O bilontra de Artur Azevedo



Baixar 482.44 Kb.
Página6/19
Encontro02.12.2017
Tamanho482.44 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   19

CENA VI

OS MESMOS, o A.


A. – Eu mesmo, meus amigos! Que desaforo!... Que insolência!... que pouca vergonha!... Vejam se isto é de um governo que se preza!

COMENDADOR – Mas que foi?

A. – Pois não ouviram?... Fui vaiado! Eu vaiado!... Vaiado!...

Coplas



(Música de Gomes Cardim)
I
Eu saio da Câmara

Ao fim da sessão,

E vou sorumbático,

Olhando pro chão;

Mas eis que, de súbito,

Eu ouço uma voz

Dizendo-me injúrias,

E passo veloz...

Um grupo de vândalos

Persegue-me então...

São eles inúmeros...

Nem sei quantos são!

Fiô!

Fiô!


Escravocrata!

Lá vai batata!

Zás!

Trás!
TODOS – Fiô! etc.


II
A. – Cos olhos um tílburi

Eu busco, mas qual!

Que vaia! que escândalo!

Que piramidal!

Enfim, todo impávido,

Lá vou mesmo a pé,

E os vândalos seguem-se,

Chamando-me Zé!

Nas ruas mais públicas

Quem viu coisa assim!

Os pulhas insultam-me

E zombam de mim!

Fiô! etc.

Com franqueza, amigos: eu pareço-lhes suficientemente indignado?

TODOS – Certamente!

A. (Risonho e noutro tom.)Pois bem, não estou tal.

TODOS – Hein?

A. – Tudo isto é uma comédia!

TODOS – Como assim?

A. – A vaia foi encomendada por mim.

TODOS – Para quê?

A. – Eu precisava de um pretexto para...

TODOS – Para...

A. – Uma moção de desconfiança!

TODOS – Vamos!

A. – Já?


TODOS – Já! Partamos! (Saem todos pelo fundo, depois de repetirem o coro de entrada.)

COMENDADOR – Nem sequer se despediram de mim! Ah! política! ah! tramóia! (Tirando o decreto do bolso.) O que me consola é isto! O meu decreto! Vou para o meu gabinete contemplá-lo! Barão! Barão! Barão de Vila Rica!...



Ária



(Do Rigolletto: La dona è mobile.)
Barão estou feito

Da Vila Rica!

Eis a rubrica

Do Imperador!

´Stou satisfeito!

Sou mais um furo

Que aquele obscuro

Comendador!

Brasão doirado

Meu nome encerre:

Um V e um R,

Por cima um B.

Vê-lo-ei gravado,

Todo pachola

Na portinhola

Do meu cupê!


(Música de Gomes Cardim.)
Da Vila Rica eu sou Barão!

Hei de fazer um figurão!...


(O comendador sai dançando. Mutação.)

QUADRO VI



O Largo de São Francisco de Paula.

CENA I

ARLEQUINS, depois o CARANAVAL, depois um ZÉ-PEREIRA, depois o ENTRUDO


(Ao levantar do pano, a cena está cheia de máscaras e povo. Entra um bando de arlequins e executa um bailado. No fim do bailado, a cena fica vazia. Aparece o Carnaval, vestido com um dominó.)
CARNAVAL (Ao público, com voz de falsete)

Os senhores me conhecem?

Sou eu mesmo... O Carnaval!...

(Voz natural) Mas, se licença me dessem,

Falava em voz natural.

Em poucos versos contar-lhes

A minha história aqui vou;

O meu passado lembrar-lhes,

Que tão depressa mudou.

Eu fui isto que estão vendo:

Como dominó remei...

Mas fui descendo... descendo...

E em princês me transformei.



(Transforma-se) Não satisfeito do meu fado

Destes caprichos fatais,

Fez-me um diabinho encarnado...

(Transforma-se) Eis o que sou: nada mais!

A loucura, essa irmã gêmea

Do carnaval sucumbiu

Dês que a brilhante Boêmia

Os atabales partiu.

Findou-se a minha alegria

Depois que me deixou só

O Club X, que bem podia

Chamar-se XPTO.

De Heidelberg os estudantes,

Filhos do gozo, onde estão?

Era outra coisa, isto... dantes,

Nos tempos que já lá vão.

Decididamente acabo

De um modo muito vulgar,

Se os Tenentes do Diabo

Não me quiserem salvar!

Se os Fenianos , da cova

Não me chamam para si,

Leve o demo a casa nova,

Que é muito perto daqui.

Se eu não for quem fui outrora,

Se hei de ser sempre que sou,

Renegar, sem mais demora,

Dos Democráticos vou.

Se Fenianos, Tenentes, Democráticos

Do seu amor por mim não me dão prova,

Recorrerei aos préstimos simpáticos

Dos Progressistas da Cidade Nova! (Passa pelo fundo um Zé-Pereira)

Vai passando um Zé Pereira!

Momo, se me vês de lá,

Repara que desgraceira!

Se não cessa a quebradeira,

O meu futuro ali está!

(Olhando para a direita)

Ó céus! que vejo! vem ali o Entrudo!

Desgraçado que sou!

Se não fujo, ai de mim! lá se vai tudo

Quanto Marta fiou!

Sem dizer água vai, daqui me mudo,

Porque mesmo água vem; ligeiro vou...

(Sai apressado; mas o entrudo, que entra, ainda o vê.)

ENTRUDO – Vai! Foge!... Foge covarde!...

Ainda vives, Carnaval!

Mas até ver não é tarde

Quem há de cair por terra

Nesta encarniçada guerra,

Neste duelo mortal!

Feros rancores eu guardo

Contra ti, contra ti só!

A hora suprema aguardo,

Que em sonhos meu peito afaga,

Da vitória da bisnaga,

Da queda do dominó!... (Vindo ao proscênio.)

Eu sou o Entrudo, o clássico folguedo;

Na massa estou do sangue nacional;

Já noutros tempos me encolhi de medo

Ao surgir nesta corte o Carnaval.

Retirei-me aos penates, porém quando

Ele deveras irritar-me fez,

As manguinhas de fora fui deitando

E acabei por deitá-las de uma vez.

Contudo inda não sou quem dantes era:

Inda serei, porém, quem dantes fui;

Inda este povo, como noutra era,

Verei entrando em tredo entrudo. – Ui!

Inda aqui me vereis de balde e tina...

De seringa na mão já alguém me vê,

Pois a bisnaga é coisa muito fina

Que o Mal das Vinhas inventou. Pra quê?

É tão aristocrata a descoberta,

Que Alguém, com A maiúsculo, também

A bisnaga em Petrópolis aperta

E esguicha a essência que ela em si contém.

Nada! não quero... Mas, ó céus! que vejo?!

Um grupo se dirige para cá,

Que mascarado está!

Encontrar-me com ele não desejo,

Pois vem muito decente,

E o Carnaval não venço facilmente

Que com certo capricho se apresente;

Portanto eu me vou já. (Sai.)





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   19


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal