O colégio pedro II: uma máquina de produçÃo de subjetividades



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RESUMO
O COLÉGIO PEDRO II: UMA MÁQUINA DE PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES

Autor: Maria da Conceição da Silva Barros de Souza

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Programa de Políticas Públicas e Formação Humana – Rio de Janeiro

Eixo temático 1: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação e Práticas Pedagógicas

Categoria: Pôster

O Colégio Pedro II, instituição de ensino da cidade do Rio de Janeiro, há 173 anos se mantém como modelo de excelência em educação no cenário nacional e, em especial, na mente dos moradores da cidade. O objeto deste trabalho é a caracterização do modo de funcionamento do Colégio Pedro II como uma “máquina de produção de subjetividades”, a partir da produção de um perfil para seus alunos. Para analisar o poder das práticas subjetivantes, e no caso específico das formas de assujeitamento, a discussão foi feita a partir do filósofo MICHEL FOUCAULT. Para refletir sobre o processo de singularização o referencial teórico é GUATARRI. A metodologia empregada foi a coleta de dados em sites que se referem ao Colégio Pedro II, bem como em seu site oficial. O resultado é o levantamento de alguns dos mecanismos que, ao longo dos anos, colaboraram para a construção da imagem do Colégio, em geral, e de seus alunos, em particular, garantindo o assujeitamento de alunos, famílias e profissionais do Colégio, ao modelo de excelência educacional.

Palavras-chave: subjetivação, assujeitamento, singularização


O COLÉGIO PEDRO II: UMA MÁQUINA DE PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES

Uma das mágoas que eu tenho na vida é a de não ter sido, na minha infância ou juventude, aluno do Pedro II. Andei por colégios mais lúgubres do que a casa do Agra. Mas há, em mim, até hoje, a nostalgia de não ter estudado ou fingido que estudava lá. [...] O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca. [...] Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II.


Nelson Rodrigues – Diário Carioca, 29/9/1963

O texto de Nelson Rodrigues revela dois aspectos importantes em uma análise que se pretenda fazer do Colégio Pedro II (CPII). O primeiro, o fascínio que esta instituição de ensino, secular, situada na cidade do Rio de Janeiro, exerce sobre a população da antiga capital do Império. O segundo, uma das impressões que se tem sobre os alunos do Colégio.

O objetivo deste trabalho é caracterizar o funcionamento do Colégio Pedro II como uma “máquina de produção de subjetividades”. Trata-se de entender o modo de funcionamento da instituição, pela maneira como é dado aos seus alunos se reconhecerem como tal.

Para analisar o poder das práticas subjetivantes e das formas de assujeitamento, a discussão foi feita a partir do filósofo MICHEL FOUCAULT. Para refletir sobre o processo de singularização, o referencial teórico é GUATARRI.

A metodologia empregada foi a coleta de dados em sites que se referem ao Colégio Pedro II. O resultado é o levantamento de alguns dos mecanismos que colaboraram para a construção da imagem do Colégio, em geral, e de seus alunos, em particular, garantindo o assujeitamento de alunos, famílias e profissionais, ao modelo de excelência educacional.

Assim como Nelson Rodrigues, muitos sonham ou sonharam em estudar ou ter seus filhos estudando no Colégio Pedro II. Atualmente, estas pessoas são influenciadas por pesquisas e exames nacionais como o ENEM, assim como a internet, jornais e a opinião de especialistas. Porém as principais fontes de informação sobre o Colégio são a indicação de outras pessoas e, o perfil dos alunos do Pedro II.

O Colégio foi criado para ser um modelo, e os modelos são produzidos por dispositivos e neles ancorados. Manter a condição e a imagem de “colégio padrão do Brasil”, durante 173 anos, correspondendo às expectativas do governo e da sociedade, certamente exigiu do CP II muitas adaptações, concessões e produções, que contribuíram para o processo histórico e social de produção de subjetividades, mas também ajudaram a instituí-lo como objeto de desejo. Merece destaque, como uma das produções mais significativas, “o aluno do Colégio Pedro II”.

