O bilontra de Artur Azevedo



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CENA II

OS ESTUDANTES DE SALAMANCA, depois JOGATINA e FAUSTINO; POVO


(Os estudantes cantam uma canção espanhola e saem, acompanhados e aplaudidos pelo povo. Durante o canto entram Faustino e Jogatina, vestidos como no quadro precedente. Vêm ambos ligeiramente embriagados.)
JOGATINA – São os coristas do Santana que andam a pedir para as vítimas do terremoto de Andaluzia.

FAUSTINO – Se pedíssemos nós para as vítimas de roleta?... Podes limpar a mão à parede com a tua proteção... Parece incrível!... Três contos de réis deitados fora em três dias!...

JOGATINA – Mas tu hoje começaste logo no princípio a dar beijos na Marie Brizard!... Deste modo ninguém pode jogar... a não ser que jogue como uma barca Ferry.

CENA III

FAUSTINO, JOGATINA; um NOIVO, uma NOIVA e o PAI DA NOIVA


O PAI (Acompanhando os noivos.) – Não pode ser! Não estão casados!...

NOIVA – Estou casada e muito bem casada!

NOIVO – Estamos casadinhos da silva!

PAI – Isto não tem lugar!

FAUSTINO (Agarrando o noivo) – Explique-me, seu coisa!

JOGATINA (Agarrando a noiva) – Diga-me...

PAI – Façam idéia, meus senhores: um casamento tumultuário!

JOGATINA – Tumultuário? Que quer dizer isso dizer?

OS NOIVOS e O PAI – Eu lhes digo...

FAUSTINO – Não. Fale cada qual por sua vez.

OS TRÊS – Não vê que...

JOGATINA – Tumultuário são, não há dúvida! (Ao pai.) Fale senhor, que é o mais velho! (Aos outros.) Atenção!

PAI – Eu sou pai desta rapariga, que é minha filha, se é certo o que diz minha mulher e meu amigo íntimo Doutor Salgado, que já era meu amigo antes de nascer... Este senhor, que é um bilontra...

FAUSTINO (Cumprimentando-o.) – Toque!

PAI – Este senhor, não tendo onde cair morto e sabendo que eu tenho onde cair vivo, andou... a fazer pé-de-alferes à pequena...

NOIVO – De alferes, não, senhor...

PAI – Pois bem, pé-de-moleque, que é o que você é... (Continuando) Ela, coitadinha! teve a fraqueza de se embeiçar por ele... Eu opus-me ao casamento... Minha mulher e o Doutor Salgado também se opuseram. Vão eles então, combinam-se, vestem-se deste modo, que parecem duas figuras de bandeja de confeitaria, e vão ouvir missa... Ajoelham-se, e, no momento em que o vigário deita a bênção, dizem muito alto: Tomamos as pessoas presentes por testemunhas... (Os noivos aproveitam a distração do velho e fogem.) de que nos recebemos por marido e mulher. E receberam-se... Ah! ah! mas eu lhes darei o recibo!... A coisa não vai assim! Eu ainda estou aqui!... Oh! mas eles é que já cá não estão!... Ah! patifes! (Sai correndo)

JOGATINA – O progresso, seu Faustino, o progresso!

FAUSTINO – Progresso? Bilontrismo chamo-lhe eu. (Rumor dentro.) Que mais temos? (Olha para o lado da Rua do Ouvidor.)

JOGATINA (Idem.) – É uma francesa que, pelos modos, filou um sujeito. (Entra Mademoiselle Grichard, segurando Rafani.)



CENA IV

OS MESMOS, MADEMOISELLE GRICHARD, RAFANI, depois um VISITANTE


RAFANI – Ma per Dio, signora! No capisco niente!

MADEMOISELLE GRICHARD – Eh bien, allons à la police!

RAFANI – Lasciateme dunque! questo collare non é vostro!

FAUSTINO – Conflito franco-italiano!

MADEMOISELLE GRICHARD – Il est à moi... On me l´a volé!

JOGATINA (A Faustino.) – Ah! percebo: é o negócio das jóias de Mademoiselle Grichard.

FAUSTINO – Ah! outra bilontrice!

MADEMOISELLE GRICHARD – Il y a quarante et trois diamants... Voyons!

RAFANI – Non è vero... Sono quaranta e cinque. Esse me a stato venduto par il Commendatore Xorro.

MADEMOISELLE GRICHARD – C´est ce que nous verrons!

RAFANI – Orbene, vendremo e dopo parleremo!

MADEMOISELLE GRICHARD – Allons au subdelegué!

RAFANI – Dio! Dio! Andiamo dunque! (Saindo com ela.)Queste orizzontali hanno capellete alle vente!

FAUSTINO – O pobre do Rafani está apertado!

JOGATINA – Pobre rapariga! Sabe Deus quanto lhe custou adquirir aquele colar!

FAUSTINO – É...

JOGATINA – Quem é este sujeito que aí vem a olhar para todos os lados, com uma mala debaixo do braço?

FAUSTINO (Esbarrando pelo Viajante, que entra.) – Oh! O senhor não vê por onde anda?

