O cemitério de praga traduçÃo de joana Angélica d Avila Melo



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isso alegraria o fantasma do meu pai no alto dos céus ou, melhor, nas profundezas daquele inferno em que provavelmente Deus submerge mazzinianos e republicanos e

depois mostrar os mensageiros infames debandando em massa, a fim de anunciar a todas as suas casas, dispersas por toda parte, o novo e diabólico plano para a conquista

do mundo, como enormes pássaros escuros que alçassem voo no calor da alvorada, concluindo aquela noite de sabá.

Mas eu devia ser conciso e essencial, como convém a um relatório secreto, pois sabe-se que os agentes de polícia não são literatos nem conseguem ir além de duas

ou três páginas.

Portanto, meu suposto informante contava que naquela noite os representantes da Companhia, vindos de vários países, reuniram-se em Praga a fim de escutar o padre

Beckx, que apresentara aos assistentes o padre Bergamaschi, que por uma série de eventos providenciais se tornara conselheiro de Luís Napoleão.

O padre Bergamaschi relatava, então, que Luís Napoleão Bonaparte vinha dando provas da sua submissão às ordens da Companhia.

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- Devemos louvar - dizia - a astúcia com que Bonaparte enganou os revolucionários, fingindo abraçar a doutrina deles, a habilidade com que conspirou contra Luís

Filipe, favorecendo a queda daquele governo de ateus, e sua fidelidade aos nossos conselhos, quando em 1848 se apresentou aos eleitores como republicano sincero,

para ser eleito presidente da República. Também não convém esquecer o modo como ele contribuiu para destruir a República Romana de Mazzini e restabelecer o Santo

Padre no trono.

Napoleão se propusera continuava Bergamaschi - a fim de destruir definitivamente os socialistas, os revolucionários, os filósofos, os ateus e todos os racionalistas

infames que proclamam a soberania da nação, o livre-exame e a liberdade religiosa, política e social - a dissolver a assembleia legislativa, a prender sob pretexto

de conspiração os representantes do povo, a decretar o estado de sítio em Paris, a mandar fuzilar sem processo os homens detidos nas barricadas com armas nas mãos,

a transportar os indivíduos mais perigosos para Caiena, a suprimir a liberdade de imprensa e de associação, a mandar o exército se concentrar nos fortes e dali bombardear

a capital, incendiá-la, não deixar pedra sobre pedra, e a fazer triunfar, assim, a Igreja Católica Apostólica Romana sobre as ruínas da moderna Babilônia. Depois,

convocaria o povo ao sufrágio universal a fim de prorrogar por dez anos seu poder presidencial e, em seguida, para transformar a república em um império renovado

- sendo o sufrágio universal o único remédio contra a democracia, porque envolve o povo do campo, ainda fiel à voz dos seus párocos.

As coisas mais interessantes eram as que Bergamaschi dizia no final, sobre a política em relação ao Piemonte. Aqui, eu fazia o padre Bergamaschi enunciar os propósitos

futuros da Companhia, os quais, no momento da redação do seu relatório, já se haviam realizado plenamente.

- Aquele rei pusilânime que é Vítor Emanuel sonha com o Reino da Itália, seu ministro Cavour excita suas veleidades,

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... ou ainda descrever a risota diabólica do padre Beckx enquanto enunciava os propósitos sombrios daqueles inimigos da humanidade e isso alegraria o fantasma



do meu pai no alto dos céus ou, melhor, nas profundezas daquele inferno em que provavelmente Deus submerge mazzinianos e republicanos ... p. 113

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e ambos pretendem não só

escorraçar a Áustria da península, mas também destruir o poder temporal do Santo Padre. Eles buscarão apoio na França e, portanto, será fácil arrastá-los primeiro

a uma guerra contra a Rússia, prometendo ajudá-los contra a Áustria, mas pedindo em troca Savoia e Nice. Depois, o imperador fingirá se comprometer com os piemonteses,

mas, em seguida, após algumas vitórias locais insignificantes, e sem consultá-los, tratará a paz com os austríacos e favorecerá a formação de uma confederação italiana

presidida pelo papa, na qual a Áustria entrará, conservando o restante das suas posses na Itália. Assim, o Piemonte, único governo liberal da península, ficará subordinado

tanto à França quanto a Roma e será mantido sob controle pelas tropas francesas que ocupam Roma e pelas estacionadas na Savoia.

