O bilontra de Artur Azevedo



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Coplas

É por intriga,

Por balda antiga,

Que me fustiga

Este grande ratão!

Não me perdoa,

Mas me magoa,

Me amaldiçoa,

Não sei por que razão.

Quem passa a vida

De perna alçada,

Sem fazer nada,

Há de ser bem feliz,

Pois é negócio,

Neste país,

Viver entregue ao santo ócio!

(Declamando) Assim pois...

Faustino, vem comigo já!

O que eu te dou ninguém te dá,

Nem te dará!


TRABALHO – Agora eu, minha rica senhora...
II

Nesta batalha

Quem não trabalha

Nem a mortalha

Ao menos pode obter;

É condenado,

É reprovado,

Vituperado:

Só lhe resta morrer!

Foge ao perigo!

Se vens comigo,

Se és meu amigo,

Inda será feliz!

Não é negócio,

Neste país,

Viver entregue ao santo ócio!

(Declamando.)

Por conseguinte...

Faustino, vem comigo já!

O que eu te dou, ninguém te dá,

Nem te dará!

AMBOS – Faustino, vem comigo já! etc.


FAUSTINO ( À Ociosidade) – Decido-me por ti, que és bela!

OCIOSIDADE – Vamos...

FAUSTINO – Aonde?

OCIOSIDADE – Ao Reino do Jogo! (Sai, levando Faustino)

TRABALHO – Insensato! tudo farei para salvar-te! ( Sai. Mutação)

QUADRO II


O Reino do Jogo, cintilante de ouro e luz.

CENA I

UM CORTESÃO, CORTESÃOS, depois o JOGO


Coro de Cortesãos
Espera na sala de espera do emissário

Que vem tratar de um caso extraordinário!

Vamos saber incontinenti

Qual a razão que o trouxe cá;

Assunto sério é certamente

Que o nosso rei decidirá,

– É talvez uma bagatela...

Não vale a pena falar nela.



Coplas

O JOGO (Entrando.) – Sou nada menos do que um rei,

Sou nada menos que um monarca,

E não receio a escura Parca,

Pois nunca mais a bota baterei.

Sei dirigir a traquitana,

Governar sei o meu país;

Não sou pr’aí nenhum banana;

Se o sou, porém, ninguém mo diz.
CORO – Não é pr’aí nenhum banana;

Se o é, porém, ninguém lho diz!


II
JOGO – Eu baldo o naipe nunca estou,

Se as coisas vão embaralhadas;

Pois copas, ouros, paus, espadas,

– Nenhum jamais me abandonou.

Às ordens tenho várias tropas,

Meus exércitos não são maus!

E sou também um rei de paus!
CORO – Ele é aqui um rei de copas,

E ele é também um rei de paus!


JOGO (Que, no fim das coplas, tem subido a um trono.) – Estão todos?

TODOS – Todos.

O CORTESÃO – Não falta nenhum.

JOGO (Ao Cortesão) – Conselheiro, manda entrar o emissário. (O Cortesão faz um gesto para. Entra o Xadrez, que se prostra diante o trono.)



CENA II

OS MESMOS, o XADREZ


JOGO – Ergue-te! (Reconhecendo-o) – Olá! Xadrez! o jogo aristocrata por excelência! (Estendendo-lhe a mão.) Tens licença para me apertares a mão. Aperta mais... mais...Basta! Que pretendes?

O XADREZ – Justiça!

JOGO – Vai por aí; não pedes pouco. Justiça contra quem?

XADREZ – Contra a Jogatina!

JOGO – Contra minha filha!

OS CORTESÃOS – Oh!...

JOGO – Sim contra tua filha! Depois que a deste ao mundo, o teu reino foi invadido por uma multidão de jogos de ínfima espécie, se é que tal nome mereça tal gentinha. Vivíamos como os anjos, numa doce alegria imperturbavél. As classes sociais estavam perfeitamente definidas. Eu, o Voltarete, o Whist, o Ecarté, as Damas, o Besigue, o Dominó, o Bilhar e alguns mais formávamos a classe aristocrata. O Gamão, a Bisca, o Solo, os Três setes e outros formavam a burguesia honesta. O Burro e seus congêneres, a plebe. Os jogos de parada, à frente dos quais se chamava o Lansquenet e o Bacará, eram qualquer coisa como mediadores plásticos entre a aristocracia e a burguesia.

