O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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arrefece, apaga a amizade, os afetos domésticos, a piedade filial, o santo amor à pátria no maior número de cidadãos... Não existe seita no mundo tão desprovida

de vísceras disse ele , tão dura e impiedosa quando se trata dos seus interesses como a Companhia de Jesus. Por trás daquela face branda e lisonjeira, daquelas palavras

doces e melosas, daquela postura amável e afabilíssima, o jesuíta que devidamente corresponde à disciplina da ordem


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e às observações dos superiores tem uma alma de ferro, impenetrável aos sentidos mais sagrados e aos mais nobres afetos. Põe rigorosamente em prática o preceito

de Maquiavel segundo o qual onde se delibera sobre a saúde da pátria não se deve ter a menor consideração quanto ao que é justo ou injusto, piedoso ou cruel. E,

por isso, desde pequenos eles são educados no colégio a não cultivar os afetos familiares e a não ter amigos, mantendo-se dispostos a revelar aos seus superiores

qualquer falta mínima até do colega mais querido, a disciplinar qualquer impulso do coração e a dispor-se à obediência absoluta, perinde ac cadaver. Gioberti dizia

que, enquanto os phansigars da índia, ou seja, os estranguladores, imolam à sua divindade os corpos dos inimigos, executando-os com laço ou cutelo, os jesuítas da

Itália matam a alma com a língua, como os répteis, ou com a pena.

Embora sempre me tenha feito sorrir , concluía meu pai, que algumas dessas ideias Gioberti houvesse tomado de segunda mão de um romance publicado no ano anterior,

O judeu errante, de Eugène Sue.
Meu pai. A ovelha negra da família. A dar ouvidos ao vovô, mancomunara-se com os carbonários. Quando aludia às opiniões do vovô, limitava-se a me dizer baixinho

que não desse importância aos desvarios dele, mas, não sei se por pudor, por respeito às ideias de seu pai ou por desinteresse em relação a mim, evitava me falar

dos próprios ideais. Bastava-me ouvir casualmente alguma conversa do vovô com seus padres jesuítas ou atentar para os mexericos da mãe Teresa com o faxineiro para

compreender que meu pai fazia parte daqueles que não apenas aprovavam a Revolução e Napoleão como também falavam até de uma Itália que se livrasse do império austríaco,

dos Bourbon e do papa e se tornasse palavra que não se devia pronunciar na presença do vovô Nação.
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Os primeiros rudimentos me foram transmitidos pelo padre Pertuso, com seu perfil de fuinha. Padre Pertuso foi o primeiro a me instruir sobre a históri a dos nossos

dias ao passo que meu avô me instruía sobre a história passada.

Mais tarde, corriam os primeiros boatos sobre os movimentos carbonários - dos quais eu tinha notícia pelas gazetas que chegavam endereçadas ao meu pai ausente, sequestrando-as

antes que vovô mandasse destruí-las - e recordo-me que devia acompanhar as aulas de latim e de alemão dadas pelo padre Bergamaschi, tão íntimo do vovô que no palacete

lhe fora reservado um quartinho não distante do meu. Padre Bergamaschi... A diferença do padre Pertuso, era um homem jovem, de bela presença, cabelos ondulados,

rosto bem desenhado, linguagem fascinante e, ao menos na nossa casa, trajava com dignidade um hábito bem cuidado. Lembro- me das suas mãos brancas, de dedos afuselados

e unhas um pouco mais compridas do que seria de esperar em um homem da igreja.

Quando me via debruçado, estudando, com frequência se sentava atrás de mim e, acariciando-me a cabeça, alertava-me contra os muitos perigos que ameaçavam um jovem

inexperiente e explicava-me como a carbonária não era outra coisa senão o disfarce do flagelo maior, o comunismo.

- Os comunistas - dizia - até ontem não pareciam temíveis, mas agora, depois do manifesto daquele Marsh assim ele parecia pronunciar , devemos desmascarar as tramas

deles. Você não sabe nada de Babette de Interlaken. Digna bisneta de Weishaupt, aquela que foi chamada a Grande Virgem do comunismo helvético.

Não sei por quê, o padre Bergamaschi parecia ser obsedado, mais que com as insurreições milanesas ou vienenses das quais se falava naqueles dias, com os confrontos

religiosos que haviam acontecido na Suíça entre católicos e protestantes.

- Babette nasceu de contrabando e cresceu em meio a farras, rapinas e sangue; só conhecia Deus por ter ouvido blasfemarem continuamente contra ele. Nas escaramuças

em Lucerna, quando os radicais mataram uns católicos dos cantões primitivos, era Babette a encarregada de lhes arrancar o coração e extirpar os olhos.

Babette, agitando ao vento sua cabeleira loura de concubina da Babilônia, escondia sob o manto das suas graças o fato de ser o arauto das sociedades secretas, o

demônio que sugeria todos os ardis e as astúcias daqueles conciliábulos misteriosos. Aparecia de repente e desaparecia em um piscar de olhos como um duende, sabia

segredos impenetráveis, furtava despachos diplomáticos sem alterar os lacres, rastejava como uma áspide pelos mais reservados gabinetes de Viena, de Berlim e até

de São Petersburgo, falsificava promissórias, alterava os números dos passaportes, ainda menina conhecia a arte dos venenos e sabia ministrá-los como lhe ordenava

a seita. Parecia possuída por Satanás, tais eram seu vigor febril e o fascínio dos seus olhares.

Eu arregalava os olhos, tentava não escutar, mas à noite sonhava com Babette de Interlaken. Enquanto, cochilando, buscava cancelar a imagem daquele demônio louro

de juba escorrendo pelas costas, sem dúvida, nuas, daquele duende diabólico e perfumado, com seu seio arfante de volúpia de fera descrente e pecadora, e admirava-a

como modelo a imitar - ou seja, horrorizado só em pensar aflorá-la com os dedos, sentia o desejo de ser como ela, agente onipotente e secreto que alterava os números

dos passaportes, levando à perdição suas vítimas do outro sexo.
Meus mestres gostavam de comer bem, e esse vício deve ter permanecido em mim até a idade adulta. Recordo mesas grandes, se não alegres ao menos contritas, nas quais

os bons padres discutiam sobre a excelência de um cozido misto que meu avô mandara preparar.

Eram necessários ao menos meio quilo de músculo de boi, um rabo, alcatra, salaminho, língua e cabeça de vitela, linguiça, galinha, uma cebola, duas cenouras, dois

talos de aipo e um punhado de salsa. Deixava-se cozinhar tudo por tempos diferentes, segundo o tipo de carne. Porém, como lembrava vovô, e padre Bergamaschi aprovava

com enérgicos acenos de cabeça, assim que o cozido era colocado na travessa, para ser levado à mesa, era preciso espalhar um punhado de sal grosso sobre a carne

e derramar nela algumas conchas de caldo fervente, para ressaltar o sabor. Poucos acompanhamentos, exceto umas batatas, mas eram fundamentais os molhos; podiam ser

de mosto, de rabanete ou de frutas com mostarda, mas sobretudo vovô não transigia o molhinho verde: um punhado de salsa, quatro filés de anchova, miolo de um pãozinho,

uma colher de alcaparras, um dente de alho, uma gema de ovo cozido. Tudo finamente triturado, com azeite de oliva e vinagre.

Esses foram, recordo, os prazeres da minha infância e adolescência. O que mais desejar?
Tarde abafada. Estou estudando. Padre Bergamaschi senta-se silencioso atrás de mim, aperta a mão sobre minha nuca e sussurra- me que a um jovem tão pio, tão bem-intencionado,

que quisesse evitar as seduções do sexo inimigo, ele poderia oferecer não só uma amizade paternal como também o calor e o afeto que um homem maduro pode dar.

Desde então, não me deixo mais tocar por um padre. Será que me disfarço de abade Dalla Piccola para eu mesmo tocar os outros?
Mas, por volta dos meus 18 anos, vovô, que me queria advogado no Piemonte chama-se de advogado quem quer que tenha feito estudos de Direito , resignou-se a me deixar

sair de casa e a me mandar para a universidade. Pela primeira vez, eu experimentava a relação com meus coetâneos, mas era tarde demais e eu a vivia de maneira desconfiada.

Não compreendia suas risadas sufocadas e os olhares de entendimento quando falavam sobre fêmeas e trocavam livros franceses com gravuras repugnantes. Eu preferia

ficar sozinho e ler. Meu pai recebia de Paris a assinatura de Le Constitutionnel, em que saía em capítulos O judeu errante, de Sue, e naturalmente devorei aqueles

fascículos. E por eles descobri como a infame Com panhia de Jesus sabia tramar os mais abomináveis crimes para se apoderar de uma herança, violando os direitos dos

míseros e dos bons. E, junto com a desconfiança ante os jesuítas, aquela leitura me iniciou às delícias do feuilletom no sótão, achei um caixote de livros que, evidentemente,

meu pai havia subtraído ao controle do vovô, e também procurando esconder do meu avô esse meu vício solitário passava tardes inteiras, até consumir os olhos, sobre

Os mistérios de Paris, Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo...

Tínhamos entrado naquele ano admirável que foi o de 1848. Todo estudante exultava pela subida ao sólio pontifício daquele papa Pio IX, que dois anos antes concedera

anistia para os crimes políticos. O ano se iniciara com os primeiros movimentos antiaus- tríacos em Milão, onde os cidadãos começaram a não fumar para deixar em

crise o erário do Régio Governo Imperial e, aos meus colegas turinenses, pareciam heróis aqueles colegas milaneses que resistiam decididos aos soldados e aos funcionários

de polícia que os provocavam, lançando-lhes baforadas de fumaça de charutos perfumadíssimos . No mesmo mês explodiram movimentos revolucionários no reino das Duas

Sicílias, e Fernando II prometeu uma Constituição. Contudo, enquanto em fevereiro, em Paris, a insurreição popular destronava Luís Filipe e era proclamada de novo

e finalmente! a república - e aboliam-se a pena de morte para crimes políticos e a escravidão e instaurava-se o sufrágio universal -, em março o papa concedeu não

só a Constituição, como também a liberdade de imprensa e livrou os judeus do gueto de muitos rituais e sujeições humilhantes. E, no mesmo período, também o grão-duque

da Toscana concedia a Constituição enquanto Carlos Alberto promulgava o Estatuto nos reinos sardos. Por fim, houve os movimentos revolucionários em Viena, na Boêmia

e na Hungria, e aquelas cinco jornadas da insurreição de Milão, que levariam à expulsão dos austríacos, com o exército piemontês entrando em guerra para anexar ao

Piemonte a Milão libertada. Meus colegas sussurravam também sobre o aparecimento de um manifesto dos comunistas, de modo que quem exultava não eram só os estudantes

mas também os trabalhadores e os homens de baixa condição,

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Eu arregalava os olhos, tentava não escutar, mas à noite sonhava com Babette de Interlaken p74



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todos convencidos de que em breve enforcariam o último padre com as tripas do último rei.

Não que todas as notícias fossem boas, porque Carlos Alberto estava sofrendo derrotas e era considerado traidor pelos milaneses e, em geral, por qualquer patriota;

Pio IX, apavorado com o assassinato de um ministro seu, refugiara-se em Gaeta junto ao rei das Duas Sicílias e, depois de jogar a pedra, escondia a mão, mostrava-

se menos liberal do que parecera no início e muitas das constituições concedidas eram abolidas... Mas, em Roma, enquanto isso, haviam chegado Garibaldi e os patriotas

mazzinianos, e, no início do ano seguinte, seria proclamada a República Romana.

Meu pai desaparecera definitivamente de casa em março, e mãe Teresa se dizia convencida de que ele se unira aos insurretos milaneses; mas, em dezembro, um dos jesuítas

locais soube que ele fora ao encontro dos mazzinianos que corriam para defender a República Romana. Abatido, vovô me bombardeava com vaticínios horríveis, que transformavam

o annus mirabilis em annus horribilis. Tanto que, nos mesmos meses, o governo piemontês suprimia a ordem dos jesuítas, confiscando seus bens, e, para destruí-los,

suprimia também as ordens jesuitizantes, como os oblatos de São Carlos e de Maria Santíssima e os liguoristas.

- Estamos no advento do Anticristo - lamentava vovô, e naturalmente atribuía todos os eventos às manobras dos judeus, vendo concretizarem-se as mais tristes profecias

de Mordechai.
Meu avô dava refúgio aos padres jesuítas que tentavam se subtrair ao furor popular, esperando reintegrar-se de algum modo ao clero secular, e, no início de 1849,

muitos deles chegavam clandestinos, fugindo de Roma, e relatavam coisas atrozes sobre o que acontecia lá.

Padre Pacchi. Depois de ler O judeu errante, de Sue, eu o via como uma encarnação do padre Rodin, o jesuíta perverso que agia nas sombras sacrificando todo princípio

moral ao triunfo da Com- panhia, talvez porque, como o personagem, ele sempre escondia sua pertença à ordem vestindo-se em trajes civis; ou seja, usando sobretudo

surrado, com a gola emplastrada de suor antigo e coberta de caspa, um lenço no lugar da gravata, um colete de pano preto todo puído e pesados sapatos sempre incrustados

de lama, com os quais ele pisava sem grandes cuidados os belos tapetes da nossa casa. Tinha um rosto afilado, magro e mortiço, cabelos grisalhos e untuosos grudados

às têmporas, olhos de tartaruga e lábios delgados e violáceos.

Não contente com inspirar repulsa simplesmente por se sentar à mesa, tirava o apetite de todos contando histórias arrepiantes, em tom e linguagem de pregador sacro:

- Meus amigos, a voz me treme, mas ainda assim devo lhes dizer. A lepra se difundiu a partir de Paris, porque Luís Filipe certamente não era flor que se cheire,

mas era um dique contra a anarquia. Vi o povo romano nesses dias! Mas era de fato o povo romano? Eram figuras andrajosas e desgrenhadas, delinquentes, que por um

copo de vinho renegariam o paraíso. Não povo, mas plebe, que em Roma se fundiu com os mais vis rejeitos das cidades italianas e estrangeiras, garibaldinos e mazzinianos;

instrumento cego de todo o mal. Vocês não sabem quão nefandas são as abominações cometidas pelos republicanos. Entram nas igrejas e arrombam as urnas dos mártires,

espalham as cinzas ao vento, e da urna fazem penico. Arrancam as pedras sagradas dos altares e emplastram-nas de fezes, arranham com seus punhais as estátuas da

Virgem, furam os olhos das imagens dos santos e, com carvão, escrevem nelas palavras de lupanar. Arrastaram para dentro de um portão um sacerdote que falava contra

a República, perfuraram-no com punhaladas, extirparam-lhe da cabeça os olhos e arrancaram-lhe a língua, e, depois de desventrá-lo, enrolaram-lhe as vísceras ao pescoço

e o estrangularam. E não creiam que, se ainda assim Roma for libertada fala-se de ajudas que devem vir da França , os mazzinianos serão derrotados. São vomitados

por todas as províncias da Itália, são espertos e astutos, simuladores e fingidos, expeditos e audazes, pacientes e constantes. Continuarão a se reunir nos covis

mais secretos da cidade; a simulação e a hipocrisia os fazem entrar nos segredos dos gabinetes, na polícia, nos exércitos, nas frotas, nas cidadelas.

- E meu filho está com eles - chorava vovô, destruído no corpo e no espírito.

Depois, acolhia à mesa um excelente assado ao Barolo.

- Meu filho jamais compreenderá - dizia - a beleza desse boi com cebolas, cenouras, aipos, sálvia, alecrim, louro, cravo, canela, zimbro, sal, pimenta, manteiga,

azeite de oliva e, naturalmente, uma garrafa de Barolo, servido com polenta ou purê de batatas. Façam, façam a revolução... Perdeu-se o gosto pela vida. Querem expulsar

o papa a fim de comer a bouillabaisse à moda de Nice, como nos obrigará Garibaldi, aquele pescador... Não existe mais religião.
Muitas vezes o padre Bergamaschi vestia roupas civis e ia embora, dizendo que se ausentaria por alguns dias, sem informar como nem por quê. Então, eu entrava no

seu quarto, apoderava-me do seu hábito e, vestido nele, ia me olhar em um espelho, esboçando movimentos de dança. Como se fosse, o céu me perdoe, uma mulher; ou

se a mulher fosse ele, que eu imitava. Se vier à tona que o abade Dalla Piccola sou eu, terei identificado as origens longínquas desses meus gostos teatrais.

Nos bolsos do hábito, eu tinha encontrado dinheiro do qual evidentemente o padre se esquecera e decidira me conceder tanto alguns pecados de gula quanto algumas

explorações de lugares da cidade sobre os quais frequentemente ouvira elogios.

Assim vestido - e sem considerar que naquela época isso já era uma provocação -, adentrava os meandros do Balôn, aquele bairro de Porta Palazzo então habitado pela

escória da população turinense, em que se recrutava o exército dos piores malfeitores que infestavam a cidade. Todavia, por ocasião das festas, o mercado de Porta

Palazzo oferecia uma animação extraordinária. As pessoas se apinhavam, acotovelavam-se em torno das barracas,

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... Arrastaram para dentro de um portão um sacerdote que falava contra a República, perfuraram-no com punhaladas, extirparam-lhe da cabeça os olhos e arrancaram-lhe



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as criadas entravam em bando nos açougues, as crianças se detinham extasiadas diante do fabricante de torrones, os glutões faziam suas compras de aves domésticas,



caça e embutidos, não se encontrava uma mesa livre nos restaurantes, e, com meu hábito esvoaçante, eu roçava as vestes femininas e via com o canto do olho, que mantinha

eclesiasticamente fixo sobre as mãos postas, cabeças de mulheres com chapeuzinho, coifa, véu ou lenço, e sentia-me atordoado pelo vaivém das diligências e dos carrinhos,

pelos gritos, os berros, o estrépito.

Excitado por aquela efervescência que meu avô e meu pai, embora por razões opostas, até então tinham me ocultado, eu avançara até um dos lugares lendários da Turim

de então. Vestido de jesuíta e desfrutando com malícia do estupor que suscitava, ia ao Caffe al Bicerin, vizinho à Consolata, a fim de tomar aquele copo com proteção

e asa de metal, odoroso de leite, cacau, café e outros aromas. Eu ainda não sabia que, sobre o bicerin, até Alexandre Dumas, um dos meus heróis, escreveria alguns

anos depois; porém, no decorrer de não mais que duas ou três incursões àquele local mágico, descobrira tudo sobre aquele néctar que derivava da bavareisa, embora,

enquanto na bavareisa estão misturados leite, café e chocolate, no bicerin eles ficam separados em três camadas mantidas quentes , de modo que se pode pedir um bicerin

pur e fiur, feito de café e leite, pur e barba, café e chocolate, e um poc d tut, ou seja, um pouco de tudo.

A bem-aventurança daquele ambiente de moldura externa em ferro, os painéis publicitários nos lados, as colunetas e os capitéis em gusa, as boiseries internas decoradas

por espelhos e as mesinhas de mármore, o balcão atrás do qual surgiam os potes, com perfume de amêndoa, com quarenta tipos diferentes de confeitos... Eu gostava

de ficar observando particularmente aos domingos, porque aquela bebida era o néctar de quem, tendo jejuado a fim de se preparar para a comunhão, buscava conforto

ao sair da Consolata - e o bicerin era procurado em época de jejum quaresmal porque o chocolate quente não era considerado alimento. Hipócritas.
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Mas, prazeres do café e do chocolate à parte, o que me dava satisfação era parecer um outro: o fato de as pessoas não saberem quem eu era me dava uma sensação de

superioridade. Eu possuía um segredo.
Mais tarde tive que limitar e, por fim, interromper aquelas aventuras, porque temia topar com um dos meus colegas, que certamente não me conheciam como rato de sacristia

e me consideravam inflamado pelo mesmo ardor carbonário deles.

Com esses aspirantes à pátria resgatada eu costumava me encontrar na Osteria del Gambero d Oro. Em uma rua estreita e escura, acima de uma entrada ainda mais escura,

uma tabuleta com um camarão dourado no alto dizia: Al Osteria del Gambero d Oro, buon vino e buon ristoro. Dentro, abria-se um saguão que servia de cozinha e adega.

Bebia-se em meio a odores de embutidos e de cebolas, às vezes jogava-se par ou ímpar e, mais frequentemente, conjurados sem conjura, passávamos a noite imaginando

insurreições iminentes. A cozinha do vovô me habituara a viver como gourmet, ao passo que no Gambero d Oro você podia, no máximo se comesse de tudo , matar a fome.

Mas, afinal, eu precisava viver em sociedade e fugir aos jesuítas de casa, portanto era melhor enfrentar a gordura do Gambero, com alguns amigos joviais, do que

os sombrios jantares domésticos.

Perto do amanhecer, saíamos, com a respiração saturada de alho e o coração cheio de ardores patrióticos, e nos perdíamos em um confortável manto de névoa, excelente

para evitar o olhar dos espiões da polícia. Às vezes subíamos além do Pó, observando do alto os telhados e os campanários a flutuarem sobre aqueles vapores que inundavam

a planície, enquanto ao longe a basílica de Superga, já iluminada pelo sol, parecia um farol no meio do mar.

Contudo, nós, estudantes, não falávamos somente da Nação vindoura. Falávamos, como acontece nessa idade, de mulheres.

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Com as pupilas acesas, cada um por sua vez recordava um sorriso surripiado ao olhar para uma sacada, uma mão tocada ao descer uma escadaria, uma flor murcha, caída



de um missal e recolhida dizia o gabarola quando ainda retinha o perfume da mão que a guardara naquelas páginas sagradas. Eu me retraía, sisudo, e adquiria fama

de mazziniano de costumes íntegros e severos.

Só que, certa noite, o mais licencioso dos nossos colegas revelou ter descoberto no sótão, bem escondidos em um arquibanco pelo seu desavergonhadíssimo e dissoluto

pai, alguns daqueles volumes que em Turim eram então chamados em francês de cochons, e, não ousando exibi-los sobre a mesa untuosa do Gambero d Oro, decidiu emprestá-los

alternadamente a cada um de nós, de modo que, quando chegou a minha vez, não pude recusar.

Assim, noite alta, folheei aqueles tomos, que deviam ser preciosos e caros, encadernados como eram em marroquim, nervuras na lombada e rótulo vermelho, corte em

ouro, fleurons dourados nas pranchas e - alguns - aux armes. Intitulavam-se Une veillée de jeune filie ou Ah! monseigneur, si Thomas nous voyait!, e eu sentia calafrios

ao folhear aquelas páginas e encontrar gravuras que me faziam derramar rios de suor, dos cabelos às bochechas e ao pescoço: mulheres de pouca idade levantando as

saias para mostrar traseiros de ofuscante brancura, oferecidas ao ultraje de machos lascivos - e tampouco sabia se me perturbavam mais aquelas ro- tundidades despudoradas

ou o sorriso quase virginal da jovem, que virava impudicamente a cabeça para seu profanador, com olhos maliciosos e um sorriso casto a lhe iluminar o rosto, emoldurado

por cabelos corvinos dispostos em dois coques laterais, ou, bem mais terríveis, três mulheres em um divã que abriam as pernas, mostrando aquela que deveria ser a

defesa natural do seu púbis virginal, uma oferecendo-a à mão direita de um macho de cabelos desgrenhados, que, enquanto isso, penetrava e beijava a desavergonhada

vizinha, e, da terceira, ignorando-lhe a virilha exposta, abria com a mão esquerda o decote levemente licencioso, puxando-lhe o corpete. Depois encontrei a curiosa

caricatura de um abade de rosto verruguento que,

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visto de perto, mostrava-se composto de nus femininos e masculinos variadamente enroscados e penetrados por enormes membros viris, muitos



dos quais pendiam enfileirados sobre a nuca, como que para formar, com seus testículos, uma espessa cabeleira que terminava em cachos graúdos.

Não recordo como acabou aquela noite de sabá, quando o sexo me foi apresentado em seus aspectos mais tremendos no sentido sagrado do termo, como o ronco do trovão



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