Um olhar atento ao site oficial do Colégio, e outros que se referem a ele, percebe a riqueza de mecanismos, de um longo processo de subjetivação, que produziu uma “identidade” para o Colégio Pedro II, seus trabalhadores e seus alunos, ao mesmo tempo em que os aprisiona. Porque, na medida em que eles contribuem para a criação de modelos, precisam existir como tal. Sair deste modo de funcionamento, criar novos modos de existência, pode significar, do ponto de vista da Instituição1, o ostracismo e a redução de verbas; do ponto de vista dos sujeitos, atores do seu cotidiano escolar, a exclusão.

A aula inaugural proferida pelo próprio Ministro do Império, em 1938, deixa claro seus princípios e os objetivos do governo da época.
Nenhum cálculo de interesse pecuniário, nenhum motivo menos nobre e menos patriótico, que o desejo de boa educação da mocidade e do estabelecimento de proveitosos estudos, influiu na deliberação do Governo. Revela, pois, ser fiel a este princípio: manter e unicamente adotar os bons métodos; resistir a inovações que não tenham a sanção do tempo e o abono de felizes resultados; prescrever e fazer abortar todas as espertezas de especuladores astutos, que ilaqueam a credulidade dos pais de família com promessas de fáceis, e rápidos processos na educação de seus filhos; e repelir os charlatães que aspiram à celebridade, inculcando princípios e métodos que a razão desconhece, e, muitas vezes, assustada, reprova. Que importa que a severidade de nossa disciplina, que a prudência e a salutar lenteza com que procedemos nas reformas, afastem do Colégio muitos alunos? O tempo, que é sempre o condutor da verdade e o destruidor da impostura, fará conhecer o seu erro. O Governo só fita a mais perfeita educação da mocidade: ele deixa (com não pequeno pesar) as novidades e a celebridade aos especuladores, que fazem do ensino da mocidade um tráfico mercantil, e que nada interessam na moral e na felicidade de seus alunos. Ao Governo só cabe semear para colher no futuro. (Site do Colégio Pedro II – Unidade Centro)2
Porém este discurso anuncia ainda o apego à tradição e à disciplina, ao qual se recorre até hoje, para manter a marca da “excelência”, e característica da sociedade disciplinar, da qual fala Foucault (1987). Para ele, as “disciplinas” são “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade”. (FOUCAULT, 1987, p.126) São técnicas que pretendem “organizar o múltiplo”, atuando sobre os corpos, pela ordenação do espaço e do tempo. E são modos de subjetivação que capturam os seres humanos em uma rede de relações de poder, transformando-os em sujeitos. (FOUCAULT, 1984)3

Quando se lê nos documentos oficiais do CP II o que é dito sobre “o aluno que se deseja formar”, há muito mais do que um compromisso, princípios e a proposta metodológica que possa garanti-los. Há todo um conjunto de ações que cercam seus alunos, no cotidiano escolar, para dirigi-los “ao esplendor” 4, para dar-lhes um sentido - são as relações de poder e os modos de assujeitamento dos indivíduos.

De acordo com Foucault (1984)5, são dois os sentidos possíveis para a palavra “sujeito”: “[...] sujeito submetido a outro pelo controle e a dependência e sujeito ligado à sua própria identidade pela consciência ou pelo conhecimento de si. Nos dois casos a palavra sugere uma forma de poder que subjuga e submete”, que não está nas Instituições, no Estado ou nas mãos de alguns indivíduos, mas que uns exercem sobre os outros em termos das relações que se estabelecem. As relações de poder são
“um conjunto de ações sobre ações possíveis: ele [o poder] opera sobre o campo de possibilidades aonde se vêm inscrever o comportamento dos sujeitos atuantes: ele incita, ele induz, ele contorna, ele facilita ou torna mais difícil, ele alarga ou limita, ele torna mais ou menos provável; no limite ele constrange ou impede completamente; mas ele é sempre uma maneira de agir sobre um ou sobre sujeitos atuantes, enquanto eles agem ou são susceptíveis de agir.” (FOUCAULT, 1984, p.11)
O Pedro II atravessou três séculos e certamente reproduziu com seus alunos, famílias, professores e técnicos as relações de poder que predominantemente se exercia na sociedade de cada época. Pelas formas como as relações vêm sendo constituídas desde sua fundação, o Colégio apresenta muitas características das sociedades senhoriais, disciplinares, como as filas, e a organização das carteiras nas salas, mas em alguns momentos seu modo de funcionamento se assemelha ao exercício do biopoder, descrito por Foucault (2002, p.297) como mecanismos regulamentadores da vida. A busca da “segurança do conjunto em relação aos seus perigos internos” está na minúcia dos editais e portarias que tentam controlar o que foge ao padrão de normalidade. Por exemplo: crianças que chegam por sorteio, ao 2º ano, sem estarem alfabetizadas, ou que são reprovadas duas vezes na mesma série e, consequentemente, jubiladas.