O documento estava pronto. Eu não sabia quanto o governo piemontês poderia gostar daquela denúncia contra Napoleão III como inimigo dos reinos sardos, mas intuíra

aquilo que mais tarde a experiência me confirmaria, ou seja, que aos homens dos serviços reservados é sempre útil, mesmo que não o exibam logo, algum documento com

o qual seja possível chantagear os homens do governo, semear perplexidade ou reverter as situações.

De fato, Bianco leu atentamente o relatório, ergueu os olhos daqueles papéis, encarou-me e disse que se tratava de material da máxima importância. Mais uma vez,

ele me confirmava que um espião, quando vende algo inédito, deve se limitar a contar alguma coisa que poderia ser encontrada em qualquer lojinha de livros usados.

Porém, embora pouco informado sobre literatura, Bianco era bem informado sobre minha pessoa, de modo que acrescentou, com expressão songamonga:

- Naturalmente, é tudo coisa inventada pelo senhor.

- Por favor! - reagi, escandalizado. Mas ele me deteve, levantando a mão:

- Não importa, advogado. Ainda que esse documento fosse criação sua, a mim e aos meus superiores convém apresentá-lo ao

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governo como autêntico. O senhor deve saber, porque é coisa conhecida urbi et orbi, que nosso ministro Cavour estava convencido de ter Napoleão III nas mãos,

porque enviou para grudar nele a condessa Castiglione, bela mulher, não se pode negar, e o francês não se fez de rogado para desfrutar dos seus dotes. Mas, depois,

percebeu-se que Napoleão III não faz tudo o que Cavour quer, e a condessa Castiglione desperdiçou tantas graças de Deus a troco de nada, talvez até tenha gostado,

só que nós não podemos fazer negócios de Estado que dependam das comichões de uma senhora de costumes não rigorosos. É muito importante que a Majestade do nosso

soberano desconfie de Bonaparte. Em breve, e isso já é previsível, Garibaldi ou Mazzini ou os dois juntos organizarão uma expedição ao reino de Nápoles. Se, por

acaso, esse empreendimento obtiver sucesso, o Piemonte deverá intervir, a fim de não deixar aquelas terras nas mãos de republicanos enlouquecidos, e para fazer isso

terá de passar ao longo da Bota através dos Estados pontifícios. Por conseguinte, induzir nosso soberano a nutrir sentimentos de desconfiança e de rancor em relação

ao papa, e a não levar em grande conta as recomendações de Napoleão III, será condição necessária para atingir esse objetivo. Como o senhor deve ter compreendido,

caro advogado, frequentemente a política é decidida por nós, humílimos servidores do Estado, mais do que por aqueles que, aos olhos do povo, governam...

Aquele relatório foi meu primeiro trabalho verdadeiramente sério, em que eu não me limitava a garatujar um testamento para o uso de um particular qualquer, mas sim

construía um texto politicamente complexo, com o qual talvez contribuísse para a política do reino da Sardenha. Recordo haver ficado realmente orgulhoso dele.

Nesse meio-tempo, chegara-se ao fatídico 1860. Fatídico para o país, não ainda para mim, pois eu me limitava a acompanhar com distanciamento os eventos, escutando

os discursos dos ociosos nos cafés. Intuindo que deveria me ocupar cada vez mais de assuntos

políticos,

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considerava que as notícias mais apetecíveis a fabricar seriam aquelas que os ociosos esperavam, desconfiando daquilo que os jornalistas relatavam



como fundamentado.

