiente é responsável pela conversão deste em “lugar”. É o aumento da quantidade de “insideness” encontrados nesta relação que definem a aproximação e a proximidade do ser com os seus espaços de vivência. Invariavelmente as expressões comumente relacionadas a este tema são: casa, aconchego, segurança, envolvimento e identidade.

No sentido diametralmente oposto ao de “insideness”, segundo Relph, encontramos a categoria “outsideness”. É o sentimento de separação e disjunção, o não-pertencimento, a alienação para com os principais ingredientes que compõem esta experiência de lugar. Quanto menor for a experiência de identidade com o “lugar”, maior será a sua conversão em “espaço” e maior também será o grau de “outsideness” ai encontrado.

Assim, “insideness” e “outsideness” apresentam uma relação dialética na construção das relações e percepções espaciais, onde encontraremos combinações variadas de intensidades e modos, o que nos possibilita também adjetivar estas formas de vínculos, atribuindo-lhes identidades diferenciadas. Isto possibilita uma amplitude de entendimentos das relações fenomenológicas entre o mundo e os sujeitos.

Tomando por base os vários níveis de experiência e envolvimento para com o ambiente, Relph classifica “insideness” e “outsideness” em sete categorias, a partir das quais temos a possibilidade de utilizá-las como modelo conceitual permitindo a discussão mais amiúde das questões relacionadas aos aspectos fenomenológicos do espaço:



  1. Insideness Existencial (existential insideness) - O tipo mais profundo de vinculo de pertencimento com o lugar, o insideness existencial possui forte relação com o sentido de casa “at-homeness”. Aqui, o ambiente se apresenta recheado de significados positivos e estreitos laços de afetividade. Neste espectro o indivíduo projeta traços íntimos de sua existência e o desejo claro de se manter ligado aos lugares aos quais estes sentimentos são direcionados. “A pessoa sente que este é o lugar de onde ela pertence”. (SEAMON, 1996, p. 2)

  2. Outsideness Existencial (existential outsideness) - Ato inverso ao insideness existencial, o outsideness existencial representa um distanciamento do indivíduo com relação ao lugar. Muitas vezes, este ambiente representa uma atmosfera opressiva, onde o sujeito se vê submetido a relações desagradáveis e pouco confortáveis com o lugar. Tal perspectiva resulta na transformação deste em espaço. A nostalgia (homesickness) ou “homelessness” são exemplos desta expressão. (SEAMON, 1996, p. 2)

  3. Outsideness Objetivo (objective outsideness) - Este tipo de outsideness é muito comum no campo acadêmico. Aqui, os indivíduos, quer sejam cientistas, planejadores, políticos e até mesmo professores, transformam o espaço em objeto de estudo “coisificando-o”, de forma a buscar sua fragmentação para que, a partir de sua decomposição, seja facilitado o entendimento de suas partes constituintes. Neste caso, a relação para com o ambiente se dá em termos de uma interação “eu-isso”.

  4. Outsideness incidental (incidental outsideness) - Aqui, o lugar aparece nas relações de forma fortuita, possuindo caráter secundário, sendo relegado a pano de fundo. Entendido como elemento acessório, é reflexo de baixos graus de vínculos de pertencimento para com o ambiente. Seamon (1996, p.2), fazendo referencia a Relph, relaciona este tipo de outsideness a “paisagens ou lugares percorridos por um motorista na estrada a caminho de algum lugar”.

  5. Insideness comportamental (behavioral insideness) - Nesta perspectiva o lugar é apreendido como um jogo de objetos, visões ou atividades (SEAMON, 1996, p. 2). A construção deste insideness se dá por meio da familiarização com os novos espaços. Quando começamos a entender e perceber as relações ai existentes, os vários marcos, caminhos etc., passamos a atribuir significados para estes elementos, isto pressupõe um estreitamento da relação com o lugar.

  6. Insideness Empático (Empathetic Insideness) - Ocorre quando o indivíduo, mesmo não pertencendo efetivamente a um determinado lugar, possui interesse em, de alguma forma, fazer parte deste. Com isto, passa a construir alguns vínculos de pertencimento com este espaço. Para tanto, é necessário que existam, por parte do sujeito, sentimentos de empatia, desejo de pertencimento e o real interesse pelo lugar. Conforme afirma Seamon (1996, p.3), este tipo de empatia é fundamental para a realização de um trabalho fenomenológico, uma vez que este processo requer, para a sua execução, o interesse efetivo do pesquisador com o lugar.

  7. Insideness Vicário (Vicarious Insideness) - A construção deste tipo de insideness não requer, necessariamente, o contato direto do sujeito com o lugar objeto de seu sentimento e ao qual atribui positivos significados. Esta relação geralmente é mediada pela percepção e representação apresentadas por outrem. As experiências vividas por outras pessoas, materializadas por meio de fotografias, pinturas, músicas, romances etc., podem levar à constituição de fortes laços afetivos por parte de algumas pessoas com lugares por elas nunca visitados. O forte aliado para a formação deste insideness é a imaginação humana, peça chave para a construção da viagem de significação do lugar desconhecido, ao qual o sujeito se sente intimamente pertencente.

No idioma inglês, geralmente a terminação “ness” indica uma substantivação de adjetivo ou de um verbo, ou seja, uma troca de classe gramatical e sentido das palavras. Lançando mão também de uma correlação entre classes gramaticais Enrique Leff (2001) desenvolve uma importante discussão a respeito do lugar e do espaço, quando apresenta a diferenciação conceitual entre o substantivo habitat o verbo habitar.


O ambiente é o conceito desta relação complexa entre o habitat e o habitar, que integra as condições do meio às possibilidades de ocupação social do território. O habitat é o substantivo (passivo) que suporta o verbo (ação de) habitar. No habitar conflui a lei da natureza que estabelece suas condições de suporte, e o desejo que mobiliza as formas de ocupação cultural do espaço. O ambiente articula assim um conjunto de processos ecológicos, produtivos e culturais, para reconstruir o habitat como transformação complexa das relações socidade-natureza. (LEFF, 2002, p. 286)
O que Leff chama aqui de habitar é o mesmo que, no pensamento geográfico, representa o lugar. “O habitat habitado é o lugar significado por experiências subjetivas, lugar de vivências construídas com a matéria da vida” (LEFF, 2002, p. 286). Nesta concepção Leffiana pode-se perceber a construção de uma abordagem fenomenológica do lugar, no que tange a subjetividade e o vivido.

É no ato de habitar um habitat que as relações homem/meio ambiente se constroem. Neste encontro ocorre o que Relph chamou de insideness e outsideness, resultando na configuração que irá definir aspectos como a espacialidade, apropriação, significados, prazeres e práticas sociais, que definem sentidos existenciais para com o território. Leff e Relph acabam por fazer referencia à questão do amor ao lugar, o que Yi-Fu Tuan chamou de Topofilia:


Assim, o habitat se define ao ser habitado; e esse habitar cria hábitos e define sentidos existenciais que conduziram a coevolução das culturas com o seu meio, através das formas de apropriação de seu ambiente. O habitat é pois o território habitado, engendrado pela coabitação das populações humanas com seu meio, por suas formas de fazer amor com a natureza (LEFF, 2002, p. 283).
A palavra “topofilia” é um neologismo, útil quando pode ser defina em sentido amplo, incluindo todos os laços afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material. Estes diferem profundamente em intensidade, sutileza e modo de expressão. A resposta ao meio ambiente pode ser basicamente estética: em seguida, pode variar do efêmero prazer que se tem de uma vista, até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito mais intensa, que é subitamente revelada. A resposta pode ser tátil: o deleite ao sentir o ar, água, terra. Mais permanentes e mais difíceis de expressar, são os sentimentos que temos para com um lugar, por ser o lar, o locus de reminiscências e o meio de se ganhar a vida.(TUAN, 1980, p.107).
Neste momento, começamos a perceber as distinções, similaridades, complementaridades e inter-relações que se fazem entre “espaço e lugar”(Yi-Fu Tuan), e entre “cultura e natureza” (LEFF, 2002, p. 284) ou, conforme Milton Santos (2002) “primeira natureza e espaço transformado ou técnico-científico-informacional”.

Da mesma forma que Enrique Leff apresenta a questão da “ação” (verbo), Milton Santos afirma que o processo de construção social dos espaços, é resultado da relação dos sistemas de objetos e do sistema de “ações” (SANTOS, 2002, p. 125). Para Ele, na relação homem/natureza, a utilização da técnica, da ciência e da informação, resulta no surgimento da segunda natureza, que denominou de espaço técnico-cientítico-informacional, por entender ser este o espaço geográfico atual.


Vivemos, hoje, cercados de objetos técnicos, cuja produção tem como base intelectual a pesquisa e não a descoberta ocasional, a ciência e não a experiência. Antes da produção material, há a produção científica. Na verdade, tratam-se de objetos científicos-técnicos e, igualmente informacionais.

