O bilontra de Artur Azevedo



Baixar 482.44 Kb.
Página10/19
Encontro02.12.2017
Tamanho482.44 Kb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   19

CENA V

OS MESMOS, GÊNIO DO FOGO


MÁGICA – Ei-lo!

FAUSTINO – Apesar da propaganda abolicionista, vele bem novecentos mil réis pela nova lei.

JOGATINA – Enganas-te: não vale nada. Experimenta: dirige-lhe a palavra.

FAUSTINO – Então? Diga alguma coisa! (O Gênio do Fogo ri-se alvarmente.)

JOGATINA – Vês? Estúpido como uma porta!

TRAGÉDIA – Tempos! ó tempos! rápidos passastes!

Eis o teatro brasileiro, ó Numes! (O Gênio ri-se como acima.)

JOGATINA – Sabes que mais? Rua!

FAUSTINO – Rua, ou mando-te rapar a cabeça na polícia! Rua! (O Gênio do Fogo some-se, rindo-se sempre.)

JOGATINA – Este Gênio do Fogo não tem o fogo do gênio.



CENA VI

OS MESMOS, menos o GÊNIO DO FOGO


ÓPERA – Com efeito! estou aqui há duas horas, eu, a Ópera, o gênero teatral mais nobre e elevado, e ninguém me dá importância, ninguém me dirige a palavra, como se eu fosse para aí qualquer coisinha!

OPERETA - Vous n’avez pas razão de queixa, porque sois mui cara. Io tengo più ragione di essere irritata!

ÓPERA – Já lhe tenho dito um milhão de vezes que não se meta com a minha vida... Entre nós nada há de comum!

FAUSTINO – A Ópera e a Opereta escamam-se!

JOGATINA – Andam sempre assim!

OPERETA – Questa orgulhosa se imagina que me fait peur! No la temo!

FAUSTINO – Reparaste que a Opereta fala todas as línguas ao mesmo tempo?

JOGATINA – Menos a portuguesa.

ÓPERA – Um sopro meu é bastante para pulverizar-te!

FAUSTINO – Temos outra vez a cena do Monte Cristo?

ÓPERA – Julguem-nos! Julguem entre a Gioconda e a Ave do Paraíso!

OPERETA - Si tu m’insultes, dou-te um bofetão, e te quedarás com el.

ÓPERA – Um bofetão! Em mim?! Em mim... Oh!...

Dueto

ÓPERA – Opereta incivil, malcriada,

Que o bom gosto expulsou de Paris,

Vai haver uma grande estralada

Se a mostarda me chega ao nariz!

OPERETA – Não suponhas, mulher, que o teu luxo

De despeito me faça estoirar!

Eu protesto que agüento o repuxo

E te posso com os pés esmagar!

ÓPERA – Que me toques duvido!

OPERETA – Olha lá, não me assustes!

ÓPERA – Sou mais forte, verás!

OPERETA – Deixa-me em paz!
(Juntas)

ÓPERA


Opereta incivil, etc.
OPERETA

Não suponhas, mulher, etc.



(Engalfinham-se; Jogatina separa-as.)

JOGATINA – Então, minhas senhoras, então? Isso é feio! A Ópera e a Opereta podem viver perfeitamente sem se engalfinharem! – Vamos lá, digam-me: que novidades nos oferecem?

(A Ópera e a Opereta falam ambas ao mesmo tempo.)

ÓPERA – A Gioconda! Vem ver como é bela! Que música! Que bailados!...

OPERETA – A Ave do Paraíso, a Princesa das Canárias... Amar sem conhecer... Vem ver que lindas!

JOGATINA – Tá, tá, tá, devagar! Cada qual por sua vez!

FAUSTINO – Ouvi falar em bailados: são coisa que se veja?

ÓPERA – Os bailados da Gioconda? Estupendos! Principalmente o das horas!

JOGATINA – O bailado das horas! Ah! é belíssimo!...

ÓPERA – Querem ver? (Faz um sinal ao regente da orquestra.) Faz favor? (Música.)



Bailado das horas

FAUSTINO (A Jogatina.) – Para falar-te francamente: ainda não vi coisa que me enchesse as medidas.

JOGATINA – Talvez que entre os hóspedes encontres alguns que te agradem.

FAUSTINO – Como entre os hóspedes?

JOGATINA – Sim, porque os teatros dão muitas vezes hospedagem a outros gêneros de espetáculos, que não são nem a tragédia, nem o dramalhão, nem a ópera, etc.

FAUSTINO – Ah! compreendo... Que temos então?

JOGATINA – A Estudiantina Figaro, por exemplo.

FAUSTINO – Nada; estudiantina já ouvimos uma, e é quanto basta.

JOGATINA – O Capitão Voyer, que é coisa papafina e única no seu gênero.

FAUSTINO – Ah, sim? Que faz esse Capitão? É algum mestre-de-armas?

JOGATINA – Não; é um músico.

FAUSTINO – Que instrumento toca?

JOGATINA – O mais vulgar, porém não o menos apreciado. Vais ver! (Fazendo um sinal para dentro.) Eh! ó capitão!

CENA VII

OS MESMOS, o CAPITÃO VOYER, depois o TRABALHO


CAPITÃO VOYER (Entrando a conduzir um realejo-piano, assente sobre duas rodas.) – Cá estou!

FAUSTINO – Um realejo!...

ÓPERA – Oh!...

CAPITÃO VOYER – Um realejo-piano! Há muito quem diga que qualquer pode tocar este instrumento em que tenho recebido justa e merecida celebridade. É um engano! É preciso bravura e expressão. Eu, como pianista, tenho a expressão e, como capitão, tenho a bravura! Ah! este instrumento tem também os seus segredos, como outro qualquer. E, senão, vejam... (Toca.) Andante... Allegro... Affrettato... Ralentando... Allegretto... Più mosso... Presto... Prestissimo... Prestississimo...

JOGATINA – Não há dúvida: o Capitão com seu instrumento vai longe!

FAUSTINO – Vai, sim; e quem o manda sou eu.

CAPITÃO – E vou mesmo. Piano, piano, se va lontano. (Sai tocando.)

FAUSTINO – Este capitão está no mato! Que mais temos?

JOGATINA – Temos o Bosco, o grande Bosco!... (Fazendo um sinal.) Entre o Bosco! (Um elefante entra e atravessa a cena: quando passa perto de Faustino, sai o Trabalho de uma das pernas.)

TRABALHO (A Faustino.) Vem trabalhar! Vem, ao menos, ser perna de elefante!

FAUSTINO – Ó Senhor!... que sarna!...

JOGATINA – Bem, só me resta mostrar-te os leões nubianos.

FAUSTINO – Nada de brincadeiras! Deixa lá ficar os leões! Mostra-me animais menos perigosos...

JOGATINA – Nesse caso, venha o pessoal do Senhor Salvini! (A um sinal, entram os macacos, que executam uma pequena dança, rodeando a Tragédia.)

TRAGÉDIA (Declamando durante a dança.)

Não faltava mais nada! Eis o teatro

A que está reduzido nesta terra!

Leões, macacos, elefantes, tigres,

Gatos, cachorros, cabras e cavalos...

É uma Arca de Noé, não é teatro!

Sobre os ombros Martins o encargo toma

De reanimar o palco brasileiro,

E o esforço seu não é recompensado!

Três peças nacionais debalde exibe!

Nem o Luxo e vaidade, de Macedo,

Nem A Lei de Vinte e Oito de Setembro.

Nem Venenos que Curamchamam gente

E o público despertam! Eis o teatro

A que está reduzido nesta terra!...



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   19


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal