O atleta Desaparecido



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O Atleta Desaparecido

HARLAN COBEN O Atleta Desaparecido Tradução de Eduardo Saló Círculo de Leitores

Título original: FADE AWAY Capa: JOÃO ROCHA Foto da capa: PHOTODISC ISBN 972-42-3311-1 Copyright © 1996 by Harlan Coben Impresso e encadernado para Círculo de Leitores por Companhia Editora do Minho, SA Barcelos em Dezembro de 2004 Número de edição: 6117 Depósito legal número 218 074/04

Para Larry e Craig, os melhores irmãos que um tipo podia desejar. Se não acreditam, perguntem-lhes.

O autor deseja agradecer às seguintes pessoas pela sua ajuda: Dra. Anne Armstrong-Coben; James Bradbeer, Jr., da Lilly Pulit-zer; Dr. David Gold; Maggie Griffin; Jacob Hoye; Lindsay Koeh-ler; David Pepe, da Pro Agents, Inc.; Peter Roisman, da Advanta-ge International; e, claro, Dave Bolt. Quaisquer erros — de factos ou outra natureza — são totalmente da culpa deles. O autor não tem qualquer responsabilidade nisso.



  • CAPÍTULO 1 — Porta-te como deve ser. — Eu? — estranhou Myron. — Sou sempre um encanto.
    Myron Bolitar era escoltado através do corredor mal iluminado do Pavilhão Desportivo de Meadowlands por Calvin Johnson,
    o director técnico dos Dragons de Nova Jérsia. Os tacões dos quatro sapatos produziam um ruído seco nos ladrilhos, que ecoava ao
    longo do espaço, agora vazio, onde se situavam postos de venda
    de comida de Harry M. Stevens, carrinhas de gelados Carvel Ice,
    máquinas de aperitivos e barracas de recordações. O odor dos cachorros-quentes dos eventos desportivos — aquela espécie de
    cheiro a borracha, química embora nostalgicamente delicioso —
    irrompia das paredes. A quietude do local dominava-os: não há
    nada mais oco e destituído de vida que um recinto desportivo vazio Calvin Johnson deteve-se diante de uma porta de acesso a um camarote de luxo. , — Tudo isto pode parecer um pouco estranho — observou. — Deixa-te arrastar pela corrente, hem? Pois sim. Estendeu a mão para o puxador e encheu os pulmões de ar. O Clip Arnstein, dono dos Dragons, está aí dentro a nossa espera. — Apesar disso, não estou a tremer — retorquiu Myron. O outro abanou a cabeça. Basta que não faças figura de parvo. Myron apontou para o peito. Pus gravata e tudo.

Calvin Johnson abriu a porta. O camarote de luxo encontrava-se virado para o meio-campo. Vários operários assentavam o piso para os jogos de basquetebol por cima do gelo do hóquei. Os Devils haviam jogado na véspera. Naquela noite, era a vez dos Dragons. O camarote podia considerar-se confortável. Vinte e quatro lugares almofadados. Dois monitores de televisão. A direita, havia um balcão de madeira para a comida: em geral, frango assado, cachorros-quentes, batatas fritas às rodelas, sanduíches de salsichas com pimentos e coisas do género. A esquerda, via-se um carrinho metálico com um bar razoavelmente abastecido e um minifrigorífico. O camarote dispunha igualmente de instalações sanitárias privativas; assim, as altas esferas da corporação não precisavam de ir urinar com os seres anônimos. Clip Arnstein aguardava-os, de pé. Usava fato azul-escuro e gravata vermelha. Era calvo, com tufos de cabelos grisalhos acima das orelhas, e corpulento, com um tronco ainda muito semelhante a um barril, apesar dos seus setenta e tal anos. As largas mãos exibiam manchas castanhas e veias azuis volumosas como mangueiras de jardim. Ninguém pronunciou uma única palavra. Nem se moveu. Clip fitou Myron com intensidade durante alguns segundos e inspeccionou-o da cabeça aos pés. — Gosta da gravata? — acabou por perguntar Myron.
Calvin Johnson lançou-lhe um olhar de aviso. O homem mais velho não efectuou o menor movimento em direcção aos recém-chegados. Que idade tem, Myron? Uma pergunta inicial interessante. Trinta e dois. Pratica desportos? Alguns. Mantém-se em forma? Quer que faça algumas flexões? Não, é desnecessário. Ninguém ofereceu uma cadeira a Myron e mantinham-se todos de pé. É claro que os únicos assentos eram os dos espectadores, mas mesmo assim parecia estranha a posição erecta numa reunião de negócios em que todos os participantes costumam estar sentados. Myron denotava uma ponta de nervosismo. Não sabia o que fazer com as mãos. Puxou de uma esferográfica e manteve-a entre os dedos, mas pareceu-lhe uma atitude algo forçada. Demasiado ao estilo de Bob Dole. Por fim, enfiou as mãos nas algibeiras e conservou-se com uma inclinação pouco comum. 8

