O circo: a gente viu o mundo que era esse mundo da cultura de Anônimo. Transcrição de Entrevista Aberta realizada com o Grupo Teatro de Anônimo, no Encontro Internacional de Palhaços – Anjos do Picadeiro 11: a alegria é a prova dos onze



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O Circo: a gente viu o mundo que era esse mundo da cultura de Anônimo.

Transcrição de Entrevista Aberta realizada com o Grupo Teatro de Anônimo, no Encontro Internacional de Palhaços – Anjos do Picadeiro 11: A alegria é a prova dos onze. No IV Seminário de Comicidade, 03 de dezembro de 2013.
PRODUÇÃO: TEATRO DE ANÔNIMO

REALIZAÇÃO ENTREVISTA: EQUIPE CIRCONTEÚDO

Daniel de Carvalho Lopes

Erminia Silva

Giane Carneiro

Transcrição: Iara Cristiane

Edição: Equipe Circonteúdo

março de 2013

Erminia Silva - Entrevistadora – Na realidade, estamos eu e Daniel [de Carvalho Lopes e Giani Carneiro] fazendo esta entrevista, um convite dos Anjos, mas também em nome do site Circonteúdo, que somos coordenadores, no qual essa entrevista será disponibilizada, bem como no Picadeiro Quente. Desde 1986 que o Teatro de Anônimo existe. É um grupo de uma importância histórica grande, que ao mesmo tempo em que várias pessoas conhecem o Anônimo, mas de fato não o conhece. Espero que a gente possa falar de várias coisas hoje desse grupo, que individualmente e no coletivo tiveram, tem e terão propostas de diferenciação e distinção de algumas ações junto com outros coletivos, junto com outros artistas, de propostas sociais, políticas, culturais.

Então eu já vou começar a fazer algumas perguntas para eles, mas daqui a pouco eu prometo que eu deixo vocês falarem alguma coisa. E perguntas também.

Como eu disse, tem muita coisa do Anônimo que muita gente conhece e não conhece. Mas eu acho que, por exemplo, pelo menos os leitores do Circonteúdo (riso) não sabem: quem eram vocês antes do Teatro de Anônimo? É claro que aqui ninguém vai escrever uma tese biográfica, uma biografia de cada um, mas eu acho que o que vocês eram antes e como é que vocês foram se encontrandro, se cruzando, e construindo essa ideia de Anônimo? Como é que foi essa ideia? Como foi que o grupo surgiu, como é, quem eram vocês? Que lugar social vocês vieram? Como que era a constituição familiar de vocês? E em que lugar vocês estudaram?

É claro que eu sei de algumas coisas, eu li o livro do Márcio Libar (risos). 1 Algumas coisas têm referências importantes, do ponto de vista do olhar da história dele, mas nos revelou também muita coisa de vocês, o encontro de vocês e de onde vocês vieram, e que tem muita gente que não sabe.

Acho que é fundamental entender, e conhecer sobre isso antes de chegar ao Anônimo propriamente dito.

Shirley, você é da ponta, pode ser?

Atriz, palhaça e brincante. Integrante do Grupo Teatro de Anônimo desde 1991. Formada pela Escola de Teatro Martins Pena, fez reciclagem na Escola Nacional de Circo, ambas na cidade do Rio de Janeiro. Fez parte da Cooperativa de Artistas e artesãs Abayomi de 1992 à 2005.

SHIRLEY – Aqui é ponta, é? (riso) Bom, eu sou SHIRLEI BRITO, filha de Plínio Peixoto de Brito, dono de um boteco e porteiro, já falecido. Minha mãe é manicure e cabelereira, e hoje mãe de santo. Eu estudei sempre em colégio público e sempre quis ser palhaça. Fiz teatro na escola Martins Pena, e conheci o Teatro de Anônimo nessa época, quando eu estava fazendo Escola de Teatro Martins Pena. 2 E aí a Angélica [Maria Angélica Gomes] era da minha turma, e eu precisava aprender a andar de perna de pau. Como já conhecia, já tinha visitado a sede do Anônimo, já tinha visto uma apresentação do espetáculo deles chamado Cura-Tul, um espetáculo de rua; já havia uma paixão pelo grupo. 3 Então, como eu precisava andar de perna de pau, aprender a andar de perna de pau para um espetáculo na Martins Pena, a Angélica falou “Olha, no meu grupo tem perna de pau, tem pessoas que sabem andar, você pode ir para lá treinar, não sei o que”. 4 E eu fui, e aí começou o namoro e uma relação de troca, de amizade. Quando me formei na Martins Pena, recebi o convite: ou dá ou desce? Aí eu dei, e entrei para o grupo. Estou no grupo vai fazer vinte e um anos.

