O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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adequadamente, convinha apresentar-se, como sugeria o nome, trajando redingote ou stiffelius, segundo se preferisse chamá-lo.

Talvez porque, apesar das exortações paternas, não tivesse recebido uma educação heróica e sacrifical, por aquelas noitadas Simonino se dispunha a servir a Rebaudengo

até a morte - ao menos a dele, de Rebaudengo, como se veria, se não a própria.

Enquanto isso, seu salário, embora pouco, havia aumentado - até porque o tabelião envelhecia vertiginosamente, a vista lhe faltava, a mão lhe tremia, e em breve

Simonino se tornara indispensável para ele.

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... Que fique claro, caro Simonino - explicava Rebaudengo, passando ao você -, que não produzo falsificações, mas sim novas cópias de um documento



autêntico que se perdeu ou que, por um acidente banal, nunca foi produzido, mas que poderia e deveria sê-lo ... p. 98

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Porém, justamente

porque agora podia se conceder algum conforto a mais e não conseguia evitar os mais renomados restaurantes de Turim ah, a delícia dos agnolotti à piemontesa, com

recheio de carne branca assada, carne vermelha assada, carne de boi cozida, galinha desossada cozida, couve verça cozida com os assados, quatro ovos inteiros, parmesão

reg- giano, noz-moscada, sal, pimenta e molho feito com o caldo dos assados, manteiga, um dente de alho e um raminho de alecrim , o jovem Simonini, para satisfazer

aquela que estava se tornando sua paixão mais profunda e carnal, não devia ir àqueles lugares com roupas surradas; portanto, havendo aumentado suas possibilidades,

cresciam proporcionalmente suas exigências.

Trabalhando com o tabelião, Simonino percebeu que este não executava apenas tarefas confidenciais para clientes privados, mas também - talvez para cobrir a própria

retaguarda, se certos aspectos da sua não muito lícita atividade viessem ao conhecimento das autoridades - fornecia serviços até a quem se ocupava da segurança pública,

porque, às vezes, como se explicava ele, para fazer condenar justamente um suspeito era necessário apresentar aos juizes alguma prova documental capaz de convencê-los

de que as deduções da polícia tinham fundamento. E assim Simonino entrou em contato com personagens de identidade incerta, que volta e meia apareciam no cartório

e que, no léxico do tabelião, eram os senhores do Departamento . O que era e o que representava esse Departamento, não lhe foi difícil adivinhar: tratava-se de assuntos

reservados de competência do governo.

Um desses senhores era o cavalier Bianco, que um dia se declarou muito satisfeito com o modo pelo qual Simonino produzira um certo documento incontestável. Devia

ser um indivíduo que, antes de estabelecer contatos com alguém, coletava informações seguras sobre essa pessoa, porque um dia, puxando Simonino para um lado, perguntou

se ele ainda frequentava o Caffè al Bicerin e o convocou a esse local para aquilo que definiu como um colóquio privado. E disse, então: o - Caríssimo advogado,

bem sabemos que é neto de um súdito fidelíssimo de Sua Majestade e que, portanto, foi educado de maneira sã. Sabemos também que o senhor seu pai pagou com a vida

pelas coisas que nós também consideramos justas, embora o tenha feito, digamos assim, com excessiva antecedência. Por conseguinte, confiamos na sua lealdade e vontade

de colaboração, mesmo considerando que fomos muito indulgentes com sua pessoa, dado que há tempos poderíamos incriminar o senhor e o tabelião Rebaudengo por empreendimentos

não totalmente louváveis. Sabemos que frequenta amigos, companheiros, camaradas de princípios, como direi, mazzinianos, ga- ribaldinos, carbonários. E natural, parece

ser a tendência das gerações jovens. Mas, eis o nosso problema: não queremos que esses jovens cometam atos irrefletidos, ao menos não antes que seja útil e razoável

cometê-los. Muito perturbou nosso governo a iniciativa desvairada daquele Pisacane que, meses atrás, embarcou com outros 24 subversivos, desembarcou em Ponza, desfraldando

a bandeira tricolor, fez evadirem-se trezentos detentos e depois partiu rumo a Sapri, achando que as populações locais o esperavam em armas. Os mais indulgentes

dizem que Pisacane era um generoso e os mais céticos, que era um insensato, mas, na verdade, era um iludido. Aqueles rústicos que ele queria libertar o massacraram

com todos os seus e, portanto, veja aonde as boas intenções podem conduzir quando não levam em conta o estado das coisas.

- Compreendo - disse Simonino -, mas o que o senhor quer de mim?

- O seguinte, pois é. Se devemos impedir aqueles jovens de cometerem erros, a melhor maneira é encarcerá-los por algum tempo, sob a acusação de atentado contra as

instituições, para depois soltá-los quando houver necessidade real de corações generosos. Convém, portanto, surpreendê-los em evidente crime de conspiração. O senhor

certamente sabe a quais chefes eles são fiéis. Bastaria que lhes chegasse uma mensagem de um desses chefes, convocando-os a um lugar preciso, armados até os dentes,

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com rosetas e bandeiras e outros berloques que os qualifiquem como carbonários em armas. A polícia chegaria, prenderia o grupo e tudo estaria concluído.



- Mas se nesse momento eu estivesse com eles, também seria preso, e, se não estivesse, eles compreenderiam que o traidor tinha sido eu.

- Ah, não, caro senhor, não somos tão imprevidentes a ponto de não pensar nisso.

Como veremos, Bianco havia pensado bem. Porém, excelentes dotes de pensador tinha também nosso Simone, o qual, depois de escutar atentamente o plano que lhe era

proposto, concebeu uma forma extraordinária de compensação e disse a Bianco o que esperava da munificência régia.

- Veja bem, cavaliere, o tabelião Rebaudengo cometeu muitos ilícitos antes que eu começasse a colaborar com ele. Bastaria que eu identificasse dois ou três desses

casos, para os quais existe uma documentação suficiente, que não envolvessem nenhuma pessoa verdadeiramente importante, mas quem sabe alguém que enquanto isso já

morreu, e fizesse chegar à magistratura pública de maneira anônima, através da sua gentil mediação, todo o material acusatório. O senhor teria o bastante para imputar

ao tabelião um repetido crime de falsificação de registros públicos e para deixá-lo na cadeia por um razoável número de anos, suficientes para que a natureza seguisse

seu curso, certamente não muito longo, considerando-se o estado em que se encontra o velho.

- E depois?

- Depois, estando o tabelião encarcerado, eu exibiria um contrato, justamente datado de poucos dias antes da prisão dele, do qual emergiria que, tendo acabado de

lhe pagar uma série de prestações, comprei definitivamente o cartório, do qual me torno o titular. Quanto ao dinheiro que eu aparentaria ter pagado, todos acham

que devo ter herdado bastante do meu avô, e o único que sabe a verdade é Rebaudengo.

- Interessante - disse Bianco. - Mas o juiz vai querer saber onde foi parar o dinheiro que o senhor pagou.

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- Rebaudengo desconfia dos bancos e mantém tudo em uma caixa-forte do cartório, que naturalmente sei abrir porque a ele basta virar as costas e, como não me



vê, acha que não vejo o que ele faz. Pois bem, os homens da lei certamente conseguirão abrir a caixa-forte e a encontrarão vazia. Eu poderia testemunhar que a oferta

de Rebaudengo me chegou quase de repente, eu mesmo teria me espantado com a exiguidade da soma pretendida, a ponto de desconfiar que ele tinha alguma razão para

abandonar seus negócios. E, de fato, além da caixa-forte vazia, serão encontradas na lareira as cinzas de sabe Deus quais documentos e, na gaveta da sua escrivaninha,

uma carta na qual um hotel de Nápoles confirma a reserva de um quarto. A essa altura, ficará claro que Rebaudengo já se sentia observado pela lei e queria escapulir,

indo usufruir suas posses junto aos Bourbon e para lá talvez já houvesse enviado seu dinheiro.

