O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



Baixar 1.79 Mb.
Página5/34
Encontro31.12.2018
Tamanho1.79 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   34

tempo.

- Veja, meu rapaz - escuto vovô dizer -, depois que a loucura da Revolução subverteu todas as nações da Europa, fez-se ouvir uma voz que revelou como a Revolução



não tinha sido senão o último ou o mais recente capítulo de uma conspiração universal dirigida pelos templários contra o trono e o altar, ou seja, contra os reis,

particularmente o rei da França, e nossa Santíssima Madre Igreja... Foi a voz do abade Barruel, que no final do século passado escreveu suas Mémoires pour servir

à l histoire du jacobinisme...
- Mas, senhor meu avô, o que os templários tinham a ver com isso? - perguntava então, eu que já sabia de cor aquela história, mas queria dar a ele a oportunidade

de repetir seu assunto preferido.

- Rapaz, os templários foram uma ordem poderosíssima de cavaleiros, que o rei da França destruiu para se apoderar dos seus bens, mandando grande parte deles à fogueira.

Os sobreviventes, contudo, se constituíram em uma ordem secreta, a fim de se vingar do rei da França. E, de fato, quando a guilhotina decepou a cabeça do rei Luís,

um desconhecido subiu ao cadafalso e levantou aquele pobre crânio, gritando: Jacques de Molay, estás vingado! E Molay era o grão-mestre dos templários que o rei

mandara queimar na ponta extrema da Ile de la Cité, em Paris.

- E quando foi queimado esse Molay?

- Em 1314.

- Então, fazendo as contas, senhor meu avô, são quase quinhentos anos antes da Revolução. O que fizeram os templários, nesses quinhentos anos, para se manter escondidos?

- Infiltraram-se nas corporações dos antigos pedreiros das catedrais e, dessas corporações, nasceu a maçonaria inglesa, que assim se chama porque seus sócios se

consideravam free masons, ou seja, pedreiros livres.

- E por que os pedreiros deviam fazer a Revolução?

- Barruel compreendeu que os templários das origens e os pedreiros livres haviam sido conquistados e corrompidos pelos Iluminados da Baviera!

59

E essa era uma seita



terrível, imaginada por um tal de Weishaupt, em que cada membro só conhecia seu superior imediato e ignorava tudo sobre os chefes que estavam mais acima e sobre

os propósitos deles, e cujo objetivo era não somente destruir o trono e o altar, mas também criar uma sociedade sem leis e sem moral, na qual seriam postos em comum

os bens e até as mulheres; Deus me perdoe por dizer essas coisas a um jovem, mas, afinal, é preciso reconhecer as tramas de Satanás. E ligados como unha e carne

aos Iluminados da Baviera eram aqueles negadores de toda fé que haviam gerado a infame Encyclopédie, estou falando de Voltaire, e d Alembert, e Diderot e toda aquela

corja que, à semelhança dos Iluminados, falava do Século das Luzes na França, e de Esclarecimento ou Explicação na Alemanha, e que, por fim, reunindo-se secretamente

para tramar a queda do rei, deu vida ao clube dito dos Jacobinos , originado justamente do nome de Jacques de Molay.


Eis quem tramou para fazer a Revolução explodir

na França!

- Esse Barruel tinha compreendido tudo...

- Não compreendeu como, de um núcleo de cavaleiros cristãos, pudesse nascer uma seita inimiga de Cristo. Você sabe, é como o fermento na massa, se ele faltar a massa

não cresce, não infla e você não faz o pão. Qual foi o fermento que alguém ou o fado ou o diabo introduziu no corpo ainda saudável dos conventículos dos templários

e dos pedreiros livres para fazer levedar neles a mais diabólica das seitas de todos os tempos?

Aqui vovô fazia uma pausa, juntava as mãos, como que para se concentrar melhor, sorria astuto e revelava, com calculada e triunfal modéstia:

- Quem teve a coragem de dizer isso pela primeira vez foi seu avô, caro jovem. Quando pude ler o livro de Barruel, não hesitei em escrever a ele uma carta. Vá ali

atrás, meu jovem, pegue aquele estojo que está ali.

Eu obedecia, o vovô abria o estojo com uma chave dourada que trazia pendurada ao pescoço e dali tirava um papel amarelecido, com uns quarenta anos de antiguidade.

60
... quase vejo o abade Barruel, que parecia morar na nossa casa, embora devesse estar morto havia tempo ... p. 59

61

- Este é o original da carta, que depois copiei



lindamente para enviar a Barruel.

Revejo vovô lendo, com pausas dramáticas.

Recebei, Senhor, de um ignorante militar como sou, as mais sinceras felicitações por vossa obra, que a bom direito pode ser chamada a obra por excelência do último

século. Oh! Como desmascarastes bem essas seitas infames que preparam os caminhos do Anticristo e são os inimigos implacáveis, não somente da religião cristã, mas

de todo culto, de toda sociedade, de toda ordem. Há uma, porém, que só mencionastes levemente. Talvez o tenhais feito de propósito, porque é a mais conhecida e,

consequentemente, a menos temível. Mas, na minha opinião, ela é hoje a potência mais formidável, se considerarmos suas grandes riquezas e a proteção de que goza

em quase todos os Estados da Europa. Bem compreendeis, Senhor, que estou falando da seita judaica. Ela parece totalmente separada e inimiga das outras seitas; mas,

na verdade, não o é. De fato, basta que uma dessas se mostre inimiga do nome cristão para que ela a favoreça, a remunere e a proteja. E, afinal, já não a vimos,

e não a vemos, prodigalizar seu ouro e sua prata a fim de sustentar e guiar os modernos sofistas, os franco-maçons, os Jacobinos, os Iluminados? Portanto, os judeus,

com todos os outros sectários, não formam senão uma única facção, para destruir, se for possível, o nome cristão. E não acrediteis, Senhor, que tudo isso seja exagero

da minha parte. Eu não exponho coisa alguma que não me tenha sido dita pelos próprios judeus...

- E como o senhor soube essas coisas pelos judeus?

- Eu tinha pouco mais de 20 anos, e era um jovem oficial do exército saboiano, quando Napoleão invadiu os estados sardos, fomos derrotados em Millesimo e o Piemonte

foi anexado à França. Foi o triunfo dos bonapartistas sem Deus, que vinham atrás de nós, oficiais do rei, para nos pendurar pelo pescoço. E dizia-se que não convinha

circular de uniforme ou, pior, não convinha sequer circular. Meu pai era comerciante e se relacionara com um judeu que emprestava a juros e que lhe devia não sei

qual favor e, assim, por seus bons ofícios, durante algumas semanas, enquanto o clima não se acalmou e eu pude sair da cidade e procurar certos parentes em

Florença, esse homem pôs à minha disposição - por preço alto, é natural - um quartinho no gueto, que na época ficava bem atrás deste nosso palacete, entre a via

San Filippo e a via delle Rosine. A mim, agradava-me muito pouco misturar-me com aquela gentalha, mas era o único lugar onde ninguém pensaria em pôr os pés, os judeus

não podiam sair dali e as pessoas de bem se mantinham longe.

Vovô cobria, então, os olhos com as mãos, como para expulsar uma visão insuportável:

- Assim, esperando que passasse a tempestade, vivi naqueles buracos imundos, onde às vezes moravam oito indivíduos em um só aposento, cozinha, cama e balde para

excrementos, todos consumidos pela anemia, a pele de cera, imperceptivelmente azul como a porcelana de Sèvres, sempre ocupados em procurar os cantos mais escondidos,

clareados somente pela luz de uma vela. Não tinham uma gota de sangue, a tez amarelada, os cabelos da cor de ictiocola, a barba de um ruivo indefinível e, quando

era preta, com reflexos que lembravam um redingote desbotado... Eu não conseguia suportar o fedor da minha habitação e circulava pelos cinco pátios, recordo muito

bem, o Pátio Grande, o Pátio dos Padres, o Pátio da Videira, o Pátio da Taberna e o do Terraço, que se comunicavam por uns pavorosos corredores cobertos, os Pórticos

Escuros. Agora você encontra judeus até na praça Carlina, ou melhor, encontra-os em qualquer lugar porque os Savoia estão baixando as calças, mas, na época, eles

se espremiam um ao lado do outro naqueles becos sem sol e, no meio daquela multidão untuosa e sórdida, meu estômago, se não fosse pelo medo dos bonapartistas, não

aguentaria...

Vovô fazia uma pausa, umedecendo os lábios com um lenço, como se quisesse remover da boca um sabor insuportável:

- E eu devia a eles minha salvação, que humilhação! Mas, se nós, cristãos, os desprezávamos, eles não eram nem um pouco ternos conosco; pelo contrário, nos odiavam,

como de resto nos odeiam até hoje. Então, comecei a contar que tinha nascido em Livorno, de uma família judaica, que ainda jovem tinha sido criado por parentes que

lastimavelmente haviam me batizado, mas que,

63

no meu coração, eu continuara sendo um judeu. Essas minhas confidências não pareciam impressioná-los muito, porque, diziam-me, havia tantos deles na minha situação



que agora não davam mais importância a isso. Porém minhas palavras me conquistaram a confiança de um velho que morava no Pátio do Terraço, ao lado de um forno para

cozer pães ázimos.

Aqui, o vovô se animava contando sobre esse encontro e, revirando os olhos e gesticulando com as mãos, imitava a fala do judeu sobre o qual narrava. Parece então

que esse Mordechai era de origem síria e se envolvera, em Damasco, em um triste episódio. Um menino árabe desaparecera da cidade, e de início não se pensou nos judeus

porque se considerava que esses, para seus ritos, matavam somente jovens cristãos. Mais tarde, porém, foram encontrados no fundo de um fosso os restos de um pequeno

cadáver, que devia ter sido cortado em mil pedaços depois esmagados em um pilão. Os modos do crime eram tão afins àqueles habitualmente imputados aos judeus que

os policiais começaram a pensar que, com a aproximação da Páscoa, precisando de sangue cristão para embeber os ázimos e não conseguindo capturar um filho de cristãos,

eles haviam capturado e batizado o árabe, para depois o trucidar.

- Você sabe - comentava vovô - que um batismo é sempre válido, não importa por quem seja feito, desde que quem batiza pretenda batizar segundo a intenção da Santa

Igreja Romana, coisa que os pérfidos judeus sabem muitíssimo bem e não sentem nenhuma vergonha em dizer: Eu te batizo assim como o faria um cristão, em cuja idolatria

não creio, mas na qual ele continua crendo plenamente. Assim, o coitado do pequeno mártir teve a sorte de ir para o paraíso, embora por mérito do diabo.

Não demoraram a suspeitar de Mordechai. Para fazê-lo falar, ataram seus pulsos às costas, penduraram-lhe pesos nos pés e, por 12 vezes, o suspenderam com uma polia

e o deixaram precipitar-se ao solo. Depois lhe passaram enxofre sob o nariz, mergulharam-no em água gelada e, quando ele levantava a cabeça, afundavam-no novamente,

até que ele confessou. Ou, melhor, dizia-se que, para acabar com aquilo, o miserável entregou os nomes de cinco correligionários seus,

64

que não tinham nada a ver com a história, e esses foram condenados à morte, enquanto ele, com os membros deslocados, foi posto em liberdade,



mas a essa altura havia perdido a razão e alguma boa alma o embarcou em um navio mercante que se dirigia a Gênova; do contrário, os outros judeus o matariam a pedradas.

Também se dizia que no navio ele fora seduzido por um barnabita que o convencera a se batizar e ele, para obter ajuda após ser desembarcado nos reinos sardos, aceitara,

mantendo-se porém, no seu coração, fiel à religião dos seus pais. Seria, então, aquilo que os cristãos chamam de marrano, exceto porque, ao chegar a Turim e pedir

asilo no gueto, negou ter se convertido, e muitos o supunham um falso judeu que conservava no íntimo sua nova fé cristã - por conseguinte, seria marrano duas vezes,

digamos assim. Mas, como ninguém podia provar todo aquele falatório vindo do ultramar, pela piedade devida aos dementes ele era mantido vivo pela caridade de todos,

bastante parca, e relegado a um tugúrio onde sequer um habitante do gueto ousaria morar.

Na opinião do vovô, o velho, não importava o que houvesse feito em Damasco, não enlouquecera de maneira alguma. Simplesmente era animado por um ódio inextinguível

aos cristãos e, naquela pocilga desprovida de janelas, segurando-lhe com a mão trêmula o pulso e fitando-o com olhos que cintilavam no escuro, dizia que desde então

havia dedicado sua vida à vingança. Contava-lhe que o Talmude prescrevia o ódio pela raça cristã e que, para corromper os cristãos, eles, os judeus, haviam inventado

os franco- maçons, dos quais ele mesmo se tornara um dos superiores desconhecidos, que comandava as lojas de Nápoles a Londres, mas que devia permanecer oculto,

secreto e segregado para não ser apunhalado pelos jesuítas, que estavam no seu encalço por toda parte.

Ao falar, olhava ao redor, como se de todos os cantinhos escuros devessem surgir jesuítas armados com um punhal, depois fungava ruidosamente; chorava um pouco por

sua triste condição, um pouco sorria astuto e vingativo, saboreando o fato de o mundo inteiro ignorar seu terrível poder. Apalpava untuosamente a mão do jovem Simonini

e continuava a devanear. E dizia que, se Simonini quisesse, a seita o acolheria com alegria, e ele o faria entrar para a mais secreta das lojas maçónicas.

E lhe revelara que, tanto Manes, o profeta da seita dos Maniqueus, quanto o infame Velho da Montanha, que inebriava de droga seus Assassinos para depois os mandar

matar os príncipes cristãos, eram da raça judaica. Que os franco-maçons e os Iluminados tinham sido instituídos por dois judeus, e que dos judeus se originavam todas

as seitas anticristãs, as quais, naquele momento, eram tão numerosas no mundo a ponto de chegar a vários milhões de pessoas de todos os sexos, de todos os Estados,

de todos os níveis e de todas as condições, aí incluídos muitíssimos eclesiásticos, e até alguns cardeais, e alimentavam a esperança de em breve ter um papa do seu

partido e, comentaria vovô anos depois, desde que subira ao trono de Pedro um ser ambíguo como Pio IX, a coisa não parecia tão inverossímil assim . Que, para melhor

enganar os cristãos, eles mesmos muitas vezes se fingiam cristãos, viajando e passando de um país a outro com falsas certidões de batismo, adquiridas de padres corruptos,

e que esperavam, à força de dinheiro e de trapaças, obter de todos os governos um estado civil, como já estavam obtendo em muitos países, e que, quando possuíssem

direitos de cidadania como todos os outros, começariam a adquirir casas e terrenos, e que por meio da usura espoliariam os cristãos dos seus bens fundiários e dos

seus tesouros, e que prometiam se tornar em menos de um século os donos do mundo, abolir todas as outras seitas para fazer reinar a deles, construir tantas sinagogas

quantas eram as igrejas dos cristãos e reduzir o resto desses à escravidão.

- Foi isso - concluía o vovô - o que revelei a Barruel. Talvez tenha exagerado um pouco, dizendo ter sabido por todos aquilo que só um me havia confiado, mas eu

estava convencido, e ainda estou convencido, de que o velho me dizia a verdade. E assim escrevi, se você me deixar acabar de ler.

E vovô recomeçava a ler.

Eis aí, Senhor, os pérfidos projetos da nação hebraica, que escutei com meus próprios ouvidos... Seria, portanto, muito desejável que uma pena enérgica e superior

como a vossa fizesse os supracitados governos

66

abrirem os olhos e os instruísse afazer esse povo retornar para a abjeção que lhe é devida, na qual nossos pais mais políticos e mais judiciosos sempre cuidaram



de mantê-los. Por tal razão, Senhor, convido-vos a isso em meu nome particular, implorando-vos perdoar a um Italiano, a um soldado, os erros de todo gênero que encontrareis

nesta carta. Desejo-vos da mão de Deus a mais ampla recompensa pelos escritos luminosos com os quais enriquecestes Sua Igreja e que Ele inspire por vós, a quem os

ler, a mais alta estima e o mais profundo respeito em que tenho a honra de ser, Senhor, vosso humílimo e obedientíssimo servo, Giovanni Battista Simonini.

A essa altura, a cada vez, vovô repunha a carta no estojo e eu perguntava:

- E o que disse o abade Barruel?

- Não se dignou a me responder. Mas eu, como conhecia bons amigos na cúria romana, soube que aquele covarde temeu que, se fossem difundidas aquelas verdades, se

viesse a desencadear um massacre dos judeus que ele não se animava a provocar porque considerava que entre esses existiam inocentes. Além disso, devem ter tido certo

peso algumas manobras dos judeus franceses da época, quando Napoleão decidiu encontrar os representantes do Grande Sinédrio para obter o apoio deles às suas ambições,

e alguém deve ter informado ao abade que não convinha turvar as águas. Todavia, ao mesmo tempo, Barruel não conseguiu silenciar e acabou enviando o original da minha

carta ao sumo pontífice Pio VII e cópias dela a vários bispos. A coisa tampouco acabou aí, porque ele também comunicou a carta ao cardeal Fesch, então primado das

Gálias, para que a mostrasse a Napoleão. E fez o mesmo junto ao chefe da polícia de Paris. E a polícia parisiense, disseram-me, desenvolveu uma investigação junto

à cúria romana, para saber se eu era testemunha fidedigna. E, pelos demônios, eu o era; os cardeais não puderam negar! Em suma, Barruel jogava a pedra e escondia

a mão; não queria suscitar um vespeiro maior do que aquele já suscitado pelo seu livro, mas, aparentando calar, comunicava minhas revelações a meio mundo. Saiba

você que Barruel tinha sido educado pelos jesuítas até que Luís XV expulsou os jesuítas da França e, depois,

recebera as ordens como padre secular, mas voltou a

ser jesuíta quando Pio VII devolveu plena legitimidade à ordem. Pois bem, você sabe que eu sou católico fervoroso e professo o máximo respeito por quem quer que

use um hábito sacerdotal, mas certamente um jesuíta é sempre um jesuíta, diz uma coisa e faz outra, faz uma coisa e diz outra, e Barruel não se comportou de maneira

diferente...

E vovô casquinava, cuspindo saliva entre os poucos dentes que lhe restavam, divertido por aquela sua sulfúrea impertinência.

- Pois é, meu Simonino - concluía -, eu estou velho, não tenho vocação para bancar a voz que grita no deserto. Se não quiseram me dar ouvidos, responderão por isso

diante do Pai Eterno, mas a vocês, jovens, confio a tocha do testemunho, agora que os malditíssimos judeus se tornam cada vez mais poderosos e nosso covarde soberano

Carlos Alberto se mostra cada vez mais indulgente com eles. Porém, será derrubado pela conspiração que tramam...

- Conspiram também aqui em Turim? - perguntava eu.

O vovô olhava ao redor, como se alguém escutasse suas palavras, enquanto as sombras do ocaso escureciam o aposento.

- Aqui e em todo lugar - dizia. - São uma raça maldita, e seu Talmude diz, como afirma quem o sabe ler, que os judeus devem amaldiçoar os cristãos três vezes por

dia e pedir a Deus que esses sejam exterminados e destruídos, e que, se um deles encontrar um cristão no alto de um precipício, deve empurrá-lo lá para baixo. Sabe

por que você se chama Simonino? Eu quis que seus pais o batizassem assim em memória do Pequeno São Simão, um menino mártir que no longínquo século XV, em Trento,

foi raptado pelos judeus, que o mataram e o despedaçaram, sempre para usar o sangue em seus ritos.


Se você não for bonzinho e não dormir logo, esta noite o horrível Mordechai virá visitá-lo. Assim me ameaçava o vovô. E eu demoro a adormecer, no meu quartinho na

água-furtada, apurando o ouvido a cada rangido da velha casa, quase escutando pela escadinha de madeira os passos do terrível velho que vem me buscar, me arrasar

68

ao seu habitáculo infernal e me fazer comer pães ázimos embebidos no sangue dos mártires infantes. Confundindo essa com outras narrativas que ouvi da mãe Teresa,



a velha serva que amamentou meu pai e ainda arrasta os chinelos pela casa, ouço Mordechai engrolar, salivando lúbrico: Inhos, inhos, sinto odor de cristãozinhos.
Tenho já quase 14 anos e várias vezes fui tentado a entrar no gueto, que já se derramava além dos antigos limites, visto que estão para ser suprimidas no Piemonte

muitas restrições. Enquanto circulo quase na fronteira daquele mundo proibido, talvez encontre alguns judeus, mas ouvi dizer que muitos abandonaram sua aparência

secular. Eles se disfarçam, diz o vovô, disfarçam-se, passam ao nosso lado e nós nem sabemos. Sempre circulando pelas margens, encontrei uma moça de cabelos negros

que todas as manhãs atravessa a praça Carlina para levar não sei que cesto coberto por um pano a uma loja próxima. Olhar ardente, olhos de veludo, pele morena...

Impossível que seja uma judia, que aqueles pais descritos pelo vovô como tendo rostos de rapineiro grifenho e olhos venenosos possam gerar fêmeas dessa estirpe.

No entanto, ela só pode vir do gueto.

É a primeira vez em que olho uma mulher que não seja a mãe Teresa. Passo e volto a passar todas as manhãs e, como a vejo de longe, meu coração dispara. Nas manhãs

em que não a vejo, circulo pela praça como se buscasse um caminho de fuga e rejeitasse todos, e ainda estou ali quando em casa vovô me espera sentado à mesa, ruminando

furioso umas migalhas de pão.

Certa manhã, ouso deter a moça, perguntando-lhe, de olhos baixos, se posso ajudá-la a carregar o cesto. Ela responde com altivez, em dialeto, que pode muito bem

levá-lo sozinha. Mas não me chama monssü, meu senhor, e sim gagnu, fedelho. Não a procurei mais, não a vi mais. Fui humilhado por uma filha de Sião. Talvez porque

sou gordo? O fato é que ali se iniciou minha guerra com as filhas de Eva.

69

... quase escutando pela escadinha de madeira os passos do terrível velho que vem me buscar, me arrastar ao seu habitáculo infernal e me fazer comer pães ázimos



embebidos no sangue dos mártires infantes ... p. 68

70

Por toda a minha infância, vovô não quis me mandar para as escolas do Reino, pois dizia que ali só carbonários e republicanos ensinavam. Vivi todos aqueles anos



em casa, sozinho, olhando com rancor, durante horas, os outros meninos que brincavam na beira do rio, como se me subtraíssem algo que era meu; e, no restante do

tempo, ficava fechado em um quarto estudando com um padre jesuíta, que vovô sempre escolhia, segundo minha idade, entre os corvos negros que o rodeavam. Eu odiava

o mestre da vez, não só porque me ensinava coisas a baquetadas nos dedos, mas também porque meu pai nas raras vezes em que se entretinha distraidamente comigo me

instilava ódio contra os padres.

- Mas os meus mestres não são padres, são sacerdotes jesuítas - dizia eu.

- Pior - retrucava meu pai. - Jamais confie nos jesuítas. Sabe o que escreveu um santo padre eu disse um padre, preste atenção, e não um maçom, um carbonário, um

Iluminado de Satanás como dizem que sou, mas um padre de bondade angelical, o abade Gioberti ? É o jesuitismo que desacredita, molesta, atribula, calunia, persegue,

arruina os homens dotados de espírito livre, é o jesuitismo que expulsa dos empregos públicos os bons e os valentes, substituindo-os pelos tristes e pelos vis, é

o jesuitismo que atrasa, estorva, prejudica, perturba, enfraquece, corrompe de mil maneiras a instrução pública e privada, que semeia rancores, desconfianças, animosidades,

ódios, litígios, discórdias notórias e ocultas entre os indivíduos, as famílias, as classes, os Estados, os governos e os povos, é o jesuitismo que debilita os intelectos,

doma pela indolência os corações e as vontades, desfibra os jovens com uma disciplina frouxa, corrompe a idade madura com uma moral condescendente e hipócrita, combate,



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   34


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal