O cristo dos Pactos Palmer Robertson



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O Cristo dos Pactos - Palmer Robertson

Uma análise exegetica e teológica dos sucessivos pactos bíblicos e do seu papel no desenvolvimento da revelação de Deus.

m

A Judy,


minha preciosa esposa

e querida co-herdeira

da graça da vida

da aliança.

O Cristo dos Pactos © 2002, Editora Cultura Cristã. © 1980 O. Palmer Robertson under the title The Christ of the Covenants. Originally published in the USA by Presbyterian & Reformed Publishing, 1102 Marble Road, Phillipsburg, New Jersey, 08865, USA. Traduzido com permissão. Todos os direitos são reservados.

1â edição - 2002 - 3.000 exemplares

Tradução Américo Justiniano Ribeiro

Revisão Ana Elis Nogueira de Magalhães

Editoração Zeta Design

Capa Leia Design

Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:

Cláudio Marra {Presidente), Alex Barbosa Vieira,

Aproniano Wilson de Macedo, Fernando Hamilton Costa,

Mauro Meister, Ricardo Agreste e Sebastião Bueno Olinto.

CDITORA CULTURA CRISTA

Rua Miguel Teles Júnior, 382/394 - Cambuci

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www.cep.org.br — cep@cep.org.br

0800-141963

Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio Antônio Batista Marra

Sumário

PREFÁCIO..................................................7



PRIMEIRA PARTE INTRODUÇÃO ÀS ALIANÇAS DIVINAS

1. A Natureza das Alianças Divinas.............................9

2. A Extensão das Alianças Divinas............................21

3. A Unidade das Alianças Divinas ............................31

4. Diversidade nas Alianças Divinas............................55

SEGUNDA PARTE

5. A Aliança da Criação......................................65

TERCEIRA PARTE A ALIANÇA DA REDENÇÃO

6. Adão: A Aliança do Começo ...............................87

7. Noé: A Aliança da Preservação ............................101

8. Abraão: A Aliança da Promessa............................117

9. O Selo da Aliança Abraâmica..............................135

10. Moisés: A Aliança da Lei..................................155

11. Excurso: Alianças ou Dispensações:

Qual Destas Estrutura a Bíblia? ............................187

12. Davi: A Aliança do Reino.................................213

13. Cristo: A Aliança da Consumação ..........................251

ÍNDICE DE CITAÇÕES BÍBLICAS..............................279

Prefácio

Este livro focaliza duas áreas essenciais ao interesse da interpretação bíblica hoje: a significação das alianças de Deus e a relação dos dois testamentos. Mediante a correta compreensão das iniciativas de Deus em estabelecer alianças na história será lançado sólido fundamento para desemaranhar a questão complexa da relação dos dois testamentos.

Virtualmente, toda escola de interpretação bíblica hoje tem chegado a apreciar a significação das alianças para a compreensão da mensagem distintiva das Escrituras. Que o Senhor da aliança abençoe esta discussão em andamento, de tal maneira que se inflame nos corações de homens de todas as nações amor mais completo ao que se fez ser "uma aliança para os povos".

PRIMEIRA PARTE: INTRODUÇÃO ÀS ALIANÇAS DIVINAS

A Natureza das Alianças Divinas

Que é aliança?

Pedir definição de "aliança" é como pedir definição de "mãe".

Pode-se definir mãe como a pessoa que nos trouxe ao mundo. Esta definição pode ser formalmente correta. Mas quem se sentirá satisfeito com ela?

As Escrituras testificam com clareza a respeito da significação das alianças divinas. Deus entrou, repetidamente, em relação de aliança com indivíduos. Referências explícitas encontram-se na aliança divina estabelecida com Noé (Gn 6.18), Abraão (Gn 15.18), Israel (Êx 24.8) e Davi (SI 89.3). Os profetas de Israel predisseram a vinda dos dias da "nova" aliança (Jr 31.31), e Cristo mesmo falou da última ceia em linguagem de aliança (Lc 22.20).

Mas que é aliança?

Alguns irão desencorajar qualquer esforço no sentido de apresentar uma definição sumária de "aliança" que abranja todos os variados usos do termo na Escritura. Sugeririam que os múltiplos e diferentes contextos em que a palavra ocorre implicam muitos sentidos diferentes.1

Qualquer definição do termo "aliança" deve admitir claramente amplitude tão larga quanto o exigem os dados da Escritura. Todavia, a mesma inte-

I. Cf. com D. J. McCarthy, "A aliança no Antigo Testamento: O Estado Presente da Inquirição", Revista Trimestral Católica Biblica (Catholic Biblical Quarterly, 27, [1965]: 219,239). Delbert R. Hillers comenta a respeito da tarefa de definir aliança em Aliança: A História de uma Idéia Bíblica (Covenant: The Hisiory of a Biblical Ideei, Baltimore, 1969), p. 7: "Não é o caso de seis cegos e o elefante, mas de um grupo de eruditos paleontólogos criando monstros diferentes dos fósseis de seis espécies separadas".

A Natureza das Alianças Divinas 11

maneira razoavelmente consistente, o conceito de "pacto" ou "relacionamento".4 É sempre uma pessoa, ou Deus ou o homem, quem faz uma aliança. Ainda mais, é outra pessoa que se contrapõe como a outra parte da aliança, com poucas exceções.5 O resultado de um compromisso de aliança é o estabelecimento de uma relação "em conexão com", "com" ou "entre" pessoas.6 O elemento formalizador essencial ao estabelecimento de todas as alianças divinas nas Escrituras é a declaração verbalizada do caráter do pacto que está sendo estabelecido. Deus fala para estabelecer sua aliança. Fala graciosamente ao comprometer-se com as suas criaturas e ao declarar a base sobre a qual se relacionará com a sua criação.

maldição da divisão animal. Do outro lado, indicaria a participação de uma refeição de aliança. Noth é a favor da sugestão de que "aliança" deriva do acadiano birit, que se relaciona com a preposição hebraica 1" "entre". Ele elabora um processo de passo-múltiplo pelo qual o termo atingiu independência adverbial por meio da frase "matar um asno de entre meio", assumiu o sentido substantivo de "meditação" que conseqüentemente requereu a introdução de uma segunda preposição "entre" e, finalmente, evoluiu para a palavra normal "aliança", que podia ser usada com outros verbos além do verbo "cortar" (entre). Uma terceira sugestão etimológica sugere a raiz acadiana bani, "amarrar, agrilhoar", e o substantivo relacionado biritu, "faixa" ou "grilhão". Weinleld, op., cit. p. 783, considera esta última sugestão como a mais válida.

4. As recentes argumentações de E. Kutsch de que o termo "aliança" significa "obrigação" ou "compromisso" são, na verdade, fascinantes. Mas não são adequadas para derribar o conceito básico de que a "aliança" é "pacto". Kutsch argumenta que a definição de "aliança" como "obrigação" é válida se o tipo de aliança é um em que a pessoa se "obriga", é "obrigada" por um poder externo, ou chega a uma "obrigação" mútua com uma parte igual. Ele observa também que o paralelismo hebraico freqüentemente alterna "aliança" com "estatuto" e "juramento", fato que a seu ver favorece o sentido de "obrigação" (E. Kutsch, "Gottes Zuspruch und Anspruch. beril in der alttestamentlichen Theologie)", em "Questões disputadas do Antigo Testamento" (Questions dispit-lées d 'Áncien Teslament, Gembloux, 1974), pp. 71 ss. Discordância cordial com a teoria de Kutsch, expressa em artigos mais antigos, é registrada por D. .1. McCarthy em "Berit e a Aliança na História Deuteronomista", em "Estudos da Religião do Antigo Israel, Suplemento ao Antigo Testamento" (Studies in lhe Religion oj Ancient Israel, SupplemaU to Vetits Testamentum, 23, 1972): pp. 81 ss. McCarthy conclui que a tradução tradicional pode permanecer, apesar das argumentações de Kutsch. Embora as alianças divinas invariavelmente envolvam obrigações, seu propósito último vai além da quitação compreendida por um dever. Ao contrário, é a inter-relação pessoal de Deus com o seu povo que está no coração da aliança. Este conceito do coração da aliança foi percebido na história dos investigadores da aliança desde os dias de John Coceeius, como se vê pela sua ênfase sobre o efeito da aliança no fazer paz entre partes. Cf. com Charles Sherwood McCoy, "A Teologia da Aliança de Johannes Coceeius" (The Covenant Theology ofJohannes Coceeius, New Haven, 1965), p. 166.