Temos uma proposta interessante para lhe apresentar, Myron — disse finalmente Clip Arnstein. Proposta? — O interrogatório de sondagem nunca faltava. Sim. Fui eu que o recrutei, como sabe. —É verdade. Há uns dez, onze anos. Quando estava nos Celtics. É verdade. Logo à primeira escolha. Estou ao corrente de tudo isso, Mister Arnstein. Você era uma promessa óbvia. Arguto. Tinha um toque de bola incrível. Um poço de talento. Podia ter sido uma estrela. Arnstein enrugou a fronte. Tratava-se da sua famosa expressão facial, desenvolvida durante mais de cinqüenta anos no basquete profissional; fizera a sua primeira aparição quando ele jogava no actualmente defunto Royals de Rochester, nos anos quarenta, e criara fama na altura em que treinava os Celtics de Boston para numerosos campeonatos. Convertera-se na sua lendária imagem de marca, ao conseguir importantes aquisições como presidente da equipa. Três anos atrás, tornara-se sócio maioritário dos Dragons de Nova Jérsia e a expressão enrugada residia agora em East Ru-therford, logo após a Saída da Auto-Estrada de Nova Jérsia. Trata-se de alguma frase do Brando? — perguntou em voz rouca. Estranho, não lhe parece? É como se o Marlon estivesse aqui na sala. O semblante de Clip Arnstein suavizou-se subitamente e inclinou a cabeça devagar, ao mesmo tempo que dirigia os olhos a Myron, agora com uma expressão paternalista. Profere tiradas irônicas para encobrir a mágoa — declarou com gravidade. — Compreendo. Posso ser-lhe útil de algum modo, Mister Arnstein? Nunca participou num único jogo profissional, pois não, Myron? Sabe perfeitamente que não. Clip aquiesceu, com um movimento de cabeça. A sua primeira partida antes do início da época. Conseguiu marcar dezoito pontos. Foi então que o destino interveio. O destino assumira a forma do possante Burt Wesson, dos Bullets de Washington. Registara-se uma colisão, uma dor aguda e depois nada. 9



Uma coisa terrível — reconheceu Clip. Sem dúvida. Ainda hoje me impressiona recordar isso. Uma verdadeira desgraça. Myron dirigiu uma mirada fugaz a Calvin Johnson, que parecia mais interessado no que se passava no campo, de braços cruzados sobre o peito e o rosto convertido numa lagoa de placidez. Sem dúvida — repetiu Myron. É por isso que gostava de lhe conceder uma nova oportunidade. Iria jurar que tinha ouvido mal. — Desculpe?... — Há uma vaga na equipa e eu desejava contratá-lo.
Aguardou em silêncio. Começou por olhar para Clip e depois para Calvin Johnson, mas nenhum dos dois se ria. Onde é que ela está? — acabou por perguntar. Quem? A câmara. Estamos num dos programas de câmara oculta, não? Apanhados, é? Aquele em que intervém o Ed McMahon. Admiro o seu trabalho. Não se trata de uma brincadeira, Myron. Tem de ser, forçosamente, Mister Arnstein, pois há dez anos que não participo em provas oficiais. Esmaguei o joelho, recorda-se? Muito bem. Mas, como diz, já lá vão dez anos. Sei que freqüentou sessões de reabilitação para o reconstruir. E decerto também está ao corrente de que tentei regressar às competições. Há sete anos. Só que o joelho não agüentava. Era cedo de mais — persistiu Clip. — Você acaba de dizer que voltou a jogar. — Encontros fortuitos aos fins-de-semana. Há uma diferença.
Clip refutou o argumento com um gesto largo. — Está em forma. Ainda há pouco se ofereceu para fazer flexões... Os olhos de Myron semicerraram-se e moveram-se de Clip para Calvin Johnson e de novo para aquele, ambos exibindo semblantes neutros. — Porque será que tenho a sensação de que está a escapar-me
alguma coisa? 10

