O bilontra de Artur Azevedo



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CENA III

1o. PROPRIETÁRIO, depois OUTROS PROPRIETÁRIOS


1o. PROPRIETÁRIO (Entrando, montado num cavalinho de pau.) – Hop lá! Hop cá! Cá está ela! Acaba de chegar da Europa com escala pelo Rio Grande! Há de passar por meio sangue nacional! Os documentos estão perfeitamente em regra: filha de Lúcifer e Bonita, tal qual o legítimo vinho do Porto, fabricado na Rua do Passeio. (Fazendo festas à cabeça do cavalinho.) Vamos, negra; vamos para o ensilhamento! (Dirige-se para o lado do ensilhamento, donde saem vários proprietários, montados em cavalinhos idênticos, os quais fazem uma evolução em roda do 1o. Proprietário.)

CORO – Caro amigo, não se zangue


Com o que lhe vamos dizer:

Esta besta é puro sangue;

Aqui não pode correr.

Bem conhecemos a égua;

Não nos ilude o animal;

À distância de uma légua

Mostra não ser nacional.

1o. PROPRIETÁRIO – Perdão, meus senhores: tenho todos os documentos! A égua é meio-sangue. Há de correr!

2o. PROPRIETÁRIO – Qual meio-sangue nem meio-sangue! Protestamos!

3o. PROPRIETÁRIO – É um abuso! Não temos cavalos para vir um animal visivelmente estrangeiro bifar-nos os prêmios! Se ele falasse, haviam de ver que tinha sotaque!

1o. PROPRIETÁRIO – Pois se é visivelmente estrangeiro, é provavelmente nacional!

2o. PROPRIETÁRIO – É a história da Savana e outros.

1o. PROPRIETÁRIO – E o Aimoré?

2o. PROPRIETÁRIO – Pois confesso: o Aimoré não é punga!

1o. PROPRIETÁRIO – Mas tem-no feito passar por tal. Há de restituir todos os prêmios que tem ganho!...

2o. PROPRIETÁRIO – Ora tire o cavalo da chuva! Eu hei de restituir bem sei o quê!

1o. PROPRIETÁRIO – Então cale-se e deixe correr o marfim... quero dizer: a égua!

TODOS – Não há de correr!

1o. PROPRIETÁRIO – Há de!

TODOS – Não há de!

1o. PROPRIETÁRIO – Se não correr aqui, corre no Jóquei Clube.

2o. PROPRIETÁRIO – E nós fazemos greve!

3o. PROPRIETÁRIO – Apoiado! Não corremos lá... isto é, os nossos animais não correm.

1o. PROPRIETÁRIO – Pois veremos quem vence!

TODOS – Veremos! (Saem, repetindo o coro.)

CENA IV

FAUSTINO, SPORTMEN, depois BARGOSSI e MADAME BARGOSSI


FAUSTINO – Magnífico! Fui comprar três pules da Regalia, e o vencedor deu-me quatro! Tudo é lucro! Que bom! (Vendo um sportman.) Olé! Lá está o Tavares! Que bilontra! Vou ver se lhe filo vinte mil réis emprestados! Ó Tavares! Tavares! (Dirige-se para o grupo.)

TAVARES (Que o vê.) – Xi! O Faustino!... que bilontra!... (Sai apressado, perseguido por Faustino.)

1o. SPORTMAN – Olhem, lá vêm eles!

2o. SPORTMAN – Quem?

1o. SPORTMAN – O Bargossi e a mulher.

TODOS – São ... são eles mesmos. (Entram a correr Bargossi e MadameBargossi)



Copla em dueto e coro



(Música de Gomes Cardim)
BARGOSSI – Eis o famoso Bargossi...

MADAME BARGOSSI – E a sua cara-metade.

AMBOS – Vêm ambos nesta cidade

Aplausos mil conquistar.

BARGOSSI – Ando três léguas por hora!

MADAME BARGOSSI – Sou mesmo uma roda-viva!

AMBOS – A melhor locomotiva

Não nos consegue apanhar!

MADAME BARGOSSI – Corro mais do que o dinheiro,

Que corre no mundo inteiro!

BARGOSSI – Corro mais que as loterias,

Que correm todos os dias!

MADAME BARGOSSI – Mulher locomotiva: o mundo assim me chama!

BARGOSSI – E a mim deve chamar – o homem telegrama!

AMBOS – Eis o famoso Bargossi

E a sua cara-metade...

TODOS (Imitando-os a correr.) –Vêm ambos nesta cidade

Aplausos mil conquistar.

Andam três léguas por hora,

São mesmo uma roda-viva;

A melhor locomotiva

Os são consegue apanhar!



(No fim do canto, os andarilhos desaparecem, aplaudidos pela multidão.)
CENA V

POVO, FAUSTINO, ALEXANDRE, depois JOGATINA e TRABALHO, montados


1o. SPORTMAN – Lá vêm os animais!

2o. SPORTMAN – Deus queira que o jóquei novo não nos faça alguma! Eu estou na Regalia até aqui!

1o. SPORTMAN – E eu atolei-me todo!

JOGATINA (A travessando a cena, montada numa égua, a Faustino.) – Compraste?

FAUSTINO – Olerepes!

JOGATINA – E apostas?

FAUSTINO – Apostei cem por vinte!

JOGATINA – Bom!

1o. SPORTMAN – Nada de conversinhas! Siga!

2o. SPORTMAN – Que é dos outros animais?

JOGATINA – Estar no raia. (Desaparece.)

TRABALHO (Entrando, montado num cavalo, que traz um emplasto num dos olhos.)Menos Fanfarron, que ainda aqui vai.

FAUSTINO – Ele!... Está tudo perdido!...

POVO (Apupando o Fanfarron.) – Olha o caolho! Fiô! Fiô! Fora! Ah! Ah! Ah!...

TRABALHO (Durante a vaia, afagando o cavalo.) – Vamos, meu velho; deixa-os falar. (Sai.)

1o. SPORTMAN – Deixem lá, que, se ele ganhar, que bolada! Só tem seis pules!

ALEXANDRE – Uma delas é minha.

2o. SPORTMAN – Joga-se nele na bagagem!

1o. SPORTMAN – Vão dar a saída. (Movimento de povo.) Saíram!

2o. SPORTMAN – Que bela saída!

1o. SPORTMAN – Que dizia eu? Fanfarron na bagagem! (Alvaroto entre o povo.)

2o. SPORTMAN – Regalia já deu tudo!

ALEXANDRE (Não cabendo em si e gaguejando.) – É... é... o... Fanfarron! Ganhei!... (Dá um salto e desata a correr para o lado da pule. A banda de música toca ao longe até o final do quadro.)

VOZES (Fora.) – Viva o Fanfarron!

1o. SPORTMAN – Que pule!

2o. SPORTMAN – Para mais de dois contos de réis!

FAUSTINO (Entrando, desorientado.) – Lá se foi tudo! (Passam montados o Trabalho e depois Jogatina.)

TRABALHO (Passando.) – Vou pesar-me. Ficarei sendo um trabalho pesado... (Desaparece.)

FAUSTINO (A Jogatina.) – Tu és a minha perdição!

JOGATINA – Que queres? O maldito tinha asas nas patas! Tiraremos a desforra! (Desaparece.)

FAUSTINO – Ponho-me ao fresco, antes que o homem dos cem por vinte me encontre! E ainda dei lambugem! Fui um asno!

ALEXANDRE (Voltando.) – Dois contos trezentos e oitenta e três mil e quinhentos!... (Guarda o dinheiro.)





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