O objeto é científico graças à natureza de sua concepção, é técnico por sua estrutura interna, é científico-técnico porque sua produção e funcionamento não separam técnica e ciência. E é, também, informacional porque, de um lado, é chamado a produzir um trabalho preciso – que é uma informação – e, de outro lado, funciona a partir de informações. Na era cibernética que é a nossa, um objeto pode transmitir informação a outro objeto. Os autômatos asseguram uma cadeia causal eficaz, mediante um sistema de objetos que transmitem informações uns aos outros, ainda que o homem não esteja ausente, ao menos no início do processo.

Aliás, os objetos são eles próprios informação: e não apenas movidos pela informação. (SANTOS, 2002, p.215)
Este processo de transformação da natureza implica não somente em inventar novos objetos por meio da técnica e da ciência (ou Técno-ciência), mas, sobretudo, tal transformação, que é a transformação do meio natural em meio artificial, implica na atribuição de significados e intencionalidade ao mundo vivido.

A história das chamadas relações entre sociedade e natureza é, em todos os lugares habitados, a da substituição de um meio natural, dado a uma determinada sociedade, por um meio cada vez mais artificializado, isto é, sucessivamente instrumentalizado por essa mesma sociedade. (SANTOS, 2002, p. 233)


A intencionalidade da ação humana resulta em um dialogo entre este e o meio natural, uma vez que “... A intencionalidade seria uma espécie de corredor entre o sujeito e o objeto.” (SANTOS, 2002 p. 91) e nesta relação pode-se dizer que “... sujeito e objeto criam-se mutuamente, eles se substancializam um a custa do outro na ‘empriricidade’, onde, sob a ação da forma, revelam-se no evento.” (SANTOS, 2002 p. 92).

Este movimento consciente e voluntário do agente em direção das coisas (Jean-luc Petit, 1990 p.71-72 apud SANTOS, 2001 p.91) resulta também na atribuição de significados e adjetivos ao espaço, i.e., em uma “qualificação do espaço” (SERRA, 1987 p. 29).

Esta atribuição de intencionalidade e significados para com o espaço incorre na possibilidade de, a partir de observaçãoes empíricas, edificá-los e classificá-los em dois grandes grupos: o espaço natural, ou seja, a primeira natureza e o espaço técnico-científico-informacional, i.e., o espaço transformado, artificializado.

Ainda que esta classificação seja perfeitamente aceitável, sua utilização requer bastante cautela visto que é altamente complicado delimitar a fronteira entre um e outro, além do fato de que tal perspectiva pode conduzir a uma relação dicotômica no pensar espacial. Ainda no que concerne à multireferencialidade das relações entre os espaços, impera estar atento para o fato de que “o espaço adaptado, social, humanizado, deve ser entendido como uma composição de relações" (LIPSCHUTZ apud SERRA, 1987 p. 33). Não podemos perder de vista a complexidade existente no meio, atentando não apenas para as relações físicas, mas também para as percepções e representações sociais que configuram a paisagem, sob pena de que, uma vez ignorados estes aspectos, incorre-se no erro de uma abordagem puramente reducionista do espaço.

Nos locais onde ocorre o encontro entre o meio urbano e o rural, o que acontece no caso da presente pesquisa, é comum que surja uma certa dificuldade em realizar uma clara distinção entre os elementos naturais e construídos. É aceito que o campo é o oposto da cidade, contudo, o campo não representa necessariamente a primeira natureza, o selvagem. Assim sendo, nesta perspectiva, o campo não pode ser entendido como a antinomia do urbano, ele é na realidade a “paisagem intermédia”. (TUAN 1980, p. 125)

Esta oposição de idéias entre cidade e natureza surge a partir da tendência de construções binárias inerente à mente humana (TUAN, 1980, p. 18). Além desta antinomia “cidade x natureza” também encontramos em nossas estruturas sócio-culturais várias outras: morte x vida; feminino x masculino; bem x mal; dia x noite etc., de forma que estas polarizações ultrapassam as questões físicas e sociais para se instalarem em nossas percepções de mundo.

Além do trabalho de Yi-Fu Tuan, também encontramos esta perspectiva binária nos trabalhos de Edward Relph, posto que, considerando uma pequena escala de tipologias, o que percebemos como alicerce para a construção de nossos vínculos com o meio “insideness/outsideness” é uma composição binária e antinômica. Tuan (1980, p. 19) apresenta um quadro onde registra algumas polaridades básicas, a partir de onde, considerando-as na perspectiva de um sujeito minimamente situado no lugar é possível relacioná-las aos conceitos de Relph.


