O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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muito bem de como era na condição normal, se atormenta, se pergunta como pode ter sido tão má, se castiga com um cilício a tal ponto que chama a condição segunda

seu estado de razão , e evoca sua condição normal como um período no qual era vítima de alucinações. Na condição normal, ao contrário, Diana não se lembra de nada

do que faz na condição segunda. Os dois estados se alternam a intervalos imprevisíveis, e às vezes ela permanece em uma ou na outra condição por vários dias. Eu

concordaria com o doutor Azam quando fala em sonambulismo perfeito . De fato, não apenas os sonâmbulos, mas também os que consomem drogas, haxixe, beladona, ópio

ou abusam do álcool, fazem coisas das quais não se lembram ao despertar.

Não sei por que a narrativa sobre a doença de Diana me deixou tão intrigado, mas recordo ter dito a Du Maurier:

- Falarei disso com um conhecido meu, que cuida de casos lastimáveis como esse e sabe onde hospedar uma jovem órfã. Enviarei o abade Dalla Piccola, um religioso

muito poderoso no âmbito das instituições pias.

Portanto, quando falava com Du Maurier, eu conhecia no mínimo o nome de Dalla Piccola. Mas por que me preocupava tanto com aquela Diana?

Estou escrevendo ininterruptamente há horas, o polegar me dói, e me limitei a comer sempre à minha mesa de trabalho, espalhando patê e manteiga no pão, com uns copos

de Château Latour, para estimular a memória.

Gostaria de me premiar, não sei, quem sabe com uma visita ao Brébant-Vachette, mas, enquanto não compreender quem sou, não posso me mostrar por aí. Seja como for,

mais cedo ou mais tarde deverei me aventurar ainda pela place Maubert, a fim de trazer para casa alguma comida.

Por enquanto não pensemos nisso, e voltemos a escrever.


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Naqueles anos creio ter sido em 1885 ou 1886 , conheci no Magny aquele que continuo a recordar como o doutor austríaco ou alemão . Agora volta-me à mente o nome,

chamava-se Froide acho que se escreve assim , um médico com seus 30 anos, que certamente só ia ao Magny porque não podia se permitir algo melhor e que fazia um período

de aprendizado com Charcot. Costumava se sentar à mesa vizinha e, no início, nos limitávamos a trocar um educado aceno de cabeça. Eu o tinha julgado de natureza

melancólica, um pouco deslocado, timidamente desejoso de que alguém escutasse suas confidências para descarregar um pouco das suas ansiedades. Em duas ou três ocasiões,

ele havia buscado pretextos para trocar umas palavras, mas eu sempre me mantivera reservado.

Embora o nome Froide não me soasse como Steiner ou Rosen- berg, eu sabia que todos os judeus que vivem e enriquecem em Paris têm nomes alemães, e, desconfiado daquele

nariz adunco, um dia perguntei a Du Maurier, o qual fez um gesto vago, acrescentando: Não sei bem, mas em todo caso me mantenho à parte; judeu e alemão é uma mistura

que não me agrada.

- Ele não é austríaco? - perguntei.

- Dá no mesmo, não? Mesma língua, mesmo modo de pensar. Não esqueci os prussianos que desfilavam pelos Champs-Elysées.

- Disseram-me que a profissão médica está entre as mais praticadas pelos judeus, tanto quanto o empréstimo a juros. Sem dúvida, é melhor nunca precisar de dinheiro

e jamais cair doente.

- Mas também existem os médicos cristãos - sorriu Du Maurier, gélido.

Eu tinha cometido uma gafe.

Entre os intelectuais parisienses, há quem admita, antes de exprimir a própria repugnância ante os judeus, que alguns dos seus melhores amigos o são. Hipocrisia.

Não tenho amigos judeus Deus me livre ; na minha vida sempre evitei essa gente. Talvez os tenha evitado por instinto, porque o judeu veja só, como o alemão sente-se

pelo bodum disse-o inclusive Victor Hugo,fetor judaica , que os ajuda a se reconhecerem, por esses e outros sinais, como acontece aos pederastas. Meu avô me recordava

que o cheiro deles resulta do uso desmedido de alho e cebola e talvez das carnes de carneiro e de ganso, sobrecarregadas por açúcares viscosos que as tornam atrabiliárias.

