O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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UMBERTO ECO

O CEMITÉRIO DE PRAGA

TRADUÇÃO DE Joana Angélica d Avila Melo
EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO SÃO PAULO 2011

Eco, Umberto, 1932Cemitério de Praga, O Umberto Eco; tradução de Joana Angélica d Avila Melo. - Rio de Janeiro: Record, 2011.

Tradução de: Il cimitero di Praga

ISBN 978-85-01-09284-7
1. Ficção italiana. I. Melo, Joana Angélica d Avila II. Título.
11-3542
CDD: 853 CDU: 821.131.3-3
Título original em italiano:Il cimitero di Praga

Copyright (c) RCS Libri S.p.A. - Milano Bompiani 2010


Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais do autor foram assegurados.

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina, 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000, que se reserva a propriedade literária desta tradução.

Impresso no Brasil ISBN 978-85-01-09284-7


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EDITORA AFILIADA

Como os episódios são afinal necessários ou, melhor, constituem a parte principal de uma narrativa histórica, introduzimos aqui a execução de cem cidadãos enforcados

em praça pública, a de dois frades queimados vivos, o aparecimento de um cometa, descrições que valem pelas de cem torneios e que têm o mérito de, mais do que nunca,

desviar do fato principal a mente do leitor.

Cario Tenca, La ca dei cani

SUMÁRIO
1. O passante que naquela manhã cinzenta 9


2. Quem sou? 13
3. Chez Magny 39
4. Os tempos do meu avô 57
5. Simonino carbonário 95
6. A serviço dos Serviços 109
7. Com os Mil 127
8. O Ercole 155
9. Paris 175
10. Dalla Piccola perplexo 185
11. Joly 187
12. Uma noite em Praga 209
13. Dalla Piccola diz que não é Dalla Piccola 231
14. Biarritz 233
15. Dalla Piccola redivivo 251
16. Boullan 255
17. Os dias da Comuna 259
18. Protocolos 285
19. Osman Bey 297
20. Russos? 303
21. Taxil 309
22. O diabo no século XIX 329
23. Doze anos bem vividos 359
24. Uma noite na missa 409
25. Esclarecer as ideias 431
26. A solução final 441
27. Diário interrompido 461
Inúteis esclarecimentos eruditos 473
Referências iconográficas 479

1.


O PASSANTE QUE NAQUELA MANHÃ CINZENTA

O passante que naquela manhã cinzenta de março de 1897 atravessasse

por sua conta e risco a place Maubert, ou a Maub, como

a chamavam os malfeitores (centro da vida universitária já na

Idade Média, quando acolhia a multidão de estudantes que frequentava

a Faculdade das Artes no Vicus Stramineus ou rue du

Fouarre, e mais tarde local da execução capital de apóstolos do

livre-pensamento como Étienne Dolet), se encontraria em um

dos poucos lugares de Paris poupado das demolições do barão

Haussmann, no meio de um emaranhado de becos malcheirosos,

cortados em dois setores pelo curso do Bièvre, que ali ainda

se extravasava daquelas vísceras da metrópole, onde fora confinado

havia tempo, para se lançar febricitante, estertorante e

verminoso no Sena muito próximo. Da place Maubert, já desfigurada

pelo boulevard Saint-Germain, partia ainda uma teia de

vielas, como a rue Maître Albert, a rue Saint-Séverin, a rue Galande,

a rue de la Bûcherie, a rue Saint-Julien-le-Pauvre, até a

rue de la Huchette, todas disseminadas de hotéis sórdidos mantidos

em geral por auvérnios, estalajadeiros de lendária cupidez,

que pediam um franco pela primeira noite e quarenta cêntimos

pelas seguintes (mais vinte soldos, se a pessoa também quisesse

um lençol).

Se, em seguida, enveredasse pela rue Sauton, encontraria

mais ou menos na metade desse caminho, entre um bordel disfarçado

de cervejaria e uma taberna onde se servia, com vinho

péssimo, um almoço de dois soldos (já então bem barato, mas

era o que os estudantes da Sorbonne, não muito distante, podiam

se permitir), um impasse ou beco sem saída, que na época

já se chamava impasse Maubert, mas que antes de 1865 era

9

denominado cul-de-sac d’Amboise e anos antes ainda abrigava um



tapis-franc (na linguagem da delinquência, uma baiúca, uma bodega

de nível ínfimo, ordinariamente mantida por um ex-presidiário

e frequentada por forçados recém-saídos da colônia penal)

e se tornara tristemente famoso também porque no século XVIII

ali ficava o laboratório de três célebres envenenadoras, um dia

encontradas asfixiadas pelas exalações das substâncias mortais

que elas destilavam em seus fogareiros.

Na metade desse beco, passava totalmente inobservada a vitrine

de um belchior que uma tabuleta desbotada celebrava

como Brocantage de Qualité — vitrine já opacificada pelo pó

espesso que lhe sujava os vidros, que pouco revelavam das mercadorias

expostas e do interior porque cada um deles era um

quadrilátero de 20 centímetros de lado, reunidos por uma armação

de madeira. Junto dessa vitrine, o passante veria uma porta,

sempre fechada, e, ao lado do cordão de uma campainha, um

cartaz que avisava quando o proprietário estava temporariamente

ausente.

Se, como raramente acontecia, a porta estivesse aberta, quem

entrasse iria entrever, à luz incerta que clareava aquele antro,

dispostos sobre poucas estantes trôpegas e algumas mesas igualmente

bambas, objetos em mixórdia e à primeira vista atraentes,

mas que, a uma inspeção mais acurada, se revelariam totalmente

inadequados a qualquer intercâmbio comercial honesto, mesmo

que fossem oferecidos a preços igualmente esfarrapados. Por

exemplo, um par de trasfogueiros que desonrariam qualquer

lareira, um relógio de pêndulo em esmalte azul descascado, almofadas

outrora bordadas em cores vivas, floreiras de pé com

cupidos lascados, instáveis mesinhas de estilo impreciso, uma

cestinha porta-notas em metal enferrujado, indefiníveis caixas

pirogravadas, horrendos leques de madrepérola decorados com

desenhos chineses, um colar que parecia de âmbar, dois sapatinhos

de lã branca com fivelas incrustadas de pequenos diamantes

da Irlanda, um busto desbeiçado de Napoleão, borboletas sob

vidros rachados, frutas em mármore policromado sob uma redoma

10

outrora transparente, frutos de coqueiro, velhos álbuns



com modestas aquarelas de flores, alguns daguerreótipos emoldurados

(que naqueles anos sequer tinham aparência de coisa

antiga) — de tal modo que quem se empolgasse depravadamente

com um daqueles vergonhosos sobejos de antigas penhoras de

famílias pobres e, encontrando à sua frente o suspeitíssimo proprietário,

perguntasse o preço deles, escutaria uma cifra capaz

de desinteressar até o mais pervertido colecionador de teratologias

antiquariais.

E se por fim, em virtude de alguma senha, transpusesse uma

segunda porta que separava o interior da loja dos pisos superiores

do edifício e subisse os degraus de uma daquelas vacilantes

escadas em caracol que caracterizam aquelas casas parisienses

com a fachada da largura da porta de entrada (ali onde elas se

amontoam oblíquas, uma ao lado da outra), o visitante penetraria

em um amplo salão que parecia abrigar não o bricabraque

do térreo, mas uma coletânea de objetos de bem outra feitura:

uma mesinha império de três pés ornados por cabeças de águia,

um console sustentado por uma esfinge alada, um armário século

XVII, uma estante de mogno que ostentava uma centena de

livros bem encadernados em marroquim, uma escrivaninha daquelas

ditas à americana, com porta de enrolar e tantas gavetinhas

quanto uma secrétaire. E, se passasse ao aposento contíguo,

encontraria um luxuoso leito com baldaquino, uma étagère rústica,

carregada de porcelanas de Sèvres, de um narguilé turco,

de uma grande taça de alabastro, de um jarro de cristal, e, na

parede do fundo, painéis pintados com cenas mitológicas, duas

grandes telas que representavam as musas da história e da comédia,

e, dispersamente pendurados às paredes, túnicas árabes,

outras vestes orientais em caxemira, um antigo cantil de peregrino;

e ainda um lavatório de tripé com uma bancada cheia de

objetos de toalete em materiais preciosos — em suma, um conjunto

extravagante de peças curiosas e custosas que talvez não

testemunhassem um gosto coerente e refinado, mas certamente

um desejo de ostentada opulência.

11

De volta ao salão, o visitante identificaria, diante da única



janela pela qual penetrava a pouca luz que clareava o impasse,

um indivíduo ancião sentado à escrivaninha, envolto em um

roupão, e que, tanto quanto o visitante pudesse espiar por cima

dos ombros dele, se ocupava em escrever aquilo que estamos

prestes a ler, e que vez por outra o Narrador resumirá, para não

entediar demais o Leitor.

Tampouco espere o Leitor que o Narrador lhe revele que ele

se surpreenderia ao reconhecer no personagem alguém já nomeado

precedentemente, porque (dado que essa narrativa começa

justamente agora) ninguém foi nomeado antes, e o próprio

Narrador ainda ignora quem é o misterioso redator, propondo-se

a sabê-lo (junto com o Leitor) enquanto ambos bisbilhotam

intrusivos e acompanham os sinais que a pena daquele homem

está traçando sobre aqueles papéis.

12

2.

QUEM SOU?



24 de março de 1897

Sinto um certo embaraço ao começar a escrever, como se pusesse

minha alma a nu, por ordem — não, Deus do céu!, digamos por

sugestão — de um judeu alemão (ou austríaco, mas dá no mesmo).

Quem sou? Talvez seja mais útil me interrogar sobre minhas paixões

do que sobre os fatos da minha vida. Quem amo? Não me

vêm à mente rostos amados. Sei que amo a boa cozinha: ao pronunciar

o nome La Tour d’Argent, experimento como que um frêmito

por todo o corpo. É amor?

Quem odeio? Os judeus, me ocorreria dizer, mas o fato de eu

estar cedendo tão servilmente às instigações daquele doutor austríaco

(ou alemão) sugere que não tenho nada contra os malditos

judeus.

Deles, sei apenas o que me ensinou meu avô: “São o povo ateu

por excelência”, ele me instruía. Partem do conceito de que o bem

deve se realizar aqui, não além-túmulo. Por conseguinte, agem somente

para a conquista deste mundo.

Os anos da minha meninice foram entristecidos pelo fantasma

deles. Meu avô me descrevia aqueles olhos que nos espiam, tão

falsos que nos fazem empalidecer, aqueles sorrisos víscidos, aqueles

lábios de hiena arreganhados sobre os dentes, aqueles olhares pesados,

infectos, embrutecidos, aquelas dobras entre nariz e lábios

sempre inquietas, escavadas pelo ódio, aquele nariz que parece o

grande bico de uma ave austral... E o olho, ah, o olho... Gira febril

na pupila da cor de pão tostado e revela enfermidades do fígado,

corrompido pelas secreções produzidas por um ódio de 18 séculos,

aperta-se em mil pequenas rugas que se acentuam com a idade,

13

e já aos 20 anos o judeu parece engelhado como um velho. Quando



sorri, suas pálpebras inchadas se cerram a ponto de deixarem

apenas uma linha imperceptível, sinal de astúcia, dizem alguns, de

luxúria, esclarecia vovô... E quando eu crescera o suficiente para

entender, ele me recordava que o judeu, além de vaidoso como um

espanhol, ignorante como um croata, cúpido como um levantino,

ingrato como um maltês, insolente como um cigano, sujo como

um inglês, untuoso como um calmuco, autoritário como um prussiano

e maldizente como um astiense, é adúltero por um cio irrefreável

— resultado da circuncisão, que os torna mais eréteis, com

uma desproporção monstruosa entre o nanismo da corporatura e o

tamanhão cavernoso daquela sua excrescência semimutilada.

Sonhei com os judeus todas as noites, por anos e anos.

Por sorte, nunca encontrei algum, exceto a putinha do gueto de

Turim, quando eu era rapaz (mas não troquei mais de duas palavras),

e o doutor austríaco (ou alemão, dá no mesmo).

Os alemães eu conheci, e até trabalhei para eles: o mais baixo

nível concebível de humanidade. Um alemão produz em média

o dobro das fezes de um francês. Hiperatividade da função intestinal

em detrimento da cerebral, o que demonstra sua inferioridade

fisiológica. No tempo das invasões bárbaras, as hordas germânicas

constelavam o percurso com montes desarrazoados de matéria

fecal. Por outro lado, mesmo nos séculos passados, um viajante

francês logo compreendia se havia transposto a fronteira alsaciana

pelo volume anormal dos excrementos abandonados ao longo das

estradas. E não somente: é típica do alemão a bromidrose, ou seja,

o odor repugnante do suor, e está provado que a urina de um alemão

contém 20 por cento de azoto, ao passo que a das outras raças,

somente 15.

O alemão vive em um estado de perpétuo transtorno intestinal,

resultante do excesso de cerveja e daquelas salsichas de porco

com as quais se empanturra. Eu os vi certa noite, durante minha

única viagem a Munique, naquelas espécies de catedrais desconsagradas,

enfumaçadas como um porto inglês, fedorentas de sebo e de toucinho,

14

... Sonhei com os judeus todas as noites,



por anos e anos ... (p. 14)

15

até mesmo a dois, ele e ela, mãos apertadas em torno



daquelas

canecas de bebida que por si sós dessedentariam uma manada

de paquidermes, nariz com nariz num bestial diálogo amoroso,

como dois cães que se farejam, com suas risadas fragorosas e

deselegantes, sua túrbida hilaridade gutural, translúcidos de uma

gordura perene que lhes unge os rostos e os membros como o óleo

sobre a pele dos atletas de circo antigo.

Enchem a boca com seu Geist, que significa espírito, mas é o

espírito da cerveja que os estupidifica desde jovens e explica por

que para além do Reno jamais se produziu algo de interessante na

arte, salvo alguns quadros com fuças repulsivas e poemas de um

tédio mortal. Sem falar da sua música: não me refiro àquele Wagner

barulhento e funerário que hoje abestalha até os franceses, mas,

pelo pouco que escutei, as composições do seu Bach são totalmente

desprovidas de harmonia, frias como uma noite de inverno, e as

sinfonias do tal de Beethoven são uma orgia de estardalhaço.

O abuso de cerveja torna-os incapazes de ter a mínima ideia da

sua vulgaridade, mas o superlativo dessa vulgaridade é que não se

envergonham de ser alemães. Levaram a sério um monge glutão

e luxurioso como Lutero (pode-se desposar uma monja?), só porque

arruinou a Bíblia traduzindo-a para a língua deles. Alguém não

disse que abusaram dos dois grandes narcóticos europeus, o álcool

e o cristianismo?

Consideram-se profundos porque sua língua é vaga, não tem a

clareza da francesa e nunca diz exatamente o que deveria, de modo

que nenhum alemão sabe jamais o que queria dizer — e toma essa

incerteza por profundidade. Com os alemães é como com as mulheres,

nunca se chega ao fundo. Desgraçadamente, essa língua

inexpressiva, com uns verbos que, ao ler, temos que procurar ansiosamente

com os olhos, porque nunca estão onde deveriam estar,

meu avô me obrigou a aprendê-la na juventude — o que não é de

espantar, pró-austríaco como ele era. E assim odiei essa língua, tanto

quanto odiei o jesuíta que vinha me ensinar a golpes de baqueta

nos dedos.

16

Desde quando aquele Gobineau escreveu sobre a desigualdade



das raças, parece que, se alguém fala mal de outro povo, é porque

considera superior o próprio. Eu não tenho preconceitos. Desde

que me tornei francês (e já o era pela metade, pelo lado materno),

compreendi o quanto meus novos compatriotas são preguiçosos,

trapaceiros, rancorosos, ciumentos, orgulhosos além de todos os

limites, a ponto de pensarem que quem não é francês é um selvagem,

e incapazes de aceitar críticas. Percebi, porém, que para induzir

um francês a reconhecer uma tara da sua corja basta lhe falar

mal de outro povo, por exemplo “nós, poloneses, temos esse ou

aquele outro defeito”. E, como não querem ficar atrás de ninguém,

nem sequer no mal, eles logo reagem com “oh, não, aqui na França

somos piores” e passam a difamar os franceses até se darem conta

de que você os apanhou na armadilha.

Não amam seus semelhantes, nem quando tiram vantagem deles.

Ninguém é tão mal-educado como um taberneiro francês, que

parece odiar os fregueses (e talvez seja verdade) e desejar que não

estivessem ali (e é mentira, porque o francês é avidíssimo). Ils grognent

toujours. Experimentem lhes perguntar alguma coisa: sais pas,

moi, e protraem os lábios como se peidassem.

São maus. Matam por tédio. É o único povo que durante vários

anos manteve seus cidadãos ocupados em se cortarem reciprocamente

a cabeça, e a sorte foi que Napoleão desviou-lhes a raiva para

os de outra raça, enfileirando-os para destruir a Europa.

Orgulham-se de ter um Estado que afirmam poderoso, mas passam

o tempo tentando derrubá-lo: ninguém é tão eficiente como o

francês em erguer barricadas por qualquer razão e a qualquer sussurro

do vento, muitas vezes sem sequer saber o porquê, fazendo-se

arrastar na rua pela pior ralé. O francês não sabe bem o que quer,

exceto que sabe à perfeição que não quer aquilo que tem. E, para

dizer isso, não sabe fazer mais do que cantar canções.

Acham que o mundo inteiro fala francês. Aconteceu algumas

décadas atrás com aquele Lucas, homem de gênio — 30 mil documentos

autógrafos falsos, em papel antigo roubado mediante o corte

das folhas de guarda de velhos livros na Bibliothèque Nationale,

17

imitando as várias caligrafias, embora não tão bem como eu saberia



fazer... Vendeu não sei quantos a caríssimo preço àquele imbecil de

Chasles (grande matemático, dizem, e membro da Academia das

Ciências, mas grande paspalhão). E não só ele, mas muitos de seus

colegas acadêmicos tomaram por certo que Calígula, Cleópatra ou

Júlio César tinham escrito suas cartas em francês, e que em francês

se correspondiam Pascal, Newton e Galileu, quando até as criancinhas

sabem que os eruditos daqueles séculos se escreviam em latim.

Os doutos franceses não faziam ideia de que outros povos falavam

de modo diferente do francês. Além disso, as cartas falsas diziam

que Pascal havia descoberto a gravitação universal vinte anos antes

de Newton, e isso bastava para deslumbrar aqueles sorbonistas devorados

pela empáfia nacional.

Talvez a ignorância seja efeito de sua avareza — o vício nacional,

que eles tomam por virtude e chamam de parcimônia. Somente

nesse país foi possível idealizar uma comédia inteira em torno de

um avarento. Sem falar do pai Grandet.

Vê-se a avareza pelos seus apartamentos empoeirados, pela forração

nunca refeita, pelas banheiras que remontam aos ancestrais,

pelas escadas em caracol, de madeira instável, para aproveitar sovinamente

o pouco espaço. Enxertem, como se faz com as plantas,

um francês com um judeu (talvez de origem alemã) e terão aquilo

que temos, a Terceira República...

Se me fiz francês, foi porque não podia suportar ser italiano.

Enquanto piemontês (por nascimento), eu sentia ser apenas a caricatura

de um gaulês, mas de ideias mais restritas. Os piemonteses,

toda novidade os crispa, o inesperado os aterroriza; para fazê-los se

moverem até as Duas Sicílias (mas entre os garibaldinos havia pouquíssimos

piemonteses) foram necessários dois lígures, um exaltado

como Garibaldi e um azarento como Mazzini. E não falemos do

que descobri quando fui mandado a Palermo (quando foi? Devo

reconstituir). Só aquele vaidoso do Dumas amava aqueles povos,

talvez porque o adulavam mais do que o faziam os franceses, que

afinal sempre o consideraram um mestiço. Agradava a napolitanos e sicilianos,

18

eles mesmos mulatos não por erro de uma mãe



meretriz, mas pela história de gerações, nascidos de cruzamentos

entre levantinos desleais, árabes suarentos e ostrogodos degenerados,

que herdaram o pior de seus antepassados híbridos: dos sarracenos

a indolência, dos suevos a ferocidade, dos gregos a irresolução

e o gosto por se perder em tagarelices até procurar cabelo em ovo.

Quanto ao resto, basta ver os moleques que em Nápoles encantam

os estrangeiros estrangulando-se com espaguetes que enfiam goela

abaixo com os dedos, lambrecando-se de tomate estragado. Não os

vi, creio, mas sei.

O italiano é inconfiável, mentiroso, vil, traidor, sente-se mais

à vontade com o punhal que com a espada, melhor com o veneno

que com o fármaco, escorregadio nas negociações, coerente apenas

em trocar de bandeira a cada vento — e eu vi o que aconteceu aos

generais bourbônicos assim que apareceram os aventureiros de Garibaldi

e os generais piemonteses.

É que os italianos se modelaram com base nos padres, o único

governo verdadeiro que já tivemos desde que aquele pervertido do

último imperador romano foi sodomizado pelos bárbaros porque o

cristianismo havia debilitado a altivez da raça antiga.

Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho

a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas,

hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca.

Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões

e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no

ócio, e o ócio é garantido pelo número deles. Se fossem, digamos,

um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam

ficar de papo para o ar comendo, capões. E entre os padres

mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia

bispos.

Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando

o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente

carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira

comunhão,

o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu

casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto

19

... Levaram a sério um monge glutão e luxurioso como Lutero



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