O brasil nas "cartas" de jorge de sena



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O BRASIL NAS “CARTAS” DE JORGE DE SENA
Alfeu Sparemberger

UFPel


alfeu.sparemberger@terra.com.br

RESUMO: O propósito central deste artigo é o de apresentar o conteúdo de cinco “Cartas do Brasil”, escritas pelo escritor português Jorge de Sena durante o período em que residiu no Brasil e atuou como professor da Universidade de São Paulo. Com acurado espírito observador e a experiência de uma “dupla cidadania”, Jorge de Sena delineia uma imagem do Brasil, abordando temas como as diferentes temporalidades da cultura brasileira, o ensino da literatura portuguesa, os desdobramentos da língua portuguesa no Brasil, o processo de miscigenação, a presença do imigrante português e outros tópicos relevantes no quadro do luso-brasileirismo.


Palavras-chave: Luso-brasileirismo. Jorge de Sena. Cultura brasileira.
RESUMEN: El propósito central del artículo es el de presentar el contenido de cinco “Cartas do Brasil”, producidas por el escritor portugués Jorge de Sena, durante el período en que residió en Brasil y actuó como profesor en la Universidade de São Paulo. Com un listo espírito observador y la experiência de una ciudadanía tandém, Jorge de Sena delinea una imagen del Brasil, al abordar como las distintas temporalidades de la cultura brasileña, la enseñanza de la literatura portuguesa, los desdoblamientos de la lengua portuguesa en Brasil, el proceso de mestizaje, la presencia del inmigrante portugués y otros tópicos relevantes en el cuadro del luso-brasileirismo.
Palabras clave: Luso-brasileirismo. Jorge de Sena. Cultura brasileña.

Introdução

É, de resto, essa [o reconhecimento pessoal, a relação pessoal, “na interdependência de interesses pessoais pessoalmente firmados e estabelecidos”] uma das sujeições mais típicas da vida brasileira, e uma das mais estranhas para o europeu. Sem dúvida que o brasileiro é muito sensível ao autêntico valor intelectual, e o reconhece, em público e privado, com uma espontaneidade que à mesquinhez européia ou portuguesa parece ingenuidade. Mas, no contacto pessoal e no direito de acesso ao renome público, apenas subtis e discretíssimas provas de consideração distinguem o grande escritor de um plumitivo que adquiriu, pela sua capacidade de imiscuir-se e de influir, alguma simpatia ou algum poder. Num país onde se mata com facilidade, se chora o morto com discreção e se esquece o morto com rapidez, o reconhecimento do direito de cada um a tratar, sem escrúpulos, da sua vida é quase ilimitado; e mais facilmente se perdoa que uma pessoa, com o mais amigo dos sorrisos, atropele o outro, do que, com a mais firme lhaneza, se oponha a que o outro o atropele. Isso dá às relações humanas uma peculiar forma de “makebelieve”, que a cordialidade aparente e o desprezo profundo podem entrar na mais variável das proporções. Mas dá-lhes também um carácter de facilidade e de confiança a longo prazo, paradoxal e até comovente. Para resolver um caso, “dá-se sempre um jeito”; e, quando o europeu já imagina que o seu caso foi esquecido, o jeito foi dado... (Jorge de Sena, “Primeira Carta do Brasil”, 1961).



A referência ao “jeitinho brasileiro” pode levar o leitor a concluir que Jorge de Sena (1919-1978), que morou no Brasil entre 1959 e 1965, onde atuou como professor do magistério superior na Universidade de São Paulo, recorre ao estereótipo para comunicar aos seus conterrâneos as impressões causadas nele pelo Brasil e pelos brasileiros. Antes de uma conclusão apressada, porém, cabe recordar que Jorge de Sena viveu, na carne, a “experiência de ser um luso-brasileiro”. “Com cidadania brasileira e portuguesa, teve a oportunidade de ver e observar o Brasil e Portugal por dentro e por fora em todas as suas respectivas malandragens nacionalistas e patrióticas” (VIEIRA, 1991, p. 166). O dilema luso-brasileiro aparece retratado excepcionalmente nos ensaios de sua obra O Reino da Estupidez (1978-1979). Profundo conhecedor da existência de um intercâmbio cultural entre Brasil e Portugal, com enorme apreço pelo Brasil e amor pelos brasileiros, registra com laivos de ironia “a existência de uma hipocrisia flagrante e prevalente, escondida por trás dos elogios luso-brasileiros” (Idem, p. 167). Muitos traços do luso-brasileirismo e mesmo alguma imagem do Brasil podem ser encontrados nas “Cartas do Brasil”, escritas por Jorge de Sena em 1961. Uma imagem sempre procede de uma tomada de consciência de um eu em relação a um outro. “A imagem é, portanto, o resultado de uma distância significativa entre duas realidades culturais. Ou melhor: a imagem é a representação de uma realidade cultural estrangeira através da qual o indivíduo ou o grupo que a elaboraram (ou que a partilham ou que a propagam) revelam e traduzem o espaço ideológico no qual se situam” (MACHADO, PAGEAUX, 1982, p. 43). A imagem do Brasil nas “Cartas” de Jorge de Sena, articulada naquela dupla conformação, a de um português-brasileiro, com notável capacidade de observação, emerge de um complicado quadro nas relações entre Brasil e Portugal, e num momento em que se forjava aqui uma nova concepção do trabalho intelectual, definiam-se múltiplas opções relativamente ao processo cultural e ocorriam acirradas e radicais interpretações da “ideologia” da cultura brasileira. Desenvolvimentismo, nacionalismo, revolução burguesa estão na pauta diária da intelectualidade que, da “consciência amena de atraso”, de “país novo”, passa a conceber o Brasil como um país em “vias de desenvolvimento”.
A “vida espiritual” brasileira
A primeira Carta tem como foco a descrição da peculiar “vida espiritual” brasileira, no âmbito da atividade intelectual e literária, com características diversas daquelas supostas, inclusive, por uma franja de intelectuais portugueses que, pela leitura, conhece e admira o Brasil. A “imensidade territorial”, aliada ao modelo político federalista brasileiro, por si só particularizador se confrontado com o centralismo tradicional lusitano, conduzem Jorge de Sena à seguinte constatação:
Sem dúvida que os grandes núcleos culturais – universidades, editoriais, atracção dos escritores para os fortes centros urbanos – são as prodigiosas metrópoles: Rio de Janeiro e São Paulo. Mas custará a crer em Portugal o fenômeno seguinte: que se possa ser mesmo um escritor respeitado e admirado em S. Paulo, e ser-se completamente ignorado ou muito subestimado no Rio de Janeiro (SENA, 1988, p. 67).