JOÃO – Mas não foi para mim.

(risos)


SHIRLEY – Bem feito, passou a hora e não viu.

(risos)


ENTREVISTADORA – Shirley, antes de passar para a Angélica, de que lugar do Rio de Janeiro eram as escolas públicas que você estudou?

SHIRLEY – Ah! eu sou de Jacarepaguá. É (riso). Pior que foi. Eu nasci ali entre Jacarepaguá e Barra da Tijuca, que hoje é a Tijuquinha, favela Tijuquinha. E depois fui morar em Niterói não, em Itaboraí, fiz o (riso) segundo grau em Niterói, depois morei em Nova Iguaçu, depois voltei para Jacarepaguá, no Anil, e aí depois morei em vários lugares em Santa Teresa, e hoje eu estou aqui no Centro (riso).

ENTREVISTADORA – Quando que o teatro entrou na sua vida?



SHIRLEY – Bom, o teatro entrou na minha vida desde cedo, eu fazia teatro na escola desde o primário, ginásio.

ENTREVISTADORA – Teve essa oferta nas escolas que você frequentava?



SHIRLEY – Tinha. Tinha essa oferta, sim. Que era sempre uma coisa bem alternativa, né. Não fazia parte da grade, até porque teve uma época no ginásio que eu tive que brigar porque a metade do ano eu tinha que fazer artes plásticas e a outra metade eu podia fazer teatro, e eu falava assim “Eu não sei desenhar, eu odeio artes plásticas, eu não gosto dessa... eu quero fazer teatro o ano inteiro”. Mas não podia. Tinha que, né, mas sempre teve. E no segundo grau era à parte, fora das aulas, aí eu também tive que brigar com a minha mãe para poder ficar mais tarde na escola fazendo aula de teatro. Mas eu sempre dava um jeito.

ENTREVISTADORA – ANGÉLICA.



Atriz, palhaça, trapezista, brincante,  bailarina afro. Integra o grupo desde sua fundação. É formada pela Escola de Teatro Martins Pena e pela Escola Nacional de Circo, ambas na cidade do Rio de Janeiro, tendo se  especializado  em números aéreos.

ANGÉLICAMARIA ANGÉLICA GOMES, eu sou filha de pais nordestinos, mamãe paraibana, meu pai alagoano já falecido. E venho de uma família de dez, eles tiveram dez filhos, e eu sou a única mulher. Um maior galerão (riso).

(risos)


ANGÉLICA – Ele para criar todo mundo trabalhou como carteiro, e de noite trabalhava num boteco. Na época que eu nasci a minha família morava na Providência, aí depois a estrela baixou e a gente melhorou um pouquinho (riso), a gente foi morar em Cascadura (riso), depois Vila da Penha onde fiquei até conhecer essa galera aqui. Nos conhecemos no segundo grau, estudei num colégio bem perto de casa, que era Cecília Meireles, 5 onde ali eu também vivi as primeiras experiências com o teatro, com o esporte, eram duas coisas que sempre ficavam muito fortes e presentes na minha vida. O teatro e o esporte. E no segundo grau eu conheci o Anônimo... quer dizer conheci o Anônimo não, conheci os amigos aqui no colégio de segundo grau, né, o Visconde de Cairu, no Méier.6 Lá eu fazia também handball e o grupo de teatro. Terminamos o segundo grau. Vou dar até uma adiantadinha aqui, a gente terminou o segundo grau e a gente entrou numa pilha “Vamos formar um grupo”, uma pilha até vinda do Márcio [Libar].