Clip sorriu finalmente e pareceu consultar Calvin Johnson com o olhar, a que este correspondeu com uma leve expressão de mordacidade. Eu talvez devesse ser menos... — Clip fez uma pausa, em busca do termo apropriado. — Menos opaco... Sempre seria uma ajuda. — Quero-o na equipa. Importa-me pouco se joga ou não.
Myron voltou a aguardar. Quando viu que ninguém continuava, observou: — Continua a ser tudo um pouco opaco. Clip expeliu o ar ruidosamente, dirigiu-se ao bar, abriu o pequeno frigorífico semelhante ao dos hotéis e pegou numa lata de Yoo-Hoo. A armazenar Yoo-HooP. Pois, tinha-se preparado. Continua a beber esta porcaria? Receio bem que sim — confirmou Myron. Clip atirou-lhe a lata e verteu algo de uma garrafa de vidro lapidado para dois copos, um dos quais entregou a Calvin Johnson. Em seguida, indicou as cadeiras junto da janela de vidro. Exactamente a meio do campo. Muito conveniente. E com espaço para as pernas. O próprio Calvin, que media cerca de dois metros de altura, podia estendê-las quase totalmente. Os três homens sentaram-se junto uns dos outros, todos voltados para o mesmo lado, o que mais uma vez parecia forçado numa reunião de negócios. Deviam era instalar-se frente a frente, de preferência a uma mesa ou em torno de uma secretária. Ao invés, encontravam-se instalados ombro a ombro, a observar os operários que colocavam o piso no rectângulo. — A nossa — brindou Clip. E ingeriu parte do uísque. Calvin Johnson limitava-se a segurar o copo, enquanto Myron, em obediência às instruções na lata,
agitava o Yoo-Hoo. Se não estou enganado, você tornou-se advogado — disse Clip. Sou membro da ordem — assentiu Myron. — Mas é raro exercera profissão. E agente desportivo. Sim. Não confio neles. Nem eu. Na sua maioria, chupam o sangue como sanguessugas. Preferimos a expressão «entidades parasitárias» — explicou Myron. — é mais delicada. 11

Clip inclinou-se para a frente e cravou o olhar nele. Quem me garante que posso confiar em si? O interpelado apontou para si próprio. A minha cara. É toda honestidade. No entanto, o outro não sorriu e inclinou-se um pouco mais. O que vou dizer deve manter-se inteiramente confidencial. Muito bem. Dá-me a sua palavra de que nada transpirará destas quatro paredes? Totalmente. Clip hesitou, desviou os olhos fugazmente para Calvin Johnson e mudou de posição na cadeira. — Suponho que conhece o Greg Downing?


Naturalmente. Myron crescera com Greg Downing. A partir do momento em que haviam competido pela primeira vez num jogo da liga regional a menos de quarenta quilômetros do local onde Myron agora se sentava, tinham-se tornado rivais. Ao entrar para o liceu, a família de Greg mudara-se para a localidade próxima de Essex Fells, porque o pai não queria que o seu rapaz partilhasse os êxitos do basquetebol com Myron. A rivalidade pessoal começou então a assumir um clima mais intenso. Defrontaram-se oito vezes no liceu e cada um venceu quatro. Tornaram-se então os recrutas mais cobiçados e ambos se matricularam em universidades importantes no mundo daquela modalidade, com uma rivalidade histórica própria: Myron na Duke e Greg na da Carolina do Norte. A rivalidade pessoal atingiu o auge. Durante as suas carreiras universitárias, partilharam duas capas da Sports Mustrated. Ambas as equipas venceram a ACC por duas vezes, mas Myron conquistou um campeonato nacional. Foram ambos nomeados como atletas do mais alto nível. Quando se formaram, as universidades de Duke e da Carolina do Norte haviam-se enfrentado doze vezes, e a primeira, sob a «batuta» de Myron, venceu oito. Quando chegou o momento da escolha de membros para a NBA, ele e Greg ingressaram imediatamente. A rivalidade pessoal desmoronou-se e extinguiu-se. A carreira de Myron chegou ao fim quando ele colidiu com o enorme Burt Wesson, enquanto Greg Downing cortava as voltas ao infortúnio e convertia-se num dos primeiros praticantes da modalidade. Durante a permanência de dez anos nos Dragons de 12