JOGO – Uma espécie de demi-monde.

XADREZ – Talvez. – Mas tua filha, fruto de um amor espúrio e condenado, nasceu, cresceu, e, hoje, durante noites inteiras, deixa o teu palácio, e anda pelo reino a organizar uma nova camada social: - a canalha!

TODOS – Oh!...

XADREZ – Até hoje o Reino tem suportado calado...

JOGO (Erguendo-se com ímpeto e interrompendo-o) – Hein? Calado, dizes tu?...

XADREZ (Atônito) – Como?

JOGO – Nada...lembrei-me de...(Desce do trono e traz o Xadrez ao proscênio, misteriosamente.)



Canto

JOGO – Psiu!

XADREZ – Psiu!

AMBOS – Calado...

CORO – Psiu...

Calado...

JOGO – Calado, sim, calado!

Não me parece averiguado

Que um coitado

Condenado,

Sem ser ouvido nem cheirado,

Seja ou não culpado

TODOS – Calado...

Psiu!
JOGO (Subindo de novo ao trono e sentando-se) – Continua.

XADREZ – Até hoje o reino tem suportado tudo sem tugir nem mugir. Mas a paciência é como as nações: tem limites.

JOGO – Comparação feliz!

XADREZ – Os jogos aristocratas reuniam-se e deliberavam, depois de grande discussão, enviar-me à tua augusta presença para pedir providências imediatas e enérgicas. Deves compreender, senhor, que eu, o Xadrez, um jogo fidalgo, cuja origem se perde na noite dos tempos; eu, que até já figuro na gazetilha do maior jornal da América do Sul...

JOGO – Bem sei...Bem sei que o xadrez há muito tempo fornece matéria para a gazetilha.

XADREZ – O Whist, um jogo de príncipes, o Voltarete, a glória do baralho de cartas, e outros não podemos viver de súcia com o Pacau, o Trinta-e-um e a Vermelhinha. É isso pretender casar o salão com a tarimba, o palácio com a espelunca!

JOGO – Tens toda razão. Justiça vai ser feita. (Ao Cortesão.) A Princesa Jogatina que venha cá. (O Cortesão sai. A Xadrez.) Vais ver como esta casa cheira a jogo! A energia do teu rei ficará eternamente gravada na memória do povo.

(Xadrez inclina-se. Entra Jogatina, acompanhada pelo Cortesão, que havia saído.)

CENA III

OS MESMOS, JOGATINA, depois o VÍSPORA, e sucessivamente a PULE, a VERMELHINHA, a LOTERIA, a LOTERIA, o PACAU, o CÂMBIO, que apenas atravessa a cena. Jogatina entra com modos desenvoltos, que escandalizam a corte.


Copla
JOGATINA – A jogatina eu sou!

Por’i além contente eu vou!

A vida eu levo assim,

Que o mundo alegre é para mim.

Que importa que a Moral,

Não sei por quê, me queira mal?

Hei de cantar e rir,

Não hei de nunca me afligir!

Leviana sou, talvez, porém,

Filósofa também!

Quem se prostrar

No meu altar

Será rico e feliz.

Fortuna dou

Benigna sou

Até cos imbecis!

Eu sou fazenda papafina!

Sem me adorar ninguém me vê:

Pois a Princesa Jogatina

Não há de negar que tem seu quê.

CORO – É descarada a tal menina!

Lições não há quem mais lhe dê!

O reino as casa ilumina

Se inda daqui bem longe a vê!

JOGO – Bem! Basta! Não te mandei chamar para ouvir cantarolas!

JOGATINA – Estou às tuas ordens, papai.

JOGO – Aproxima-te. Conheces este cavalheiro?

JOGATINA (Desdenhosa.) – De vista.

JOGO – Pois devias conhecê-lo pessoalmente, porque é o mais conspícuo dos meus vassalos. (Xadrez inclina-se.) Não te inclines: é a verdade.

JOGATINA – Mas o que tenho eu de comum com este sujeito?

XADREZ (Vivamente.) – Nada, absolutamente nada!

