O bento que para mim fica



Baixar 124.49 Kb.
Página1/3
Encontro14.03.2018
Tamanho124.49 Kb.
  1   2   3




O Bento que para mim fica

Adalberto Tripicchio MD PhD
 

Como é difícil falar-se de alguém notável, que se destaca entre seus pares, e fora deles. E Bento foi um desses.


Não teria o que acrescentar ao que está sendo escrito na mídia e nos livros quanto ao seu talento filosófico. Sobre sua sabedoria mais-que-erudita.
E quem o diz são aqueles dentre os que melhor o conheceram como intelectual. Também, colocar datas, localidades, nomes, fica para os enciclopedistas que irão recompor seu verbete.
Por que aceitei, então, escrever esta breve mensagem?

Primeiro, como uma maneira de desabafar um tanto minha alma sufocada pela tristeza da sua perda. Segundo, porque privando dele, momentos dos mais irreverentes ante esta vida à qual somos lançados de modo absurdo, seria egoísmo não abri-los um pouquinho.

Bento era um musicófilo, mais, um musicólogo. Amava na música popular, tangos e sambas-canções. É aí que eu entro. Quando estávamos desinibidos, ele virava Carlos Gardel, Maysa, Dolores Duran, Tito Madi, e por aí vai. Eu fui, boa parte das vezes, seu acompanhante violonista titular nestes quase dez anos de amizade.

Ele conhecia todas as letras do Alfredo Le Pera - parceiro de Gardel - e, depois de cantar todos os clássicos, brindava-me solenemente com meu favorito "Por una Cabeça". De terno e gravata borboleta - esta, uma identificação com seu pai -, chapéu, além de um casacão 7/8 e um cachecol, que colocava em torno do pescoço, a la típico portenho.

São daqueles poucos momentos vividos com tal intensidade e comunhão, que se tornam eternos.

Como um bom homem à gauche, era gozadíssimo, quando, imitando Maysa, cantava "Meu muro caiu" - o de Berlim - em vez de "mundo".

Além da música, Bento foi um poeta da vida. Certa vez, indiquei-lhe um composto da homeopatia, a Nux vomica, fármaco muito conhecido da especialidade. Imediatamente, Bento recitou-me num fôlego só uma das estrofes mais complicadas e difíceis de se decorar e falar, de Drummond:

"[...]


Vergonha da família

que de nobre se humilha

na sua malincônica

tristura meio cômica,

dulciamara nux-vômica.

[...]".


(é de dar cãibra na língua, não?!)

A cidade de Jaú perdeu seu filho, a de São Carlos seu ilustre mestre, o Brasil um de seus maiores filósofos, e eu perdi o amigo. Amigo, que apesar do seu porte acadêmico, sabia oferecer conversas francas, simples e singelas. Certa vez, em inícios de 2000, ele me disse: "Adalberto, eu ainda não escrevi o troço..., aquele troço". E só. De pronto, entendi perfeitamente o que ele queria dizer com essa palavrinha: a minha grande obra, a síntese de meu pensamento filosófico, e por aí vai.

Curioso é que ele já havia escrito seu "troço", sem ter se dado conta disso. E o fez com a sua tese de livre-docência na USP, "Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson", em 1964, reconhecida no seu justo valor, somente em 2002 (!), pelo Collège International de Philosophie com sede em Paris, que promoveu imediatamente sua tradução francesa, considerando-a como a obra mais importante de tudo o que já se escreveu sobre Henri Bergson no planeta. Temos de lembrar a reconhecida xenofobia dos franceses, especialmente a do parisiense pós-guerra, em reconhecer um trabalho digno que pudesse vir de alguém nativo abaixo do Equador. Vindo de um brasileiro situado no último dos mundos do PIB, do interior-sertanejo de São Paulo e por aí vai, acrescentando e ensinando-lhes algo!

Em fins de 1990, Bento coordenava a Banca de Seleção para Pós-Graduação em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos-SP. Eu estava sendo examinado, e, em dado momento, argumentei o que pretendia com a Filosofia da Mente no meio psiquiátrico. Citei, criticamente, a arrogância da alopatia, e que as bulas sérias de qualquer remédio deveriam começar sempre com a frase: "não se conhece o verdadeiro mecanismo de ação deste fármaco" - o que, de fato, aparece em algumas delas. Bento, que sabia de minhas raízes religiosas no protestantismo, não perdeu a deixa para dizer: 'da mesma forma que Lutero insurgiu-se contra a Bula Papal, dando início à Reforma, você hoje repete o gesto com a Bula Farmacêutica' ".

