O bastardo Da Rainha



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O Bastardo Da Rainha

Robin Maxwell
1999

LIVRO UM
Capítulo 1
Meu pai está morto e a minha mãe é a rainha de Inglaterra.

A caligrafia na primeira página do diário de couro azul era vigorosa no traço e de desenho simples. O autor, um homem alto e de porte poderoso, olhava fixamente para lá da vasta imensidão do mar, com o seu cabelo vermelho-dourado chicoteando vivamente à volta de um maxilar de ossos salientes. A cara era profundamente vincada e com um enrugado bonito, com olhos semi-cerrados negros que brilhavam com uma fina inteligência. À medida que ele equilibrava o volume que segurava em cima dos joelhos, esperava que o oceano permanecesse calmo assim como os ventos, porque não estava habituado a uma tal escrita, e já era bastante difícil entregar os seus pensamentos ao papel sem este navio balançante mandando o seu tinteiro em vôo ou as páginas a pairar na brisa.

Lá ao fundo, a estibordo, um bando de gaivotas em formação irregular atraiu o seu olhar. Provavelmente dirigindo-se às ilhas Canárias, pensou, mas a uma longa distância para as gaivotas estarem longe da terra. Mergulhando a pena no tinteiro apoiado no joelho, começou novamente, avaliando cada palavra antes de a registrar na página de velino.

O meu nome é Arthur Dudley, escreveu ele. Estas são palavras que soam aos meus próprios ouvidos como estranhas e desajeitadas, mas não obstante são boas e verdadeiras. Aquilo que se segue não é um diário, pois até aos acontecimentos de há vários anos passados, eu pensara tão pouco sobre a minha vida e condição que o conceito de ter um diário não tinha sequer perpassado pela minha cabeça uma única vez. Em lugar disso, este documento constitui os vinte e sete anos da minha história, o melhor que me ocorre deles. Uma memória. É bizarro que uma vida tão simples como a minha seja merecedora de recordação. Mas como disse, sou o filho de uma rainha e, conseqüentemente, mencionável.

O ranger das velas na mezena à medida que o vento mudava puxou-o rispidamente de volta ao tombadilho, onde àquela hora, o Sol mergulhava no horizonte ocidental. Procurou o bando de gaivotas, mas elas já não estavam a estibordo, nem sequer mais à frente para onde ele pensava que elas se teriam dirigido. Como podia isto ser? As aves estiveram no ar momentos  10 antes. Esquadrinhou o céu à sua volta. Ali! O bando era uma mancha que diminuía ainda a voar baixo, mas a bombordo.

- Estive perdido - disse Artur a si próprio -, perdido nas palavras que escrevia.

O tempo, percebeu ele num tormento, tinha-se simplesmente esvaído, desaparecido enquanto ele se encontrava na escravidão da memória - um pouco de mágica natural.

Arthur Dudley sorriu com este pensamento. Em cada dia da sua viagem para o Novo Mundo podia escrever a sua vida, e durante esses curtos momentos tornar-se-ia um prestidigitador do tempo.

 

Capítulo 2
- Ele está aqui, Majestade. - A voz de Kat Ashley era grave, e ela não fazia qualquer tentativa para esconder o seu desagrado. A dama de companhia, de cinquenta e dois anos, observava com irritação que a jovem rainha, que agora se enfeitava em frente à mesinha do toucador, se importava igualmente pouco em suprimir o seu agrado. - Se não se importa que eu o diga, Madame...

- Mas eu importo-me, Kat, importo-me mesmo muito. Não tenho qualquer necessidade de ser recordada do escândalo à volta da morte de Amy Dudley. Já o conheço bastante bem.

Kat Ashley resmungou.

- O vosso favorito bem veste o seu preto de luto, mas pavoneia-se de um lado para o outro, um pavão todo fino e a brilhar de boa saúde, como um homem que acaba de voltar dos banhos em lugar de um viúvo vindo de um funeral, para não dizer um suspeito num inquérito de homicídio.

- Gostarias então de ver o meu leal amigo com um ar cinzento e doente?

- Nunca, Majestade.

- Kat apercebeu-se que vencer uma argumentação com a rainha era impossível.

- Nunca em mil anos.

Devo fazê-lo entrar no aposento?

- Não... é só mais um momento.

Isabel verificou-se a si própria no espelho com moldura de prata e rezou para que o seu nervosismo não fosse aparente. Tinha suficiente bom ar. Os três meses de ausência forçada do seu amante - forçada por ela tinham sido um esforço, certamente. Ela tinha sofrido mais do que a sua quota-parte de enxaquecas e dores de cabeça. Mas agora os seus olhos brilhavam, a sua pele estava formosamente pálida e opalescente, e o cabelo vermelho-ouro era uma auréola ondulada à volta do rosto perfeitamente oval.

Os longos e graciosos dedos de Isabel procuraram inconscientemente um grande medalhão de prata que usava ao pescoço, um que tinha recentemente adotado nas suas vestes, e segurou-o para se sentir mais confortável. Não era uma qualquer ninharia vulgar, este, mas sim uma lembrança valiosa. Ninguém sabia que dentro dele se aninhava uma miniatura da sua mãe há muito morta, Ana Bolena, e um caracol do cabelo sedoso dessa senhora. O seu vestido de tafetá negro e brocado aumentava a alvura da carne da Rainha, mas neste dia a escolha de vestuário foi ditada não pela vaidade, mas por respeito pela morta - Amy Dudley - e pelo regresso à corte do marido de Amy. O favorito de Isabel. O seu mestre-de-picadeiro. O seu amado. Robin Dudley.

Isabel levantou-se da sua mesa de toucador. Era alta para mulher, quase anormalmente alta, mas o seu pai, o rei Henrique, tinha sido um homem gigantesco. Era delgada como uma cana, e os fixadores e suportes do seu pesado vestido mantinham-lhe o torso rígido. As únicas tolerâncias para efeitos de graciosidade eram os braços e mãos, o pendor da cabeça, e a rica e modulada voz.

- Este será o último dia de vestuário de luto - anunciou ela subitamente a Kat Ashley. - Que Lady Sidney providencie o meu guarda-roupa depois de ter tido um momento para cumprimentar o seu irmão.

- Sim, Madame. E que vestido desejará Vossa Majestade utilizar primeiro - perguntou Kat, com a voz ácida de sarcasmo -, o escarlate?

- Katherine Ashley! - Os olhos de Isabel faiscavam furiosamente.

- Vou mandar entrar Lord Robert - murmurou a dama de companhia impenitente e saiu muito depressa dos aposentos da Rainha.

Fora o mais longo período de tempo que Isabel estivera sem ele. Desde a sua subida ao trono dois anos antes, ela insistira que Robin, o seu querido amigo desde os oito anos de idade, estivesse a seu lado continuamente. A sua nomeação como mestre-de-picadeiro tinha garantido a sua companhia de perto, e o caso de amor apaixonado dos dois tinham-no transportado numa grande vaga de engrandecimento pelas mãos dela. Mas conquistara-lhe mais inimigos ciumentos na corte do que amigos. Ele tinha, não obstante, agüentado a sua ascensão com boa natureza e uma espantosa graça, e apesar das setas e críticas vindas de todas as direções, Isabel nem uma vez havia questionado o seu amor e lealdade.

Então a mulher dele Amy morrera em circunstâncias misteriosas, e o odiado cortesão caíra sob suspeita. Com o coração pesado, Isabel banira-o da corte para casa dele em Kew até que o inquérito do magistrado estabelecesse, esperançosamente, a sua inocência para além da dúvida razoável.

Isabel agüentara a separação num estado completamente inquieto, pois apenas recentemente havia completado a leitura do diário secreto de sua mãe. Cheio de revelações chocantes para a jovem Rainha, os escritos iluminaram a natureza de homens enganadores e ambiciosos que destruíram Ana Bolena. E pela primeira vez, dúvidas não desejadas mas inegáveis tinham-se erguido na mente de Isabel acerca dos motivos de Robin Dudley.

Na sua ausência Isabel visitara a campa rasa da mãe no chão de uma capela na Torre de Londres. Perdida em meditações lúgubres, ela havia  13 imaginado o cadáver, com a cabeça separada do corpo e colocada a seu lado numa rude caixa de flechas - pois era esse todo o cuidado que Henrique tinha tido pela sua outrora amada mulher - e refletiu sobre a perfídia dos homens. Naquele momento e nos terríveis dias vazios que se seguiram, uma idéia estranha e impensável forjara-se na sua mente, e como a espada branca e quente do ferreiro mergulhada numa tina de água, havia-se endurecido numa solução de aço. Ela nunca casaria com nenhum homem, nem príncipe, nem rei, nem súbdito, nunca renunciaria ao vasto poder que tinha legitimamente herdado de seu pai, Henrique VIII. Era escandaloso, sabia-o. A ordem natural das coisas era que uma mulher casasse, tivesse filhos. E para uma rainha, era imperativo. No pensamento de todos os ingleses de consciência, a única razão para a existência de Isabel era dar à luz herdeiros - príncipes para a sucessão, princesas para serem vendidas em casamentos de aliança.

Mas agora, apesar do veredicto de ”morte por infortúnio” que libertava Robin de responsabilidade oficial, Isabel não podia ser movida do seu caminho. Podia jogar o jogo de cortejar, fingir a sua intenção de casar, mas nunca cederia. Ninguém sabia da sua decisão. E muito menos Robin Dudley.

A porta dos aposentos abriu-se e lá estava ele com o seu gibão e calções pretos, todo ele porte majestoso e grave contenção. Dizia-se de Robin Dudley - mesmo pelos seus inimigos, aqueles que derrisoriamente lhe chamavam Cigano - que ele era o mais reservado homem do seu tempo, e tinha uma capacidade só investigável pelos pesquisadores de corações.

Meu Deus, pensou Isabel, quão bonito ele é! Ela desejou nada mais do que voar para os braços fortes e envolventes de Robin. Mas estava determinada neste dia, decidida pela dignidade e contenção. Havia tantos problemas a pesar na sua mente e coração. Problemas de política, diplomacia e religião, algum resultado deste assunto desastroso da morte de Amy.

- Majestade.

Ele falava calmamente e, a um aceno quase imperceptível da cabeça de Isabel, ajoelhou-se perante a Rainha e beijou-lhe a mão. Então ergueu-se em toda a sua altura - mais de um metro e oitenta, o único dos seus homens que Isabel era obrigada a olhar de baixo.

- És bem-vindo de volta à corte, meu senhor - disse ela, desejando que a sua voz soasse calma. Com estas palavras a face de Robin Dudley explodiu num sorriso, e ele puxou instantaneamente Isabel para um abraço ao qual ela resistiu por um momento antes de o retribuir por delicadeza. Permaneceram assim juntos até ele a empurrar à distância do comprimento dos seus braços, a ter olhado fixamente através dos seus olhos e para dentro da sua alma, e beijado avidamente na boca. Ela rendeu-se ao beijo, gemeu com o prazer familiar do toque dele. Mas este som de prazer ouviu-o subitamente  14 como um sinal de alarme, e repeliu-o talvez mais violentamente do que tinha intenção.

- Isabel, o que se passa?

- O que se passa, Robin - disse ela enquanto se recompunha -, é um desastre. A minha reputação na Europa está manchada para além da imaginação, alguns dizem para além da salvação.

- Mas porquê! - perguntou ele fervorosamente. - Eu fui considerado inocente de qualquer influência na morte de Amy. Foi um acidente, assim diz um júri dos homens mais aptos do país. Homens de integridade!

- E sabeis vós o que a minha prima escocesa Maria diz? Que a Rainha de Inglaterra vai casar com o mestre do seu cavalo, que matou a sua mulher para arranjar espaço para ela!

- Maria é amarga. Ela já não tem lugar na família real francesa desde a morte do marido. E voltando para casa não tem mais do que um bando de nobres protestantes que mais gostariam de ver a sua rainha católica desaparecer. Ela tem todas as razões para vos difamar, Isabel. Ela quer a vossa coroa!

- E pode consegui-la se eu não resgatar a minha reputação e fortalecer a minha posição.

- Exagerais, Isabel. A rainha dos Escoceses não tem qualquer poder. A sua sogra Médicis livrou-se bem dela e tem demasiados problemas em França para apoiar uma invasão escocesa de Inglaterra. Dizeis disparates.

- Eu, dizer disparates! - eriçou-se Isabel. - Quando é que me haveis visto a dizer disparates?

- Quando estais zangada comigo - disse ele baixinho, contendo-a com os olhos.

Isabel tateou desamparadamente por uma réplica. Robin estava certo. Ela estava ainda furiosa com ele. Furiosa por destruir o sonho que ela tinha acolhido desde o dia brilhante de Janeiro da sua coroação, enquanto ele cavalgava orgulhosamente a seu lado, até ao momento em que o mensageiro de Cumnor House se tinha ajoelhado perante ela e com uma voz tremente anunciara a morte de Amy Dudley.

- Foi encontrada ao fundo das escadas pelos seus criados quando chegaram a casa da feira - dissera o correio. - Tinha o pescoço partido, mas a morte não parece ter sido da queda. O seu toucado nem sequer estava em desordem.

Assassinato. E Lord Robert Dudley, escandalosamente enredado com a rainha de Inglaterra para todo o mundo ver, à espera que o seu caminho fosse desimpedido para casar com Isabel, tinha sido o principal suspeito.

Talvez, pensou Isabel, ele não tivesse nada de todo a ver com a morte de Amy. Talvez ele estivesse inteiramente inocente desse crime. Mas do  15 crime da ambição, Robin Dudley era inteiramente culpado. Estava-lhe no sangue. Os seus antepassados - avô, pai, irmãos - tinham morrido pelo pecado da ambição, e embora ela soubesse que ele a amava sinceramente, não sabia se amava mais o sonho de se tornar rei de Inglaterra. Tinham-lhe dito que quando Robin, ainda no exílio em Kew, soubera que ela rasgara violentamente a patente que lhe atribuía o prometido título de conde de Leicester, se tinha enraivecido e trovejado por tal injustiça. Mas agora, apenas grato pelo seu regresso às boas graças da Rainha, ele não mostrou raiva ou amargura.

- Enquanto estive banido em Kew conheci apenas a mais profunda infelicidade, Isabel. Senti falta da vossa doce companhia mais do que tudo o resto, mas preocupei-me, também, com a incapacidade de atender às minhas obrigações como mestre-de-picadeiro. Não sabia como seríeis assistida quando cavalgásseis para longe, se seriam escolhidos os cavalos certos, se estáveis a salvo de perigo. Pois ninguém conhece ou assiste à vossa pessoa tão profundamente como eu o faço.

Com estas palavras Isabel sentiu a raiva recuar como uma maré a vazar, pois sabia que elas eram verdadeiras e absolutamente sinceras.

Ele continuou.

- Estes meses longe, esperando o veredicto, senti que estava a viver num estranho sonho do qual não havia acordar. O meu único alívio, e agradeço-vos por ele, eram as visitas do secretário Cecil, que foi, apesar dos sentimentos de mágoa que sei que nutre por mim, muito bom. Quero... Dudley parou como se não conseguisse encontrar as palavras para continuar. - Quero que me perdoeis, Isabel. Isto não é nenhuma admissão de culpa pela morte de Amy. Quero que me perdoeis por vos causar, pela minha própria existência ou circunstância, qualquer infelicidade ou dor. Desejo apenas o melhor para vós, sabei-lo. Desejo que o vosso reinado seja longo e glorioso, e tenho intenção de estar a vosso lado sempre que mo permitais. Sou vosso súbdito e vosso servo, Majestade, mas amo e amar-vos-ei sempre.

Os olhos de Isabel tinham-se subitamente enchido de lágrimas, e ela rapidamente se afastou para que ele não as visse.

- Muito bem - disse ela com leveza forçada. - Estais perdoado. E com a brusquidão do sol emergindo de trás de uma nuvem negra de tempestade para abrilhantar um dia monótono, Isabel sentiu a alma aligeirar-se-lhe. O seu amor tinha voltado para ela. Ela encarou-o com um sorriso mordaz, - Fiel servo, gostaríeis de ver os vossos novos aposentos?

- Tenho novos aposentos? - Os traços de Robin suavizaram-se com a surpresa.  16 - Vinde - disse Isabel levemente.

Ele tinha um ar intrigado enquanto ela se dirigia a uma parede com cortinas e puxava o pesado pano de arrás para revelar uma porta. Com a expressão de uma criança assombrada Dudley abriu-a. Uma curta passagem não iluminada estendia-se à sua frente.

- Podeis ir à frente, senhor - disse ela provocadoramente. Tomando-lhe a mão, ele dirigiu-se para a escuridão, e antes de andar três metros encontrou uma outra porta.

- Abri-a - ordenou Isabel.

Robin Dudley ficou parado a olhar para os seus novos aposentos. Não demasiado grandes, estavam, não obstante, suntuosamente mobilados com uma grande cama de dossel própria de um rei, uma fina tapeçaria de fio de seda representando animais míticos numa parede, e numa outra o brasão da sua família - o campo vermelho e azul sobre o qual se impunham o urso e o bastão. A lareira acesa dava ao ambiente uma sensação de bem-estar.

Estava deslumbrado e, por uma vez, sem palavras. Este gesto da Rainha - apartamentos contíguos - ia certamente enfurecer os seus conselheiros e os inimigos dele, para além de escandalizar os coscuvilheiros... e solidificar a posição dele como favorito de Isabel. Não estava ela apenas há um momento a fazer recair sobre ele a sua fúria e a lamentar a sua reputação maculada nas cortes européias? Em que poderia ela estar a pensar? Mas claro, pensou Dudley, a mutabilidade era o principal ponto fraco de Isabel... ou virtude, dependendo da perspectiva. Levou os seus conselheiros à loucura e manteve os amigos e companheiros de jogo entretidos e sem fôlego.

- Isabel, isto é impossível! - gritou ele com óbvio agrado. Voltou-se para dar com Isabel a sorrir maliciosamente para ele.

- Eu sou a Rainha, e faço o que quero - disse ela resolutamente, e depois pensou para si própria, posso escolher nunca casar, mas não serei privada do prazer na minha vida.

No mesmo instante cada um deu um passo na direção do outro, e num momento estavam enlaçados. Num êxtase silencioso, Dudley inspirava o perfume natural de Isabel, delicado e quebradiço como o mais raro dos pássaros brancos, e ela o familiar cheiro masculino com laivos de um almíscar de cavalariça. Depois na cama, digna de um rei, de Robin Dudley, ele fez um longamente esperado e apaixonado amor com a rainha de Inglaterra.  
Capítulo 3
Esta véspera do Ano Novo de 1561, pensou Lady Mary Sidney enquanto dava os últimos retoques na toilette da Rainha, Sua Majestade poderia apenas ser comparada a uma gema preciosa - um diamante de corte fino, brilhante e lustroso, refletindo nas suas muitas faces toda a luz que a rodeava, mas igualmente ardendo com um fogo interior. Lady Mary, ela própria uma bela mulher com traços tão belos e delicados como porcelana, adorava a sua senhora. O afeto especial de Mary, tinha que admitir, provinha em grande medida do amor que Isabel acalentava pelo seu irmão mais velho, Robin Dudley. Ela e a Rainha partilhavam um laço comum em Robert e gostavam de esbanjar sobre ele todos os tipos de afeição.

Mary pensou, também, que gostava da Rainha por ela própria. Era uma alegria assistir intimamente a uma mulher tão magnífica, tão adorável, com a bela pele branca, os agradáveis traços aquilinos, e aquele indisciplinado cabelo semelhante a um rebentamento de luz. Isabel, apesar do seu mau gênio e dos seus humores exasperantemente caprichosos, explodia de vitalidade, era estimulante estar perto dela, e era muito gentil com os seus amigos.

- Muito bem, Mary, deixa-me olhar para mim - disse finalmente Isabel. - Mary Sidney afastou-se e a Rainha passou majestosamente para o seu quarto de banho espelhado. Ela gostava deste ritual: vestir-se com as mais opulentas sedas e veludos, brocados e peles, com jóias esplendorosas, leques pintados, e sapatos elegantes, e depois ficar parada no meio dos espelhos que se estendiam do chão ao tecto para admirar a requintada visão de todas as perspectivas.

Esta noite, pensou Mary enquanto observava Isabel a examinar-se a si própria, a Rainha tem de perceber que se excedeu bastante a si própria em esplendor.

- Sou muito vaidosa, não sou, Mary? - disse Isabel, libertando timidamente mais uma fração dos seus pequenos e pálidos seios de baixo do corpete de cetim.

- Sois de fato, Majestade. Mas vós mereceis ser vaidosa, pois sois muito, muito bela. Isabel sorriu um sorriso rasgado, os seus pequenos dentes a cintilar à luz das velas como pérolas. Ela adorava de facto ser admirada.

- Pensará o nosso Robin assim?

- Ele ficará subjugado - disse Mary com sinceridade grave. Isabel virou-se e agarrou as mãos da sua dama.

- Não é maravilhoso tê-lo em casa, Mary? A corte parecia-me morta, vazia sem ele. Não tenho estado em mim. Sinto que de alguma forma consigo respirar mais facilmente sabendo que ele está aqui.

- Eu também, Madame - disse Mary acalentada pelas palavras da Rainha. - Eu também.

- Bem deixai-me olhar para vós - disse Isabel, virando o seu olhar para Mary. - Estais adorável esta noite. O vosso marido deve achar-vos muito encantadora. Mas Penso - Isabel regressou ao seu quarto de dormir, onde diversas outras senhoras estavam a arrumar os vestidos e jóias que ela tinha escolhido não usar -, falta-vos qualquer coisa. Vinde aqui, Mary.

Mary Sidney seguiu Isabel até uma pequena arca cheia de brincos brilhantes e observou enquanto a Rainha escolhia um par de lágrimas de safira armadas em filigrana de ouro. Isabel segurou-os de encontro ao corpete de veludo azul de Mary.

- Uma boa combinação. Tomai, colocai-os.

- Obrigado, Majestade - murmurou Lady Mary, profundamente emocionada. Estava consciente dos olhos de todas as outras damas sobre ela, as ondas de ciúme mesquinho normalmente reservadas para o seu irmão agora dirigidas a ela. Mary endireitou as costas, e enquanto apertava os brincos de safira percebeu subitamente como é que Robin era capaz de agüentar o ódio que lhe era dirigido: o amor de Isabel, como uma grande onda purificadora, varria para longe tudo o que era baixo e malicioso, nada deixando a não ser a devoção incondicional daqueles que verdadeiramente gostavam dela. Mary Sidney voltou-se e sorriu graciosamente para o tagarelar de damas carrancudas, depois seguiu Isabel pela porta do seu quarto de dormir.

Um grupo festivo estava agora reunido na Sala do Trono - o círculo íntimo da Rainha. Quando Isabel entrou majestosamente, um silêncio assombrado recaiu sobre os convidados. Nesta noite ela estava, como Mary Sidney tinha observado, radiante, na verdade quase de outro mundo. Os homens curvaram-se, as mulheres fizeram a vénia, e Isabel, libertando-os do momento inicial de formalidade, começou a mover-se entre eles. A Rainha estava transbordante de bom humor, genuinamente feliz de ver estes leais amigos e parentes. Moveu-se primeiro na direção do seu devotado secretário, William Cecil, que se ajoelhou e lhe beijou a mão.

19 - Folgo em ver que haveis deixado as vossas faces sóbrias em casa esta noite, Sir William. Estamos aqui para uma celebração, não estamos?

- De fato, Madame. Temos muito para celebrar neste Ano Novo. Uma paz com a França arduamente conquistada, uma moeda reformada, o estabelecimento religioso. Nenhuma façanha desprezível para qualquer monarca.

- E especialmente uma mulher, não,  acrescentou ele - provocou Isabel, brincando com o colarinho de Cecil.

Virou-se de seguida para o marido de Mary, Sir Henry Sidney, um homem de voz branda e características suavizadas que protegiam uma mente aguçada e um caráter firme e elevado. Amava loucamente a mulher, a qual lhe correspondia. Isabel gostava muito do casal e agora aceitava a reverência de Henry com um cumprimento a Mary pela sua ternura especial na assistência à pessoa da Rainha.

