O bilontra de Artur Azevedo



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CENA XIII

FAUSTINO, JOGATINA, o DIÁRIO DE NOTÍCIAS, a ALFACE, a CENOUTA, a ABÓBORA, o REPOLHO, o NABO e outras HORTALIÇAS, que entram marchando.


CORO – Aqui estão as hortaliças;

Quingombós,

Couves e jilós,

Quiabos,


Nabos

E nabiças!

Sofrer injustiças

É coisa atroz! (Solenemente.)

Escreva a imprensa quatro linhas

Sobre as malditas barraquinhas!

– Ora aqui está ao que aqui vimos:

Bem pouca coisa nós pedimos!

DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Oh! que balbúrdia

Fazem vocês!

Cada um que fale

Por sua vez!

ABÓBORA, ALFACE e CENOURA – Vá lá! nós três!

Coplas

I
CENOURA – Nós vivíamos em sociedade,

Lá no mercado em doce paz....

ALFACE (Apontando par Ilustríssima.)

Mas a Municipalidade

Súbito zás que lhe darás!

ABÓBORA – Pois com rigor

As barraquinhas quis impor,

Fez-se greve

Sem tardar!

Ninguém deve

O que não deve pagar.

Do jornalismo a proteção

Viemos pedir em prontidão!

Se a imprensa escreve

Sobre esta greve,

Vencida já

A coisa está!

CORO – Fez-se greve, etc.
II
ALFACE – Todos nós guardamos mistério

Quando esta greve se formou...

CENOURA – O quingombó mostrou critério

E desta vez não escorregou...

ABÓBORA – Em conclusão:

Sendo precisa uma lição,

Fez-se greve, etc.

CORO – Fez-se greve, etc.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS –

Eu sou o mais novo dos jornais;

Ide falar aos maiorais!

Noutro salão a Imprensa está.

Ide por cá.

CORO – Vamos por cá.

Fez-se greve, etc. (Saem as horas.)

O DIÁRIO DE NOTÍCIAS (A Ilustríssima, mostrando-lhe as hortaliças.) – São horas da sua festa: vamos!

ILUSTRÍSSIMA – Vamos!

JOGATINA – Estas hortaliças abriram-me o apetite!

FAUSTINO – Se a gente fosse almoçar?

JOGATINA – Está dito; e de lá, toca a providenciar para arranjar a barraquinha.

FAUSTINO – Bravo! (Saem a correr enlaçados. Mutação.)

QUADRO XV



As barraquinhas da Praça da Aclamação

CENA I

TRABALHADORES, BARRAQUEIROS, depois FAUSTINO E JOGATINA


(Ao levantar o pano, alguns trabalhadores estão dando a última demão às barraquinhas . Outros armam ao fundo um fogo de artifício . Várias pessoas do povo estão à espera de que comece a feira.)
FAUSTINO (Entrando a Jogatina.) – Mas , então, qual é a nossa barraca?

JOGATINA – Aquela. É bonita, hein? À Barraca da Felicidade.

FAUSTINO – Da fidelidade, gosto. Mas sempre queria que me dissesses como, sem vintém, pudeste arranjar as coisas.

JOGATINA – Para que me serve ter lábia e ser demônio , além de moça bonita? O homem das barracas dá tudo pronto, e pagaremos o aluguel por semanas vencidas.

FAUSTINO – Magnífico!



JOGATINA – Vai, pois, tomar posse , enquanto eu vou contratar um piston, um clarinete e um oficleide para formar uma banda .(Sai.)

FAUSTINO – Bravo! temos banda! Ela falou em oficleide: não vá o Trabalho vir por aí! (Vai a sair.)
CENA II
FAUSTINO, o TRABALHO
TRABALHO (Disfarçado em fogueteiro, com um foguete na mão.) – Um momento.

FAUSTINO (Voltando-se) – Então? Que disse eu? (Desata a correr e desaparece.)