Tal quadro pode sofrer alterações com a transferência da capital federal para Brasília e gerar uma modificação no eixo cultural e intelectual entre Rio-São Paulo, como constata Jorge de Sena. Neste cenário, o Rio de Janeiro deixará de ser “o luzeiro ofuscante onde se fazem e desfazem as reputações nacionais” (Idem, p. 67), acrescentando-se a crescente importância política e econômica de São Paulo. Até aquele momento, nas observações de Sena, o Brasil “é um vasto acervo de núcleos regionais de cultura, dos quais, às vezes, se destacam elementos que, idos para o Rio ou São Paulo (ou lá editados), ascendem a uma consagração nacional” (Idem, p. 68). Acresce, ao final, que as Universidades, no Brasil, “participam da vida pública e da vida intelectual, numa escala que, em Portugal, também se não concebe” (Idem, p. 68). Após o Golpe Militar de 1964, e sobretudo após o Ato Institucional n. 5, de 1968, a participação das universidades na vida pública registrou, por razões conhecidas, considerável arrefecimento. A realidade cultural brasileira observada por Jorge de Sena conhecia um primeiro momento de integração, resultante do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, ou seja, de uma indústria cultural em vias de se afirmar hegemônica, do processo de industrialização e urbanização. A consagração de alguns escritores é resultado do sucesso das grandes magazines de distribuição nacional e popular. A crônica – “ensaio mais ou menos lírico que não chega a ser conto” – constrói a fama, nacionalmente, de nomes como Rubem Braga e Fernando Sabino. Os jornais, entretanto, não conhecem o mesmo destino, com circulação praticamente restrita às cidades em que são publicados. A vida intelectual brasileira está assentada no conhecimento pessoal, na relação individual, o que também, somente por sutil prova de consideração, distingue “o grande escritor do ‘plumitivo’”, que alcança alguma estima e poder.


O quadro, assim delineado, com a profusão dos magazines direcionados a um público superficial, não deve produzir o efeito de consideração negativa. Recorda Jorge de Sena que “nada disto nos iluda acerca da capacidade brasileira para o ponderoso trabalho intelectual”:
No Brasil, os estudos sociológicos, culturais, literários, a par do mais pedante aventureirismo que se dissimula na informação copiosa em catadupas de notas, possuem uma solidez de informação e de estrutura, que deixa a perder de vista o improviso brilhante em que se confina tanto, mercê das mais variadas circunstâncias, a intelectualidade portuguesa. E, se a literatice sob todos os aspectos pode ser uma atividade próspera, o contato raro perdido com as regiões de origem dá aos escritores uma penetração social na vida popular e no destino da terra, que é uma das grandes forças da literatura brasileira, desde o imediatismo lírico de um Jorge Amado à excepcional aventura lingüística de Guimarães Rosa (Idem, p. 69).

Escritores e intelectuais, no entanto, não têm sua origem no “povo”. Pelo contrário: “Quase todos os escritores, de entre os grandes, são oriundos da aristocracia terratenente” (Idem, p. 69). Reside aí um grande equívoco da interpretação portuguesa da literatura brasileira. O contato com o povo resultou sempre de um “convívio feudal” no engenho ou fazenda com uma “personagem miúda” que servia aos maiorais. O Neo-realismo português elegeu, deste modo, como parâmetro de aferição do real, no que se apropriou da literatura brasileira do decênio de 30, a posição dos descendentes de uma nobreza proprietária, das velhas casas senhoriais, particularmente os escritores do Nordeste, de Minas Gerais e de São Paulo. Destarte, só recentemente a “tremenda imigração alienígena” – italianos, sírios, japoneses – que vem transformando de “maneira ainda imprevisível” os destinos luso-brasileiros, começa a lançar frutos na vida intelectual brasileira. Eles são originários de uma pequena burguesia urbana e mercantil que amplia a constituição da burguesia citadina e financeira, confinada até então aos magnatas paulistas.


Jorge de Sena registra com acuidade as transformações ocorridas no Brasil: aglomerados urbanos, localizados no litoral, vivendo um surto de crescimento; industrialização vertiginosa, como reflexo das propostas desenvolvimentistas da década de 50; grande crescimento populacional e a produção de uma literatura que, mesmo ensimesmada e reticente, consegue refletir parcelas significativas da desmesurada realidade brasileira. E mais: no registro também das gigantescas contradições e carências, o Brasil aparece aos olhos de Jorge de Sena deste modo:
Com suas setenta faculdades de filosofia, onde se acotovelam professores dos mais prestigiosos aos mais medíocres; com as obras gigantescas de barragens e de estradas, que modificarão as condições de vida em áreas imensas de sertão (e o sertão brasileiro não é, como suporão as imaginações mal informadas, a não menos imensa floresta amazônica). Com o desequilíbrio total entre o expansionismo económico-financeiro de S. Paulo e a miséria extrema das populações nordestinas; com uma língua portuguesa que vai desde o quinhentismo opulento falado pelo mais humilde cearense ou maranhense até ao espanholismo do Rio Grande do Sul, passando pelo vigor e o colorido da Bahia, em que a Europa, a Ásia e a África criaram uma civilização sincrética que resume as andanças portuguesas; com uma politização caótica, mas intensa, das massas; com... Enfim, que ao menos em Portugal se saiba quão desmesurado é o Brasil, e quão apesar de tudo, a sua literatura, tão variada, tão regional, e tão rica de grandes figuras, é pequena ainda para representá-lo (Idem, p. 70).

O “melting pot” brasileiro
Outro incontestável equívoco no quadro das relações luso-brasileiras decorre da interpretação portuguesa acerca da miscigenação ocorrida no Brasil. De fato, para muitos brasileiros, hoje (leia-se década de 60 e anteriores), “Portugal não é o berço dos antepassados, mas apenas o país de que provieram a civilização em que se integram e a língua que falam” (Idem, p. 71). Os descendentes de alemães, italianos, sírios, japoneses, que levaram algum tempo para se miscigenar, e que se abrasileiraram socialmente antes de uma miscigenação com um “fundo étnico luso-brasileiro, não reconhecem Portugal como a Mãe-Pátria, nem a terra dos avós”, ou ainda “uma paisagem e uma cultura que tragam no sangue ou que conservem nos laços de família”:
Mas não é também, aquele país transatlântico de cujo domínio colonial o Brasil se libertou, nutrindo sempre, em relação à Mãe-Pátria, uma atitude ambígua, repartida entre o sentimentalismo passadista e o desejo de uma autonomia desafiadoramente e desconfiadamente proclamada que foi sempre, com variantes diversas, a dos “quatrocentões”, isto é, dos brasileiros de raiz, longinquamente descendentes dos primeiros portugueses (Idem, p. 70).

Ao diferenciar a mestiçagem ocorrida no Brasil do mesmo processo americano, observa Jorge de Sena:


O ‘melting pot’ brasileiro oferece aspectos de complexidade antropológica e social impensáveis em Portugal, e largamente superado nos Estados Unidos. No Brasil, coexistem todas as eras ‘históricas’, desde a pré-história à mais refinada tecnicista civilização contemporânea. A distribuição geográfica desses desfasamentos não é simples, nem coincide exactamente com as regiões culturais do Brasil, tal como a sociologia moderna as tem definido (idem, p. 71-72).

De fato, uma realidade plural, coexistindo em múltiplas temporalidades, em diferentes estágios de desenvolvimento histórico, social e material, para além de variadas formas de ocupação do espaço físico, caracterizam a cultura brasileira. Cabe aqui, a despeito da sua extensão, um longo trecho da elaboração de Jorge de Sena sobre os diferentes estágios de desenvolvimento histórico-social do Brasil, bem como de todas as fases de ocupação territorial do país, ou, no seu entender, da “humanização geográfica” nacional:


O avanço da civilização urbana moderna para o interior do Brasil variou imenso de região para região. Se Minas Gerais foi no séc. XVIII, culturalmente um centro à altura das exigências européias do espírito do tempo, e uma velha civilização urbana se manteve, apesar do declínio da mineração, nas cidadezinhas vetustas do Sul e Centro do Estado, ainda há trinta anos quase todo o interior do Estado de São Paulo era sertão de índios, quando, por trás destes, em Mato Grosso, vastas zonas de feudalismo agrários se intercalavam já, como hoje, entre as tribos refugiadas nas selvas ou nos pantanais imensos. A idade da pedra polida, as idades dos metais, os núcleos urbanos incipientes, o feudalismo agrário e terratenente, as migrações de grupos vivendo da pecuária, a aristocracia mercantilista, a sociedade patriarcal e esclavagista, os grandes aglomerados urbanos e proletários da revolução industrial, a mata virgem, as savanas incomensuráveis, a floresta equatorial da Amazônia (que se estende por três Estados: Amazonas, Pará, Maranhão, e ainda hoje a ex-capital esplendorosa da borracha, Manaus, só é atingível de avião ou pela difícil subida fluvial da maior bacia hidrográfica do mundo), tudo isto coexiste num país imenso, em que a noção das distâncias se vai perdendo, não porque esteja desbravado totalmente, mas porque o homem, graças à técnica, salta por cima do que ainda o não está (Idem, p. 72).