ENTREVISTADORA – “A gente”, você, João...



ANGÉLICA – Eu, João, Regina. Quer dizer a Regina, meses depois, é porque ela namorava o Márcio então ela seguiu um pouquinho o início do processo e acabou entrando por pressão (riso). Mas, éramos: eu, João, Márcio, aí tinha o Nem. 7

JOÃO – O Nem.

ANGÉLICA – E o Edvando. Éramos essa galera, que nessa época a gente ensaiava na cobertura do prédio do Edvando... Cobertura é ótimo, né, aquela salinha horrorosa (riso).

(risos)


A gente montou um espetáculo chamado Anônima, que até foi o que deu origem ao grupo.

JOÃO – Ela perguntou de onde vem, essa tua história.

ANGÉLICA – É, não, ela perguntou várias coisas (risos), como é que me conheceu, como é que não sei o que, eu estou adiantando um pouquinho.

FABINHO – Com essa insistência.

ANGÉLICA – Então, então eu acho que é isso né.

ENTREVISTADORA – E essa mistura é importante, não tem jeito.



ANGÉLICA – É, porque não tem como eu falar de mim sem falar desse pessoalzinho aqui do meu lado.

(risos)


JOÃO – Acabou?

ANGÉLICA – Acabei né.

JOÃO – Ah.

(gargalhadas)



Integrante do grupo Teatro de Anônimo desde sua fundação, em 1986, é ator, palhaço e diretor de produção do Teatro de Anônimo.
Licenciado em Artes Cênicas pela UNIRIO, fez curso de reciclagem profissional na Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro.

JOÃO – É, JOÃO CARLOS ARTIGOS, eu sou filho de lavadeira e meu pai era ladrilheiro, fui criado no Engenho da Rainha, subúrbio também do Rio de Janeiro. Meus pais se separaram quando eu tinha mais ou menos onze anos. Então, eu fui criado basicamente pela minha mãe, e a minha casa sempre foi muito... minha mãe tem uma característica muito agregadora, sempre cuidou de um monte de gente, então minha casa sempre ficava com as portas abertas, comidas coletivas, era até insuportável às vezes né, porque eu queria comer e tinha que estar com a porta aberta, aí passava um vizinho “Ah! me dá um pedaço desse ovo aí”, essas paradas, era meio ruim isso às vezes, né. É, era... Mas, foi assim. E aí eu queria, como todo garoto suburbano pobre, ser jogador de futebol. Tentei isso não sei até os doze anos de idade, aí minha mãe falou assim “Pô tem que estudar”. Aí consegui uma bolsa no SENAI [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] para fazer curso de eletricista. Foi o meu primeiro salário na vida, o meu salário mínimo, e eu estudava lá no SENAI para fazer eletricista e estudava na escola à tarde. Vocês já viram algum jogador de futebol que estuda?

(risos)


JOÃO – Então aí terminou a minha carreira de jogador de futebol. (risos)

ANGÉLICA – E nem virou eletricista (risos).

JOÃO – E nem eletricista, exatamente, que hoje tem...

ENTREVISTADORA – E nem quebra o galho nisso? (riso).



JOÃO – Não, não gosto nem de trocar nem uma lâmpada, tenho trauma, porque essa foi uma das piores fases da minha vida.

(risos)


JOÃO – Tenho medo de choque.

ENTREVISTADORA – Nem lâmpada ele troca, nada?



JOÃO – É difícil, é.

(risos)


JOÃO – Não, porque realmente foi traumatizante, porque eu queria muito ser jogador de futebol, sonhava todos os dias com essa possibilidade. Fui fazer teste em todos os clubes que você possa imaginar, do Palmeirinha de Del Castilho ao Flamengo, onde encerrei minha carreira. Jogando...