Mas devem ser também a raça, o sangue infecto, os dorsos derreados. São todos comunistas, vejam-se Marx e Lassalle, ao menos nisso meus jesuítas tinham razão.

Sempre evitei os judeus também porque estou atento aos sobrenomes. Os judeus austríacos, quando enriqueciam, compravam sobrenomes graciosos, de flor, de pedra preciosa

ou de metal nobre, daí Silbermann ou Goldstein. Os mais pobres adquiriam sobrenomes como Grünspan azinhavre . Na França, como na Itália, mascararam-se adotando nomes

de cidades ou de lugares, como Ravenna, Modena, Picard, Flamand, e por vezes se inspiraram no calendário revolucionário Froment, Avoine, Laurier -justamente, visto

que seus pais foram os artífices ocultos do regicídio. Convém, porém, prestar atenção também aos nomes próprios que às vezes mascaram nomes judeus: Maurice vem de

Moisés, Isidore de Isaac, Edouard de Aarão, Jacques de Jacó e Alphonse de Adão...

Sigmund é um nome judeu? Por instinto, eu tinha decidido não dar confiança àquele medicozinho, mas um dia, ao pegar o saleiro, Froide o derrubou. Entre vizinhos

de mesa devem-se respeitar certas normas de cortesia e eu lhe estendi o meu, observando que, em certos países, derramar o sal era de mau agouro, e ele, rindo, respondeu

que não era supersticioso. Desde aquele dia, começamos a trocar umas palavras. Ele se desculpava pelo seu francês, que considerava muito arrastado, mas se fazia

entender muito bem. São nômades por vício, precisam se adaptar a todas as línguas. Gentilmente, eu disse: O senhor só precisa habituar mais o ouvido. E ele me sorriu

com gratidão. Escorregadia.

Froide era mentiroso até enquanto judeu. Eu sempre ouvira dizer que os da sua raça devem consumir apenas alimentos especiais, cozidos apropriadamente, e por isso

se mantêm sempre nos guetos, ao passo que Froide comia em grandes bocados tudo o que lhe sugeriam no Magny e não desdenhava um copo de cerveja às refeições.


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Mas, uma noite, parecia querer relaxar. Já pedira duas cervejas e, após a sobremesa, fumando nervosamente, comandara uma terceira. A certa altura, enquanto falava

agitando as mãos, derramou o sal pela segunda vez.

- Não é que eu seja desastrado - desculpou-se -, mas estou agitado. Faz três dias que não recebo carta da minha noiva. Não pretendo que ela me escreva quase todos

os dias, como faço, mas esse silêncio me inquieta. Ela tem a saúde delicada, e eu sofro terrivelmente por não estar perto. E também preciso da sua aprovação em tudo

o que faço. Eu queria que ela me escrevesse o que pensa sobre meu jantar com Charcot. Porque, saiba, monsieur Simonini, noites atrás fui convidado para jantar na

casa desse grande homem. Isso não acontece a todo jovem doutor em visita, e ainda por cima a um estrangeiro.

Pronto, pensei, aí está o pequeno parvenu semita, insinuando-se nas boas famílias para fazer carreira. E aquela tensão pela noiva não traía a natureza sensual e

voluptuosa do judeu, sempre voltado para o sexo? Pensa nela à noite, não é? E talvez se toque, imaginando-a; você também precisaria ler Tissot. Mas deixei-o contar.

- Havia convidados de qualidade, o filho de Daudet, o doutor Strauss, o assistente de Pasteur, o professor Beck, do Instituto, e Emilio Toffano, o grande pintor

italiano. Um serão que me custou 14 francos, uma bela gravata preta de Hamburgo, luvas brancas, uma camisa nova e um fraque, pela primeira vez na minha vida. E,

pela primeira vez na vida, mandei encurtar minha barba, à francesa. Quanto à timidez, um pouco de cocaína para soltar a língua.

- Cocaína? Não é um veneno?

- Tudo é veneno, se tomado em doses exageradas, até o vinho. Mas estou estudando há dois anos essa prodigiosa substância. Veja, a cocaína é um alcalóide isolado

de uma planta que os indígenas da América mascam para suportar as altitudes andinas. À diferença do ópio e do álcool, provoca estados mentais exaltantes sem com

isso ter efeitos negativos. É ótima como analgésico, principalmente em oftalmologia ou na cura da asma, útil no tratamento do alcoolismo

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e das toxicomanias, perfeita contra o enjoo marítimo, preciosa para a cura do diabetes, faz desaparecer como por encanto a fome, o sono e a fadiga, é um bom substituto



do tabaco, cura dispepsias, flatulências, cólicas, gastralgias, hipocondria, irritação espinal, febre do feno, é um precioso reconstituinte na tísica, cura a hemicrania

e, em caso de cárie aguda, se inserirmos na cavidade um chumaço de algodão embebido em uma solução a quatro por cento, a dor logo se acalma. E sobretudo é maravilhosa

para infundir confiança nos deprimidos, levantar o espírito, tornar as pessoas ativas e otimistas.

O doutor já estava em seu quarto copo e entrara evidentemente na embriaguez melancólica. Debruçava-se para mim, como se quisesse se confessar.

- A cocaína é ótima para alguém que, como eu, sempre digo isso à minha adorável Martha, não se considera muito atraente, alguém que na juventude nunca foi jovem

e agora, aos 30 anos, não consegue se tornar maduro. Houve um tempo em que eu era só ambição e ânsia de aprender, e dia após dia sentia-me desalentado pelo fato

de a mãe natureza, em um de seus momentos de clemência, não ter me imprimido a marca do gênio que de vez em quando ela concede a alguém.

Deteve-se subitamente, como quem se dá conta de ter posto a própria alma a nu. Judeuzinho lamentoso, pensei. E decidi deixá-lo embaraçado.

- Não se fala da cocaína como de um afrodisíaco? - perguntei.

Froide corou:

- Ela também possui essa virtude, ao menos creio, mas... Não tenho experiências quanto a isso. Como homem, não sou sensível a tais pruridos. E, como médico, o sexo

não é um assunto que me atraia muito. Embora comecem a falar muito de sexo até na Salpêtrière. Charcot descobriu que uma paciente dele, uma certa Augustine, em uma

fase avançada das suas manifestações histéricas revelou que o trauma inicial tinha sido uma violência sexual sofrida na infância. Naturalmente, não nego que entre

os traumas que desencadeiam a histeria possam se incluir também fenômenos ligados

ao sexo,

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... em caso de cárie aguda, se inserirmos na cavidade um chumaço de algodão embebido em uma solução a quatro por cento, a dor logo se acalma ... p. 50



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era só o que faltava. Simplesmente me parece exagerado reduzir tudo ao sexo, mas talvez seja minha pruderie de pequeno- burguês que me mantém longe desses problemas.

Não, eu me dizia, não é sua pruderie, é que, como todos os circuncisos da sua raça, você é obsedado pelo sexo, mas tenta esquecêlo. Quero ver se quando botar essas

mãos sujas naquela sua Martha você não lhe fará uma enfiada de judeuzinhos e não a deixará tísica pela canseira...

Enquanto isso, Froide continuava:

- Na verdade, meu problema é que esgotei minha reserva de cocaína e estou caindo novamente na melancolia, os doutores antigos diriam que tenho um transvasamento

de bile negra. Antes eu encontrava os preparados de Merck e Gehe, mas eles tiveram que suspender sua produção porque passaram a receber somente matéria-prima ordinária.

As folhas frescas só podem ser trabalhadas na América, e a melhor produção é a de Parke-Davis em Detroit, uma variedade mais solúvel, de cor branca pura e odor aromático.

Eu tinha algum estoque, mas aqui em Paris não saberia a quem recorrer.

Uma sopa no mel, para quem está a par de todos os segredos da place Maubert e arredores. Eu conhecia indivíduos a quem bastava mencionar não apenas a cocaína, mas

também um diamante, um leão empalhado ou um garrafão de vitríolo, e, no dia seguinte, eles os traziam para você, sem que fosse preciso lhes perguntar onde os tinham

encontrado. Para mim, a cocaína é um veneno, pensei, e contribuir para envenenar um judeu não me desagrada. Assim, disse ao doutor Froide que em alguns dias lhe

faria chegar uma boa reserva do seu alcalóide. Naturalmente, Froide não duvidou de que meus procedimentos fossem menos que irrepreensíveis.

- O senhor sabe - falei -, nós, antiquários, conhecemos as pessoas mais variadas.

Nada disso tem a ver com meu problema, mas é para mostrar como, por fim, acabamos criando confiança e falando de uma coisa e outra. Froide era eloquente e espirituoso,

talvez eu estivesse

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enganado e ele não fosse judeu. É que nossas conversas eram melhores do que aquelas que eu mantinha com Bourru e Burot, e foi dos experimentos desses dois que



viemos a falar e daí aludi à paciente de Du Maurier.

- O senhor acha - perguntei - que uma doente desse tipo pode ser curada com as calamitas de Bourru e Burot?

- Caro amigo - respondeu Froide -, em muitos casos que examinamos se dá excessivo relevo ao aspecto físico, esquecendo que o mal, quando irrompe, muito provavelmente

tem origens psíquicas. E, se tem origens psíquicas, é a psique que devemos tratar, não o corpo. Em uma nevrose traumática, a verdadeira causa da doença não é a lesão,

geralmente modesta em si, mas o trauma psíquico original. Não ocorre que, ao ter uma emoção forte, a pessoa desmaie? Então, para quem se ocupa de doenças nervosas,

o problema não é como se perdem os sentidos, mas qual a emoção que levou a perdê-los.

- Mas como se faz para saber qual foi essa emoção?

- Veja bem, caro amigo, quando os sintomas são claramente histéricos, como no caso dessa paciente de Du Maurier, a hipnose pode produzir artificialmente esses mesmos

sintomas e de fato se poderia remontar ao trauma inicial. Outros pacientes, contudo, tiveram uma experiência tão insuportável que desejaram cancelá-la, como se a

houvessem guardado em uma zona inalcançável da sua mente, uma zona tão profunda que não se chega a ela sequer sob hipnose. Por outro lado, por que, sob hipnose,

deveríamos ter capacidades mentais mais vivazes do que quando estamos despertos?

- Então, nunca se saberá...

- Não me peça uma resposta clara e definitiva, porque estou lhe confiando pensamentos que ainda não assumiram uma forma consumada. Às vezes sou tentado a crer que

só se chega àquela zona profunda quando se sonha. Até os antigos sabiam que os sonhos podem ser reveladores. Desconfio que, se um enfermo pudesse falar, e falar

longamente, por dias e dias, talvez até contando o que sonhou, com uma pessoa que soubesse escutá-lo, o trauma original

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poderia aflorar repentinamente, e ficar



claro. Em inglês, fala-se de talking cure. O senhor deve ter constatado que, se contar eventos longínquos a alguém, recupera, enquanto conta, detalhes que esquecera

ou então que pensava haver esquecido, mas que seu cérebro conservou em alguma dobra secreta. Creio que quanto mais detalhada fosse essa reconstituição tanto mais

poderia aflorar um episódio, ou melhor, até mesmo um fato insignificante, uma esfumatura que, no entanto, gerou um efeito tão insuportavelmente perturbador a ponto

de provocar uma... como direi, umu Abtren- nung, uma Beseitigung, não encontro o termo certo; em inglês, eu diria removal-, em francês, como se diz quando se corta

um órgão... une ablation? Bem, talvez em alemão o termo certo seja Enlfernung.

Eis o judeu que aflora, eu me dizia. Acho que na época já me ocupava dos vários complôs judaicos e do projeto dessa raça no sentido de tornar seus filhos médicos

e farmacêuticos para controlar tanto o corpo quanto a mente dos cristãos. Se eu estivesse doente, você ia querer que eu me entregasse nas suas mãos contando tudo

sobre mim, até o que não sei, e assim você se tornaria dono da minha alma? Pior que com o confessor jesuíta, ao menos porque com ele eu falaria protegido por uma

treliça e não diria o que penso, mas coisas que todos fazem; tanto que são denominadas por termos quase técnicos, iguais para todos: roubei, forniquei, não honrei

pai e mãe. Sua própria linguagem o trai, você fala de ablação como se quisesse circuncidar meu cérebro...

Enquanto isso, porém, Froide começou a rir e pediu mais uma cerveja.

- Mas não tome como certo o que estou lhe dizendo. São as fantasias de um pretensioso. Quando voltar à Áustria, vou me casar e, para manter a família, terei de abrir

um consultório. Então usarei sensatamente a hipnose, como Charcot me ensinou, e não bisbilhotarei os sonhos dos meus doentes. Não sou uma pitonisa. Aliás, pergunto-me

se à paciente de Du Maurier não faria bem consumir um pouco de cocaína.

Assim terminou aquela conversa, que deixou poucos vestígios na minha lembrança. Agora, porém, tudo me volta à mente porque eu poderia me encontrar, se não na situação

de Diana, ao menos como uma pessoa quase normal que perdeu parte da sua memória. A parte o fato de que sabe Deus onde Froide está hoje, por nada no mundo eu contaria

minha vida, não digo a um judeu, mas nem mesmo a um bom cristão. Com o ofício que tenho qual? , devo contar fatos alheios, sob pagamento, mas me abster a todo custo

de contar os meus. Contudo, posso narrar meus fatos a mim mesmo. Recordei que Bourru ou Burot me disse que havia ascetas que se hipnotizavam sozinhos, fitando o

próprio umbigo.

Então, decidi manter este diário, embora da frente para trás, contando-me meu passado à medida que consigo fazê-lo me voltar à mente, mesmo as coisas mais insignificantes,

até que o elemento como se dizia? traumatizante apareça. Sozinho. E sozinho quero sarar, sem me colocar nas mãos dos médicos das loucas.

Antes de iniciar mas já iniciei, justamente ontem , e para entrar no estado de espírito necessário a essa forma de auto-hipnose, eu gostaria de ir à rue Montorgueil,

chez Philippe. Me sentaria com calma, examinaria longamente o cardápio, aquele que é servido das seis à meia-noite, e pediria potage à la Crécy, linguado ao molho

de alcaparras, filé de boi e langue de veau aujus, e terminaria com um sorvete ao marasquino e confeitaria variada, regando o conjunto com duas garrafas de um velho

Borgonha.

Enquanto isso, já seria meia-noite e eu levaria em consideração o cardápio noturno: poderia me conceder uma sopinha de tartaruga lembrei-me de uma, deliciosa, de

Dumas - então, conheci Dumas? , um salmão com cebolinhas e alcachofras à pimenta javanesa, para terminar com um sorvete ao rum e confeitaria inglesa com especiarias.

Noite alta, eu me presentearia com alguma delicadeza do cardápio matinal, por exemplo uma soupe aux oignons, como naquele momento estavam degustando os descarregadores

nas Halles, feliz por me acanalhar com eles. Depois, para me dispor a uma manhã ativa, um café muito forte e um pousse-café misto de conhaque e quirche.
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Para falar a verdade, me sentiria um tanto pesado, mas o ânimo ficaria distendido.

Ai de mim, não podia me conceder essa doce licença. Estando sem memória, disse a mim mesmo, é possível que, se encontrar no restaurante alguém que o reconheça, você

mesmo não o reconheça. Então, como se comportaria?

Também me perguntei como reagir diante de alguém que me procurasse na loja. Com o sujeito do testamento Bonnefoy e com a velha das hóstias, as coisas foram bem,

mas poderiam ter sido piores. Coloquei lá fora um cartaz que diz O proprietário ficará ausente por um mês , sem deixar claro quando começa ou termina o mês. Enquanto

eu não compreender algo mais, devo me entocar em casa e só sair de vez em quando, para comprar comida. Talvez o jejum me faça bem, quem sabe se o que está me acontecendo

não resulta de algum festim excessivo que me concedi... Quando? Na famigerada noite do dia 21?

Além disso, se eu devia iniciar o reexame do meu passado, precisaria fitar meu umbigo, como dizia Burot ou Bourru? , e, com o barrigão que tenho, pois me constato

tão obeso quanto minha idade já demanda, deveria começar a recordar olhando-me no espelho.

No entanto, comecei, ontem, sentado a essa mesa de trabalho, escrevendo sem parar, sem me distrair, limitando-me a beliscar alguma coisa de vez em quando e bebendo,

isso sim, sem moderação. A maior qualidade desta casa é uma boa adega.

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4.

OS TEMPOS DO MEU AVÔ



26 de março de 1897
Minha infância. Turim... Uma colina para além do Pó, eu na sacada com mamãe. Depois minha mãe não existia mais, meu pai chorava sentado na sacada diante da colina,

ao pôr do sol; vovô dizia que havia sido a vontade de Deus.

Com minha mãe eu falava francês, como todo piemontês de boa extração aqui, em Paris, quando o falo parece que o aprendi em Grenoble, onde se fala o francês mais

puro, não como o babil dos parisienses . Desde a infância me senti mais francês do que italiano, como acontece a todo piemontês. Por isso, considero os franceses

insuportáveis.
Minha infância foi meu avô, mais do que meu pai e minha mãe. Odiei minha mãe, que se fora sem me avisar, meu pai, que não tinha sido capaz de fazer nada para impedir

isso, Deus, porque quisera aquilo, e o vovô, porque lhe parecia normal que Deus quisesse coisas assim. Meu pai sempre esteve em algum outro lugar - fazendo a Itália,

dizia ele. Depois a Itália o desfez.

O vovô. Giovan Battista Simonini, ex-oficial do exército saboiano. Parece-me recordar que ele o abandonara na época da invasão napoleônica, alistando-se sob os

Bourbon de Florença e, mais tarde, quando também a Toscana passou ao controle de uma Bonaparte, voltara a Turim, capitão reformado, cultivando as próprias amarguras.
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Nariz verruguento, quando ele me mantinha ao seu lado, eu via somente o nariz. E sentia no rosto seus perdigotos. Ele era o que os franceses chamavam um ci-devant,

um nostálgico do Ancien Régime, que não se resignara aos crimes da Revolução. Não abandonara as culottes - ainda tinha belas panturrilhas -, fechadas abaixo do

joelho por uma fivela de ouro; e de ouro eram as fivelas de seus sapatos de verniz. Colete, paletó e gravata pretos lhe davam uma aparência algo padresca. Embora

as regras de elegância dos tempos idos sugerissem usar também uma peruca empoada, renunciara a ela, porque com perucas empoadas, dizia, até facínoras como Robespierre

tinham se adornado.

Nunca entendi se ele era rico, mas não se negava a boa cozinha. Do meu avô e da minha infância, recordo sobretudo a bagna caõda: em um recipiente de terracota mantido

fervente sobre um fogareiro alimentado por brasas, onde crepitava o azeite nutrido de anchovas, alho e manteiga, imergiam-se as alcachofras-bravas previamente deixadas

de molho em água fria e suco de limão - para alguns, mas não para vovô, no leite , pimentões crus ou assados, folhas brancas de couve-de-saboia, girassol-batateiro

e couve-flor muito tenra - ou mas, como dizia o vovô, eram coisas para os pobres verduras cozidas, cebolas, beterraba, batatas ou cenouras. Eu gostava de comer,

e vovô se comprazia ao me ver engordar dizia com ternura como um porquinho.

Aspergindo-me de saliva, o vovô me expunha suas máximas:

- A Revolução, meu jovem, nos fez escravos de um Estado ateu, mais desiguais do que antes e irmãos inimigos, cada um Caim do outro. Não é bom ser livre demais, tampouco

ter todo o necessário. Nossos pais eram mais pobres e mais felizes porque permaneciam em contato com a natureza. O mundo moderno nos deu o vapor, que contamina os

campos, e os teares mecânicos, que tiraram o trabalho de tantos pobrezinhos e já não produzem os tecidos de antigamente. O homem, abandonado a si mesmo, é mau demais

para ser livre. O pouco de liberdade de que necessita deve ser garantido por um soberano.


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Mas seu tema preferido era o abade Barruel. Penso em mim, jovem, e quase vejo o abade Barruel, que parecia morar na nossa casa, embora devesse estar morto havia



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