O bilontra de Artur Azevedo



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CENA I

O DOUTOR, TRABALHADORES, depois a MUSA DO POVO, depois a PRETA DOS PASTÉIS


O DOUTOR – Quem quer comprar terrenos excomungados? Preços reduzidos! Ver para crer! (Os trabalhadores vão saindo a pouco e pouco.)

MUSA DO POVO (Entrando da direita)

Este enorme, sacrílego atentado,

Nos versos meus será vituperado!

DOUTOR – Quem é a senhora, e com que direito vem aqui protestar em verso?

MUSA DO POVO – Musa do Povo eu sou: passar não deixo

Tanta vergonha sem abrir o queixo!

DOUTOR – Pois abra!

MUSA DO POVO – Ardendo em santa e impiedosa ira,

Eu tanjo as cordas de inspirada lira!

DOUTOR – Pois tanja!

MUSA DO POVO – E contra esta fatal profanação

Protesto em nome da religião!

DOUTOR – Pois proteste! (Saindo a apregoar.) quem quer comprar terrenos excomungados? Grande redução de preços! A vista faz fé! (Sai.)

MUSA DO POVO –

Que escândalo, meu Deus! como se abusa!

Tenho às vezes vergonha de ser Musa!

(Entra a Preta dos pastéis e entrega-lhe uma salva, coberta com uma toalha de crivos, e um cartão. Depois retira-se. Lendo o cartão.)


“As freiras, modestamente,

Graças a sua defesa,

Enviam-lhe esse presente

Para a sua sobremesa ”.

(Descobre a toalha. Aparece uma compoteira cheia de doce.)
Que vejo, Apolo?! Doce de laranja!

E agora digam lá que não se arranja

Quem como eu cá da lira as cordas tanja!

(Mete o dedo no doce, e prova-o.)

Que gostoso! que bom! Como isto inspira!

Vamos! vou dar-te o que fazer, ó lira! (Sai.)



CENA II

MORCEGOS, depois SOLDADOS DA POLÍCIA


Coro e marcha dos morcegos.
Eis quase toda a morcegada,

Que enfim foi posta em debandada!

Adeus, bom tempo do chanfalho,

Do belo apito a tiracol!

Adeus, ó tempo do trabalho

À luz do gás e à luz do sol!

Tudo para nós já se acabou!

A nossa estrela se apagou!

Sem mais contemplação

Veio a dissolução!

Agora somente

Na cama é chorar,

Pois é lugar quente,

Não há que negar!



(Continua a música na orquestra até o fim do quadro.)
UM MORCEGO – Bem , meus amigos! Agora que estamos dissolvidos, é preciso tratar da vida, que a morte é certa! Portanto, voltemos à nossa antiga profissão!

TODOS – Valeu! Apoiado! (Forte na orquestra. Todos os Morcegos se transformam em capoeiras, que se dividem em dois campos.)

VOZES DA ESQUERDA – Viva os guaiamus!

VOZES DA DIREITA – Viva os nagoas!

UNS – Entra!

OUTROS – Livra! (Grande conflito. Apitos da polícia, que intervém e dispersa os capoeiras. A cena fica vazia. Mutação. Cessa a música.)



QUADRO V



Sala casa do Comendador. Porta e janelas ao fundo. Portas laterais.

CENA I

COMENDADOR, FAUSTINO, que entram do fundo, depois o TRABALHO


COMENDADOR (Com um decreto na mão e muito contente.) – Barão! Barão! Estou finalmente Barão... Barão de Vila Rica! Já não sou o Comendador Campelo! (Abraçando Faustino.) Quanto lhe agradeço, meu amigo, meu bom, meu excelente amigo! Quanto lhe agradeço! E hoje mesmo hei de ir pessoalmente agradecer ao ministro.

FAUSTINO (Vivamente) – Não vá... não se dê a esse incômodo, porque já lhe agradeci em seu nome.