Esse era seu humor: elegante, inteligente e sério.

Como a maioria dos grandes pensadores Bento tinha uma natureza reservada e profundamente emotiva. Para quem não o conhecesse informalmente poderia erroneamente achá-lo sisudo. Esse era o Bento filósofo. Circunspeto, conseqüente e assumido.  Mas, sempre afável, solícito e generosos com qualquer um que o procurasse.

Quando conseguia desmontar sua timidez - não encontro melhor palavra - tornava-se um homem de bem com a vida, com um ânimo cheio de vigor.

Como quando, avô-coruja, contou-nos de seu netinho ainda pequenino, desabafando contra um colega nosso, que lhe estava importunando: "Pare  de amofinar-me!" Não tem jeito mesmo. Penso que a anormalidade da Curva de Gauss naquela família é genética.

Bento e eu fomos prejudicados pela repressão da ditadura militar. Mais a ele do que a mim, claro está. Eu tive a oportunidade de ser indenizado pelo Governo, após a Anistia, mas recusei. Pensando nisso, algum tempo depois, senti-me um tolo em não ter aceitado um dinheiro que eu tanto precisava. Mas, Bento escreveu-me um e-mail consolador dizendo que também havia recusado benefícios por nossa postura ideológica na época. Que estava chateado com aqueles que chegaram a receber até pensão vitalícia, além da indenização. Foi um alívio para mim, saber que estava em tão respeitosa companhia.

Certa vez, em um evento nacional de filosofia, após sua palestra, alguém do auditório fez-lhe uma pergunta confusa e hermética. Bento, calmamente e sem perder a oportunidade, deu-lhe  uma resposta mais confusa e hermética ainda. Ao final, disse: "Pergunta besta, resposta besta!", para alegria geral. Esse era o Bento da intimidade dos amigos.

Duas curiosidades da personalidade rica e complexa, porém diáfana de Bento. Primeira, é sabido que os grandes intelectos habitam outros mundos, e se perdem nas miudezas práticas e prosaicas do nosso cotidiano. Por exemplo, Bento nunca dirigiu automóvel, por maior necessidade que possa ter passado.

Segunda, certa vez Bento observando uma estante minha de livros, encontrou algo de seu grande interesse, e pediu-me emprestado. Senti-me honrado pela oportunidade do discípulo oferecer algo ao seu mestre. Por outro lado, um sentimento menor tocou-me: 'adeus, meu livrinho'.

Como é que o Prof. Bento Prado Jr. habitado por um milhão de idéias geniais, que navegam entre seus brilhantes neurônios, ir-se-ia lembrar que, um dia, pediu-me um livro emprestado. Cheguei a pedir a meu importador de livros que procurasse por um outro exemplar daquele ora perdido. Para minha perplexidade e espanto, duas semanas depois, Bento devolveu-me o livro, são e salvo, o qual tinha xerocado. Está claro aí que o que lhe guiava na vida era sua escala de valores.

São muitos os recortes da saudade que tenho por Bento, porém fico onde estou, pois a emoção começa a embargar minha memória.

Infelizmente, o cigarro o levou. Mas fica o eterno pano-de-fundo da magia encantadora que Bento conseguia exalar pelos poros, tornando nossas vidas um tanto mais leves e menos absurdas.

Um relato difícil de esquecer


Este relato soma sentimentos confusos, temores de como somos lançados em uma vida, qual barco à deriva, quando nenhum vento é favorável.

Era novembro de 1975. Havia chegado há poucos meses do exterior, onde estava terminando créditos de minha pós-graduação em psiquiatria.

Por essa época vivia entre Rio e São Paulo. Assim que me formei montei meu consultório em uma rua, travessa da Avenida Paulista. Era um terceiro prédio, só de consultórios e estava recém-pronto.

Lembro-me só do número do meu, 518 da Rua Itapeva. Lá fiquei 23 anos, 4º andar. No 3º, estava um professor de quem fui assistente por dez anos. Quinta à noite fazia Ponte Aérea de Electra para o Rio, e voltava domingo à noite.