Algumas polaridades básicas segundo Yi-Fu Tuan



Biológicas e Sociais

Geográficas

Cosmológicas

Vida/Morte

Terra/Água

Céu/Terra

Macho/Fêmea

Montanha/Vale

Alto/Baixo

Nós/Eles

Norte/Sul

Claridade/Escuro




Centro/Periferia




A analogia entre os conceitos dos dois autores é possível por meio de relações do tipo:

vida=insideness / morte=outsideness; centro=insideness / periferia=outsideness; claridade=insideness / escuro= outsideness. Porém, deve-se salientar que estas construções se dão no nível do sujeito, de acordo com a história de cada ser, sendo aqui apresentadas a título de exemplo.


III - A narrativa de uma pesquisa

Situado no Núcleo Rural Pipiripau-Planaltina-DF, que se encontra localizado na Sub-Bacia Hidrográfica do Ribeirão Pipiripau, o Centro de Ensino Fundamental do Pipiripau II, presta serviços à comunidade nas áreas de Educação Infantil, Ensino Fundamental.

Os profissionais que atuam nesta escola são, em sua maioria, moradores de cidades do entorno do DF, como Formosa-GO e Planaltina-GO, o que os leva a percorrerem uma média aproximada de 30 km de distância para chegarem até a escola.

Embora esteja localizada muito próxima à nascente da Sub-Bacia Hidrográfica do Ribeirão Pipiripau, o Córrego mais próximo à escola encontra-se a uma distância de aproximadamente 500 metros de seu edifício. Em seu entorno próximo também não se observa a existência de cerrado nativo bem preservado, havendo ai o predomínio de pastagens e áreas de cultivo agrícola.



III.1 – A Coleta de dados

O principal instrumento utilizado para a realização da coleta de dados e informações necessárias para o desenvolvimento da pesquisa de campo se deu a partir da execução do Curso Espaço e Lugar – Percepção Ambiental da Sub-Bacia hidrográfica do Pipiripau-DF (40 horas/aula), que contou com a participação de todos os professores e servidores do Centro de Ensino Fundamental do Pipiripau II. A execução desta atividade, aliada ao levantamento bibliográfico da área de estudo, configurou-se como a forma mais adequada para a realização do trabalho.

Durante os encontros, foram realizadas atividades que permitiram o registro escrito das sensações, sentimentos e percepções do grupo quanto ao ambiente escolar e sua área vizinha; a produção de dois mapas coletivos; a realização de debates e construção de conhecimento; a produção de fotografias e a realização de saídas de campo.


III.1.1 - As Narrativas

A partir de uma narrativa, conduzida pelo coordenador da oficina, foi solicitado aos participantes que produzissem um relato escrito, no qual estivessem gravados os elementos relacionados ao espaço, que se encontravam registrados em suas memórias, desde o momento em que despertaram na manhã daquele dia, até a hora em que chegaram à escola, seu local de trabalho.

O roteiro narrativo construído com base na metodologia proposta por Tuan (1980), objetivou registrar informações a respeito das percepções comuns partilhadas pela maioria dos seres humanos – os sentidos – visão, tato, audição, olfato e paladar. Nesta atividade foram trabalhadas questões como a escala de percepção (relação lugar/espaço); fatores de desafio existentes no meio ambiente e relações negativas e positivas de afetividade com este; o valor estético atribuído ao ambiente em questão; e, os vínculos de pertencimento e os significados atribuídos aos elementos ambientais da Sub-Bacia hidrográfica e do espaço escolar.

Esta foi a primeira atividade no sentido de registrar e discutir com o grupo as relações “Topofílicas” dos participantes da pesquisa com aquele ambiente, isto é, segundo Tuan (1980), a manifestação do “amor humano por lugar”.

O eixo condutor para a construção dos relatos se deu entorno do incentivo ao registro de questões opostas, nos aspectos relativos ao espaço e lugar. A relação casa/rua ganhou destaque no sentido do registro de suas proporções. No que se refere à afetividade, estética e transformações antrópicas, buscou-se registrar os aspectos negativos e positivos, i.e., “insideness e outsideness” referentes a esta problemática. Desta forma, foi possível compor alguns elementos referentes às atitudes para com o urbano, o campo e o natural.

Estas questões passam a ser objeto de atenção a partir do momento em que ocorre uma pressão do urbano, ou, como afirma Milton Santos (2002) do espaço técnico-científico-informacional, sobre as áreas naturais. Demanda verificada nos relatos produzidos pelos participantes da oficina, onde, em diversos momentos são utilizados adjetivos pejorativos para qualificarem elementos resultantes do trabalho humano. Porém, esta rejeição aos elementos construídos apresentou caráter contraditório quando comparada a outros aspectos da pesquisa.