(gargalhadas)



JOÃO – Jogava lá no Cocotá, mas enfim... (riso). E aí, fiz o Visconde de Cairu, que foi uma... Quando falo isso as pessoas acham que estou falando piada, mas acontece o seguinte, quando fui fazer o primeiro ano do segundo grau, na época, fui reprovado pela primeira vez na minha vida, eu nunca tinha nem ficado de recuperação, e aquilo para mim foi um trauma, e foi um trauma fundamental porque mudei de turno, porque eu não tinha coragem de encontrar os colegas, e aí tinha o negócio de um teatro, eu era meio tímido, era feio naquela época também, né.

(gargalhadas)



JOÃO – E aí eu falei assim “Pô eu vou para o teatro porque é a minha chance de eu tentar pegar alguém, né, arrumar namorada”.

ENTREVISTADORA – Que legal.



JOÃO – É, porque lá o pessoal fica todo mundo pelado, essas paradas assim. E não é que deu certo?

(gargalhadas)



JOÃO – E era bem mais tímido enfim. Não era, não era a Flávia, não. Calma, fica tranquila, mas tiveram várias outras antes.

ENTREVISTADORA – E também não foi a Shirley, né?



JOÃO – E também não foi, a Shirley não existia nessa época. E aí foi assim que eu cheguei para o teatro, eu nunca pensei... eu tinha tido uma outra experiência no final, na oitava série, a professora Leontina, que era de português, o trabalho de final de ano foi escrever uma peça e montá-la. Foi minha primeira experiência, mas mesmo assim era uma coisa ligada ali. Fui o Djavan né, (risos) e era o Djavan, e era o Chacrinha, tinha os cabelinhos , rastafári, e tinha sido isso. Mas, não tinha ainda me tocado. E aí chegando na escola, que essa foi uma possibilidade, inclusive tem muito a ver com a discussão que a gente teve anteriormente, quando o Jailson [Silva – Observatório das Favelas (RJ)] 8 fala, que naquele momento a gente era uma geração que é pré projeto social. Não existia o projeto social; o que existia na nossa época era FUNABEM, FEBEM. 9 Era isso. E a escola nos possibilitou essa história, que a Angélica falou do esporte, que era muito forte, o teatro era também. Várias pessoas saíram tanto por esporte (tem vários profissionais aí da nossa geração) e do teatro também, e já tem uma outra geração no Rio de Janeiro que saiu também do Visconde de Cairu, um grupo chamado Padajan, 10que tem um trabalho bem bacana, que já foi aluno de uma professora que foi da nossa geração. Mesmo com essa degradação do ensino, enfim, a gente foi para lá quando a gente fez quinze, vinte anos, e a escola estava já nesse recrudescimento da violência. E isso foi uma coisa fundamental porque a escola nos permitiu esse contato com a arte, e esse contato com o fazer artístico, que não era para nos incluir socialmente. Era somente para a nossa educação dos sentidos, para a gente fluir de outra maneira e enxergar o mundo, enxergar o belo de outras maneiras. É aquilo que você falou né, 11 de ser contra do que deveria ser a cereja do bolo nos editais, como eu também tenho falado que sou contra o projeto social, assim numa maneira radical, não é só para poder criar o choque. Porque essa coisa dos projetos sociais tem sido terríveis, né. Porque você tem formado um monte de pessoas que vão continuar reproduzindo um sistema, que em teoria a gente deveria estar se contrapondo para criar outra realidade, mas enfim, vamos deixar isso para uma próxima mesa do Anjos, né?

(risos)


JOÃO – Deixa eu acabar de contar a minha história que eu estou quase textualizando.

ENTREVISTADORA – Deixo, pois é fundamental essa apresentação da história de vocês e inclusive por encaminhamento, porque pouca gente sabe dessa história anterior, porque eu sou uma geração anterior que não tem esse leque de ofertas, nem de esporte e nem de teatro. E São Paulo também não tem, até a Marta Suplicy.



JOÃO – Sim.

ENTREVISTADORA – Quando tem os...



JOÃO – E a gente pega a raspa do bolo, praticamente, porque depois tem um negócio assim que...

ENTREVISTADORA – E depois acabou, tipo assim ela saiu, acabou.



JOÃO – É, foi.

ENTREVISTADORA – Então essa oferta é um diferencial na questão da educação, por isso que tem que se lutar por políticas nesse sentido, né? É uma oferta diferencial e que para vocês foi o diferencial. Mesmo ir para pegar uma menina, não é isso né?