Arredondando, eram quatro dias em Sampa e sexta, sábado e domingo no Rio.
Desde meus tempos de Colegial fazia parte de uma banda de música. Estudei no Colégio Rio Branco, que pertence ao Rotary Club. O Colégio é também a sede social do Rotary. Construíram no penúltimo andar um bom teatro para a época.

Por já lidar com música, shows, teatro fui Diretor Social do Grêmio os três anos do Colegial, o que me facilitava o uso do Teatro, que por sinal, ainda não estava totalmente pronto.

Meu instrumento sempre foi o violão. Uma tradição de um dos ramos de minha família paterna. Fui amigo do saudoso Paulinho Nogueira, “o bom-senso do violão”, como dizia Jacob do Bandolim. Como Paulinho, eu dava aulas de violão. Tivemos a idéia de juntar alunos, que tocavam e cantavam, mais eu, Paulinho, um colega de turma, amigo até hoje, o Ricardo, que já nasceu tocando piano como poucos.

Assim, fizemos um primeiro show no Rio Branco, inaugurando o Teatro. Lá estavam, Toquinho, que estudava no Mackenzie, Kátia que cantava semptia que cantava sema no Mackenzie Rio Bran, mais eu, mais Paulinho, e mais um querido colega de turma, meu amigo atre acompanhada pelo Toquinho. Lembro-me de uma linda música de Oscar Castro Neves, com a qual os dois davam um show à parte - esta música foi gravada por Alaíde Costa, e não é o Onde está você -, lá estavam o Zelão grande violonista que tem um estúdio, Taiguara, Roberta Faro, Ivete, Luiz Roberto, o Ricardo com seu trio, Theo de Barros Filho. Não sei bem através de quem, lá estava o Chico, seu violão, com irmãs, geralmente três delas para fazer-lhe corinho. Eu montei um quarteto vocal de colegas, alunas de violão. Fazíamos sucesso com uma música de Carlos Lyra e Chico de Assis, o Subdesenvolvido. Isto tudo a partir de 1960.


Esse grupo de estudantes/artistas dividiu-se em três partes: uma que abandonou a música, e ficou somente com os estudos; outra, que abandonou os estudos, e ficou somente com a arte - é bom lembrar que nessa altura o grupo já havia sido descoberto pelo especialista em música popular, com programas de rádio e TV, coluna na imprensa, e, acima de tudo, acesso às gravadoras, o Sr. Walter Silva, apelidado de Pica-Pau. A entrada nesta história de Pica-Pau é fundamental, pois foi ele que deu acesso à profissionalização dos companheiros que haviam abandonado os estudos.

A terceira parte foi aquela em que cada qual ficou com um pé nos estudos e outro na música. Eu me formei em Medicina, o Ricardo, o Luiz Roberto em Engenharia. E vários outros que me escapam.

Por essa época estava começando a Bossa Nova no Rio, que logo veio para São Paulo, nos Shows da Balança - nome que vinha da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, pois era seu pessoal que, todos o anos, organizava este grande show, reunindo os profissionais do Rio e de Sampa.

O ponto que quero chegar é por que fui parar no Rio, já estando com consultório movimentado em São Paulo. Simples, todos os meus companheiros de música haviam se mudado para lá. E, depois de formado, segui em direção a eles.


Uns três meses antes de novembro de 1975 havíamos conhecido um diplomata amigo de Vinícius, que morava no mesmo condomínio de Chico na Gávea. Era, como Vinícius, um homem inteligente, culto, engraçado, e tomava uísque conosco. O Júlio Cézar Borges. Sua esposa estava grávida, como a mulher de Chico, e pela terceira vez.

Aos sábados, depois que Chico descobriu um grupo que vinha em sua casa e preparava o que se quisesse: banquetes, churrascos, festas de todo tipo, Chico resolveu fazer feijoadas aos sábados, depois do seu futebol.

Em setembro de 1975 nascem Luísa e a filha de Júlio, a pequena Juliana.
No Rio, para eu não deixar de estar em contato com a minha grande paixão, a psiquiatria - e é bom eu lembrar que fiquei uns quinze anos nessa vida de Ponte Aérea - fiz cursos com Nobre de Melo, em Niterói, com Leme Lopes, Carlos Chagas Filho, na Federal, e acabei atendendo clientes em Ipanema, em uma galeria, dividindo consultório com um neurocirurgião da equipe de Paulo Niemeyer.