- Mas, diante do juiz, se fosse informado desse contrato entre os senhores, ele negaria...

- Quem sabe quantas outras coisas estaria negando? O magistrado certamente não acreditará nele.

- É um plano arguto. O senhor me agrada, advogado. É mais esperto, mais motivado, mais decidido do que Rebaudengo e, como direi, mais eclético. Pois bem, entregue-nos

aquele grupo de carbonários e, depois, cuidaremos de Rebaudengo.

A detenção dos carbonários parece ter sido uma brincadeira de garotos, inclusive considerando que justamente eram garotos aqueles entusiastas, que só eram carbonários

em seus sonhos ardentíssimos. Fazia tempo que Simonino, inicialmente por pura vaidade, sabendo que toda revelação sua seria atribuída a notícias que ele recebera

do seu heroico pai, transmitia sobre a carbonária algumas patranhas que o padre Bergamaschi lhe cochichara. O jesuíta o alertava constantemente contra as tramas

dos carbonários, maçons, mazzinianos, republicanos e judeus travestidos de patriotas que, para se esconderem aos olhos das polícias do mundo todo, fingiam-se de

mercadores de carvão

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e reuniam-se em locais secretos sob o pretexto de levar a cabo suas transações comerciais.



- Todos os carbonários estão subordinados à Alta Venda, que se compõe de quarenta membros, na sua maioria coisa terrível de se dizer a nata do patriciado romano,

mais, naturalmente, alguns judeus. Seu chefe era Nubius, um grão-senhor tão corrupto quanto um ergástulo inteiro, mas que, graças ao seu nome e à sua fortuna, obtivera

em Roma uma posição livre de qualquer suspeita. De Paris, Buonarroti, o general Lafayette e Saint-Simon o consultavam como se ele fosse o oráculo de Delfos. De Munique,

de Dresden, de Berlim, de Viena ou de São Petersburgo, os chefes das principais vendas, Tscharner, Hey- mann, Jacobi, Chodzko, Lieven, Mouravieff, Strauss, Pallavicini,

Driesten, Bem, Bathyani, Oppenheim, Klauss e Carolus o interrogavam sobre o caminho a seguir. Nubius manteve o timão da Venda suprema até por volta de 1844, quando

alguém lhe ministrou água-tofana. Não creia que fomos nós, os jesuítas. Desconfia-se que o autor do homicídio foi Mazzini, que aspirava, e ainda aspira, a chefiar

toda a carbonária, com a ajuda dos judeus. O sucessor de Nubius é agora Piccolo Tigre, um judeu que, como Nubius, não cessa de correr por toda parte a fim de suscitar

inimigos do Calvário. Mas a composição e a sede da Alta Venda são secretos. Tudo deve permanecer desconhecido das Lojas que dela recebem a direção e o impulso. Os

próprios quarenta membros da Alta Venda nunca souberam de onde vinham as ordens a transmitir ou a cumprir. E depois dizem que os jesuítas são escravos dos seus superiores.

Os carbonários é que são escravos de um patrão que se subtrai aos seus olhares, talvez um Grande Ancião que dirige essa Europa subterrânea.

Simonino transformou Nubius no seu herói, quase uma contrapartida viril de Babette

Interlaken. E, moldando em forma de poema épico aquilo que o padre Bergamaschi

lhe contava sob forma de romance gótico, hipnotizava os companheiros. Escondendo o detalhe desprezível de que Nubius já morrera.
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Até que, um dia, mostrou uma carta, que lhe custara pouquíssimo fabricar, na qual Nubius anunciava uma insurreição iminente em todo o Piemonte, cidade por cidade.

O grupo ao qual Simonino se dirigia teria uma missão perigosa e excitante. Caso se reunissem em uma certa manhã no pátio da Osteria del Gambero d Oro, ali encontrariam

sabres e fuzis, além de quatro carroças cheias de móveis velhos e colchões, e armados com esses equipamentos deveriam seguir para a entrada da via Barbaroux e erigir

uma barricada que impedisse o acesso à praça Castello. E ali aguardariam as ordens.

Não era necessário mais nada para inflamar os ânimos daqueles vinte estudantes, que naquela fatídica manhã se congregaram no pátio da taberna e encontraram, dentro

de uns tonéis abandonados, as armas prometidas. Enquanto olhavam ao redor, procurando as carroças com os móveis e sem sequer terem pensado em carregar seus fuzis,

o pátio foi invadido por uns cinquenta policiais com armas apontadas. Incapazes de opor resistência, os rapazes se renderam, foram desarmados, levados para fora

e colocados de frente para o muro, nos dois lados do portão. Em frente, canalhas, mãos ao alto, silêncio! , berrava um carrancudo funcionário à paisana.

Enquanto aparentemente os conjurados eram apinhados quase a esmo, dois policiais situaram Simonino bem no final da fila, justamente na esquina de um beco, e, a certa

altura, foram chamados por um sargento e se afastaram em direção à entrada do pátio. Era o momento combinado . Simonino se voltou para o companheiro mais próximo

e lhe cochichou alguma coisa. Uma olhadela para os policiais, suficientemente distantes, e com um salto ambos dobraram a esquina e começaram a correr.

- As armas, eles estão fugindo! - gritou alguém. Os dois, enquanto escapavam, ouviram os passos e os gritos dos policiais que também dobravam a esquina. Simonino

escutou dois disparos: um atingiu seu amigo, mas Simonino sequer se preocupou se mortalmente ou não. Bastava-lhe que, segundo o convencionado, o segundo tiro fosse

dado para o ar.

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E logo entrou em outra rua, depois em mais outra, enquanto ouvia ao longe os gritos dos perseguidores que, obedientes às ordens, seguiam a pista errada. Em pouco

tempo, atravessava a praça Castello e voltava para casa como um cidadão qualquer. Para seus colegas, que nesse ínterim eram arrastados de lá, Si- mone fugira, e,

como haviam sido detidos em massa e imediatamente imobilizados de modo que ficassem de costas, era óbvio que nenhum dos homens da lei poderia se lembrar do rosto

dele. Natural, portanto, que não precisasse deixar Turim e pudesse retomar seu trabalho, sem deixar de confortar as famílias dos amigos presos.

Só faltava passar à liquidação do tabelião Rebaudengo, ocorrida segundo a maneira prevista. O coração do velho estourou um ano depois, no cárcere, mas Simonini não

se sentiu responsável. Estavam empatados: o tabelião lhe dera uma profissão e ele fora seu escravo por alguns anos; o tabelião havia arruinado seu avô e Simonino

o arruinara.

Era isso, então, o que o abade Dalla Piccola revelava a Simonini. E a prova de que também ele se sentia abatido, depois de todas essas evocações, é o fato da sua

contribuição ao diário se interromper em uma frase não concluída, como se, enquanto escrevia, tivesse caído em um estado de deliquescência.

6.


A SERVIÇO DOS SERVIÇOS

28 de março de 1897


Senhor abade, É curioso que aquilo que deveria ser um diário destinado a ser lido apenas por quem o escreve esteja se transformando em uma troca de mensagens. Porém,

se lhe escrevo uma carta, é quase certo que um dia, passando por aqui, o senhor a leia.

O senhor sabe demais sobre mim. O senhor é uma testemunha muito desagradável. E excessivamente severa.

Sim, admito, com meus camaradas aspirantes a carbonários e com Rebaudengo não agi segundo os costumes que o senhor é obrigado a pregar. Mas, falemos a verdade: Rebaudengo

era um patife e, quando penso em tudo o que fiz depois, creio só ter feito patifarias a patifes. Quanto àqueles rapazes, eram uns exaltados, e os exaltados são a

escória do mundo porque é por obra deles e dos vagos princípios com que se exaltam que acontecem as guerras e as revoluções. E, como já compreendi que, neste mundo,

nunca se poderá reduzir o número dos exaltados, mais vale tirar proveito da sua exaltação.