As narrativas apresentadas pelos participantes permitem as seguintes observaçãoes:

a) Relação Espaço e Lugar:

Como resposta às perguntas voltadas para o registro dos sentidos e sensações relacionados ao ambiente doméstico, isto é, ao lar, o lugar primeiro de cada indivíduo, as palavras mais recorrentes para se referir a este ambiente foram: casa, acolhedor, fechado, tranqüilo, aconchego e sossego. Ao passo que, tendo sido direcionada a pergunta no sentido de relacionar a casa com a rua, ou seja, o “lugar” com o “espaço”, encontram-se nas respostas, entre outras, as expressões: rua, barulho, movimento, carro, aberto, estrada, agitação e pessoas.

Percebe-se aqui a realização da clara distinção entre espaço e lugar. O Lugar = a casa, surge receado por adjetivos positivos, um ambiente seguro, fechado e tranqüilo que faz contra ponto com o espaço, um ambiente aberto, movimentado e barulhento. A saída de casa, em direção ao trabalho, representa um ponto de ruptura entre uma condição ambientalmente positiva para um campo de movimento e incertezas. Neste momento aparece, pela primeira vez no desenvolvimento da pesquisa, a “estrada”. As vias de trânsito, como se verificará mais a diante neste trabalho, representam um papel muito importante no cotidiano do grupo.

Aqui surgem os primeiros traços de insideness e outsideness existenciais. São registrados os aspectos positivos do lugar mais íntimo do ser, a casa. Este lugar é o responsável pela existência dos adjetivos aconchego, sossego, fechado, seguro etc. e, à medida que os sujeitos saem de casa, percorrendo a estada em direção à escola este insideness existencial vai cedendo lugar para os outsideness. Surge ai um sentido de alienação dos aspectos que configuram o convívio doméstico rumo a uma “estrada” que apresenta características opressivas que já conduzem, no ponto de partida, a um sentimento de nostalgia com relação ao lar.

b) As Estradas

Cem por cento dos participantes da oficina apresenta as estradas como o principal elemento que representa um desafio existente no meio, à qual é evidente a negatividade atribuída aos vínculos com este elemento. Relacionadas às estradas estão as expressões: medo, buraco, distância e lixo. As estradas, com seus traçados retangulares e linhas retas, são aqui vistas como o principal elemento construído pelo homem na paisagem localizada entre a casa e a escola.

Às vias de acesso é atribuída uma larga gama de outsideness, que representam a carga opressiva que esta estrutura suscita. No “percorrer a estrada” os relatos confirmam a presença dos outsideness: existencial, encontrado no desconforto e nostalgia pelo lar; do objetivo, visto em alguns relatos que conduzem á percepção objetivada de algumas relações ecológicas; na descrição paisagística está contida o outsideness incidental. Evidentemente não estamos aqui afirmando que nesta relação estrada/sujeito existam apenas aspectos negativos, mas, sem sombra de dúvidas, os outsideness são os mais freqüentes.

Em contra ponto às estradas, no percurso casa/escola, os elementos naturais como vegetação, córregos e lagos, animais e ar puro se mostraram como fontes inspiradoras de sentimento bucólico de prazer, superando em alguns casos, os desprazeres provocados pela necessidade de se trilhar os perigosos e incômodos espaços de fluxo, sem que estas percepções se transformem necessariamente em insideness. A questão das vias de acesso torna-se recorrente no desenvolver de toda a pesquisa.

c) A Empatia

A plasticidade da composição da paisagem reflete diretamente na forma com que atribuímos valores ao ambiente. Aceitar um lugar como feio ou bonito implica na tomada de posturas diferenciadas entre estes espaços. Neste sentido, as perguntas foram direcionadas para esta questão. Neste exercício, mais uma vez, o grupo atribuiu qualidades positivas aos elementos naturais em detrimento daqueles resultantes da ação do homem.

O belo conduz a uma situação de interesse pelo espaço. A beleza sempre nos “salta os olhos” em qualquer situação. Sendo aqui a natureza empregada como principal fonte de prazer no trajeto para o trabalho, isto significa que os elementos naturais encontram-se ai dotados de um forte sentimento de insideness empático.

