O cotidiano e a pesquisa arqueológica de pe



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O cotidiano e a prática arqueológica do Pe. João Alfredo Rohr em um conjunto de cartas trocadas com o antropólogo Luiz de Castro Faria*
Alfredo Bronzato da Costa Cruz#

Resumo: O artigo trata do cotidiano, da pesquisa científica e militância pela preservação do patrimônio arqueológico do Pe. João Alfredo Rohr, S. J., a partir das cartas por ele trocadas com o antropólogo Luiz de Castro Faria, detendo-se em especial naquelas referentes ao episódio da nomeação de Pe. Rohr como presidente do Conselho de Cultura de Santa Catarina em 1971.

Palavras-Chave: História da arqueologia; Patrimônio arqueológico; Pe. João Alfredo Rohr, S. J.; Luiz de Castro Faria; Ciência e religião.
The daily life and archaeological practice exercised by Father John Alfredo Rohr in a series of letters exchanged with the anthropologist Luiz de Castro Faria.

Abstract: The article deals with the everyday, scientific research and activism for the preservation of archaeological heritage by Father Alfredo João Rohr, S. J., based on letters he exchanged with the anthropologist Luiz de Castro Faria, especially those concerning the episode of Father Rohr's appointment as chairman of the Culture Council of Santa Catarina in 1971.

Keywords: History of archeology, archaeological heritage; Fr. João Alfredo Rohr, S. J.; Luiz de Castro Faria; Science and religion.

“(...) O que predomina é a prática; em outras palavras, tudo depende de cada caso concreto.”



Philippe Julien, A psicanálise e o religioso:

Freud, Jung, Lacan (2010, p. 11)
Este artigo, produto de uma pesquisa em andamento, caso seu título já não fosse suficientemente extenso, poderia ter o subtítulo um experimento em micro-história. Fazendo tal observação quero destacar que tomo um caso particular sem nenhuma pretensão de fazê-lo um caso típico, exemplar, ou de explicá-lo à luz de um contexto, à maneira dos funcionalistas; ao contrário, faço-o com o intuito tentar reconstruir a partir deste caso específico parte de uma trama histórica, fatia de vida que isolei de acordo com minha conveniência (LEVI, 1992: 138-139; VEYNE, 1998: 41-42). Como proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg a partir de sua leitura do erudito filólogo judeu-alemão Eric Auerbach, detenho-me em um momento específico entrevisto na documentação – um instante do relacionamento entre o jesuíta gaúcho João Alfredo Rohr e o antropólogo Luiz de Castro Faria, pesquisador do Museu Nacional – para dizer algo sobre um processo social mais geral – a militância pública e a gestão do cotidiano de um homem religioso inserido em um campo científico (GINZBURG, 2007: 86 e 97; AUERBACH, 2007: cap. 15).
Antropologia e articulação de redes: Luiz de Castro Faria
Luiz de Castro Faria, nascido em 1913, cursou o Primário no Colégio Salesiano de Santa Rosa, em Niterói, e o Secundário no Colégio São Bento do Rio de Janeiro.i Em 1933 foi designado secretário geral da associação educativa Movimento Social Brasileiro, e dois anos depois, quando da fundação do Centro de Estudos Arqueológicos do Museu Nacional, passou a ocupar nele a mesma função.ii Fez cursos de biblioteconomia e museologia, e em 1936 tornou-se o que hoje designaríamos como estagiário na Divisão de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional. Trabalhou, então, sob a orientação de Heloísa Alberto Torres, diretora desta instituição entre 1937 e 1955. Antropóloga, arqueóloga e etnóloga, ela orientou Castro Faria no sentido deste modelo de capacitação multifacetado. Seu aprendiz continuaria a reafirmá-lo sempre, como, por exemplo, em um artigo publicado na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no final dos anos de 1990: “(...) A antropologia, no seu sentido mais amplo, inclui a antropologia biológica, a antropologia social, a arqueologia e a etnologia, com os seus diferentes recortes etnográficos” (CASTRO FARIA, 1998, p. 164).

Em 1938, Castro Faria acompanhou a Expedição à Serra do Norte liderada por Claude Lévi-Strauss, na condição de representante do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil. Mais tarde, em 1956, viria a ser designado como membro deste mesmo Conselho. Em 1939, ingressou no quadro técnico do Museu Nacional, no cargo de Naturalista Interino, e a partir deste lugar institucional intensificou as pesquisas de campo em etnografia e arqueologia; viajou então pelo Vale do Paraíba Fluminense e Paulista coletando material fotográfico e referências documentais para pesquisas. No norte do Rio de Janeiro, nos municípios de Campos e São João da Barra, documentou a ocupação pré-colonial tupi através de restos cerâmicos encontrados nas margens do Rio Paraíba do Sul. Iniciou, dois anos depois, uma série de pesquisas sobre a ocupação de grutas e abrigos-sob-rocha nas encostas da Serra do Mar. De um abrigo em Santa Maria Madalena, também no estado do Rio de Janeiro, retirou mais fragmentos cerâmicos e também partes de esqueletos humanos. Muito cedo iniciou suas pesquisas com os vastos e antiquíssimos sambaquis de Santa Catarina, aos quais retornaria muitas vezes. Cabe aqui fazer um pequeno parênteses para explicitar a que tipo de objeto material estamos nos referimos quando mencionamos o nome sambaqui: “montes artificiais de conchas, qualquer que seja o seu volume, a sua forma e localização”, dentro dos quais encontraram-se “fragmentos de carvão, depósitos de cinzas, espinhas de peixe, peças de adorno, utensílios de pedra de uso variado e quase sempre grande número de esqueletos humanos” (CASTRO FARIA, 1999, pp. 201-202. Grifo meu).

Em 1941, Castro Faria excursionou a Mato Grosso a soldo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN; hoje IPHAN), para fazer um levantamento de temas e indicar a viabilidade do desenvolvimento de pesquisas antropológicas e históricas no cerrado e na região pantaneira. No ano seguinte, ampliou ainda mais suas viagens de estudos, pesquisando as coleções arqueológicas dos Museus Paulistas e examinando conjuntos particulares de peças pré-históricas que viriam a ser adquiridas pelo Museu Nacional; teve seu primeiro contato com os sítios da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais; estudou grutas, abrigos-sob-rocha e sambaquis no Espírito Santo.

Em 1947, fez uma viagem ao Paraná e Santa Catarina, para reunir elementos para um plano de estudos sistemático sobre os sambaquis do Brasil meridional. Registrou vários sítios, examinando-os e fotografando-os. Nesse mesmo ano, iniciou um trabalho de retomada e revisão da vasta bibliografia até então existente sobre os sambaquis em português, espanhol, francês, inglês e, principalmente, alemão. Nos anos de 1950 e 1951, realizou uma grande escavação no Sambaqui de Cabeçuda, em Laguna, que estava em risco de iminente destruição pela exploração da indústria do “cal de mariscos”.iii Nesta que seria a sua mais relevante pesquisa arqueológica, recuperou uma miríade de artefatos e os restos ósseos de mais de uma centena indivíduos. Tratava-se efetivamente de “uma amostra de dimensões sem precedentes na arqueologia brasileira” (LIMA, 2009).

De um modo geral, a década de 1950 foi um período em que Castro Faria expandiu sua formação e atuação profissional, inclusive assumindo assento em diferentes centros, institutos, organizações e conselhos de administração da ciência no Brasil. Realizou estudos de aperfeiçoamento na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos da América, e apresentou trabalhos sobre os sambaquis do litoral meridional do Brasil em eventos como o XXX Congresso Internacional de Americanistas, realizado na Universidade de Cambridge em agosto de 1952. Voltando à América do Sul, retomou seus estudos com estes sítios arqueológicos, empreendendo viagens de pesquisa a Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Reivindicando os sambaquis como objetos de estudo da antropologia social e não apenas da anatomia comparada ou da antropologia que comumente se chama de física, como havia se pensado ser o caso até então, forneceu o esteio para que estes fossem considerados não um recurso a ser explorado pela antiga indústria da “cal de mariscos”, mas um patrimônio cultural que era testemunho dos modos de ser no mundo de povos desaparecidos muito tempo antes da chegada de quaisquer europeus ao continente americano (DOMINGUES, 2008; CRUZ, 2011a; CRUZ, 2011b; CRUZ, 2011c).iv Compreendendo que era necessária obrigação do pesquisador em arqueologia se engajar na preservação dos sítios pré-históricos diante da destruição destes que não fosse motivada por fins estritamente científicos, Castro Faria participou da articulação de uma rede nacional de intelectuais militantes em favor desta causa (CRUZ, 2011b, pp. 8-11). Este rede foi constituída por personagens como o paulista Paulo Duarte, o paranaense Loureiro Fernandes e o catarinense Walter Piazza, e sua atuação culminou na proposição e homologação da Lei Federal n. 3.924 de 26 de julho de 1961, que dispõe sobre a pesquisa e conservação dos bens pré-históricos e arqueológicos presentes no território ora brasileiro.v