Nova Jérsia, fora convocado para a equipa da All-Star oito vezes; comandara a liga e vencera quase todos os jogos. Figurara em três capas da Sports Illustrated e conquistara um campeonato da NBA. Sim, conheço-o — afirmou Myron. Vêem-se com freqüência? Não. Quando se falaram pela última vez? Não me lembro. Em dias recentes? Creio que foi há mais de dez anos. Hum... — Clip voltou a levar o copo aos lábios, enquanto Calvin ainda não tocara na sua bebida. — Suponho que soube da lesão dele? — Qualquer coisa no tornozelo. Isolou-se para se submeter ao tratamento. Clip assentiu com uma inclinação de cabeça. Pelo menos, foi a versão que revelámos aos órgãos da comunicação social. Mas não corresponde exactamente à verdade. Não? O Guy não se magoou. Desapareceu. Desapareceu? — A estranheza, mais uma vez. Sim. Tornou a levar o copo aos lábios e Myron imitou-o, com a lata de Yoo-Hoo. Desde quando? Faz agora cinco dias. Desviou os olhos para Calvin, que permanecia impávido, mas o rosto prestava-se a isso. Nos tempos em que jogava, chamavam-lhe «Glacial», porque nunca deixava transparecer emoções. Naquele momento, confirmava-o plenamente. Myron voltou a tentar. Quando diz que o Greg desapareceu... Esfumou-se — redarguiu Clip. — Extinguiu-se. Sem deixar vestígios. Chame-lhe o que quiser. Informou a Polícia? Não. Porquê? Fez um gesto largo. — Você conhece-o. Não é um tipo convencional.


O que equivalia a ficar muito aquém da verdade.

Nunca faz o que se espera — continuou Clip. — Detesta a fama. Gosta de actuar por sua conta e risco. Até já desapareceu antes, embora nunca durante um período de plena actividade. E daí? Daí que existem fortes possibilidades de estar a atravessar uma das suas fases de isolamento. Ele joga maravilhosamente, mas, encaremos a realidade, tem desvios, chamemos-lhe assim, incompreensíveis. Sabe o que o Downing costuma fazer, depois dos jogos? Myron abanou a cabeça. Conduz um táxi no centro da cidade. Sim, isso mesmo: o raio de um táxi amarelo nas artérias da cidade de Nova Iorque. Diz que isso o mantém mais próximo do homem comum. O Greg não se dedica a aparições em público, nem dá autógrafos. Nunca concede entrevistas. Nem sequer recorre a acções de caridade como meio publicitário. Veste como uma personagem de comédia dos anos setenta. Sim, o indivíduo é um pouco excêntrico. O que, tudo reunido, o torna imensamente popular junto dos admiradores — afirmou Myron. — Situação ideal para aumentar a venda de bilhetes. Concordo, mas isso só serve para confirmar o meu ponto de vista. Se chamarmos a Polícia, arriscamo-nos a destruir-lhe a popularidade e a prejudicar a equipa. Imagine o circo que a comunicação social armava se isto transpirasse. Sim, não seria vantajoso para ninguém. Nem mais. E suponhamos que ele se encontra simplesmente em French Lick ou na aldeia em que se costuma refugiar para pescar, no período de férias? Nunca mais nos livrávamos das repercussões, se isso chegasse ao conhecimento dos meios de comunicação. Por outro lado, imaginemos que tem alguma coisa em mente. Alguma coisa em mente? Bolas, que sei eu? Estou apenas a admitir possibilidades. Mas um escândalo é o que menos me agradaria. Sobretudo agora. Vêm aí os jogos decisivos, e você não precisa que eu lhe descreva as conseqüências. Na realidade, Myron talvez precisasse, mas não forçou a nota naquele momento. — Quem mais está ao corrente? 14



