O bilontra de Artur Azevedo



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CENA VI

O COMENDADOR, CAROLINA, depois um TITULAR, 1o CAIXEIRO, CAIXEIROS, depois 2o CAIXEIRO


CAROLINA – Já estava cansada de esperar. Que balão cacete!

COMENDADOR – O caso é que, se ele se governasse nos ares, muita gente ficaria com cara d´asno.

TITULAR (Entrando, acompanhado de muitos caixeirinhos, que o felicitam ruidosamente.) – Basta! Obrigado! Larguem-me! (À parte.) Quem me mandou meter com crianças?

1o CAIXEIRO – Viva o nosso protetor!...

TODOS – Viva!... (Rodeiam o Titular.)

Coro de caixeiros



(Música de Gomes Cardim.)
Viva o nosso amigo,

Nosso defensor,

Que é da nobre classe

Nobre protetor!

Viva o fechamento,

Que abre os corações!

Viva a caixeirada!

Fora os tais patrões!

TITULAR – Basta, já disse! Basta de demonstração! (Vendo o comendador.) Ó meu nobre amigo! por aqui?

COMENDADOR – Como vê, e admirado de o encontrar cercado por essa rapaziada!

TITULAR – Não me largam desde pela manhã. Fui propor o fechamento das portas, e agora o verás!

1o CAIXEIRO – Viva o protetor da nobre classe caixeiral!

TODOS – Viva! viva!...

TITULAR – Vão embora, meus amiguinhos, vão tratar de suas obrigações. Eu tenho quarenta anos...

COMENDADOR – Só?

TITULAR – Só (Aos caixeiros.) Estou no caso de lhes dar conselhos.

1o CAIXEIRO – Viva o nosso conselheiro!

TODOS – Viva!

TITULAR – Já me apresentei candidato a senador...

1o CAIXEIRO – Viva o nosso senador!...

TODOS – Viva!

2o CAIXEIRO – (Entrando esbaforido, aos outros.) – Sabem?... Uma grande... novidade!

TODOS – Qual é? qual é?

2o CAIXEIRO – Chegou...

TODOS – Quem?

2o CAIXEIRO – Chegou o Sousa Bastos e a Pepa!

TODOS – Viva a Pepa! Viva! Vamos vê-la! Viva a Pepa!... (Saem a dar vivas.)

TITULAR – Ora aí está o que é a popularidade! Eu contava, pelo menos, com o retrato a óleo. (Alto.) Fica, Comendador?

COMENDADOR – Fico ainda um momento (A Carolina.) Comendador... É célebre! Ainda ninguém sabe que eu sou Barão!

TITULAR – Então, até sempre. (Sai. Ouve-se música dentro.)

CAROLINA – Papai, aí vem o Bando Precatório.

CENA VII

COMENDADOR, CAROLINA, FAUSTINO, JOGATINA, o TRABALHO, o BANDO PRECATÓRIO


(Começa a desfilar o Bando Precatório. Faustino e Jogatina são dos primeiros que chegam, de casaca ambos, e trazendo no braço o distintivo da imprensa. O Trabalho entra pelo outro lado, disfarçado de vendedor de jornais. Muitos indivíduos, todos com o mesmo distintivo, entram, uns com sacolas na mão, outros com elas presas à ponta de uma vara. O Comendador é vítima dos pedintes.)
COMENDADOR – Nada! vou trocar cinco mil réis em níqueis ali no quiosque! (Faz o que diz.)

FAUSTINO (A Jogatina.) – Já tenho uns vinte bodes. E tu?

JOGATINA – Há de andar por isso.

FAUSTINO – Disfarça e passa dez para o bolso. Eu faço o mesmo.

JOGATINA (Em tom de censura.) – Dinheiro das vítimas da...

FAUSTINO (Impaciente.) – Anda, Luzia! (Fazem a ladroeira.) Oh! O Campelo! Se ele já deu pela coisa... (Vendo que o Comendador lhe sorri.) Ah! não! (Aproximando-se.) Comendador, para as vítimas dos terremotos! (Jogatina pede do outro lado da cena.)

COMENDADOR – Olá! o senhor é também jornalista?

FAUTINO – Por hoje só... Para servir aos meus amigos da imprensa. Ah! O Comendad... perdão! o Barão há de encontrar no Bando um bando de indivíduos que se acham nas minhas condições.

COMENDADOR (Dando-lhe níqueis.) – Aí tem.

FAUTINO (Baixo a Carolina.) – Como está?

CAROLINA – Muito zangada com o senhor! Aquilo faz-se? Despedir-se sem falar com a gente!

FAUSTINO (Disfarçando.) – Oh! lá vai o Freitas! Vou apanhar-lhe uns níqueis! (Vai correndo e encontra-se com o Trabalho.)

TRABALHO – Um momento!

FAUSTINO – Oh!

TRABALHO – Toma estes jornais. Antes os venda do que finjas escrevê-los. Estás extorquindo dinheiro dos desgraçados, lançando uma nota triste nesta esplêndida festa de caridade! Vai trabalhar!

FAUSTINO – Sabes que mais? Toma! (Dá-lhe um pontapé.)

TRABALHO – É o segundo pontapé que dás no Trabalho. São pontapés que dás em ti mesmo! (Entram jornalistas a cavalo. Banda de música. Movimento. Entusiasmo. Animação. Mutação.)

QUADRO VII




O Bando Precatório



Apoteose
(O Anjo da Caridade, no céu, derrama flores e moedas de ouro sobre o cortejo. Fogos, etc.)

ATO II




QUADRO VIII




Sala de fantasia




CENA I

FAUSTINO, JOGATINA, vestida de mulher


FAUSTINO – Mas, afinal de contas, onde estamos nós?

JOGATINA – No Palácio dos Teatros.

FAUSTINO – É bonito, é; mas não me dirás o que vimos aqui fazer?

JOGATINA – Quer acender-te o desejo do único jogo que ainda não tentaste.

FAUSTINO – Qual?

JOGATINA – O câmbio de teatro. Faze-te cambista de bilhetes. Se fores feliz, firmarás a tua independência.

FAUSTINO – Mas eu não entendo disto...

JOGATINA – Foi essa justamente a razão por que aqui te trouxe. Vais conhecer os diversos gêneros teatrais. Ouve...



Rondó

Moram aqui de cambulhada

Os vários gêneros teatrais,

O Dramalhão de capa e espada,

A peça fina, e todos mais.

Estão aqui, promiscuamente,

Na nova Torre de Babel,

A nova Farsa mais recente

E a velha Farsa de Cordel.

A par da rígida Tragédia,

Que nos faz lágrimas verter,

Acha-se a pândega Comédia,

Que a todos faz rir a perder.

Aqui também se acha a Opereta

De quem se diz bastante mal,

Por ter bastante malagueta

E muitas vezes não ter sal.

Também cá mora a Ópera séria

E, quando a voz levanta aqui,

Ninguém aventa uma pilhéria,

Que a todos vence o dó-ré-mi!
Moram aqui de cambulhada etc.
Mas vivem todos só da fama:

Chega a cortar o coração

Ver como aqui vegeta o Drama,

Como agoniza o Dramalhão.

A mesma Op’reta – quem diria? –

Deixou de ser o que já foi;

A Tragédia ficou pra tia:

Já não é mais que um pé-de-boi.

Se não melhoram estes fados,

Continuando a esbodegação,

Os vários gêneros, coitados

Fazer a trouxa poderão.

Mas o deus Público decerto

Em maus lençóis nunca os porá,

E assim o teatro, embora aberto,

As portas nunca fechará.


Moram aqui de cambulhada, etc.
FAUSTINO – Então, moram aqui?...

JOGATINA – Que sei eu! a Ópera, a Tragédia, o Drama, o Dramalhão, a Comédia, a Opereta, a Mágica...

FAUSTINO – Tantos?! E vivem em harmonia?

JOGATINA – Como o cão com o gato. Espera. Vou buscá-los. (Sai.)

FAUSTINO (Só.) – Isto não vai bem, seu Faustino, isto não vai bem! É preciso mudar de rumo... Os negócios vão de mal a pior. Começo a notar certa frieza no Campelo... Aquele decreto falsificado tira-me o sono! Não teria sido melhor procurar um emprego, qualquer que fosse?



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