Esses conjuntos de mecanismos se associam, no CP II, aos que Deleuze apud Passetti (2003) usa para caracterizar a sociedade de controle, onde o trabalho intelectual é priorizado, a participação democrática é estimulada e o acelerado fluxo de informações e a mídia são os dispositivos centrais de poder. Basta lembrar os prêmios por bom rendimento, a presença dos alunos nos Conselhos de Classe, a atualização constante do site do Colégio...

O que o Colégio estabelece com seus alunos são relações de subjetivação. Nos termos de Foucault (1984)6, uma forma de exercer o poder que sujeita, “classifica os indivíduos em categorias, [...] impõe-lhes uma lei de verdade que é necessário reconhecer e que os outros devem reconhecer neles”. É comum ouvir: “A maioria das pessoas que estudam no Pedro II, [...] tem uma capacidade, [...] uma banca para prestar um concurso público, sem precisar enfrentar um cursinho.” 7

Para isso, a escola estabelece uma relação quase totalitária com seus alunos: “O Pedro II seqüestra nossos filhos.” É uma das falas que denuncia o fato da criança ter seus dias tomados pelas atividades do Colégio ou de preparação para ele. Tudo isso para seguir o exemplo dos “brasileiros de enorme e subido valor” que ali estudaram, conforme lembra o Hino dos Alunos.

Os alunos, e ex-alunos, do Colégio Pedro II são estimulados, incitados, induzidos e até constrangidos a serem “os soldados da ciência” do qual fala o Hino, encomendado para a comemoração do centenário do Colégio. Seu refrão fala do que se espera do aluno:

“Vivemos para o estudo, Soldados da ciência


O livro é nosso escudo e arma a inteligência.

Por isso, sem temer Foi sempre o nosso lema


Buscarmos no saber a perfeição suprema!”

Esta declaração tem se repetido ao longo dos anos. Tanto em discursos oficiais, quanto em modernas instâncias de produção de verdades, como blogs, sites... E a perfeição suprema é o que as famílias desejam para seus filhos e filhas, quando os inscrevem no sorteio ou no concurso. Um “casamento”, cujos votos são renovados a cada Cerimônia do Hino, realizada semanalmente nas Unidades I 8. Andrade (1999) descreve seus efeitos.

A sensibilidade auditiva preserva na memória individual e coletiva os compassos melódicos que reproduzem em conjunto o compromisso com o passado e o futuro da instituição - o projeto civilizatório de construção da Nação pelo saber, o poder do cientificismo que preconiza a ciência como guia e propulsora do progresso e a retomada da educação como um instrumento do Estado para a formação do cidadão. (p.107-108)
E o Hino afeta de outras formas. Os sujeitos são induzidos a assumir de forma individualizada, a imagem de referência proposta, e os que não correspondem ao padrão são culpabilizados. Guattari (2005) afirma que os “sistemas de modelização, de formação de subjetividade”, produzem a certeza de que tudo depende de competências individuais. “Levar nas mãos o futuro de uma grande e brilhante nação” 9 é um peso que recai sobre os alunos e, quando são encaminhados às aulas de apoio, recuperação ou do Laboratório de Aprendizagem10, é comum perceber seu constrangimento. Para não falar da intervenção dos especialistas requisitados para levar os alunos e as famílias ao caminho da normalização, através de um “saber-poder” que lhes dá o “direito” de mediar inclusive às relações familiares.

Para garantir que os bons resultados continuem a existir, é imperioso que se crie mais e mais dispositivos de poder, controle e regulamentação, que vão se engendrando como práticas educacionais. O retorno da cerimônia da Pena de Ouro11, avaliação diferenciada para alunos com necessidades especiais, a portaria que instituiu prova única para o 4º e o 5º anos, a revisão do Código de Ética Discente são alguns destes mecanismos que têm efeitos na produção de subjetividades, enquanto buscam o equilíbrio do cotidiano escolar.