A múltipla coexistência de temporalidades admite ainda que as populações se ignorem mutuamente e, por vezes, num mesmo espaço. Neste tópico reside outra grande diferença entre o Brasil e os Estados Unidos: o americano residente na Virgínia sabe que seu compatriota do Texas existe e vive como ele. No Brasil, entretanto, o proletário de São Paulo, por exemplo, e o ameríndio amazonense, não “fazem mutuamente parte da mesma vida social que se processa em eras diferentes, em zonas diferentes” (Idem, p. 72). Pensar a cultura brasileira como unitária, coesa ou definida cabalmente por uma ou outra qualidade mestra é um equívoco. A rigor, “não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos nossos comportamentos e dos nossos discursos” (BOSI, 1987, p. 7). A admissão do caráter plural da cultura brasileira é passo decisivo para a compreensão de um processo múltiplo nas suas interações e oposições espaciais e temporais.


O caráter plural da cultura brasileira mantém-se, inclusive, por conta da presença das culturas imigrantes, aspecto capturado em profundidade por Jorge de Sena. Conforma este construto a imbricação das velhas culturas ibéricas, indígenas e africanas, polimorfas já na sua matriz. É possível pensar que, no “labirinto de vozes e imagens, algumas linhas de força mais claras, se perseguidas até o fim, remetem a estruturas sociais diferenciadas”. O trecho anteriormente transcrito confirma tais assertivas, considerando-se o verdadeiro “mapa” da pluralidade cultural brasileira agenciado pelo escritor português. É inegável que um princípio diferenciador, como é o caso do tempo, permite entrever que “os ritmos das culturas no Brasil são diversos” (BOSI, 1987, p. 7), gerando não uma sucessão mas acúmulo de temporalidades diversas.
Algo, no entanto, “liga” esta pluralidade, evitando uma composição caótica, desarticulada, sem laços mínimos entre as partes e o todo. Os elementos de articulação podem ser identificados no estilo de vida e na utilização da língua portuguesa:
Tudo isto, porém, é unido por um estilo de vida peculiar e pela língua. O estilo de vida varia evidentemente muito com as ‘idades’ históricas, com as classes sociais, com a localização geográfica. Mas, tirando alguns enclaves sobremaneira típicos, como a cidade da Bahia e seus arrabaldes, com uma cozinha de pólvora afro-asiática, ou os enclaves germânicos de Blumenau e Joinville no Estado de Santa Catarina (onde as casas têm telhados a pino, `a espera de uma neve que está nos Alpes, e nos prados verdejantes pastam vaquinhas), ou, ao longo da extensa costa, algumas cidades ribeirinhas que comem peixe, o Brasil inteiro alimenta-se de arroz e feijão e carne seca, numa monotonia irracional em que as verduras e os legumes só agora começam a penetrar. Nessa monotonia, em que a cozinha portuguesa se dissolveu, a cozinha italiana, sobretudo, e em menor escala a síria, alargaram, principalmente nas urbes do Centro e do Sul, o seu domínio. O Norte e o Nordeste, ou o Estado peculiar que é o Rio Grande do Sul (um outro mundo que os leitores portugueses conhecem através de Erico Veríssimo), mantiveram-se, sob este aspecto, porque mais brasileiros, mais portugueses, tal como certas zonas de Minas (SENA, 1988, p. 73).

A colônia portuguesa cada vez mais rapidamente se “abrasileira”, mantendo o ritualístico “bacalhau cozido” sem, no entanto, equilibrar Portugal como matéria de veneração se comparado a outros estrangeiros. Aliás, tal veneração não ultrapassa o convencionalismo ou o eruditismo literário. A rigor, a “civilização” aqui formada pouco apresenta de comum com a civilização americana. O Brasil está numa zona de influência de uma força hegemônica de cariz colonizador, ou, para empregar outros termos, no eixo de dependência de uma nação externa. Assim, “a americanização do Brasil não resultou de uma uniformidade continental necessária, mas da hegemonia hemisférica da primeira nação que conquistou a autonomia política” (Idem, p. 73). A moldagem americana da vida política brasileira é um reflexo da relação ambígua que o Brasil apresenta na relação com a Mãe-Pátria, quando, de qualquer modo, e estranhamente para o quadro de forças dos anos 50 e 60, uma elite emergente brasileira constituía um prolongamento europeu dos tempos coloniais.