Assim, eu soube que as populações do grão-ducado da Toscana e os ducados de Módena e de Parma expulsavam seus soberanos; as chamadas legações pontifícias da Emilia

e Romagna se subtraíam ao controle do papa; todos pediam a anexação ao reino da Sardenha; em abril de 1860, movimentos insurrecionais explodiam em Palermo; Mazzini

escrevia aos chefes da revolta que Garibaldi acorreria para ajudá-los; murmurava-se que Garibaldi buscava homens, dinheiro e armas para sua expedição, e que a marinha

bourbônica já estava cruzando as águas sicilianas para bloquear qualquer expedição inimiga.

- Sabia que Cavour usa um homem da sua confiança, La Farina, para manter Garibaldi sob controle?

- Mas o que me diz? O ministro aprovou uma subscrição para a compra de 12 mil fuzis, justamente para os garibaldinos.

- Seja como for, a distribuição foi bloqueada, e por quem? Pelos carabinieri régios!

- Ora, faça-me o favor, faça-me o favor. Cavour facilitou a distribuição, nada de bloqueio.

- Pois é, só que não são os belos fuzis Enfield que Garibaldi esperava, são umas sucatas com as quais o herói pode no máximo caçar cotovias!

- Eu soube, por gente do palácio real, não me faça dizer nomes, que La Farina deu a Garibaldi 8 mil liras e mil fuzis.

- Sim, só que deviam ser 3 mil, mas 2 mil ficaram com o governador de Gênova.

- Por que Gênova?

- Porque o senhor não vai querer que Garibaldi siga para a Sicília no lombo de uma mula. Ele assinou um contrato para a aquisição de dois navios, que deverão partir

de Gênova ou dos arredores. E sabe quem foi o fiador da dívida? A maçonaria, precisamente uma loja genovesa.

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- Mas que loja, que nada, a maçonaria é uma invenção dos jesuítas!

- Cale a boca, que o senhor é maçom e todo mundo sabe!

- Glissons. Sei, por fonte segura, que na assinatura do contrato estavam presentes e aqui a voz de quem falava se tornava um sopro o advogado Riccardi e o general

Negri di Saint Front...

- E quem são esses bonifrates?

- Não sabe? - A voz ficava baixíssima. - São os chefes do Departamento de Assuntos Reservados, ou, melhor, Departamento de Alta Vigilância Política, que afinal é

o serviço de informações do presidente do conselho... São uma potência, mais importantes do que o primeiro-ministro; é isso o que eles são, maçons coisa nenhuma.

- Acha mesmo? Pode-se pertencer aos Assuntos Reservados e ser maçom, até ajuda.

Em 5 de maio, tornou-se público que Garibaldi, com mil voluntários, partira por mar e se dirigia à Sicília. Os piemonteses eram não mais que dez e havia também estrangeiros

e grande profusão de advogados, médicos, farmacêuticos, engenheiros e grandes proprietários. Pouca gente do povo.

Em 11 de maio, o grupo de Garibaldi desembarcou em Marsala. E a marinha bourbônica, por onde andava? Parecia ter sido atemorizada por dois navios britânicos que

estavam no porto, oficialmente para proteger os bens dos seus compatriotas, que em Marsala possuíam comércios florescentes de vinhos nobres. Ou estariam os ingleses

ajudando Garibaldi?

Em suma, no decorrer de poucos dias, os Mil de Garibaldi a voz pública já os chamava assim desbaratavam os bourbônicos em Calatafimi, aumentavam de número graças

à adesão de voluntários locais, Garibaldi se proclamava ditador da Sicília em nome de Vítor Emanuel II, e, no fim do mês, Palermo estava conquistada.

E a França, a França, o que dizia? A França parecia observar com cautela, mas um francês, àquela altura mais famoso do que


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Mas que loja, que nada, a maçonaria é uma invenção dos jesuítas!

Cale a boca, que o senhor é maçom e todo mundo sabe!... p. 119

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Garibaldi, Alexandre Dumas, o grande romancista, com seu navio particular, o Emma, corria a se unir aos libertadores, também levando dinheiro e armas.

Em Nápoles, o pobre rei das Duas Sicílias, Francisco II, já temeroso de que os garibaldinos houvessem vencido em vários lugares porque seus generais o tinham traído,

apressava-se a conceder anistia aos presos políticos e a repropor o estatuto de 1848, que ele suprimira; porém, era tarde demais e tumultos populares brotavam até

na sua capital.