Esta é a “máquina de produção de subjetividade” que é o Colégio Pedro II. Ouso tomar emprestada a expressão de Pelbart (2002) ao se referir ao capitalismo, pela semelhança com o modo de funcionamento que ele descreve:
[...] Como conseguiria ele mobilizar tanta gente caso não plugasse o sonho das multidões à sua megamáquina produtiva e midiática planetária? Como se expandiria se não vendesse a todos a promessa de um modo de vida invejável, suscitando em todos o desejo de uma vida similar? (PELBART, 2002, p. 252)
Não é isso que o Pedro II faz quando “captura o desejo” de tantas pessoas?
“Nós sentimos no peito o desejo de crescer, de lutar, de subir,

Nós trazemos no olhar o lampejo de um risonho e pungente porvir.”12

No entanto, sempre há outras possibilidades. Novos sentidos e modos de existência são produzidos na microfísica da escola. Guattari (2005) fala de “processos de diferenciação”, aos quais ele chama de “revolução molecular”. É a descoberta de novas lógicas, a construção de novas relações, a ruptura com os modelos, as resistências.
O modo pelo qual os indivíduos vivem esta subjetividade oscila entre dois extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a recebe, ou uma relação de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização. (GUATTARI, 2005, p.42)
Foucault (1984)13 concorda que “não há relação de poder sem resistência”. Elas coexistem e se constituem como limite uma para a outra, gerando tensão e movimento social. Os pais que denunciam o seqüestro de seus filhos, pelo Colégio, estão resistindo e impondo limites, os alunos que se insurgem contra as muitas tentativas de controle também.

Da mesma forma, os profissionais devem estar atentos para perceber as brechas que permitam a construção e reconstrução coletiva de um projeto educacional, menos disciplinar, mais inclusivo, colocando suas ações a serviço dos “processos de singularização”, revelando as subjetividades dominantes e novas possibilidades de existência para o Novo-Velho Pedro II.14


REFERÊNCIAS

ANDRADE, Vera Lúcia Cabana de Queiroz. Colégio Pedro II: Um Lugar de Memória. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tese (Doutorado) em História. Rio de Janeiro, 1999. 157 p.

FOUCAULT, Michel. Dois ensaios sobre o sujeito e o poder. 1984. Consulta online. Disponível em: Acesso em: dezembro de 2010.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da Prisão. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987, Cap. 1 e 2

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do Desejo. 7. ed. Rer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005, Cap. II

O COLÉGIO Pedro II – História e Identidade. PUC Rio Certificação Digital Nº 0212129/CA. Consulta online. Disponível em:

PASSETTI, Edson. Anarquismos e sociedade de controle. São Paulo: Cortez, 2003
PELBART, Peter Pàl. Biopolítica e Biopotência no Coração do Império. In: LINS, D. e GADELHA, S. (Orgs) Nietzsche e Deleuze: Que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. p. 251-260

Site do Colégio Pedro II – Unidade Centro. Disponível em <www.cp2centro.net> Acesso em: dezembro de 2010




1 O Colégio Pedro II está ligado ao governo federal

2 O endereço eletrônico é: www.cp2centro.net

3 Tradução encontrada no endereço eletrônico: jornalista.tripod.com/teoriapolitica

4 “Não deixemos fugir o esplendor” é uma das estrofes do Hino dos Alunos

5Tradução encontrada no endereço eletrônico: jornalista.tripod.com/teoriapolitica

6 Idem

7 Fala de um pai, no dia do sorteio de acesso ao 1º ano do Ensino Fundamental, na Unidade São Cristóvão I, no dia 10/12/2010

8 Unidades do 1º segmento do Ensino Fundamental

9 Conforme afirma a primeira Estrofe do Hino dos Alunos

10 Espaço destinado à investigação e experimentações de práticas pedagógicas que possam atender às necessidades das crianças com dificuldades de aprendizagem, existente nas Unidades de 1° segmento do CPII.

11 Homenagem aos alunos com melhor desempenho acadêmico, no Ensino Médio, a cada ano.

12 Estrofe do Hino dos Alunos do CPII

13 Tradução encontrada no endereço eletrônico: jornalista.tripod.com/teoriapolitica

14 Expressão utilizada pelo professor Wilson Choery, ex-diretor geral do Colégio.


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