JOÃO – É, já valeu, já consegui mais que isso, né.

ENTREVISTADORA – Já valeu, é claro (riso).



JOÃO – Mais que pegar uma menina, eu peguei várias, e hoje estou aqui ainda tentando.

(risos)


JOÃO – Bem. E terminando aqui, um detalhe que eu acho que essa característica suburbana é algo que vai nos influenciar muito até hoje, e aqui Shirley, Angélica, eu, e REGINA, todos os nossos pais morreram pelo álcool. Isso é outro dado, inclusive quando fica discutindo de políticas de... agora o crack, né, oitenta mil pessoas viciadas em crack no Brasil, o que são oitenta mil pessoas comparadas (riso) a esse universo? E do prédio que eu morava também, mas enfim, só falei isso porque eu lembrei. Mas acho que esse é um dado, essa suburbanidade como falava o Jailson [Silva] ali, isso para a gente foi fundamental para a constituição da nossa ética e da nossa estética.

ENTREVISTADORA – É claro que eu não vou aprofundar o tema, mas ser filhos de mães é significativo, não dá para trabalhar isso nessa mesa agora, mas isso também, ser suburbano, estar naquele lugar da escola, e ser filhos de mães, criados por mães é fundamental. Flávia.



Trabalha desde 1988 com organizações culturais não governamentais, que desenvolvem projetos na área de artes cênicas, patrimônio imaterial. Integra a equipe de gestão e produção do Teatro de Anônimo, desde 1996. É Coordenadora Geral do Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro da 1ª a 8ª edição, desde 1996. É mestre em Psicossociologia de comunidades e ecologia social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e cursou o Master of Business Administration - MBA em Gestão Cultural da Universidade Candido Mendes – UCAM (RJ).

FLÁVIA – Eu sou FLÁVIA BERTON DA SILVA, filha de Cesar, ele era do norte fluminense, veio para o Rio de Janeiro trabalhar, como todo mundo que é da roça e tentar vir para a cidade. Conheceu minha mãe, novinhos se casaram, e aí depois ele foi embora de novo para a roça e minha mãe ficou com a gente aqui no Rio. A gente é de Padre Miguel, eu sou nascida e criada lá, minha mãe também, minha família toda é de lá, minha avó nasceu em Padre Miguel, então é um bairro que a gente conhece bem. E minha mãe era, dona de casa, mãe da gente, [depois foi professora de inglês quando já estavam grandes] e eu estudei no [Visconde de] Cairu, era longe para caramba. Eu tinha que acordar, sei lá, cinco horas da manhã para chegar no Méier, porque Padre Miguel é longe do Méier. Padre Miguel é longe de tudo (risos). Tinha um trem muito cheio que não dava para entrar, eu não conseguia, e era na época que o pessoal fazia surf de trem ainda, né. Então pegava um ônibus que dava uma volta no Rio de Janeiro, eu tinha que pegar o ônibus das seis.

(alguém distante) – 684. Padre Miguel



FLÁVIA – Não, 689.

(alguém distante) – 689.



FLÁVIA – Campo Grande – Méier.

(alguém distante) – Que vai para o Méier.



FLÁVIA – É. Aí eu pegava esse 689, mas tinha que ser o das seis, porque tinha um que saía de Padre Miguel direto; porque se fosse o de Campo Grande ele passava com gente pulando, e eu não conseguia entrar também, entendeu? Era longe. Mas enfim, conheci mais ou menos as pessoas do Anônimo no [Visconde de] Cairu, porque eu era de uma turma depois da Angélica e da Regina. Não fiz teatro lá no Cairu, porque sempre fui tímida e não queria deixar de ser, eu acho né, sei lá (risos), mas eu... foi assim primeiro...

ANGÉLICA – Não queria pegar ninguém.

