O bilontra de Artur Azevedo



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CENA VI

OS MESMOS, COMENDADOR, CAROLINA, UM APOSTADOR



COMENDADOR (Entrando com Carolina.)Foste feliz, Alexandre... Dou-te os parabéns... Hás de me restituir os dez mil réis que perdi na Safira.


ALEXANDRE – Com todo gosto, meu tio.

UM APOSTADOR (Indo a Faustino, que está no fundo.) – Os cem mil réis?

FAUSTINO – Que cem mil réis?

APOSTADOR – Os cem mil réis que perdeu!

VOZES – Pague! Pague! Perdeu! Perdeu! (Discussão muito animada, degenerando em rolo. O Comendador sobe.)

CAROLINA – Ele?! Encheu-se o pote! – Primo Xandico, a pule do Fanfarron chega para o seu enxoval?

ALEXANDRE – Chega e sobra.

CAROLINA – Pois pode pedir-me a papai! (Sobe para junto do pai.)

ALEXANDRE (Transportado.) – Viva o Fanfarron! (Continua a discussão ao fundo. Mutação.)

QUADRO XIV



Salão de fantasia.

CENA I

Brasil, depois Folha Nova


BRASIL (Entrando.) – Aí vem ela, a minha adorada Folha Nova! Ainda bem que poderei vê-la uma vez ao menos antes de morrer. Corre, corre a meus braços, querida Folha Nova!

FOLHA NOVA (Entrando e lançando-se nos braços do Brasil.) – Ó meu querido Brasil!

BRASIL – Como somos infelizes! Amamo-nos como nunca duas folhas públicas se amaram... Tudo nos aproximará um do outro; entretanto...

FOLHA NOVA – Entretanto, feridos de morte por esta terrível moléstia causada pelo desfavor público, temos ambos o pé na sepultura.

BRASIL – Mas não! morrer de pindaíba será uma vergonha!

FOLHA NOVA – Ora se...

BRASIL – Essa medonha enfermidade não nos matará!

FOLHA NOVA - Como evita-lo?

BRASIL – Suicidando-nos.

FOLHA NOVA – O suicídio?...

BRASIL – O suicídio, sim! Unir-nos-emos no seio da morte, já que no seio da vida não nos foi dado faze-lo.

FOLHA NOVA –Dizes bem, morramos; mas de que meio lançaremos mão?

BRASIL – Com certeza não será do meio circulante.

FOLHA NOVA – E muito menos de um meio de vida.

BRASIL (Tirando uns jornais) – Vês isto?

FOLHA NOVA – Que vem a ser?

BRASIL – Leiamos os nossos artigos de fundo. Não há suicídio menos doloroso.

FOLHA NOVA – Lembras bem; sirvamo-nos da prata da casa.

BRASIL – Pobre Folha Nova! quem diria que chegavas a ser uma folha velha!

FOLHA NOVA – Pobre Brasil! quem diria que não chegarias a fazer a tua independência!

BRASIL – Morir si pura e bella!...

FOLHA NOVA – Assim é preciso.

BRASIL – Adeus, retórica política!

FOLHA NOVA – Adeus, violino!

BRASIL – Adeus, mundo elegante!

FOLHA NOVA – Adieu, choses du jour!

BRASIL (Com resolução.) – Sentemo-nos!

FOLHA NOVA – Onde? Não há cadeiras...

BRASIL – No chão... assim.. (Sentam-se ambos.) Toma lá um artigo de fundo meu... lerei um teu...

FOLHA NOVA – Leiamos. (Musica em surdina na orquestra. Começam ambos a ler os artigos, de modo que os espectadores não percebem o que eles dizem. A voz vai-se-lhes a pouco e pouco enfraquecendo.)

BRASIL (Interrompendo a leitura) – Já?

FOLHA NOVA – Ora se ... E tu?

BRASIL – É agora... (Continuam a ler. Caem ao lado um do outro, resmungando sempre, até que se lhes extingue a voz. Soltam os jornais das mãos, deixam prender os braços e expiram.)

CENA II

OS MESMOS, a SEMANA



Rondó



(Música de Miguel Cardoso)

SEMANA Eu sou a Semana menina garbosa,



entrando a correr. Que, apenas nascida, já dá que falar!

Não há quem me vença no verso ou na prosa!

Vitórias brilhantes pretendo ganhar!

Conquanto na corte jornais literários

Sem mil sacrifícios não possam vingar,

Eu zombo da fúria dos ventos contrários,

Alegre e contente, vivendo a cantar!

Sonetos, romances, charadas, artigos,

De tudo e por tudo vos posso ofertar!

Se acaso me lerdes, sereis meus amigos,

Não tendo o costume de ler sem pagar.

Eu sou a semana, menina garbosa, etc.


É como digo!... Agora... agora uma coisa... Aqui para nós que ninguém nos ouve: na opinião de Vossas Excelências, qual é o primeiro poeta brasileiro?... Não respondem?... Não querem responder?...

UMA VOZ NA PLATÉIA – Gonçalves Dias!

SEMANA – Gonçalves Dias? Nego! Nego e ponho a votos! Os senhores que entendem que Gonçalves Dias é o primeiro poeta brasileiro, queiram ficar sentados (muito admirada.) Passou! – Pois olhem, com franqueza: na minha humilde opinião, o primeiro poeta brasileiro é outro... (Vendo os dois cadáveres.) Que é isto? Que vejo? A Folha Nova e o Brasil!... Estarão dormindo? Vou acordar eles... Eu dizia – acordá-los -; mas depois que o astro Lopes sustentou ex-cathedra que a gente deve dizer – acordar eles -, não me exprimo de outro modo... (Aproxima-se dos cadáveres.) Então? que é isso?... São horas de dormir?... Acordem! (Assustada.) Meu Deus! esta rigidez! este palor! esta frialdade; Não lhes bate o coração! Mortos! mortos!... E esta? Corramos a chamar alguém!... Mas, antes disso, cubramo-los, para poupar aos nossos próprios olhos tão lúgubre espetáculo! (Vai buscar um manto no bastidor, e cobre os dois cadáveres. depois vai a sair e encontra-se com m Diário Português, que entra muito doente.)

CENA III

A SEMANA, o DIÁRIO PORTUGUÊS


SEMANA – Ah! é você, seu Diário Português! Não sabe o que me sucede!

DIÁRIO PORTUGUÊS – O que foi? (Tosse muito.)

SEMANA – Ó Senhor! que tosse!...

DIÁRIO PORTUGUÊS – Ah! isto está por um fio! estou já cheirando a defunto!

SEMANA – É justamente de mortos que se trata. Vim encontrar aqui dois cadáveres.

DIÁRIO PORTUGUÊS (Assustado.) – Cadáveres? Esconda-me!

SEMANA – Sossegue, não se trata de cadáveres vivos!

DIÁRIO PORTUGÊS – Pois são esses os que me matam. mas quem foi então que morreu?

SEMANA – O Brasil e a Folha Nova.

DIÁRIO PORTUGUÊS – Não é possível!... Qualquer deles gozava de mais saúde do que eu.

SEMANA – Tanto é possível, que ali estão debaixo daquele manto.

DIÁRIO PORTUGUÊS – Ora essa! deixe-me vê-los, coitados! (Descobre o manto, e sai debaixo dele, muito lépido e jovial, o Diário de Notícias.)





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