Parte do grupo apresenta as plantações de monocultura como elemento mais bonito da paisagem, o que mostra certa desatenção para os danos ambientais em que esta prática resulta.

d) Familiaridade – vínculos de pertencimento

Indagados quanto aos elementos com os quais possuíam maior familiaridade (insideness), e, a respeito dos significados e vínculos de pertencimentos (tipos de insideness) atribuídos a estes, mais uma vez as estradas e seus buracos configuram-se como principais fontes de preocupações, i.e., outsideness. Em seguida os aspectos naturais como córregos e vegetação despontam como temas merecedores de significados positivos importantes para o grupo.

e) O espaço escolar

Uma vez no espaço escolar um dos principais elementos que primeiro chama a atenção dos participantes são as árvores existentes na área, principalmente as mangueiras ali plantadas. A figura dos alunos aparece apenas em um par de relatos. Isto pode se justificar no fato de que quando iniciado o debate a respeito do espaço/lugar, segundo o entendimento do grupo, a referencia estava voltada apenas para os aspectos físicos e biológicos que compõem a paisagem, excluindo-se assim o homem deste arcabouço.

Aqui também, mesmo fazendo menção específica à chegada ao espaço escolar, a questão dos buracos e a poeira na estrada se fazem presente. Alguns relatos apontam a presença dos ônibus escolares da Secretaria de Estado de Educação como sendo um dos elementos mais marcantes deste espaço, pois representa uma vitória da comunidade sobre as dificuldades de locomoção ali existente.

Os relatos apresentados também refletem a diferença de percepção entre os participantes da oficina que podem ser dividido nas categorias “viajante” e “nativos”, conforme classificação proposta por Tuan (1980), que veremos adiante. Como não poderia deixar de ser, aqueles que pertencem à comunidade local trazem para este lugar uma forte conotação existencial (insideness existencial),demonstrando uma íntima relação com o ambiente.

f) Relatos livres

A última questão apresentada no roteiro de perguntas que conduziu o registro por parte do grupo foi realizada de forma aberta: “– Existe algum outro fator a respeito do espaço no qual você vive que gostaria de registrar?”, com o objetivo de dar liberdade às possibilidades de respostas.

Com isto, se verificou que 100% das colocações apresentadas se referiam aos problemas e danos ambientais causados pela ação antrópica na Sub-Bacia Hidrográfica, onde o desmatamento e a poluição das águas representam a esmagadora maioria dos depoimentos.
III.1.2 - A materialidade objetiva do Espaço - A produção de Fotografias
Objetivando realizar um trabalho que possibilitasse o registro direto da realidade do mundo vivido, foi oportunizada aos participantes a produção do registro fotográfico de suas percepções, em especial daquelas referentes à Sub-Bacia Hidrográfica e ao espaço de trânsito casa/escola. A partir desta proposta foram produzidas 125 (cento e vinte e cinco) fotografias.

Em termos percentuais, as principais características das fotos, entre outras, se referem aos fatos de que: 71% delas, segundo a descrição do próprio fotografo, representam predominantemente o meio transformado. Este elemento, ao contrário do que foi apresentado pelo grupo na primeira atividade realizada (produção de narrativa), mostra que a atenção do professor está mais voltada para o ambiente construído, direcionando a este uma maior gama de insideness e significados. Aqui, o meio técnico-científico-informacional apresenta posição de destaque na ordem de prioridade. “A natureza deixou de ser uma parte significativa do nosso meio ambiente” (Ernest Gellner, 1989, apud SANTOS, 2002, p. 239). Estas fotografias indicam ainda a tendência à dominância do espaço transformado na vida das pessoas, “Pelo fato de ser técnico-científico-informacional o meio geográfico tende a ser universal” (SANTOS, 2002, p. 239-240).

Quanto à Localização dos ambientes fotografados, 34% das fotografias foram realizadas fora da Bacia Hidrográfica na qual a escola encontra-se inserida, seguidas por 33% de fotos produzidas dentro da Bacia, porém fora do alcance da influência da área escolar. Do total, apenas 29% mostram a escola e suas adjacências. Isto pode indicar a presença de uma quantidade limitada de relações de significados para com este espaço (insideness), representando uma não conversão do espaço escolar em lugar, na percepção dos que ali trabalham.

Na análise das fotos desta ca-se, ainda, a pequena quantidade, 27%, que representa alguma preocupação com a qualidade ambiental. Neste exercício a estrada também surge como forte elemento significativo para o grupo, uma vez que ela aparece explicitamente em 64% das fotos, e, ainda, 74% das fotos, independente de sua presença, forma produzidas em trânsito, estando o carro em alguns casos em movimento. Neste sentido, os próprios participantes, em 66% dos casos, admitem que suas relações e envolvimento com o ambiente fotografado são de “área de trânsito” Aqui, além de aspectos relativos aos outsideness expressos nas fotos verifica-se também o sentimento de “viajante” (TUAN, 1980) apresentado por boa parte do grupo.

