O bilontra de Artur Azevedo



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Sala em casa de Faustino




CENA I

FAUSTINO depois um CRIADO


FAUSTINO (Dirigindo-se à esquerda) – José! Ó José!

O CRIADO (Entrando) – Meu amo?

FAUSTINO – Levaste a carta ao Comendador?

O CRIADO – Levei, sim, senhor

FAUSTINO – O diabo! (Indo puxar o relógio, que não encontra). Esquecia-me de que o pus ontem no prego.

O CRIADO – Deram duas há pouco

FAUSTINO –Bem, podes retirar-te

O CRIADO – E o jantar?

FAUSTINO – Que jantar?

O CRIADO – O jantar pra gente.

FAUSTINO (Embaraçado) – O jantar... oh! sim... o jantar...Homem, pra falar a verdade, não tenho fome. (À parte). Nem com que matá-la.

O CRIADO – Mas eu...

FAUSTINO – Tu comerás logo, em qualquer casa de pasto...depois que o Comendador vier. Vai.

O CRIADO (Que vai a sair, voltando.) – Ah! É verdade, vieram há pouco dois homens, assim, com modos de meirinhos...

FAUSTINO – Hein? Meirinhos?!

O CRIADO – Ou coisa parecida.

FAUSTINO – Não estou em casa, estás ouvindo? Se voltarem, não estou em casa!

O CRIADO (Saindo, à parte) – Isto vai mal! Se as coisas não mudarem, piro-me! (Sai)



CENA II

FAUSTINO , depois RIBEIRINHO e ANACLETO


FAUSTINO (Pensativo) – Meirinhos...Não há que ver: foi o senhorio! Foi ele com certeza! O senhorio ou o alfaiate...Daí, quem sabe? Talvez seja o maldito taverneiro...O taverneiro? Qual! é O Sousa da loja de calçado! Cuidado! é preciso que não se apanhem descalço (Aparecem ao fundo os dois meirinhos, que espiam cautelosamente). Só o Comendador poderá salvar-me. Creio que não hesitará em emprestar-me os quinhentos mil réis que lhe mandei pedir.

RIBEIRINHO – Vossa senhoria dá licença?

ANACLETO – Criado de Vossa Senhoria

FAUSTINO (À parte, sucumbindo) – Bonito!... (Cai sentado numa cadeira)

RIBEIRINHO (Aproximando-se) – Vossa Senhoria desculpe, mas nós viemos...

ANACLETO – Por causa daquela conta...

RIBEIRINHO – Da Casa Sousa & Companhia.

FAUSTINO – Não disse? É o homem das botas! Então, que pretendem?

RIBEIRINHO – É boa! Vossa Senhoria está fazendo de novas ! O importe...

FAUSTINO – Oh! uma miséria! Duzentos e quarenta mil réis, se não me falha a memória

RIBEIRINHO – Perdão de Vossa Senhoria, mas...com as custas...

FAUSTINO – Ah, sim, fui citado à semana atrasada

RIBEIRINHO – E apresentou atestado médico.

ANACLETO – Mas não comparecendo à última audiência...

RIBEIRINHO – Fui condenado a pagar

ANACLETO – Trezentos e oitenta e um mil réis.

FAUSTINO (Com um pulo) – Hein? quê?

RIBEIRINHO – E então ? Citação, contra-fé, juiz, escrivão, procurador, oficial de justiça, mandado, etc,etc,etc...

ANACLETO – Principalmente etc,etc

FAUSTINO – Os senhores não podem esperar até depois de duas e meia?

RIBEIRINHO – Não, senhor; temos ordem de proceder à penhora, o que vamos fazer imediatamente! (Tira do bolso papéis e prepara-se para proceder à penhora)

CENA III

OS MESMOS, O CRIADO


O CRIADO (Entrando) – Meu amo, aí vem o Comendador (À parte, vendo os dois meirinhos). Ui! cá estão eles!

FAUSTINO – O Comendador?! Corre! Demora-o! Traze-o só quando eu chamar!

O CRIADO – Sim, senhor. (Sai a correr)

FAUSTINO (a Anacleto) – Senhor...

ANACLETO – Anacleto do Espírito Santo, criado de Vossa Senhoria...

RIBEIRINHO – O Ribeirinho, para o servir. Não há caloteiro que me não conheça ! Vossa Senhoria é o primeiro que ...

FAUSTINO (Entre os dois)Meus amigos, pelo amor de Deus não me deitem a perder! Escondam-se! É uma visita importante, que não os devem encontrar aqui.

OS DOIS – Mas...

FAUSTINO – Logo que o Comendador sair, vocês farão o seu dever. (Tirando a corrente que não tem relógio). – Tomem; é tudo o quanto possuo. (À parte) . É de plaqué. (Alto). Mas, pelo amor de Deus, escondam-se !

ANACLETO (Depois de examinar a corrente, e de consultar Ribeirinho com os olhos.) – Onde?

FAUSTINO – Ali, naquele quarto! (Empurrando-os). Depressa! (O Comendador aparece ao tempo em que os dois se somem, e não os vê.). Era tempo! – Ó Comendador! Vossa Excelência quis dar-se ao incômodo...

CENA IV

FAUSTINO, COMENDADOR, depois ANACLETO e RIBEIRINHO


COMENDADOR – O senhor tem um criado muito falador! A puxar conversa... a puxar conversa... Dir-se-ia que não queria me deixar entrar.

FAUSTINO (Com sorriso contrafeito) – Ora, Comendador! essa agora! É de costume daquele animal! Se eu ansiava pela vinda de Vossa Excelência! – Então, Excelentíssimo, queira sentar-se!...(Durante toda a cena, olha desconfiado pela porta por onde saíram os meirinhos).

COMENDADOR – Obrigado; mas desde que me negaram acento na Câmara dos Deputados, nunca mais me sentei em parte alguma! Só me hei de sentar quando for eleito! Foi um voto!

FAUSTINO – Vossa Excelência só teve um voto?

COMENDADOR – Não; foi um voto que fiz.

FAUSTINO – Ah! Mas deve ficar excessivamente fatigado.

COMENDADOR – Quando canso, deito-me. É por isso que não faço visitas de cerimônia. – Mas que tem o senhor? Acho-o assim com ares de espantado!

FAUSTINO – Não é nada... não é nada... É um ar encanado que vem daquela porta. Com licença (Vai fechar a porta e volta). Mas, como íamos dizendo... (Senta-se e levanta-se logo). Desculpe-me, Excelentíssimo! Vossa Excelência de pé e eu sentado: que distração!

COMENDADOR – Esteja à vontade: o senhor não fez nenhum voto, como eu.

FAUSTINO – O caso é que Vossa Excelência foi vítima da mais clamorosa injustiça de que há exemplo nos anais da Cadeia Velha!

COMENDADOR – Que quer o amigo? Fomos dois os eleitos pelo meu distrito.

FAUSTINO – Dois ?

COMENDADOR – Dois, sim, senhor; acha pouco?

FAUSTINO – Acho até demais!

COMENDADOR – Também eu. Eu fui o mais votado; ergo, fui o eleito; não?

FAUSTINO – Parece.

COMENDADOR – Mas o Lopes foi o reconhecido!

FAUSTINO – Ora o Lopes!

COMENDADOR – Ergo, foi o eleito; não?

FAUSTINO – Incontestavelmente. Mas qual dos dois teve o diploma?

COMENDADOR – Ambos. O dele, passado pela junta apuradora, e o meu por dois juízes de paz. Temos, por conseguinte, dois eleitos. Qual deveria ser a conseqüência lógica desta dualidade? Serem ambos reconhecidos pelo mesmo distrito dois ou três deputados. Houve esta lacuna na idéia-mãe. Entretanto, senhor presidente, que mal haveria no duplo ou no tríplice reconhecimento? Nem ao menos acréscimos de despesa pública, porquanto, cada um dos dois ou três eleitos, representando metade ou um terço de deputado, venceria, em vez de cinqüenta mil réis diários, vinte e cinco mil réis ou dezesseis mil, seiscentos e sessenta e seis réis!

FAUSTINO – Mas o Comendador em tal caso só teria direito à metade de um voto e talvez a um terço (Os meirinhos de vez em quando espiam pela porta, que entreabrem).

COMENDADOR – não elucidei ainda este ponto. Fá-lo-ei na primeira ocasião. – Ah! mas ficou-me uma satisfação: o meu partido, o Conservador...

FAUSTINO – Ah! Vossa Excelência é conservador?

COMENDADOR – Fui. Fui conservador até o terceiro escrutínio. Hoje sou liberal, ultraliberal, meu caro Senhor Faustino... Liberal da velha guarda!

FAUSTINO – Mas como ia dizendo: o Partido...

COMENDADOR – Qual deles? Ah! sim... o Conservador, ou antes, os meus ex-correligionários não concorreram com seu voto para a minha exclusão...

