O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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ao fundo havia uma porta. Abri-a já sabendo que entraria

em um corredor tão escuro que seria preciso percorrê-lo com uma

lamparina. O corredor se assemelhava ao depósito de acessórios de

um teatro ou ao armazém de um adeleiro do Templo. Nas paredes,

estavam pendurados os trajes mais díspares, de camponês, de carbonário,

de carteiro, de mendigo, um gibão e umas calças de soldado,

e, ao lado das roupas, os adereços de cabeça que deveriam

completá-las. Uma dúzia de cabeças dispostas em boa ordem sobre

um console de madeira sustentavam outras tantas perucas. Ao fundo,

uma coiffeuse semelhante à dos camarins de atores, coberta por

potinhos de alvaiade e de ruge, lápis pretos e turqui, patas de lebre,

esponjas, pincéis, escovinhas.

Em certo ponto, o corredor dobrava em ângulo reto e, no final,

havia outra porta que conduzia a um aposento mais luminoso do

que os meus, porque recebia a luz de uma rua que não era o apertado

impasse Maubert. De fato, debruçando-me em uma das janelas,

vi que ele dava para a rue Maître Albert.

Desse aposento, uma escadinha levava à rua, mas isso era tudo.

Tratava-se de um conjugado, algo entre um escritório e um quarto,

com móveis sóbrios e escuros, uma mesa de trabalho, um genuflexório,

uma cama. Junto à saída abria-se uma pequena cozinha e,

sob a escada, uma chiotte com pia.

Era evidentemente o pied-à-terre de um eclesiástico, com quem

eu devia ter alguma familiaridade, uma vez que nossos dois apartamentos

se comunicavam. Embora o conjunto parecesse me lembrar

alguma coisa, na verdade eu tinha a impressão de estar visitando

aquele aposento pela primeira vez.

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Aproximei-me da mesa e vi um feixe de cartas com seus envelopes,



todos endereçados à mesma pessoa: Ao Reverendíssimo, ou ao

Muito Reverendo, Senhor Abade Dalla Piccola. Junto às cartas,

notei umas folhas escritas em uma caligrafia fina e graciosa, quase

feminina, muito diferente da minha. Esboços de cartas sem nenhuma

importância especial, agradecimentos por uma dádiva, confirmações

de um encontro. O papel que estava sobre todos, porém,

era redigido de maneira desordenada, como se quem escrevia estivesse

tomando notas para fixar alguns pontos sobre os quais refletir.

Com alguma dificuldade, li:

Tudo parece irreal. Como se eu fosse um outro que me observa. Registrar

por escrito para ter certeza de que é verdade.

Hoje é 22 de março.

Onde estão o hábito e a peruca?

O que eu fiz ontem à noite? Tenho uma espécie de névoa na cabeça.

Não recordava sequer aonde levava a porta ao fundo do aposento.

Descobri um corredor (nunca o vi?) cheio de roupas, perucas, cremes

e maquilagens daquelas que os atores usam.

Do mancebo pendia um bom hábito sacerdotal, e em uma bancada

encontrei não só uma boa peruca mas também sobrancelhas postiças.

Com um fundo ocre, duas maçãs do rosto levemente rosadas, voltei

àquilo que creio ser, aspecto pálido e ligeiramente febril. Ascético. Sou

eu. Eu quem?

Sei que sou o abade Dalla Piccola. Ou, melhor, aquele que o mundo

conhece como abade Dalla Piccola. Mas evidentemente não o sou, visto

que, para semelhá-lo, devo me travestir.

Aonde leva aquele corredor? Medo de ir até o fundo.

Reler as anotações acima. Se aquilo que está escrito está escrito,

realmente me aconteceu. Ter fé nos documentos escritos.

Alguém me administrou um elixir? Boullan? Bem possível. Ou os jesuítas?

Ou os franco-maçons? O que tenho a ver com eles?

Os judeus! Eis quem pode ter sido.

Aqui não me sinto em segurança. Alguém pode ter entrado na noite

alta, ter me subtraído as roupas e, o que é pior, espiado meus papéis.

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Talvez alguém esteja circulando por Paris fazendo-se acreditar por todos



o abade Dalla Piccola.

Devo me refugiar em Auteuil. Talvez Diana saiba. Quem é Diana?

As anotações do abade Dalla Piccola paravam aqui, e é curioso

que ele não tivesse guardado consigo um documento tão confidencial,

indício da agitação que certamente o tomava. E aqui acabava

o que eu podia saber sobre ele.

Voltei ao apartamento do impasse Maubert e sentei-me à minha

mesa de trabalho. De que modo a vida do abade Dalla Piccola se

cruzava com a minha?

Naturalmente, eu não podia evitar a hipótese mais óbvia. O

abade Dalla Piccola e eu éramos a mesma pessoa e, se assim fosse,

tudo se explicaria: os dois apartamentos em comum e até mesmo

que eu houvesse retornado vestido de Dalla Piccola ao apartamento

de Simonini, ali tivesse deixado hábito e peruca e em seguida adormecido.

Exceto por um pequeno detalhe: se Simonini era Dalla

Piccola, por que eu ignorava tudo sobre Dalla Piccola e não me

sentia Dalla Piccola que ignorava tudo sobre Simonini — e até para

conhecer os pensamentos e os sentimentos de Dalla Piccola, precisara

ler seus apontamentos? E, se eu também fosse Dalla Piccola,

deveria estar em Auteuil, naquela casa sobre a qual ele parecia saber

tudo e eu (Simonini), nada. E quem era Diana?

A não ser que eu fosse parte Simonini que esquecera Dalla Piccola,

parte Dalla Piccola que esquecera Simonini. Não seria uma

novidade. Quem é que me falou de casos de dupla personalidade?

Não é o que acontece com Diana? Mas quem é Diana?

Propus-me prosseguir com método. Sabia ter um caderno com

meus compromissos, e nele encontrei as seguintes anotações:

21 de março, missa

22 de março, Taxil

23 de março, Guillot para testamento Bonnefoy

24 de março, ver Drumont?

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Por que eu deveria ir à missa em 21 de março, não sei, não creio



ser crente. Se a pessoa é crente, crê em alguma coisa. Creio em alguma

coisa? Não me parece. Portanto, sou descrente. Isso é lógica.

Mas deixemos para lá. Certas vezes vai-se à missa por muitas razões,

e a fé nada tem a ver.

Mais seguro era que aquele dia, que eu acreditava terça-feira,

era quarta-feira 23 de março, e realmente viera o tal Guillot para

me fazer redigir o testamento Bonnefoy. Era o dia 23, e eu achava

que era 22. O que havia acontecido no dia 22? Quem ou o que

era Taxil?

O fato de na quinta-feira eu precisar ver aquele Drumont estava

agora fora de questão. Como poderia encontrar alguém, se nem

sabia mais quem era eu? Devia me esconder, até esclarecer as ideias.

Drumont... Imaginei que sabia muito bem quem era esse homem,

mas, se tentasse pensar nele, era como se tivesse a mente ofuscada

pelo vinho.

Levantemos algumas hipóteses, disse a mim mesmo. Primeiro:

Dalla Piccola é um outro, que por misteriosas razões passa com

frequência na minha casa, ligada à sua por um corredor mais ou

menos secreto. Na noite de 21 de março, ele voltou aqui pelo impasse

Maubert, despiu o hábito (por quê?) e foi dormir na sua

própria casa, onde acordou desmemoriado pela manhã. E assim,

igualmente desmemoriado, eu acordara duas manhãs depois. Mas,

nesse caso, o que eu teria feito na terça-feira 22, se despertara desprovido

de memória na manhã do dia 23? E, afinal, por que Dalla

Piccola deveria se despir em minha casa e, em seguida, entrar na

sua sem vestir o hábito — e a que horas? Fui assaltado pelo terror

de que ele houvesse passado a primeira parte da noite em minha

cama... Meu Deus, é verdade que as mulheres me causam horror,

mas com um abade seria pior. Sou casto, mas não pervertido...

