O cinema-vitrine da Globo



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Encontro27.02.2018
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O cinema-vitrine da Globo

Vitrinista é aquele sujeito que arruma as vitrines das lojas dos shoppings. Normalmente, são profissionais experientes em lidar com penduricalhos e com manequins. Sabem combinar objetos e cores, mover os bonecos para posições elegantes e sugestivas, inventar ou copiar temas, iluminar ou obscurecer coisas, enfim, o vitrinista é um mestre das aparências. Ele busca apenas o efeito de superfície, chamar a atenção do passante para os produtos da loja, sem se comprometer, obviamente, com a qualidade daquilo que organiza por trás dos vidros. Seu objetivo é atrair o olhar!

Bem, a maior rede de televisão brasileira faz filmes como quem arruma vitrines: dando a cada penduricalho o lugar onde possa brilhar e agradar, sempre com temas que facilmente chamarão a atenção do público, levando-o a comprar o ingresso. Seus diretores, com poucas exceções, são vitrinistas hábeis que manipulam os atores-manequins, fazendo-os assumir os movimentos previsíveis e balbuciar os diálogos superficiais aguardados por todos. Em suma, fornecem o objeto de desejo da classe média: um filme pasteurizado, envolto no celofane da mediocridade, lacrado com o selo da pieguice e com a profundidade de um pires.

São muitos minutos de imagens sem significados, com diálogos inexpressivos e situações banais; nada vai além do previsto e os velhos valores carcomidos são reafirmados. Terminado o filme-vitrine, vamos às compras, pois ninguém é de ferro! Os famosos que a gente vê na telinha, a gente agora os vê na telona! Alguns deles, se fossem atores, seriam péssimos.



No filme-vitrine, portando a expressividade de um boneco e exibindo a espontaneidade de uma estátua de gesso, os atores-manequins sequer chegam a ser mamulengos. Não têm a graça necessária nem a suficiente capacidade para improvisar. Para endireitar a Globo Filmes, só contratando cineastas com estilingues, diretores que chutem a bola na vidraça, gente maluca que dirija com pedras na mão. Por favor, chamem Cláudio Assis!


Crepúsculo dos deuses: um ensaio sobre o auto-engano
Escrever sobre O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), filme fantástico de Billy Wilder, é escrever sobre a perfeição. Obra-prima noir, a película é o objeto de adoração de muitos cinéfilos, inclusive eu. Portanto, sou suspeito, tal o entusiasmo que nutro pela obra.

Busquemos a ajuda de Leibniz para tentar entender a perfeição: segundo o grande filósofo alemão(1646-1716), algo perfeito deve apresentar um equilíbrio apropriado no modo pelo qual atende ou exemplifica uma pluralidade de critérios, a partir de um limite interno; em outras palavras, a coisa apresenta tal completude no seu desenvolvimento natural que, qualquer que seja o critério avaliado, os resultados satisfazem plenamente o observador.
Penso que nada falta no filme de Wilder! Elenco, roteiro, fotografia, música, figurinos, tudo é perfeito. Nas cenas iniciais, um cadáver bóia numa piscina e uma voz em off, - a voz do morto que narra do além os eventos que levaram a desfecho tão trágico - , pede que acompanhemos sua vida nos últimos seis meses. O narrador promete nos contar a saga do desconhecido roteirista Joe Gillis (William Holden) e de como ele encontrou a morte numa piscina. Um momento de criatividade gloriosa!
No início da história, Gillis, por acaso, vai bater na mansão de Norman Desmond (Gloria Swanson) ex-diva do cinema mudo e que perdeu a fama com o advento do cinema falado (Swanson num papel autobiográfico, sem dúvida!). Solitária e maluca, perturbada pelo esquecimento dos antigos fãs, Desmond é agora uma riquíssima senhora que convive com uma pessoa apenas: um sombrio e eficiente mordomo, interpretado por ninguém menos que o grande cineasta Erich von Stroheim, ele próprio diretor de filmes mudos de Swanson e também alguém cuja carreira foi subitamente interrompida pelo cinema sonoro. Pura metalinguagem: as vítimas da modernização do cinema metaforicamente interpretam a si próprias num filme maravilhoso.
Aliás, Gillis é confundido por ambos com o funcionário de uma funerária de animais encarregado de levar um caixão branco para enterrar o chimpanzé de estimação da ex-atriz. Mais tarde chega o féretro e o enterro do símio se dá numa bizarra cerimônia no quintal da mansão, tudo testemunhado por Gillis. Agora, caro leitor, você tem uma idéia da trama: numa mansão gótica, uma mulher solitária delira com a fama e escreve o roteiro de um filme que pretende financiar e ela mesma estrelar, intitulado “Salomé”. Desmond é uma péssima escritora, mas contrata Gillis para adaptar suas idéias ao cinema falado.
Preste atenção aos ótimos diálogos de Wilder:
Gillis: “Você trabalhava nos filmes mudos. Você era grande!
Desmond: “Eu sou grande! Os filmes é que encolheram!”
Em outra cena, Desmond joga cartas com vários artistas da era muda, entre eles Buster Keaton, comediante rival de Chaplin e pai de Diane Keaton. Mais adiante, Cecil B. de Mille aparece como ele mesmo nos estúdios da Paramount dirigindo “Sansão e Dalila”. É a história do cinema diante dos nossos olhos.
Outra cena antológica: a festa de Ano-Novo sem convidados, exceto Gillis, obrigado a dançar tango com Desmond ao som de uma pequena orquestra. Ademais, Wilder conseguiu que a tendência à gesticulação exagerada do cinema mudo e herdada pela própria Gloria Swanson fizesse parte da caracterização da personagem.
Os interiores da mansão são sombrios, a atmosfera é de decadência e de mútua dependência entre as pessoas. A única diversão é a reiterada exibição dos filmes mudos de Desmond, numa tentativa vazia de recuperar o tempo. A exibição do seu fracassado filme de 1929 Queen Kelly, ironicamente dirigido na vida real por von Stroheim e financiado por Joseph P. Kennedy, à época amante de Swanson, completa o clima de morbidez.
Ora, a paixão da ex-diva pelo roteirista e o envolvimento de Gillis com a jovem escritora Betty Schaeffer (Mary Olson) são as sementes da tragédia anunciada. Desmond descobre o romance e quer vingança. Mais não posso revelar, apenas que o final da película é inesquecível. Digo mais: uma película incomparável sobre a ilusão da fama. Alugue o dvd e depois me diga: é ou não um filme perfeito?
Filme'>Filme: O Crepúsculo Dos Deuses (Sunset Boulevard)