FAUSTINO – Então por que mudou de política?

COMENDADOR – Justamente por isso; para, da outra vez, obter os votos dos meus ex-adversários. No mais, não... Razões de queixa não tive. O Partido ofereceu-me até, bem como aos outros sacrificados, um jantar de oitenta talheres no Hotel do Globo.

FAUSTINO – Oitenta! Quanto mais se fossem reconhecidos!

COMENDADOR – Então, o caso muda de figura. Cada qual se contentaria com seu talher na mesa do orçamento.

FAUSTINO – Por falar em orçamento: Vossa Excelência trouxe?... (Ouve-se no quarto barulho de louça que se quebra).

COMENDADOR – Que é isto? (Saem do quarto, assustados, Anacleto e Ribeirinho).

FAUSTINO – Nada, Comendador, não faça caso. (À parte). Diabos os levem! (Alto). São dois amigos... (Apresentando-os). O Conselheiro Nóbrega e o Doutor Nóbrega Júnior, seu irmão... o Senhor Comendador Campelo...

COMENDADOR (Desconfiado) – não conheço.

FAUSTINO – Oh! não conhece Vossa Excelência outra coisa! O Conselheiro Nóbrega, velho advogado do nosso foro, onde honestamente adquiriu fortuna.

COMENDADOR – Ah!

FAUSTINO – Tem se distinguido muito por sua filantropia (Baixo a Anacleto). Não me desminta

ANACLETO (Protestando) Oh! Vossa senhoria...

FAUSTINO – Ainda ultimamente fez um importante donativo para o Asilo da Candelária.

ANACLETO – Uma bagatela! (Os dois meirinhos sobem ao fundo, dando-se ares)

COMENDADOR (Baixo a Faustino) – Pode ser que sejam grande coisa; mas a mim quer-me parecer que, com aqueles amigos, o senhor está livre de uma penhora.

FAUSTINO – Como se engana!

COMENDADOR (Vendo as horas) – Bem, deixo-os a gosto. (Vai a sair)

FAUSTINO – Perdão; mas a carta que tive a honra de...

COMENDADOR – Respondo em duas palavras. não disponho atualmente da quantia que me pede...mas, se precisa de dinheiro e quer fazer um bom negócio...como me disse que era amigo do ministro...e eu tenho um enorme desejo, confesso, de... de ser barão...arranje-me o título, e depois conversaremos.

FAUSTINO – Oh! mas Vossa Excelência....uma influência política!

COMENDADOR- Não quero pedir certas coisas...e depois, ainda não tomei pé no meu novo partido. Adeus, e desculpe. Obtenha-me o título e apareça. (Sai, cumprimentando os dois meirinhos com muita cerimônia).



CENA V

OS MESMOS, menos o COMENDADOR, depois ALFAIATE, o SENHORIO, o VENDILHÃO e outros CREDORES.


FAUSTINO – Vocês iam deitando tudo a perder! Filam-me uma corrente de ouro de lei, e vêm sem ser chamados!

RIBEIRINHO – Perdão, mas um gato, que estava sobre a cômoda, assustado com a nossa presença, saltou em cima do lavatório e quebrou a bacia...

FAUSTINO – Mas este prejuízo....

ANACLETO – ...para os credores.

RIBEIRINHO – Nós, que não esperávamos pelo gato...

ANACLETO – Vossa Senhoria bem vê que... (Entram os credores)


CORO DE CREDORES
(Música de Gomes Cardim)
É já pagar

Sem mais tardar!

Venha dinheiro,

Ó caloteiro!

O cobre já

Venha de lá!

RIBEIRINHO e ANACLETO –

Ó meu Deus! para que tanto barulho!

Para que serve gritar?

OS CREDORES – Vai haver um grande sarrabulho!

Ou há de já pagar,

Ou damos-lhe a matar!

FAUSTINO – Quero pagar; porém,

Não tenho aqui vintém!

O ALFAIATE – Tu para cá vens de carrinho!

O SENHORIO – Eu quero já o meu rico dinheirinho!

CREDORES – Zombar assim de nós não tem lugar!

Ou paga o que nos deve, ou damos-lhe a matar!

É já pegar etc.

SENHORIO – Então mudava-se sem pagar?!

VENDILHÃO – Ao menos previne-se a gente!

FAUSTINO – Mudar-me, eu?!

ALFAIATE – Decerto; estão as carroças à porta.

FAUSTINO – As carroças?! Nesse caso, mudam-me, não sou eu que me mudo!