COMENDADOR – Bem; agora há de permitir que eu vá buscar a recompensa de seu trabalho. (Saindo.) Barão! (Saída falsa pela direita.)

FAUSTINO (Só.) – Este cometimento de alta bilontragem pode sair-me caro; pelo menos transformar o meu projeto de casamento com a filha do Comendador, que tem bom dote e gosta de mim. Ora! não pensemos no futuro!

A VOZ DO TRABALHO – Padeiro!

FAUSTINO – É o homem do pão. (O Trabalho aparece à porta do fundo, com um saco de pães na mão.) Ainda ele!

TRABALHO – Ainda e sempre! Serei a tua providência! Não cometerás um ato reprovado. Toma este saco! (Dá-lhe o saco.)

FAUSTINO – Há dinheiro dentro? (Mete a mão no saco, tira de dentro alguns pães e sacode o saco vazio.) Ora! pães!

TRABALHO – Vai entregá-los.

FAUSTINO – E tu, vai bugiar! (Atira-lhe o saco.)

TRABALHO – Ainda uma vez te ofereço ocupação: ainda uma vez recusas. Tu’alma, tua palma. Olha: na mão do Trabalho, o pão transforma-se em ouro! (Mete a mão no saco e retira-a cheia de moedas de ouro.)

FAUSTINO – Ouro! Dá cá o saco!

TRABALHO – Trabalha! (Sai.)

FAUSTINO (Só) – Ora o mágico!

COMENDADOR (Voltando.) – Aqui tem três cheques do Banco do Brasil, na importância de conto de réis cada um. Desculpe a insignificância. (Dá-lhos.)

FAUSTINO – Ó Comendad... quero dizer: Barão...

COMENDADOR – Comendador, diz bem... antes de quinze dias não quero que se saiba que sou Barão. Só no dia dos meus anos publicarei a grata nova, e por essa ocasião darei um jantar, para o qual o amigo está desde já convidado.

FAUSTINO – Nesse caso, vou providenciar para que a nomeação não seja publicada. (Guarda os cheques.)

COMENDADOR – É favor. Agora há de me dar licença: esperam-me no meu gabinete (Aponta para a esquerda.) alguns correligionários políticos.

FAUSTINO – De qual dos partidos?

COMENDADOR (Ingenuamente.) – Do Liberal. – Aí vem minha filha; conversem, mas não lhe diga nada sobre o baronato. (Abraçando-o.) E muito obrigado! (Saindo.) Eu sou liberal, e liberal da velha bandeira; mas confesso que ser barão era o meu sonho dourado! (Sai pela esquerda e Carolina entra pela direita.)

FAUSTINO (Consigo.) – E Jogatina à minha espera na porta da rua!



CENA II

FAUSTINO, CAROLINA


CAROLINA – Ora seja muito bem aparecido, seu Faustino! Estava morta por vê-lo!

FAUSTINO (Contente) – Deveras?

CAROLINA – Disseram-me uma coisa do senhor...

FAUSTINO – De mim? Que foi, dona?...

CAROLINA – Não nega se for verdade?

FAUSTINO – Negar, eu?! Oh! A senhora não me conhece! Eu não minto nem brincando! Sou como Epaminondas!

CAROLINA – Quem é esse Epaminondas?

FAUSTINO – Um amigo de meu avô... um sujeito de Tebas...

CAROLINA – Pois fale como ele... verdade verdadinha... – O senhor joga?

FAUSTINO (Com grandes gestos.) – Jogar eu ?! Virgem Maria!... Eu que nem sei pegar em cartas! Deus me livre! (Benze-se).

CAROLINA – Ah, seu Faustino, como eu fiquei quando me disseram! Agora vejo que foi intriga!

FAUSTINO – Uma intriga miserável! Mas quem lhe disse?... quem foi?... (Aparece à porta Jogatina, disfarçada em vendedor de bilhetes de loteria.)





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