O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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(pode-se desposar uma monja?), só porque arruinou

a Bíblia traduzindo-a para a língua deles ... (p. 16)

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e no dia seguinte no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar



atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Falam-lhe do sexo

com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso

sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para

depois cagá-lo e mijá-lo.

Repetem que seu reino não é desse mundo, e metem as mãos

em tudo o que podem roubar. A civilização não alcançará a perfeição

enquanto a última pedra da última igreja não houver caído

sobre o último padre, e a Terra estiver livre dessa corja.

Os comunistas difundiram a ideia de que a religião é o ópio dos

povos. É verdade, porque serve para frear as tentações dos súditos,

e se não existisse a religião haveria o dobro de pessoas sobre as barricadas,

ao passo que nos dias da Comuna não eram suficientes

e foi possível dispersá-las sem muito trabalho. Mas, depois que escutei

aquele médico austríaco falar das vantagens da droga colombiana,

eu diria que a religião é também a cocaína dos povos, porque

a religião impeliu e impele às guerras, aos massacres dos infiéis, e

isso vale para cristãos, muçulmanos e outros idólatras, e, se os negros

da África se limitavam a se massacrar entre si, os missionários

os converteram e os fizeram tornar-se tropa colonial, adequadíssima

a morrer na primeira linha e a estuprar as mulheres brancas

quando entram em uma cidade. Os homens nunca fazem o mal tão

completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção

religiosa.

Os piores de todos são certamente os jesuítas. Tenho como que

a sensação de lhes haver pregado algumas peças, ou talvez tenham

sido eles que me fizeram mal, ainda não recordo bem. Ou talvez

tenham sido seus irmãos carnais, os maçons. Como os jesuítas,

apenas um pouco mais confusos. Aqueles ao menos têm lá uma

teologia e sabem como manobrá-la, esses a têm em demasia e nisso

perdem a cabeça. Dos maçons, falava-me meu avô. Com os judeus,

eles cortaram a cabeça do rei. E geraram os carbonários, maçons

um pouco mais estúpidos porque se deixavam fuzilar, antes, e depois

se deixaram cortar a cabeça por terem errado ao fabricar

uma bomba

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ou se tornaram socialistas, comunistas e communards; isto



é, partidários da Comuna. Todos no paredão. Bom trabalho, Thiers.

Maçons e jesuítas. Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.

Odeio as mulheres, pelo pouco que sei delas. Durante anos, fui

obsedado por aquelas brasseries à femmes, onde se reúnem malfeitores

de toda categoria. Piores do que as casas de tolerância. Essas ao

menos têm dificuldade de se instalar, por causa da oposição dos

vizinhos, ao passo que as cervejarias podem ser abertas em toda

parte porque, dizem, são apenas locais onde se vai para beber. Mas

se bebe no térreo e pratica-se o meretrício nos andares superiores.

Toda cervejaria tem um tema, e os trajes das moças se adaptam

a ele; aqui você encontra garçonetes alemãs, ali diante do Palácio

de Justiça outras em toga de advogado. Por outro lado, bastam os

nomes, como Brasserie du Tire-Cul, Brasserie des Belles Marocaines

ou Brasserie des Quatorze Fesses, não longe da Sorbonne. São quase

sempre mantidas por alemães; aí está um modo de minar a moralidade

francesa. Entre o quinto e o sexto arrondissements há ao

menos sessenta, mas em toda a Paris são ao menos duzentas, e todas

estão abertas até aos muito jovens. Primeiro, os rapazes entram por

curiosidade, depois por vício, e por fim contraem gonorreia —

quando têm sorte. Se a cervejaria for perto de uma escola, na saída

os estudantes

vão espiar as moças através da porta. Eu vou para

beber. E para espiar lá de dentro através da porta os estudantes que

espiam através da porta. E não só os estudantes. Aprendem-se muitas

coisas sobre usos e frequentações dos adultos, e sempre podem

ser úteis.

A coisa que mais me diverte é identificar nas mesas a natureza

dos vários cafetões em espera; alguns são maridos que sobrevivem

à custa das graças da mulher, e esses ficam juntos, bem-vestidos,

fumando e jogando baralho, e o dono ou as moças falam deles

como sendo a mesa dos cornos; mas no Quartier Latin muitos são

ex-estudantes falidos, sempre tensos no temor de que alguém lhes

afane sua renda e com frequência puxam uma faca. Os mais tranquilos

são os ladrões e os assassinos, que vão e vêm porque devem

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tratar dos seus golpes e sabem que as moças não irão traí-los, porque



no dia seguinte estariam boiando no Bièvre.

Há também uns invertidos, que se ocupam de capturar depravados

ou depravadas para os serviços mais imundos. Conseguem os

clientes no Palais-Royal ou nos Champs-Élysées e os atraem com

sinais convencionados. Muitas vezes fazem chegar ao quarto seus

cúmplices disfarçados de policiais, que ameaçam prender o cliente

de cuecas; esse começa a implorar piedade e puxa um punhado

de soldos.

Quando entro nesses lupanares, faço-o com prudência, pois

sei o que poderia me acontecer. Se o cliente parece ter dinheiro,

o proprietário acena, uma moça se aproxima e aos poucos convence

esse freguês a convidar à mesa todas as outras e passa a consumir

as coisas mais caras (elas, porém, para não se embriagarem, bebem

anisette superfine ou cassis fin, água colorida que o cliente paga a

preço alto). Depois procuram fazê-lo jogar baralho; naturalmente

trocam sinais, você perde e precisa pagar o jantar de todas, o do

proprietário e o da mulher dele. E, se você tenta parar, então lhe

propõem jogar não por dinheiro, mas a cada mão que você vencer

uma das moças tira uma peça de roupa... E a cada rendinha que

cai, aparecem aquelas repelentes carnes brancas, aqueles seios túrgidos,

aquelas axilas escuras de um azedume que o deixa tonto...

Nunca subi ao andar superior. Alguém já disse que as mulheres

não passam de um sucedâneo do vício solitário, apenas é necessário

mais fantasia. Então, volto para casa e as imagino à noite; afinal não

sou de ferro, e também foram elas que me provocaram.

Li o doutor Tissot; sei que as mulheres fazem mal até de longe.

Não sabemos se os espíritos animais e o líquido genital são a mesma

coisa, mas é certo que esses dois fluidos têm uma certa analogia,

e depois de longas poluções noturnas não somente se perdem

as forças, mas também o corpo emagrece, o rosto empalidece, a

memória se desfaz, a vista se enevoa, a voz se faz rouca, o sono

é perturbado por sonhos irrequietos, sentem-se dores nos olhos e

aparecem manchas vermelhas na face; alguns cospem matérias calcinadas,

sentem palpitações, sufocações, desmaios, outros reclamam

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de prisão de ventre ou de emissões cada vez mais fétidas. Por fim,



a cegueira.

Talvez sejam exageros; quando jovem eu tinha o rosto pustuloso,

mas, ao que parece, era típico da idade, ou talvez todos os

rapazes se proporcionem esses prazeres, alguns de modo excessivo,

tocando-se dia e noite. Agora, porém, sei me dosar. Só tenho sonos

ansiosos quando volto de uma noitada na cervejaria, e não me

acontece, como a muitos, ter ereções só de ver na rua um rabo de

saia. O trabalho me refreia do relaxamento dos costumes.

Mas, por que fazer filosofia em vez de reconstituir os eventos?

Talvez porque eu precise saber não apenas o que fiz anteontem mas

também como sou por dentro. Supondo-se que exista um dentro.

Dizem que a alma é somente aquilo que se faz, mas, se eu odeio

alguém e cultivo esse rancor, santo Deus, isso significa que existe

um dentro! Como dizia o filósofo? Odi ergo sum.

Há pouco tocaram a campainha lá embaixo. Temi que fosse alguém

tão estulto a ponto de querer comprar alguma coisa, mas o

sujeito logo me disse ter sido mandado por Tissot — afinal, por

que escolhi essa senha? Queria um testamento hológrafo, firmado

por um certo Bonnefoy a favor de um certo Guillot (certamente

era ele). Trazia o papel de carta que esse Bonnefoy usa ou usava e

um exemplo da sua caligrafia. Introduzi Guillot ao escritório, escolhi

uma pena e tinta adequadas e, sem sequer fazer um rascunho,

construí o documento. Perfeito. Como se conhecesse as tarifas,

Guillot me estendeu um pagamento proporcional à herança.

Então, é esse o meu ofício? É bonito construir do nada um ato

notarial, forjar uma carta que parece verdadeira, elaborar uma confissão

comprometedora, criar um documento que levará alguém à

perdição. O poder da arte... Digno de me premiar com uma visita

ao Café Anglais.