Retomo as minhas lembranças, se me permite. Revejo-me à frente do cartório do finado Rebaudengo e não me espanta que, com Rebaudengo, eu já forjasse atos notariais

apócrifos, porque é exatamente o que ainda faço aqui em Paris.

Agora recordo bem até o cavalier Bianco. Um dia, ele me disse:

- Veja, advogado, os jesuítas foram banidos dos reinos sardos, mas todos sabem que eles continuam agindo e ganhando adeptos sob aparências falsas. Isso acontece

em todos os países de onde foram expulsos,

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e me foi mostrada uma divertida caricatura em um jornal estrangeiro: nela se veem alguns jesuítas que todos os anos



fingem querer retornar ao país de origem obviamente, são barrados na fronteira , a fim de que ninguém perceba que seus confrades já se encontram naquele país, com

as mãos livres e sob as vestes de uma outra ordem. Portanto, ainda estão em toda parte, e precisamos saber onde estão. Pois bem, sabemos que, desde os tempos da

República Romana, alguns frequentavam a casa do seu avô. Então, parece-nos difícil que o senhor não tenha mantido relações com eles, e, por esse motivo, pedimos

que lhes sonde os humores e os propósitos, porque temos a impressão de que a ordem se tornou novamente poderosa na França, e o que acontece na França é como se também

acontecesse em Turim.

Não era verdade que eu ainda mantivesse relações com os bons padres, mas estava aprendendo muitas coisas sobre os jesuítas, e de uma fonte segura. Naqueles anos,

Eugène Sue publicara sua última obra-prima, Os mistérios do povo, que concluíra justamente antes de morrer, no exílio em Annecy, na Savoia, porque havia tempo se

ligara aos socialistas e se opusera ferozmente à tomada do poder e à proclamação do império por parte de Luís Napoleão. Visto que já não se publicavam feuilletons

por causa da lei Riancey, esta última obra de Sue saíra em tomos, e cada um desses caíra sob os rigores de muitas censuras, inclusive a piemontesa, de modo que foi

difícil conseguir tê-los todos. Recordo ter me sentido mortalmente entediado ao acompanhar essa lodosa história de duas famílias, uma de gauleses e outra de francos,

desde a pré-história até Napoleão III, em que os maus dominadores são os francos, e os gauleses parecem todos socialistas desde os tempos de Vercingetórix, mas,

àquela altura, Sue estava invadido por uma única obsessão, como todos os idealistas.

Era evidente que ele escrevera as últimas partes da sua obra no exílio, à medida que Luís Napoleão tomava o poder e se fazia imperador. Para tornar odiosos os projetos

deles, Sue tivera uma ideia genial: como, desde a época da Revolução, o outro grande inimigo da França republicana eram os jesuítas, bastava mostrar como a o conquista

do poder por Luís Napoleão fora inspirada e dirigida por eles. É verdade que os jesuítas foram expulsos também da França desde a revolução de julho de 1830, mas,

na realidade, haviam permanecido no país, sobrevivendo sorrateiramente e mais ainda desde que Luís Napoleão iniciara sua escalada rumo ao poder, tolerando-os para

manter boas relações com o papa.

Assim, havia no livro uma longuíssima carta do padre Rodin que já aparecera em O judeu errante ao geral dos jesuítas, padre Roothaan, em que o complô era exposto

tim-tim por tim-tim. No romance, os episódios mais recentes acontecem durante a última resistência socialista e republicana contra o golpe de Estado, e a carta está

escrita de tal modo que aquilo que Luís Napoleão depois realmente faria ainda aparecesse sob forma de projeto. O fato de que mais tarde, quando os leitores liam,

tudo já tivesse acontecido tornava o vaticínio ainda mais perturbador.

Naturalmente, veio-me à mente o início de Joseph Balsamo, de Dumas: bastaria substituir o monte do Trovão por algum ambiente de sabor mais padresco, talvez a cripta

de um velho mosteiro, reunir ali não os maçons, mas os filhos de Loyola acorridos de todo o mundo, sendo suficiente que, em vez de Balsamo, falasse Rodin, e eis

que o antigo esquema de complô universal se adequaria ao presente.