E justamente no início de junho recebi um bilhete do cavalier Bianco, que me mandava esperar, à meia-noite daquele dia, uma carruagem que me apanharia na porta do

meu trabalho. Encontro singular, mas farejei um negócio interessante, e, à meia-noite, suando pelo calor canicular que naqueles dias atormentava até Turim, esperei

diante do cartório. Ali chegou uma carruagem, fechada e com os vidros cobertos por cortininhas, trazendo um senhor desconhecido que me levou a algum lugar - não

muito distante do centro, pareceu-me, e tive até a impressão de que o veículo havia percorrido duas ou três vezes as mesmas ruas.

A carruagem se deteve no pátio decadente de uma velha moradia popular, que era uma verdadeira armadilha de parapeitos desconjuntados. Ali, fizeram-me passar por

uma portinha e percorrer um longo corredor. No final, outra portinha levava ao saguão de um palacete de bem outra qualidade, onde se abria uma ampla escadaria. Mas

tampouco subimos por essa, e sim por uma escadinha no fundo do saguão e, em seguida, entramos em um gabinete com paredes recobertas de damasco, um grande retrato

do rei na parede ao fundo e uma mesa coberta por um pano verde, e tendo ao redor quatro indivíduos, um dos quais era o cavalier Bianco, que me apresentou aos outros.

Nenhum deles me estendeu a mão, limitando-se a um aceno de cabeça.

- Fique à vontade, advogado. O cavalheiro à sua direita é o general Negri di Saint Front; esse, à sua esquerda, o advogado

Riccardi;

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e o cavalheiro à sua frente é o professor Boggio, deputado pelo colégio de Valenza

Pelos cochichos que eu escutara nos bares, reconheci nos dois primeiros personagens aqueles chefes da Alta Vigilância Política que vox populi ajudariam os garibaldinos

a comprar os dois famosos navios. Quanto ao terceiro, eu conhecia seu nome: era jornalista, professor de Direito aos 30 anos, deputado, sempre muito próximo de Cavour.

Tinha um rosto rubicundo adornado por um bigodinho, um monóculo do tamanho de um fundo de copo e o ar do homem mais inócuo do mundo. Contudo a atenção com que

o gratificavam os outros três presentes testemunhava seu poder junto ao governo.

Negri di Saint Front tomou a palavra:

- Caro advogado, conhecendo suas capacidades na coleta de informações, além de sua prudência e reserva em fornecê-las, pretendemos confiar-lhe uma missão de grande

delicadeza nas terras recém-conquistadas pelo general Garibaldi. Não faça essa expressão preocupada, não tencionamos encarregá-lo de conduzir os camisas vermelhas

ao assalto. Trata-se de nos obter notícias. Porém, para que saiba quais informações interessam ao governo, é forçoso confiar-lhe aquilo que não hesito em definir

como segredos de Estado, e, portanto, o senhor compreenderá de quanta circunspecção deverá dar provas desta noite em diante, até o fim da sua missão e mesmo depois.

Inclusive, digamos, para salvaguarda da sua incolumidade pessoal, que naturalmente prezamos muitíssimo.

Impossível ser mais diplomático. Saint Front prezava muitíssimo a minha saúde e por isso me avisava que eu, se saísse falando por aí sobre aquilo que estava prestes

a ouvir, colocaria em sério risco essa saúde. Todavia o preâmbulo deixava prever, junto com a importância da missão, a magnitude do que eu poderia cobrar. Por conseguinte,

com um respeitoso aceno de confirmação, encorajei Saint Front a prosseguir.

- Ninguém melhor do que o deputado Boggio poderá lhe explicar a situação, até porque ele deriva suas informações e

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solicitações da fonte mais alta, da qual é muito próximo. Peço-lhe, professor...

- Veja, advogado - começou Boggio -, não há no Piemonte alguém que admire mais do que eu aquele homem íntegro e generoso que é o general Garibaldi. O que ele fez

na Sicília, com um punhado de valentes, contra um dos exércitos mais armados da Europa, é miraculoso.