— Só nós os três. Os funcionários começaram a instalar os cestos. Havia dois de reserva, para a eventualidade de algum se inutilizar com um encestamento mais violento. Depois, passaram a colocar assentos adicionais. A semelhança da maioria dos recintos desportivos, o de Meadowlands tinha mais lugares para o basquetebol do que para o hóquei, neste caso, cerca de mais um milhar. Myron tornou a recorrer ao Yoo-Hoo e deixou o líquido rolar em torno da língua antes de o engolir, após o que fez a pergunta óbvia: — Qual é o meu papel no assunto? Clip hesitou. A sua respiração tornou-se mais profunda, quase difícil. — Conheço um pouco as suas antigas actividades no FBI —
acabou por declarar. — Sem pormenores, claro. Nem sequer boatos, mas o suficiente para saber que alcançou alguns êxitos. Queremos que encontre o Greg. Discretamente. Myron conservou-se calado. Afigurava-se-lhe que o seu trabalho «encoberto» para os federais constituía o segredo mais mal guardado dos Estados Unidos. Clip recorreu mais uma vez ao copo, após o que fixou o olhar na bebida intacta de Calvin, antes de o erguer para este último, o qual acabou por ingerir um trago. Em seguida, Clip voltou a concentrar-se em Myron. Entretanto, o Greg divorciou-se e tornou-se basicamente um lobo solitário. Todos os seus amigos... ou melhor, conhecidos... são os companheiros de equipa. Constituem, por assim dizer, o seu grupo de apoio. A sua família. Se alguém sabe onde ele se encontra... ou o ajuda a manter-se oculto... tem de ser um dos elementos dos Dragons. Vou ser franco consigo. Esses tipos são uns chatos, fulanos mimados convencidos de quera nossa finalidade na vida consiste em servi-los. Mas têm um factor comum. Encaram a direcção como o inimigo. Nós contra o mundo e todas essas tretas. Não nos revelam a verdade. Nem aos repórteres. E se você os abordar como uma... digamos... «entidade parasitária», também não dirão uma única palavra. Tem de ser jogador. E a única maneira de conseguir chegar lá dentro. Por conseguinte, quer que eu me integre na equipa para poder localizar o Greg. Myron detectou ecos de melindre nas suas palavras. Não o fez intencionalmente, mas viu que os outros dois homens também se aperceberam e corou de embaraço. 15

— Fui sincero nas minhas palavras — afirmou Clip, pousando-lhe a mão no ombro. — Você poderia ter sido um excelente


jogador. Um dos maiores. Myron tornou a recorrer à lata de Yoo-Hoo, desta vez com um gole prolongado. Lamento, Mister Arnstein, mas não posso ajudá-lo. Hem? — A carranca reapareceu. Tenho a vida organizada. Sou agente desportivo. Preciso de cuidar dos meus clientes. Não os posso largar assim de repente. Receberá o salário mínimo de jogador. Ou seja, duzentos mil dólares, mais coisa menos coisa. E faltam apenas duas semanas para os jogos decisivos. Mantê-lo-emos sob contrato o tempo que for necessário. Não. Os meus dias de jogador terminaram. E não sou um detective privado. Mas precisamos de encontrar o Greg. Pode estar em perigo. Lamento, mas a minha resposta é negativa. Clip esboçou um sorriso. E se eu acrescentar mais qualquer coisa? Não. Cinqüenta mil como bônus. Sinto muito. O Greg pode aparecer amanhã e você continuaria a embolsar as quantias que acabo de mencionar. Cinqüenta mil das grandes. Além de parte do dinheiro do jogo. Não. Reclinou - se na cadeira, cravou o olhar na bebida, mergulhou um dedo e agitou-a. - Disse que era agente desportivo? Exacto. Mantenho relações cordiais com os pais de três tipos que entrarão na primeira competição. Sabia? Não. Suponha — continuou pausadamente — que lhe garanto que um deles assinará um contrato consigo. Myron arrebitou as orelhas. Um participante na primeira competição... Tentou manter uma expressão neutra, como o «Glacial», mas o coração palpitava desordenadamente. - Como espera conseguir isso? 16

Não se preocupe com os pormenores. Não me parece correcto eticamente. Clip fungou com desdém. - Não arme em menino do coro comigo. Faça-me este favor
e a sua agência desportiva, a MB SportsReps, fica com clientes de
primeira escolha. Independentemente de como o assunto do Greg
se solucionar. A MB SportsReps. A agência desportiva de Myron. Myron Bolitar, ergo «MB». Agente ou representante de pessoas ligadas ao ergo «SportsReps». Tudo junto dava MB SportsReps. Ele escolhera a designação por inspiração própria, mas, apesar disso, ainda nenhuma empresa de publicidade solicitara os seus serviços. - Ponhamos cem mil como bônus — contrapôs.
Clip sorriu. - Você já a sabe toda, Myron. — Fez uma pausa, enquanto
Myron encolhia os ombros. — Digamos setenta e cinco mil. E vai
aceitar, pelo que não perca tempo a querer intrujar um perito em
intrujice. Os dois homens apertaram a mão. - Queria fazer mais uma ou duas perguntas sobre o desaparecimento — disse Myron. Servindo-se dos braços da cadeira para se apoiar, o outro levantou-se e pareceu que surgira um gigante. - O Calvin esclarecerá todas as suas dúvidas — informou, inclinando a cabeça para o dirigente do seu clube. — Agora, tenho
de me retirar. Quando quer que comece a treinar? Pareceu surpreendido. Treinar? Sim. Quando devo principiar? Temos um encontro, esta noite. Esta noite?! Com certeza. Quer que alinhe logo? Actua a nossa velha formação dos Celtics. O Calvin providenciará para que você tenha um equipamento completo, à hora do jogo. Há uma conferência de imprensa às seis para anunciar a sua aquisição. Seja pontual. — Começou a dirigir-se para a porta. — E use essa gravata. Agrada-me. Esta noite? — repetiu Myron, mas Clip já desaparecera. 17

CAPÍTULO 2 Depois de Clip se retirar, Calvin Johnson permitiu-se um ligeiro sorriso. Eu preveni-te de que seria estranho. Extraordinariamente estranho — concordou Myron. Terminaste a tua nutritiva bebida de chocolate? O interpelado pousou a lata. Sim. — Então, vem daí. Tens de te preparar para o grande début. Calvin Johnson caminhava com desembaraço, a coluna vertebral bem erecta. Era negro, com dois metros e dez centímetros de altura, magro, embora não demasiado, de compleição bem-proporcionada. Usava um fato completo cor de azeitona da Brooks Brothers, de corte impecável, gravata com o nó bem centrado e sapatos reluzentes. O cabelo começava a escassear, o que tornava a fronte proeminente e brilhante. Quando Myron se matriculara na Duke, ele freqüentava o último ano da Universidade da Carolina do Norte, o que o levava a concluir que rondava os trinta e cinco anos, embora parecesse mais velho. A sua carreira de jogador profissional prolongara-se por mais de onze épocas. Quando abandonara a actividade, três anos antes, toda a gente sabia que ocuparia um lugar cimeiro na hierarquia. Começou como treinador adjunto, passou ao departamento dos jogadores profissionais e recentemente havia sido promovido a vice-presidente e director técnico dos Dragons de Nova Jérsia. Tudo isto, porém, não passava de títulos, pois quem dirigia o espectáculo era Clip. Os vice-presidentes, dirigentes, chefes do pessoal e treinadores curvavam-se à sua vontade. — Espero que te dês bem nisto — observou Calvin. 18

— Porque não havia de me dar?
Encolheu os ombros. —Joguei contra ti. — E daí? Eras o filho da mãe mais competitivo que jamais defrontei, capaz de pisar os calos fosse a quem fosse para vencer. Agora, vais tornar-te um membro permanente do banco de suplentes. Como te adaptarás? Cá me governarei. Hum... Suavizei-me com a passagem dos anos. Meneou a cabeça com veemência. Não acredito. Não? Podes estar convencido disso. Podes mesmo julgar que eli-minaste o basquetebol do teu aparelho circulatório... E eliminei. Sorriu, agora abertamente, e abriu os braços. — Pois eliminaste... Basta olhar para ti. Podias figurar num
pôster como a imagem do velho campeão. Um belo exemplo para
os outros atletas. Toda a tua carreira se desmoronou de um dia
para o outro, mas ergueste-te para enfrentar o desafio. Regressaste
aos estudos... nada menos que para freqüentar Direito em Har-
vard. Iniciaste o teu próprio negócio, uma empresa em expansão
no campo da representação desportiva. Ainda andas com aquela
escritora? Calvin referia-se a Jessica. As suas relações pareciam sempre em clima periclitante, mas Myron respondeu que sim. — Dispões, portanto, de educação, trabalho e uma moça
atraente. Sim, para um observador do exterior, pareces feliz e bem
adaptado. E do interior também. Calvin sacudiu a cabeça. Não me cheira. Todos se julgavam psicólogos. — Não pedi para ser incluído na equipa. — Pois não, mas também não te opuseste... excepto para



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