JOGO – Este (Frisando.) sujeito, que representa a classe mais sim-senhor do reino, ou para exprimir-se em bom português, o high-life, queixa-se, e com razão se queixa, de que tu, minha sirigaita, introduziste na sociedade uma camada perigosa e abjeta: a canalha!

JOGATINA – Ora! E foi para isto que me arrancaram da companhia dos meus amigos!

O CORTESÃO (Inclinando-se.) – Real senhor, perdoa se me meto o nariz onde não sou chamado.

JOGO – Mete, mete, Conselheiro! O nariz de um Cortesão goza de todas as imunidades!

CORTESÃO – Obrigado, Majestade. Parece-me, também a mim, que o Xadrez tem muita razão. E se Vossa Majestade quiser capacitar-se da verdade, ordene à Princesa Jogatina que faça entrar nesta sala os tais amigos, em companhia dos quais se achava ainda agora nos meus aposentos. Eles ainda lá devem estar.

JOGATINA – Pois não! com todo prazer! ( Indo à porta.) Meus amigos, fazem favor? Entre um por um, para ser mais fácil a apresentação.

XADREZ (À parte.) – Que cinismo!

(Música. À medida que Jogatina os nomeia, os Jogos vão aparecendo. Jogatina toma-os pela mão e apresenta-os, declamando os seguintes versos.)

JOGATINA – Este é o famoso Víspora!

Já foi bem recebido

Dentro do lar doméstico

Com toda a distinção...

Mas, afinal, o pícaro

Deu em andar metido

Por espeluncas sórdidas

Que reprovadas são.
A Pule! que magana!

Com o pé de melhorar

A raça cavalar,

Esbodegando vai a raça humana.


Esta pequena simpática

É a melhor amiga minha;

Dá que fazer à polícia,

E chama-se a Vermelhinha.


A Loteria,

Velho jogo vagabundo,

Que foi em Roma o regalo

De Nero e de Heleogabalo

E que hoje em dia

Ditosa vive

E em toda parte do mundo,

A nova Austrália inclusive!


Eis a Rifa, joguinho matreiro,

Oriundo dos tempos antigos,

Conhecido no Rio de Janeiro

Pelo nome de Ação entre Amigos.

JOGO – Que gente!

XADREZ – Quando eu digo...

JOGATINA – Um jogo aparece agora

Que não tem nada de mau;

Nos quartéis floresce e mora,

E tem por nome o Pacau.

JOGO – Este é que se pode chamar um jogo de parada (O Pacau é representado por um soldado.)

JOGATINA – Agora vou mostra-vos um sujeito,

Cuja pessoa é muito respeitada,

Sendo, aliás, tão diga de respeito

Como dos jogos a pior cambada.

(Aparece o Câmbio, que atravessa a cena encolhendo-se, isto é, tornando-se mais baixo sempre, à medida que Jogatina profere a palavra (Desce).

Ei-lo que passa. É o Câmbio! Esse bandalho

Que desce, desce, desce, e desce, e mais,

E faz com que alguns ganhem sem trabalho

E muitos percam grandes capitais.

JOGO – Então aquele vai-se embora?

CORTESÃO – Ah! o Câmbio não pára... Tem sempre muito que fazer. (Cessa a música.)

XADREZ – Está feita a apresentação? Faltam ainda muitos!

JOGATINA – Muitíssimos, porém só estes se achavam ainda agora em minha companhia. (Os recém-chegados estão alinhados a um lado da cena.)

JOGO – Atenção!

TODOS – Atenção!

JOGO – Princesa, há muito tempo que teu modo de vida me pôs a pedra no real sapato e a pulga a atrás da orelha augusta. Há muito tempo que eu pretendia exercer sobre a tua execranda pessoa minha dupla autoridade de soberano e pai. De hoje em diante não escandalizarás o meu reino! Tens um quarto de hora para escolheres um exílio e te prepares para a viagem!

JOGATINA (Protestando.) – Mas...

JOGO (Erguendo-se com violência.) – Nem mais uma palavra! (Descendo e examinando os jogos.) Quanto a estes pulhas que introduziste no reino, saberei, pois que não são príncipes, livrar-me deles ainda com mais facilidade do que me livro de ti, que afinal de conta, és Princesa!

XADREZ (Declamando.) – Nem era de esperar que um rei tão sábio

Procedesse jamais de outra maneira!

JOGO – Agradeço a citação literária, e espero que estejas plenamente satisfeito.

XADREZ – Satisfeitíssimo, senhor.

JOGO – Então não me amoles... Vai-te embora, e dá lembranças ao Voltarete. (O Xadrez inclina-se e sai. O jogo sai pelo outro lado, e os cortesãos acompanham-no com o motivo do último coro da orquestra.)

JOGATINA (Aos Jogos.) – Deixem-me! (Vão todos a sair.) Tu, Loteria, fica. (Saem todos os jogos, menos a Loteria.)

CENA IV

JOGATINA, a LOTERIA


JOGATINA- Que dizes a isto? Que escolha um exílio; mas qual! Onde a Jogatina encontrará um povo tão mal educado, que a tolere? Estou deveras embaraçada... Malditos aristocratas! Raças infame de hipócritas! Mas tu não dizes nada?... não me aconselhas?... Mandei que ficasse, por seres a mais inteligente, e não arranco dos teus lábios dos teus lábios lábios uma palavra sequer!

LOTERIA – Pela máquina Fichet! que queres tu que te eu te diga? Não és tu a minha diretora – Ah! mas vejo que se dirige para este lado alguém pode aconselhar-te.

JOGATINA – Quem?

LOTERIA – Tua mãe.



CENA V

AS MESMAS, a OCIOSIDADE, depois FAUSTINO, depois as LOTERIAS, os DÉCIMOS e os VIGÉSIMOS, depois os CORTESÃOS


OCIOSIDADE – Dás licença?

JOGATINA (Indo abraçá-la e trazendo–a para a cena.) Ó mamãe! pois precisas pedir licença?

OCIOSIDADE – É que não venho só.

JOGATINA – Os teus amigos meus amigos são.

OCIOSIDADE – Sim; mas é que teu pai não quer saber de mim... e então...tenho escrúpulos...

JOGATINA – Escrúpulos? Será a primeira vez. Papai está realmente ficando um mau jogo. Acaba neste momento de me expulsar do reino... Intrigas dos aristocratas...

OCIOSIDADE – Não sei ainda; o tempo passa, e dentro de um quarto de hora devo escolher o lugar de meu exílio.

OCIOSIDADE – Não tens que hesitar: Rio de Janeiro!

JOGATINA – Achas?

OCIOSIDADE – Fixei ali o meu domicílio. Dou-me perfeitamente com o clima... Tenho lá muitas relações e sou muito considerada. A ti não te faltarão elementos para lá exerceres poder absoluto. Não podes escolher melhor.

LOTERIA – Pelo menos, sei que os fluminenses dão o cavaquinho por loterias.

JOGATINA – Deveras?

LOTERIA – Adoram-nas. Não há terras em que eu tenha tantos prosélitos! Todos os dias anda a roda, quando não anda duas vezes no mesmo dia! Eu no Rio de Janeiro sou moda, sou febre, sou delírio! Tudo lá é pretexto para loterias! Emancipação? Loterias! Obras numa igreja? Loterias! Asilos de caridade! Loterias! Montepio? Loterias! Tudo loteria! Todas as províncias jogam! Do Sul ao Norte loterias e mais loterias! Pará, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Paraná, Santa Catarina, rio Grande do Sul, cada qual tem sua loteria; mas quem paga o pato é a corte, que dá saída a todas elas!

JOGATINA – Decididamente é um povo que me convém! As loterias, assim repetidas, são infalível sintoma de dissolução social. Em parte alguma, pode a Jogatina estar melhor que numa sociedade que se esfacela. Vou para o Rio de Janeiro!

OCIOSIDADE – E lá desempenharás, nas horas vagas, já se sabe, uma comissão que muito me interessa.

JOGATINA – E é?...(Ociosidade faz um gesto para fora: entra Faustino que ela toma pela mão.)

OCIOSIDADE – Proteger este mancebo!

FAUSTINO (Deslumbrado.) – Como isto aqui é lindo!

JOGATINA – A tua mão!

FAUSTINO – Ei-la! (À parte.) Falem-me disto!

JOGATINA – Somos aliados?

FAUSTINO – Dar-me-ás fortuna?

JOGATINA – Veremos.