Com uma palavra gentil para Kat e John Ashley, os seus guardiães desde a tenra infância, Isabel moveu-se para um grupo que reconhecia como as suas relações do lado Bolena, todos elevados a posições de honra na corte desde a sua leitura do diário secreto de sua mãe. As súbitas e inesperadas elevações de Lord Howard de Effingham, Francis KnoIlys, e o jovem Lord Hunsdon tinham-se mostrado um agradável choque para eles. Até à sua ascensão, Isabel não falara no nome da mãe durante mais de vinte anos. Tinha aceite sempre a aterradora reputação oficial da rainha Ana de traidora e adúltera, e distanciara-se da vergonha da sua morte ignominiosa. Os parentes maternos da Rainha, que pela segurança das suas famílias tinham enterrado a sua ligação e estendido uma capa de silêncio sobre a memória de Ana, eram agora alçados pela mão carinhosa de Isabel ao alto trato. Esta noite os seus cumprimentos à Rainha eram efusivos e dos mais sinceros.

Por fim, Isabel aproximou-se do seu amante, que estava de pé com o seu único irmão vivo, Ambrose, uma versão mais leve de Robert Dudley mas igualmente bem-parecido e gracioso, e partilhando a sua reserva digna. Em uníssono os dois irmãos executaram a sua vénia de cortesãos mais profunda e mais teatral, o que arrancou uma gargalhada à garganta da Rainha.

- Meus senhores Fric e Frac. Tendes vós uma pequena dança para acompanhar a vossa atuação?

- Para Vossa Graciosa Majestade inventaremos uma - replicou Ambrose Dudley.

Isabel apanhou e enfrentou o olhar de Robin.

- Qual é o vosso segredo, Majestade? - perguntou ele. - De cada vez que eu penso que vós não poderíeis aparecer mais bela, excedeis-vos a vós própria mais uma vez.  

- Se vos contasse, Robin, já não seria um segredo. Portanto - disse ela, acariciando a bochecha bronzeada dele com os seus longos dedos brancos permanecerei um enigma.

Com um gesto galante Robin Dudley ofereceu o braço à Rainha, e juntos conduziram os mais queridos e mais próximos dela para a noite de Ano Novo.

A reunião no grande salão estava alegre e cintilante, zumbindo na antecipação da chegada da Rainha. O seu séquito nesta noite incluiria o infame Dudley, um homem mais odiado do que amado, mais temido do que respeitado. A corte Tudor foi sempre um local de diversas intrigas e escândalos, mas esta noite toda a conversa fervilhava à volta de Robin. e Isabel... e da morte de Amy Dudley.

Perto do palco, especialmente erguido, em que seria representada dentro em pouco uma peça encontrava-se um grupo de senhoras e cavalheiros, com as cabeças juntas umas das outras, mantendo as vozes discretas.

- Dizem que Lady Dudley afastou todos os criados da casa para irem à feira, ficando só - disse Lady Norbert. - Uma coisa estranha da parte de uma mulher tão doente.

- Disseram-me que ela tinha uma estranha mente - acrescentou Lord Mayhew. - Para mim é muito suspeito. Cá para mim foi suicídio.

- Sim, a sua criada mais próxima, Pinto de seu nome, afirmou que a senhora rezava diariamente de joelhos para que Deus a libertasse do seu desespero - afiançou Mrs. Fortescue, abanando-se furiosamente com o leque como se a coscuvilhice a estivesse a fazer suar.

- Havia muito com que estar desesperada - disse Lady Norbert, tão fria quanto Mrs. Fortescue estava sobre-aquecida. - O cancro no peito dela. O marido à espera que ela morresse.

- Acho que ele não esperou que ela morresse - anunciou o doutor Fortescue, um cavalheiro de porte imponente e faces rubicundas. Dudley é um homem demasiado obstinado na ideia de casar com a Rainha para o ter deixado ao acaso.

- Dais-lhe demasiado pouco crédito, Fortescue - insistiu Mayhew.

- Dudley é um homem esperto. Porque haveria ele de arriscar uma tal acusação se a sua mulher estava destinada a morrer mais cedo ou mais tarde?

Lady Winter, sussurrando para fazer com que a sua opinião parecesse mais importante, interveio:  21 - Ouvi contar de uma mulher com essa mesma doença cujo pescoço se tornou tão frágil que estalava de cada vez que ela descia um degrau. E Amy Dudley foi encontrada ao fundo de uma longa escada.

Do outro lado do grande salão decorria uma discussão bastante mais grave. Estes homens do Conselho Privado da Rainha tinham todos os olhos assentes sobre um príncipe sueco alto, louro, que cintilava numa veste de ouro juncada de pedras preciosas. Estava rodeado pela sua própria delegação bem como por ingleses da corte tentando cair nas suas boas graças.

- Agora que Dudley regressou - observou Lord Clinton - o príncipe João já não terá mais sorte na conquista da mão de Isabel do que a teve o seu irmão Eric.

- Menos - disse Lord Arundel taciturnamente. - Pois agora o Cigano é livre de se casar, e diz-se que o afeto da Rainha por ele está intacto.

- Bem, ela deve casar e deve casar brevemente - insistiu Lord North. Escolherá com certeza um dos arquiduques espanhóis.

Com a menção aos hispânicos, todos os olhos procuraram naturalmente o bispo de Quadra, o homem pequeno e atarracado vestido de preto e vermelho, embaixador da corte de Filipe II de Espanha. Ele estava a ouvir com as sobrancelhas bem cerradas uma conversa entre dois embaixadores de Bruxelas. O bispo era um bom ouvinte - alguns eram da opinião de que era demasiado bom. Era sobejamente conhecido que de Quadra era espião de Filipe, e mandava diariamente despachos copiosos ao rei, cheios de espionagem oficial bem como de rumores de bastidores relativamente à totalmente equívoca rainha herética e à sua corte.

- Ela é teimosa - afirmou Lord Clinton, retomando a conversa dos conselheiros privados. - Os dois últimos anos provaram-no.

- Até ela se deve aperceber da urgência de produzir um herdeiro raciocinou North. - Ela afirma amar a Inglaterra, mas sem um sucessor a ameaça de uma guerra civil, ou pior, Espanha e França lutando em solo inglês, paira sobre as nossas cabeças!

- Ela tentará casar com Dudley - resmungou Arundel - e nós sabemos que Dudley morrerá a tentar casar com ela.

Norfolk, resplandecente com a nobreza da sua linhagem e título - o único duque vivo de Inglaterra - falava muito calmamente, e toda a gente se inclinava para ouvir.

- Não existe nenhum homem em Inglaterra que possa suportar a ideia de Robert Dudley como nosso rei. Digo-vos, se ele não abandona as suas presentes pretensões, pode não morrer na sua cama.

Nesse momento houve um sobressalto de murmúrios e cochichos, até algum riso.  Lord Suffolk, ele próprio um homem de inquestionável linhagem e não pouca importância, falou com autoridade:

- Todos vós sabeis que eu não morro de amores por Robert Dudley. Mas digo que devemos deixar a Rainha escolher segundo o seu próprio afecto. Sabemos que os filhos são mais prontamente concebidos no meio de paixão do que sem ela. E se o que a Inglaterra tão desesperadamente precisa é de uma criança do corpo da Rainha, não vos parece sensato deixá-la tornar um homem à vista do qual se lhe erga o desejo? Essa, digo-vos eu, é a forma mais segura de nos proporcionar um abençoado príncipe.

Uma fanfarra de trombetas interrompeu o falatório enquanto a Rainha e os seus íntimos chegavam ao grande salão. Mesmo aqueles que tinham razão para resmungar ficaram deslumbrados pelo esplendor radiante de Isabel nesta noite. Convidados de uma certa idade não conseguiam deixar de comparar a presença e físico da Rainha aos do seu pai. Apenas o mais velho dos seus parentes Bolena se apercebeu de qualquer semelhança com a mãe. Todos e cada um, contudo, deu por si atraído para a sua teia, tecida de inteligência, graça e charme magnético. O ano de 1561 não tinha ainda nascido, mas a sua promessa era tão resplandecente como a própria rainha de Inglaterra.



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