Devo ter a memória no nariz, mas tenho a impressão de que há

séculos já não aspiro o perfume daquele menu: soufflés à la reine,

filets de sole à la Vénitienne, escalopes de turbot au gratin, selle de

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mouton purée bretonne... E como entrée: poulet à la portugaise ou



pâté chaud de cailles ou homard à la parisienne, ou tudo junto, e,

como plat de résistance, que sei eu, canetons à la rouennaise ou ortolans

sur canapés e, por entremet, aubergines à l’espagnole, asperges en

branches, cassolettes princesse... Como vinho, eu não saberia, talvez

Château Margaux ou Château Latour ou Château Lafite, depende

da safra. E, para concluir, uma bombe glacée.

A culinária sempre me satisfez mais do que o sexo — talvez uma

marca que os padres me deixaram.

Continuo sentindo uma espécie de nuvem, na mente, que me

impede de olhar para trás. Por que subitamente voltam a me aflorar

à memória minhas fugas para o Bicerin vestido com o hábito do

padre Bergamaschi? Eu tinha esquecido completamente o padre

Bergamaschi.

Quem era? Gosto de deixar correr a pena para onde

o instinto me conduz. Segundo aquele doutor austríaco, eu deveria

chegar


a um momento verdadeiramente doloroso para minha memória,

o qual explicaria por que de repente cancelei tantas coisas.

Ontem, dia que eu supunha terça-feira, 22 de março, acordei

como se soubesse muito bem quem era: o capitão Simonini, 67

anos feitos mas bem conservados (sou gordo o bastante para ser

considerado aquilo que chamam um belo homem) e havia assumido

em França aquele título como lembrança do vovô, aduzindo

vagos transcursos militares nas fileiras dos Mil garibaldinos, coisa

que nesse país, onde Garibaldi é mais estimado que na Itália, desfruta

de certo prestígio. Simone Simonini, nascido em Turim, de

pai turinês e mãe francesa (ou saboiana, mas poucos anos após seu

nascimento o reino da Sardenha cedeu a Saboia à França).

Ainda na cama, eu fantasiava... Dados os problemas que eu tinha

com os russos (os russos?), era melhor não aparecer nos meus

restaurantes preferidos. Poderia cozinhar algo eu mesmo. Trabalhar

algumas horas, preparando uma iguaria, me relaxa. Por exemplo,

umas côtes de veau Foyot: carne com ao menos quatro centímetros

de espessura, porção para dois, claro, duas cebolas de tamanho médio,

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50 gramas de miolo de pão, 75 de gruyère ralado, 50 de manteiga;



esfarela-se e torra-se o miolo até o transformar em farinha de

rosca, que será misturada com o gruyère; depois se descascam e picam

as cebolas, derretem-se 40 gramas de manteiga numa panelinha,

enquanto em outra refogam-se suavemente as cebolas com a

manteiga restante; cobre-se o fundo de um prato com metade das

cebolas, tempera-se com sal e pimenta a carne, que é colocada no

prato e guarnecida lateralmente com o restante das cebolas, envolve-

se tudo com uma primeira camada de farinha de rosca e queijo,

fazendo a carne aderir bem ao fundo do prato, deixando escorrer a

manteiga derretida e esmagando levemente com a mão; coloca-se

outra camada de farinha de rosca e queijo até formar uma espécie

de cúpula e acrescentando manteiga derretida; borrifa-se tudo com

vinho branco e caldo, sem ultrapassar a metade da altura da carne.

Coloca-se o prato no forno por cerca de meia hora, continuando a

molhar com o vinho e o caldo. Acompanhar com couve-flor sautée.

Exige um pouco de tempo, mas os prazeres da cozinha começam

antes dos prazeres do palato, e preparar significa pregustar,

como eu estava fazendo, ainda me espreguiçando na cama. Os tolos

precisam ter sob as cobertas uma mulher, ou um rapazinho, para

não se sentirem sós. Não sabem que a água na boca é melhor do

que uma ereção.

Eu tinha em casa quase tudo, menos o gruyère e a carne. Para a

carne, se fosse outro dia, haveria o açougue da place Maubert, mas,

sei lá por quê, às terças-feiras ele não abre. Eu conhecia outro, a

200 metros de distância, no boulevard Saint-Germain, e um breve

passeio não me faria mal. Vesti-me e, antes de sair, diante do espelho

acima da bacia, apliquei-me o costumeiro bigode preto e minha

bela barba. Em seguida, coloquei a peruca e a penteei repartida

ao meio, umedecendo levemente o pente com água. Agasalhei-

me


com o redingote e meti no bolsinho do colete o relógio de prata

com a corrente bem à vista. Para parecer um capitão reformado,

eu

gosto, enquanto falo, de brincar com uma caixinha de tartaruga,



cheia de losangos de alcaçuz e, no interior da tampa, o retrato de

uma mulher feia mas bem-vestida, sem dúvida uma querida defunta.