5. Uma exceção seria Gênesis 9.10,12,17, em que Deus estabelece o pacto com os animais do campo. Cf. também com Oséias 2.18; Jeremias 33.20,25. A despeito do papel das partes impessoais com relação ao pacto nestas passagens, é ainda um "pacto" que está sendo estabelecido com elas.

10 O Cristo dos Pactos

gridade da história bíblica ao ser determinada pelas alianças de Deus sugere uma unidade abrangente no conceito de aliança.

Que é, então, aliança? Como definiria você a relação de aliança entre Deus e o seu povo?2

Aliança é um pacto de sangue soberanamente administrado. Quando Deus entra em relação de aliança com os homens, de maneira soberana institui um pacto de vida e morte. A aliança é um pacto de sangue, ou um pacto de vida e morte, soberanamente administrado.

Três aspectos desta definição das alianças divinas devem ser considerados com maior cuidado.

ALIANÇA É UM PACTO

Em seu aspecto mais essencial, aliança é aquilo que une pessoas. Nada está mais perto do coração do conceito bíblico de aliança que a imagem de um laço inviolável.

Extensas investigações na etimologia do termo do Antigo Testamento para "aliança" ( rvi? ) têm-se provado inconclusivas na determinação do sentido da palavra.3 Todavia, o uso contextual do termo nas Escrituras indica, de

2. O próprio fato de que a Escritura laia de alianças "divinas", alianças feitas por Deus com o seu povo, pode ser de grande significação em si mesmo. Quanto parece, este fenômeno de alianças divinas não ocorre fora de Israel. "Fora do Antigo Testamento não temos evidência clara de um tratado entre um deus e o seu povo", diz Ronald E. Clements, em Abraão e Davi: Gênesis 15 e sua Significação para a Tradição Israelita (Abraham and Davhl: Gênesis 15 and ils Meaningfor lhe Israelite Tradition, Naperville, IL, 1967), p. 83.. Cf. também com o comentário de David Noel Freedman em "O Compromisso Divino e a Obrigação Humana", na revista "Interpretação" (Interpretation), 18, (1964): 420: "Não há paralelismo convincente no mundo pagão..." com relação às alianças de Deus com o homem como se acha na Bíblia.

3. O caráter inconclusivo da evidência etimológica é quase geralmente reconhecido. Cf. com Moshe Weinfekl Theologisches Wôrterbuch zum Alten Testament (Stuttgart, 1973). p. 783; Leon Morris, "A Pregação Apostólica da Cruz" (TheApostolic Preachingof lhe Cross, London, 1955), pp. 62ss. Uma sugestão indica o verbo barah, que significa "comer". Se for este o caso, a referência pode ser à refeição sagrada que muitas vezes estava associada com o processo de firmar aliança. Martin Noth, "Firmar Pacto no Antigo Testamento à Luz de um Texto de Mari", em "As Leis do Pentateuco e Outros Ensaios" (The Laws in lhe Penlaíeuch and Other Essays, Edinburgh, 1966), p. 122, argumenta contra a hipótese. Sugere que a frase "aliança" envolveria alusão a métodos diferentes para se firmar uma aliança. De um lado, indicaria a auto-

A Natureza das Alianças Divinas 13

Essa estreita relação entre juramento e aliança enfatiza o fato de que a aliança em sua essência é um pacto. Pela aliança, as pessoas tornam-se comprometidas umas com as outras.

A presença de sinais em muitas das alianças bíblicas também enfatiza que as alianças divinas unem as pessoas. O sinal do arco-íris, o selo da cir-cuncisão, o sinal do Sábado - estes sinais da aliança reforçam o caráter de ligação da aliança. Um compromisso interpessoal que pode ser garantido entra em vigor por meio de um pacto com caráter de aliança. Da mesma forma, como uma noiva e um noivo trocam as alianças como um "sinal e penhor" de sua "fidelidade constante e amor permanente", assim também os sinais da aliança divina simbolizara a permanência do pacto entre Deus e o seu povo.

ALIANÇA É UM PACTO DE SANGUE

A frase "pacto de sangue", ou pacto de vida e morte, expressa o caráter absoluto do compromisso entre Deus e o homem no contexto da aliança. Em iniciando alianças, Deus jamais entra em relação casual ou informal com o homem. Em lugar disto, as implicações de seus pactos estendem-se às últimas conseqüências de vida e morte.

A terminologia básica que descreve o estabelecimento de uma relação de aliança vivifica a intensidade de vida e morte das alianças divinas. A frase traduzida "fazer uma aliança", no Antigo Testamento, significa, literalmente, "cortar uma aliança".

Esta frase "cortar uma aliança" não aparece apenas em um estágio na história das alianças bíblicas. Muito pelo contrário, ocorre proeminentemente por toda a extensão do Antigo Testamento. A lei8, os profetas9, e os escritos,10 todos contêm a frase de maneira repetida.

8. Gn 15.18; 21.27,32; 26.28; 31.44; Êx 23.32,34; 24.8; 34.10,12,15,17; Dt 4.23: 5.2,3; 7.2; 9.9; 29.1,12,14,25,29; 31.16.

9. Js 9.6ss.; 24.25; Jz 2.2; ISm 1 1.1,2; 2Sm 3.12ss.; lRs 5.12ss.; 2Rs 7.15ss.; Is 28.15; 55.3; Jr 11.10; 31.3lss.; Ez 17.13; Os 2.18; Ag 2.5; Zc 11.10.

10. Jó 31.1; SI 50.5; ICr 1 1.3; 2Cr6.ll; Ed 10.3; Ne 9.8.

12 O Cristo dos Pactos

A preeminência de juramentos e sinais nas alianças divinas realça o fato de que a aliança, em sua essência, é um pacto. A aliança estabelece compromisso de uma pessoa com outra.7

Um juramento obrigatório da aliança podia assumir várias formas. Em um ponto podia estar envolvido um juramento verbal (Gn 21.23,24,26,31; 31.53; Êx 6.8; 19.8; 24.3,7; Dt 7.8,12; 29.13; Ez 16.8). Em outro ponto, algum ato simbólico podia estar ligado ao compromisso verbal, tal como a concessão de uma dádiva (Gn 21.28-32), o comer uma refeição (Gn 26.28-30; 31.54; Êx 24.11), o erguimento de um memorial (Gn 31.44s.; Js 24.27), o espargir de sangue (Êx 24.8), o oferecimento de sacrifício (SI 50.5), o passar debaixo do cajado (Ez 20.37), ou o dividir animais (Gn 15.10,18). Em várias passagens da Escritura, a relação integral do juramento com a aliança é apresentada mais claramente pelo paralelismo da construção (Dt 29.12; 2Rs 11.4; lCr 16.16; SI 105.9; 89.3,4; Ez 17.19). Nestes casos, o juramento alterna com a aliança e a aliança com o juramento.

6. As preposições T*3, 3JJ, í"lft , e "? podem ser usadas para descrever esta relação.

7. Muita evidência apoia a significação do juramento no processo de fazer aliança. Para uma completa exposição da evidência de que um juramento pertencia à essência da aliança, ver a obra de G. M. Tucker, "Formas de Aliança e Formas de Contrato", Antigo Testamento, 15 (Covenant Fonns and Contract Forms, Vetus Testamentum 15, [1965]: 487-503).

Enquanto o juramento aparece várias vezes em relação a uma aliança, não é claro que uma cerimônia formal de fazer juramento era absolutamente essencial ao estabelecimento de uma relação de aliança. Nem na aliança com Noé, nem com Davi, se menciona, de maneira explícita, a declaração de juramento no ponto histórico em que estas alianças foram feitas, embora a Escritura, subseqüentemente, mencione um juramento em associação a ambas (Gn 9; 2Sm 7; cf. Is 54.9; SI 89.34s). Na sua análise, agora clássica, dos elementos dos tratados de suserania hitita, George A. Mendenhall primeiro arrola os seis elementos básicos do tratado. A lista não inclui juramento. Mendenhall comenta: "Sabemos que outros fatores estavam envolvidos, porque a verificação do tratado não se dava pela simples minuta de uma forma escrita" ("Formas de Aliança na Tradição Israelita", O Arqueólogo Bíblico 17) ("Covenant Forms in israelite Tradilion", The Bíblica! Archeologisi 17 [1954]: 60s.). É nesta base que Mendenhall continua para introduzir o item sete na forma do tratado, que ele chama "o juramento formal". Todavia, ele mesmo se sente compelido a acrescentar: "... embora não tenhamos nenhuma luz sobre a sua forma e conteúdo". A Escritura sugeriria não meramente que a aliança contém, de modo geral, um juramento. Em vez disto, pode-se afirmar que uma aliança é um juramento. O compromisso da relação de aliança une as pessoas com uma solidariedade equivalente aos resultados alcançados por um processo formal de fazer juramento. O "juramento" capta tão adequadamente o relacionamento atingido pela "aliança" que os termos podem ser intercambiá-veis (cf. SI 89.3,34s; 105.8-10). O processo formalizante de fazer juramento pode ou não estar presente. Mas um compromisso com caráter de aliança resultará inevitavelmente em uma obrigação altamente solene.

A Natureza das Alianças Divinas 15

quão essencialmente o conceito de "cortar" veio a relacionar-se com a idéia de aliança nas Escrituras.

Este relacionamento de um processo de "cortar" com o estabelecimento de uma aliança manifesta-se por intermédio das línguas e culturas antigas do Oriente Médio. Não somente em Israel, mas em muitas culturas circunvizinhas o caráter obrigatório de uma aliança está relacionado com a terminologia de "cortar".15

Não somente a terminologia, mas o ritual comumente associado com o estabelecimento da aliança reflete, de maneira dramática, um processo de "cortar". Na medida em que se faz uma aliança, animais são "cortados" em cerimônia ritual. O exemplo mais claro deste procedimento nas Escrituras acha-se em Gênesis 15, no tempo em que foi feita a aliança abraâmica. Primeiro, Abraão divide uma série de animais e põe os pedaços, uns defronte dos outros. Então, uma representação simbólica de Deus passa entre os pedaços divididos dos animais. O resultado é o "fazer" ou "cortar" uma aliança.

Qual é a significação desta divisão de animais no momento de estabelecimento de aliança? Tanto a evidência bíblica quanto a extrabíblica combinam no sentido de confirmar significação específica para este ritual. A divisão do animal simboliza um "penhor de morte", no momento do compromisso da aliança. Os animais desmembrados representam a maldição que o autor do pacto invoca sobre si mesmo caso viole o compromisso que fez.

Esta interpretação encontra forte apoio nas palavras do profeta Jeremias. Quando ele recorda a deslealdade de Israel aos seus compromissos de aliança, lembra-lhes o ritual pelo qual eles "passaram entre as partes do bezerro" (Jr 34.18). Em virtude da sua transgressão, eles invocaram sobre si as maldições da aliança. Portanto, poderão esperar o desmembramento de seus próprios corpos. Suas carcaças "servirão de pasto às aves dos céus e aos animais da terra" (Jr 34.20).

É neste contexto de estabelecimento de aliança que a frase bíblica "cortar uma aliança" deve ser entendida.16 Integrante desta mesma termino-

15. Para uma apresentação completa da evidência extrabíblica, ver a obra de Dennis J. VfcCarthy, "Tratado e Aliança" (Treaty and Covenanl, Rome, 1963), pp. 52ss.

16. John Murray, em sua obra "A Aliança da Graça" (The Covenant ofCrace, Grand Rapíds, 1954), p. 16, n. 19, julga que a evidência para o entendimento desta frase como referindo-se ao corte ou partir de animais não corresponde a uma confirmação segura, embora reconheça que não parece haver outra explicação

14 O Cristo dos Pactos

Poderia se supor que a passagem do tempo diluiria a vividez da imagem contida na frase "cortar uma aliança". Todavia, a evidência de uma permanente consciência da plena importância da frase aparece em alguns dos mais antigos textos das Escrituras, tanto quanto em passagens associadas com o próprio fim da presença de Israel na terra da Palestina. O registro original do estabelecimento da aliança abraâmica, carregada como está com sinais internos de antigüidade, primeiro introduz ao leitor bíblico o conceito de "cortar uma aliança" (cf. Gn 15). E na outra extremidade da história de Israel, a advertência profética de Jeremias a Zedequias, no tempo do cerco de Jerusalém por Nabucodonosor, encrespa-se literalmente com alusões a uma teologia de "cortar a aliança" (cf. Jr 34).

Uma indicação adicional da permeante significação desta frase acha-se no fato de que ela se relaciona com todos os três dos tipos básicos de aliança. É empregada para descrever alianças estabelecidas pelo homem com o homem,1' alianças estabelecidas por Deus com o homem,12 e alianças estabelecidas pelo homem com Deus.13

Particularmente notável é o fato de que o verbo "cortar" pode ficar só e, ainda assim, significar claramente "cortar uma aliança".14 Este uso indica

- Gn 21.27,32; 2Sm 3.12,13.

12. Gn 15.18 (Abraâmico); Êx 24.8 e Dt 5.2 (Mosaico); 2Cr 21.7 e SI 89.3 (Davídico); Jr 31.31,33 e Ez 37.26 (novo). A frase não é usada em conexão com a aliança de Noé.

13. Essas relações de aliança iniciadas pelo homem com Deus deviam ser entendidas em um contexto de renovação de aliança. É somente na base de uma relação previamente existente que o homem pode ousar entrar em aliança com Deus. Cf. 2Rs 11.17; 23.3; 2Cr 29.10.

14. I Sm 1 1.1,2; 20.16; 22.8; I Rs 8.9; 2Cr 7.18; SI 105.9; Ag 2.5. Noth, op. cit., p. 111, não considera esta frase mais curta como contendo uma elipse na qual o termo "aliança" devesse ser suprido. Em lugar disto, ele propõe que a frase "cortar entre", como ocorre nessas passagens, seja considerada como uma "expressão particularmente antiga e original" servindo de equivalente lingüístico da frase "matar (um asno)", como se acha nos textos de Mari. Esta análise da frase corresponde à hipótese bastante elaboradamente desenvolvida de Noth segundo a qual o termo "aliança" deriva-se etimologicamente da palavra "entre", como antes se mencionou. De acordo com a sua construção, a frase "cortar entre" representaria uma forma bem mais antiga da frase, anterior ao tempo em que "entre" evoluiu para um uso nominal, exigindo assim a introdução de um segundo "entre", resultando daí que a frase seria lida em sua forma tornada mais familiar "cortar uma aliança entre". Noth não se aventura a explicar por que a frase toda "cortar uma aliança" apareceria nos textos mais antigos (i.e., Gn 1 5.18), ou por que a forma abreviada ocorreria ainda em textos pós-exílícos (i.e., Ag 2.5).

A Natureza das Alianças Divinas 17

O ponto máximo de confusão entre estes dois conceitos de "aliança" e "testamento" decorre do fato de que ambos, "aliança" e "testamento", relacionam-se com a "morte". A morte é essencial tanto para ativar o testamento e a disposição de última vontade, quanto para estabelecer uma aliança. Em virtude desta semelhança, os dois conceitos têm sido confundidos.

Entretanto, as duas idéias de aliança e testamento realmente divergem radicalmente em significação. A semelhança é somente formal em natureza. Tanto "aliança" quanto "testamento" relacionam-se estreitamente com a "morte". Mas a morte se posiciona em relação a cada um destes conceitos de duas maneiras muito diferentes.

No caso de uma "aliança", a morte está, no princípio da relação entre duas partes, simbolizando o fator maldição potencial na aliança. No caso de um "testamento", a morte está no fim da relação entre as duas partes, efetivando uma herança.

A morte do autor da aliança aparece em dois estágios distintos. Primeiro, aparece na forma de uma representação simbólica da maldição, pressupondo possível violação da aliança. Mais tarde, a parte que viola a aliança experimenta, realmente, a morte como conseqüência de seu compromisso anterior.

A morte do testador não aparece em dois estágios. Nenhuma representação simbólica de morte acompanha a elaboração de um testamento. O testador não morre como conseqüência da violação de seu testamento e disposição de última vontade.

As estipulações do "testamento e disposição de última vontade" presumem, inerentemente, ser a morte inevitável e todas as suas estipulações se constróem sobre este fato. Mas as estipulações de uma aliança oferecem as opções de vida ou morte. A representação da morte é essencial ao estabelecimento de uma aliança. O animal consagrante deve ser morto para produzir uma aliança. Mas não é de todo necessário que uma parte ligada à aliança realmente morra. Somente no evento de violação da aliança ocorre a morte real do autor da aliança.



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