O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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descendo do macaco. Mas o senhor, cavalheiro, o senhor está na origem dele!

Apresentou-me o capitão Beaugrand, o imediato Brémond, o piloto Podimatas um indivíduo coberto de pelos como um javali,

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com barba e cabelos que se misturam em todos os pontos do rosto, de tal modo que ele parece raspar somente o branco dos olhos e sobretudo o cozinheiro Jean Boyer



- e, a julgar por Dumas, parece que o cozinheiro é o personagem mais importante da comitiva. Dumas viaja com uma corte, qual um grão-senhor de antigamente.

Enquanto me acompanhava à cabine, Podimatas me informou que a especialidade de Boyer eram os asperges aux petits-pois, receita curiosa porque nesse prato não havia

ervilhas.

Dobramos a ilha de Caprera, onde Garibaldi se esconde quando não está lutando.

- O senhor logo encontrará o general - disse-me Dumas, e, apenas por mencioná-lo, seu rosto se iluminou com admiração.

- Com aquela barba loura e os olhos azuis, parece o Jesus de A última ceia, de Leonardo. Seus movimentos são cheios de elegância, sua voz tem uma doçura infinita.

Ele parece um homem pacato, mas pronuncie à sua frente as palavras Itália e independência e o verá despertar como um vulcão, com erupções de fogo e torrentes de

lava. Para combater, nunca está armado; no momento da ação, puxa o primeiro sabre ao seu alcance, joga fora a bainha e se lança sobre o inimigo. Tem uma única fraqueza:

acredita ser um ás no jogo de bocha.

Pouco depois, grande agitação a bordo. Os marinheiros estavam prestes a pescar uma enorme tartaruga marinha, daquelas que se encontram ao sul da Córsega. Dumas ficou

excitado.

- Vai dar trabalho. Primeiro, será preciso virá-la de costas; a bobalhona esticará o pescoço e aproveitaremos sua imprudência para lhe cortar a cabeça, zac. Depois

iremos pendurá-la pela cauda e deixá-la sangrar por 12 horas. Em seguida, viramos o animal novamente de costas e introduzimos uma lâmina robusta entre as escamas

do ventre e do casco, prestando atenção para não perfurar o fel, ou ela se tornará incomível. Extraem-se as vísceras e conserva- se apenas o fígado; a gosma transparente

que ele contém não serve para nada mas há dois lobos de carne que parecem dois coxões moles de vitelo, tanto pela brancura quanto pelo sabor. Por fim,

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... O senhor logo encontrará o general - disse-me Dumas, e, apenas por mencioná-lo, seu rosto se iluminou com admiração. - Com aquela barba loura e os olhos

azuis, parece o Jesus de A última ceia, de Leonardo ... p. 128

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arrancamos as membranas, o pescoço e as nadadeiras, cortamos e limpamos a carne em pedaços do tamanho



de uma noz, colocamos essa carne em um bom caldo com pimenta, cravo, cenoura, timo e louro, e cozinhamos tudo por três ou quatro horas em fogo baixo. Enquanto isso,

preparamos e cozinhamos, em um bom caldo, algumas tirinhas de frango temperadas com salsa, cebolinha e anchova, escorremos e misturamos esse frango à sopa de tartaruga,

na qual teremos jogado três ou quatro copos de Madeira seco. Se não houver Madeira, pode-se usar Marsala com um copinho de aguardente ou de rum. Mas seria um

pisaller. Vamos saborear nossa sopa amanhã à noite.

Simpatizei com um homem que gosta tanto da boa cozinha, embora ele seja de raça tão dúbia.
13 de junho O Emma chegou a Palermo anteontem. A cidade, com seu vaivém de camisas vermelhas, parece um campo de papoulas. No entanto, muitos voluntários garibaldinos

estão vestidos e armados de qualquer jeito, alguns usam apenas, com os trajes civis, um chapelão com uma pluma em cima. É que já se encontra muito pouco tecido vermelho

e uma camisa dessa cor custa uma fortuna, sendo talvez mais acessível aos muitos filhos da nobreza local, que só se uniram aos garibaldinos após as primeiras e mais

sangrentas batalhas, do que aos voluntários vindos de Gênova. O cavalier Bianco tinha me dado bastante dinheiro para sobreviver na Sicília e logo providenciei um

uniforme suficientemente gasto, para não parecer um almofadinha recém-chegado, com uma camisa que após tantas lavagens começava a ficar cor-de-rosa e uma calça em

mau estado; mas apenas a camisa me custou 15 francos, ao passo que, em Turim, com a mesma soma, eu poderia comprar quatro.

Aqui, tudo tem um preço absurdo: um ovo custa quatro soldos, uma libra de pão, seis soldos, uma libra de carne, trinta.

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Não sei se porque a ilha é pobre e os ocupantes estão devorando os poucos recursos dela, ou porque os palermitanos decidiram que os garibal- dinos são um maná caído

do

céu e os depenam devidamente.



O encontro entre os dois grandes, no Palácio do Senado Como a prefeitura de Paris em 1830! , dizia Dumas, extasiado , foi muito teatral. Entre ambos, não sei quem

era o melhor histrião.

- Caro Dumas, senti sua falta! - gritou o general, respondendo em seguida, quando o escritor lhe deu os parabéns: - Não a mim, não a mim, mas a esses homens. Foram

uns gigantes. - Em seguida, aos seus: - Deem imediatamente ao senhor Dumas o apartamento mais bonito do palácio. Nada será o bastante para um homem que me trouxe

cartas que anunciam a chegada de 2.500 homens, 10 mil fuzis e dois navios a vapor!

Eu olhava o herói com a desconfiança que, após a morte do meu pai, sentia pelos heróis. Dumas me descrevera Garibaldi como um Apoio e, no entanto, ele me pareceu

de estatura modesta, não louro, mas alourado, pernas curtas e arqueadas e, a julgar pelo modo de andar, vítima de reumatismo. Vi quando montou em um cavalo com certa

dificuldade, ajudado por dois dos seus.

Lá pelo final da tarde, uma multidão se reuniu junto ao palácio real aos gritos de Viva Dumas, viva a Itália! . O escritor ficou visivelmente satisfeito, mas tenho

a impressão de que a coisa foi organizada por ordem de Garibaldi, que conhece a vaidade do amigo e precisa dos fuzis prometidos. Misturei-me à multidão e tentei

compreender o que eles diziam naquele seu dialeto incompreensível como o linguajar dos africanos, mas um breve diálogo não me escapou: um perguntava ao outro quem

era aquele Dumas ao qual gritava vivas, e o outro respondia que era um príncipe circassiano que nadava em ouro e vinha colocar seu dinheiro à disposição de Garibaldi.

Dumas me apresentou a alguns homens do general. Fui fulminado pelo olhar rapace do lugar-tenente de Garibaldi, o terrível
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Nino Bixio, e senti-me tão intimidado que me afastei. Precisava procurar uma estalagem à qual pudesse ir e vir sem me fazer notar por ninguém.

Agora, aos olhos dos sicilianos, sou um garibaldino, e, aos olhos do corpo de expedição, um livre cronista.
Revi Nino Bixio quando ele passava pela cidade a cavalo. Pelo que se diz, é ele o verdadeiro chefe militar da expedição. Garibaldi se distrai, pensa sempre no que

fará amanhã, é corajoso nos assaltos e arrasta quem estiver atrás dele, mas Bixio pensa no presente e enfileira as tropas. Enquanto ele passava, escutei um garibaldino

vizinho a mim que dizia ao seu camarada:

- Veja que olhar, fulmina tudo. O perfil dele é cortante como um golpe de sabre. Bixio! O próprio nome dá a ideia de um jorro de fulgor.

Está claro que Garibaldi e seus lugares-tenentes hipnotizaram esses voluntários. Isso é mau. Os chefes com demasiado fascínio devem ser decapitados logo, para o

bem e a tranquilidade dos reinos. Meus patrões de Turim têm razão: é preciso que esse mito de Garibaldi não se difunda também no Norte, ou todos os reinícolas lá

de cima vão usar camisas vermelhas, e será a república.
15 de junho Difícil falar com a população local. A única coisa clara é que tentam explorar quem quer que pareça um piemontês, como dizem, embora entre os voluntários

haja bem poucos piemonteses. Encontrei uma taberna onde posso jantar a baixo preço e degustar comidas de nomes impronunciáveis. Engasguei com os pãezinhos recheados

de baço, mas, com o bom vinho do lugar, pode-se engolir mais de um. No jantar, fiz amizade com dois voluntários, um certo Abba, um lígure de pouco mais de 20 anos,

e um tal de Bandi, jornalista livornês mais ou menos da minha idade.


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Pelas suas narrativas, reconstituí a chegada dos garibaldinos e suas primeiras batalhas.

- Ah, caro Simonini, se você soubesse - dizia-me Abba. - O desembarque em Marsala foi um circo! Temos à nossa frente o Stromboli e o Capri, os navios bourbônicos.

Nosso Lombardo bate em um recife e Nino Bixio diz que é melhor que o capturem com um buraco no casco do que são e salvo; nesse caso, deveríamos até afundar o Piemonte.

Belo desperdício, digo eu, mas Bixio tinha razão, não convinha presentear com dois navios os bourbônicos, e os grandes condottieri também fazem isso, depois do desembarque

você incendeia as embarcações e vai em frente, não pode mais se retirar. O Piemonte inicia o desembarque, e o Stromboli começa a canhonear, mas o tiro falha. O comandante

de um navio inglês, no porto, vai a bordo do Stromboli e diz ao capitão que há súditos ingleses em terra e que o considerará responsável por qualquer incidente internacional.

Você sabe que os ingleses têm grandes interesses econômicos em Marsala por causa do vinho. O comandante bourbônico diz que não dá a mínima para os incidentes internacionais

e manda atirar outra vez, mas o canhão nega fogo novamente. Quando finalmente conseguem atirar, os navios bourbônicos não machucam ninguém, a não ser um cachorro,

que é cortado em dois.

- Então, os ingleses ajudaram vocês?

- Digamos que interferiram tranquilamente, para atrapalhar os bourbônicos.

- Mas quais relações o general tem com os ingleses?

Abba gesticulou como se quisesse dizer que os peões como ele obedecem e não se fazem muitas perguntas.

- É melhor escutar essa, que é boa. Chegando à cidade, o general ordenara que nos apoderássemos do telégrafo e cortássemos os fios. Mandam um tenente com alguns

homens e, ao vê-lo chegar, o encarregado do telégrafo foge. O tenente entra no local e encontra a cópia de um despacho recém-enviado ao comandante militar de Trapani:

Dois vapores combatentes bandeira sarda acabaram de entrar no porto e desembarcam homens. Justamente naquele momento chega a resposta. Um dos voluntários, que era

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funcionário do telégrafo em Gênova, traduz: Quantos homens e por que desembarcam? O oficial manda transmitir: Queira desculpar, engano meu: são dois navios mercantes

provenientes de Girgenti com carga de enxofre. Reação de Trapani: O senhor é um estúpido. O oficial lê aquilo, todo contente, manda cortar os fios e vai embora.

- Digamos a verdade - interveio Bandi -, o desembarque não foi todo um circo, como diz Abba. Quando chegamos à margem, finalmente vinham dos navios bourbônicos as

primeiras granadas e a chuva de metralha. Mas nos divertimos, isso sim. No meio dos estampidos, apareceu um frade velho e gorducho, que com o chapéu na mão nos dava

as boas-vindas. Alguém gritou: O que veio fazer aqui, nos encher o saco, ô frade? , mas Garibaldi levantou a mão e disse: Irmãozinho, o que procura? Não está ouvindo

o assovio das balas? E o frade: As balas não me amedrontam; sou servo de são Francisco pobrezinho e sou filho da Itália. Então, o senhor está com o povo? , perguntou

o general. Com o povo, com o povo , respondeu o frade. Então, compreendemos que Marsala era nossa. E o general enviou Crispi ao coletor de impostos, em nome de Vítor

Emanuel, rei da Itália, para requisitar toda a receita, que foi entregue ao intendente Acerbi, mediante recibo. Ainda não existe um reino da Itália, mas o recibo

que Crispi assinou para o cobrador de impostos é o primeiro documento em que Vítor Emanuel é chamado rei da Itália.

Aproveitei para perguntar:

- Mas o intendente não é o capitão Nievo?

- Nievo é o vice de Acerbi - esclareceu Abba. - Tão jovem e já grande escritor. Verdadeiro poeta. O talento lhe resplandece na fronte. Anda sempre solitário, olhando

para longe, como se quisesse ampliar o horizonte com suas miradas. Acho que Garibaldi está prestes a nomeá-lo coronel.

E Bandi reforçou a dose:

- Em Calatafimi, ele tinha ficado um pouco para trás, para distribuir o pão, quando Bozzeti o convocou à batalha e ele se lançou na peleja, voando para baixo em

direção ao inimigo como um

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grande pássaro negro, abrindo as abas da capa, que logo foi trespassada por uma bala...



Foi o suficiente para me despertar antipatia por esse Nievo. Deve ser meu coetâneo e já se considera um homem famoso. O poeta guerreiro. Claro que lhe trespassarão

a capa se você a abrir diante deles, um belo modo de exibir um furo que não está no seu peito...

A essa altura, Abba e Bandi começaram a falar da batalha de Calatafimi, uma vitória miraculosa, mil voluntários de um lado e 25 mil bourbônicos armados do outro.

- Garibaldi à frente - dizia Abba -, em um baio digno de grão-vizir, uma sela belíssima, com estribos trabalhados, camisa vermelha e um chapéu de aparência húngara.

Em Salemi, vêm ao nosso encontro os voluntários locais. Chegam de toda parte, a cavalo ou a pé, às centenas, uma coisa rocambolesca, montanheses armados até os dentes,

com aparência de esbirro e olhos que pareciam bocas de pistola. Comandados, porém, por fidalgos, proprietários por essas bandas. Salemi é suja, as ruas parecem esgotos,

mas os frades tinham belos conventos e nos alojamos por lá. Naqueles dias, recebíamos sobre o inimigo notícias diferentes: são 4 mil, não,
10 mil, 20 mil, com cavalos e canhões; fortificam-se lá embaixo, não, lá em cima, estão avançando, estão se retirando... E, subitamente, eis que aparece o inimigo.

Devem ser uns 5 mil homens, que nada, dizia algum dos nossos, são 10 mil. Entre eles e nós, uma planície incultivada. Os caçadores napolitanos descem das colinas.

Que calma, que segurança, vê-se que são bem treinados, não uns desastrados como nós. E as trompas deles, que sons lúgubres! O primeiro tiro de espingarda é disparado

às 13h30. É dado pelos caçadores napolitanos, que desceram pelas fileiras de figueiras-da- índia. Não respondam, não respondam ao fogo! , gritam nossos capitães,

mas as balas dos caçadores passam sobre nós com tal asso- vio que é impossível ficar parado. Ouve-se um tiro, depois outro, e, em seguida, o trombeteiro do general

toca a alvorada e o passo acelerado. As balas chovem como granizo, o monte torna-se uma nuvem de fumaça dos canhões que atiram em nós. Atravessamos a planície, a

primeira linha de inimigos se rompe, eu me volto e vejo

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no morro Garibaldi a pé, com a espada embainhada sobre o ombro direito, avançando devagar, observando toda a ação. Bixio vem a galope para protegê-lo com seu

cavalo, e grita: General, quer morrer assim? E ele responde: Como eu poderia morrer melhor do que pelo meu país? , e avança sem dar importância à chuva de balas.

Naquele momento, temi que o general achasse impossível vencer e estivesse buscando a morte. Porém, de repente, um dos nossos canhões troveja lá da estrada. Temos

a impressão de receber a ajuda de mil braços. Avante, avante, avante! Não se escuta mais do que aquela trombeta, que não parava de soar a marcha acelerada. Atravessamos

o primeiro terraço a baioneta, o segundo, o terceiro, subimos a colina; os batalhões bourbônicos recuam mais para o alto, se recolhem e parecem aumentar em força.

Parece impossível enfrentá-los ainda, estão todos no cume, e nós ao redor, na base, cansados, enfraquecidos. Há um instante de parada, eles lá em cima, nós todos

embaixo. Aqui e ali, algum tiro; os bourbônicos rolam pedras, lançam seixos e alguém diz que um atingiu o general. Vejo, entre as figueiras-da-índia, um jovem bonito,

mortalmente ferido, sustentado por dois companheiros. Pede a eles que sejam piedosos com os napolitanos, porque também são italianos. Toda a ladeira está lotada

de caídos, mas não se escuta um gemido. Do cume, os napolitanos gritam de vez em quando: Viva o rei! Nesse ínterim, chegam-nos reforços. Recordo que àquela altura

chegou você, Bandi, coberto por ferimentos, mas, em particular, com uma bala que lhe entrou pelo mamilo esquerdo, e achei que em meia hora você estaria morto. No

entanto, quando fizemos o último assalto, lá estava na frente de todos; quantas almas você tem?

- Bobagem - dizia Bandi -, eram apenas uns arranhões.

- E os franciscanos que combatiam por nós? Havia um, magro e sujo, que carregava um bacamarte com balas e pedras, depois se arrastava para cima e descarregava a

metralha. Vi outro, ferido em uma coxa, arrancar a bala das suas carnes e voltar a fazer fogo.

Em seguida, Abba passou a evocar a batalha da ponte do Almirante:

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- Deus do céu, Simonini, um dia digno de um poema de Homero! Estamos às portas de Palermo e surge, para nos ajudar, uma tropa de insurretos locais. Um grita:

Meu Deus , gira sobre si mesmo, dá três ou quatro passos para os lados como um bêbado e cai em um fosso, ao pé de dois choupos, junto a um caçador napolitano morto;

talvez o primeiro sentinela surpreendido por nós. E ainda escuto aquele genovês, que, lá onde caía uma saraivada de chumbo, gritou em dialeto: Caralho, como se passa

por aqui? E uma bala o atinge na testa e o derruba, com o crânio despedaçado. Na ponte do Almirante, na pista, sobre os arcos, sob a ponte e nas hortas, carnificina

à baioneta. Ao amanhecer, somos donos da ponte, mas nos detém um fogo terrível, que vem de uma fileira de infantaria atrás de um muro enquanto parte da cavalaria

nos alveja pela esquerda, mas é repelida para o campo. Atravessamos a ponte, concentramo-nos no cruzamento de Porta Termini, mas estamos na mira do canhoneio de

um navio, que nos bombardeava do porto, e do fogo de uma barricada à nossa frente. Não importa. Um sino toca a rebate. Avançamos pelos becos e, em certo momento,

meu Deus, que visão! Segurando-se em uma grade com mãos que pareciam lírios, três mocinhas vestidas de branco, lindas, olhavam- nos, mudas. Pareciam os anjos que

se veem nos afrescos das igrejas. Quem são vocês? , perguntam-nos. Respondemos que somos italianos e perguntamos quem são elas, e elas dizem ser monjas. Oh, coitadinhas

, dizemos, porque não nos desagradaria libertá-las daquela prisão e dar-lhes uma alegria, e elas gritam: Viva santa Rosália! Respondemos: Viva a Itália! E elas também

gritam Viva a Itália! , com aquelas vozes suaves, de salmo, e nos desejam a vitória. Combatemos por mais cinco dias em Palermo, antes do armistício, mas nada de

freirinhas, e tivemos que nos contentar com as putas!

Até que ponto devo confiar nesses dois entusiastas? São jovens, esses foram seus primeiros combates, desde antes adoravam seu general; à sua maneira, são romancistas

como Dumas,

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... Na ponte do Almirante, na pista, sobre os arcos, sob a ponte e nas horttis, carnificina à baioneta ... p. 137


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embelezam suas lembranças e uma galinha se transforma

em uma águia. Sem dúvida se comportaram bravamente naquelas escaramuças, mas terá sido por acaso que Garibaldi passeava tranquilamente no meio do fogo e os inimigos,

ao longe, deviam vê-lo bem , sem nunca ser atingido? Não será que aqueles inimigos, por ordem superior, atiravam sem empenho?

Essas ideias me circulavam pela cabeça por causa de alguns rumores que captei do meu hospedeiro, que deve ter percorrido outras regiões da península e fala uma linguagem

quase compreensível. E foi dele que recebi a sugestão de trocar umas palavrinhas com dom Fortunato Musumeci, um tabelião que parece saber tudo sobre todos e, em

várias circunstâncias, demonstrou sua desconfiança em relação aos recém-chegados.

Eu não poderia me aproximar dele usando uma camisa vermelha, obviamente, e me lembrei do hábito do padre Bergamaschi que estava comigo. Uma passada de pente nos

cabelos, uma suficiente atitude piedosa, olhos baixos, e lá vou eu saindo da hospedaria, irreconhecível a todos. Foi uma grande imprudência, porque corria o boato

de que estavam para expulsar os jesuítas da ilha. Mas, afinal, deu certo. E também, como vítima de uma injustiça iminente, eu podia infundir confiança nos ambientes

antigaribaldinos.

Comecei a conversar com dom Fortunato surpreendendo-o em uma tasca onde ele saboreava lentamente seu café, após a missa matutina. O lugar era central, quase elegante,

e dom Fortunato estava relaxado, o rosto voltado para o sol e os olhos fechados, barba de alguns dias, um terno preto com gravata, mesmo naquele período de canícula,

um charuto semiapagado entre os dedos amarelado pela nicotina. Notei que por aqui eles põem uma casca de limão no café. Espero que não a ponham no café com leite.

Sentado à mesa vizinha, bastou-me reclamar do calor e teve início nossa conversa. Apresentei-me como enviado da cúria romana para entender o que estava acontecendo

por aquelas bandas, e isso permitiu que Musumeci falasse livremente.

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- Reverendíssimo padre, o senhor acha que mil pessoas reunidas atabalhoadamente e armadas de qualquer jeito chegam a Marsala e desembarcam sem perder um homem



sequer? Por que os navios bourbônicos, e é a segunda marinha da Europa, após a inglesa, atiraram a esmo sem acertar ninguém? E, mais tarde, em Calatafimi, como aconteceu

que os mesmos mil esmolambados, mais umas centenas de rapazolas impelidos a pontapés no traseiro por alguns proprietários que queriam agradar aos ocupantes, enfrentassem

um dos exércitos mais bem treinados do mundo não sei se o senhor sabe o que é uma academia militar bourbônica , como foi que mil e tantos esmolambados, dizia eu,

puseram em fuga 25 mil homens, embora apenas tenham sido vistos alguns milhares porque os outros ainda eram mantidos nas casernas? Correu dinheiro, reverendíssimo,

dinheiro a rodo para pagar aos oficiais dos navios em Marsala e ao general Landi em Calatafimi, o qual, após um dia de êxito incerto, ainda teria tropas suficientemente

frescas para repelir os senhores voluntários, mas, em vez disso, retirou-se para Palermo. Fala-se de uma pilha de 14 mil ducados para ele, sabia? E seus superiores?

Por muito menos, os piemonteses, uns 12 anos atrás, fuzilaram o general Ramorino; não que eu simpatize com os piemonteses, mas de coisas militares eles entendem.

Em vez disso, Landi foi simplesmente substituído por Lanza, que, na minha opinião, também já embolsou o dele. De fato, veja essa celebradíssima conquista de Palermo...

Garibaldi reforçara seu bando com 3.500 bandidos recolhidos entre a delinquência siciliana, mas Lanza dispunha de cerca de 16 mil homens; eu disse 16 mil. E, em

vez de empregá-los em massa, Lanza os manda ao encontro dos rebeldes em pequenos grupos, e é natural que fossem sempre derrotados até porque foram pagos alguns traidores

palermitanos que começaram a atirar do alto dos telhados. No porto, na cara dos navios bourbônicos, navios piemonteses desembarcam fuzis para os voluntários e deixa-se

que, em terra, Garibaldi chegue ao Cárcere da Viçaria e à Colônia dos Condenados, onde liberta outros mil delinquentes comuns, arrolando-os no seu

bando.

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E nem lhe conto o que está acontecendo agora em Nápoles; nosso pobre soberano está rodeado de miseráveis que já receberam sua remuneração e estão fazendo

a terra desabar sob os pés dele...

- Mas de onde vem todo esse dinheiro?

- Reverendíssimo padre! Espanta-me que em Roma os senhores saibam tão pouco! Ora, é a maçonaria inglesa! Percebe o nexo? Garibaldi maçom, Mazzini maçom, Mazzini

exilado em Londres em contato com os maçons ingleses, Cavour maçom, recebendo ordens das lojas inglesas, maçons todos os homens ao redor de Garibaldi. É um plano



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