Ou então, Dalla Piccola e eu somos a mesma pessoa. Visto que

encontrei o hábito no meu quarto, depois do dia da missa (21)

eu poderia ter voltado ao impasse Maubert, disfarçado de Dalla

Piccola (se deveria ir a uma missa, era mais crível que fosse como

abade), para depois me livrar do hábito e da peruca e, mais tarde,

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dormir no apartamento do abade (esquecendo ter deixado o hábito



na casa de Simonini). Na manhã seguinte, terça-feira 22 de

março, acordando como Dalla Piccola, não só me veria desmemoriado

como também sequer encontraria o hábito aos pés da cama.

Na pele de Dalla Piccola, desmemoriado, teria encontrado um

hábito sobressalente no corredor e teria tido todo o tempo para

fugir na mesma data para Auteuil, exceto se mudasse de ideia no

final do dia, criasse coragem e retornasse a Paris tarde da noite, para

o apartamento do impasse Maubert, deixando o hábito no cabide

do quarto e acordando, novamente desmemoriado, mas como Simonini,

na quarta-feira, acreditando que ainda era terça-feira. Então,

eu me dizia, Dalla Piccola esquece o 22 de março, e permanece

esquecido um dia inteiro, para depois se reencontrar no dia 23

como um Simonini desmemoriado. Nada de excepcional, depois

daquilo que eu soube por... Como se chama aquele doutor da clínica

de Vincennes?

Salvo por um pequeno problema. Eu havia relido minhas anotações:

se as coisas tivessem assim, na manhã de 23 Simonini deveria

encontrar no quarto não um, mas dois hábitos, aquele que ele

deixara na noite de 21 e aquele que havia deixado na noite de 22.

No entanto, havia somente um.

Mas, não, que idiota. Dalla Piccola voltara de Auteuil na noite

do dia 22 para a rue Maître Albert, deixara ali seu hábito, depois

passara ao apartamento do impasse Maubert e fora dormir, acordando

na manhã seguinte (dia 23) como Simonini e encontrando

no cabide um único hábito. É verdade que, se as coisas houvessem

ocorrido

assim, na manhã do dia 23, quando entrara no apartamento

de Dalla Piccola, eu deveria ter encontrado no quarto dele

o hábito que havia deixado ali na noite de 22 de março. Mas poderia

tê-lo pendurado no corredor onde o achara. Bastava conferir.

Percorri o corredor com a lamparina acesa e algum temor. Se

Dalla Piccola não fosse eu, dizia-me, poderia me aparecer, pela outra

extremidade daquela passagem, também ele com uma luz acesa

diante de si... Por sorte, isso não aconteceu. E no fundo do corredor

encontrei o hábito pendurado.

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No entanto, no entanto... Se Dalla Piccola tivesse retornado de



Auteuil e, tendo despido o hábito, percorrido todo o corredor até

meu apartamento e se deitado sem hesitações na minha cama, era

porque àquela altura se lembrara de mim e sabia que podia dormir

junto de mim como junto de si mesmo, visto que éramos a mesma

pessoa. Por conseguinte, Dalla Piccola fora para a cama sabendo ser

Simonini, ao passo que, na manhã seguinte, Simonini acordara sem

saber ser Dalla Piccola. Ou seja, primeiro Dalla Piccola perde a

memória, depois a recupera, vai dormir e transfere a Simonini seu

desmemoriamento.

Desmemoriamento... Essa palavra, que significa a não lembrança,

abriu-me uma espécie de brecha na névoa do tempo que esqueci.

Eu falava de desmemoriados no Magny, mais de dez anos atrás.

Era lá que falava deles com Bourru e Burot, com Du Maurier e

com o doutor austríaco.

37

... No passado, era considerada um fenômeno exclusivamente



feminino, resultante de distúrbios da função uterina ... (p. 41)

3.


CHEZ MAGNY

25 de março de 1897, ao amanhecer


Chez Magny... Sei que sou um amante da boa cozinha e, pelo que recordo, naquele restaurante da rue de la Contrescarpe-Dauphine não se pagava mais de dez francos

por cabeça, e a qualidade correspondia ao preço. Mas não se pode ir todo dia ao Foyot. Muitos, nos anos passados, iam ao Magny para admirar a distância escritores

já célebres como Gautier ou Flaubert, e antes ainda aquele pianistazinho polonês tísico, sustentado por uma degenerada que vestia calças. Eu tinha dado uma olhada

neles certa noite, e saído logo. Os artistas, mesmo de longe, são insuportáveis, ficam observando ao redor para conferir se nós os reconhecemos.

Depois, os grandes abandonaram o Magny e emigraram para o Brébant-Vachette, no boulevard Poissonnière, onde se comia melhor e o preço era maior, mas vê-se que carmina

dant panem. E quando o Magny, por assim dizer, purificou-se, algumas vezes experimentei visitá-lo, desde o início dos anos 1880.

Eu tinha reparado que o lugar era frequentado por homens de ciência, por exemplo químicos ilustres como Berthelot e muitos médicos da Salpêtrière. O hospital não

fica exatamente a dois passos, mas talvez aqueles clínicos gostassem de dar um breve passeio pelo Quartier Latin em vez de comerem nas imundas gargotes aonde vão

os parentes dos enfermos. As conversas dos médicos são interessantes porque sempre se referem às debilidades de algum outro, e no Magny, para se sobrepor ao ruído,

todos falam em voz alta, de modo que um ouvido adestrado sempre pode captar algo de interessante. Estar atento não significa procurar saber algo

preciso.

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Tudo, até o irrelevante, pode ser útil um dia. O importante é saber aquilo que os outros não sabem que você sabe.



Se os literatos e os artistas sempre se sentavam em torno de mesas comuns, os homens de ciência almoçavam sozinhos, como eu. Porém, depois de ter tido um vizinho

de mesa por algumas vezes, você acaba travando conhecimento com ele. Meu primeiro conhecido foi o doutor Du Maurier, indivíduo odiosíssimo a ponto de você se perguntar

como podia um psiquiatra infundir confiança aos seus pacientes exibindo uma cara tão desagradável. Um rosto invejoso e ressentido de quem se considera em eterno

segundo lugar. De fato, ele dirigia uma pequena clínica para doentes dos nervos em Vincennes, mas sabia muitíssimo bem que sua instituição de tratamento jamais gozaria

da fama e das rendas da clínica do doutor Blanche, mais célebre - embora Du Maurier murmurasse sarcástico que, trinta anos antes, ali se internara um certo Nerval

segundo ele, poeta de algum mérito que os cuidados da famosíssima clínica Blanche levaram ao suicídio.

Outros dois comensais com quem instaurei boas relações eram os doutores Bourru e Burot, dois tipos singulares que pareciam irmãos gêmeos, vestidos sempre de preto,

a roupa quase com o mesmo corte, os mesmos bigodes negros e queixo glabro, com o colarinho sempre um tanto sujo, fatalmente, porque em Paris estavam em trânsito,

dado que exerciam na Ecole de Médecine de Rochefort e vinham à capital somente por alguns dias a cada mês, a fim de acompanhar as experiências de Charcot.

- Como, não teremos alho-poró hoje? - perguntou um dia Bourru, irritado.

E Burot, escandalizado:

- Não teremos alho-poró?

Enquanto o garçom se desculpava, eu intervim, da mesa vizinha:

- Mas eles têm excelentes barbas-de-bode. Eu até as prefiro ao poró. - Depois cantarolei, sorrindo: - Tous les légumes au clair de lune étaient en train de s amuser

... Et les passants les regardaient. Les cornichons dansaient en rond, les salsifis dansaient sans bruit...

Convencidos, os dois comensais escolheram o salsifis. E dali começou uma convivência cordial, por dois dias ao mês.

- Veja, monsieur Simonini - explicava-me Bourru -, o doutor Charcot está estudando a fundo a histeria, uma forma de nevrose que se manifesta por várias reações

psicomotoras, sensoriais e vegetativas. No passado, era considerada fenômeno exclusivamente

feminino, resultante de distúrbios da função uterina, mas Charcot intuiu

que as manifestações histéricas são igualmente difundidas nos dois sexos e podem incluir paralisia, epilepsia, cegueira ou surdez, dificuldade de respirar, falar,

engolir.

- O colega - intervinha Burot - ainda não disse que Charcot pretende ter elaborado uma terapia que cura os sintomas dessa enfermidade.

- Eu iria chegar lá - respondia Bourru, melindrado. - Charcot escolheu o caminho do hipnotismo, que até ontem era matéria para charlatães como Mesmer. Os pacientes,

submetidos à hipnose, deveriam evocar os episódios traumáticos que estão na origem da histeria e sarar ao tomarem consciência deles.

- E saram?

- Esse é o ponto, monsieur Simonini - dizia Bourru. - Para nós, o que muitas vezes ocorre na Salpêtrière mais parece teatro do que clínica psiquiátrica. Entenda

bem, não estou pondo em questão as infalíveis qualidades diagnósticas do Mestre...

- Não duvidamos delas - confirmava Burot. - É a técnica do hipnotismo em si que...

Bourru e Burot me explicaram os vários sistemas de hipnose, desde aqueles ainda charlatanescos de um certo abade Faria esse nome dumasiano me deixou de orelha em

pé, mas sabe-se que Dumas saqueava crônicas verdadeiras até os já científicos do doutor Braid, um verdadeiro pioneiro.

- Agora - dizia Burot -, os bons magnetizadores seguem métodos mais simples.

- E mais eficazes - esclarecia Bourru. - Diante do enfermo, faz-se oscilar uma medalha ou uma chave, pedindo-lhe que a olhe fixamente: no arco de um a três minutos

as pupilas do indivíduo

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têm um movimento oscilatório, o pulso cai, os olhos se fecham, o rosto exprime uma sensação de repouso e o sono pode durar até vinte minutos.



- Convém acrescentar - corrigia Burot - que depende do indivíduo, porque a magnetização não resulta da transmissão de fluidos misteriosos como queria aquele bufão

do Mesmer , mas de fenômenos de autossugestão. E os ascetas indianos obtêm o mesmo resultado olhando atentamente a ponta do nariz; ou os monges do monte Athos, fitando

o próprio umbigo.

- Nós não acreditamos muito nessas formas de autossugestão - complementava Burot -, embora não façamos outra coisa senão pôr em prática intuições que foram próprias

de Charcot antes que ele começasse a ter tamanha fé no hipnotismo. Estamos nos ocupando de casos de variação da personalidade; isto é, de pacientes que um dia pensam

ser uma pessoa e outro dia, outra, e as duas personalidades se ignoram reciprocamente. No ano passado, entrou para nosso hospital um certo Louis.

- Caso interessante - precisava Bourru. - Apresentava paralisia, anestesias, contraturas, espasmos musculares, hiperestesias, mutismo, irritações cutâneas, hemorragias,

tosse, vômito, ataques epilépticos, catatonia, sonambulismo, dança de São Guido, malformações da linguagem...

- Às vezes se acreditava um cão - completava Burot -, ou uma locomotiva a vapor. E também tinha alucinações persecutórias, restrições do campo visual, alucinações

gustativas, olfativas e visuais, congestão pulmonar pseudotubercular, cefaleias, dor de estômago, prisão de ventre, anorexia, bulimia e letargia, clep- tomania...

- Em suma - concluía Bourru -, um quadro normal. Pois bem, nós, em vez de recorrermos à hipnose, aplicamos uma barra de aço sobre o braço direito do enfermo, e eis

que nos apareceu, como por encanto, um personagem novo. Paralisia e insensibilidade desapareceram do lado direito e se transferiram para o lado esquerdo.


Charcot escolheu o caminho do hipnotismo, que até ontem era matéria para charlatães como Mesmer ... p. 41

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- Estávamos diante de outra pessoa - esclarecia Burot



-, que não recordava nada daquilo que era um instante antes. Em um dos seus estados, Louis era abstêmio e no outro, tornava-se até inclinado à embriaguez.

- Note-se - dizia Bourru - que a força magnética de uma substância age inclusive a distância. Por exemplo, sem que o indivíduo saiba, coloca-se embaixo da sua cadeira

uma garrafinha que contenha uma substância alcoólica. Nesse estado de sonambulismo, ele mostrará todos os sintomas da embriaguez.

- O senhor compreenderá que nossas práticas respeitam a integridade psíquica do paciente - concluía Burot. - O hipnotismo faz o indivíduo perder a consciência, ao

passo que, com o magnetismo, não há comoção violenta sobre um órgão, mas uma carga progressiva dos plexos nervosos.

Daquela conversa, extraí a convicção de que Bourru e Burot eram dois imbecis que atormentavam pobres dementes com substâncias urticantes, e fui confortado na minha

certeza ao ver o doutor Du Maurier, que da mesa vizinha acompanhava a conversa, balançar a cabeça várias vezes.

- Caro amigo - disse-me ele dois dias depois -, tanto Charcot quanto os nossos dois de Rochefort, em vez de analisarem o que seus pacientes viveram e de se perguntarem

o que significa ter duas consciências, só se ocupam da possibilidade de agir sobre eles com o hipnotismo ou com barras de metal. O problema é que, em muitos indivíduos,

a passagem de uma personalidade à outra ocorre espontaneamente, de modos e em momentos imprevisíveis. Poderíamos falar de auto-hipnotismo. Na minha opinião, Charcot

e seus discípulos não refletiram o suficiente sobre as experiências do doutor Azam e sobre o caso Félida. Ainda sabemos pouco sobre esses fenômenos; o distúrbio

de memória pode ter por causa uma diminuição do aporte de sangue a uma parte ainda desconhecida do cérebro, e o restringimento momentâneo dos vasos pode ser provocado

pelo estado de histeria. Mas onde falta o afluxo de sangue nas perdas de memória?

- Onde falta? - Esse é o ponto. O senhor sabe que nosso cérebro tem dois hemisférios. Portanto, podem existir indivíduos que ora pensam com um hemisfério completo

e ora com um incompleto, no qual falta a faculdade da memória. No momento, tenho na clínica um caso muito semelhante ao de Félida. Uma jovem de pouco mais de 20

anos, chamada Diana.

Aqui Du Maurier se deteve um instante, como se temesse confessar algo reservado.

- Uma parenta me confiou a jovem para tratamento, dois anos atrás, e depois morreu, obviamente deixando de pagar a mensalidade, mas o que eu devia fazer? Jogar a

paciente na rua? Sei pouco sobre seu passado. Segundo suas narrativas, parece que desde a adolescência, a intervalos de cinco ou seis dias, ela começou a sentir,

depois de uma emoção, dores nas têmporas e, em seguida, caía em uma espécie de sono. Na realidade, o que ela chama de sono são ataques histéricos: quando acorda,

ou quando se acalma, está muito diferente do que era antes; isto é, entrou naquilo que já o doutor Azam chamava de condição segunda . Na condição que definiremos

como normal, Diana se comporta como adepta de uma seita maçónica... Não me entenda mal, eu também pertenço ao Grande Oriente, ou seja, à maçonaria das pessoas de

bem, mas talvez o senhor saiba que existem várias obediências de tradição templária, com estranhas propensões para as ciências ocultas, e algumas dessas são periféricas,

naturalmente, por sorte se inclinam a ritos satânicos. Na condição que infelizmente é preciso definir como normal , Diana se considera adepta de Lúcifer ou coisas

do gênero, faz discursos licenciosos, conta episódios lúbricos, tenta seduzir os enfermeiros e até a mim; lamento dizer uma coisa tão embaraçosa, até porque Diana

é aquilo que se considera uma mulher atraente. Acredito que, nessa condição, ela sente traumas que sofreu no decorrer da sua adolescência e tenta escapar a essas

lembranças entrando, a intervalos, na sua condição segunda. Nessa, Diana aparece como uma criatura branda e cheia de candura, é uma boa cristã, pede sempre seu livro

de orações, quer sair para ir à missa. Mas o fenômeno singular, que também acontecia com Félida, é que na condição segunda, quando é a Diana virtuosa, ela se lembra



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