Diretor: Billy Wilder

Com: Gloria Swanson, William Holden e Erich Von Stroheim.

EUA, 1950.
Baixio das Bestas – uma iguaria para estômagos fortes

O sujeito chegou de Caruaru pra tocar fogo no canavial e tocou! As labaredas engoliram a Zona da Mata e a lua distante, avermelharam a noite e ameaçaram o Recife...Cláudio Assis fez Baixio das Bestas pra acordar o povo, aquela classe média que habita os shoppings da cidade e que parece os zumbis do filme Terra dos Mortos!


Esse caruaruense impertinente resolveu nos mostrar o mundo embrutecido da monocultura da cana. No filme, o diretor inverteu a equação platônica: a verdade está lá no escuro, no fundo da caverna. Cláudio Assis não deixou consolo pra ninguém, sujeito ruim danado que não tem pena de quem carrega sacolas com coisas caras e, depois, corrói o próprio estômago na mc’donalds.
Alguns personagens da ópera debochada: os filhos da classe média interiorana, agroboys entediados pela maconha e que usam a violência como a única linguagem possível, as prostitutas perdidas num cabaré da periferia, a adolescente atordoada pela miséria material e sexual em que vive, o seu avô depravado e resmungão, os brincantes do maracatu rural, uns poucos funcionários públicos corruptos. Eis o caldeirão do baixio!
No pátio lateral de uma igreja, uma noite por semana, o velho exibe a nudez da neta aos caminhoneiros, mediante pagamento; uma outra cena insinua, como num teatro de sombras, uma rapariga sendo estuprada pelos agroboys num cinema abandonado e o diretor, de novo contra Platão, mostra que é o mundo tenebroso que expressa o real! O filme é genial, mas ninguém gostou do que viu! Nas suas extra-vagâncias pelos arredores do Recife, Cláudio Assis nos puxou pela gola pra ver a bagaceira e sentir o mau-cheiro! Que cineasta atrevido, examinando meticulosamente a podridão espiritual da usina, o cheiro acre que não larga nem com detergente americano de hollywood,! Trouxe pro cinema do shopping a miséria e a poeira do canavial, a canalhice da classe média vaqueira, a vergonha de existir num mundo tão sinistro.
A imagem do homem poucas vezes agrada, muitas vezes dá pena, outras vezes envergonha! Para não perder a candura, a classe média recifense evitou o novo filme de Cláudio Assis, como já fizera com Amarelo Manga. Apenas eu e mais sete pessoas assistimos ao filme naquela sessão!
Noutra cena surreal do filme de Cláudio Assis, os brincantes do maracatu rural invadem a casa do velho avô e lhe provocam um derrame. Para os compradores do shopping, a miséria que assola a Zona da Mata, por enquanto, é um genocídio sem culpa, as bestas que rondam os muros da propriedade só fazem rosnar, o que acontece no quintal ainda está sob controle, a queimada não chegou a Boa Viagem!

Na última cena de Baixio das Bestas, dois lúcidos personagens olham o mundo e resumem:

“A chuva tá engrossando!”

“Tô vendo!”



Filme: Baixio das Bestas.

Diretor: Cláudio Assis. Com: Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Dira Paes.

Brasil, 2007.

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