VAIAJANTE – Desculpe, mas vou com muita pressa... Não tenho um momento a perder... Querem alguma coisa para a outra banda?

JOGATINA – Que vai lá fazer, se não é indiscrição?

VIAJANTE – Pois não sabem?

Coplas

I
Dois tipos muito amigos

Se encheram de razões;

Tornaram-se inimigos,

Trocaram cachações!

Um deles, o mais forte,

Deu mais do que apanhou,

E o outro se acha à morte

Da tunda que levou!

Tem a briga um fim?

Pode ser que sim...

Ambos tem razão?

Pode ser que não!
TODOS – Pode ser que sim...

Pode ser que não...


II
VIAJANTE – Alegre e satisfeito

Vou ter cos dois heróis,

Um deles escorreito

E o outro nos lençóis.

Ser espinhosa deve

A minha comissão;

Mas digo muito em breve

Qual deles tem razão.

Perco o meu latim?

Pode ser que sim...

Venço a tal questão?

Pode ser que não!...


TODOS – Pode ser que sim...

Pode ser que não...

(O Viajante sai correndo.)
FAUSTINO – Foi uma acertada nomeação, porque este sujeito tem olho. Ó diabo! lá vêm o Comendador e a pequena! Toca a safar!

JOGATINA – Sim, mesmo porque são horas de nos prepararmos para o Bando Precatório!



CENA V

O COMENDADOR, CAROLINA, depois o BALÃO JÚLIO CÉSAR


CAROLINA – Olhe, papai, seu Faustino!

COMENDADOR – Aonde, menina? Estás doida?

CAROLINA – Era ele sim, senhor; ele e o cambista.

COMENDADOR – Que cambista, menina?

CAROLINA – O tal que não esperou pelo dinheiro daquele bilhete em que eu tirei quinhentos mil réis...

COMENDADOR – Pois se era ele, não lhe gabo a companhia... Mas qual! um rapaz tão bem relacionado, que me arranjou o título de Barão!

CAROLINA (À parte.) – começo a desconfiar que primo Xandico tem razão. (Olhando para dentro.) Olhe, papai, que homem tão esquecido! Quem será?

COMENDADOR – Sei lá!

BALÃO (Entrando.) – É um esbulho! Aí está o que eu fui buscar a Paris! (Ao Comendador.) Copiaram-me, meu caro senhor, plagiaram-me!

COMENDADOR – Mas que é o senhor? Não tenho a honra de...

BALÃO – Eu sou o Balão de Santa Maria de Belém. Dá-me um charuto?

COMENDADOR – Ah! é um colega! (Dando-lhe um charuto.) Pois eu sou o da Vila Rica.

BALÃO – O senhor!... pois o senhor é também balão?

COMENDADOR – Sim, senhor. (À parte.) Não pronuncia os rr: é tatibitate... (Alto.) Mas... como dizia o colega?

BALÃO – Sabe por que ainda não subi? Faz-me favor do fogo?

COMENDADOR – Por quê?

BALÃO (Acendendo o charuto.) – Não subi porque não pude encher-me.

COMENDADOR – Dá-se comigo justamente o contrário: não pude encher-me porque não subi.

BALÃO – Vou recorrer ao povo. Dá-me outro charuto, para quando acabar este ?

COMENDADOR (Dando-lho)- Ao povo recorri eu...Mas resgaram-me o diploma...Faltou-me o apoio...

BALÃO- Apagou-se. Dá-me um fósforo? (O Comendador dá-lho.) Eu não preciso de diploma e achei já o meu ponto de apoio. Apagou-se; dá-me outro?... Gás!... de gás é que eu preciso!

COMENDADOR – De gás ou de fósforo?

BALÃO (Acendendo o charuto.) – Gás, para subir!

COMENDADOR – Ah! quer concorrer para a iluminação da cidade!

BALÃO – Nada! preciso de gás para ir às nuvens!

COMENDADOR – Às nuvens fui eu sem gás!

BALÃO – Sem gás? Que me diz, colega? Pois um balão sem gás vale lá alguma coisa! Balão sem gás é saco vazio!

COMENDADOR (Desapontado.) – Ai, que é balão e não barão! Agora compreendo... Carola, é o balão Júlio César! E eu a dar-lhe treta e charutos!

BALÃO – Mais um para depois do jantar...

COMENDADOR – Nada! contente-se com os que já tem... Que pedinchão... O Barão da Vila Rica não é paio!

BALÃO – É Barão! Logo vi! Os barões não podem compreender-me. Só o que tem fé acredita em mim, porque a tem... ao menos no nome. Dispenso os seus charutos. Apesar de não ter gás, vou subir até às altas regiões e pedir que nomeiem uma comissão para angariar-me donativos.

COMENDADOR – Darei alguma coisa, se publicarem o meu nome por extenso: Barão de Vila Rica. Senão, não. Sou liberal da Velha Guarda, mas gosto, que me lambo todo, que me chamem pelo título!

BALÃO – Não seja esta a dúvida! Passasse bem. (Sai.)



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