Bastava esse preâmbulo para me induzir a pensar que Boggio era o pior inimigo de Garibaldi, mas eu me dispusera a escutar em silêncio.

- Contudo - prosseguiu ele -, embora seja verdade que Garibaldi assumiu a ditadura dos territórios conquistados em nome do nosso rei Vítor Emanuel II, aquele por

trás dele não aprova em absoluto essa decisão. Mazzini o pressiona, buzinando-lhe aos ouvidos que a grande insurreição do Meridião deve levar à república. E conhecemos

a grande força de persuasão desse Mazzini, que, mantendo-se tranquilo em países estrangeiros, já convenceu muitos insensatos a se lançarem à morte. Entre os colaboradores

mais íntimos do general, encontram-se Crispi e Nicotera, que são mazzinianos consumados e influenciam negativamente um homem como o general, incapaz de perceber

a malícia alheia. Bem, falemos claro: Garibaldi não tardará a alcançar o estreito de Messina e a passar à Calábria. O homem é um estrategista atilado, seus voluntários

são entusiastas, muitos insulares se uniram a eles, não se sabe se por espírito patriótico ou por oportunismo, e muitos generais bourbônicos deram provas de tão

escassa habilidade no comando que nos fazem suspeitar que doações ocultas enfraqueceram suas virtudes militares. Não nos cabe dizer ao senhor quem desconfiamos ser

o autor dessas doações. Certamente, não o nosso governo. Agora a Sicília está nas mãos de Garibaldi e, se nas mãos dele caíssem também as Calábrias e o Napolitano,

o general, apoiado pelos republicanos mazzinianos, disporia dos recursos de um reino de
9 milhões de habitantes, e, estando circundado por um prestígio popular irresistível, ficaria mais forte do que nosso soberano.

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Para evitar essa desgraça, nosso soberano só tem uma possibilidade: descer até o sul com nosso exército, passar, certamente de modo não indolor, através dos Estados

pontifícios, e chegar a Nápoles antes de Garibaldi. Claro?

- Claro. Mas não vejo como eu...

- Espere. A expedição garibaldina foi inspirada em sentimentos de amor pátrio, mas, para intervir no sentido de discipliná-la, eu diria melhor, neutralizá-la, precisamos

demonstrar, mediante boatos bem difundidos e artigos de gazetas, que ela foi contaminada por personagens ambíguos e corruptos, a tal ponto que se tornou necessária

a intervenção piemontesa.

- Em suma - disse o advogado Riccardi, que ainda não havia falado -, não convém minar a confiança na expedição garibaldina, mas sim debilitar aquela atribuída à

administração revolucionária que se seguiu. O conde de Cavour está enviando à Sicília Giuseppe La Farina, grande patriota siciliano que precisou enfrentar o exílio

e, por conseguinte, deveria gozar da confiança de Garibaldi, mas, nesse ínterim, tornou-se há anos fiel colaborador do nosso governo e fundou uma Sociedade Nacional

Italiana que defende a anexação do reino das Duas Sicílias a uma Itália unida. La Farina está encarregado de esclarecer alguns rumores, muito preocupantes, que já

nos chegaram. Parece que, por boa-fé e incompetência, Garibaldi está instaurando por lá um governo que é a negação de qualquer governo. Obviamente, o general não

pode controlar tudo; sua honestidade está fora de questão, mas em que mãos ele está deixando a coisa pública? Cavour espera de La Farina um relatório completo sobre

qualquer eventual malversação, mas os mazzinianos farão de tudo para mantê-lo isolado do povo, isto é, daqueles estratos da população em que é mais fácil recolher

notícias vivas sobre os escândalos.

- E, em todo caso, nosso Departamento confia em La Farina até certo ponto - interveio Boggio. - Não quero fazer críticas, por caridade, mas ele também é siciliano;

devem até ser boa gente, mas são diferentes de nós, não acha? O senhor levará uma carta de apresentação para La Farina e, afinal, deve apoiar-se nele, porém

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se moverá com maior liberdade. Não deverá coletar apenas dados documentados, mas como já fez outras vezes também fabricar os que vierem a ser necessários.