Quando esta legislação foi aprovada, com suas exigências de que se fizesse um mapeamento e estudos mais sistemáticos do patrimônio arqueológico protegido, os que militaram a seu favor viram-se diante da dificuldade de não contarem com suficiente pessoal especializado nos Museus e Universidades onde estavam sediados para dar conta desta imensa tarefa. Buscou-se então, diante desta “impossibilidade de contratação de técnicos para a formulação de uma equipe [nacional] que pudesse desempenhar as atividades de [pesquisa necessárias à] preservação, a fim de fazer face à enorme demanda da área” (SILVA, 1987, p. 211), expandir a rede já estabelecida estimulando os estudos e atividades de conservação patrimonial desenvolvida por pesquisadores independentes. Foi o que fez Castro Faria, bem situado no prestigioso Museu Nacional – chegou a ser Diretor desta instituição no período de 1964 a 1967 – e ligado ao SPHAN por décadas de colaboração; mais do incentivador, chegou a ser fiador do trabalho desenvolvido por alguns destes pesquisadores. Ao mesmo tempo, preocupou-se com a formalização de espaços para o treinamento e encontro de novos arqueólogos profissionais. Foi no contexto desta agitação que antecedeu e que se seguiu imediatamente à aprovação da citada Lei n. 3.924 que se estabeleceu o relacionamento entre Castro Faria e João Alfredo Rohr.



Antes da aprovação da Lei Federal, entretanto, Alfredo Rohr já havia travado um contato por carta com Castro Faria, informando-lhe de seu interesse pelo estudo e conservação dos sambaquis:
Prezado Senhor,
Recebi, emprestado do Dr. Buechele Júnior, Diretor do Departamento Estadual de Geografia de S. Catarina, "O Problema da Proteção aos Sambaquis". Fiquei vivamente impressionado pelo que V. S. ai relata. Emocionaram-me, particularmente, aqueles esqueletos, em sua posição acocorada, tal qual existem também aqui na Ilha de S. Catarina. Admiro o trabalho tanto mais porque conheço por experiência as horas de trabalho paciente e minucioso que se requerem para deixar um esqueleto frágil de sambaqui em condições de fornecer motivos tão expressivos para a fotografia e a clicheria. Tanto mais chocante é a vandálica destruição destas jazidas, da qual V. S. apresenta documentos tão eloquentes. Infelizmente, esta destruição continua ainda nos nossos dias, em ritmo verdadeiramente alarmante, como tivemos ensejo de testemunhar no mês passado na Ilha de S. Francisco do Sul. Felizmente o Dr. Buechele Junior está tomando medidas tendentes a conservar ao menos alguns restos destes preciosos monumentos da nossa pré-história.
Nesta data, estou encaminhando ao endereço de V. S. um exemplar da minha modesta publicação, referente a uma jazida da Base Aérea de Florianópolis. Caso V. S., em permuta, me pudesse ceder um exemplar da sua importante publicação, ficar-lhe-ia muitíssimo grato.
Com respeitosos cumprimentos de V. S. servo em Cristo... (ROHR, 1960).
Um jesuíta arqueólogo: Pe. João Alfredo Rohr
Alfredo Rohr foi padre da Companhia de Jesus, e como todo jesuíta fez cursos de humanidades e retórica, de filosofia e teologia durante sua formação seminarística. Em 1960, quando escreveu pela primeira vez a Castro Faria, era diretor do Colégio Catarinense, em Florianópolis, além de professor e responsável pelo Museu de História Natural desta instituição. Dedicou-se intensamente ao estudo, primeiro, da flora e da fauna do estado de Santa Catarina, para onde foi transferido em função de necessidades pastorais. Não tardou a interessar-se pelos vestígios remanescentes do antiqüíssimo povoamento indígena do território catarinense, os mais volumosos e impressionantes dos quais eram os grandes sambaquis litorâneos.