FAUSTINO – Como obtê-la?

JOGATINA – Por muitos meios. (Mostrando a Loteria.) A Loteria, por exemplo.

FAUSTINO – Um... as loterias da minha terra nunca me atentaram.

LOTERIA – Que dizes? Oh! naturalmente não as conheces! Não posso consentir que julgues mal de minhas filhas! – Apareçam, meninas! (Música. Aparecem as Loterias Brasileiras, acompanhadas por Décimos e Vigésimos.) Gaba-se aquele mortal de que vocês nunca seduziram.

LOTERIAS – Oh!

LOTERIA – Quebrem-lhe a castanha na boca!

Bailado e coros


(Música de Tristão dos Santos)
(As Loterias cercam Faustino, tomando as mais graciosas posições.)
LOTERIAS – Belo mancebo pálido,

Tu vais reconhecer

Neste momento mágico

Nosso imortal poder!

FAUSTINO – Lindas são

Sem questão!

Nunca vi

Tanta huri!

LOTERIAS – Belo mancebo pálido, etc.
(Entram os cortesãos com um movimento de dança.)
(Coro de cortesãos.)
Oh! que dia de júbilo!

El-rei Nosso Senhor

A Jogatina exótica

Bem longe manda pôr!


(Continua um trêmulo na orquestra até o galope final.)
UM CORTESÃO – Princesa Jogatina, o rei, teu pai, manda-me à tua presença para acompanhar-te até fora do reino com esta luzida escolta de cavalheiros. Manda, outrossim, que em sinal de regozijo pela tua ausência, gire a roda da fortuna, que só gira nas grandes ocasiões! (Sobe o pano do fundo e vê-se a roda da Fortuna girando vertiginosamente.) E agora, a galope!

TODOS – A galope! (Grande galope final. Cai o pano.)



QUADRO III


A Rua do Passeio, no espaço compreendido pelo muro do convento da Ajuda.

CENA I

COMENDADOR, CAROLINA, ALEXANDRE, BANHISTAS


(É alvorecer. Durante todo o Quadro passam indivíduos, que vão ou voltam do banho. Algumas senhoras de cabelos soltos e toalhas nos ombros, etc.)
COMENDADOR (Entrando apressado e atravessando a cena.) – Vamos, são horas, o sol está quase sai-não-sai, e banho de mar com sol não é comigo.

CAROLINA (Entrando, seguida por Alexandre.) – Deixe-se disso, primo Xandico; nós não temos nada que conversar.

ALEXANDRE – Má! sempre a mesma!

CAROLINA – Você é que é sempre o mesmo; mas vamos depressa, que papai está longe.

ALEXANDRE – Vamos, dê cá o braço.

CAROLINA – Não dou! Que homem, gentes! (Saindo.) Você há de acabar por fazer que eu não saia em sua companhia. Ora dá-se!(Sai, acompanhada por Alexandre.)



CENA II

FAUSTINO, JOGATINA, vestida de rapaz; depois o INSPETOR e dois urbanos.


JOGATINA (Entrando a correr.) – Vem!

FAUSTINO (Idem.) – Já não posso correr!

JOGATINA – Aqui ficamos ao abrigo de todas as perseguições

FAUSTINO – Achas?

JOGATINA – Com certeza; a freguesia do Sacramento está longe.

FAUSTINO – Bem se vê que não conheces o Borges!

JOGATINA – Pois julgas tu que haja alguém que eu não conheça? Ora vai passear! Tu é que não me conheces!
Coplas
I
É bem tolo o que imagina

Que a princesa Jogatina

Para os homens conhecer

Necessita os homens ver.

Se assim fosse, era ocioso

Meu poder misterioso,

Pois bastava-me, afinal,

Ser uma simples mortal

Meu querido

Protegido!

Vê tu lá

Pra ver quanto vale a que aqui está!


II
Eu conheço fidalguia,

Clero, povo e burguesia,

E, na classe militar,

Sou bastante popular.

Entretanto, meu pexote,

É preciso que se note;

Muitos há com que me dou,

Mas não sabem quem eu sou.

Meu querido, etc.
O INSPETOR (Entrando com dois urbanos.) – Olá! cá estão os melros! Bem disse eu que não me escapavam!

FAUSTINO – Bonito! aí está o que querias!

INSPETOR (Aos urbanos.) – Prendam aqueles sujeitos!

FAUSTINO – Prender-nos a nós? Menos essa! Qual foi o nosso crime?

INSPETOR – Não tenho que dar satisfas: o poder é o poder, disse alguém que podia. A polícia está disposta a não poupar as casa de jogo. Vamos!

FAUSTINO – E se pagarmos a multa?

INSPETOR – O caso muda de figura. São quatro mil réis por cabeça.

FAUSTINO – Não faz isso por menos?

INSPETOR – Não, senhor; preço fixo e dinheiro à vista.

FAUSTINO – Hum... isso é que é o diabo!

JOGATINA – Tratando-se de duas pessoas, bem podia fazer um abatimentozinho...

INSPETOR – Não posso, creia que não posso...Já dou pelo custo... (Emendando.) Quero dizer: é o preço da lei.

FAUSTINO – O homem de vez em quando esquece-se de que é autoridade, e só se lembra de quando é negociante.

JOGATINA – Então? Nem sendo por atacado?

INSPETOR – Nada! Quatro mil réis!

FAUSTINO – Vá lá, não há remédio. (Tirando do bolso do colete uns níqueis e algumas notas de quinhentos réis.) O pior é que só tenho três mil e setecentos... Tome; no princípio do mês darei o resto.

INSPETOR – Ai, que o amigo quer divertir-se! Olhem que quando estou com o metro...quero dizer: com a vara... não brinco! (Aos urbanos.) Vamos!

JOGATINA – Esta bem, não se zangue. Aqui estão os quatro mil e trezentos que faltam

INSPETOR (Recebendo o dinheiro.) – Ah! isto agora sim! Querem recibo?

JOGATINA – Não é preciso,.

INSPETOR – Nem eu dava.

FAUSTINO – Risque nosso nome do borrador, e passe bem.

INSPETOR (Tirando o chapéu e cumprimentando.) – Quer como autoridade, quer como negociante, sempre às ordens da freguesia. (Espirra.)

JOGATINA – Dominus...

INSPETOR – Não faça caso, constipei-me...Corre aqui um ar...

FAUSTINO – Não deve estranhar, pois é um ar marinho.

INSPETOR (Aos urbanos.) – Vamos! (Saem o Inspetor andando muito ligeiro, e muito devagar os urbanos, que durante a cena levaram a dormir de pé, só despertando às duas vezes em que o inspetor disse (Vamos!)

FAUSTINO – Maldito víspora! Estamos sem vintém

JOGATINA – Não tens meio de arranjar dinheiro?

FAUSTINO – Tenho um só, mas muito arriscado (Jogatina faz um gesto de furtar.) Pouco mais ou menos...

JOGATINA – De que se trata?

FAUSTINO – De arranjar um título de Barão; e o único meio que tenho de arranjá-lo, é forjá-lo!

JOGATINA – Falsificá-lo!

FAUSTINO – Inventá-lo!

JOGATINA – Bravo! vais arranjá-lo, forjá-lo, falsificá-lo, inventá-lo sem perda de um momento!

FAUSTINO – Eu?

JOGATINA – Tu, sim... deixa o resto por minha conta. Ao meio-dia vai Ter comigo no lugar costumado; mas, se não levares consigo o título arranjado, forjado, falsificado e inventado, melhor será que não apareças! Adeus! (Sai.)

CENA III

FAUSTINO, depois O TRABALHO, que ouve parte do diálogo quando passa pelo fundo, vestido de operário, e levando sua ferramenta.


FAUSTINO – Diabos levem a polícia! Justamente quando a sorte ia mudar, é que a maldita cercou a casa. Oh! mas deixe estar, que a caipora não há de durar eternamente!

FAUSTINO – Há de durar enquanto me evitares!

FAUSTINO – Olá! o meu amigo dos manjericões! Hoje a encadernação é mais barata, hein?

TRABALHO – Hoje eu sou um operário, e vou para a oficina excitar o brio dos que se acharem ao meu lado! Enquanto tu passavas a noite numa espelunca, para ganhares, ao cabo de muitas horas, metade da soma que o trabalho honesto poderia render em menos tempo, o operário dormia, refazendo as forças para recomeçar no dia seguinte a tarefa da véspera (Dando-lhe uma peça da ferramenta.) Toma! Vem comigo!

FAUSTINO – Tira isso para lá! Que mania!... Não me aborreças! Podes ser muito boa pessoa, mas és bisbilhoteiro e maçante! Não me dirás o que poderei ganhar com este ferro?

TRABALHO – Pelo menos honra!

FAUSTINO ...e calos. E, calos, por calos, antes pregá-los que apanhá-los!

TRABALHO – Essa máxima é digna de ti. Os calos são os anéis do operário.

FAUSTINO – Anéis que não vão para o prego, viva! Sabes que mais? Vou para a cama!

TRABALHO – E eu para o Arsenal! (Saem cada um por seu lado.)



CENA IV

BANHISTAS, que entram em confusão, entre eles, o COMENDADOR, com roupas de banho, ALEXANDRE e CAROLINA, esta de cabelos soltos e toalha nos ombros. Grande pânico em todos os personagens.



Coro


(Música de Gomes Cardim)
Que tintureira!

Bicho maior eu nunca vi!

Desta maneira

Eis-me a tremer de medo aqui!


COMENDADOR – Que tintureira!

CORO – Que tintureira!

ALEXANDRE – Que tintureira!

CORO – Que tintureira!

Bicho maior eu nunca vi, etc

1o. BANHISTA – Eu vi a tintureira!

2o. BANHISTA – E eu! Que enorme!

3o. BANHISTA – Era do tamanho da torre da Candelária!

1o. BANHISTA – Exageras, Gaudêncio... seria do tamanho da torre do Carmo, quando muito.

3o. BANHISTA – Nada! ao Boqueirão não volto eu!

CAROLINA – Eu bem senti alguma coisa me puxar o pé!

ALEXANDRE (À parte.) – Não era a tintureira!

COMENDADOR – Pois sim, mas eu não posso ir assim para casa! Que diriam, se vissem um liberal da velha guarda por essas ruas em trajes de banho? – Ó Alexandre, fica com a tua prima... esperem-me, que eu vou vestir-me.

CAROLINA – Não se demore muito, papai. (Sai o Comendador. Saem os banhistas a pouco e pouco, de modo que, na ocasião so canto, só estejam em cena Alexandre e Carolina.)



CENA V

ALEXANDRE, CAROLINA, depois o COMENDADOR


ALEXANDRE – Vamos nós dar um giro pelo Passeio Público enquanto o velho não vem?

CAROLINA – Eu? Você está doido, primo Xandico! Você pensa que ainda está na Europa! Eu sozinha com você no Passeio Público! Deus me livre!

ALEXANDRE – Bem se vê está apaixonada pelo tal Faustino. É o que meu asa- negra aquele bilontra! – Olhe, prima Carolina, eu não queria lhe dizer nada, porque sei que você não há de gostar; mas, como quem o seu inimigo poupa às mãos e morre, lá vai...

CAROLINA – Lá vai o quê?

ALEXANDRE – Ouça. O tal Faustino foi esta noite apanhado pela polícia em uma casa de tavolagem

CAROLINA – Não pode ser. Você viu?

ALEXANDRE – Não! disseram-me...

CAROLINA – Quem?

ALEXANDRE – O Gaudêncio, um amigo que encontrei no Boqueirão

CAROLINA – Ora! são intrigas...

ALEXANDRE – Ao passo que eu, prima Carola, não tenho vícios e estou bem empregado. (Comovido.) Quando você era pequenina, gostava muito de mim e me chamava seu noivo. Maldito momento em que meu pai mandou educar-me na Europa, afastando-me de você! Oh! mas ainda espero em Deus alcançar no seu coração o lugar devidamente ocupado por aquele bilontra!

CAROLINA – Que vem a ser bilontra?

ALEXANDRE – Ah! não sabe? Pois ouça...

Rondó


(Música de Abdon Milanês)
Se quer saber o que é bilontra,

É bom que saiba antes do mais,

Que esta palavra não se encontra

No dicionário do Morais.

A bilontrage é sacerdócio

Que cada qual pode exercer;

Entre o pelintra e o capadócio

O meio termo vem a ser.

Pode o bilontra ser um velho,

Pode também ser um fedelho;

Mas o modelo mais comum

É o garnizé que se emancipa;

E que a legítima dissipa

Ao completar os vinte e um

Tipo de calças apertadas,

Chapéu de fitas espantadas,

Em cada pé bico chinês;

Pode apostar, ó prima, contra

O que quiser que ele é bilontra

Se bem que finja ser inglês...


COMENDADOR (Voltando.) – Pronto!

ALEXANDRE – E a tintureira?

COMENDADOR – Desapareceu, dizem, sei lá! Pelo sim, pelo não, o filho de meu pai não volta ao banho! E não se trata só da tintureira: patifes há que se apresentam na paria indecentemente trajados, e escandalizam as famílias! Eu sou liberal de princípios; mas façam-me subdelegado desta freguesia, e verão! – Vamos para casa.

CENA VI

OS MESMOS, o EMPREGADO DO CONSULADO


EMPREGADO (Entrando esbaforido e dirigindo-se ao Comendador) – Perdão, meu caro senhor: não viu por aqui o Senhor Borges? Disseram-me que tinha vindo para este lado. Preciso da polícia quanto antes.

COMENDADOR – Aconteceu alguma desgraça?

EMPREGADO – E que desgraça! Os ladrões...

COMENDADOR (Assustado) – Ladrões?! Ai!...

EMPREGADO - ... penetraram esta noite....arrombaram...

COMENDADOR e ALEXANDRE – Aonde?... o quê?...Acabe!

EMPREGADO – O Consulado!

TODOS – Um roubo no Consulado!

EMPREGADO – E que roubo!...e que roubo!...Trezentos contos!...

COMENDADOR – Não seria gente de casa?

EMPREGADO – De casa? Qual o quê! Em casa só ficam os ratos.

COMENDADOR – Justamente por isso.


Copla
Onde houver vil metal luzente

Há sempre ratos de dois pés;

Dona Polícia ultimamente

Caçou debalde uns oito ou dez...

Agora todas as semanas

Desfalques há com profusão;

Mas fogem logo as ratazanas,

Ninguém lhes pode pôr a mão!

Sem tugir,

Nem mugir

Lá vão, sem passaporte!

Habitar,


Povoar

A América do Norte!

EMPREGADO – Ora, onde encontrarei o homem, para abrir o inquérito? Vou até o armarinho...Passem bem, meus senhores...minha senhora (Saindo.) Ora onde se meteria o Borges? (Sai.)

COMENDADOR – Consolado ficou o ladrão (Ouvem-se marteladas e pancadas de alavanca, dadas por trás do muro do convento.)

ALEXANDRE – Que bulha é esta?

COMENDADOR – Sei lá! Serão as freiras?

CAROLINA – Elas, coitadinhas!

COMENDADOR – Ah! não! já sei: são os empresários da nova rua, que estão deitando o muro do convento abaixo.

CAROLINA – Credo! Que falta de religião!

COMENDADOR – Qual religião? qual carapuça! Eu sou liberal da velha guarda!

ALEXANDRE – Meu tio, olhe que há liberais da velha guarda e liberais da Guarda-Velha. Foram estes que autorizaram o escândalo.

COMENDADOR – Ora adeus! para que as freiras querem chácara?

ALEXANDRE – Para que eu quero meu relógio?

CAROLINA – Tem razão, primo Xandico. Vamos embora, papai...não quero presenciar este atentado!

COMENDADOR – Vamos lá (Saindo a falar sempre.) É que qundo digo que sou liberal da velha guarda... (Não se ouve o resto.a cena fica vazia.)
Coro de demolidores (Fora.)
(Música de Gomes Cardim)
Caia o muro do convento

Que não serve para nada,

E apareça num momento

Rua nova e bem calçada.


Caia o muro! caia! Caia!

Derribá-lo é privilégio!

Sobre todos nós recaia

Tão nefando sacrilégio!


Coro de freiras (Longínquo.)
Nossa Senhora da Ajuda,

Vê tu que profanação!

Não temos quem nos acuda,

Nem quem nos estenda a mão!

(Juntam-se os dois coros em concertante. O muro tem caído aos poucos. No fim do coro desaba completamente, deixando ver toda a rua do Senador Dantas.)

QUADRO IV
A Rua do Senador Dantas.



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