Aí eu conheci Luana.


Mulher com seus quarenta e poucos anos. Um tanto obesa. Pele parda e falante. Dizia-se muito religiosa, e freqüentava um terreiro de Candomblé em Jacarepaguá. Sua queixa, então, era de que seus guias espirituais não estavam lhe dando sossego. Mal conseguia dormir. Sentia-se um tanto agitada e irritada. E já que sua madrinha do terreiro não estava resolvendo seu problema, resolveu ir “num médico da cabeça”.

Perguntei-lhe quem a tinha indicado a mim. “Foi o Dr. Júlio Cezar, meu patrão”.


Mediquei Luana com tranqüilizantes. Antes, porém tentei levantar sua história de vida. Foi um trabalho difícil e sem resultados. Ela viera só do interior da Bahia quando jovem. Tinha amigos do terreiro, mas só os via lá nos rituais.

Disse que gostava muito de criança. Que chegou a vir uns tempos para São Paulo, fazer, na Maternidade Leonor Mendes de Barros, um curso para ser atendente de recém-nascidos - babá.

Como recém-formado estava começando a entrar em um terreno que iria se repetir, e se repete, muito em minha vida. Como fazer um diagnóstico entre um doente mental que delira e alucina, de um “assim chamado” médium espiritual, que tem clarividência (?), claroaudiência (?), que prevê coisas (?) etc.

Havia lido do Dr. Bezerra de Menezes, muito considerado no meio kardecista, um livro que tratava exatamente desta questão: o diagnóstico diferencial. No livro ele diz: se tiver lesão cerebral, é doença, caso contrário, é espiritual. Fiquei pensando como ele diagnosticava a lesão cerebral. Em sua época só existia o Raio X comum. Mesmo hoje com todos os recursos de neuroimagens de que a medicina dispõe, é um grande problema se fazer uma correlação entre achados cerebrais e a mente, mesmo porque não se conhece qual é a natureza última desta relação.

Luana não era em absoluto uma esquizofrênica. Seu biotipo era o oposto do esperado. Ela era comunicativa, líder de sua comunidade espiritual. Por outro lado, sabia-se que não é apenas na esquizofrenia nuclear que surgem delírios e alucinações. Existem pacientes que estão cronicamente nestas circunstâncias, sem apresentarem a deterioração vital de um esquizofrênico. E eu já havia atendido um sem número de casos de “médiuns”, que não eram menos normais do que eu.
Em uma das feijoadas em casa de Chico, que era um lugar muito agradável, apareceu o Júlio. Comemos e bebemos, bebemos e comemos. Chico havia montado um bar completo, um piso abaixo da piscina, ao nível de uma quadra - aliás, Chico não usava nem uma nem outra - com mesinhas que a Brahma havia lhe presenteado, com quatro cadeiras cada - daquelas que dobram -. Havia um balcão com mármore, tinha chopeira, máquina registradora, máquina de café, aparador atrás para garrafas, enfim, era um bar completo. Aí que nós comíamos.

Estávamos em uma das mesas, Chico, Francis Hime e eu - que cantarolava baixinho comigo mesmo uma canção, que eles ouviram e adotaram de imediato, e que terminou em grande coral: “Eu não sou água / prá me tratares assim / Só na hora da sede / é que procuras por mim...” Eram momentos de alegria para todos.

Na mesinha ao lado estava Vinícius, Tarso de Castro, Emílio Myra y López (filho), em outra, Ruy Guerra com Janaína no colo. Sílvia e Lelê correndo de um lado para o outro sendo perseguidas por Bebel, Marieta estava batendo papo com amigos de teatro dentro da casa.

Júlio Cezar, em outra mesa, com sua esposa e Miúcha, levantou-se e fez um convite solene de diplomata: “No próximo sábado quero oferecer um jantar a todos vocês, meus queridos amigos. Vamos comemorar o nascimento de Luísa e de Juliana.”