Rohr nasceu em 1908 em Arroio do Meio, no Vale do Rio Taquari, à beira da Serra Gaúcha, uma comunidade formada por descendentes de alemães luteranos e católicos chegados àquelas paragens pouco mais de cinqüenta anos antes, gente que vivia da agricultura familiar com razoável conforto e tinha na igreja local e nas instituições que orbitavam ao seu redor (associações de leigos, escola e biblioteca paroquial, quermesses) o principal meio público de sociabilidade. No caso dos católicos, esta centralidade da vida paroquial não se devia nem à um imanente caráter religioso dos imigrantes, nem (apenas) à falta de outros espaços de interação social, mas há décadas de atividade dos jesuítas (SCHMITZ, 2009: 9; NUNES, 2000: 19). Nesta região, de fato, os membros da Companhia de Jesus foram os principais agentes daquele processo que os especialistas na história da Igreja Católica na América Latina normalmente designam como romanização, uma espécie de modernização conservadora do clero das áreas periféricas da rede mundial de poder eclesiástico (WERLE, 2006).

No seminário, Rohr realizou seus estudos ginasiais, tendo como professores e orientadores padres e irmãos jesuítas em sua maioria provenientes da Alemanha. Isto se deveu ao fato de o Brasil meridional ser então um campo de missão de uma província alemã da Companhia de Jesus; a constituição de uma circunscrição inaciana autônoma nesta área só se deu em 1927. Admitido como noviço, Rohr lecionou filosofia clássica durante três anos em São Leopoldo, no Seminário Provincial de Nossa Senhora da Conceição, que, administrado pelos jesuítas, formava candidatos ao sacerdócio pertencentes a diversas congregações religiosas e dioceses do sul do Brasil. De 1933 a 1936, deu aulas ao nível ginasial, neste mesmo seminário, de aritmética, italiano e história natural. É desta época sua primeira experiência como administrador de um museu de colégio jesuítico, espaço de ensino-aprendizagem de ciências hoje quase extinto, que combinava gabinetes e laboratórios de física, química, astronomia e história natural. Esta, note-se não era mais a História Natural do tempo de Buffon, definida por um feixe de relações com a cosmologia, com a história da terra, com a filosofia, com a teologia, com a exegese bíblica e com a matemática (compreendida sob a forma geral de uma ciência da ordem), e que tangenciava ou continha aquela antropologia filosófica, digamos, especulativa, que estrutura e está expressa na obra de pensadores como Voltaire, Rousseau e Diderot (FOUCALT, 1972: 73). Era, de modo bem diverso, uma História Natural marcada pela centralidade das descrições e experimentações, organizada de acordo com o princípio expresso por Pe. Maximiliano Krause, S. J., que cuidou de mais de um museu de colégios jesuíticos do sul do Brasil: “(...) A experiência é a base do ensino, o método indutivo – o meio principal da indução lógica” (KRAUSE, 1930: 22. Apud: LEITE, 2005: 72).

Os museus dos colégios administrados pela Companhia de Jesus não eram, conforme ressaltou o filósofo Luiz Osvaldo Leite, “acervos mortos e estáticos, mas se enriqueciam permanentemente com novas aquisições e melhoramentos” (LEITE, 2005: 75). Eram também cartões de visita destes estabelecimentos de ensino. Como observou, Pedro Ignácio Schmitz em sua apresentação biográfica de Rohr, o museu posto sob a responsabilidade deste “reunia amostras do reino mineral, vegetal, animal e humano, numa pequena amostra do mundo conhecido. Depois deste primeiro contato, nunca mais o museu sairia de sua vida” (SCHMITZ, 2009: 10).