26

... Os jesuítas são maçons vestidos de mulher ... (p. 22)



27

Volta e meia meto na boca uma pastilha e faço-a passar de um

lado a outro da língua, o que me permite falar mais devagar — e o

ouvinte acompanha o movimento dos seus lábios e não fica muito

atento àquilo que você diz. O problema é ter o aspecto de alguém

dotado de uma inteligência menos que medíocre.

Desci e circulei pela rue Sauton, tentando não me deter diante

da cervejaria, de onde já de manhã cedo provinha o vozerio desgracioso

de suas mulheres perdidas.

A place Maubert já não é o pátio dos milagres que ainda era

quando aqui cheguei 35 anos atrás, formigante de comerciantes

de tabaco reciclado — o grosso obtido dos resíduos de charutos e

do fundo de cachimbos e o fino das primeiras guimbas de cigarros,

o grosso a um franco e vinte cêntimos, o fino entre um franco e

cinquenta e um franco e sessenta cêntimos a libra (embora aquela

indústria não rendesse, e afinal não rende muito, pois nenhum

daqueles industriosos recicladores, uma vez gasta uma parte consistente

dos seus ganhos em alguma cantina, não sabe mais onde dormir

à noite) —; de gigolôs que, depois de folgarem ao menos até

às duas da tarde, passavam o resto do dia fumando, apoiados a uma

parede como muitos aposentados de boa condição, entrando depois

em ação como cães pastores na calada das trevas; de ladrões reduzidos

a roubarem um ao outro porque nenhum burguês (exceto

algum boa-vida vindo do interior) ousaria atravessar aquela praça,

e eu seria uma presa fácil se não caminhasse com passo militar,

girando minha bengala — e também os batedores de carteira do

local me conheciam, alguns até me cumprimentavam chamando-me

de capitão; pensavam que de algum modo eu pertencia ao seu

submundo, e cão não come cão —; e de prostitutas de graças murchas

visto que, se ainda fossem atraentes, exerceriam nas brasseries

à femmes, e portanto se ofereciam somente aos trapeiros, aos vigaristas

e aos pestilentos fumantes de segunda mão — mas, ao verem

um senhor vestido com propriedade, com uma cartola bem escovada,

podiam ousar tocá-lo ou até segurá-lo por um braço, aproximando-

se a ponto de fazê-lo sentir aquele terrível perfume de

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poucos soldos que se empastava com o suor delas, e essa seria uma



experiência muito desagradável (eu não queria sonhar com elas

à noite) e portanto, quando via alguma se avizinhando, agitava a

bengala em círculo, como que para formar ao meu redor uma zona

protegida e inacessível, e elas compreendiam na hora, porque estavam

habituadas a ser comandadas e respeitavam uma bengala.

E por fim circulavam naquela multidão os espiões da chefatura

de polícia, que naquele lugar recrutavam seus mouchards ou informantes,

ou então captavam no ar informações preciosíssimas sobre

velhacarias que estavam sendo conspiradas e das quais alguém falava

a algum outro sussurrando em voz alta demais, pensando que no

rumor geral sua voz se perderia. Eram, porém, reconhecíveis à primeira

vista pelo aspecto exageradamente patibular. Nenhum verdadeiro

cafajeste se assemelha a um cafajeste. Só eles.

Hoje passam pela praça até os tramways, e você não se sente mais

em casa, embora, se souber identificá-los, ainda encontre os indivíduos

que podem lhe ser úteis, encostados em uma esquina,

na soleira

do Café Maître Albert ou em uma das ruelas adjacentes. Mas,

em suma, Paris não é mais como antes, desde quando em todo canto

surgem à distância aqueles apontadores de lápis da torre Eiffel.

Chega, não sou um sentimental, e existem outros lugares onde

sempre posso pescar aquilo de que preciso. Ontem pela manhã, eu

precisava da carne e do queijo, e a place Maubert serviria.

Adquirido o queijo, passei em frente ao açougue costumeiro e

vi que estava aberto.

— Como assim, abrindo numa terça-feira? — perguntei, entrando.

— Mas hoje é quarta-feira, capitão — respondeu o dono, rindo.

Confuso, pedi desculpas; disse que ao envelhecer a gente perde

a memória, ele afirmou que eu continuava um jovenzinho e que

todos ficam atordoados quando acordam muito cedo, eu escolhi

a carne e paguei sem sequer mencionar um desconto — o que é o

único modo de se fazer respeitar pelos comerciantes.

Ainda refletindo sobre, afinal, que dia era, subi à minha casa.

Pensei em tirar a barba e o bigode postiços, como faço quando estou sozinho,

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e entrei no quarto. E só então notei algo que parecia



fora do lugar: de um cabideiro, ao lado da cômoda, pendia uma

veste, um hábito indubitavelmente sacerdotal. Ao me aproximar, vi

que no tampo da cômoda havia uma peruca de cor castanha, quase

alourada.

Já me perguntava a qual miserável eu dera hospitalidade nos dias

precedentes quando me dei conta de que também estava mascarado,

uma vez que o bigode e a barba que usava não eram meus.

Então, eu era alguém que se disfarçava uma vez de abastado cavalheiro

e outra de eclesiástico? Mas por que havia cancelado qualquer

lembrança dessa minha segunda natureza? Ou, então, por qual

motivo (talvez para escapar de um mandado de captura) me travestia

com bigode e barba mas, ao mesmo tempo, hospedava na

minha casa alguém que se disfarçava de abade? E, se esse abade de

mentira (porque um abade verdadeiro não usaria uma peruca) vivia

comigo, onde dormia, visto que na casa havia somente uma cama?

Ou quem sabe ele não vivia comigo, e se refugiara na minha casa

na véspera por alguma razão, livrando-se depois do seu disfarce

para ir sabe Deus aonde, a fim de fazer sabe Deus o quê?

Senti um vazio na cabeça, como se visse algo de que deveria me

lembrar mas de que não me lembrava; quero dizer, como algo que

pertencesse às lembranças de outrem. Creio que falar de lembranças

de outrem é a expressão certa. Naquele momento, tive a sensação

de ser um outro que estava se observando, de fora. Alguém observava

Simonini, que tinha repentinamente a sensação de não saber

exatamente quem era.

Calma, raciocinemos, disse a mim mesmo. Para um indivíduo

que, sob o pretexto de vender bricabraque, falsifica documentos e

escolheu viver em um dos bairros menos recomendáveis de Paris,

não era inverossímil dar asilo a alguém envolvido em maquinações

pouco limpas. Mas ter esquecido a quem dava refúgio, isso não me

soava normal.

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Eu sentia a necessidade de olhar às minhas costas, e de repente



minha própria casa parecia um lugar estranho, que talvez escondesse

outros segredos. Comecei a explorá-la como se ela fosse a moradia

de outra pessoa. Quando se sai da cozinha, à direita fica o

quarto, à esquerda o salão com os móveis de sempre. Abri as gavetas

da escrivaninha, que continham meus instrumentos de trabalho,

as penas, os frasquinhos das várias tintas, folhas ainda brancas

(ou amarelas) de épocas e formatos diferentes; nas prateleiras, além

dos livros estavam as caixas com meus documentos e um tabernáculo

antigo em nogueira. Passei a tentar recordar para que servia

aquilo quando ouvi tocarem lá embaixo. Desci para escorraçar

algum importuno e vi uma velha que acreditei conhecer. Através

da vidraça, ela me disse “fui enviada por Tissot”, e fui obrigado a

fazê-la entrar; sei lá por que escolhi aquela senha.

Ela entrou e abriu um pano que trazia apertado ao peito, mostrando-

me vinte hóstias.

— O abade Dalla Piccola me disse que o senhor estava interessado.

Surpreendi-me respondendo “certo”, e perguntei quanto. Dez

francos cada uma, foi o que disse a velha.

— A senhora está maluca — respondi, por instinto de comerciante.

— Maluco é o senhor, que celebra missas negras com elas. Acha

fácil ir a vinte igrejas em três dias, receber a comunhão depois de

procurar manter a boca seca, ajoelhar-se com as mãos no rosto,

tentar retirar as hóstias da boca sem que se umedeçam e recolhê-las

em uma bolsa que levo junto aos seios, de tal modo que nem o

vigário nem os vizinhos percebam? Sem falar do sacrilégio e do

inferno que me espera. Portanto, se quiser, são duzentos francos,

ou então vou procurar o abade Boullan.

— O abade Boullan morreu. Vê-se que a senhora não consome

hóstias faz tempo — respondi quase maquinalmente. Depois decidi

que, com a confusão que sentia na cabeça, devia seguir meu instinto

sem refletir demais. — Está bem, fico com elas — concluí e paguei.

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E compreendi que devia guardar as partículas no tabernáculo



do meu escritório, à espera de algum cliente aficionado. Um

trabalho como outro qualquer.

Em suma, tudo me parecia cotidiano, familiar. No entanto, eu

sentia ao meu redor como que o odor de algo sinistro, que me

escapava.

Tornei a subir ao escritório e notei que, coberta por um reposteiro,



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