Eram tempos felizes, apesar de tudo. Éramos todos jovens. A criatividade de Chico estava turbinada - nessa época eu acompanhava seus escritos, com Paulo Pontes, da Gota d’Água. Vinícius estava bem de saúde, as crianças crescendo sadias e felizes. Marieta foi mãe de cinco: sua três mais Bebel (filha de João Gilberto com Miúcha), e Janaína (filha de sua amicíssima recém-falecida Leila Diniz e Ruy Guerra). Sua casa finalmente estava paga depois de um show que fizemos no Canecão, neste mesmo ano, de agosto a novembro, que acabava naquela semana, com Maria Bethânia, Ruy Guerra estava filmando, Marieta estava à toda no Teatro.

Eu estava recém-saído de um segundo casamento. Estava solto na vida.


Confirmamos a presença no jantar em casa de Júlio: Tarso de Castro, Vinícius com uma de suas esposas de então, Chico, Bardotti, Aquiles (MPB4), Francis e Olívia, Gianni e Kátia, eu. Marieta tinha teatro naquele horário.

Além de nós havia mais um grupo de umas oito a dez pessoas das Embaixadas, todas amigas de Vinícius.

Chico começou com batida de vodca, Tarso também. Acho que os demais, como eu, fomos de uísque 12 anos. Havia salgadinhos e outros quitutes.

Fiquei sabendo que naquela noite quem tomava conta de tudo, nas lides daquele jantar era Luana. Apesar de ter sido contratada como babá de Juliana, ela insistia que um dia queria tomar conta de uma grande festa. Todos diziam que ela era uma excelente cozinheira. Chegou o dia. Havia umas três ajudantes, além de dois mordomos - afinal muitos eram da Embaixada, e precisava de alguma Pompa e Circunstância, cochichou-nos Vinícius.

Havia uma mesa única colossal. Todos nós pudemo-nos sentar. As comidas eram colocadas em mesas laterais aparadoras. Foi servido um vinho branco magnífico.

Neste momento, Júlio, apresentou solenemente, Luana, a chef da noite. Ela estava toda de branco, com aquelas roupas rodadas e um turbante branco do qual descia uma cauda até o chão. Enfim, pronta para entrar em cena na gira de seu terreiro. Confesso que foi um mau presságio para mim. Afinal ela devia estar paramentada de chefe da cozinha.


Ao todo éramos pouco mais de vinte convidados, mais Júlio e esposa, sentados nas pontas de cabeceira. Eu estava ao lado de Júlio, à minha direita, e de Chico, à minha esquerda. Em seguida, Sergio Bardotti - que passava uns dias no Brasil hospedado na casa de Chico - Vinícius, sua esposa, Tarso e por aí vai, não me lembro.

Primeiro as entradas frias. Saladas, maioneses, camarão, lagosta, salpicão etc. Não saberia contar nem me lembrando.

Chegou o momento mais esperado, para quem foi para comer de fato: o assado.

Foi colocado, em uma bandeja enorme de prata com tampa.

Foi colocado no meio da mesa, que era bastante ampla.

Um dos mordomos abriu a tampa:

- O assado era Juliana.
Lembro-me de dizer aos gritos aos meus amigos mais próximos: - Vamos pegar a Luana, só pode ter sido ela.

Fomos: eu Tarso, um gaúcho porreta, Aquiles e um diplomata.

Lá estava Luana fumando um charuto Suerdick de padaria, de uns quinze centímetros. Com ar de satisfeita.

Eu pulei por cima dela. Meus amigos vieram atrás. Ela não ofereceu resistência. Dizia que havia cumprido ordens diretas de Lúcifer. Estava em pleno surto psicótico, que agora, somente agora, se mostrava com clareza.

O condomínio ficou repleto de polícia, ambulâncias, médicos da família, e curiosos. A Imprensa apesar de presente atendeu a um pedido formal do Ministério das Relações Exteriores, de manter discrição no caso, dado o choque que foi para a família e para os pais de Juliana.
Em pouco tempo Júlio e esposa se mudaram definitivamente para a Europa.

Pude ver ainda Luana internada no Juliano Moreira do Rio. Totalmente desagregada. Aí fechei meu diagnóstico de Parafrenia Tardia, com delírios e alucinações de todos os tipos. Soube que ela recusava alimentar-se e que faleceu pouco tempo depois.