FLÁVIA – É não queria pegar ninguém eu acho, também (gargalhadas), não sei. Mas, uma coisa assim, uma coisa muito forte daquele teatro ali do [Visconde de] Cairu, foi que assim... o primeiro espetáculo de teatro que eu vi na vida foi o do Cairu, porque antes disso o único espetáculo de artes cênicas que eu já tinha visto era o circo que foi lá em Padre Miguel, né. Porque de vez em quando tinha aqueles circos de bairro. Então eu nunca tinha ido a um teatro na vida. E lá foi o primeiro teatro. E o teatro de lá é lindo sabe, ele é todo pequenininho, todo lindo. E aí quando tinha espetáculo eu ia a todas as sessões, entendeu? Eu amava aquilo ali, eu chorava, e eram espetáculos assim bem bregas, né (risos), mas era tão emocionante. Eu achava aquilo tão...

(gargalhadas)



JOÃO – Não, era não.

FLÁVIA – Ah! Era sim, gente (gargalhadas). Agora olhando, né, na época não era, claro que não. Mas, agora olhando assim com frieza, era um negócio breguíssimo (risos). Mas era muito, para a gente era muito emocionante, porque a gente tinha contato com a literatura, com a música. Ah! E eu gostava muito assim, Chico Buarque, Vinicius de Morais, e eles...

ANGÉLICA – Tinham as montagens e os musicais.

FLÁVIA – É, e eu, como é que era o nome do diretor mesmo?

ANGÉLICA – Áureo. 12

FLÁVIA – O Áureo, ele trabalhava sempre esses assuntos, esses cantores, esses compositores, enfim. Da música popular, ele tinha muita música. E aí depois conheci o João através do Nem, o Nem foi da minha turma, e o Nem era do Anônimo já.

ENTREVISTADORA – Mas, já chamava Anônimo? Vocês conseguem se lembrar?



JOÃO – Não.

SHIRLEY – Naquela época já.

JOÃO – Naquela época dela[Flávia], sim.

ENTREVISTADORA – Sim? Na época dela já?



FLÁVIA – Sim, porque era [19]87, tipo um ano depois, e já era Anônimo. Já era Anônimo, já tinha a Arte no Méier.

(risos)


FLÁVIA – Pô, já era, já tinha evento, já era um negócio...

ANGÉLICA – Só para esclarecer, Arte no Méier é um evento que a gente organizou com seis meses de grupo.

(risos)


ANGÉLICA – Muito mitideza, muito agregadores, a gente sempre foi assim né, tudo é muito pouco.

ENTREVISTADORA – Dá para esperar um pouco, porque eu acho que essa organização vai ser ótima. (risos)



FLÁVIA – E, aí bom, eu participei do início também, porque o João era do grêmio, no [Visconde de] Cairu. Eu acho que isso também é uma coisa boa de falar, né, porque é uma coisa forte da nossa história. Aí ele era assim o Cairu. Como todos os colégios públicos de segundo grau, não tinha grêmio, deixou de ter grêmio na época da ditadura, e como a gente estava ali naquele momento bem das Diretas Já, a gente viveu muito isso, os estudantes todos indo para a rua, pedindo Diretas, era o governo [Leonel] Brizola que estava entrando no Rio [de Janeiro] e isso para a gente era muito significativo. Era uma abertura, estava começando a sair ali do [João Baptista de Oliveira] Figueiredo, e a gente estava ali naquele governo [José] Sarney, era bem confuso. Não era isso?

ENTREVISTADORA – Ano das Diretas.



FLÁVIA – Era. E a gente estava ali, e o movimento estudantil começando a se reorganizar. E no [Visconde de] Cairu o João foi o presidente do grêmio com a Cristiane.

JOÃO – Com a Cristiane não, com a Cristiane não.

FLÁVIA – E eu fui da chapa que substituiu eles, né. Então eu conhecia o João... eu conheci assim, politicamente, primeira vez que eu vi o João foi no alto, falando para a massa de estudantes do Cairu, e eu era uma estudante, e uau!

(risos)


JOÃO – Eu tive o meu momento Vladimir Palmeira, digamos assim (risos). Porque na verdade não tinha, porque a ditadura tinha acabado com os grêmios né, e aí eu fui o primeiro presidente depois da abertura, né.


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