O nacionalismo brasileiro resulta de uma sociedade peculiar, diferenciada, no estilo de vida e nos interesses, da sociedade metropolitana. O “mundo criado pelo português” tornou-se uma realidade, um respeitável construto cultural, econômico e societário, que “não sente Portugal como uma condição necessária da sua existência cultural autônoma” (Idem, p. 74). Portugal, em contrapartida, pouco colabora para alterar tal quadro, correndo o risco de se ver transformado em objeto de museu aos olhos dos brasileiros.
A língua portuguesa
Ocupado desde cedo com questões literárias e culturais do Brasil, Jorge de Sena reconhece que não lhe é “indiferente o destino da língua portuguesa no Brasil, que esse destino”, insiste ele, “me importa primacialmente, e que considero vital para Portugal, e não apenas do ponto de vista do escritor que vê, na diferenciação lingüística, uma ameaça à sua difusão na própria língua em que se escreve” (Idem, p. 75). De todo modo, tem-se a percepção da língua como um fator de unidade, a despeito das variantes existentes. Entende o autor das “Cartas” que a língua atua como fator de “unidade política”. Afirma ele: “Do Amazonas ao Rio Grande do Sul fala-se e escreve-se a língua portuguesa”. Alerta também que o castelhano não constituiu um fator de unidade política, porque foi, antes de tudo, a língua de uma “supremacia política”. A língua portuguesa em Portugal, salvo os raros enclaves dialetais, é uma “língua única”. Atuou como forma ou instrumento de integração de novas populações num período em que foi a língua de uma supremacia e de uma ocupação, correspondente ao período arcaico (séculos XII e XIII).
O transporte da língua portuguesa ao Brasil ocorreu num momento histórico em que era a língua “de uma vontade de independência política em face dos outros reinos ibéricos” (Idem, p. 76). E mais: “... a língua portuguesa não possuía, no seu espírito peculiar, o centralismo político e artificial da língua castelhana, e tinha atingido, precisamente então, a personalidade adulta que se consubstancia em Camões, termo final de toda uma primeira fase de formação de uma língua autóctone, diferenciada e consciente” ((Idem, p. 78). No Brasil, a “língua portuguesa viu-se em face de uma realidade nova”. A ocupação territorial demandou inicialmente o contato com populações “indígenas vivendo primitivamente em organizações tribais”, um contato largamente experimentado pelos portugueses no quadro da expansão ultramarina, iniciada um século antes da “descoberta” do Brasil. A captura do índio para fins de transformação em mãodeobra escrava não constituía uma novidade econômico-social, ao contrário, era a única forma de Portugal, mesmo que em escala litorânea, impor sua presença nos territórios descobertos.
A “realidade nova”, como se vê e como reconhece Jorge de Sena, não é tão nova assim. A ocupação territorial do Brasil assentou-se na “importação de populações portuguesas lingüisticamente estabilizadas”, na evangelização do indígena e na “importação” da mãodeobra africana. O quadro desencadeia uma forma de difusão da língua que guardará, pela distância da Mãe-Pátria, formas arcaizantes. Além disso, a presença de portugueses desprovidos de “enquadramento cultural” reforça o emprego de modismos apreendidos nas regiões fornecedoras dos contingentes migratórios. Acrescenta ainda o autor que uma “imensa migração negra forçada, e instalada numa dialética feudal de casa-grande e senzala, adquirirá menos uma amplificação africana do vocabulário do que uma simplificação negróide” (Idem, p. 78). Completa o cenário a dicotomia entre “língua culta e língua popular”, quase inexistente em Portugal, mas resultado, no Brasil, da diferenciação entre as classes dominantes e as populares. Sena registra uma analogia entre a transformação sofrida pelo latim do Baixo Império com o processo que está na base da língua falada no Brasil:
É do maior interesse notar que muitas das transformações que o latim sofreu no processo de formação das línguas novi-latinas encontram o seu paralelo nas que se observam na língua falada do Brasil. Nesses processos foi sempre a língua culta que cedeu o passo à popular, falada pelo maior número, sobretudo em zonas cuja alfabetização é reduzida ou nula. E temos de reconhecer que, até hoje, a língua portuguesa (que, no Brasil e em Portugal, é usada, como sempre foi, por uma percentagem esmagadora de analfabetos ou de semialfabetizados) tem sido uma língua de mandarins e de senhores feudais que, escrevendo-a ‘direito’ a falam, com o seu servo da gleba ou com a escrava com quem dormem, tal qual como estes a falam (Idem, p. 78).

Até este ponto Jorge de Sena reconhece que o “português unifica o mundo luso-brasileiro”, do mesmo modo que o latim culto e o latim vulgar unificaram o mundo romano. O autor das “Cartas” constata que outros fenômenos atuaram sobre o uso da língua portuguesa no Brasil. Não é somente o fato da adoção de termos novos (por ignorância em muitos casos), do desvio semântico, da simplificação da regência e da concordância, tributários dos problemas de alfabetização ou então originários das formas de aculturação. A ocorrência é mais grave, na percepção de Sena, e revela aspectos da “formação” cultural e social do Brasil. A gravidade da situação decorre da pobreza de vocabulário, da flexão e da regência, atingindo, na expressão verbal, “uma completa inadequação para a mais ligeira complexidade de pensamento”. Assim Jorge de Sena arremata o diagnóstico:


O uso de um sinônimo, em vez da palavra habitual, deixa logo os interlocutores perplexos, mesmo se são educados. Há, por outro lado, uma espécie de ‘latim bárbaro’, uma ‘diplomática’ de fórmulas vazias de sentido, que se cultiva ornamentalmente na oratória pública, mas não tem qualquer relação profunda com a vida cotidiana. E isto porquê? Porque uma comunidade social se forma vertiginosamente com sírios, italianos, alemães, judeus da Europa Central e japoneses. É óbvio que todos são e serão Brasil? Se uma cultura luso-brasileira não está suficientemente apta, pelos seus instrumentos, para nacionalizar linguisticamente essas populações, pois que sempre foi menos uma alta-culta generalizada e poderosa do que uma arcaizante relação agrário-mercantilista entre serventuários de uma estrutura estatal, como evitará em empobrecimento lingüístico que não é equilibrado por achegas importantes ao património cultural (Idem, p. 79).

Jorge de Sena conclui a “Terceira Carta do Brasil” confrontando a obra de João Guimarães Rosa, de rara “independência artística”, de plena fusão entre língua culta e língua popular, reveladora das potencialidades da língua, com um outro polo, aquele de uso tão miserável da língua, de tão “confrangedora pobreza verbal”. Em perspectiva dubitativa, indaga e conclui, na tentativa de elucidar o paradoxo do surgimento de uma obra que desde o classicismo quinhentista e do barroco subsequente não fora dado a revelar: “No momento de desaparecerem as estruturas que fizeram do mundo luso-brasileiro, que será um fenômeno daqueles, em literatura? O último requinte alexandrino de uma cultura peculiar? Ou a garantia de uma vitalidade e de uma pujança que não vão perder-se?” (Idem, p. 80).


Um jogo de imagens
Em Portugal, pouco ou nada se sabe, de não mitológico acerca do Brasil. E diga-se de passagem que há a desculpa de o Brasil ser coisa mitológica (e não digo mítica) para muitos brasileiros. Não é caso para menos: um país imenso, com milhões de habitantes de todos os níveis civilizacionais em todas as origens possíveis, com terríveis dificuldades econômicas e sociais e uma prodigiosa riqueza, etc., etc., que não é fácil conhecer e muito menos compreender. Acontece, porém, que esse mastodonte político fala a língua portuguesa (SENA, 1988, p. 95).

As considerações antes expostas antecedem a discussão de Jorge de Sena acerca da remodelação do ensino brasileiro, que tornou a Literatura Portuguesa disciplina obrigatória no ensino secundário e nos cursos superiores de Letras. A reforma não poderia deixar Portugal indiferente, no entanto o quadro adquire contornos dramáticos se considerados a falta de professores de literatura portuguesa no Brasil e o fato de que o “Brasil ignora tudo de Portugal”, não ultrapassando, o luso-brasileirismo, dos salões da diplomacia:


As relações de Portugal com o Brasil, no plano diplomático, raro corresponderam – quando as houve efectivamente – aos sorrisos da retórica. E, embora a situação seja muito variável de região para região do Brasil, não é da propaganda política de hoje que os brasileiros temam tanto – como parecem temer, por absurdo que pareça – que Portugal os colonize outra vez... Trata-se de sentimento mais profundo, que aproveita todas as oportunidades, mesmo sem querer, para hostilizar os portugueses: de um complexo herdado da propaganda burguesa da Independência, que apresenta os portugueses como impiedosos exploradores de que, tradicionalmente, desde Pedro Álvares Cabral, os brasileiros são vítimas. Como se o extermínio quase sistemático dos índios brasileiros tivesse alguma vez sido uma empresa da Coroa de Portugal, e não dos colonos que fizeram o Brasil nestes quatrocentos anos... (Idem, p. 97).

O imigrante português, no Brasil, é sempre o “portuga”, “epíteto que não é afetuoso, senão nos sorrisos com que seja referido amavelmente”. Tal fato resulta do desejo brasileiro, desde o Romantismo, de nacionalizar todos os imigrantes, para os quais Portugal não existe – e reconhece Sena – e nem deve existir como “ancestralidade da pátria que adquiriram.” De fato, o imigrante alemão, italiano, japonês e seus descendentes reconhecem no máximo a aldeia de proveniência, mas não o “passado” brasileiro. A “colônia” portuguesa não consegue remediar esta situação, pois “o nível cultural do português que emigra é baixíssimo”, gerando uma imagem negativa entre os brasileiros. Em consequência do irrelevante status que ocupa na escala social, o imigrante português raramente deseja a visibilidade da origem. Aspira somente a trabalhar sacrificadamente com a finalidade de fazer fortuna. Este imigrante não consegue ampliar positivamente um conhecimento que o brasileiro possa vir a ter a respeito de Portugal: “As suas actividades culturais são diminutas; e não é por ele que o brasileiro fica sabendo que Portugal existe há oitocentos anos, é uma nação gloriosa, tem uma literatura e uma música que não é exactamente o Francisco José ou a D. Amália” (Idem, p. 98). Não significa isto que o “nível cultural” das outras “colônias” seja infinitamente superior ao dos portugueses, mas elas estão livres de um passado vinculado a Portugal, a começar pela aventura do “descobrimento”, que para alguns brasileiros constitui um crime. A presença dos portugueses no Brasil não vem acompanhada da difusão e divulgação da História de Portugal, de suas características étnicas, geográficas, costumes e cultura em escala minimamente considerável. Mais do que isso, “o português quem vem para o Brasil como imigrante dá ao brasileiro a impressão que os portugueses falam todos à moda do Minho”. Os brasileiros, constata Sena, pouco percebem as diferenças da língua falada no Brasil, ou seja, a língua falada no Ceará não é a mesma falada em São Paulo, mas esse fato passa despercebido.


A nossa hostilidade aos portugueses oculta, segundo Jorge de Sena, “um fascínio apaixonado e perplexo por um povo que descobriu o mundo, criou um império lingüístico... e, pelos seus elementos mais evidentes, é tão analfabeto” (Idem, p. 99). Assim, a tarefa portuguesa de fazer presente sua cultura no Brasil, além da magnitude de tal intento e de sua premência, é de um gigantismo quase intransponível, que deve avançar para além da intervenção oficial. A importação de intelectuais portugueses causaria uma onda de protestos, até porque “não há nenhum dos intelectuais que no Brasil defendem Portugal com honra e inteira iniciativa pessoal, sem protecção alguma que não a dos brasileiros esclarecidos, que não tenha sido, pela menos uma vez, atacado... por ser português” (Idem, p. 99). A tarefa de difusão da cultura e da Literatura Portuguesa no Brasil poderia ser encampada pela Fundação Calouste Gulbenkian, por meio da edição no Brasil de livros documentais sobre a paisagem e o povo português, ou com subsídios para a criação de institutos de cultura. A repercussão, supõe Jorge de Sena, poderia ser frutífera, considerando-se que “os amigos verdadeiros de Portugal são, no Brasil, uma legião que vive dispersa... (Idem, p. 99). E lança um desafio instigante:
E, ainda quando a Fundação ficasse pobre, setenta milhões de brasileiros são, sem dúvida, um investimento rentável. E quem sabe? Talvez os brasileiros se dediquem a colonizar Portugal (e não apenas as suas praias...), perdendo, de uma vez para sempre, complexos indignos das grandes virtudes que possuem, e da grandeza de um país extraordinário que eles conheceriam melhor, se conhecessem melhor Portugal do que julgam conhecer os portugueses (Idem, p. 100).