Nota: Os nomes do casal e sua babá doente são outros. Os conhecidos, que fizeram grande sucesso nas décadas de 70 e 80, são eles mesmos. A história é verdadeira. Algo foi encadeado para dar ritmo ao relato.
Pequeno ensaio sobre Augusto dos Anjos

Para bem penetrar a poesia de Augus­to dos Anjos, é necessário adotar preliminarmente uma posição estrutura­lista, que permita compreender o homem e a obra, integrados em uma totalidade uni­tária. Os conceitos que se têm expendido a propósito são, as mais das vezes, super­ficiais ou incompletos, não chegando a abranger, senão aspectos parciais da ques­tão, por abstração dos fatores de ordem ge­ral e particular que intervieram na forma­ção de sua personalidade total.


Daí o consi­derar-se o aparente como real e o confun­dir-se o fundamental com o que é apenas acessório. Assim, a preocupação do ma­cabro, a idéia absorvente do apodreci­mento final, a predileção quase obsessiva pelos temas rebarbativos ou escabrosos, a riqueza do vocabulário técnico irrepreen­sível, são apenas características formais, que não traduzem a essência, a natureza íntima, a significação profunda de sua arte poética, cujas origens terão que ser perquiridas nos componentes de sua pró­pria estrutura psicológica, através da análise pluridimensional de sua persona­lidade.
Para a consecução desse objetivo, faz-se mister à guisa de ordenação metó­dica e sistemática, indispensável a qual­quer ensaio de interpretação crítica, dis­criminar desde logo, para ulterior expla­nação e desenvolvimento analítico, fato­res de ordem individual e fatores mesoló­gicos. Os primeiros se distribuem em duas categorias distintas: os predominan­temente endógenos ou constitucionais, representados pela unidade biopsíquica em seu tríplice aspecto fundamental ou básico - o somático, o temperamental, o intelectual; e os predominantemente exó­genos ou adventícios, que provêm aqui de duas fontes autônomas e definidas - uma espiritual, constituída dos elementos até certo ponto antagônicos de sua formação ética e humanística, a outra orgânica, de natureza patológica, representada pela terrível enfermidade pulmonar que o vi­timou. Finalmente, entre os fatores me­sológicos, cumpre salientar como princi­pais, e de certo modo interdependentes: o seu ambiente cósmico-social e o drama econômico de sua vida.
Facilmente se depreende que, para a rigorosa execução do plano elaborado, é necessário lançar mão de dados biográfi­cos, os quais, no caso vertente, foram co­lhidos, a maior parte, no comovido e subs­tancioso prefácio do Sr. Orris Soares, amigo dileto do grande e incompreendido poeta paraibano, e a quem se deve a cuidadosa recolta de suas poesias completas. Mas não menos importante é aqui, certa­mente, o elemento subjetivo da própria obra, que vale, a bem dizer, por uma auto­dissecação, por um fotograma interior de sugestionante eloqüência psicológica.
A arte é, efetivamente, uma forma superior de sublimação, mediante a qual, a tensão afetiva, obstaculizada ou inibida, satisfaz aquilo que em potência represen­ta, sob o aspecto de realizações imaginárias ou fantásticas, por mecanismos par­cialmente inconscientes de derivação e de canalização, que visam a adaptação fun­cional progressiva do indivíduo às reali­dades contingentes. "Criar, como já dis­sera Dostoiéwski, é eliminar nossos fan­tasmas". Daí, o interesse capital que se confere, hoje em dia, ao estudo da obra de arte, como a mais segura das vias de aces­so à intimidade do artista, através dos meios de expressão simbólicos de que ele se utiliza para a exteriorização de suas emoções estéticas.
Numerosas são as criações artísticas que, modernamente, têm constituído ob­jeto de perquirições científicas, sobretudo por parte da escola psicanalítica, cum­prindo ressaltar, entre os trabalhos mais divulgados, o do próprio Freud sobre o sorriso da "Gioconda", o de Moeder sobre a "Divina Comedia", o de Jones sobre o "Hamlet", o de Otto Rank sobre o signi­ficado da música wagneriana. Entre nós, o Artur Ramos, que é um dos ele­mentos mais representativos daquela cor­rente psicológica, foi autor de um pequeno ensaio sobre a complexa personalidade do poeta do "Eu", publicado há vários anos nos "Anais médico-sociais" da Bahía, sob o título - "Augusto dos Anjos à luz da psi­canálise".


Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal