O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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que suscita, junto ao sentimento do divino, o temor do diabólico e do sacrílego . Recordo somente que saí daquela perturbadora experiência repetindo em voz alta,

como uma jaculatória, a frase de não sei qual escritor de coisas sacras que, anos antes, o padre Pertuso me fizera decorar: A beleza do corpo está toda na pele.

De fato, se os homens vissem o que está sob a pele, a simples visão das mulheres lhes resultaria nauseabunda: essa graça feminina não passa de sujeira, sangue, humor,

fel. Considerem o que se esconde nas narinas, na garganta, no ventre... E nós, que não ousamos tocar sequer com a ponta dos dedos o vômito ou o estrume, como podemos

então desejar estreitar nos nossos braços um saco de excrementos?

Naquela idade, eu talvez ainda acreditasse na justiça divina, e atribuí o que aconteceu no dia seguinte à sua vingança por aquela terrível noite. Encontrei vovô

caído na sua poltrona, ofegante, com um papel desdobrado nas mãos. Chamamos o médico, peguei a carta e li que meu pai tinha sido mortalmente alvejado por uma bala

francesa na defesa da República Romana, justamente naquele junho de 1849 em que o general Oudinot, por conta de Luís Napoleão, correra a libertar de mazzinianos

e garibaldinos o trono sagrado.

Meu avô não morreu, e pensar que ele tinha mais de 80 anos, mas durante dias se fechou em um silêncio ressentido, odiando não sei se os franceses ou os papalinos,

que haviam matado seu filho, ou o filho, que irresponsavelmente ousara desafiá-los,

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Mas, prazeres do café e do chocolate à parte, o que me dava satisfação era parecer um outro p 83



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ou todos os patriotas que o tinham corrompido. Às vezes deixava escapar

sibilos lamentosos, aludindo à responsabilidade dos judeus sobre os fatos que conturbavam a Itália, assim como, cinquenta anos antes, haviam conturbado a França.
Talvez para evocar meu pai, passo longas horas no sótão, debruçado sobre os romances que ele deixou, e consigo interceptar o Joseph Balsamo, de Dumas, vindo pelo

correio quando ele já não poderia lê-lo.

Esse livro prodigioso conta, como todos sabem, as aventuras de Cagliostro, que tramou o episódio do colar da rainha, arruinando em um só golpe, moral e financeiramente,

o cardeal de Rohan, comprometendo a soberana e expondo ao ridículo a corte inteira, tanto que, para muitos, seu embuste contribuíra para minar o prestígio da instituição

monárquica a tal ponto que preparara o clima de descrédito que levaria à Revolução de 1789.

Dumas, porém, faz mais, e vê em Cagliostro, ou melhor, em Joseph Balsamo, aquele que conscientemente organizou não um embuste, mas um complô político à sombra da

maçonaria universal.

Eu era fascinado pela ouverture. Cenário: o Mont-Tonnerre, monte do Trovão. Na margem esquerda do Reno, a poucas léguas de Worms, começa uma série de montanhas lúgubres,

o Assento do Rei, a Rocha dos Falcões, a Crista das Serpentes e, mais elevado que todos, o monte do Trovão. Em 6 de maio de 1770 quase vinte anos antes da irrupção

da fatídica Revolução , enquanto o sol descia atrás da agulha da catedral de Estrasburgo, que quase o dividia em dois hemisférios de fogo, um Desconhecido vinha

de Mogúncia e ia subindo as encostas daquele monte, a certa altura abandonando seu cavalo. De repente, era capturado por seres mascarados, que, depois de vendá-lo,

conduziam-no para além da selva até uma clareira onde o esperavam trezentos fantasmas envoltos em sudários e armados com espadas, os quais começavam a submetê-lo

a um rigorosíssimo interrogatório.

O que queres? Ver a luz. Estás disposto a jurar? Seguia-se uma série de provas, tais como beber o sangue de um traidor recém- morto, atirar na cabeça com uma pistola,

a fim de testar o próprio senso de obediência, e caraminholas do mesmo gênero, que evocavam rituais maçónicos de ordem ínfima, bem conhecidos inclusive dos leitores

populares de Dumas, até que o viajante resolvia encurtar a história e dirigir-se ao conciliábulo com altivez, deixando claro que conhecia todos os seus ritos e truques

e que, por conseguinte, parassem de fazer teatro com sua pessoa, pois estava acima de todos eles e daquele conventículo maçónico universal era o chefe por direito

divino.


E chamava, para submetê-los ao seu comando, os membros das lojas maçónicas de Estocolmo, de Londres, de Nova York, de Zurique, de Madri, de Varsóvia e de vários

países asiáticos, todos obviamente já acorridos ao monte do Trovão.

Por que os maçons de todo o mundo tinham se congregado ali? O Desconhecido explicava: eram necessárias mão de ferro, espada de fogo e balanças de diamante para expulsar

da terra o Impuro, ou seja, aviltar e destruir os dois grandes inimigos da humanidade, o trono e o altar vovô até me dissera que o lema do infame Voltaire era écrasez

1 infame . O Desconhecido relembrava, então, que vinha existindo, como todo bom necromante, havia mil gerações, desde antes de Moisés e talvez de Assurbanipal, e

viera do Oriente para anunciar que chegara a hora. Os povos constituem uma imensa falange que marcha incessantemente rumo à luz, e a França estava na vanguarda dessa

falange. Que se pusesse nas suas mãos a tocha verdadeira dessa marcha e que ela incendiasse o mundo com nova luz. Na França, governava um rei velho e corrupto, a

quem restavam ainda poucos anos de vida. Embora um dos congregados - que aliás era Lavater, o excelso fisionomista - tentasse observar que os rostos dos dois jovens

sucessores o futuro Luís XVI e sua mulher, Maria Antonieta revelavam uma índole boa e caritativa, o Desconhecido no qual os leitores certamente reconheceriam aquele

Joseph Balsamo, que no livro de Dumas ainda não fora mencionado

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recordava que não se devia atentar para a piedade humana quando se tratava de fazer avançar a tocha do progresso. Dentro de vinte anos, a monarquia



francesa devia ser eliminada da face da Terra.

E, a essa altura, cada representante de cada loja de cada país se adiantava, oferecendo homens ou riquezas, para o triunfo da causa republicana e maçónica sob a

divisa lilia pedibus destrue, pisoteie e destrua os lírios da França.

Não me perguntei se o complô de cinco continentes não era excessivo para modificar a ordem constitucional francesa. No fundo, um piemontês da época julgava que no

mundo só existiam a França, certamente a Áustria, talvez bem longe a Cochinchina, mas nenhum outro país digno de atenção, menos, obviamente, o Estado Pontifício.

Diante do enredo de Dumas e eu venerava esse grande autor , perguntei-me se o Vate não teria descoberto, ao narrar um único complô, a Forma Universal de todo complô

possível.

Esqueçamos o monte do Trovão, a margem esquerda do Reno, a época - dizia a mim mesmo. Pensemos em conjurados provenientes de todas as partes do mundo para representar

os tentáculos da sua seita estendidos em todos os países, reunamos esses indivíduos em uma clareira, uma gruta, um castelo, um cemitério, uma cripta, desde que o

lugar seja razoavelmente escuro, façamos um deles pronunciar um discurso que revele suas tramas e a vontade de conquistar o mundo... Sempre conheci pessoas que temiam

o complô de algum inimigo oculto - os judeus para vovô, os maçons para os jesuítas, os jesuítas para meu pai garibaldino, os carbonários para os reis de meia Europa,

o rei fomentado pelos padres para meus colegas mazzinianos, os Iluminados da Baviera para as polícias de meio mundo - e, pronto, quem sabe quanta gente existe por

aí que pensa estar ameaçada por uma conspiração... Aí está uma forma a preencher à vontade, a cada um o seu complô.

Dumas era de fato um profundo conhecedor do espírito humano. A que aspira cada um, tanto quanto mais desventurado for e pouco amado pela sorte? Ao dinheiro e, conquistado

esse sem fadiga,

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ao poder que volúpia em comandar um semelhante e em humilhá-lo! e à vingança por todos os agravos sofridos e todos sofreram na vida ao menos um agravo,



por menor que tenha sido . E eis que Dumas, no Monte Cristo, faz ver como é possível adquirir uma imensa riqueza, capaz de lhe dar um poder sobre-humano e de fazer

seus inimigos pagarem todas as dívidas. Afinal, pergunta- se cada um, por que fui desfavorecido pela sorte ou ao menos não tão favorecido quanto gostaria , por que

me foram negados benefícios concedidos a outros menos merecedores do que eu? Como ninguém pensa que suas desventuras possam ser atribuídas à sua mediocridade, eis

que se deverá identificar um culpado. Dumas oferece à frustração de todos aos indivíduos como aos povos a explicação do seu fracasso. Foi algum outro, reunido no

monte do Trovão, que projetou sua ruína...

Pensando bem, Dumas não tinha inventado nada: apenas dera forma narrativa a tudo o que, segundo vovô, o abade Barruel revelara. Isso já me sugeria que, se fosse

vender de algum modo a revelação de um complô, eu não devia fornecer ao comprador nada de original, mas só e especialmente aquilo que ele já compreendia ou poderia

vir a compreender mais facilmente por outras vias. As pessoas só creem naquilo que sabem, e essa era a beleza da Forma Universal do Complô.


Era 1855, eu já tinha 25 anos, havia conseguido um diploma em jurisprudência e ainda não sabia o que fazer da minha vida. Frequentava os antigos companheiros sem

me entusiasmar demais pelos frêmitos revolucionários deles, e sempre antecipando em alguns meses, com ceticismo, suas decepções: eis Roma agora reconquistada pelo

papa, e Pio IX, que de pontífice das reformas se torna mais retrógrado que seus predecessores, eis o desaparecimento - por desgraça ou por vileza - das esperanças

de que Carlos Alberto se tornasse o arauto da unidade italiana, eis que, depois de arrebatadores movimentos socialistas que haviam inflamado todos os Ânimos,

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o império se restabelece na França, eis que o novo governo piemontês, em vez de libertar a Itália, envia soldados para fazer uma guerra inútil na Crimeia...



E eu já nem podia ler aqueles romances que haviam me formado mais do que os meus jesuítas souberam fazer, porque na França um conselho superior da Universidade,

no qual, sei lá por quê, mantinham assento três arcebispos e um bispo, promulgara a chamada emenda Riancey, que taxava em cinco cêntimos por número todos os jornais

que publicassem um feuilleton em episódios. Para quem pouco sabia sobre negócios editoriais, a notícia tinha escasso relevo, mas meus colegas e eu logo compreendemos

seu alcance: a taxa era muito punitiva e os jornais franceses deveriam desistir de publicar romances. As vozes daqueles que haviam denunciado os males da sociedade,

como Sue e Dumas, tinham sido caladas para sempre.

No entanto, meu avô, às vezes muito desligado, mas em outros momentos muito lúcido em registrar o que ocorria ao seu redor, reclamava que o governo piemontês, desde

que maçons como d Azeglio e Cavour tinham tomado posse dele, se transformara em uma sinagoga de Satanás.

- Você se dá conta, rapaz? - dizia. - As leis daquele Siccardi aboliram os chamados privilégios do clero . Por que abolir o direito de asilo nos locais sacros? Por

acaso uma igreja tem menos direitos do que uma gendarmaria? Por que abolir o tribunal eclesiástico para religiosos acusados de delitos comuns? Afinal, a Igreja não

tem o direito de julgar os seus? Por que abolir a censura religiosa preventiva sobre as publicações? Será que agora todos podem dizer o que lhes agrada, sem comedimento

e sem respeito pela fé e pela moral? E nosso arcebispo Fransoni, quando convidou o clero de Turim a desobedecer a tais medidas, foi preso como um malfeitor e condenado

a um mês de cárcere! E chegamos à supressão das ordens mendicantes e contemplativas, quase 6 mil religiosos. O Estado confisca-lhes os bens e diz que servirão para

o pagamento das côngruas aos párocos, mas, se você juntar todos os bens dessas ordens, alcançará uma cifra que equivale a dez, que digo eu, a cem vezes

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todas as côngruas do reino, e o governo gastará esse dinheiro na escola pública, onde se ensinará aquilo de que os humildes não precisam, ou se servirá



dele para pavimentar os guetos! E tudo sob a máxima Igreja livre em um Estado livre , no qual só quem é verdadeiramente livre para prevaricar é justamente o Estado.

A verdadeira liberdade é o direito do homem de seguir a lei de Deus, de merecer o paraíso ou o inferno. Agora, em vez disso, entende-se por liberdade a possibilidade

de escolher as crenças e as opiniões que mais lhe agradam, em que uma vale a outra, e para o Estado tanto faz que você seja maçom, cristão, judeu ou sequaz do grão-turco.

Desse jeito, a pessoa se torna indiferente à Verdade.

E, assim, meu filho , chorou uma noite vovô, que no seu marasmo não me distinguia do meu pai e falava então ofegando e gemendo, desaparecem canônicos lateranenses,

canônicos regulares de santo Egídio, carmelitas calçados e descalços, certosinos, beneditinos cassinenses, cistercienses, olivetanos, mínimos, menores conventuais,

menores da observância, menores reformados, menores capuchinhos, oblatos de santa Maria, passionistas, dominicanos, mercedários, servos de Maria, padres do Oratório

e, ainda clarissas, crucifixas, celestinas ou turquinas e batistinas.

E recitando essa lista como um rosário, de maneira cada vez mais agitada e como se no final tivesse se esquecido de tomar fôlego, mandou trazer à mesa o civet, com

toucinho, manteiga, farinha, salsa, meio litro de Barbera, uma lebre cortada em pedaços grandes como ovos, coração e fígado incluídos, cebolinha, sal, pimenta, especiarias

e açúcar.

Quase se consolou, mas, a certa altura, fechou os olhos e se extinguiu, com um leve arroto.

O relógio de pêndulo bate a meia-noite e avisa-me que faz tempo demais que estou escrevendo quase ininterruptamente. Agora, por mais que me esforce, não consigo

recordar mais nada dos anos que se seguiram à morte do vovô.

Minha cabeça gira.
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E nosso arcebispo Fransoni, quando convidou clero de Turim a desobedecer a tais medidas, foi preso como um malfeitor e condenado a um mês de cárcere! ... p. 91


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SIMONINO CARBONÁRIO



Noite de 27 de março de 1897
Queira desculpar, capitão Simonini, se me intrometo no seu diário, que não pude deixar de ler. Mas não foi por vontade minha que esta manhã despertei na sua cama.

O senhor terá compreendido que sou ou ao menos me considero o abade Dalla Piccola.

Acordei em uma cama que não era minha, em um apartamento que não conheço, sem qualquer vestígio da minha veste talar ou da minha peruca. Apenas uma barba postiça

ao lado da cama. Uma barba postiça?

Dias atrás, já me acontecera despertar e não saber quem era, porém, daquela vez, ocorreu na minha casa, ao passo que essa manhã ocorreu em casa alheia. Senti-me

como se tivesse remela nos olhos. Minha língua doía, como se eu a houvesse mordido.

Olhando por uma janela, percebi que o apartamento dá para o impasse Maubert, do lado oposto da rue Maître Albert, onde moro.

Comecei a revistar toda a casa, que parece habitada por um laico, evidentemente portador de uma barba postiça e, portanto queira desculpar , pessoa de moralidade

dúbia. Entrei em um escritório, decorado com certa ostentação; ao fundo, atrás de um reposteiro, encontrei uma portinha e penetrei em um corredor parecido com os

bastidores de um teatro, cheio de trajes e perucas, e no qual, dias antes, eu tinha encontrado um hábito sacerdotal, mas agora eu o percorria em sentido oposto,

em direção à minha moradia.

Sobre minha mesa encontrei uma série de anotações que, a julgar pelas suas reconstituições, devo ter escrito em 22 de março, dia em que, como hoje de manhã, acordei

desmemoriado. E, afinal, o que significa, perguntei-me, a última anotação que tomei naquele dia, sobre Auteuil e Diana? Quem é Diana?

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É curioso. O senhor desconfia que nós dois somos a mesma pessoa. Todavia o senhor recorda muitas coisas sobre sua vida e eu, pouquíssimas sobre a minha. Inversamente,



como prova seu diário, o senhor não sabe nada sobre mim, ao passo que eu me dou conta de recordar outras coisas, e não poucas, sobre o que lhe aconteceu, e - veja

só - exatamente aquelas das quais o senhor parece não conseguir se lembrar. Devo dizer que, se posso recordar tantas coisas a seu respeito, então eu sou o senhor?

Talvez não, somos duas pessoas diferentes, envolvidas por alguma razão misteriosa em uma espécie de vida em comum; no fundo eu sou um eclesiástico e talvez saiba

a seu respeito aquilo que o senhor me contou sob o sigilo da confissão. Ou sou aquele que assumiu o lugar do doutor Froide e, sem que o senhor se lembre, extraiu

das profundezas do seu ventre aquilo que o senhor tentava manter sepultado?

Seja como for, é meu dever sacerdotal lembrar-lhe aquilo que lhe aconteceu após a morte do seu avô; que Deus tenha acolhido a alma dele na paz dos justos. Sem dúvida,

se o senhor morresse neste instante, o Pai Eterno não o acolheria nessa mesma paz, pois me parece que seu comportamento com seus semelhantes não foi correto, e talvez

seja por isso que sua memória se recusa a recuperar lembranças que não o honram.


Na realidade, Dalla Piccola relatava a Simonini somente uma sequência bastante enxuta de fatos, anotados em uma grafia minúscula bem diferente da dele, mas eram

justamente esses acenos avaros que serviam para Simonini como suportes para pendurar jorros de imagens e de palavras que repentinamente lhe voltavam à mente. Deles,

o Narrador tenta o resumo ou, melhor, a devida amplificação, para tornar mais coerente esse jogo de estímulos e respostas e não impor ao leitor o tom hipocritamente

virtuoso com que, sugerindo-os, o abade censura com unção excessiva as culpas do seu alter ego.

Ao que parece, não só o fato de os carmelitas descalços haverem sido abolidos, mas também o fato de seu avô ter morrido

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não transtornaram Simoni particularmente. Talvez ele fosse afeiçoado ao avô, mas, depois de uma infância e uma adolescência passadas em uma casa que parecia ter



sido concebida para oprimi-lo, onde tanto o avô quanto os educadores de hábito preto sempre lhe haviam inspirado desconfiança, rancor e ressentimento perante o mundo,

Simonino se tornou cada vez mais incapaz de alimentar sentimentos diferentes de um sombrio amor a si mesmo, que, aos poucos, assumiu a calma serenidade de uma opinião

filosófica.

Após se ocupar das exéquias, das quais participaram eclesiásticos ilustres e a nata da nobreza piemontesa ligada ao Ancien Kégime, ele se encontrou com o velhíssimo

tabelião da família, um certo Rebaudengo, que lhe leu o testamento no qual o avô lhe deixava todas as suas posses. Só que, informava o tabelião e parecia gostar

disso , dadas as muitas hipotecas que o ancião havia feito e seus vários investimentos ruins, daquelas posses não restava mais nada, nem mesmo a casa com todos os

móveis que havia dentro, e ela deveria ser entregue quanto antes aos credores - os quais até então tinham se contido por causa do respeito devido àquele estimado

cavalheiro, mas com o neto não fariam cerimônia.

- Veja bem, prezado advogado - disse o tabelião -, talvez seja pelas tendências dos novos tempos, que não são como antes, mas até os filhos de boas famílias devem,

às vezes, sujeitar-se a trabalhar. Se Vossa Senhoria se inclinar a essa escolha, na verdade humilhante, eu poderia lhe oferecer um emprego no meu cartório, onde

me seria útil um jovem com algumas noções de Direito, mas deixo claro que não poderei compensar Vossa Senhoria na medida do seu talento, mas o que pagarei deverá

lhe bastar para encontrar outra moradia e viver com modesto decoro.

Simonino logo suspeitou de que o tabelião embolsara muitos dos valores que o avô acreditava ter perdido por subscrições incautas, mas não tinha provas, e, afinal,

precisava sobreviver. Disse a si mesmo que, trabalhando em contato com o tabelião,

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poderia um dia dar o troco, subtraindo-lhe aquilo que ele certamente havia sonegado. E, assim, submeteu-se a morar em dois quartinhos da via Barbaroux e a pechinchar



as contas nas várias espeluncas onde seus colegas se reuniam, começando a trabalhar com o pão-duro, autoritário e desconfiado Rebaudengo - que deixou de chamá-lo

Advogado e Vossa Senhoria, dirigindo-se a ele como Simonini e pronto, para demonstrar quem era o patrão. Porém, em poucos anos daquele trabalho de notário como se

costumava dizer , adquiriu o reconhecimento legal e, à medida que ganhava a cautelosa confiança do seu empregador, percebeu que a atividade principal deste não consistia

tanto em fazer aquilo que um tabelião costuma fazer, ou seja, autenticar testamentos, doações, contratos de compra e venda e outros acordos, quanto sobretudo em

legitimar doações, contratos de compra e venda, testamentos e acordos que jamais existiram. Em outras palavras, o tabelião Rebaudengo, por somas razoáveis, construía

documentos falsos, imitando, quando necessário, a caligrafia alheia e fornecendo as testemunhas, que ele mesmo arrolava nas tabernas próximas.

- Que fique claro, caro Simonino - explicava Rebaudengo, passando ao você -, que não produzo falsificações, mas sim novas cópias de um documento autêntico que se

perdeu ou que, por um acidente banal, nunca foi produzido, mas que poderia e deveria sê-lo. Seria falsificação se eu redigisse uma certidão de batismo em que aparecesse,

desculpe o exemplo, que você nasceu de uma prostituta lá pelas bandas de Odalengo Piccolo e casquinava feliz com essa hipótese humilhante . Eu jamais ousaria cometer

um crime dessa natureza, porque sou um homem honrado. Mas, se um inimigo seu, digamos assim, aspirasse à sua herança e você soubesse que ele certamente não nasceu

nem do seu pai nem da sua mãe, mas de uma cortesã de Odalengo Piccolo, e que deu sumiço à sua certidão de batismo para reivindicar sua riqueza, e você me pedisse

para produzir essa certidão desaparecida a fim de confundir aquele marginal, eu, por assim

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ajudaria a verdade, confirmaria aquilo que sabemos ser verdadeiro e não teria remorsos.



- Sim, mas como o senhor faria para saber de quem realmente nasceu o tal sujeito?

- Você mesmo me diria! Você que o conheceria bem.

- E o senhor confiaria em mim?

- Eu sempre confio nos meus clientes, porque só presto serviço a pessoas honradas.

- Mas, se, por acaso, o cliente tiver lhe mentido?

- Então foi ele quem cometeu o pecado, não eu. Se eu começar a pensar que o cliente pode me mentir, então não exerço mais esse ofício, que se baseia na confiança.

Simoni não se convenceu totalmente de que aquele ofício de Rebaudengo fosse algo que outros definiriam como honesto, mas, desde que fora introduzido nos segredos

do cartório, começou a participar das falsificações, superando em pouco tempo o mestre e descobrindo em si prodigiosas habilidades caligráficas.

Além disso, o tabelião, quase para se fazer perdoar pelo que dizia ou por haver identificado o lado débil do seu colaborador, às vezes convidava Simonino para restaurantes

luxuosos como o Cambio frequentado até por Cavour e o iniciava nos mistérios da finanziera, uma sinfonia de cristas de galo, molejas, miolos e testículos de vitelo,

filé de boi, funghi porcini, meio copo de Marsala, farinha, sal, azeite e manteiga, tudo tornado ligeiramente azedo por uma dose alquímica de vinagre - e, para degustá-la



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