A Literatura Portuguesa no Brasil

A literatura portuguesa, no Brasil, não tem difusão popular. Camões é lido nos liceus, e Herculano, e Júlio Diniz, tal como em Portugal, reafirmando o aluno secundário na ilusão de que a literatura portuguesa é (como também é para o aluno secundário português) um manancial de chatos escrevendo uma linguagem obsoleta, ante-brasileira; e, quando o aluno prossegue estudos superiores de letras – e dá literatura em todos eles – o panorama não se modifica (Idem, p. 84).

No quadro do luso-brasileirismo defendido por Jorge de Sena, a presença da Literatura Portuguesa no Brasil é o assunto dominante da “Quarta Carta do Brasil”. Tal difusão “é um problema da mais alta importância para Portugal”. Os portugueses desconhecem o problema. O intelectual português que visita o Brasil tem uma impressão equivocada do quanto vê, por força da breve estadia ou da superficialidade na continuidade das relações. A gentileza e a solicitude do intelectual brasileiro “Não significam, como em Portugal, um divórcio entre a actividade intelectual e o academismo de uma letrada universidade à espera que os escritores morram ou se tenham formado por ela” (Idem, p. 81). O “provincianismo de campanário” dos portugueses “escandaliza” o brasileiro, fato que reforça o desinteresse por Portugal e ainda confirma a tese ou o desejo do brasileiro em nacionalizar uma possível influência portuguesa. De outra parte, associado ao provincianismo, o eruditismo dos universitários portugueses é outra causa de rejeição à presença portuguesa no Brasil:
Os universitários portugueses, obstinados sempre no eruditismo, ou na leviandade em relação à literatura moderna (o que resulta do divórcio existente em Portugal entre a universidade e a literatura viva, que vai ao ponto de ser dicotômica a vida daqueles elementos, alguns excelentes, que tem um pé numa e outro na outra), chegam ao Brasil, peroram de Camões e de Vieira, e não se dão conta de que, quando mais se falar no Brasil da literatura portuguesa anterior a 1822, cada vez mais se cava o abismo entre as duas culturas, já que a pessoa vem trazer novas achegas àquela atitude de interesse e de erudição – que tão ilusoriamente comove os portugueses e que tende, naturalmente, a absorver toda essa literatura portuguesa, não como portuguesa, mas como ante-brasileira (Idem, p. 82).

De fato, a peroração sobre Vieira e Camões, ou ainda sobre o Romantismo português, esbarra no “conceito irreversivelmente evolutivo que o Brasil tem de si próprio”, num esforço de construção de um processo formativo que postula a autonomia da Literatura Brasileira. Qualquer indício, no campo intelectual brasileiro, de aceite da forte presença da Literatura Portuguesa pode ser tomado como ato de traição, ou de sabotagem da “autonomia espiritual do Brasil”. O interesse dos brasileiros pela moderna Literatura Portuguesa é relativo, quer pelo desconhecimento quer porque o seu ensino aqui é tomado como atividade autônoma, independente do modelo português. Além disso, existe a posição convicta e intransigente de que depois da geração de 70 só existe um foco de interesse para os estudiosos brasileiros: a obra de Fernando Pessoa. Tal interesse pela obra do criador da heteronímia não é garantia, aos olhos do interesse eclético e sincero dos brasileiros, da existência de uma “literatura portuguesa do século XX”.


O sistema de ensino superior no Brasil, com mais de 70 cursos de Letras, por volta do início da década de 60, tornou obrigatório um programa mínimo de conteúdos de Literatura Portuguesa. Considerando a ausência de quadros especializados, o diagnóstico de Jorge de Sena não poderia ser mais pessimista: “De modo que, e parece um paradoxo, quanto mais o estudo da Literatura Portuguesa se difunde, tanto mais, no actual estado de coisas, as probabilidades de sua ignorância, e de anquilosamento, são maiores” (Idem, p. 84). Além da carência de professores, Sena observa que contribuem para tal estado de coisas a falta de livros portugueses, além da “péssima qualidade dos manuais portugueses existentes, com uma excepção para o de A. J. Saraiva e Oscar Lopes”. A modificação deste quadro depende diretamente da cooperação de Portugal. Uma falha nesta colaboração decorre da ausência de continuidade do excepcional trabalho de difusão e de ensino da Literatura Portuguesa levado a efeito por Fidelino de Figueiredo. Os que vieram depois dele “chegaram tarde”, sem que alguém assumisse o ensino e a difusão da Literatura Portuguesa dos anos 20, 30 e 40.

Outra questão latente neste cenário, observada com percuciência por Jorge de Sena, é o fato de Portugal representar o vínculo do Brasil com o restante da Europa. “Impõe-se, novamente, que Portugal corresponda ao desejo que o Brasil tem de manter-se mais europeu do que americano, com um pé português nas suas origens, o que para Portugal é um problema vital” (Idem, p. 85). Incontestável é o acerto desta posição, não fosse Portugal, lamentavelmente, ser utilizado pelos brasileiros apenas como uma “escala” na rota para a “Europa”. E, de fato, a aproximação entre Portugal e Brasil solicita a presença de intelectuais, institutos, editoras portuguesas, aliados a uma “vontade” de estreitamento dos laços, intercâmbios e diálogos. Portugal poderia dar o primeiro passo, derrubando “as barreiras ortográficas, que a tanto brasileiro servem para que a língua não pareça a mesma... Mas isso é uma outra questão” (Idem, p. 85). E questão atual.


Considerações finais
Os textos de Jorge de Sena conseguem produzir uma pequena “interpretação” do Brasil no momento em que se consolidava uma poderosa Indústria Cultural, definia-se uma política desenvolvimentista formulada pelas elites e constituía-se um Estado atrelado ao capital internacional, sedimentando um modelo cultural e econômico que obedecia à lógica da dependência (a lógica da consciência do subdesenvolvimento). A rigor, as teses de harmonização dos contrários, da cultura da conciliação, vivenciavam seu epílogo. Surge, nesse momento, um novo “tipo de reflexão sobre as relações luso-afro-brasileiras. O Atlântico adquire outro significado, quando se revela que nem tudo é ameno e pacífico nos países de língua oficial portuguesa” (MOTA, 2003, p. 167). O fato é que Portugal e sua cultura são dissolvidos no cadinho cultural brasileiro. A análise científica da complexidade e dos impasses da burguesia brasileira ocupa papel central nos estudos de uma geração de intelectuais, que, por este caminho, rompem com uma ideia, já consolidada, de luso-brasilidade, que Jorge de Sena não deixa de interpretar ou compreender. A “Mãe-Pátria” perde o posto de informante central no plano da cultura, como tradicional intermediário, inclusive, em nome da emergência de uma cultura juvenil, heterogênea, de uma sociedade de consumo, etc., abastecida pelo aporte de navios de outro cais. Jorge de Sena, com rara felicidade, não investe no estereótipo do brasileiro, valendo-se de teses psicosociológicas que fundamentam seu escritos, sem no entanto descurá-lo, mas investe criticamente na figura do imigrante português (o “portuga”), que pouco acrescenta culturalmente à “vida espiritual” brasileira, ao “novo” Brasil, industrializado e urbano (o que não significa menos estúpido e desdenhoso dos valores do outro, Portugal). De fato, as contradições são vistas com ironia e perspicácia e um certo tom de lamento atravessa as páginas das cartas exatamente pela falência dos traços de união entre Brasil e Portugal. Em nenhum momento Jorge de Sena considera a posição brasileira em relação à independência das colônias portuguesas na África, que iniciavam a luta armada em busca da autonomia política. De fato, as dificuldades nas relações políticas entre Portugal e Brasil centraram-se na posição portuguesa relativamente aos territórios ultramarinos e no movimento internacional de descolonização. “Com a ascensão à presidência do Brasil do governador de São Paulo, Jânio Quadros, a posição do governo brasileiro em relação ao problema colonial português iria modificar-se radicalmente. Logo após eleito, o presidente Quadros manifestou publicamente a sua oposição à “opressão colonialista”, preconizando a rápida emancipação dos povos africanos e asiáticos. O ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos de Melo Franco, ao tomar posse em 1 de fevereiro de 1961, anunciou a nova política africana do Brasil” (MAGALHÃES, 2003, p. 109). Talvez resida aí parcela motivadora do desinteresse dos brasileiros por Portugal. Tal perspectiva é somente uma no amplo campo de investigação sobre o luso-brasileirismo representado pela obra de Jorge de Sena.
Referências Bibliográficas
BOSI, Alfredo. “Plural, mas não caótico” in ___________ (Org.). Cultura brasileira – temas e situações. São Paulo: Ática, 1987. p. 7-17.

MACHADO, Álvaro Manuel; PAGEAUX, Daniel-Henri. Literatura Portuguesa, Literatura Comparada e Teoria da Literatura. Lisboa: Edições 70, 1982.


MAGALHÃES, José Calvet de. “As relações luso-brasileiras na segunda metade do século XX”. In: ABDALA JUNIOR, Benjamin (Org.). Incertas relações: Brasil-Portugal no século XX. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2003. p. 99-124.
MOTA, Carlos Guilherme. “Saindo das brumas: O mundo que o português criou ruiu”. In: ABDALA JUNIOR, Benjamin (Org.). Incertas relações: Brasil-Portugal no século XX. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2003. p. 149-180.
SENA, Jorge. Estudos de cultura e literatura brasileira. Lisboa: Edições 70, 1988. As quatro primeiras cartas foram publicadas na Gazeta Musical e de todas as artes, em 1961. A quinta “Carta do Brasil” foi enviada a Maria Amélia de Azevedo Pinto, com a finalidade de ser publicada na Ocidente e foi acompanhada de uma carta pessoal, transcrita no volume supracitado.
VIEIRA, Nelson H. Brasil e Portugal – A imagem recíproca (o mito e a realidade na expressão literária). Lisboa: Ministério da Educação. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991.

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