De 1930 a 1936, Rohr escreveu oito pequenos artigos sobre temas de História Natural que publicou na revista do Colégio Anchieta de Porto Alegre, Eco, bastante lida pela classe média gaúcha. Nos quatro anos seguintes, escreveu mais oito trabalhos na mesma área, pbublicando-os na revista O Seminário, de circulação mais restrita aos ambientes eclesiásticos e círculos sociais próximos, tais como as famílias dos seminaristas. De 1937 a 1940, Rohr fez seus estudos teológicos; em 1939 foi ordenado sacerdote; após um ano de revisão, fez os votos especiais da Companhia de Jesus em 1941, e tornou-se “jesuíta completo, pronto para atuar em qualquer uma das obras mantidas pela ordem religiosa no Sul do Brasil, ou na missão entre os índios do Mato Grosso” (SCHMITZ, 2009: 10).

Aos 33 anos, Rohr foi enviado para trabalhar no Colégio Catarinense, em Florianópolis, administrado pelos padres jesuítas e fundado em 1905 por convênio entre a Companhia de Jesus e o Governo do Estado de Santa Catarina. O Catarinense funcionava então como internato e externato, e suas atividades incluíam aulas, estudo individual, catequese, prática de esportes, aprendizado prático em laboratório e em passeios, e momentos de recreio. Tratava-se de um mundo fundamentalmente masculino, que tinha a disciplina como eixo de organização; em 1946 ele se compunha de doze sacerdotes, seis noviços, dois irmãos coadjutores, quatorze professores leigos e quinhentos e sessenta e seis alunos, sendo cento e oito internos. Rohr participou desta comunidade em diferentes momentos como professor, como administrador, como catequista, como capelão, como introdutor à prática da experimentação científica e pesquisador. De 1942 a 1964, lecionou física, química e ciências naturais, e, em decorrência de suas atividades pedagógicas, assumiu e começou a ampliar o museu já existente no Colégio. De 1946 a 1953, foi reitor da comunidade dos jesuítas de Florianópolis, diretor do Catarinense e presidente do Sindicato de Estabelecimentos de Ensino Primário e Secundário de Santa Catarina. Neste período empreendeu obras de ampliação e reforma do Colégio e construiu uma casa de retiros (SCHMITZ, 2009: 11-12).

A partir de 1943, Rohr começou o atendimento pastoral do lugarejo de Córrego Grande, no centro geográfico da Ilha de Santa Catarina, onde o Colégio Catarinense tinha uma chácara que o abastecia dos gêneros de primeira necessidade, relação que foi mantida até seu falecimento em 1984 (NUNES, 2000). Durante décadas, nos dias de trabalho, Rohr foi até o Córrego Grande de caminhão, celebrou a missa para os coadjutores que lá viviam, levou-lhes mantimentos e trouxe leite para o Colégio; nos domingos, depois de tocar o sino chamando os fiéis à capela, celebrava a missa cantada, com sermão e bênção do Santíssimo Sacramento, após o quê se ocupava da catequese das crianças (NUNES, 2000: 13; SCHMITZ, 2009: 12). Também organizou obras de caridade para com os pobres de Florianópolis, foi capelão do Orfanato que ficava próximo do Colégio e diretor espiritual de associações marianas. “Todas essas atividades ligadas à comunidade educacional ocupavam seu dia, de modo que o museu e as publicações ficaram num segundo plano. Mas não pararam, e o campo de interesses até cresceu” (SCHMITZ, 2009: 12).



Em 1948, Rohr apresentou no Primeiro Congresso de História Catarinense, realizado em Florianópolis um longo trabalho (120 p.) de título Contribuição para a etnologia indígena do Estado de Santa Catarina, cuja maior parte (102 p.) é a relação do material etnológico pré-colombiano até então recolhido ao museu do colégio sob sua direção. Este texto viria a ser publicado dois anos depois, como separata dos anais do referido congresso, pela Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina. Em 1950 e 1951 divulgou no Relatório do Colégio Catarinense, publicação anual de circulação relativamente restrita, trabalhos sobre os grupos vegetais das pteridófitas e orquidáceas; praticamente desde sua chegada a Florianópolis, Rohr começou a montar um orquidário (NUNES, 2000: 16; SCHMITZ, 2009: 12). Em 1954, criou um setor de etnologia indígena no museu do Catarinense, com as peças descritas em sua Contribuição... e material recolhido entre os índios Xokleng (Botocudos). Em 1956, Rohr participou da criação do Instituto Anchietano de Pesquisas (IAP), associação de padres pesquisadores da Província Sul-Brasileira da Companhia de Jesus, cujo modelo eram os institutos históricos e geográficos dispersos por todo o país desde o século XIX. Os sócios fundadores do IAP eram botânicos, zoólogos, químicos, historiadores, antropólogos e arqueólogos, a maioria dos quais havia se dedicado antes aos estudos mais gerais do que se chamava de História Natural; mesmo que alguns deles dessem aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (como, por exemplo, o Pe. Balduíno Rambo, S. J.), os espaços institucionais a partir dos quais falavam eram os colégios, seminários, paróquias e a Missão do Mato Grosso, onde faziam suas pesquisas de maneira autônoma (SCHMITZ, 2009: 13).

Em 1958 Rohr realizou seu primeiro estudo arqueológico in situ: uma escavação de 200 m² em um sítio junto à Base Aéra de Florianópolis. Neste local chamado de Caicanga-Mirim, recolheu em uma tensa operação de salvamento cinqüenta e quatro esqueletos humanos de índios, aparentados aos Xokleng, que haviam vivido ali no século XII d. C.; parte do sítio arqueológico já havia sido destruído antes de sua intervenção pelos operários ali estavam extraindo areia para a ampliação da referida Base. No ano seguinte Rohr estudou treze sambaquis localizados na Ilha de Santa Catarina: os cinco da Ressacada, os cinco do Rio Tavares e os três do Rio Vermelho (SCHMITZ, 2009: 13-14). Os resultados destas horas de trabalho paciente e minucioso em campo foram publicadas nos números 3, 8 e 12 da revista Pesquisas do IAP, em 1959 e 1960, sob o título de “Pesquias Páleo-Etnográficas da Ilha de Santa Catarina”. A Pesquisas foi inicialmente editada pela Livraria Selbach, de Porto Alegre, e, diversamente das revistas nas quais Rohr havia publicado até então (Eco, Seminário, Relatório do Colégio...), era rigorosamente acadêmica.

Pe. Rohr foi o arqueólogo responsável pelo maior número de escavações no Brasil até os nossos dias e talvez o mais notável dos personagens que já se envolveram na preservação do patrimônio arqueológico do estado de Santa Catarina. (FOSSARI, 2001. REIS & FOSSARI, 2009). Formou-se como autodidata e começou seu trabalho de pesquisa usando recursos da comunidade onde vivia, o Colégio Catarinense; em meados da década de 1960, por intervenção de Castro Faria, começou a receber uma verba do SPHAN para que localizasse, descrevesse e ajudasse a preservar os sítios arqueológicos de Santa Catarina (CASTRO FARIA, 1962). “Durante muitos anos, enquanto este órgão não possuía funcionários próprios, foi seu representante honorário no Estado e, nesta função, mais de uma vez arriscou a vida defendendo sambaquis em demolição para produção de cal ou calçamento de estradas.” (SCHMITZ, 2009: 17). Mais tarde veio a receber uma bolsa de pesquisador e alguns recursos auxiliares do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq).


Livre associação e encruzilhada
Há jesuítas interessados em arqueologia cristã e bíblica, por motivos muito evidentes, assim como no estudo arqueológico das missões estabelecidas pela Companhia de Jesus na Ásia e nas Américas – das quais as reduções dos guaranis são talvez o exemplo mais eloquente.vi Mas por que haveria um jesuíta interessado no povoamento pré-colombiano do território sul-brasileiro?

Era uma pergunta a qual não pude me furtar quando encontrei no acervo pessoal de Castro Faria as cartas por ele trocadas com o Pe. Rohr. Não há na atualidade qualquer conjunto explícito e objetivo de procedimentos através dos quais seja possível determinar seguramente como se estabelece o interesse de um certo sujeito por um assunto determinado; isto, em primeiro lugar, porque os sujeitos e interesses não são dados estáveis, mas descontinuidades em incessante transformação.vii Claro que uma abordagem subjetiva e sintética continua a ser possível.viii Talvez no engajamento deste jesuíta com a pesquisa e a preservação dos sambaquis catarinenses estivesse refletido, pelo inverso, um Pe. Rohr que ainda “não tinha votado sua vida à arqueologia e retirou no ano de 1946, da Praia do Santinho, um bloco de diabásio com gravura de representação humana”, à qual dizia-se que os pescadores da região prestavam culto, o “que gerou grande revolta na comunidade local e, posteriormente, opiniões divergentes entre os arqueólogos” (COMERLATO, 2005: 2). É uma hipótese, mas uma hipótese fraca, porque supõe como certos, necessários, processos demasiado íntimos para que possam ser verificáveis.

Há também a circunstância de que Alfredo Rohr não foi o único padre da Província do Brasil Meridional da Companhia de Jesus a se interessar pela arqueologia pré-histórica desta região, mas de que esta preocupação sua se vinculava em meios históricos, identificáveis ou conjeturáveis de modo plausível, àquela de outros confrades seus: Pe. Balduíno Rambo, que publicou em 1956 um “curta resenha, mais enumeração didática dos tipos fundamentais do que estudo científico” (RAMBO, 1956: 44) de título Arqueologia Rio-Grandense no segundo volume da coleção Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, editada pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul; e Pe. Pedro Ignácio Schmitz, também correspondente de Castro Faria, hoje o principal personagem do Instituto Anchietano de Pesquisas, embrião da Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS), estabelecimento de ensino superior do Rio Grande do Sul administrado pela Companhia de Jesus, e um dos mais atuantes arqueólogos e administradores da arqueologia do Brasil nestas últimas décadas. Alfredo Rohr não era, portanto, uma inteira exceção, e a questão de seu interesse pessoal em arqueologia pré-histórica desliza com esta constatação para a problemática de entender a existência e atuação de um pequeno, mas notável, conjunto de arqueólogos jesuítas sediado no sul do Brasil interessado em ameríndios que viveram muitos séculos (eventualmente milênios) antes do surgimento do cristianismo.

Neste estágio de pesquisa, com a documentação de que tenho conhecimento, entretanto, tais perguntas se revelaram inadequadas por não passíveis de resposta. Nele mesmo uma lógica probabilística poderia dar algum alento: além da formação em filosofia e em teologia católica, os padres jesuítas normalmente se formam em algum outro campo do conhecimento; há jesuítas físicos, historiadores, matemáticos, botânicos, astrônomos, sociólogos, etcetera; se multiplicados os numerosos, mas não infinitos, campos do conhecimento estabelecidos no século XX pelo número dos jesuítas da Província do Brasil Meridional neste mesmo período, haveria uma significativa chance de um ou dois deles se interessarem por arqueologia pré-histórica.ix Quando me peguei pensando de tal forma, percebi o quão inadequada era a problemática que eu punha à documentação de que dispunha: era necessário dar um passo atrás, ver o que eu tinha em mãos e o que podia ser dito com base naquilo. Afinal, conforme constatou o historiador alemão Reinhart Koselleck, diante do silenciamento – mas não do veto – das fontes é necessário reconsiderar o que conta em uma dada investigação histórica, tomar decisões que estão no campo das premissas teóricas, e não no da análise documental – e isto na medida em que nos vemos obrigados a interrogar vestígios do passado não só para sabermos algo acerca deles mesmos, mas para nos depararmos “com constelações de eventos que se situam para além deles” (KOSELLECK, 2006: 186). Em outras palavras, se aqueles documentos eleitos pelo historiador como fontes de sua narrativa não são capazes de ajudar a responder às questões que organizam esta, então é necessário que se modifiquem as perguntas e se esteja disposto a ler a contrapelo a documentação disponível.



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