Daí veio-me a ideia de que poderia vender a Bianco não só algum mexerico escutado aqui e ali, mas um documento inteiro subtraído aos jesuítas. Certamente eu devia

mudar alguma coisa, eliminar aquele padre Rodin que talvez alguém recordasse como personagem romanesco e colocar em cena o padre Bergamaschi, que sabe-se lá por

onde andava, mas do qual alguém em Turim certamente ouvira falar. Além disso, enquanto Sue escrevia, o geral da ordem ainda era o padre Roothaan, ao passo que àquela

altura se dizia que ele fora substituído por um certo padre Beckx.

O documento deveria parecer a transcrição quase literal de tudo o que fosse relatado por um informante confiável, e esse não deveria aparecer como um delator porque

se sabe que os jesuítas nunca traem a Companhia , mas antes como um velho amigo do vovô,

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que havia confidenciado aquelas coisas a este último como prova da grandeza e da invencibilidade da sua ordem.



Eu gostaria de incluir na história também os judeus, como homenagem à memória do vovô, mas Sue não falava deles, e eu não conseguia juntá-los aos jesuítas - e também,

naquela época, no Piemonte, ninguém se importava muito com os judeus. Não convém sobrecarregar a cabeça dos agentes do governo com demasiadas informações, eles apenas

querem ideias claras e simples, branco e preto, bons e maus, e o mau deve ser um só.

Todavia, eu não queria renunciar aos judeus, e os usei para a ambientação. Afinal, era sempre um modo de sugerir a Bianco alguma suspeita em relação a eles.

Disse a mim mesmo que um evento ambientado em Paris e, pior ainda, em Turim, poderia ser controlado. Eu deveria reunir meus jesuítas em um lugar menos acessível

até mesmo para os serviços secretos piemonteses, do qual até mesmo estes só tivessem notícias lendárias. Ao passo que os jesuítas, eles sim, estavam por toda parte,

polvos do Senhor, com suas mãos aduncas estendidas inclusive sobre os países protestantes.

Quem falsifica documentos deve sempre se documentar e, por isso, eu frequentava as bibliotecas. As bibliotecas são fascinantes: às vezes parece-nos estar sob a marquise

de uma estação ferroviária e, consultando livros sobre terras exóticas, tem-se a impressão de viajar a paragens longínquas. Assim, aconteceu-me encontrar em um livro

algumas belas gravuras do cemitério hebraico de Praga. Já abandonado, havia ali quase 12 mil lápides em um espaço bem pequeno, mas as sepulturas deviam ser muitas

mais, porque, no decorrer de alguns séculos, várias camadas de terra tinham sido superpostas. Depois que o cemitério fora abandonado, alguém reergueu algumas tumbas

sepultadas, com as respectivas lápides, de modo que se criara uma espécie de acúmulo irregular de pedras mortuárias inclinadas em todas as direções ou talvez houvessem

sido os judeus a fincá-las assim, sem grandes cuidados, estranhos como eram a qualquer sentimento de beleza e de ordem .
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Aquele lugar agora abandonado me convinha, até por sua incongruência: por qual astúcia os jesuítas haviam decidido se reunir em um local que fora sagrado para os

judeus? E que controle tinham eles sobre aquele lugar esquecido por todos e talvez inacessível? Perguntas todas sem resposta, as quais confeririam credibilidade

à narrativa, pois eu considerava que Bianco acreditava firmemente que, quando todos os fatos parecem totalmente explicáveis e verossímeis, então a narrativa é falsa.

Como bom leitor de Dumas, não me desagradava reconstituir aquela noite e aquele convívio como sombrios e assustadores, com aquele campo sepulcral, mal iluminado

por uma foice de lua tísica, e os jesuítas dispostos em semicírculo, de tal modo que, por causa dos seus chapelões negros de abas largas, o solo, visto do alto,

parecesse fervilhar de baratas - ou ainda descrever a risota diabólica do padre Beckx enquanto enunciava os propósitos sombrios daqueles inimigos da humanidade e



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