O bilontra de Artur Azevedo



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CENA II

FAUSTINO, o TRABALHO


TRABALHO (Levantando-se na orquestra, onde finge ser tocador de oficleide.) – Muito apoiado! Vá por aí!

FAUSTINO – Oh! Ainda!...

TRABALHO – Ainda e sempre.

FAUSTINO – Nova reforma do Remorso Vivo!

TRABALHO – Toma este instrumento; aprende a tocá-lo, e vem trabalhar cá na orquestra.

FAUSTINO – É de ouro?

TRABALHO – Não; mas ouro é o que ouro vale.

FAUSTINO – Então vai-te catar! Ora que eu não possa dar um passo sem encontrar este tipo!



Duettino

(Música de Gomes Cardim.)


FAUSTINO – Que trabalho tão maçante!

Já o não posso tolerar!

Aparece a todo instante!

TRABALHO – Anda cá, vem trabalhar (Solo de oficleide.)

FAUSTINO – Ei-lo armado de oficleide!

Afinal diga o que quer!

TRABALHO – Qu’lides!

FAUSTINO – Qu’lide?

TRABALHO – Qu’lides!

FAUSTINO – Qu’lide?


Pois que lide quem quiser! (Solo de oficleide.)

Juntos

TRABALHO – Que grande vagabundo!

Não tem mais correção!

Engana a todo mundo

Sem consideração!

FAUSTINO – Torna-me furibundo

Tamanha amolação!

Até o fim do mundo

Me of’rece ocupação!

TRABALHO - Se não tocas o instrumento,

Rufa ao menos o tambor!

Desce cá por um momento...

FAUSTINO – Não me amole por favor!
(Solo por Faustino, que imita o oficleide com as mãos na boca.)
TRABALHO – Desde já te participo

Que hás de ter um fim fatal!

FAUSTINO – Tipo!

TRABALHO – Tipo!

FAUSTINO – Tipo!

TRABALHO – Tipo!

Hás de, amigo, acabar mal!

Juntos

TRABALHO


Que grande vagabundo, etc.
FAUSTINO

Torna-me furibundo, etc.


(No fim do duettino desaparece o Trabalho.)
FAUSTINO – Ah! musca-se? Melhor! Há mais tempo!

CENA III

FAUSTINO, JOGATINA, a ÓPERA, a TRAGÉDIA, a OPERETA, o DRAMALHÃO e a MÁGICA


JOGATINA – Cá estão os donos da casa. (Apresentando.) A Tragédia... a Ópera... a Opereta... o Dramalhão... e a Mágica. (Cumprimentos mudos.)

FAUSTINO – E o Drama? E a Comédia?

DRAMALHÃO – Não estão em casa.

OPERETA - Ils sont allés ao Teatro de São Pedro de Alcântara.

TRAGÉDIA – Onde neste momento são honrados

Por um talento lúcido, assombroso!

TODOS – A Duse-Checchi!

JOGATINA – Tragédia, dize a este senhor o que lhe podes oferecer.

TRAGÉDIA – O que lhe posso oferecer... Vergonhas!

Doces lembranças de um passado morto,

Quando ainda no palco fluminense

Brilhava à luz da rampa o grão Racine

E o terrível Corneille iluminava

Com o gênio seu do povo a inteligência;

Quando Antônio José queimado ardia

Da Inquisição na estúpida fogueira,

E Hedelmonda morria aos pés de Otelo,

E a Nova Castro soluçava idílios,

A Nova Castro que hoje raramente

O Florindo remonta e o bom Barbosa.

(Todos os personagens vão aos poucos dormindo em pé.)

Ultimamente reanimar quiseram

O meu cadáver clássico: de Espanha

O Seio da Morte Echegaray mandou-nos,

Que dois mancebos, talentosos ambos,

Vencendo o sono traduzir lograram.

Baldado esforço! Nem valeu ter sido

Recomendado o poema por um César!

De bem alto caiu: foi grande a queda!

Mas, justos céus! que vejo! todos dormem!

Ao trêfego Morfeu quando eu declamo!

Ninguém resiste! Ó fado! Ó sina! Ó numes!

Se, porém, quereis ver como despertam,

Basta que eu cante um pândego estribilho

De insulsa ópera-bufa! E vou fazê-lo:

(Cantando e dançando ao som da Mascote.)

Mas ninguém tema o macacão

Qu’hão deitar-lhe...

Qu’hão deitar-lhe...

Mas ninguém tema o macacão,

Qu’hão de deitar-lhe a mão:

Zás!


(Têm todos despertado e dançam.)

Vistes! Foi necessário que eu espojasse

No chão brejeiro a clâmide sagrada

Para que o som da minha voz ouvissem!

(Vai para o fundo.)

FAUSTINO (À parte.) – Será o Trabalho, disfarçado ainda?

JOGATINA – Para este gênero são precisos atores excepcionais. – Dramalhão, que novidades nos dás?

DRAMALHÃO – Nenhuma, senhora, se bem que ainda não soasse a hora de meu aniquilamento.

FAUSTINO – Que! pois não tens nada de novo?

DRAMALHÃO – Não! Que não é novo o Palhaço, um dramalhão em que João Caetano transformava D’Ennery em Shakespeare... Não são novas as Duas Órfãs... e os Estranguladores de Paris há muito tempo estrangulam a paciência do público... Não é nova a Cruz da Morta nem o Assassino por Amor, nem o Remorso Vivo, nem João, o Cocheiro, que não é outro senão o Guia da Montanha, que não é outro senão o Fiacre Número 226. Mas vou reanimar uma grande figura, imensa no romance, decrescida no teatro, mas sempre interessante e eterna.

TODOS – Qual?

DRAMALHÃO – Ressurge, Edmundo Dantés, abade Busoni; Simbad, o marítimo; Zaconne; Conde de Monte Cristo! (Forte na orquestra. Surge de um alçapão o Conde de Monte Cristo.)



CENA IV

OS MESMOS, O CONDE DE MONTE CRISTO


CONDE DE MONTE CRISTO – Temerário! quem te autorizou a me filiares ao teu gênero falso e condenado? Por que evocas o meu prestígio para inoculares em tuas veias depauperadas uma gota do meu sangue romântico? Não receias que eu puna a tua audácia?... e que, depois de encerrado, por tantos anos, no castelo de If do esquecimento público, eu volte com todas as veemências, com todas as energias?

DRAMALHÃO – Vilão, que usas de muitos nomes, como os vagabundos e ratoneiros; conde macanjo, que assim pagas a nova existência que te proporciono! Não temes que eu te obrigue a assinar termo de bem viver?

CONDE DE MONTE CRISTO – Uso de muitos nomes, é certo; mas o meu nome verdadeiro... basta que eu o pronuncie para fulminar-te, a ti e a todos os teus adeptos!

DRAMALHÃO – Este nome é?...

CONDE DE MONTE CRISTO – Alexandre Dumas!

TODOS – Ah! (Fogem. Ouve-se dentro um tiro.)

CONDE DE MONTE CRISTO – Ah! ah! ah! (Some-se. Voltam todos, menos o Dramalhão.)

TRAGÉDIA – O Dramalhão, coitado! Suicidou-se!

Move-me a piedade o seu suicídio!

FAUSTINO (Da porta.) – Já se foi embora esse maluco?

JOGATINA – Amenizemos esta cena lúgubre. – Mágica!

MÁGICA – Que desejas, Princesa Virtuosa?

JOGATINA – Deixa-te de ironias. Que novidades me ofereces?

MÁGICA – Vem comigo à rocha de ouro, onde se oculta o feiticeiro azul.

FAUSTINO – Não é isso que desejamos.

MÁGICA – Que pretendes, mortal ousado? Trazes contigo o talismã da fada de coral? e o ramo de esmeraldas da deusa das buzinas?

FAUSTINO – Quem é essa deusa das buzinas?

JOGATINA – Deve ser uma espécie de Mariquinhas dos Apitos.

FAUSTINO – Não; não trago buzinas nem apitos (À parte.) Que diabo de estilo tem esta mulher!

MÁGICA – A Fada Melusina e o Príncipe Formoso...

JOGATINA – Não se trata agora disso... Que novidades me ofereces? É a segunda vez que te faço tal pergunta.

MÁGICA – Uma só: o Gênio do Fogo.

FAUSTINO – Que gênio é esse?

MÁGICA – Ele próprio to dirá... Gênio do Fogo, surge do teu reino subterrâneo! (Surge do chão o Gênio do Fogo.)





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