- E de que forma e a que título irei até lá?

- Como sempre, pensamos em tudo - sorriu Bianco. - O cavalheiro Dumas, que o senhor deve conhecer de nome como célebre romancista, está indo ao encontro de Garibaldi

em Paler- mo, em um navio da sua propriedade, o Emma. Não entendemos muito bem o que ele vai fazer lá, talvez queira simplesmente escrever alguma história romanceada

sobre a expedição garibaldina, talvez seja um vaidoso que ostenta sua amizade com o herói. Seja como for, sabemos que dentro de dois dias fará escala na Sardenha,

na baía de Arzachena, e, portanto, na nossa casa. O senhor partirá para Gênova depois de amanhã, ao alvorecer, e tomará uma embarcação nossa que o levará à Sardenha,

onde encontrará Dumas, munido de uma carta de apresentação assinada por alguém a quem Dumas deve muito e em quem confia. O senhor aparecerá como enviado do jornal

dirigido pelo professor Boggio, mandado à Sicília para celebrar o empreendimento tanto de Dumas quanto de Garibaldi. Começará, assim, a fazer parte do entourage

desse romancista e, com ele, desembarcará em Palermo. Chegar a Palermo com Dumas lhe conferirá um prestígio e uma insuspeitabilidade dos quais o senhor não desfrutaria

se chegasse sozinho. Lá, poderá misturar-se aos voluntários e ao mesmo tempo ter contato com a população local. Outra carta, de pessoa conhecida e estimada, irá

acreditá-lo junto a um jovem oficial garibaldino, o capitão Nievo, que Garibaldi deve ter nomeado vice-intendente geral. Imagine que na partida do Lombardo e do

Piemonte, os dois navios que levaram Garibaldi a Marsala, foram confiadas ao capitão 14 mil das 90 mil liras que constituíam o caixa da expedição. Não sabemos por

que encarregaram de tarefas administrativas justamente Nievo, que é, dizem, homem de letras, mas parece gozar a fama de pessoa inte- gérrima. Ele ficará feliz por

conversar com alguém que escreve para os jornais e que se apresenta como amigo do famoso Dumas.
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O restante da noite foi gasto para combinar os aspectos técnicos do empreendimento, assim como a remuneração. No dia seguinte, fechei o cartório por tempo indeterminado,

recolhi tralhas de estrita necessidade e, por alguma inspiração, levei comigo o hábito que o padre Bergamaschi deixara na casa do vovô e que eu salvara antes que

tudo fosse entregue aos credores.

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7.
COM OS MIL

29 de março de 1897
Não sei se conseguiria recordar todos os eventos, e sobretudo as sensações, da minha viagem siciliana entre junho de 1860 e março de 1861, se ontem à noite, remexendo

papéis velhos no fundo de um gaveteiro, lá embaixo na loja, não houvesse encontrado uma pilha de folhas amarfanhadas, nas quais eu rascunhara aqueles episódios,

provavelmente com o intuito de poder fazer mais tarde um relatório detalhado aos meus mandantes turinenses. São anotações lacunosas, evidentemente apenas registrei

o que considerei importante ou queria que parecesse importante. Que coisas ocultei, não sei.


Desde 6 de junho estou a bordo do Emma. Dumas me acolheu com muita amabilidade. Vestia uma casaca de tecido leve, de cor marrom-clara, e indubitavelmente se mostrava

como o mestiço que é. A pele olivácea, os lábios pronunciados, túmidos e sensuais, um capacete de cabelos crespos como os de um selvagem africano. Quanto ao resto,

o olhar vívido e irônico, o sorriso cordial, a obesidade rotunda do bon-vivant... Lembrei-me de uma das muitas lendas sobre ele: em Paris, na sua presença, um almofadinha

aludira maliciosamente àquelas teorias atualíssimas que veem uma ligação entre o homem primitivo e as espécies inferiores. E ele respondera: Sim, cavalheiro, eu



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