RIBEIRINHO- Somos nós, em virtude deste mandato...

TODOS – Uma penhora?! E nós?!

RIBEIRINHO – Vossas Senhorias usem dos seus direitos, que nós usamos dos nossos. (À Anacleto). Vamos! Mãos à obra!...

ANACLETO – Vou chamar os carregadores. (Sai)

FAUSTINO – Como? Sem mais formalidades? Sem ao menos relacionarem os móveis!

VENDILHÃO – Sem nada não fico eu! (Carrega um móvel e sai).

RIBEIRINHO – Mas, senhor!

ALFAIATE – Nem eu! (Idem)

SENHORIO – Quanto mais eu! (Idem).

OS OUTROS CREDORES – E eu! E eu!... (Saem todos carregando os móveis da sala e do quarto, onde entram. Anacleto tem voltado com dois carregadores, que também levam o que podem levar. Quadro muito animado. A sala fica completamente despida).



CENA VI

FAUSTINO, depois O TRABALHO


FAUSTINO () – Consummatum est! Eis o último canto de um miserável poema que principiou no jardim do Santana, continuou num gabinete particular da Maison Modern, e acabará... sabe Deus aonde! Em seis meses meti o pau na minha legítima materna e no pouco que deixou meu pai. Aqui estou eu órfão, sem proteção, sem emprego, sem ofício, sem amigos, sem eira nem beira nem ramo de figueira. O Comendador falhou: a quem devo recorrer?

O TRABALHO (Aparecendo) – A mim!

FAUSTINO- Oh! que figura é esta? Quem és tu, e de onde vens?

TRABALHO – Sou aquele que nunca procuraste em tua vida.

FAUSTINO – Isso sei eu... e a prova é que não te conheço.

TRABALHO – Oxalá me conhecesses! Não chegarias onde chegaste!

FAUSTINO (Vivamente) – Trazes-me dinheiro? – Ah! já sei, és um usurário. Não importa; venha o cobre, seja qual for o juro!...

TRABALHO – Dizes bem, trago-te dinheiro, ou antes, o meio de adquiri-lo com meu auxílio.

FAUSTINO – Desembucha de uma vez! Queres ser meu fiador?

TRABALHO – Nem sequer me conheceste ainda. Eu sou...

FAUSTINO – Um patife, que há cinco minutos zomba de mim e dos apuros em que me vejo! Em suma, quem és?

TRABALHO – O Trabalho!(Projeta-se-lhe no rosto um raio de luz).

FAUSTINO – O Trabalho! Ah! Ah! Ah! É boa! Vai bater a outra porta, pai! Não é do trabalho que eu preciso: é de dinheiro. Dinheiro! – ouviste?

TRABALHO – Comigo ganharás.

FAUSTINO – Nada! Dispenso! Vai-te! Levaria muito tempo, e eu preciso de dinheiro quanto antes. Muito dinheiro, a juro barato e prazo longo, como a lavoura.

TRABALHO – Com quê, desgraçado...

FAUSTINO – Ora, não me aborreças! Olha que para a mostarda subir-me ao nariz não preciso muito!

TRABALHO – Ameaças-me?

FAUSTINO – Ou dinheiro, ou rua!

TRABALHO – Vem comigo, e daqui a oito ou dez anos...

FAUSTINO – Ó mariola! Divertes-te à minha custa! Já! Rua! (Dá-lhe um pontapé)

TRABALHO (Levando a mão à parte ofendida) – Está bem, saio! Mas encontrar-nos-emos ainda! Dia virá em que te arrependas amargamente do pontapé que deste no Trabalho! (Vai a sair).

FAUSTINO (Algum tanto arrependido) – Olha, vem cá... escuta... (Entra a Ociosidade).

CENA VII

OS MESMOS, a OCIOSIDADE


OCIOSIDADE – Deixa-o ir... não te arrependerás... Eu te salvarei!

FAUSTINO – Cáspite. Falem-me disto! Contigo irei até o inferno... logo que saiba quem és e o que desejas.

OCIOSIDADE – Eu sou a Ociosidade!(A cena fica repentinamente escura).

TRABALHO – A mãe de todos os vícios!

OCIOSIDADE – E de todos os prazeres!

TRABALHO – Ao passo que eu sou o pai de todas as virtudes!

OCIOSIDADE – E de todas as sensaborias.

FAUSTINO – Safa! que tendes ambos a bossa paterna muito desenvolvida!

OCIOSIDADE – Ouve...



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