De forma geral, as fotografias apresentam uma carga bastante elevada de outsideness para com o lugar, no caso o ambiente escolar, e até mesmo com a própria bacia hidrográfica. No confronto entre esta atividade e as anteriormente realizadas, se percebe uma certa contradição entre os discursos apresentados e o registro dos espaços e elementos naturais e transformados nas fotografias. O que literalmente “salta os olhos” aqui são as vias de acesso e o olhar desatento para os aspectos diretamente relacionados ao cotidiano escolar.
IV - Algumas Conclusões

Tuan (1980, p. 15) afirma que o meio ambiente artificial que nós, seres humanos, construímos é um resultado dos processos mentais, onde o todo construído se dá no sentido de que nos sintamos mais confortáveis na natureza. Neste sentido entendemos que este conforto ocorre principalmente pela existência das transformações, o que eleva, em certos aspectos, os nossos sentimentos de “insideness” para com o modificado. Nesta pesquisa isso se revelou na medida em que se pôde perceber que os participantes se sentiam mais familiarizados com o espaço modificado, ou seja, a identificação com o urbano se mostrou marcante uma vez que “as cidades representam um ideal humano e ambiental”. (TUAN, 1980, p.173)

O que de fato se comprova, é a invasão do meio técnico cientifico nas percepções de ambiente para os professores. As percepções estão cada vez mais mediadas pelos elementos deste meio, o que lhes empobrece sua visão do meio natural. E este fato, alimenta a sensação de separação entre o individuo e o lugar, aumentando a noção de outsideness a respeito do lugar. Nas situações em que o grau de outsideness é maior que o de insideness, pode-se afirmar que ainda não foi construído o sentimento de “lugar”, já que este implica em elementos de pertencimento, como centro significante da experiência.

O lugar se constrói pela fusão de uma ordem natural (ambiente, natureza) e uma ordem construída (meio técnico cientifico). Quanto maior o envolvimento com os elementos, mais o espaço se converte em lugar. Poder-se-ia dizer que os professores têm mais percepção do espaço e que, portanto, não têm construído uma noção de lugar ao redor da escola. Isto alimenta suas próprias percepções sobre o ambiente e sobre como este conceito é repassado na sala de aula.

No desenvolvimento deste trabalho, na relação espaço/lugar e natural/construído, foi percebido uma maior existência de outsideness que de insideness para com o ambiente escolar, e, assim, não se pode vislumbrar uma real construção ou existência profunda de percepção efetiva daquele lugar. Tudo aqui nos leva a crer que aquele grupo não desenvolveu uma efetiva apropriação do espaço, para assim o converter em lugar.

Nas narrativas apresentadas pode-se observar uma clara tentativa no sentido de definir os espaços vividos entre urbano/rural e natural/transformado. Aos aspectos então considerados naturais invariavelmente foram atribuídos adjetivos de caráter positivo, beirando a visão romântica.

No primeiro momento, é apresentada uma série de elementos que sugerem possíveis “insideness”, o que resultariam em sólidas relações entre os participantes e o meio, porém, com o desenvolver das demais atividades esta situação não se confirmou.

Ainda na relação “Urbano x Natural”, como em quase todas as relações opositivas, encontramos um terceiro termo que se coloca entre estes opostos. Neste trabalho consideramos como “terceiro termo” os espaços de fluxo, que ligam os dois lugares. Este elemento pode ser entendido também como o ponto de intersecção da primeira natureza com a natureza transformada. Aqui, é a “estrada” o principal representante destes espaços, é ela que conduz de um ponto ao outro, tornando-se um recorte especial do espaço para este grupo.

Buscando compreender as relações existentes entre os participantes do trabalho e as oficinas, podemos, salvo algumas exceções, justificar o comportamento de alguns dos componentes do grupo nos tipos de vínculos que estes mantêm com aquele lugar. Uma pequena parcela do Grupo reside na Sub-Bacia Hidrográfica do Ribeirão Pipiripau, já a maioria mora em outras localidades e até mesmo na cidade de Formosa-GO, fora das fronteiras do Distrito Federal. Esta composição de origem de residência acaba por refletir na postura individual das pessoas, de forma que parte destas apresenta uma postura de “visitantes” e outra parcela se mostra como “nativos”. Cabe lembrar que “visitantes” não possuem uma atitude complexa derivada da imersão na totalidade do Meio Ambiente (TUAN, 1980, p. 72).

Para que se consiga uma reversão desta conjuntura, no que se refere a uma polarização “visitante/nativo”, seria necessária a construção de “insideness empáticos”, de forma que, mesmo não pertencendo efetivamente a estes espaço (“ganha pão” conforme depoimento dos participantes) estes sujeitos passem a construir ai relações de significados com o lugar. Nossas percepções, às vezes superficiais e frívolas, se justificam na falta de vínculos com o meio, ao qual só observamos de passagem. “a avaliação do meio ambiente pelo visitante é essencialmente estética” (TUAN, 1980, p. 74). É preciso um esforço especial para provocar empatia com relação a estes ambientes aos quais não fazemos parte.

Contudo, a presença do visitante pode também se converter em uma vantagem para o grupo. Um visitante é capaz de identificar méritos e defeitos em um meio ambiente, que deixaram de ser percebidos pelos nativos (TUAN, 1980, p. 75). Isto pode ser utilizado de forma positiva, trazendo para a comunidade local uma “meta-visão” a respeito daquele lugar, objetivando-o sem perder de vista os cuidados necessários para não torná-lo um mero objeto.

Este comportamento de visitante acaba por ser o reflexo do que Relph chamou de “outsideness incidental” (incidental outsideness), onde o indivíduo não volta suas atenções e preocupações para com o ambiente, visto que, em estando sempre de passagem, a paisagem também apenas passa por ele, não merecendo assim maior interesse. Este tipo de Outsideness é bastante evidente no grupo, uma vez que a maior parte dos participantes se vê obrigada percorrer as estradas de asfalto e terra para poder chegar até à escola. Nesta trajetória, seu contato com o meio se restringe apenas à visão através das janelas do carro.

Percebe-se assim, que é papel da escola proporcionar outro tipo de encontro com o ambiente natural, por meio do desenvolvimento de atividades não apenas exploratórias, mas também lúdicas, que possibilitem, neste caso, primeiramente ao professor, uma confluência mais suave, capaz de levá-lo a refletir e se sentir parte integrante deste contexto.

Esta ampliação do interesse pelo lugar, possibilita a construção de laços empáticos com o ambiente, já que o professor, no ato de vivenciar este espaço, abre lugar à existência do “insideness empático”, tornando as relações mais verdadeiras e próximas às realidades locais. Isto se traduz em uma maior interação escola/comunidade/lugar, retirando deste trinômio as porosidades capazes de permitir a instalação de práticas alienadas às demandas ambientais ai existentes.

Tuan (1980, p. 111) apresenta uma idéia que podemos lançar mão neste caso. Ele nos mostra uma forma capaz de exercitar a construção de um posicionamento empático com o meio. Uma proposta simples e de grande valia seria, literalmente, adotar uma postura infantil perante o ambiente:

O divertimento infantil com a natureza atribui pouca importância ao pitoresco. (...) A natureza produz sensações deleitáveis à criança, que tem mente aberta, indiferença pelas regras de beleza definidas. O adulto deve aprender a ser complacente e descuidado como uma criança, se quiser desfrutar polimorficamente da natureza.


Bibliografia

CASTROGIOVANNI, Antônio Carlos (org.) – Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano – Porto Alegre: Mediação, 2000.

ARCHELA, Rosely S.; GOMES, Marquiana F. V. B. Geografia para o ensino médio : Manual de aulas práticas. Londrina: UEL, 1999.

LENCIONI, Sandra – Região e Geografia. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo, 2003. (Acadêmica; 25)

_______________. A natureza do espaço – Técnica e tempo; razão e emoção. São Paulo, Hucitec, 1996.

LEFF, Enrique: Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder –Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

NOGUEIRA, Amélia Regina Batista – in Geografia, Ciência do Complexus: Ensaios transdisciplinares (org. Aldo A. Dantas da Silva e Alex Galeno), Porto Alegre: Sulina, 2004.

TUAN, Yi-Fu (1980) Topofilia – um estudo da Percepção, Atitudes e Valores do meio ambiente. São Paulo/Rio de Janeiro: Ed. Difel (Trad. Lívia de Oliveira).

__________ (1983) Espaço e Lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Ed. Difel.

PLANO DE PROTEÇÃO AMBIENTAL DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIBEIRÃO PIPIRIPAU -Diagnóstico Ambiental - CAESB - Companhia de Saneamento do Distrito Federal, Governo do Distrito Federal, 2001.

SEAMON, David - A Singular Impact: Edward Relph’s Place and Placelessness - Environmental and Architectural Phenomenology Newsletter, vol. 7, no. 3, 1996, p. 5-8

_________________ - Phenomenology, Place, Environment, and Architecture: A Review of the Literature - In “A Way of Seeing People and Place: Phenomenology in Environment-Behavior Research,” publicado em S. Wapner, J. Demick, T. Yamamoto, and H Minami (Eds.), Theoretical Perspectives in Environment-Behavior Research (pp. 157-78). New York: Plenum, 2000.







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