TRABALHO – Eu vinha passar-lhe um foguete. Oh! mais dia, menos dia, hei de vê-lo com vulgo e assinando termo de bem viver. (Vai para o fundo e desaparece).
CENA III
COMENDADOR, CAROLINA, depois o POLÍCIA NOTURNO
COMENDADOR – Aqui tens tu as barraquinhas. Está feita a tua vontade contra a minha... Os guaiamus puseram a bandeira no fio telegráfico, o que, na opinião do Diário de Notícias, quer dizer que temos sarilho feio...

CAROLINA – Qual o quê, papai!Não creia!

COMENDADOR – Acho bom; mas , quando vier por aí alguma navalha desgarrada, como aconteceu no rolo do Largo de São Francisco...

CAROLINA – Ora, papai! Deixe-se de medos!... Um barão!



COMENDADOR – E então que tem isso? Um Barão também tem tripas! Tripas nobres, é verdade, mas tem-nas. Eu sou liberal, ultraliberal, liberal da velha guarda; mas façam-me Ministro da Justiça, e verão senão dou cabo dos capoeiras! Felizmente um jornal inventou e o comércio está tratando de organizar a polícia noturna... (O Polícia Noturno vai atravessando a cena. É um velho coxo e coberto de velhas armas, de um tamanho exagerado.)

POLÍCIA NOTURNO – Quem me chama?

CAROLINA – Ah!

POLICIA NOTURNO –Não se assuste, minha menina: não sou um perturbador, mas um garantidor da ordem. Sabendo que se ia formar a polícia noturna...

COMENDADOR – Pretende servir-lhe de modelo?

POLÍCIA NOTURNO – Ah! q,u,i, qui. Vou à Rua do Ouvidor apresentar-me às pessoas incumbidas da organização...

COMENDADOR – E espera ser aceito ?

POLÍCIA NOTURNO – Que dúvida! Cem homens como eu, e assim armados, era uma vez o último gatuno! (Cumprimenta e sai, com altivez cômica.)

COMENDADOR – Pois sim, cem polícias noturnos como aquele, e mudo-me do Rio de Janeiro. Eu sou li...



CAROLINA – Papai... olhe... que é aquilo? (Aponta para fora)

COMENDADOR – Aquilo?... Espera... Parece um comparsa do drama Guarani... E é mesmo! (Entra o Coroado.)
CENA IV
OS MESMOS, o COROADO
COMENDADOR – Ó amigo! (O Coroado não responde) Eh! Amigo! (O Coroado volta-se espantado.) Quem é você, que anda assim vestido, para não dizer despido, pelas ruas?
Copla
(Música de Gomes Cardim.)
COROADO – Pericumã, Manhuaçu,

Cjapió, Curupuru.

Icaraí, Baturité,

Curupaiti, Muriaé

Itaoca,

Tapioca,


Jurujuba, Guajará,

Indaíba,


Paraíba,

Pindaguaratinguetá!

COMENDADOR – Fiquei na mesma: isto não é um homem: é uma carta geográfica do Brasil!
CENA V
OS MESMOS, ALEXANDRE
ALEXANDRE – É inútil dirigir-lhe a palavra, meu tio; esse homem não fala português: é um coroado.

COMENDADOR – Um coroado! (Tirando vivamente o chapéu) Oh ! sire !

ALEXANDRE – Ponha o chapéu... É um selvagem da tribo dos coroados.



COMENDADOR (Pondo o chapéu.) – Ora, um selvagem!

ALEXANDRE – Só fala guarani.

CAROLINA – E não o canta?

ALEXANDRE (Apertando-lhe a mão) – O guarani, idioma.

COMENDADOR – Ah! esse até eu falo!

CAROLINA – Papai?

COMENDADOR – Ora! ora!ora! (Ao índio) Paraquerê Coroatá? (O índio olha totalmente para ele.) Paraquerê Coroatá?

COROADO (Exprimindo-se muito bem.) – Ora , meu caro senhor, isso nunca foi guarani. (Sai)

COMENDADOR (Depois de uma pausa.) – E eu fiquei com cara de lorpa! Estes selvagens nada têm de civilizados! – Vem cá , Alexandre: que se diz por aí de política?

ALEXANDRE – Quanto à política interna, nada de novo... o tal projeto passa com certeza... Do exterior é que temos um telegrama importante.

COMENDADOR – Sim?

ALEXANDRE – Participando que os alemães se apoderaram das ilhas Carolinas.



COMENDADOR (Cantando sem acompanhamento.)

– Carolinas! que ilhas são esta?

Onde estão, ai! meu Deus! De quem são?

ALEXANDRE – São do reino espanhol, que protesta,

Contra a gana do reino alemão.

(Tem anoitecido pouco a pouco; as barraquinhas começam a iluminar-se, e o povo a fluir.)

COMENDADOR – Isto começa a encher-se, e para apertos do povo não serve o filho de meu pai... Toma conta de tua prima, Alexandre... Já é tua noiva...

ALEXANDRE – O seu braço, Carola.



COMENDADOR – Vamos até o circo, gosto muito do palhaço Augusto... Arreda, que eles aí vêm! (Fugindo de uma malta de capoeiras, que vem à frente da charanga). Eu sou ultraliberal, mas não se me dava de acabar com estes patifes! (Desaparece com a família).
CENA VI
JOGATINA, FAUSTINO, barraqueiros, um CRIOULO.
(Jogatina atravessa a cena tocando violão e acompanhada por três músicos, que tocam outros instrumentos. Entram todos na barraca de Faustino, que aparece encarapitado, para gritar, quando a música cessa.)
FAUSTINO – É a última dezena! Oitenta e um a noventa!

JOGATINA (Aparecendo.) – Cinqüenta e um a sessenta!

UM CRIOULO (Do outro lado) – Um peru com seis pelegas! Vai-se tirar o número para ver quem é o felizão! (Sacode a caixa de números.) Muita limpeza!

JOGATINA – A última dezena! Cinqüenta e um a sessenta!



CRIOULO (Cantando o número) – Vinte e sete!

UM SUJEITO (Do povo.) – Cá está! cá está!

CRIOULO – Quer o peru ou as pelegas?

UM BARRAQUEIRO – Números vinte e dezesseis! São os últimos! Dois mil réis ao primeiro e dez tostões ao segundo! Olha o Jóquio Rio-grandense!

FAUSTINO (Aparecendo.) – Safa! Estou cansado!

JOGARINA – Pois descansemos um pouco. Que meninada é aquela que ali vem? Será algum colégio?



FAUSTINO – Não sei , vamos ver.(Desce para a cena; Jogatina imita-o.)
CENA VII
FAUSTINO, JOGATINA, POVO, a ILUSTRÍSSIMA, 1º, 2º, 3º, 4º MENINOS e mais 17 MENINOS, formando uma escada . Os passeantes agrupam-se .Cessam os pregões.
Marcha e coro dos meninos.
(Música de Gomes Cardim)
Nós somos os vinte e um:

Não falta aqui nenhum!

Barulhentos,

Turbulentos,

Prazenteiros,

Desordeiros,

Nós somos os vinte e um:

Não falta aqui nenhum!

CORO GERAL – Cá estão os vinte e um:

Etc.


JOGATINA – Tantos meninos, meu Deus!

ILUSTRÍSSIMA – Pois são todos filhos meus!

JOGATINA – Tem vinte e um filhos a matrona!

Gabo a pachorra de tal pai!

Quem ele é, senhora dona,

Se faz favor, dizer-nos vai!

ILUSTRÍSSIMA – Pois não, pois não: é o município.

FAUSTINO – É o município!

JOGATINA – É o município!

CORO – É o município , o município.

Ditoso pai de vinte e um !

É o município, o município!

Todos aqui estão, sem faltar nenhum!

ILUSTRÍSSIMA – Agora , meus queridos filhos,

Vamos nós todos passear;

Mas não me sejam peralvilhos,

Pois não desejo me zangar.

(Repetição do coro. Sai a Ilustríssima com dezessete dos vinte e um meninos.)


CENA VIII
OS MESMOS, menos a ILUSTRÍSSIMA e os 17 meninos figurantes
JOGATINA (Aos quatro meninos que ficaram) – Então, nhonhôs, não quiseram ir com a mamãe?

1º MENINO – Não fumos, não sinhô; nós aqui fiquemos milhó: podemos pintá.

JOGATINA – Ah! a velha é rabugenta?



1º MENINO – Nem por isso. Às vez pinta cumo nós. Mas é que nós quer fazer uma coisa de que talvez ela não goste.

CRIOULO – Muita limpeza! O belo casal de galinhas do Japão ou seis pelegas!

BARRAQUEIRO – Olha essa estrada de ferro que vai andar!

CRIOULO (Cantando) – Trinta e cinco!

UM HOMEM DO POVO – Pronto! Venham as pelegas!



JOGATINA (Que tem estado a falar baixo com os meninos e Faustino) – Então decididamente não nos querem dizer qual é o plano?

1º MENINO – Boas! Você era capaz de contá a mamãe, que diria tudo a seu mestre.

JOGATINA – Pois não sairemos daqui sem ver o que vocês querem fazer!



2º MENINO – Vocês não diz nada ?

JOGATINA – Não dizemos, não: palavra.

2ºMENINO – Jure.

JOGATINA (Beijando uma cruz que faz com os dedos.) – Juro, aí está!

1º MENINO – Pois lá vai: devem vir daqui a pouco uns meninos ricos, que têm uns brinquedos bonitos... Que calungas!cavalinhos!velocípedes, boizinhos... principalmente os boizinhos!Que boizinhos!

2º MENINO – Parecem bois de verdade.

1º MENINO – Nós então qué muita pancada neles e não deixá eles passá...

JOGATINA – Ora , fazem mal... O melhor é obrigá-los a pagar qualquer quantia, e deixa-los depois...

FAUSTINO – É; vocês compram biscoitos, doces ...

1º MENINO – Bem lembrado! (Aos outros) Tá dito?

OS OUTROS – dito !

1º MENINO – Olhe, lá vêm eles cos boizinho.

JOGATINA – Avante! Ou pagam ou não passam!

FAUSTINO – Que diabo! Vê lá o que vais fazer!

JOGATINA – Deixe-os (Os outros meninos colocam-se em linha do lado aposto àquele por onde entram os quatro meninos ricos, com boizinhos que arrastam por meio de um cordel.)
CENA IX
OS MESMOS, os QUATROS MENINOS RICOS, depois a ILUSTRÍSSIMA, depois o MESTRE-ESCOLA
1º MENINO – Alto aí! Co boizinho ninguém passa sem pagá!

1º MENINO RICO – Menos isso! a gente há de passá!

1º MENINO – Cinco niques cada boizinho! Dois niques para mim , que sou o mais véio, um nique pra Juca, outro pra Jojoca e outro pra Cazuza!

FAUSTINO (Baixo ao 1º menino.) – Vê se arranjas também um para mim.

1º MENINO – Venha os niques ou sai rolo!

1º MENINO RICO – Tome; não faço caso de misérias. (Dá os níqueis e passa com o boizinho.)

1º MENINO – Venha dos outros! (Os outros pagam e passam).Agora vamos reparti.

FAUSTINO – Olha lá, não te esqueças!



ILUSTRÍSSIMA (Voltando) – Juca! Cazuza! Jojoca! Tonico! Onde se meteram estas crianças?

JOGATINA (Á parte) – Que crianças!



ILUSTRÍSSIMA – Ah! Lá estão eles! Que estão fazendo aí, meninos? (Vendo o dinheiro) Níqueis!... Onde arranjaram vocês tanto dinheiro?

1º MENINO – Eu tirei nos cavalinho, sim, senhora.

2º MENINO – Foi um moço que me deu pra comprá bala

FAUSTINO (Á parte) – Não me deram nada? Espera! (Alto.) É mentira! Não foi nos cavalinhos: foi nos boizinhos... Tiraram de outros meninos que traziam uns boizinhos.

ILUSTRÍSSIMA – Ó atrevidos! ainda bem que lá vem o mestre! Ele é que pode com vocês! (Ao Mestre-escola , que entra solenemente.) Seu professor, estes malcriados tiraram dinheiro de uns meninos que vinham com boizinhos.

MESTRE-ESCOLA – Grave!... grave!... muito grave!... Vou suspendê-los do recreio... Estão suspensos! Marche! (Aponta para fora.)

OS MENINOS (Saindo) – Fomos suspensos! Ih! ih! ih!(Saem fazendo berreiro. O Mestre-escola e a Ilustríssima saem também.)

JOGATINA – Vamos, para a barraca! Tratemos da vida! (Recomeçam os pregões. Animação. Música de charanga. Confusão geral.)

VOZES – Lá vai começar o fogo!



TODOS– Ao fogo! Ao fogo!... (Começa a arder uma roda de fogo de artifício. Mutação.)

QUADRO XVI




Em casa do Comendador




CENA I

ALEXANDRE, CAROLINA


CAROLINA – Estou comovida, Xandico: é a primeira vez que venho à casa de papai depois de casada.

ALEXANDRE – Há oito dias apenas.

CAROLINA – A nossa primeira visita pertencia-lhe de direito. Ele estará em casa?

ALEXANDRE – É provável; bem sabes que, depois da história do título falso, poucas vezes sai.

CAROLINA – Aquele Faustino, hein?

ALEXANDRE – Não te dizia eu que era um bilontra?

CAROLINA – Bi? Trilontra, digo eu!

ALEXANDRE – O que nos vale é que o júri, a que hoje vai responder, deve dar-lhe uma lição.

CAROLINA – Bem; não fales mais naquele maldito, mesmo porque aí vem papai.

CENA II

OS MESMOS, COMENDADOR


COMENDADOR – Ó meus filhos! Que agradável surpresa! Já tencionava hoje ir vê-los... (Abraça –os) se apolítica me deixasse. A ascensão do meu partido...do grande Partido Conservador...

CAROLINA – Uê! Papai é conservador?

COMENDADOR – Se sou conserv... se sou conservador?! Homem , essa agora! Fui, sou e serei conservador de princípios, conservador da velha guarda!... Intransigente!...

ALEXANDRE – Ó meu tio... ainda há poucos dias dizia-se liberal...

COMENDADOR – Eu?... Eu dizia-me liberal?... Você está sonhando... Ora eu liberal! Eu, que fui esbulhado por uma câmara liberal !!! Eu? Havia de ter graça!

CAROLINA – Papai é governista ...não é ele que muda, são os governos.

COMENDADOR – Agora é que tu disseste a verdade... Sempre firme no meu posto... O que eu quero é deixar a meus filhos uma pátria moralizada... Ora eu liberal!...

CAROLINA – Papai está todo encasacado... Ia sair?

COMENDADOR – Daqui a pouco. Estou à espera de alguns amigos políticos, que me acompanham desde os bancos acadêmicos.

CAROLINA – Papai nunca andou na academia...

COMENDADOR – Isto é um modo de dizer. Amigos firmes, de todos os tempos, que vêm buscar-me para irmos cumprimentar o novo gabinete, a aurora da regeneração! Já era tempo! Este malfadado país ia de todo à garra com os tais liberais! Sete anos, sete meses e duas vezes sete dias de governo, irra!

CAROLINA – Papai hoje está muito político...

ALEXANDRE – Como sempre!

CAROLINA – ... e nós ainda temos que fazer muitas visitas antes de jantar. Quer ir à noite às quermesses?

COMENDADOR – Não tinha eu mais que fazer.

ALEXANDRE – Pois nós vamos a cinco. Agora é moda.

CAROLINA – Até quando?

COMENDADOR – Até amanhã ou depois. Logo que as coisas entrarem nos seus eixos, irei jantar com vocês.

ALEXANDRE – Adeus, meu tio.

CAROLINA – A benção, papai? (Beija-lhe a mão e sai com o marido.)

COMENDADOR – Deus os acompanhe.

CENA III

O COMENDADOR, depois UM CRIADO, depois vários AMIGOS POLÍTICOS.


COMENDADOR (Vindo pensativo até a boca da cena) – Até quando serei conservador? –Oh! desta vez hei de conseguir... já não digo uma pasta, o que, aliás, não seria coisa do outro mundo... mas uma presidência de província ... ou, quando menos, uma subdelegacia na corte... (Entra um criado, entrega-lhe um ofício e sai) Bravo! estou nomeado inspetor de quarteirão! (Guarda o ofício . Entram os amigos políticos. Trazem todos as casacas vestidas do avesso.)

1º AMIGO – Barão, estamos prontos!

COMENDADOR – Eu já não sou Barão , meu amigo!

1º AMIGO – Desculpe, não me lembrava.

COMENDADOR – Perdi o título, e para isso não foi preciso reunir o Conselho de Estado.

2º AMIGO – Sabe que se fala em dissolução?

COMENDADOR – Eram favas contadas.

1º AMIGO – Passou a moção dos liberais!

COMENDADOR – Que partido, meus amigos, que partido! Eu sou li... quero dizer: eu sou conservador da velha guarda; mas, se fosse liberal, não votaria por semelhante moção!

1º AMIGO – Está bem , faz-se tarde, e são horas de partir.

2ºAMIGO – Vamos, Comendador?

COMENDADOR – Vamos! (Vão todos a sair). Ah!esperem. (Estacam todos . O Comendador despe a casaca e torna a vesti-la do avesso). Partamos! (Saem. A cena fica deserta por alguns momentos , findo os quais Faustino entra pelo fundo, mal trajado, de barba crescida e com o olhar desconfiado.)



CENA IV

FAUSTINO, depois a OCIOSIDADE, depois o TRABALHO


FAUSTINO – O júri absolveu-me: estou livre... Escapei arranhando; por uma atenuante que não está no código: porque tive graça... Embora! de hoje em diante procurarei reabilitar-me... Ao sair do júri, encontrei na Praça da Aclamação o Trabalho, que conduzia uma carroça. Desta vez fui eu quem lhe disse: – Um momento! – Aproximei-me dele, e pedi-lhe que me valesse. Prometeu-me tudo, sob uma condição: a de vir pedir ao Comendador que me perdoasse. Eu também sinto que, sem o seu perdão, não poderei resgatar o meu passado. Quando não seja resgatá-lo completamente, ao menos pagar o prémio e reformar a cautela... Maldita Jogatina! Ainda agora passei por ela: lançou-me um olhar de soberano desdém. Pudera! A sua obra está consumada.

OCIOSIDADE (Entrando.) – Faustino!

FAUSTINO – TU?! Some-te da minha presença, mulher maldita!

OCIOSIDADE – Vem comigo, e ainda serás feliz!

FAUSTINO – O mesmo já me prometeste um dia... Some-te!

OCIOSIDADE – Vem!

FAUSTINO – Não! (Estabelece-se uma luta entre os dois.)

TRABALHO (Entrando e repelindo a Ociosidade.) – Para trás!

OCIOSIDADE – Ainda desta vez hei de vencer!



TRABALHO – Para trás! (A Faustino, que se lhe atira nos braços). Estás salvo! Só nos braços do Trabalho encontrarás a regeneração.

FAUSTINO– Obrigado.



TRABALHO (Descendo ao proscênio)
Do imortal Vitor Hugo, encarnação da Arte,

O majestoso vultou encheu da Glória o templo;

Ociosidade vil e estúpida, mostra-te

Eu quero do Trabalho este sublime exemplo


O truculento Homero, o singular Virgílio,

E os mais que a glória são da velha Humanidade,

Lá no divino, eterno e luminosos exílio

Honram-se de acolher o fúlgido confrade.


Vítor Hugo deixou no coração dos povos

Um largo e longo sulco astrífero e profundo;

Os grandes livros seus, eternamente novos,

São legados em França e dádivas no mundo.


Por berço teve a França estremecida sua,

Porém por pátria universal, imensa;

Foi patrício de todo aquele que possua

Um coração que bate e um cérebro que pensa!


(Aponta para o fundo. Mutação)
QUADRO XVII
Apoteose a Vitor Hugo
(A orquestra executa a Marselhesa.)
[(Cai o pano)]

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