O bilontra de Artur Azevedo



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CENA III

OS MESMOS, JOGATINA


JOGATINA – Anda hoje a roda! São os duzentos da Bahia! É o último

FAUSTINO (Com um sobressalto.) – Duzentos! (Vendo Jogatina e reconhecendo-a.) Oh! (Faz-lhe sinal para que o não reconheça.)

CAROLINA – Ó moço! como se entra assim por uma casa! (Indo a Jogatina e tomando-lhe o bilhete.) Se a gente tirasse mesmo... Mas qual! está branco com certeza!

JOGATINA (Aproximando-se.) – É este de resto! Fique com ele, tenho palpite! sou muito feliz!



Copla

Quem tentar

Apanhar

Sem tardar



Sorte grande,

Chamar-me mande!

Como eu cá,

Ninguém há!

E aqui está

Um bilhete

Que bem promete!

Profeta sou!

Convicto estou

De que lhe dou

A bela sorte!

É mister


Não temer!

Se perder,

Não se importe!

Ora aqui tem; não perca a vaza;

Compre o bilhete de uma vez;

São dez tostões; preço da casa;

Cinco mil, cente e vinte e três,

Fique com este da Bahia,

Porque a tal emancipação,

Anda não anda todo dia,

Que até parece logração!

(Declamando.) Então? Vamos! que bonito número! 5.123!

CAROLINA – Vou experimentar mais esta vez. Quanto custa?

JOGATINA – Já disse, dez tostões, o preço da casa.

CAROLINA – Empresta-me, seu Faustino, para não ir lá dentro agora?

FAUSTINO (Atrapalhado.) – É que... só tenho pelegas grandes...

CAROLINA (Estranhando.) – Pelegas?...

FAUSTINO (Emendando.) – Notas... notas,... queria eu dizer.

CAROLINA – Então espere aí, moço. (Sai.)



CENA IV

FAUSTINO, JOGATINA, depois CAROLINA


FAUSTINO – Que vieste fazer aqui?

JOGATINA – Fartei-me de te esperar à porta. Então? Recebeste alguma coisa?

FAUSTINO – Três cheques do Banco: três contos de réis.

JOGATINA – Bravo! Vamos ao Banco e de lá a uma roleta magnífica! Vais centuplicar essa quantia! Anda daí!

FAUSTINO – Espera um pouco; deixa vir a pequena com os dez tostões. Não quero despedir-me à francesa.

JOGATINA – Não temos um instante a perder: o Banco vai fechar.

FAUSTINO – Nesse caso, allons! (Saem pelo fundo; entra Carolina.)

CAROLINA – Aqui está, moço. – Ninguém! – Para onde iria seu Faustino? (Indo à janela.) Lá vai ele! E de braço com o garoto! Ora esta!... (entra o Comendador, acompanhado do grupo Zé.)



CENA V

CAROLINA, que logo sai, O COMENDADOR, OS ZÉS



Coro dos Zés



(Música de Gomes Cardin.)
Nós somos o grupo Zé,

Que todos tomam a sério,

E que há de, cum pontapé,

Derribar o ministério!

Ao mundo vamos, olé!

À parte a nossa modéstia,

Provando que o grupo Zé

Não é nenhum Zé da Véstia.


COMENDADOR (A Carolina, que sai da janela.) – Ó Carola, estavas aí? Vai lá para dentro! Não gosto de ver mulheres envolvidas em política. Não quero Luísas Michéis cá em casa. Isso é bom para os franceses. Vai!

CAROLINA – Sim, papai. (À parte.) Aquele seu Faustino! (Sai.)

1o ZÉ – Pois, meu caro Senhor Comendador Campelo, o grupo Zé, convidado para esta reunião em sua casa, felicita-se pela sua adesão à nossa causa. Mas vossa Senhoria não me explicará como, repelido por uma câmara liberal, fez-se liberal e entrou logo em oposição ao governo?

COMENDOR – Meu caro, em política, como em tudo mais, cada um sabe as linhas com que se cose. E se houver dissolução?

1o(Ao 2o) – O que me parece é que este Comendador é uma besta.

2o(Ao 1o) – Apoiado! (Passa pela rua uma banda de música a tocar. Ouvem-se vivas e foguetes. Correm todos à janela.)

OS ZÉS (Retirando-se da janela.) – Ora! é uma manifestação conservadora!

COMENDADOR (À janela.) – Viva! viva!...

3o ZÉ – Que é isso, Comendador? Está dando vivas aos conservadores?

COMENDADOR (Aproximando-se.) – Perdão, eu sou liberal da velha guarda... mas reconheço que o partido contrário... ao qual também pertenci... Demais, nestas manifestações, as caras são sempre as mesmas. (Os sons da música têm se perdido ao longe.)

1o(Aos outros.) – Então está dito, meus nobres colegas: continue a tramóia! A tramóia há de salvar-nos! Que grande invenção a tramóia!

2o ZÉ – Havemos de mostrar ao ministério, que se julga tão forte, para quanto valemos!

3o(Ao 1o) – O diabo foi você ter assinado o projeto!

1o ZÉ – Assinei, mas voto contra. Que tem isso? Ainda ontem o Sinibu votou sim a favor de um candidato, e hoje votou não a favor do mesmo candidato.

2o ZÉ – Sganarello tem feito escola. (Nova manifestação na rua. Banda de música, vivas e foguetes. Os Zés correm para a janela.)

COMENDADOR (Com toda a força.) – Viva o Partido Liberal! viva o meu partido!... (A manifestação passa.) Toda a resistência, meus amigos, toda a resistência! Esta questão de emancipação é muito séria. O marechal tem razão. A junta de coice é indispensável.

3o ZÉ – Eu acho... apesar de não saber ao certo o que vem a ser a tal junta.

1o ZÉ – homem, você não sabe? Nem eu!

2o ZÉ – Se o comendador nos explicasse...

COMENDADOR – Não há nada mais simples. Você... (Segura o 1o Zé.) você é o carro...

1o ZÉ – Que carro?

COMENDADOR – O carro da emancipação. É uma figura.

1o ZÉ – Sim, senhor, eu sou o carro.

COMENDADOR (Mostrando o palco.) – Isto aqui é um barraco... um plano inclinado. (Segurando dois Zés e pondo-os na frente do 1o.)

2o(que é um dos dois segurados, com riso alvar.) – Ah! ah! ah! somos a parelha! Está dito.

COMENDADOR – Peguem no carro. (Os dois seguram, com as mãos para trás, o cós da calça do 1o Zé.) Agora os senhores... (Vai buscar o 3o Zé, e outro.) Os senhores são os bois!

3o ZÉ – Homem, isto de bois...

COMENDADOR – Uma figura!

3o ZÉ – Vai lá, sou boi. (Seguram no cós do 1o Zé.)

COMENDADOR – Agora, puxem os senhores para frente, e os senhores para trás. (Obedecem.)

1o ZÉ – Ai! ai! ai!

COMENDADOR – Basta! Então? O carro avançou um passo? Não! Por quê? Porque as forças estavam equilibradas pela junta do coice, junta do coice representada aqui pelos nossos amigos.

TODOS – Ah! ah! ah! é boa!... (Vaia na rua.)

VOZES NA RUA – Fora, negreiro! Escravocrata! Fiô! Fiô!

TODOS – Que é isto? (Vão a correr para a janela, e estacam ao ver entrar o A.) O A.!...



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