O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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absolutamente verdadeiras, pareceria ter sido a arte do Narrador que dispôs essas alternâncias entre euforia amnésica e rememoração disfórica.

Na primavera de 1865, Lagrange convocou Simonini para comparecer, certa manhã, a um banco do Jardin du Luxembourg e lhe mostrou um livro amarrotado, de capa amarelada,

que fora publicado em outubro de 1864 em Bruxelas, sem o nome do autor, sob o título Dialogue aux enfers entre Machiavel et Montesquieu ou la politique de Machiavel

au XIXI siècli, par un contemporain.

- Este é o livro de um certo Maurice Joly - disse. - Agora sabemos quem é ele, mas nos custou certo trabalho descobri-lo enquanto introduzia na França exemplares

dessa obra, impressa no exterior, e distribuía-os clandestinamente. Ou, melhor, foi laborioso, mas não difícil, porque muitos dos contrabandistas de material político

são agentes nossos. Saiba o senhor que o único modo de controlar uma seita subversiva é assumir seu comando
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ou, ao menos, ter na nossa folha de pagamento os chefes principais. Não é por iluminação divina que se descobrem os planos dos inimigos do Estado. Alguém já disse,

talvez exagerando, que, em dez adeptos de uma associação secreta, três são nossos mou- chards - desculpe a expressão, mas o vulgo assim os chama - seis são imbecis

cheios de fé, e um é um homem perigoso. Bem, não divaguemos. Joly está preso em Sainte-Pélagie, e ali o deixaremos o máximo possível. Só que nos interessa saber

onde ele tirou suas informações.

- Sobre o que fala o livro?

- Confesso-lhe que não o li, são mais de quinhentas páginas; uma escolha equivocada, porque um libelo difamatório deve poder ser lido em meia hora. Um agente nosso,

especializado nessas coisas, um certo Lacroix, forneceu-nos um resumo. Porém, darei ao senhor o único exemplar restante. O senhor verá como nessas páginas se supõe

que Maquiavel e Montesquieu conversam no reino dos mortos e que Maquiavel é o teórico de uma visão cínica do poder, pregando a legitimidade de uma série de ações

dedicadas a reprimir a liberdade de imprensa e de expressão, a assembleia legislativa e todas aquelas coisas sempre proclamadas pelos republicanos. E o faz de maneira

tão detalhada, tão relacionável aos nossos dias, que até o leitor mais despreparado percebe que o libelo se destina a difamar nosso imperador, atribuindo-lhe a intenção

de neutralizar o poder da Câmara, de pedir ao povo que faça prorrogar por dez anos o mandato do presidente, de transformar a república em império...

- Desculpe, senhor Lagrange, mas estamos conversando em confiança e o senhor conhece minha devoção ao governo... Não posso deixar de ressaltar que, pelo que me diz,

esse Joly alude a coisas que o imperador realmente fez, e não vejo por que se perguntar de onde o autor extraiu seus dados...

- Só que no livro de Joly não se ironiza apenas aquilo que o governo fez, mas fazem-se insinuações sobre o que ele poderia pretender fazer, como se Joly visse certas

coisas não de fora, mas de dentro. Veja, em cada ministério, em cada prédio do governo,


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há sempre um olheiro, um sous-marin, que divulga notícias. Em geral, ele é deixado em paz a fim de, por seu intermédio, fazer vazarem notícias falsas que o ministério

tem interesse em difundir, mas, às vezes, ele se torna perigoso. É preciso identificar quem informou ou, pior, instruiu Joly.

Simonini refletia que todos os governos despóticos seguem a mesma lógica e que bastava ler o verdadeiro Maquiavel para compreender o que Napoleão III faria, mas

essa reflexão o levou a definir uma sensação que o acompanhara durante o resumo de Lagrange: aquele Joly fazia seu Maquiavel-Napoleão dizer quase as mesmas palavras

que ele pusera na boca dos jesuítas no documento construído para os serviços piemonteses. Portanto, era evidente que Joly se inspirara na mesma fonte em que ele

se inspirara, ou seja, na carta do padre Rodin ao padre Roothaan em Os mistérios do povo, de Sue.

- Por isso - continuou Lagrange -, faremos transportar o senhor para Sainte-Pélagie como exilado mazziniano, suspeito de ter tido relações com ambientes republicanos

franceses. Lá, está detido um italiano, um certo Gaviali, envolvido no atentado de Orsini. É natural que o senhor tente contactá-lo, já que é garibaldino, carbonário

e sei lá mais o quê. Através de Gaviali, conhecerá Joly. Entre presos políticos, isolados em meio a bandidos de toda laia, todo mundo se entende. Faça-o falar; as

pessoas se entediam na prisão.

- E por quanto tempo vou ficar nessa prisão? - perguntou Simonini, preocupado com a comida.

- Dependerá do senhor. Quanto mais cedo conseguir as informações, mais cedo sairá. Divulgaremos que o juiz instrutor o desobrigou de qualquer acusação, graças à

habilidade do seu advogado.

Ainda faltava a Simonini a experiência do cárcere. Não era agradável, considerando-se os eflúvios de suor e de urina, e as sopas impossíveis de engolir. Graças a

Deus, porém, Simonini, assim como outros detentos de boa condição econômica, tinha a


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possibilidade de receber diariamente uma cestinha com vitualhas aceitáveis.

Do pátio entrava-se em uma grande sala dominada por uma estufa central, com bancos ao longo das paredes. Em geral, ali consumiam suas refeições aqueles que recebiam

alimentos de fora. Havia os que comiam debruçados sobre sua cesta, estendendo as mãos para proteger o alimento da visão dos outros, e aqueles que se mostravam generosos

tanto com amigos quanto com vizinhos casuais. Simonini compreendeu que os mais generosos eram, de um lado, os delinquentes comuns, educados na solidariedade com

seus semelhantes, e, de outro, os presos políticos.

Entre seus anos turinenses, a experiência na Sicília e os primeiros anos nas mais sórdidas bocas do lixo parisienses, Simonini havia acumulado suficiente experiência

para reconhecer um delinquente nato. Não compartilhava as ideias, que começavam a circular naquela época, segundo as quais os criminosos deveriam ser todos raquíticos,

ou corcundas, ou com lábio leporino ou escrófula ou ainda, como dissera o célebre Vidocq, que entendia de criminosos até porque havia sido um deles , todos com as

pernas arqueadas; mas certamente apresentavam muitas das características típicas das raças de cor, como a escassez de pelos, a pequena capacidade craniana, a testa

recuada, os seios frontais muito desenvolvidos, o tamanho enorme das mandíbulas e dos zigomas, o prognatismo, a obliquidade das órbitas, a pele mais escura, os cabelos

bastos e crespos, as orelhas volumosas, os dentes desiguais e, ainda, a obtusidade dos afetos, a paixão exagerada pelos prazeres venéreos e pelo vinho, a pouca sensibilidade

à dor, a falta de senso moral, a preguiça, a impulsividade, a imprevidência, a grande vaidade, a paixão pelo jogo, a superstição.

Para não falar de personagens como aquele que todos os dias se plantava atrás dele, como se quisesse pedinchar um bocado da cestinha de víveres, tendo a face sulcada

em todas as direções por cicatrizes lívidas e profundas, os lábios tumefactos pela ação
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corrosiva do vitríolo, as cartilagens do nariz cortadas, as narinas substituídas por dois buracos informes, os braços compridos, as mãos curtas, grossas e peludas

até nos dedos... Até o momento em que Simonini precisou rever suas ideias sobre os estigmas dos delinquentes, porque aquele indivíduo, que se chamava Oreste, acabou

por se demonstrar um homem mansíssimo e, depois que Simonini finalmente lhe ofereceu parte da sua comida, afeiçoou-se a ele e lhe manifestava uma devoção canina.

Não tinha uma história complexa: simplesmente havia estrangulado uma moça que não gostara das suas propostas amorosas, e aguardava julgamento.

- Não sei por que ela foi tão má - dizia -; afinal, eu a pedi em casamento. E ela riu. Como se eu fosse um monstro. Lamento muito que ela já não exista, mas, àquela

altura, o que devia fazer um homem que se respeita? E também, se eu conseguir evitar a guilhotina, a colônia penal não é ruim. Dizem que a comida é abundante.

Um dia, apontou para um sujeito e disse:

- Mas aquele ali é um homem malvado. Tentou matar o imperador.

E, assim, Simonini identificou Gaviali e aproximou-se dele.

- Vocês conquistaram a Sicília graças ao nosso sacrifício - dizia-lhe Gaviali. Depois explicou: - Não o meu. Não conseguiram provar nada, exceto que tive alguma

relação com Orsini. De modo que Orsini e Pieri foram guilhotinados, Di Rudio está em Caiena, mas eu, se tudo correr bem, saio logo.

Todos conheciam a história de Orsini. Patriota italiano, dirigira-se à Inglaterra e mandara preparar seis bombas carregadas com fulminato de mercúrio. Na noite de

14 de janeiro de 1858, quando Napoleão III seguia para o teatro, Orsini e dois companheiros tinham lançado três bombas contra a carruagem do imperador, porém com

escassos resultados: feriram 157 pessoas, oito das quais morreram depois, mas os soberanos ficaram incólumes.

Antes de subir ao patíbulo, Orsini escrevera ao imperador uma carta lacrimogênea, convidando-o a defender a unidade da


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Itália, e muitos diziam que essa carta teve alguma influência sobre as decisões subsequentes de Napoleão III.

- De início, era eu quem deveria fazer as bombas - contava Gaviali -, com um grupo de amigos, que modestamente são magos em explosivos. Depois, Orsini não confiou.

O senhor sabe, os estrangeiros são sempre mais competentes do que nós, e ele encasquetou com um inglês, o qual, por sua vez, tinha encasquetado com o fulminato de

mercúrio. Em Londres, o fulminato de mercúrio podia ser comprado em farmácias e servia para fazer daguerreótipos, e aqui na França impregnavam com ele o papel

dos bombons chineses , embalagem que, ao ser aberta, bum, uma bela explosão - imagine as risadas. E que uma bomba com um explosivo detonante tem pouca eficácia se

não estourar em contato com o alvo. Uma bomba de pólvora negra produziria grandes lascas de metal, que alcançariam o raio de 10 metros, enquanto uma bomba de fulminato

se despedaça logo e só mata se a pessoa estiver onde ela cair. Então, é melhor uma bala de pistola, que onde chega, chega.

- Sempre se pode tentar de novo - arriscou um dia Simonini, acrescentando: - Conheço pessoas que estariam interessadas nos serviços de um bom técnico em explosivos.

O Narrador não sabe por que Simonini jogou aquela isca. Já planejava alguma coisa ou jogava iscas por vocação, por vício, por previdência, e sabe-se lá o que mais?

Fosse como fosse, Gaviali reagiu bem.

- Conversaremos - disse. - O senhor me informou que sairá logo, e o mesmo deve acontecer também comigo. Vá me procurar no Père Laurette, à rue de La Huchette. Quase

todas as noites eu encontro os amigos de sempre por lá, e é um lugar aonde a polícia desistiu de ir, primeiro porque a cada vez deveria prender todos os fregueses,

e seria uma trabalheira, e segundo porque é um lugar onde um policial entra mas não sabe se vai sair.
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... E, assim, Simonini identificou Gaviali e aproximou-se dele ... p. 191


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- Belo lugar - riu Simonini -, irei. Mas, diga-me, eu soube que está aqui um certo Joly, que escreveu umas coisas maliciosas sobre o imperador.

- É um idealista - definiu Gaviali -, palavras não matam. Mas deve ser boa pessoa. Vou apresentá-lo ao senhor.

Joly usava roupas ainda limpas, evidentemente dava um jeito de fazer a barba e, em geral, deixava a sala da estufa, onde se apartava, solitário, quando entravam

os privilegiados com a cestinha dos víveres, para não sofrer com a visão da fortuna alheia. Demonstrava mais ou menos a mesma idade de Simonini, tinha os olhos

acesos dos visionários, embora velados de tristeza, e revelava-se um homem de muitas contradições.

- Sente-se comigo - disse-lhe Simonini -, e aceite alguma coisa desta cesta, que é até demais para mim. Logo compreendi que o senhor não faz parte dessa gentalha.

Joly agradeceu tacitamente com um sorriso, aceitou de bom grado um pedaço de carne e uma fatia de pão, mas se manteve nas generalidades. Simonini comentou:

- Por sorte, minha irmã não se esqueceu de mim. Não é rica, mas me mantém bem.

- Feliz é o senhor - disse Joly -, eu não tenho ninguém...

O gelo fora quebrado. Conversaram sobre a epopeia garibaldina, que os franceses tinham acompanhado com entusiasmo. Simonini mencionou alguns dos seus problemas,

primeiro com o governo piemontês e depois com o francês, e por isso ali estava, à espera do processo por conspiração contra o Estado. Joly informou que se encontrava

preso sequer por conspiração, mas pelo simples gosto da intriga.

- Imaginar-se como elemento necessário na ordem do universo equivale, para nós, gente de boas leituras, àquilo que é a superstição para os iletrados. Não se muda

o mundo com ideias. As pessoas com poucas ideias estão menos sujeitas ao erro, seguem aquilo que todos fazem, não incomodam ninguém, têm
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sucesso, enriquecem e alcançam boas posições, como deputados, condecorados, homens de letras renomados, acadêmicos, jornalistas. Pode-se ser idiota quando se cuida

tão bem dos próprios assuntos? O idiota sou eu, que quis lutar contra moinhos de vento.

Na terceira refeição, Joly ainda demorava a entrar no ponto principal, e Simonini o encostou um pouco à parede, perguntando-lhe que livro perigoso ele tinha escrito,

afinal. E Joly discorreu sobre seu diálogo no inferno, e, à medida que o resumia, indignava-se cada vez mais com as torpezas que denunciara, e comentava-as e analisava-as

até mais detalhadamente do que fizera no seu libelo.

- Compreende? Conseguir realizar o despotismo graças ao sufrágio universal! O miserável deu um golpe de Estado autoritário recorrendo à obediência bovina do povo!

Está nos mostrando como será a democracia de amanhã.

Certo, pensava Simonini; esse Napoleão III é o homem dos nossos tempos e percebeu como é possível manter em rédeas curtas um povo que, setenta anos atrás, se excitou

com a ideia de que se poderia cortar a cabeça de um rei. Lagrange pode até acreditar que Joly teve inspiradores, más está claro que ele se limitou a analisar fatos

que estão à vista de todos, a ponto de antecipar os movimentos do ditador. Eu gostaria de entender qual foi realmente o seu modelo.

Assim, Simonini fez uma velada referência a Sue e à carta do padre Rodin, e Joly logo sorriu, quase corando, e disse que sim, que sua ideia de pintar os projetos

nefastos de Luís Napoleão nascera do modo pelo qual Sue os descrevera, porém lhe parecera mais útil fazer a inspiração jesuítica remontar ao maquiavelismo clássico.

- Quando li aquelas páginas de Sue, disse a mim mesmo que havia encontrado a chave para escrever um livro que abalaria este país. Que loucura; os livros são recolhidos,

queimados, e é como se você não tivesse feito nada. E não me ocorreu que Sue, por ter dito bem menos, foi forçado ao exílio.
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Simonini se sentia como que desapossado de uma coisa sua. Era verdade que também copiara de Sue seu discurso sobre os jesuítas, mas ninguém sabia disso, e ele ainda

pretendia usar para outros fins aquele esquema de complô. E eis que Joly o subtraía dele, tornando-o, por assim dizer, de domínio público.

Depois se acalmou. O livro de Joly tinha sido recolhido, ele possuía um dos poucos exemplares em circulação, e Joly ainda permaneceria alguns anos preso; mesmo que

Simonini copiasse integralmente seu texto, atribuindo-o, digamos, a Cavour ou à chancelaria prussiana, ninguém se daria conta, sequer Lagrange, que no máximo reconheceria

no novo documento algo crível. Os serviços secretos de todos os países só acreditam naquilo que ouviram dizer alhures, e, por isso, repelem como inconfiável qualquer

notícia inteiramente inédita. Portanto, calma, ele se encontrava na tranquila situação de saber o que Joly dissera sem que mais ninguém o soubesse. Exceto aquele

Lacroix, que Lagrange havia mencionado, o único que tivera a disposição de ler todo o Diálogo. Portanto, bastava eliminar Lacroix, e tudo estaria resolvido.

Enquanto isso, chegara o momento de sair de Sainte-Pélagie. Simonini se despediu de Joly com cordialidade fraterna; este se comoveu e acrescentou:

- Talvez o senhor possa me fazer um favor. Tenho um amigo, um certo Guédon, que talvez nem saiba onde estou, mas que de vez em quando poderia me enviar uma cesta

com algo de humano para comer. Essas sopas infames me causam queimação de estômago e disenteria.

Informou que ele encontraria esse Guédon em uma livraria da rue de Beaune, pertencente a mademoiselle Beuque, onde se reuniam os fourieristas. Pelo que Simonini

sabia, os fourieristas eram um tipo de socialistas que aspiravam a uma reforma geral do gênero humano mas não falavam em revolução, e, por isso, eram desprezados

tanto pelos comunistas quanto pelos conservadores. Mas, ao que parecia, a livraria de mademoiselle Beuque se tornara um porto franco para todos os republicanos que

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opunham ao império, que ali se encontravam tranquilamente porque a polícia não achava que os fourieristas pudessem fazer mal a uma mosca.

Recém-saído da prisão, Simonini correu a fazer seu relatório a Lagrange. Não tinha qualquer interesse em se encarniçar contra Joly; no fundo, aquele dom Quixote

lhe dava quase pena. Disse:

- Senhor de Lagrange, nosso homem é simplesmente um ingênuo que alimentou a esperança de ter um momento de notoriedade, mas se deu mal. Tive a impressão de que ele

sequer pensaria em escrever seu libelo se não houvesse sido incitado por alguém do ambiente de vocês. E, me dói dizê-lo, sua fonte é justamente aquele Lacroix que,

segundo o senhor, leu o livro para resumi-lo, e que provavelmente já o tinha lido, por assim dizer, antes que ele fosse escrito. Pode ser que ele mesmo tenha se

encarregado de mandar imprimi-lo em Bruxelas. Não me pergunte por quê.

- Por encomenda de algum serviço estrangeiro, talvez os prussianos, para criar desordem na França. Não me surpreende.

- Um agente prussiano, em um escritório como o seu? Parece-me inacreditável.

- Stieber, o chefe da espionagem prussiana, recebeu 9 milhões de táleres para cobrir de espiões o território francês. Corre o boato de que ele enviou à França 5

mil camponeses prussianos e 9 mil domésticas para ter agentes nos cafés, nos restaurantes, nas famílias importantes, por toda parte. Falso. Os espiões são prussianos

na sua mínima parte, e sequer são alsacianos, porque ao menos seriam reconhecidos pelo sotaque. São bons franceses, que o fazem por dinheiro.

- E vocês não conseguem identificar e prender esses traidores?

- Não nos convém; do contrário, eles prenderiam os nossos. Não se neutralizam os espiões matando-os, mas passando-lhes notícias falsas. E, para fazer isso, precisamos

daqueles que fazem jogo duplo. Dito isso, a informação que o senhor me deu sobre esse Lacroix me soa nova. Santo Deus, em que mundo
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vivemos, já não se pode confiar em ninguém... Precisamos nos livrar dele logo.

- Mas, se o submeterem a processo, nem ele nem Joly admitirão coisa alguma.

- Uma pessoa que trabalhou para nós não deverá jamais aparecer em uma sala de tribunal, e isso, desculpe se enuncio um princípio geral, valeria e valerá também para

o senhor. Lacroix será vítima de um acidente. A viúva receberá uma pensão justa.

Simonini não falou de Guédon nem da livraria da rue de Beaune. Reservava-se a possibilidade de ver qual partido poderia tirar daquela frequentação. E, também, os

poucos dias em Sainte-Pélagie o deixaram exaurido.

Dirigiu-se o mais rápido possível ao Laperouse, no quai des Grands-Augustins, e se instalou não no térreo, onde eram servidas ostras e entrecôtes como antes, mas

no primeiro andar, em um daqueles cabinets particuliers em que se consumiam barbue sauce hollandaise, casserole de riz à la Toulouse, aspics de filets de laperaux

en chaud-froid, truffes au champagne, pudding d abricots à la Vénitienne, corbeille de fruits frais e compotes de pêches et d ananas.

E aos diabos os galeotes, idealistas ou assassinos que fossem, assim como suas sopas. As prisões, afinal, são feitas para permitir que os cavalheiros frequentem

restaurantes sem correr riscos.

Aqui, as memórias de Simonini, como em casos semelhantes, se embaralham, e seu diário contém trechos desconexos. O Narrador é obrigado a valorizar as intervenções

do abade Dalla Piccola. Agora, a dupla trabalha a pleno regime e em perfeito entendimento...

Em síntese, Simonini percebia que, para qualificar-se aos olhos dos serviços imperiais, devia dar a Lagrange algo mais. O que torna verdadeiramente fidedigno um

informante da polícia? A descoberta de um complô. Portanto, ele deveria organizar um complô para poder denunciá-lo.


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A ideia lhe viera de Guviuli. Simonini se informara em Sainte- Pélagie e soubera quando ele iria sair. E recordava onde poderia encontrá-lo: à rue de la Huchette,

no cabaré do Père Laurette.

Perto do final da rua, entrava-se em uma casa cujo acesso era uma fissura - aliás, não mais estreita do que a rue du Chat-qui- Pêche, que dava para a mesma rue de

la Huchette e era tão apertada que não se compreendia por que a tinham aberto, uma vez que se devia entrar nela de viés. Depois da escada, percorriam-se corredores

com pedras que transudavam lágrimas de gordura e portas tão baixas que não se entendia como era possível entrar naqueles aposentos. No segundo andar, havia uma porta

um pouco mais praticável, pela qual se penetrava em um espaço amplo, provavelmente obtido demolindo-se ao menos três ou mais apartamentos de antigamente, e aquele

era o salão, ou a sala ou o cabaré do Père Laurette, que ninguém sabia quem era porque talvez tivesse morrido anos antes.

Ao redor, mesas lotadas de fumantes de cachimbo e jogadores de lansquenê, moças precocemente enrugadas, de tez pálida, como se fossem bonecas para crianças pobres,

e que tentavam apenas identificar clientes que não tivessem terminado seus copos para implorar uma gota.

Na noite em que Simonini pôs os pés ali, havia uma agitação: alguém nos arredores tinha esfaqueado algum outro, e parecia que o cheiro de sangue deixara todos nervosos.

A certa altura, um demente feriu uma das moças com um trinchete, derrubou no chão a proprietária, que tentara intervir, espancou alucinadamente os que procuravam

detê-lo e, afinal, foi abatido por um garçom que lhe quebrou uma garrafa na nuca. Depois disso, todos voltaram a fazer o que faziam antes, como se nada houvesse

acontecido.

Ali Simonini encontrou Gaviali, instalado a uma mesa com camaradas que pareciam compartilhar com ele as ideias regicidas, quase todos exilados italianos e especialistas

em explosivos ou obsedados pelo assunto. Quando a roda alcançou um razoável
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teor alcoólico, começou-se a dissertar sobre os erros dos grandes autores de atentados do passado: a máquina infernal com que Cadoudal buscara assassinar Napoleão,

então primeiro-cônsul, era uma mistura de salitre e metralha, que talvez funcionasse nas vielas estreitas da velha capital, mas que, nos dias que corriam, seria

totalmente ineficaz e, francamente, também o fora na época . Fieschi, para tentar assassinar Luís Filipe, fabricara uma máquina feita de 18 canos que disparavam

simultaneamente; matara 18 pessoas, mas não o rei.

- O problema - dizia Gaviali - é a composição do explosivo. Vejam o clorato de potássio: pensou-se em misturá-lo com enxofre e carvão para obter uma pólvora de atirar,



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